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  • A força silenciosa da maturidade

    A força silenciosa da maturidade

             Há uma ideia muito difundida – e profundamente equivocada – de que a vida atinge um ápice e, depois, entra num planalto descendente. Vende-se a tese de que a fase mais fecunda está no início e que o restante se resume a administrar o passado. Um erro. Uma leitura pobre da existência. Reduz a vida a uma curva biológica, quando ela é, antes de tudo, uma construção espiritual e moral, feita de decisões, escolhas e fidelidade.

             A parábola dos talentos, do Evangelho, desmonta essa visão com clareza. Cristo não pergunta quando produzimos mais – se aos 20, 40 ou 60 anos. Pergunta se fizemos render os talentos recebidos. O ponto não é o tempo. É a resposta. Não é a idade. É a atitude. A vida não se mede por fases, mas pela fidelidade ao chamado, pela capacidade concreta de transformar dons em frutos, circunstâncias em oportunidades e limites em caminhos de crescimento.

             A maturidade não é redução da missão. É mudança de método. É inteligência aplicada à vida. É redefinição do modo de realizá-la. Há menos improviso e mais consistência. Menos ansiedade e mais direção. O que antes era disperso começa a ganhar unidade. O que era impulso se transforma em convicção. E o que era apenas desejo passa a se traduzir em decisões mais firmes e coerentes.

             Com os anos, o ritmo muda. A energia física exige ajustes. Troca-se o futebol pela academia. Substituir, sim. Eliminar, nunca. O corpo desacelera, mas a alma pode acelerar. Enquanto algumas forças diminuem, outras crescem com vigor: a liberdade interior se consolida, o discernimento amadurece, o olhar se amplia. Aprende-se a distinguir o essencial do acessório, o urgente do importante, o barulho do que realmente importa.

             A experiência reduz a ansiedade de quem acredita que tudo depende de si, de forma imediata. As crises deixam de ser incêndios e passam a ser processos. Aprende-se uma verdade libertadora: quando parece que tudo se perde, quase nada se perde. Falta, muitas vezes, perspectiva. E a maturidade entrega exatamente isso: profundidade de visão, capacidade de ler a realidade sem dramatizações, com mais objetividade e menos ruído emocional.

             Resumo da ópera: a vida não envelhece. Depura-se. E isso é uma vantagem extraordinária. O tempo, quando bem vivido, não desgasta – lapida. Corrige excessos, purifica intenções, forma caráter, consolida virtudes que não se improvisam. Há uma pedagogia silenciosa no passar dos anos que só produz efeito em quem aceita aprender.

             C.S. Lewis, sempre certeiro, observava que não existem pessoas “comuns”: cada vida é uma história única, com peso eterno. Cada vida é uma joia de Deus. E talvez possamos acrescentar: essa história não perde densidade com o tempo -ganha.

             A maturidade inaugura uma nova fecundidade. Mais silenciosa. Menos vistosa. Mas profundamente eficaz.

             Primeiro, a fecundidade das relações. Aprende-se – muitas vezes com erros – que pessoas não são problemas a resolver, mas mistérios a compreender. Aprende-se a escutar. A esperar. A não reagir impulsivamente. Ouvir bem é raro. E poderoso. Quem escuta constrói pontes. Quem reage, muitas vezes, apenas amplia distâncias.

             Segundo, a fecundidade formativa. A experiência, vivida com humildade, gera autoridade. Não é preciso falar muito. Basta ser. A coerência, o bom humor e a fidelidade comunicam mais do que discursos. As novas gerações não querem retórica. Querem testemunho. Querem ver consistência entre o que se diz e o que se vive.

             Terceiro, a fecundidade interior. Antes havia excesso de agenda. Agora pode haver mais sentido. A oração, o silêncio e a aceitação do que não depende de nós constroem uma força nova. Silenciosa, mas real. É o terreno onde nasce a paz. Não uma paz superficial, mas uma estabilidade interior que não oscila ao sabor das circunstâncias.

             Quarto, a fecundidade da presença. Em toda família e organização, há pessoas que sustentam o ambiente. Não criam ruído, criam estabilidade. Não buscam protagonismo, geram confiança. Isso é liderança em estado puro. Uma liderança que não se impõe, mas se reconhece.

             Claro: há riscos. Acomodação. Nostalgia paralisante. Crítica automática ao novo. A maturidade mal vivida vira álibi para a inércia. É quando o passado deixa de ser referência e passa a ser refúgio. E refúgio, quando absoluto, paralisa.

             Por isso, a pergunta decisiva: o que Deus espera de mim agora? A resposta exige lucidez e coragem. Não há espaço para autopiedade. Há espaço para responsabilidade. A vida continua pedindo resposta. E resposta concreta.

             Manter a vida aberta. Ampliar relações. Conservar a iniciativa. Cultivar a alegria. Não ceder ao cansaço moral. Não desistir de crescer. A maturidade não é licença para parar. É convocação para aprofundar.

             Há pessoas que se tornam pontos de apoio. Transmitem serenidade e esperança. Estruturam o ambiente sem impor presença. São silenciosamente decisivas. Não fazem alarde, mas fazem diferença.

             E voltamos ao essencial. Deus continua confiando. Continua entregando talentos. A maturidade não é o fim. É o momento da melhor resposta. É colheita – e novo plantio. É síntese – e recomeço. É, no fundo, a fase em que a vida, purificada, pode finalmente dar o melhor de si.

  • A arte e a cultura na educação dos filhos

    A arte e a cultura na educação dos filhos

             O contato com a arte e a cultura é essencial para qualquer pessoa, e deve começar na fase instrucional da criança. A falta de interesse de muitos pais por esses temas fará seus filhos se lamentarem mais tarde de que a falta gosto lhes atingiu porque seus pais agiram preguiçosamente nesses aspectos. Temas culturais e artísticos não são apenas extras na educação, porque fazem vivenciar experiências que unem conhecimento, emoção e realidade, tornam o processo de aprendizagem mais envolvente e significativo, entram em contato com tradições, histórias, valores e conhecimentos que ensinam a interpretar significados, analisar contextos e a refletir sobre questões sociais, políticas e históricas. Todos esses enfoques são fundamentais para potencializar as competências exigidas em qualquer atividade.

             Saber apreciar uma obra artística contribui para a construção da identidade: capacita para observar além das realidades cotidianas, torna a pessoa mais sensível e capaz de expressar suas emoções, estimula a imaginação e a criatividade, permite explorar ideias e desenvolver soluções originais para muitos problemas.

    Algumas iniciativas culturais para o desfrute familiar

             Não é necessário ser rico para estimular o encontro com a cultura ou admirar-se diante da multiforme capacidade dos artistas para transformar diferentes materiais em objetos plenos de beleza. Saber escolher o que é bom e belo pode ser realizado de diversas formas: selecionar bons vídeos culturais, artísticos e históricos e trocar impressões sobre eles; ir a encontros artísticos gratuitos em espaços públicos; visitar exposições e sites de museus; passear no campo ou parques para despertar o espírito de contemplação ao apreciar a natureza. A mãe de Gaudí, o grande arquiteto espanhol, levou seu filho desde criança para apreciar os campos, e o artista assimilou seus elementos e os colocou na famosa igreja da Sagrada Família, em Barcelona, onde as colunas do templo são como imensos caules de árvores segurando as abóbadas. Ao ouvir o canto dos pássaros e os infinitos seres que vivem junto às plantas, as crianças descobrem a beleza nas coisas simples, e não em imagens irreais das telas digitais.

             Cada família tem seu patrimônio cultural que deve ser transmitido às crianças por meio de fotografias, objetos de decoração que são lembranças de pessoas ou momentos vividos no passado, vídeos, gravações de viagens… Narrar a vida sacrificada e virtuosa de muitos familiares falecidos deixam marcas profundas e incentivam crianças e adultos a imitarem suas atitudes como uma marca ou tradição da família. As tertúlias ou bate-papo entre familiares e amigos podem abordar descontraidamente temas culturais e artísticos, narrar viagens ou prática esportiva, tocar instrumentos musicais… São momentos de forte imersão para todos, principalmente para as crianças e os adolescentes.

    Há muitos modos de fomentar nos filhos o amor à arte e à cultura:

    FILMES: o cinema pode se tornar uma metodologia simples e acessível para a educação dos sentimentos, nesta época em que impera a cultura da emoção e da imagem. Os enredos possibilitam o diálogo familiar diante de atitudes de personagens que tocam os afetos ao abordar aspectos essenciais da vida humana, ajudando a refletir como cada um conduz a própria vida. Os sentimentos, emoções e paixões não devem ser ignorados no processo educativo de adolescentes e jovens, e cabe aos pais e educadores servir-se da afetividade como porta de entrada para a compreensão da alma juvenil e seu universo atual.

    TEATRO: é expressão artística onde os atores apresentam histórias que despertam nos assistentes sentimentos variados e indagações que servem tanto para o conhecimento pessoal como para a vida, pois com seu forte realismo ganha-se experiência por meio de vidas alheias. O teatro ensina colaborar, escutar e trabalhar em grupo. As boas peças teatrais, mesmo em vídeos, nos colocam com diante do bem e do mal: noAuto da Compadecida aprendemos o que é um coração misericordioso; em Odisseia, de Homero, revela-se o valor da fidelidade, como a de Penélope e Ulisses; Macbeth, de Shakespeare, nos mostra como o desejo de poder pode levar uma pessoa a cometer loucuras; Hamlet traz à baila a tragédia de um príncipe que busca vingar a morte de seu pai, e essa densa narrativa de conflitos familiares, amores, loucura e sanidade desvenda até onde pode chegar a condição humana.

    PINTURA: apreciar pinturas pode parecer algo “simples”, mas na verdade traz várias vantagens emocionais e cognitivas. Há obras que despertam sentimentos profundos de calma, nostalgia, alegria e até inquietação, o que ajuda a entrar em contacto com as próprias emoções de forma mais consciente. Melhora a atenção aos detalhes ao treinar o cérebro a notar cores, formas, luz, sombras e composição. Essa observação refinada influencia a forma de ver o mundo no dia a dia. Certas obras fazem viajar no tempo ao abordar temas históricos, contextos sociais e ideias de diferentes épocas. A pintura estimula a criatividade ao ver como os artistas expressam suas ideias. Contemplar um quadro faz desacelerar, porque não é só “olhar”, mas interpretar, sentir e refletir. E quanto mais se aprecia essa arte, mais rica a experiência se torna.

    Como animar as crianças a visitar exposições de pintura? Entrar no site da galeria e selecionar junto com o filho, os quadros que ele mais gostou. Ao chegar no local, iniciar uma espécie de jogo de encontrar a obra, e perguntar à criança o que ela acrescentaria na pintura, a fim de que comece a se fixar nos detalhes. Mas não manifeste opinião negativa sobre o gosto da criança para não a desconcertar ou inibir.

    ESCULTURA é arte tridimensional: envolve altura, largura e profundidade. Transforma matéria bruta (pedra, madeira, ferro, bronze, mármore…) em significado estético, que leva o apreciador a admirar-se da capacidade criadora do artista de manejar instrumentos e dar “vida” a materiais inertes. Ao contrário da pintura, a escultura pode ser vista de vários ângulos e, em alguns casos, até tocada, o que cria uma relação mais física e imersiva com a obra. Esta arte carrega emoções e intenções do artista como dor, beleza, tensão, espiritualidade, e quem a observa pode até projetar os seus próprios sentimentos na obra. Muitas esculturas não são apenas decorativas, mas provocam ideias, questionamentos, debates sociais; podem trazer novas perspectivas sobre a vida, momentos históricos ou a condição humana. Frequentemente representam épocas, crenças ou figuras importantes, e fazem conectar-se com outras culturas. A escultura dialoga e transforma e embeleza o espaço público ou privado. O prazer de contemplar formas com equilíbrio e beleza é experiência que acalma, inspira e emociona.

    LIVROS DE LITERATURA enriquecem a nossa compreensão de mundo e abre a porta para realidades desconhecidas. “Sem a arte narrativa – e aí se enquadra o cinema – o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).

    As obras de qualidadepermitem sair do plano da vida cotidiana e imergir na trama de outras vidas. O amor pelos livros é forte antídoto para as crianças se verem livres do vício das telas digitais. Mas para isso, os pais devem se esforçar para ser bons leitores. Contos, romances e novelas oferecem muito mais à inteligência e à sensibilidade do que as longas horas deglutindo sucessivos programas de tv, desenhos, jogos eletrônicos e fotos em redes sociais. A leitura torna criativa a imaginação e desenvolve a inteligência para a compreensão de textos. Um excelente plano é ler para as crianças pequenas e visitar com elas livrarias, bibliotecas, feiras de livros, e deixá-las escolher um livro. Inscreva seu filho na biblioteca pública do bairro.

    POESIA: promover em casa a leitura dos grandes poetas é um grande recurso para amar a própria língua. Os poetas são os que melhor utilizam as palavras que, para eles, têm cor, cheiro, sabor, musicalidade. Com palavras bem pensadas e artisticamente colocadas, eles transmitem sentimentos e nos levam a expressar melhor o que sentimos, além de ensinar a utilizar os termos com mais precisão e concisão. Não se domina um idioma sem a leitura de seus poetas.

    MÚSICA: se os pais não desejam que as filhas pequenas cantem o que ouvem em exaustão nas mídias ou em pancadões em bairros da periferia – muitas vezes com letras ofensiva, mesmo que não entendam o que dizem –, e passem a imitar as danças sensuais que veem na TV, precisam introduzir as crianças ao que é estética e moralmente mais belo. Seja ao vivo ou em vídeos, promover para elas audições musicais de diferentes gêneros: Clássico, MPB, Samba, Frevo, Baião, Sertanejo, Blues, Jazz… Fugir da subcultura da moda, que vem causando grandes danos à sensibilidade estética.

             É tarefa dos pais promover um sadio ambiente cultural na família e ampliar a sensibilidade de todos diante das diferentes formas de beleza, dando eles o exemplo, pois “longo é o caminho com preceitos, mas breve e eficaz aquele com exemplos”, dizia Sêneca. Para isso, os pais podem contar com o apoio e sugestão de pessoas amigas e apaixonadas pela arte e cultura.

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  • Dar aos filhos um sentido de missão

    Dar aos filhos um sentido de missão

             Todos temos uma missão na vida. Os pais devem ajudar cada filho a descobrir a sua vocação, a fim de lhe dar um motivo grande para viver, não apenas sobreviver ou acumular bens (motivação extrínseca), mas ser feliz ao sair de si e ter um projeto de vida para servir aos demais com os próprios dons (motivação transcendente).

             Porém, o empobrecimento das relações familiares tem conduzido a conversas de curta duração e de pouco significado. Muitos pais se preocupam mais com o dinheiro para pagar as contas, do que abordar temas que configurem o caráter do filho e o ajude a desenvolver sua personalidade por meio de virtudes ou valores assumidos que esclareçam a inteligência e movam a vontade em direção a um ideal maior.

    O vício das telas digitais

             A geração atual de jovens cresceu sob a influência das telas digitais, utilizadas de forma desmedida para o entretenimento. Isso a faz padecer de inúmeros defeitos que os pais precisam diagnosticar e enfrentar com paciência e carinho, pois a escola não os substituirá nessa tarefa: falta de vontade, pouca resiliência diante das dificuldades, busca incessante de conforto e entretenimento, consumo de pornografia, atraso na maturidade, enfraquecimento da vontade e sobrevalorização dos sentimentos e emoções como regras de conduta, medo de arriscar-se, tendência ao imediatismo e ao resultado a curto prazo, fuga do silêncio necessário para o pensar com profundidade, incapacidade para ver além do óbvio, desprezo pelo trabalho e o estudo…

    Construir um ambiente familiar formativo

             O pouco tempo que a vida moderna permite aos pais conviver com cada filho deve ser um tempo de qualidade, não apenas de convivência sob o mesmo teto. Interessa criar no lar um ambiente que favoreça o estudo e fomente hábitos de trabalho como meio de crescimento pessoal, profissional e espiritual. Um ambiente de trabalho e estudo afasta distrações inúteis e fomenta metas altas, concretas, e ambições nobres. Por isso, é importante examinar se o próprio lar é formativo, ao tratar de questões profundas, ou se nele prevalecem temas supérfluos.

             Como construir um ambiente familiar que edifique a personalidade do filho e o ajude a concluir que o tempo não é interminável, mas algo que se esvai? Como conscientizá-lo de que o vício das telas digitais, que adquiriu, enfraquece seu caráter para abraçar projetos mais altos? Como ajudá-lo a desenvolver as virtudes necessárias para suas circunstâncias atuais e futuras responsabilidades familiares, profissionais, sociais e pessoais?

             Para construir um ambiente familiar formativo, os pais precisam ajudar cada filho a assumir valores ou modelos de conduta em direção ao bem e à verdade como atitudes próprias. Porém, transmitir valores não se restringe a dizer para não utilizar drogas, não acessar pornografia na internet, não namorar na adolescência, nem gastar o tempo em redes sociais ou games. Serão necessárias razões antropológicas que ajudem ao jovem a ter elementos para compreender sua dignidade, valor, identidade e lugar n mundo. Para isso, os pais podem ler, por exemplo, as razões humanas que Catecismo da Igreja Católica oferece na parte dedicada aos atos morais (o catecismo está disponível gratuitamente no site do Vaticano), selecionar no Youtube vídeos de orientadores familiares com doutrina segura acerca da pessoa humana, indo à  página “Boletins por temas”, no site staging.ariesteves.com.br/… Com isso, oferecerão a cada filho respostas esclarecedoras e convincentes sobre os interrogantes atuais, ajudando-o a formar a consciência e desenvolver o hábito da reflexão pessoal, tão necessário para cultivar convicções pessoais fortes e profundas para mover a vontade a agir em direção à verdade, ao bem e à beleza, e saber orientar outros amigos.

    Desenvolver as habilidades pessoais

             Ajudar cada filho a desenvolver a habilidade que nele se destaca − seja no campo da literatura, arte, esporte, religião, humanidades, saúde, ciência, tecnologia ou outro −, e ter um projeto de vida para se dedicar. Cada adolescentes possui uma competência ou aptidão especial, que talvez nem a perceba ou valorize. Cabe aos pais fazê-lo notar isso, se necessário ao trocar impressões entre si para diagnosticar a capacidade do filho, buscar conselho com professores, ler artigos ou ouvir palestras no Youtube de psicólogos e pedagogos sobre como identificar as aptidões do filho, além de animá-lo a preencher testes vocacionais gratuitos na internet, caso a dúvida ainda permaneça. Ver também nosso boletim: O adolescente e a escolha da profissão.

             Competência é um comportamento observável e habitual que facilita o êxito em alguma atividade ou função, e resulta de características inatas, conhecimentos, motivações e habilidades da pessoa (gosto é diferente de aptidão: posso gostar de futebol, mas não ter habilidade para praticar esse esporte).

             Certas profissões exigem inteligência relacional para entrosar-se com pessoas; outras, inteligência mecânica para destrinchar problemas práticos; algumas, inteligência abstrata dotada para estudos teóricos. Cada qualidade se manifesta no dia a dia da vida familiar: habilidade para consertar objetos; aptidão para ouvir, aconselhar e fazer amizades; talento para prever e organizar; liderança; capacidade de manter atenção e aprofundar nos assuntos, etc.

             Além da competência técnica, conhecida como habilidades difíceis (hard skills), as empresas valorizam hoje em dia os virtuosismos comportamentais ou habilidades sociais (soft skills). Os soft skills são mais subjetivos e requerem o desenvolvimento interpessoal como empatia, capacidade de ouvir, habilidades para comunicação, interagir positivamente em equipes, entre outras. A união das habilidades técnicas com os virtuosismos comportamentais faz cada filho se destacar em sua área de atuação.

             Para o desenvolvimento das habilidades sociais (soft skills), os pais devem observar como os filhos cuidam de seus objetos, como reagem às contrariedades, se são responsáveis ou preguiçosos, corajosos ou covardes, indiferentes ou preocupados com os demais, respeitosos ou grosseiros, serviçais ou egoístas. Depois, trata-se de ajudá-los a desenvolver as virtudes que lhes faltam, e que apoiarão os talentos e habilidades técnicas que possuem para melhor servir aos demais: generosidade, espírito de serviço, solidariedade, austeridade, responsabilidade, fortaleza, temperança, castidade e sinceridade. Essas virtudes devem ser desenvolvidas com mentalidade alegre e espírito esportivo e pronto para recomeçar após cada falha, vendo nas dificuldades um modo de treinamento das virtudes.

    Os pais e a qualidade do tempo que oferecem aos filhos

             A família é o ambiente mais próximo da pessoa e o primeiro âmbito para a formação integral: inteligência, vontade e afetividade (sentimentos, emoções e paixões). Nela se aprende que os verdadeiros valores não dependem de estados de ânimo ou da opinião pessoal, porque são guias e critérios de conduta que orientam para bens elevados e não mudam ao sabor das opiniões pessoais ou com o passar do tempo. Se alguém assume como valor a riqueza, o bem-estar, poder, divertimentos, ficará à mercê da instabilidade própria desses bens passageiros. Porém, se busca valores estáveis e permanentes como amizade, honra, fidelidade, solidariedade, Deus, verdade, família, servir com seus talentos, dará grande sentido à sua vida.

             Como foi afirmado no início deste texto, o pouco tempo que a vida moderna oferece aos pais para estar com os filhos, deve ser um tempo de qualidade, não apenas de convivência sob o mesmo teto. Por isso, fazer o filho perceber o que todos notam: que o vício das telas que adquiriu está desfigurando sua personalidade e projetando-o como alguém sem responsabilidade e ávido por frivolidades, e que impedirá sua inteligência e vontade de abraçar ideais mais elevados. O tempo não é interminável, mas algo que se esvai, e gastá-lo apenas em entretenimento é deixá-lo escorrer para o ralo. O melhor é utilizar o tempo para desenvolver a competência pessoal que possui e se preparar para a futura profissão.

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  • Educar o coração desde a infância

    Educar o coração desde a infância

             Os sentimentos formam-se sobretudo na infância, sendo os pais os principais responsáveis por ensinar a amar e a servir. A boa formação afetiva dos filhos depende de pais emocionalmente equilibrados, que sabem ser a educação dos filhos continuação do amor dos pais entre si, pois isso dá segurança às crianças, ajudando-as a crescerem felizes e prepararem-se para a vida. Educar bem os filhos começa desde cedo pela educação dos afetos (sentimentos, emoções, paixões). Crianças educadas com equilíbrio emocional enfrentam melhor as dificuldades da adolescência, juventude e maturidade, além de desenvolverem mais fortemente a inteligência e a vontade, pois sem a harmonia afetiva é mais difícil o desenvolvimento do espírito (inteligência e vontade).

              Os sentimentos não devem escapar ao controle da vontade, mas serem orientados por ela. Os afetos têm origem no coração humano e são um motor importante das ações, quando direcionados para o bem pela inteligência. Bem formados, os sentimentos incentivam comportamentos corretos e ajudam a evitar o mal ao apoiar o raciocínio na direção do bem. A vida moral não deve basear-se apenas nos sentimentos, mas também não deve ignorá-los. Os afetos devem ajudar o agir correto, sem dominar a razão. Os sentimentos dão força e entusiasmo às ações, enquanto a razão orienta e harmoniza essas emoções.

             As paixões não são más em si; pelo contrário, dão força para agir corretamente, quando bem orientadas. Em vez de suprimi-las, é necessário educá-las e direcioná-las para o amor a Deus e ao próximo. Assim, os pais devem ajudar os filhos a encontrar alegria em fazer o bem e servir, formando um coração equilibrado e virtuoso. Atribuir às crianças tarefas no lar, apropriadas à idade de cada uma, faz com elas cresçam em espírito de serviço, e comecem a compreender que o amor está em servir e não em ser servido. Por isso, os pais não devem substituir as crianças naquilo que elas conseguem fazer. A superproteção, que retira das crianças o que elas poderiam fazer, as torna individualistas e unicamente metidas em seus interesses, sem participar dos afazeres do lar e na ajuda aos pais e irmãos. As crianças gostam de colaborar com os pais e se sentem felizes ao fazerem isso.

             A formação da afetividade começa por ajudar os filhos a se conhecerem e a compreenderem seus sentimentos, a fim de equilibrá-los para reagir em proporção à realidade, sem darem notas dissonantes, ou exageradas . Isso inclui aceitar as situações que não podem ser mudadas, e confiar em Deus.

             Os pais devem dialogar com os filhos para os ajudar a entender e superar emoções como medo, irritação ou antipatias. A educação dos sentimentos também pode valer-se dos exemplos retirados da literatura, histórias e filmes que ensinam a reagir e a enfrentar corretamente as situações. Essas experiências ajudam a desenvolver emoções positivas, como compaixão, justiça, fortaleza, determinação e incentivam o desejo de viver de forma mais nobre e equilibrada. O contato com boas histórias ajuda a desenvolver o gosto estético e o sentido crítico, prevenindo a vulgaridade e a falta de pudor. Os pais devem ensinar os filhos a rejeitar ambientes que banalizam os sentimentos e empobrecem a sensibilidade.

             A educação da afetividade é mais ampla do que a educação da sexualidade, mas um ambiente familiar de confiança facilita o diálogo sobre o amor humano e ajuda a orientar corretamente essa dimensão da vida. (ver boletim Filhos: informação sexual, em staging.ariesteves.com.br/). A educação das emoções visa formar um coração capaz de amar a Deus e aos outros, com compreensão, perdão e espírito de sacrifício, sem contabilizar as obras de amor. Um ambiente familiar de amor, confiança e serenidade ajuda os filhos a crescerem com equilíbrio emocional, favorecendo sentimentos positivos e ensinando a lidar com os negativos de forma construtiva.

             É importante orientar o coração para o que realmente importa, sobretudo para Deus. Assim, ao ordenar e disciplinar os sentimentos, a pessoa torna-se mais livre para amar o que realmente interessa de forma profunda, plena e verdadeira.

             O coração é visto como o centro da pessoa, que precisa ser formado e orientado para o bem, afastando-o do egoísmo e do comodismo. Ao viver segundo o exemplo de Cristo, a pessoa amadurece afetivamente, tornando-se mais generosa e capaz de agir segundo a vontade de Deus. Mesmo diante de dificuldades, esse crescimento permite compreender e controlar melhor as emoções, encontrando apoio em Deus.

    Resumo do texto de J.M. Martín, J. Verdiá, em https://opusdei.org/pt-br/article/educar-o-coracao/ Imagem: ChatGPT. Veja também o nosso boletim “Educar o coração” https://staging.ariesteves.com.br/2023/02/educar-o-coracao/

  • Meu filho não é o anjo que eu imaginava!

    Meu filho não é o anjo que eu imaginava!

             Há um momento em que os pais atravessam uma espécie de decepção: a percepção de que o filho real não corresponde totalmente ao filho idealizado. Frases como “a sua filha não foi honesta” ou “o seu filho foi o provocador” podem variar, mas o impacto é semelhante. Mesmo quando se trata de erros pequenos — uma mentira, uma exclusão ou uma atitude cruel — algo se nos pais se quebra internamente. O filho não é um “monstro”, mas deixa de ser o “anjo” imaginado.

             O amor leva os pais a criar uma imagem ideal do filho: justo, generoso, corajoso. Durante a infância, essa visão suaviza os defeitos, interpretando-os de forma positiva. No entanto, com a chegada da pré-adolescência, a dimensão moral torna-se mais clara: já não são apenas atitudes inocentes, mas escolhas que afetam os outros.

             Imaginemos um pai que, após falar com o professor, descobre que o filho não foi vítima de um mal-entendido, mas sim o responsável por uma mentira que prejudicou um colega. Nesse momento, mais do que raiva, surge uma sensação de estranheza: “quem é este filho?”. O “menino doce” dá lugar a alguém capaz de ferir intencionalmente, sendo esse o duelo mais difícil: aceitar que o próprio filho pode magoar os outros de forma consciente.

    Dor pelo filho e pela ingenuidade dos pais

             Surge então um duplo sofrimento: pelo filho e pela própria ingenuidade dos pais. No fundo, não é tanto uma desilusão com o filho, mas com a imagem idealizada que os pais criaram. O que dói é ver cair essa visão perfeita. No entanto, educar exige realismo: os filhos não precisam de pais fascinados pelo encanto, mas de adultos capazes de encarar a verdade com equilíbrio. Aceitar que o filho tem falhas não é falta de amor, mas um ato de humildade. O papel dos pais não é defendê-lo sempre, mas ajudá-lo a assumir responsabilidades. Negar os erros pode parecer protetor, mas acaba por confundir, pois transmite a ideia de que a aparência vale mais do que o comportamento.

    Sem visão crítica não há reflexão, e sem reflexão não há mudança.

             A diferença entre o filho idealizado e o real costuma tornar-se evidente na escola, que funciona como o primeiro espelho social, sem o filtro do afeto familiar. É aí que a criança deixa de ser o centro e passa a ser apenas mais um entre os outros, e onde os seus erros ganham dimensão pública. Por isso, quando a escola aponta uma falha, não pretende atacar a família, mas mostrar uma realidade que o amor dos pais tende a suavizar.

             Na atual cultura de superproteção, a correção é muitas vezes vista como agressão. No entanto, proteger não é evitar todo o desconforto, mas ajudar a criança a lidar com ele. Perceber o erro não deve ser evitado, pois se trata de uma oportunidade essencial de aprendizagem. Se os pais “escondem” a realidade para evitar sofrimento, impedem o filho de compreender as consequências dos seus atos. Sem esse desconforto, não há reflexão nem crescimento.

             Um adolescente que burla dos outros não está condenado a ser cruel, mas precisa entender o impacto das suas ações. Uma criança que cola não está definida pela desonestidade, mas precisa aprender que a verdade é mais importante do que o resultado. O essencial não é a perfeição, mas o que se aprende após o erro.

    O erro é parte do processo de aprendizagem

             A filosofia moral lembra-nos que as virtudes não surgem espontaneamente, mas aprendem-se dentro de práticas e comunidades. Como explica Alasdair MacIntyre, ninguém se torna justo ou corajoso apenas por inclinação natural; o carácter forma-se através de hábitos e de padrões externos que orientam o comportamento. Assim, o erro não é algo estranho, mas parte do processo de aprendizagem. O filho não é “bom por natureza” nem está perdido por falhar: está em formação.

             Esse desenvolvimento não acontece isoladamente. Família e escola fazem parte da mesma “comunidade moral”. Estudos de Diana Baumrind mostram que os filhos se tornam mais autónomos e responsáveis quando crescem em ambientes que equilibram afeto e exigência. Não basta amar nem apenas impor regras: o essencial é a coerência entre ambos.

    Família e escola devem atuar em concordância

             Quando a escola corrige um comportamento e a família o desvaloriza, a mensagem torna-se confusa. Mas quando ambos atuam com clareza e equilíbrio, o jovem compreende que as suas ações têm consequências e que pode aprender com elas. Se o erro é tratado com realismo e serenidade, transmite-se ao filho uma ideia essencial: o seu valor não depende do seu comportamento imediato. Essa é a verdadeira forma de amor incondicional.

             Estudos sobre o ambiente escolar mostram que a colaboração entre famílias e professores reduz o bullying e aumenta o sentimento de pertença. Essa coerência não é apenas organizacional: é fundamental para a formação do jovem. Se o aluno percebe que os adultos se contradizem, aprende que as regras são relativas e que pode evitar responsabilidades. Mas, se há consistência entre família e escola, entende que os limites não são arbitrariedades, mas formas de cuidado e orientação.

    O limite como prova do amor incondicional

             Quando um filho erra e os pais não negam nem exageram a situação, mas a enfrentam com serenidade e continuam a amá-lo, transmite uma verdade fundamental: o seu valor não depende do seu comportamento. Esse é o verdadeiro amor incondicional. O filho não é amado por ser sempre correto, mas por ser quem é. E é precisamente por amor que os pais o corrigem, pois sabem que a felicidade não é compatível com a injustiça, a mentira ou o desrespeito pelos outros. Corrigir não significa retirar amor, mas exercê-lo de forma exigente.

             Aprender a lidar com os erros sem perder o afeto é profundamente formador. A criança percebe que pode reconhecer falhas sem perder o seu lugar e entende que o amor não desaparece com o erro, mas também não o ignora. Assim, o “pequeno duelo” dos pais — aceitar que o filho real não corresponde ao idealizado — não é uma derrota, mas o início de uma educação mais verdadeira. Só ao abandonar a ilusão de perfeição é possível acompanhar o crescimento moral do filho, que, com as suas imperfeições, é mais educável do que a versão idealizada.

    Resumo do artigo “El duelo de abrazar al hijo real”, de Maria Paz Montero Orphanopoulos, em ACEPRENSA https://www.aceprensa.com/familia/el-duelo-de-abrazar-al-hijo-real/. Resumo elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/

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  • Desejar saber ou saber desejar?

    Desejar saber ou saber desejar?

             “Desejar saber é uma primeira etapa, mas saber desejar é refinada atitude. Entre um e outro vai a distância do canibal ao gourmet”, disse Affonso Romano de Sant’Anna.

             A experiência avassaladora da hiperconectividade com seus vídeos, memes, notícias, esportes, publicidades, entretenimentos, parece não ter limites e desvia o olhar para se deter em algo muitas vezes não procurado, mas que veio por último e captou a atenção.

             Os algoritmos, que hoje decidem para muita gente o que consumir, se não forem adestrados com rédeas curtas ao clicar o “não tenho interesse nisso”, se tornam verdadeiros algozes e canibais que devoram o tempo com informações inúteis, diminuem a capacidade de pensar profundamente, fazem perder o foco para o que vale a pena e tornam a vida insubstancial. A curiosidade sem freio empequenece o coração e leva a viver na superfície das coisas.

             Saber o que desejar requer silêncio reflexivo para examinar as qualidades pessoais que todos carregam em si, e que são únicas, irrepetíveis, e devem ser desenvolvidas para servir aos demais, sejam elas técnicas, científicas ou artísticas. É na reflexão interior que nasce o verdadeiro conhecimento e a maturidade pessoal para transformar os algoritmos e a inteligência artificial em aliados do aperfeiçoamento pessoal.

             A verdadeira interioridade é moral e não conduz ao isolamento egoísta de quem se fecha nos próprios interesses, mas torna a pessoa capaz de acolher a verdade e transformá-la em ações que mudam a própria vida e a dos demais. As grandes obras da humanidade foram gestadas na interioridade e no silêncio reflexivo de pessoas como Louis Pasteur, Dante Alighieri, Miguel de Cervantes, Luís de Camões, Thomas Aquino, Fiódor Dostoievsky, William Shakespeare e tantos outros.

             Não precisamos ser gênios para fazer algo que vale a pena, mas ser protagonista da própria história e não se despersonalizar ao imitar o que os outros fazem. Não ser conformista é o recado que o Papa Francisco deu aos jovens ao dizer para não “balconear a vida”, ou seja, não observar a vida passar desde a varanda, mas descer na arena de combate.

             Cabe a cada pessoa a tarefa de ser autora e protagonista de sua própria história, produzindo uma obra única, irrepetível. Para isso, a maturidade pessoal deve alcançar equilíbrio nas três dimensões humanas: intelectual, ao buscar conhecimentos profundos e verdadeiros; sentimental ao orientar os afetos para não ser dominado por eles; social, para agir com espírito de serviço e afã de melhorar o mundo ao redor de si.

             Fugir da lei do menor esforço ao selecionar bons conteúdos digitais. Educar ou conduzir os algoritmos e não ser conduzidos por eles; fazê-los trabalhar para aproximar palestras, vídeos, filmes ou podcasts de expertos que podem ajudar no aperfeiçoamento das próprias habilidades.

             Todos necessitam de uma missão ou tarefa que dê sentido à vida. Desenhar um projeto que transforme as convicções em ações concretas, sem visar as motivações egoístas que buscam apenas o benefício pessoal, mas o serviço aos demais. Toda tarefa nobre envolve riscos e traz a possibilidade de fracasso. Mas quem não tentar algo se torna um fracassado antes de começar. Sem um projeto, a pessoa se desorienta e passa a viver apenas de pequenos prazeres. A crise atual de sentido nasce da falta de ideais e de valores.

             Elementos para realizar um projeto de vida: melhorar a si mesmo por meio das virtudes, saber o que desejar, ter entusiasmo e esperança, buscar conselho, estudar… O estudo, que amplia a formação e desenvolve o discernimento, não está apenas em adquirir conhecimento técnico, mas em compreender melhor o ser humano e o mundo ao redor, seja por meio da leitura de bons livros ou dos recursos digitais de qualidade disponíveis na internet. A estudo unicamente profissional forma pessoas competentes em uma área, mas com visão pobre sobre a vida, a família, o casamento, a religião, Deus, o bem comum. A técnica é útil, mas não responde às grandes interrogações da existência humana.

             O crescimento pessoal enfrenta obstáculos como falta de tempo, comodismo ou outras dificuldades, que devem ser enfrentadas com paciência. Essas dificuldades não devem paralisar o crescimento interior. Como recordava Escrivá de Balaguer, assim como as plantas crescem por dentro quando estão cobertas pela neve, também o ser humano pode aproveitar as dificuldades para fortalecer a vida interior. O importante não é fazer muitas coisas, mas dedicar-se às mais importantes.

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  • Cuidar-nos. Em busca do equilíbrio entre a autonomia e a vulnerabilidade

    Cuidar-nos. Em busca do equilíbrio entre a autonomia e a vulnerabilidade

             Em pleno século XXI e em tempos de inteligência artificial (IA), falar sobre o tema “cuidar-nos” parece algo de pouca relevância. Será que precisamos de outras pessoas para vivermos bem e sermos felizes? Será a inteligência artificial capaz de responder às necessidades do ser humano?

             Esses questionamentos me vêm à mente quando escuto relatos de pessoas que estão utilizando a IA como conselheiro de relacionamento, terapeuta e mesmo companhia para conversar. 

             Confesso que sinto certa perplexidade ao ouvir esse tipo de comentário. Por outro lado, a leitura desse livro trouxe reflexões sobre a importância das relações humanas e em especial sobre o cuidado.

             A autora inicia o tema com um relato de sua experiência pessoal como paciente. Aborda a dificuldade de aceitar a própria vulnerabilidade e como permitir-se ser cuidada fez toda a diferença em seu processo de convalescença. Ela faz uma provocação: “Será necessária uma lei que nos obrigue a cuidar uns dos outros ou seremos capazes de encontrar, dentro de nós mesmos, uma fonte ética natural que nos leve a servir aos demais?”.

             Isabel cita o filósofo espanhol Higinio Marin, na sua obra Mundus, onde o cuidado é abordado como uma dimensão essencial do ser humano. Precisamos uns dos outros para o florescimento pessoal. Ao permitir ser cuidado, a pessoa proporciona condições para que o outro desenvolva atitudes e competências novas para o seu desenvolvimento pessoal.

             O isolamento e a solidão estão nos levando a uma sobrecarga de sofrimento. A falta de sentido para a vida é um elemento que contribui para esse sofrimento. No processo de busca de sentido e de crescimento individual, a autora menciona a importância de reconhecer e aceitar a nossa própria vulnerabilidade, a nossa própria dor e a dor do outro.

             De forma didática, Isabel Sanchez descreve 6 dimensões sobre as quais podemos edificar a nossa melhor versão:

    1. Autonomia. Estar aberto aos questionamentos que os outros fazem. Importante as “colisões” de ideias nesse processo;
    2. Interdependência: Âmbito dos vínculos fortes e saudáveis. Relação de confiança com outras pessoas que leva a uma segurança pessoal. Está relacionada com empatia;
    3. Aceitação pessoal: Conhecer e aceitar nossos pontos fortes. Libertar-se das comparações angustiantes;
    4. Crescimento pessoal: Necessidade desenvolvimento contínuo, viver abertos a novas experiências. Olhar para nós mesmos requer coragem e honestidade;
    5. Viver com sentido: Não temos apenas uma história, mas somos uma biografia escrita a partir de escolhas livres;
    6. Saber criar ambientes seguros: Viver bem tem muito a ver com viver bem acompanhado.

             Será que a IA poderia oferecer o passo a passo, tipo checklist, de como alcançar essas 6 dimensões? Confesso que não tenho intimidade com a IA para fazer esse tipo de questionamento. Por outro lado, segundo relatórios da OMS, o cultivo das artes e das humanidades, o estudo da filosofia e da história, além de incidirem nas 6 dimensões, oferecem recursos para nos tornarmos cidadãos competentes e preparados, verdadeiros protagonistas na construção do nosso mundo.

             Vivemos em uma era na qual se valoriza o que fazemos — e, com maior intensidade, aquilo que pode ser mensurado. No entanto, quando falamos de relações humanas e em especial do amor, estes não se traduzem em fazer. “Amar é colocar-se a disposição, abrir-se. Amar é confiar e deixar que conheçam as suas misérias.  Para poder cuidar, é preciso conhecer. Ser amado é ser conhecido”

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  • Atividades de entretenimento em família

    Atividades de entretenimento em família

             O que faz uma família manter o hábito de atividades conjuntas de entretenimento? Não é nada fácil. Eu, por exemplo, gosto de filmes de ação, futebol e séries da National Geographic, minha esposa aprecia séries românticas dos streamings. Por sua vez, meus dois filhos não abrem mão de filmes da Marvel e DC, vídeos do YouTube e, obviamente, futebol. 

             É possível que uma programação atraia a todos nós e consigamos realizar coisas juntos? Certamente, é difícil isso acontecer de forma tal que todos se divirtam de forma autêntica. Quando isso se dá, parece quase um milagre. Idas ao parque, casa de amigos em comum, refeições em família em casa ou em bons restaurantes são boas pedidas. Mantenho a firme a convicção de pai de que quanto mais fazemos as atividades em conjunto, mais fortificado fica a família.

             Encontramos há pouco um jogo de tabuleiro chamado Hister que está fazendo o maior sucesso aqui em casa! O objetivo é simples, porém viciante: organizar as músicas em ordem cronológica na sua linha do tempo musical! Não somos uma família musical, porém a combinação de um jogo das antigas que envolve cartas com músicas do catálogo do Spotify acaba divertindo a todos!

             Outro sucesso que empolgou toda a família nestas férias foi o seriado Jovem Sheldon (Young Sheldon). Trata-se de uma série de televisão criada e produzida por Chuck LorreeBill Prady que estreou na CBS em 25 de setembro de 2017. A série é um Spin Off de Big Bang Theory e acompanha o genial Sheldon em sua infância e adolescência em que vive com sua família no Texas. O tema central do enredo mostra as agruras do convívio de um menino superdotado com sua “família normal” da década de 80. 

             Inicialmente você pode pensar que a série é sobre o pequeno Sheldon Cooper, o qual vai crescendo no decorrer da série, e as esquisitices de um gênio egocêntrico e incompreendido na infância. Todavia, no decorrer da série, você começa a perceber que os irmãos e os pais ganham relevância e toda a família desperta interesse. E as estratégias utilizadas por essa família normal para fazer o melhor pelo gênio da família constroem um enredo bastante envolvente.

             A irmã gêmea Missy, não herdou a genialidade de Sheldon. Porém, tem uma inteligência emocional gigante, vive intensamente como uma menina da sua idade e com o tempo aprende a conviver com o irmão gênio. O irmão mais velho Georgie é um típico adolescente da década de 80. Se arrisca em novas aventuras e não tem medo de nada. Sabe recuar e ter a humildade de pedir desculpas. A mãe, Mary, é uma pessoa bastante religiosa que conduz a família com sensibilidade e compreensão em relação a todos. Seu marido, George, é um técnico escolar de futebol americano que de maneira simples procura atender as necessidades de todos os familiares. Por fim, temos avó materna, figura debochada e liberal, que traz leveza e, de alguma forma, representa um ponto de equilíbrio no ambiente.

             Por que esse seriado funcionou tão bem em nosso contexto familiar? A título de esclarecimento, citamos a frase “é a economia, estúpido!”, cunhada em 1992 por James Carville, então estrategista de campanha do ex-presidente Bill Clinton. Tal frase tornou-se um mantra político mundial desde então para destacar a importância do desempenho econômico nas eleições. E, para explicar o sucesso de Jovem Sheldon que tão profundamente uniu nossa família, parafraseamos a citação de James Carville: “é a família, estúpido”.

             Lembro-me de quando meus filhos tinham 3 e 6 anos e estávamos com dificuldades de encontrar estes momentos. O professor Pablo me deu de presente o DVD do filme A Noviça Rebelde (The Sound of Music). Ele me disse que na sua infância, as músicas cantadas por junto às crianças e a conquista do coração do durão capitão Von Trapp (Cristopher Plummer) deram certo.  Tentei, imaginando que o filme estava ultrapassado e que não funcionaria… Para a minha surpresa, deu muito certo. Já vimos a Noviça Rebelde em família umas 20 vezes desde então. Todos concentrados no filme, ninguém distraído com celular ou outras telas…

             Acredito que é necessário ser feliz individualmente sempre. Por outro lado, conseguir em alguns momentos que o entretenimento e a felicidade sejam usufruídos em um grupo familiar representa uma grande vitória em nossas vidas. Assim, encerro essa reflexão, parafraseando James Carville novamente: “é a família, estúpido”.

  • As virtudes facilitam o agir

    As virtudes facilitam o agir

             Virtude vem do grego areté e do latim vis, que significa força. “As virtudes humanas ou morais são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e vontade que regulam nossos atos, ordenam nossas paixões e guiam nossas ações. Elas dão facilidade, domínio e alegria para levar uma vida moralmente boa, e são adquiridas mediante a prática de atos bons” (CIC 1804).

             Entre as virtudes humanas há quatro chamadas cardeais (palavra de origem latina que significa eixo, por exemplo, o eixo da fechadura que sustenta e faz girar a porta), porque todas as demais virtudes se agrupam em torno delas: prudência, justiça, fortaleza e temperança.

             A prudência é a virtude que ilumina a razão prática para discernir, nas diferentes circunstâncias, o verdadeiro bem e ajuda a escolher os meios adequados para realizá-lo.

             A justiça é a virtude moral que consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido.

             A fortaleza é a virtude moral que dá segurança nas dificuldades, firmeza e constância na procura do bem. Ela mantém a resolução de resistir às mas inclinações e a superar os obstáculos na vida moral. A virtude da fortaleza nos torna capazes de vencer o medo, inclusive o da morte, e a suportar provações e perseguições. Dispõe a pessoa a aceitar até a renúncia e o sacrifício de sua própria vida para defender uma causa justa, ensina o Catecismo da Igreja Católica, n 1808.

             A temperança, também conhecida por sobriedade, é a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados. Ela assegura o domínio da vontade sobre os instintos, paixões e sentimentos desordenados. A pessoa temperada orienta para o bem seus apetites sensíveis, e não se deixa arrastar por eles quando se desorbitam.

             Com respeito às virtudes humanas, afirma-se que in medio virtus: a virtude está no meio entre um defeito e um excesso. Por exemplo, a fortaleza está no meio, entre o defeito da covardia e do excesso da temeridade. In medio virtus não é uma chamada à mediocridade; não é o meio-termo entre dois ou mais vícios, mas a retidão da vontade que se dirige a um cume e se opõe aos abismos dos vícios.

             Algumas virtudes humanas: humildade, sinceridade, temperança, obediência, castidade, sobriedade (também na educação das crianças), pobreza; sinceridade conosco mesmos, com Deus e com os demais (ser pessoa de uma só peça); naturalidade ou coerência, sem ostentar ser o que não se é; laboriosidade, aproveitamento do tempo: “faz o que deves e está no que fazes”; diligência em acabar as coisas com perfeição e trabalhar bem e muito; ordem, pois sem ordem não há virtude: ela multiplica o tempo e permite trabalhar mais (ordem interior, nos pensamentos e afetos; e exterior, no horário, nas coisas materiais, etc).

             Outras virtudes: otimismo, visão positiva: sem fechar os olhos, ver o lado bom das coisas, pois “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus”. Rijeza faz perseverar no cumprimento do dever e não medir o valor de uma tarefa exclusivamente pelos benefícios que nos traz, mas pelo serviço que prestamos aos outros. Valentia: não ter nunca medo de nada nem de ninguém, pois somos filhos de um Pai Onipotente. Alegria, como parte integrante do caminho de quem procura servir aos demais (o egoísmo leva à tristeza). Audácia: não temer a realização de grandes ideais: sofrer e resistir para levá-lo a cabo. Lealdade, base da fidelidade, que é felicidade: lealdade com Deus e com os demais. Desprendimento das coisas materiais para estar livre das ataduras do consumismo e do bombardeamento publicitário que faz criar falsas necessidades; desprendimento dos nossos sentimentos quando nos levam a distanciarmos das pessoas, a criar antipatias, a isolar-nos em nossas coisas.

             Em conclusão, podemos afirmar que a virtude é um hábito, um comportamento estável adquirido por meio de atos bons e repetidos (os vícios se formam pela repetição de atos ruins). Conquistar uma virtude requer esforço, e uma vez adquirida torna-se mais fácil repetir seus atos, porque o hábito preserva a posição conquistada com o esforço das ações anteriores. A pessoa virtuosa faz o bem e sente prazer em fazê-lo: ou seja, o faz com satisfação.

             A força das virtudes reside na compreensão de que, ao agirmos bem em cada situação, passaremos a realizar esses atos com mais facilidade e prontamente, sem que para isso sejam necessários maiores raciocínios, pensar demais, pois passa-se a ter certa conaturalidade com o bem, e isso dá prontidão e facilidade à vontade para realizá-los.