Categoria: EDUCAÇÃO

  • Rotinas familiares dão segurança às crianças

    Rotinas familiares dão segurança às crianças

             As rotinas ou rituais familiares desempenham um papel fundamental no desenvolvimento saudável das crianças, pois oferecem estrutura, previsibilidade e segurança emocional num mundo que, para elas, ainda parece confuso e imprevisível.

             Em primeiro lugar, as rotinas ajudam a criança a sentir-se segura. Saber o que vai acontecer a seguir — a hora de acordar, comer, brincar ou dormir — reduz a ansiedade e aumenta a confiança. Essa previsibilidade cria um ambiente estável, essencial para o bem-estar emocional. O cérebro infantil aprecia rotinas, pois elas ajudam a criança a orientar-se no tempo e nas atividades, fazendo com que o mundo faça sentido.

             Além disso, as rotinas contribuem para o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade. Quando a criança participa dos hábitos diários, como arrumar os brinquedos, lavar as mãos antes das refeições, ajudar na reparação da mesa para as refeições ou preparar-se para dormir, aprende gradualmente a cuidar de si e a compreender regras e limites.

             Criar rotinas ou rituais familiares oferece estabilidade e paz no lar. Rituais simples como a hora do banho, do jantar e da história antes de dormir criam momentos de conexão emocional que se tornam verdadeiras âncoras na memória afetiva da criança. A experiência mostra que, anos depois, já adultos, os filhos recordam-se não de presentes caros ou viagens exóticas, mas dos rituais simples: as histórias antes de dormir, o bolo no lanche dos domingos, as conversas no carro a caminho da escola, as brincadeiras com os pais e irmãos.

             Alguns rituais diários têm um impacto profundo no emocional infantil. Antes de sair para a escola, por exemplo, um abraço de dez segundos acompanhado de uma frase de encorajamento liberta ocitocina, o hormônio da conexão, e ajuda a definir o tom emocional do dia. O ritual do jantar em família, sem televisão ou celulares, favorece o diálogo, ensina a ouvir e a ser ouvido e cria oportunidades para os pais partilharem como foi o seu dia, pois saber o que os pais fazem no trabalho desperta grande interesse na criança, a ponto de elas contarem isso à outras crianças.

             O ritual de dormir merece especial atenção, e deve seguir uma sequência previsível que sinalize ao cérebro que é hora de desacelerar: conversa sobre o dia, jantar, banho, pijama, escovar os dentes, contar uma história, oração de agradecimento e beijo de boa noite, sempre na mesma ordem e no mesmo horário. Isso não é rigidez, mas amor expresso em pequenos cuidados. Famílias que enfrentam conflitos constantes na hora de dormir se beneficiam enormemente quando implantam um ritual consistente, pois o cérebro da criança aprende rapidamente a transitar do estado de alerta para o de repouso e sono.

             Outro ritual poderoso é o da reconexão. Ao chegar do trabalho, antes de iniciar as tarefas domésticas, os pais podem dedicar cerca de 15 minutos de atenção exclusiva ao filho: deixar o celular de lado, sentar-se no chão, perguntar como foi o dia e escutar com presença verdadeira e brincar com a criança. Esses minutos previnem horas de birras e comportamentos desafiadores no fim do dia, pois a criança recebe aquilo de que mais precisa: a atenção dos pais.

             Os rituais também transmitem valores importantes. A oração antes do jantar ensina agradecer o dom de poder trabalhar para obter o sustento do lar; ajudar nas tarefas domésticas promove o cuidado e o pensar nos demais; visitar os avós reforça o respeito pelos mais velhos e a valorização da família. Assim, os rituais tornam-se parte da identidade familiar, criam sentido de pertença e constroem memórias compartilhadas que acompanham a criança até a vida adulta.

             É importante, contudo, que os rituais sejam realistas e sustentáveis. Um ritual simples e consistente é mais eficaz do que um complexo e difícil de manter. A consistência é mais importante do que a perfeição. Além disso, os rituais devem evoluir à medida que a criança cresce: o que funciona para uma criança de três anos não será adequado para um adolescente de quinze. O princípio, porém, permanece o mesmo: criar momentos previsíveis de conexão que comunicam “você é importante, é amado.”

             Outro aspeto relevante é o impacto das rotinas no desenvolvimento cognitivo e comportamental. Rotinas bem estabelecidas favorecem a concentração, facilitam a aprendizagem e ajudam a regular o comportamento, reduzindo birras e conflitos, especialmente nas transições entre atividades.

             As rotinas são também essenciais para a saúde física, sobretudo no que diz respeito ao sono e à alimentação. Horários regulares promovem um sono mais reparador, melhor digestão e níveis de energia mais equilibrados ao longo do dia.

             Por fim, é importante lembrar que as rotinas devem ser flexíveis e adaptadas à idade e às necessidades da criança. Não se trata de rigidez, mas de consistência aliada ao afeto, ao diálogo e à adaptação. Em resumo, as rotinas são uma base sólida para o crescimento equilibrado das crianças, ajudando-as a desenvolver segurança, autonomia, saúde emocional e competências essenciais para a vida.

             Leia também o boletim “A rotina na vida da criança”: https://staging.ariesteves.com.br/2021/02/a-rotina-na-vida-das-criancas/, de Ari Esteves.

  • Sem medo de dizer não ao filho

    Sem medo de dizer não ao filho

             Um tabu da educação contemporânea é o medo de dizer não às crianças pelo receio de que frustrá-las causará traumas irreparáveis. A criança ao não ter desenvolvida a sua racionalidade necessita da direção dos pais para salvar-se de escolhas que lhe causem mal. O “não” é um parâmetro ou coordenada que a criança tem o direito de ouvir para evitar a ocorrência de algum prejuízo para ela, é bússola para não ficar à deriva num mar de possibilidades traiçoeiras.

             Um filho precisa ouvir o não para aprender a lidar com as negativas. A frustração é essencial para o desenvolvimento emocional. Proteger a criança de toda frustração, remover os obstáculos do caminho dela e dizer sempre sim aos seus desejos, a tornará emocionalmente frágil e incapaz de lidar com os desafios inevitáveis da vida familiar, escolar e social. O cérebro infantil necessita aprender a tolerar a frustração para se desenvolver resiliência emocional, tal como um músculo que necessita ser exercitado para não definhar.

             Ceder após uma birra transmite à criança que sua manipulação emocional é estratégia válida: se gritar, chorar ou fazer escândalo, o “não” se transformará em sim! Ninguém gosta de ver o filho chorando e fazendo escândalo no meio do supermercado, mas é o momento de ensinar a ele a grande lição da vida: nem sempre conseguimos o que queremos, e isso não é o fim do mundo.

             Um não precisa ser dito de forma amorosa, firme e explicativa. O não amoroso não é agressivo, autoritário, mas claro e acompanhado de empatia. Se a criança de 5 anos cada vez que vai ao shopping pede um brinquedo novo, pode-se dizer: – “Entendo que você quer esse brinquedo, mas hoje não vamos comprar porque você tem muitos brinquedos em casa e precisa valorizar os que já tem. No seu aniversário poderá escolher outro brinquedo”. A resposta foi educativa ao compreender o desejo da criança, mas atender esse sentimento seria uma desordem, e por isso ouviu um não dito de forma firme, educada e esclarecedora. O não amoroso valida o emocional da criança ao procurar entender a chateação dela, por exemplo, porque foi impedida de ficar acordada até mais tarde, mas não aprova o comportamento dela e explica que crianças precisam dormir cedo para crescerem saudáveis e não criarem hábitos corrosivos.

             Adolescente que entra em colapso emocional porque recebeu nota baixa e pensa em desistir da escola; ou porque se desentendeu com alguém de suas relações e fala em suicídio; ao não entrar na faculdade desejada diz que a vida não tem mais sentido, age assim porque passou a infância sem que nada lhe fosse negado e não desenvolveu tolerância à frustração. Nunca aprendeu a mudar de direção para recomeçar e tocar a vida adiante dentro das próprias possibilidades.

             Um “não” dito a torto e a direito, sem critério ou de qualquer maneira, deve ser evitado, não porque causará traumas, mas porque cansará a criança e criará nela resistência natural a expressões do tipo “não faça isso!”, “não pode”, “não vou deixar. Ter presente que a criança ao entrar na fase de afirmar a identidade testará os limites dos pais para conseguir mais autonomia, e os “nãos” indiscriminados ativarão automaticamente a resistência dela. Para não desgastar a força educativa do “não”, sempre que possível reformule positivamente suas expressões: ao invés de dizer “não corra”, diga: “ande devagar aqui dentro”; em vez de dizer “não grite”, diga “fale mais suave”; em vez de “não bata no seu cãozinho”, diga: “mãos são para acariciar”. Assim, se diz a mesma coisa e o ”não” amoroso, empático e educativo manterá sua força positiva e medicinal.

  • Pais previsíveis, coerentes

    Pais previsíveis, coerentes

             Quando no lar não há regras ou elas mudam com frequência e ao sabor do humor dos pais, o cérebro da criança deixa de seguir padrões e entra em parafuso, pois deixa de entender a lógica de causa e efeito. É necessário previsibilidade para um desenvolvimento emocional sadio. Dizer ”não” hoje e “sim” amanhã sobre a mesma coisa, ou afirmar que haverá consequência para um comportamento desajustado e nada fazer quando este ocorre, desorganiza o sistema cerebral da criança, tal como ocorreria com um motorista numa cidade onde os semáforos funcionassem de forma aleatória, o vermelho por vezes significaria “siga em frente” e, noutras, “pare”.

             Coerência não é rigidez ou inflexibilidade, mas manter princípios claros e não ceder por cansaço ou pena: avisar a criança que não haverá sobremesa se rejeitar o almoço, a medida deve ser aplicada. Se o menino de 8 anos é agressivo, quebra as coisas, bate nos irmãos e desrespeita os pais, é porque não lhe foram estabelecidas consequências, ou não foram cumpridas. Afirmar ao garoto que ficará sem o videogame, e depois de meia hora de choro ceder ou dizer que não irão ao parque se não se comportar bem, e depois ir porque sentiram pena, o resultado é que cérebro da criança passará a concluir que as palavras dos pais não têm valor, que suas ameaças são vazias, que se insistir o suficiente eles cedem.

             Se os pais agirem com coerência serão mais consistentes e haverá para o cérebro infantil um mapa confiável para transitar, e a criança passará a compreender que as palavras dos pais são válidas, pois sempre cumprem o que dizem.

  • O amor de doação torna feliz a pessoa

    O amor de doação torna feliz a pessoa

             Não nascemos para viver isolados e preocupados apenas com o nosso umbigo. O que mais custa ao homem moderno é desprender-se do próprio tempo para oferecê-lo aos outros, porque não compreende que felicidade não combina com o egoísmo, e que a liberdade humana se degrada ao se fechar em si mesma, tapando os olhos às carências materiais e espirituais das pessoas ao redor. O valor do dinheiro não pode tornar-se um bem absoluto ou principal da vida. Tal apego ofusca o olhar e o impede de reconhecer as necessidades dos outros. Nada é mais nocivo para uma pessoa ou comunidade do que ser ofuscada pelo ídolo da riqueza. Se há caridade, que é carinho humano e sobrenatural, torna-se mais fácil perceber as necessidades dos demais.

             Ser generoso quando se espera retribuição é fácil. Mas, o egoísta não é verdadeiramente feliz porque nunca está satisfeito com o que possui, e deseja sempre mais: diz o ditado “tem mais quem precisa de menos”. A solidariedade, porém, é a capacidade de compreender o sofrimento dos demais, e agir para minimizar essas dores ou dificuldades, ao dar seu tempo aos demais.

    A verdadeira atenção não é assistencialismo

             Quais necessidades vejo no meu entorno: família, trabalho, vizinhos, escola, associação, etc.? Como poderia contribuir para ajudar aos demais? Há muita carência material e espiritual em todos os lugares, e para resolver isso não servem retóricas, mas arregaçar as mangas e pôr em prática a fé através de um envolvimento direto e não delegado a outros. “Nenhuma expressão de carinho, nem mesmo a menor delas, será esquecida, especialmente se dirigida a quem se encontra na dor, sozinho, necessitado como estava o Senhor naquela hora” (Papa Leão XIV, Exortação Apostólica Dilexi te). Todos podemos ter gestos concretos de afeto para com os mais necessitados, sabendo ver em cada um o próprio Jesus na Gruta de Belém.

             A verdadeira atenção não é assistencialismo, mas doação sincera de tempo, reconhecendo como irmãos aquele que necessita de ajuda. O problema não está no dinheiro em si, mas na preocupação com os que sofrem, em ensinar, em aproximar os bens da saúde, do trabalho e da cultura àqueles que estão distantes deles… Ninguém pode eximir-se da responsabilidade pela justiça social, pois a miséria resulta da injustiça, da exploração e de uma lógica centrada apenas no lucro, que desumaniza e gera novas formas de escravidão.

    A solidão é uma forma de pobreza

             A “pobreza libertadora” é escolha consciente pelo essencial e fuga do supérfluo, capaz de libertar das ansiedades e da falsa riqueza. Há necessidade não apenas de ajuda material, mas de amor verdadeiro e gratuito. Há pessoas materialmente resolvidas, mas que estão só, necessitadas de amor, companhia e compreensão.

             São João Crisóstomo e São Paulo ensinam que a pobreza de Cristo nos torna ricos, pois a verdadeira riqueza está no amor, na justiça, na santificação e na vida partilhada. Seguir a Cristo implica assumir esta pobreza por amor, partilhar a própria vida e o pão com os mais necessitados, para libertar os pobres da miséria e os ricos da vaidade, restaurando a dignidade humana.

    Educar para a generosidade

             A educação para a generosidade deve ser ensinada às crianças desde as primeiras idades, ao serem estimuladas a realizarem tarefas ou encargos não apenas para si, mas de interesse de todos no lar, e adaptadas à idade e à capacidade de cada uma. As crianças se tornam sensíveis e conscientes de suas obrigações, movidas pelo desejo de servir. Chegará um momento em que não será necessário pedir a elas para ajudar, pois fará tudo por vontade própria.

             Ajudar os filhos a perceberem seus hábitos egoístas: meus jogos, minhas coisas, meus planos, meu esporte, meus vídeos, meu, meu, meu. Mostrar satisfação ao observar que o filho teve atitude compreensiva em relação a outra pessoa, ou desaprová-lo se foi insensível. Estimular os adolescentes a organizar atividades de formação humana, social ou cultural àqueles que necessitam, contando com a ajuda de seus amigos. Incentivar os filhos, desde pequenos, a doarem a crianças carentes, brinquedos em bom estado que já não utilizam mais; ir junto com eles a asilos ou orfanatos.

    Ter ânsias de servir com os dons pessoais

             Todo adolescente sonha alto e tem pensamentos de aventura, de triunfo! Canalizar essa força para fazer o bem a tantas pessoas necessitadas, fomentando neles ambições nobres ao serviço dos demais. Um livro de leitura agradável, e que aborda a preocupação que um garoto de 7 anos tinha pelos demais é “O pequeno lorde”, da escritora inglesa Frances Hodgson Burnett, traduzido para o português.

             Aspirar a algo valioso dá sentido à própria existência. Ter um ideal nobre já na adolescência faz aproveitar melhor o tempo. Por isso, ajudar os filhos a descobrirem suas aptidões e habilidades artísticas, técnicas ou científicas, não para motivações egoístas, mas para servir aos demais. Quando um ideal nobre se apodera de um jovem, seus desejos, afetos e ações são canalizados para motivações transcendentes, não egoístas, e com isso ele descobrirá a felicidade, porque o amor verdadeiro não está em receber, mas em doar-se. Pesquisar na internet vídeos e podcasts sobre como descobrir as aptidões dos filhos adolescentes, e incentivá-los a aproveitar melhor o tempo, não com divertimentos frívolos, mas aprofundando-se naquele tema com o qual melhor poderá servir aos demais, e que certamente será o de sua futura profissão.

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  • Converse com seu filho sobre festas, álcool e drogas

    Converse com seu filho sobre festas, álcool e drogas

             Diversões noturnas, álcool e drogas preocupam cada vez mais os pais. Sobre esses temas é preferível prevenir com anos de antecedência do que tentar resolver o problema um dia depois de acontecer. Não pensar que ainda é cedo para abordar tais assuntos. Educar é manter diálogos serenos, afetuosos, abertos e adaptados à idade de cada filho, a fim de oferecer razões profundas que esclareçam a inteligência e estabeleçam limites firmes.

             Há pais que procuram controlar os filhos, mas logo comprovam que isso não é educar, sendo que o mais eficaz é transmitir verdades e valores para que os filhos tomem decisões por si mesmos. Não controle, mas diga algo como: -“Estou aqui para te apoiar, não para te vigiar”. Quem cultivou a confiança com os filhos desde a infância, o diálogo na adolescência é natural.

    Saídas para festas

             Discussões sobre saídas nos fins de semana podem se tornar batalhas. Não se surpreender ao surgirem conflitos de obediência na adolescência, pois são anos em que se forma de modo especial o caráter e se firma a própria personalidade e maior independência: quem na adolescência não deu trabalho aos pais?

             Não é fácil encontrar argumentos convincentes para dialogar sobre a hora de regressar para casa, local e quem estará na festa, enviar mensagem ao chegar ali, pedir para ligar a qualquer momento se precisarem e manter o celular com bateria… Como garantir que essa conversa não seja um interrogatório, mas diálogo?

             Falar com o filho sobre modos de se divertir requer tempo e paciência. É importante manter diálogo aberto, calmo, afetuoso e inteligente para ajudar cada filho a crescer em valores para administrar positivamente sua liberdade. Antes de permitir que os filhos saiam para festas, há algumas conversas essenciais que podem garantir a segurança e a confiança mútuas. Fazer perceber que os direitos vão acompanhados dos deveres correspondentes, e que a permissão para saídas futuras dependerá da responsabilidade demonstrada no presente. Reforce a ideia de que a confiança se constrói com honestidade e respeito às regras combinadas.

    Consequências do uso de álcool e drogas

             A descarga de desinformação sobre seu filho é enorme e vem por todos os lados. Em seis meses muitas coisas mudam acerca desses temas. Os pais devem atualizar-se ao ler e acompanhar palestras sobre esses assuntos na internet, pois há bons educadores abordando com seriedade e profundidade tais temas.

             Regras claras sobre álcool e drogas devem ser explicadas de forma direta e de acordo com a idade de cada filho. Deixe claro que não deve consumir álcool se for menor de idade; e se já atingiu a maior idade, fale da necessidade de viver a virtude da temperança ao ficar em um só chope ou cerveja, e que ao não repetir a dose fortalecerá a vontade para não se deixar levar por forças instintivas. A temperança é virtude que atrai ao demonstrar maturidade e autocontrole, e esse exemplo ajudará também os amigos a serem sóbrios. Explique como agir se alguém alcoolizado discutir de forma agressiva e não aceitar pressão para comportamentos inadequados, pois ninguém deve ser pressionado a beber, fumar ou a fazer algo que não quer. Ensine frases simples para dizer “não”:- “Agradeço, mas isso não me agrada”.

             Fale de modo simples como álcool e drogas afetam a saúde, o comportamento e os objetivos pessoais, e ouça o que o seu filho pensa sobre isso. Demonstre com exemplos as consequências para a saúde e para a família sobre o uso de álcool ou drogas. Para a saúde corporal diga que prejudica a concentração, memória e raciocínio; afeta o sistema nervoso; compromete o coração e o fígado e rapidamente criam dependências porque o cérebro passa a necessitar mais e mais dessas substâncias, tornando difícil abandoná-las. Efeitos no comportamento também ocorrem: enfraquecem a vontade, pois a descarga de dopamina (neurotransmissor cerebral que provoca prazer para certas ações), provocada pelos vícios, faz perder o gosto por ideais ou atividades que requerem esforço (estudar, trabalhar, praticar esporte, levar adiante ideais de serviço aos demais); reduzem a capacidade de pensar com clareza, provocam comportamentos impulsivos e arriscados; promovem mudanças bruscas de humor, irritabilidade e tristeza sem motivos aparentes; aumentam os conflitos com familiares e amigos, além de promover o isolamento e a queda no desempenho escolar, profissional e social.

    Diferença entre regras negociadas e simplesmente dizer “não”

             Nenhuma palavra, gesto de carinho e esforço orientado à educação dos filhos deixará da dar frutos: tempo quantitativo no lar é feito de presença; tempo qualitativo são os momentos de intimidade que ajudam a criar harmonia e abordar temas profundos de forma descontraída.         

             Os adolescentes reclamam mais liberdade, mas é preciso ensinar-lhes a geri-la com equilíbrio e responsabilidade. Não os privar da autonomia, mas dar motivos para agir com inteligência. Partilhe a sua perspectiva: quando os pais revelam as próprias preocupações de forma transparente, a conversa torna-se mais equilibrada e humana. Explique o porquê de suas perguntas, pois os filhos colaboram quando entendem o motivo: – “Quero saber quem vai estar com você, porque sua segurança é importante para mim”, e dê espaço para falarem sem interrompê-los.

             Algumas atitudes fazem toda a diferença: adote um tom calmo e curioso, não acusatório. Mostre interesse: – “Como você se sente em relação à festa?”, ao invés de “Com quem você vai, onde e a que horas?”. Faça perguntas abertas: – “O que pode ser mais desafiador nessa festa?”. Valide sentimentos e opiniões, mesmo que não concorde, reconheça: – “Percebo que você quer mais independência. Vamos tentar encontrar um equilíbrio”. Fugir da retórica do “sermão”, que é pouco eficaz. Evite listas de regras e prefira acordos em conjunto, pois aumentam o sentido de responsabilidade e confiança. Reforce as boas condutas com elogio e reconhecimento.

    Conhecer melhor as amizades e os ambientes frequentados pelos filhos

             A conhecida frase “somos a média das cinco pessoas com quem mais convivemos”, é uma metáfora muito usada para lembrar que o ambiente e as relações influenciam profundamente nossos comportamentos, escolhas e valores. Embora não seja regra matemática, a ideia faz sentido porque as pessoas com quem mais convivemos moldam a nossa forma de pensar, agir e motivar-se. A frase ajuda a refletir sobre o impacto que as pessoas com quem convivemos têm sobre nós, e nos incentiva a fazer escolhas mais conscientes em relação às amizades.

                      A construção da identidade faz o adolescente buscar a autoafirmação e ser mais independente da influência familiar. Os grupos definem padrões e o que consideram “normal” é rapidamente aceito, seja para estudar ou vadiar. A necessidade de pertença e o medo de ficar de fora pressionam para que imitem comportamentos. Que tipo de influências você quer para a vida do seu filho? Influências que ensinem a ser resiliente, que desenvolvam o gosto pelo estudo e esporte, que ajudem a aproveitar bem o tempo e fortaleça a vontade para abraçar ideais grandes, que estimulem hábitos de reflexão pessoal e o domínio sobre os sentimentos e paixões por meio de virtudes.

             As companhias criam hábitos, atitudes e valores, moldam a linguagem e unificam opiniões ao funcionar como um espelho que podem ajudar ou confundir de forma profunda, mais do que os pais imaginam, porque crianças e adolescentes desejam ser aceitos pelos grupos, e estes podem favorecer ou dificultar comportamentos saudáveis, dependendo do tipo de influenciadores que há neles: de grupos saudáveis absorverão a fé; o gosto pelo estudo e por temas culturais, científicos e de atualidade; serão incentivados a praticar esportes e atividades sociais. De grupos tóxicos absorverão inseguranças, comportamentos viciosos, falta de gosto pelo estudo, perdas de tempo, busca pelo prazer constante e fuga do esforço por alcançar ideais maiores, faltas de respeito pelos pais e figuras de autoridade.

             Mantenha convivência regular com as famílias dos amigos de seu filho, e troque ideias com elas sobre os locais que os filhos frequentam para ir pouco a pouco conhecendo esses ambientes. Convidar cada amigo do filho para almoçar em casa, a fim de conhecê-lo melhor; planeje atividades juntos nos fins de semana e férias.

             Pessoas que mais influenciam seus filhos: pais, parentes próximos e treinadores continuam a ser referências emocionais, morais e comportamentais; irmãos partilham rotinas, brincadeiras e podem ser modelos positivos ou negativos; amigos da escola geralmente são os que mais influenciam comportamentos, linguagem e gostos, especialmente na adolescência; colegas de atividades extracurriculares como esporte, música, academia, viagens podem ter influências positivas ou negativas; influenciadores digitais e criadores de conteúdo têm influência real no humor, opiniões, hábitos e aspirações, mesmo sem a presença real.

    Dica importante: dar aos filhos pouco dinheiro

             Mantenha os filhos com pouco dinheiro e mostre quão difícil é ganhá-lo, assim não inventarão modas e não serão dominados pela lógica do consumo que fomenta hábitos individualistas. Aos filhos curtos de dinheiro não lhes passa pela cabeça desejar material esportivo caro, roupas da moda, eletrônicos de última geração. Há garotos que na escola compram doce, sanduiche e o refrigerante que desejam, e todas as vezes que o quiserem. Já as crianças curtas de dinheiro valorizam o pouco que possuem e passam a ser comedidas em seus desejos, o que as faz crescer em sobriedade, autodomínio e na ciência de saber esperar. Hoje em dia é fácil que os jovens trabalhem nas férias e ganhem dinheiro: animá-los a isso, não para financiar suas diversões, mas para contribuir com as necessidades familiares e ajudar em atividades sociais.

             A indústria da diversão utiliza meios degradantes de cooptação: apelo sensual, consumo de álcool, vício do jogo, velocidade, lazeres e equipamentos caros, locais badalados… O lazer criativo é mais enriquecedor e faz contemplar a beleza por meio de atividades simples como excursões na natureza, visita a parques e exposições culturais e artísticas, bons vídeos e leituras. Educar os filhos para o lazer e melhor aproveitamento do tempo é um desafio para os pais, mas que será muito frutuoso. Não desistir desse esforço e empenho, que agradam a Deus e redundam em bem para os filhos. A educação faz parte da tarefa que Deus confiou aos pais e ninguém os pode substituir nisso. Vale a pena enfrentar essa tarefa com valentia, bom humor e com um otimismo cheio de esperança.

             Os jovens são idealistas e capazes de se entusiasmar. João Paulo II, na XV Jornada Mundial da Juventude, dizia que Cristo ama a cada um de nós de um modo pessoal e único na vida concreta de cada dia: na família, entre os amigos, no estudo, no trabalho, no descanso e na diversão. E acrescentava que a nossa sociedade consumista e hedonista tem necessidade urgente de um testemunho de disponibilidade e sacrifício pelos outros: os jovens necessitam de Cristo mais do que nunca, afirmava o Papa, porque são tentados frequentemente pela ilusão de uma vida fácil e cômoda, pela droga e o hedonismo, que conduzem depois à espiral do desespero, do sem sentido, da violência.

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  • Dizer não e estabelecer limites aos filhos

    Dizer não e estabelecer limites aos filhos

             Os filhos necessitam de limites, porque por trás de cada criança desafiadora, que testa os pais, existe um pedido silencioso de orientação, já que limites não são castigos, mas expressões de amor que oferecem à criança um território seguro para crescer emocionalmente e não se perder num mundo que ainda não sabe manejar. Ignorar os sinais de desrespeito e rebeldia ao pensar que “é normal para a idade”, cria adolescentes e jovens inseguros e incapazes de lidar com os demais respeitosamente.

             A seguir, estão os ensinamentos de Marian Rojas Estapé, psiquiatra espanhola (1).

             Um filho que responde com brusquidão ou desdém, e os pais, cansados, deixam passar, reforçam o padrão perigoso no qual a criança acredita que pode falar assim com todos, sem consequências. Isso corrói pouco a pouco a autoridade e o emocional familiar e se transforma em hábitos de desobediência e falta de respeito que se estenderá a qualquer figura de autoridade.

             Permitir o desrespeito cria rachaduras nos alicerces da família e enfraquece a estrutura emocional e ética da criança, já que os limites ensinam que amar é cuidar as palavras, gestos e atitudes. Toda fala inadequada deve ser enfrentada e não ignorada, porque é sempre um pedido de limite que aproxima o filho dos pais ao mostrar o caminho certo.

    A manipulação infantil

             Os filhos aprendem rapidamente que se os comportamentos negativos trazem resultados, não por maldade, mas porque o cérebro busca recompensas, manterão a conduta. Chorar, gritar e comparar os pais com outros são modos de manipular emocionalmente para conseguir algo e, caso consiga, o cérebro registrará esse padrão e o repetirá.

             A manipulação infantil assume formas como a doce chantagem emocional, o drama exagerado, os discursos ilógicos, os desafios diretos, geralmente em momentos em que a mãe ou o pai está exausto, pronto para dizer “sim” pelo cansaço. Isso ensina ao filho que se o insistir ou dramatizar funcionam, deve ser repetido no futuro. O lar é um palco de aprendizagem: se diante do escândalo alguém cede, a criança conclui que exagerar funciona; se o adulto se assusta diante de ameaças, a criança aprende que o medo do adulto lhe dá poder.

             Não se educa apenas com palavras, mas com a forma de responder às emoções do filho: a manipulação premiada tende a se repetir, mas se encontra limites firmes, calmos e serenos, perde força. Quando o filho tenta manipular e o adulto mantém a calma, oferece contenção e ensina a lidar com a frustração e a saber esperar. Trata-se de um processo difícil, lento e por vezes doloroso, mas que prepara os filhos para a vida real, onde chefes e amigos não cederão aos dramas e chantagens.

    Estabelecer limites

             Muitos pais evitam impor limites por receio de afastar o filho, mas acontece o contrário: a ausência de limite gera insegurança por desorientação, enquanto dizer “só até aqui”, de modo calmo, mas firme, provoca inicialmente raiva na criança, mas depois ela se sentirá segura porque foi indicado o espaço para agir. Se a criança desafia constantemente e ninguém a detém, aprende que amar é suportar os caprichos dela sem consequências, o que certamente a levará repetir esse padrão às amizades, à futura namorada, aos colegas de trabalho e professores, acreditando que pode desrespeitar aos demais porque nunca lhe foi ensinado o contrário.

             Os limites são como corrimãos: não tiram liberdade e evitam quedas. Quem não aprende a lidar com a frustração interpreta os limites como rejeição e contrariedades como humilhação, atitudes que nenhum pai deseja para seus filhos. Limite é amor que salva e educa, mesmo que os filhos relutem temporariamente em aceitá-los, mas logo compreenderão o motivo.

             Não premiar o drama dos filhos com atenção excessiva. Às vezes o pai ou a mãe não cede ao pedido, mas oferece uma hora de atenção exclusiva, e a criança aprende que o escândalo garante seu protagonismo. Por isso, é necessário manter o limite e reduzir o espetáculo. Os esforços da criança em aceitar um “não” devem ser recompensados com palavras estimulantes, pois o cérebro aprende também pelo reforço positivo. Dói aos pais ouvirem frases como “você não me ama”, mas amar não é satisfazer pedidos, mas sustentar o que é justo mesmo quando a criança não goste. Colocar limite não endurece o coração, refina-o e ensina que valor está em construir, que liberdade exige responsabilidade, que carinho verdadeiro não se negocia com chantagem.

    Não se sentir culpado por estabelecer limites

             Pais que se sentem culpados ao estabelecer limites e com isso cedem, explicam demais e compensam com permissões, confundem a criança. Por isso, como sinal de maturidade devem libertar-se desse tipo de sentimentos. Amor sem limite vira permissivíssimo; limite sem amor vira autoritarismo. O equilíbrio é a chave. Os filhos aprendem mais pelos gestos do que pelas palavras: se os pais pedem respeito, mas são agressivos, ensinam agressividade; se pedem paciência, mas se irritam, ensinam impaciência; se pedem autocontrole, mas se desequilibram, ensinam descontrole. Porém, quando demonstram serenidade, firmeza carinhosa e autoridade sem autoritarismo, ensinam que não se pode ter tudo. Com isso, o respeito e admiração por pais coerentes crescem na criança.

    As crianças testam os limites

             O limite só funciona quando é estável e permanente: ser firme hoje e permissivo amanhã transforma a reclamação em ferramenta. Crianças testam os limites porque procuram saber até onde o mundo é seguro, não por rebeldia, mas para saber se o adulto vacilará e, se vacilar, a criança não se sentirá vitoriosa, mas perdida. Filhos que parecem “mandar” são inseguros e desejam adultos fortes, que sustentam o que dizem e aguentam tempestades emocionais. Por isso, quando os limites são consistentes, o comportamento melhora por segurança, não por coincidência, já que um “não” firme dito com amor traz cooperação e tranquilidade.

             Um filho não precisa de pais perfeitos, mas previsíveis, que fazem o que dizem, acolhem sem se dobrar, ouvem sem serem dominados por emoções. Um dia, esses pais ouvirão o filho pedir desculpa espontaneamente, autocontrolar-se e crescer em maturidade. E tudo foi construído com pequenas ações diárias que moldaram o mapa emocional do filho. Sustentar os limites com amor oferece herança vital: a capacidade de lidar com o mundo sem quebrar-se nem manipular os demais.

             A confiança nasce quando os pais são previsíveis, coerentes e estáveis emocionalmente, permitindo ao filho sentir que, mesmo nos piores dias, o pai ou a mãe são referência. Com isso, os gritos diminuem, as manipulações perdem força, os conflitos encurtam e as conversas se aprofundam. Assim, o filho aprende a expressar emoções sem agressão, a respeitar limites como proteção, assumir responsabilidades e amar com maturidade. No futuro, os pais verão que aquele filho que bateu portas e manipulou tornou-se um adulto sereno e seguro porque eles tiveram coragem de não ceder ao primeiro grito, e sustentaram os limites, mesmo quando doeu; e porque souberam distinguir amor e permissividade. A educação é um ato de coragem e entrega, e os filhos não recordarão os “nãos” que receberam, mas a presença firme, justa e amorosa que construiu o seu caráter.

    Saber dizer não

             Alguns pontos são essenciais: dizer sempre um “não” inteiro, sem ironia ou gritos, e que não vire um “está bem, só desta vez”, nem se dilui em explicações intermináveis por parte dos pais, como quem quer se desculpar por exigir o que é correto. O controle emocional do adulto está em respirar, baixar o tom de voz e adiar a conversa para um horário combinado, caso a turbulência tenda a crescer, e depois, cumprir com o adiamento. Assim, os adultos da casa mostrarão segurança e coerência, especialmente se os pais são separados, porque incoerência alimenta a manipulação.

             Pais firmes criam filhos estáveis, seguros e empáticos. A educação faz crescer pais e filhos juntos, e quando o limite é claro e explicado antecipadamente, a criança aprende a relação entre ação e consequência, enquanto punições impulsivas apenas ferem, envergonham e confundem. Educar exige coragem dos pais para dizer “não”, enfrentar conflitos e aceitar a dor da frustração como parte do crescimento de ambos, e desenvolve nos filhos maior segurança e consciência.

    A frustração da criança faz parte do processo educativo

             A tempestade emocional provocada pela criança não é fracasso dos pais, mas ocorre porque o filho está reorganização seu cérebro ao perceber que tentar repetir padrões anteriores já não funciona: se o adulto não cede e espera a emoção do filho baixar, vence a manipulação; depois, com calma, explicará brevemente o que não foi correto e encerrará o assunto, evitando discursos longos durante o caos.

             Com o tempo, o padrão do filho mudará ao aceitar as negativas sem colapsar, e proporá alternativas ou dirá simplesmente “tá bom, entendi”, e os pais perceberão que valeu a pena sustentar o limite, que transformou o lar num lugar firme e grato. O limite fecha brechas utilizadas para pressionar. No início provocará desconforto, mas ensinará a sustentar a frustração de forma madura, crescer em resiliência, em capacidade de esperar e maturidade emocional, essenciais porque a vida fora do lar irá frustrar repetidamente.

    Reagir com serenidade diante dos gritos dos filhos é educativo

             A forma como os pais reagem às emoções do filho ensina a este o modo de reagir às próprias emoções: se cada explosão gera explosão, o filho aprende que conflitos são guerras; se cada grito recebe um grito maior, aprende que vence quem faz maior barulho; se cada perda de controle da criança provoca perda de controle do adulto, aprende que controlar sentimentos é impossível. Porém, se o adulto permanece equilibrado, transmite a poderosa lição de que a emoção pode ser forte, mas podemos ser maiores que ela.

             Educar exige ação diária, mesmo diante de cansaços e dúvidas, porque o futuro de cada filho depende da presença firme, dos limites constantes e do amor que acolhe e protege. Nesse caminhar não há manual perfeito, mas consciência, coragem e disposição para aprender sempre, pois quando os pais crescem, o filho cresce junto; quando os pais melhoram, o lar melhora, e quando educam com amor firme, muitos bens se irradiarão dessa família.

  • Dialogar e não monologar com o adolescente

    Dialogar e não monologar com o adolescente

             Como tem sido sua experiência ao tentar conversar com seu filho? Pais reclamam que seu filho, antes comunicativo, passou a ser silencioso, monossilábico e com frases entrecortadas. Já os filhos se justificam ao afirmar que seus pais não deixam falar e logo começam com sermões, fazem afirmações que revelam não prestar atenção aos que eles dizem, disparam afirmações dogmáticas, traem a confiança deles ao expor uma confidência que fez, utilizam tom de voz e trejeitos julgadores e incriminatórios, só falam do que lhes interessa, ordenam e criticam e não deixam espaço para os filhos expressarem seus pensamentos e sentimentos.

    O que fazer quando o diálogo parece impossível?

             O verdadeiro diálogo tem equilíbrio: um fala e o outro ouve com verdadeiro interesse em compreender. Há pais sem sintonia com o filho e desconhecem suas preferências artísticas e culturais (músicas, vídeos, filmes…), assuntos técnicos ou científicos que aprecia…Os pais devem dar o primeiro passo para iniciar uma conversação grata, com temas que interessam ao filho: jogo de futebol que participou, o videogame preferido, músicas que aprecia, o ídolo que admira, o instrumento musical que almeja aprender a tocar… Mostrem interesse quando ele fala com palavras que demonstrem atenção ao que diz: “entendo”, “que bom”, “puxa, interessante!”, “verdade!”, “fico feliz em saber disso”, “compreendo o que você está me dizendo”. Não há pressa em querer falar, a ponto de cortar a fala dele. Ouçam de forma passiva, sem emitir juízos ou interromper a fala dele. Nunca se escandalizem com o que ele diz, e não lancem um torpedo do tipo “eu não falei; bem que avisei!”, mas dizer “acho que isso tem solução”, “nada acontece sem que Deus permita”, “a gente ganha experiência com nossos erros”… Evitar discussões ou atitudes de ataque e defesa que fazem ambos os lados se fecharem no orgulho.

             O verdadeiro diálogo constrói pontes entre mentalidades diferentes, ao dar a conhecer a própria opinião com transparência, sem esconder o que se pensa para evitar conflitos, pois essa falsa atitude tornaria superficial convivência. O diálogo com o adolescente não deve ser professoral, mas testemunhal.As pessoas hoje dão mais importância ao testemunho pessoal do que ao tom professoral, do tipo “você precisa fazer isso”; “você tem que…”. O Papa Paulo VI disse que «o homem contemporâneo escuta com mais vontade aqueles que dão testemunho do que aqueles que ensinam», e continuava: «Se escutam os que ensinam, é porque eles dão testemunho».

    Adolescentes não querem ser tratados como crianças

             Os adolescentes querem ser tratados não como crianças, mas como adultos, e são muito sensíveis ao modo como são abordados pelos pais: um tom de voz paternalista ou autoritário lança por terra a tentativa de manter uma conversa. Falem descontraidamente com ele, e deem poucos conselhos, e só os mais importantes e necessários para não aborrecer com muitas indicações, que acabam perdendo força. Seu filho se abrirá ao não se sentir coagido a compartilhar sua intimidade. Não façam perguntas fechadas que podem ser respondidas com um “sim” ou “não”, mas abertas, a fim de saber o que pensa sobre um assunto e fomentar o diálogo: –“Que acha dessa notícia que saiu na imprensa?”.

    Considerem seu filho digno de confiança; mostrem que vocês confiam nele ao pedir favores e dando-lhe privilégios: ajudar na educação do irmão menor, cuidar de certas gestões familiares (ir ao banco, pagar contas…), pois isso aumentará sua autoestima. Peçam a opinião dele sobre os projetos familiares e como solucionar determinada situação… Elogiem não só os mais novos, pois os adolescentes precisam de alento para se sentirem considerados.

    A conversa com adolescentes deve chegar a ideias e não a fatos concretos, pois as ideias conduzem a ações práticas. Não critiquem o amigo dele, pois ele o defenderá com ardor, mas conversem com ele sobre o que pensa ser uma verdadeira amizade, e aproveite uma boa história literária (por exemplo, Pinóquio, de Carlo Collodi), e deixe-o concluir sozinho que o verdadeiro amigo está junto também nas horas amargas, os colegas só para se divertirem juntos e os cumplices para sugerir coisas erradas. Não dar sermões ou aconselhar desde uma cátedra e em tom professoral, mas conversar, ouvir, perguntar e deixar que concluam as coisas.

             A verdadeira comunicação é uma estrada de duas mãos: falar com o filho é dialogar com ele; falar para o filho é monologar e não deixá-lo falar. Diálogos não restritos às notas escolares, questões polêmicas como festas, excesso de telas digitais e celulares, que podem ser deixadas para o momento em que estiverem bem-dispostos para conversar.

             É muito humano iniciar uma conversa com temas simples, permeada de risos, pois fomenta a amizade: músicas que apreciam, a classificação do time de futebol preferido, como gostam de descansar… A conversa corriqueira age como gravetos que alimentam a fogueira para abordar temas mais profundos. Essa conversa é provocada não com perguntas fechadas que podem ser respondidas com “sim” ou “não”, mas aberta para provocar o diálogo e compreender como ele pensa: – Que acha dessa notícia que saiu na imprensa? Aproveitem os instantes juntos no carro e coloquem muita atenção ao que dizem, pois comentários descontraídos revelam o que há no coração e abrem horizontes educativos. Deixar de abordar temas mais profundos indicaria um clima familiar carente de objetivos e que não alcança valores mais altos: Deus, ideais de servir, escolha da profissão, aproveitamento do tempo, desenvolver as habilidades pessoais para melhor servir aos demais…

             Nas conversas sinceras há espaço para discordar sem que isso abale o trato mútuo. A amizade não depende de esconder o que se pensa, porque necessita da autenticidade, desde que demonstrada com respeito e carinho. Num diálogo, quanto mais fiel for cada pessoa à sua consciência, mais autêntica será a unidade entre elas. Ser fiel às próprias convicções não impede a convivência, pelo contrário, faz crescer o respeito mútuo. Uma boa conversa leva à troca de sentimentos, ideias e experiências, e não apenas temas superficiais só para matar o tempo. Uma boa conversa leva pais e filhos abrirem a alma, porque se compreendem, sabem ouvir e não temem falar de temas profundos, como projetos pessoais, dificuldades, valores, fé, drogas, sexualidade.

    Mudanças de interesse e identidade

             Como você lida com as mudanças no modo de vestir, falar ou se divertir de seu filho? Consegue enxergar isso como parte natural da formação da identidade? Um adolescente não quer ser tratado como criança, mas como adulto. A maturidade é um tema importante, ligado à personalidade, ao modo estável de se relacionar consigo próprio, com os demais, e com o mundo. É natural no homem a autonomia, a independência, e deve ser educado para isso. Não prender os filhos em casa. É importante desenvolver a autonomia desde a infância, ao não fazer pelo filho aquilo que ele pode fazer sozinho.

    Há pais e mães inseguros em tornar seus filhos independentes, pois os querem como eternas crianças fofinhas e engraçadas. Com isso, acabam substituindo os filhos em tudo o que eles deveriam fazer sozinhos, e os tornam moles, preguiçosos e sempre dependentes de que os demais façam tudo por eles. Pais que não querem ver o filho deixar de ser criança educam mal. Já se disse que à supermãe ou ao superpai corresponde um infrafilho, sem capacidade de voar por si só.

             As dicas aqui expostas servem não apenas para o diálogo com os adolescentes, mas também com os amigos e colegas do trabalho e das relações sociais.

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  • As narrativas e a transmissão de valores

    As narrativas e a transmissão de valores

             Um modo de adquirir ou transmitir valores e modelos de conduta encontra-se nas narrativas: histórias familiares, contos, romances… Contar histórias é melhor do que discursos teóricos para a configuração da personalidade humana e conhecimento do bem e do mal, porque a experiência narrativa oferece à inteligência valores ou antivalores concretizados em modelos a imitar ou a evitar. É muito humano ter modelos, mas é preciso não errar na escolha para não construir sobre bases falsas que originam fracassos.

             Mesmo em época de crise de valores, como a atual, encontramos na família, nas relações profissionais e sociais indivíduos que personificam um ideal de excelência humana com sua vida edificante: casais que completam 30, 40 ou 50 anos de união transmitem valor de fidelidade; colegas de trabalho que não aceitam subornos revelam-se como modelos de honestidade; lares generosos e abertos à geração de filhos mostram ser a família um valor fundamental; pessoas que sacrificam sua comodidade nos fins de semana para ajudar em ONGs ou entidades de apoio aos necessitados transmitem desprendimento próprio e a alegria em servir…

             A literatura também oferece muitas obras repleta de valores: “Odisseia”, de Homero, mostra a fidelidade entre Ulisses e Penélope; MacBeth, de Shakespeare, revela o antivalor da ambição e até onde pode chegar a paixão pelo poder; Pinóchio, de Carlo Collodi, revela o que são as falsas amizades e como a mentira destrói o corpo e a alma. Modelo maior de valores assumidos e de virtudes vividas é Jesus Cristo: basta ler sua biografia, que são os quatro Evangelhos, para se sentir convidado a imitá-Lo.

             Em nossa época impera a cultura da imagem e da emoção, o que torna o cinema um grande recurso para a transmissão de valores e educação dos sentimentos. Os bons enredos apresentam cenas onde personagens vivenciam aspectos essenciais da vida humana, facilitando o conhecimento do bem e do mal ao apresentar valores (fidelidade, fortaleza, resiliência), ou antivalores (covardia, traição, falsidades). Os bons filmes propiciam ocasiões excelentes para manter diálogos significativos com os filhos: “O último samurai”, um canto à honra e ao serviço”, “O resgate do soldado Ryan”, entre tantos outros (o site https://pablogonzalezblasco.com.br comenta vários e excelentes filmes e livros).

             Educar em boa parte é transmitir os valores. Um valor não necessita ser enfiado goela abaixo, porque ele se impõe pela carga de verdade que possui, e que tanto esclarece a inteligência e fortalece a vontade, sendo assumido por decisão própria. A pergunta sobre os valores ou modelos que escolhemos tem sentido porque direcionamos a nossa vida por eles. Há quem age por valores de utilidade primária (comer, beber, se divertir, beleza física, fama, poder, dinheiro); outros, por valores transcendentais que visam servir a Deus e aos demais. Atualmente, muitos adolescentes se massificam ao imitar youtubers de sucesso e com pouco valor moral a transmitir. Examinar os valores que regem a própria vida e os que se deseja para os filhos é necessário para não construir sobre bases falsas que originam fracassos.

  • A escravidão da aprovação: a serenidade perdida

    A escravidão da aprovação: a serenidade perdida

             A vida pessoal virou espetáculo. Redes sociais substituíram relacionamentos reais. Likes tornaram-se sinônimos de valor. Seguidores são, para muitos, símbolo de relevância. Mas, por trás da tela iluminada, cresce o número de pessoas consumidas pela ansiedade, reféns da opinião alheia.

             Pessoalmente – e até por dever de ofício – estou nas redes sociais. Reconheço seu valor inestimável. As redes globalizaram o conhecimento, aproximaram culturas, abriram vias importantes para o exercício da liberdade. Mas, ao mesmo tempo, vislumbro seus riscos. A obsessão por aprovação está adoecendo a alma. Gente que acorda e dorme checando o celular. Que mede o próprio valor pela repercussão de uma postagem. Que ajusta o discurso para agradar à audiência. Que teme ser “cancelada”. A liberdade virou refém da aceitação. A consciência foi terceirizada para o tribunal instável da opinião pública digital.

             A dependência dos seguidores – e a busca incessante por mais deles – é uma armadilha sutil. Não se trata apenas de vaidade ou marketing pessoal. Trata-se de uma erosão da identidade. Quando alguém passa a moldar sua vida para ser agradado, perde o eixo. Vive em função do aplauso. E, inevitavelmente, se torna escravo.

             A crítica alheia, que antes fazia parte do convívio social normal, virou fonte de desespero. Um comentário negativo pode arruinar o dia. Um post ignorado vira motivo de frustração. O medo de parecer inadequado paralisa. A exposição constante criou uma cultura de comparação permanente. E quem vive se comparando, vive em guerra com a própria realidade.

             Essa dinâmica doentia não é apenas um problema psicológico. É também – e sobretudo -um drama espiritual. A ausência de uma referência superior, de um sentido transcendente, de uma rocha firme sobre a qual construir a vida, deixou o indivíduo vulnerável. A alma sem Deus é campo fértil para a insegurança crônica.

             A tecnologia, bem usada, é uma aliada. Mas o uso atual, impulsivo e emocional, tem servido para inflar egos frágeis e encobrir vazios existenciais. O celular é um confessionário moderno – mas um confessionário invertido. Nele, não se busca perdão, mas validação. Não se encontra misericórdia, mas julgamento. E esse tribunal é volúvel, impiedoso e superficial.

             A raiz de muitos distúrbios modernos está nesse olhar invertido: o indivíduo vive voltado para fora, esperando dos outros o que só Deus pode oferecer. Espera acolhimento, valor, amor e sentido de quem também está perdido. É a fome de infinito tentando saciar-se com migalhas digitais.

             Contra essa cultura da performance, é urgente redescobrir o silêncio, a interioridade, a verdade. E, sobretudo, reencontrar o abandono em Deus.

             Abandonar-se em Deus não é alienação. É libertação. É descansar na certeza de que somos amados por Aquele que não muda. É deixar de correr atrás de aplausos para viver com autenticidade. É romper com a ditadura da aparência para viver na liberdade da verdade.

             A fé cristã oferece esse caminho de equilíbrio. O olhar de Deus, ao contrário do olhar do mundo, não é instável. Não se baseia em números, curtidas ou algoritmos. Deus nos vê como filhos. E quem se sabe filho, amado gratuitamente, não precisa desesperadamente provar nada a ninguém.

             A ansiedade, alimentada pelo excesso de estímulos e pela insegurança existencial, encontra alívio não em fórmulas mágicas, mas na confiança. Uma confiança sólida, não emocional. Uma confiança que nasce do conhecimento de Deus e do conhecimento de si mesmo.

             Santa Teresa d’Ávila resumiu isso com clareza: “Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa. Deus não muda. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta.”. Essa é uma resposta possível – e urgente – ao mal-estar moderno.

             Mas essa entrega não é automática. Ela exige decisão. Exige romper com a lógica do mundo. Exige aceitar a impopularidade. Exige silêncio interior. Exige oração.

             Quem vive da imagem acaba vazio. Quem vive da verdade, ainda que incompreendido, permanece em pé. A rocha não é a aprovação pública. A rocha é Deus. E só quem constrói sobre Ele pode resistir às tempestades.

             O excesso de conectividade está nos tornando desconectados de nós mesmos. A superexposição está matando a intimidade. A necessidade constante de aplauso está minando a liberdade. E a única saída está em voltar à fonte: Deus.

             Não se trata de desprezar a crítica. Ela é, muitas vezes, necessária e formativa. Mas trata-se de não permitir que a crítica ou o elogio se tornem senhores da alma. Quando Deus é o centro, os demais julgamentos perdem o poder de nos destruir.

             Há uma liberdade profunda em ser visto por Deus. Uma liberdade que o mundo não conhece. É essa liberdade que permite viver sem medo do olhar dos outros. É essa liberdade que sustenta, que equilibra, que serena.

             A serenidade não é fruto de uma vida sem problemas. É fruto de uma alma ancorada. Uma alma que sabe em quem confia. Uma alma que não vive em função de curtidas, mas da verdade.

             É hora de voltar ao essencial. É hora de desligar um pouco a tela e abrir a alma. É hora de reconhecer que a vida não cabe numa postagem. É hora de reencontrar a paz que só o abandono em Deus pode dar.

  • Educar para ser: visão integral da pessoa

    Educar para ser: visão integral da pessoa

             Todos temos necessidade de nos conhecermos, e dar unidade ou integrar as inclinações, afetos, inteligência, vontade e relações. Essa unidade se constrói pela assimilação das experiências e da formação recebidas. As rupturas que surgem nessa unidade resultam de falhas de integração: se há harmonia e integração na interioridade, as decisões, ações e relações alcançam o seu sentido mais profundo.

    O lugar dos sentimentos

             Essa integração começa por entender o papel das inclinações e dos sentimentos: as inclinações representam a forma (necessidades e desejos) de nos relacionarmos com o mundo e as pessoas; os sentimentos revelam o modo de julgarmos essas relações (como algo agradável ou desagradável, favorável ou desfavorável).

             Cada sentimento é apreciação concreta de uma realidade e o modo da subjetividade se comunicar com ela: como afeta e o que significa para a pessoa que sente. Cada sentimento deve ser interpretado e avaliado para ser ou não aceito como motivo da ação. Ele indica em que situação se encontra a subjetividade, como e por que determinada realidade o provoca, que ressonâncias o desperta e que existe na pessoa que favorece tal reação afetiva.

             Compreender o que ocorre na subjetividade pessoal e na dos outros ajuda a entender melhor os sentimentos e o alcance deles, a fim de orientá-los e transformá-los em contribuição para o crescimento pessoal e moral. É ineficaz rejeitar um sentimento simplesmente com uma verdade geral ou um dever, pois significaria contrapor a afetividade à razão e à vontade, e se passaria a encarar os afetos como um obstáculo ao cumprimento das obrigações, e que devem ser ignorados, conduzindo à insensibilidade e à aridez interior. Por outro lado, justificar a ação – correta ou não – com base em um sentimento, leva ao desequilíbrio, desencanto e à perda de sentido da própria vida, dada à inconstâncias dos estados afetivos.

    O Lugar do Entendimento

             A falta de capacidade para interpretar e purificar os próprios sentimentos deixa que eles permaneçam em estado embrionário, sem ajustes ou integração. O amadurecimento pessoal exige a compreensão dos sentimentos, que por não serem racionais, podem levar ao engano, exagerando ou minimizando a realidade. Conhecer a vida de pessoas que souberam integrar ou harmonizar seus sentimentos (espelhos objetivos), seja na convivência com outros ou através da literatura e filmes, colhe-se experiencias enriquecedoras, que ajudam a compreender a verdade sobre si mesmo. Recorrer a pessoas capazes e de confiança para ajudar a compreender os sentimentos, colabora no reconhecimento da verdade sobre si mesmo, pois o diálogo profundo permite refletir se os próprios sentimentos correspondem à realidade e à verdade.

    O Lugar da Vontade

             Os sentimentos estabelecem a relação pessoal com o mundo e com as pessoas, a inteligência traz essa relação ao contexto da própria vida, e a vontade move à ação. A vontade se inclina e consente com base nos motivos apresentados pela razão, mas os motivos que levam a essa inclinação em grande parte nascem da afetividade, além do querer consciente da vontade. As decisões moldam o modo de ser de uma pessoa.

             Para agir, a vontade necessita de motivação e luz, que iluminam e aquecem o coração. A falta de força de vontade diante das dificuldades costuma nascer de uma afetividade não integrada. Sem essa luz interior, sem a voz do coração, corre-se o risco de ir por caminhos do racionalismo frio ou do voluntarismo cego, que faz mirrar a vida interior e esgota as energias da pessoa. Se, ao contrário, a decisão tem uma motivação integrada, nasce a energia que fecunda a ação.

             Para um querer de verdade é preciso que os sentimentos, desejos, pensamentos e ações amem a verdade, pois isso leva ao amor a Deus e ao próximo, e a sentir aversão pelo que é mau. Educar interiormente significa orientar-se para o que é bom, verdadeiro e belo. Em tal processo, o entendimento e a vontade deixam-se atrair e preencher-se pelo bem, e as razões, propósitos e decisões transformam a vida, convertendo-se em convicções firmes.

             A vontade se desperta e encontra no bem a sua motivação mais profunda, não por imposição de outros, mas por sua abertura à verdade. Os sentimentos surgem antes que a razão e a vontade possam despertar. Mas isso não significa que os sentimentos não devam ser ajustados, desenvolvidos e refinados pela inteligência e vontade. Há períodos em que sentimentos e vontade parecem não entrar em harmonia, sendo necessário ter serenidade e conter as reações imediatas e refletir, rezar e pedir ajuda da graça divina para ter uma perspectiva justa para as situações difíceis.

             Decisões profundas não são frutos de um instante, mas exigem tempo e reflexão para chegar às razões adequadas que conduzam a ações responsáveis, capazes de explicar a si e aos demais o porque das escolhas. Desconhecer as motivações ou justificá-las com fatores externos é sinal de decisão imatura, de quem não assume os atos realizados, mas atribui-os a fatores externos e não pessoais.

    O lugar dos sentidos externos

             Um modo para ir melhorando a formação pessoal não está apenas na educação da inteligência, vontade e afetos. É preciso afinar cada um dos cinco sentidos que compõem o sistema sensorial humano (visão, audição, paladar, olfato e tato), pois eles enviam informações à inteligência, a ponto de os clássicos afirmarem que “nada há no intelecto que não tenha passado pelos sentidos”.

             Se os sentidos permanecem no grotesco, no elementar, a sensibilidade fica impedida de levantar voo para a verdade e beleza, e se fecham para compreensão do mundo e das pessoas. Quem passa muitas horas semanais degustando vídeos de muita ação – esportes, filmes, videogames –, fica incomodado com enredos mais elaborados e reflexivos.

             A vista pode se tornar preguiçosa e não se ater por muito tempo na contemplação de algo, por ex, fixar-se em detalhes e deleitar-se diante de uma obra de arte.

             A audição pode ser educada para encontrar ilhas de silêncio e abrir espaço à leitura e reflexão. O excesso de áudios e vídeos dificulta esses momentos. Há horários para ouvir boa música, e não só ouvir música.

             O paladar é um sentido que pode ser afinado: ir mudando o gosto por hambúrguer com batas fritas, bacon, ovos, muito ketchup e mostarda, para saber apreciar sabores menos marcante e mais sutis.

             O olfato está relacionado à higiene corporal: ir bem limpo, barbeado, asseado, talvez com um pouco de perfume discreto para tornar a presença agradável, roupa limpa e cheirosa…

             O tato é o sentido mais primitivo e está presente não somente nas mãos, mas na pele que envolve todo o corpo, da cabeça aos pés. Ele se relaciona com o cuidado das formas, tom humano, delicadeza no trato com os demais. O modo de se apresentar, de se sentar esparrado ou não, de se postar na mesa para estudar ou trabalhar, de torcer pelo time de futebol sem descontroles… A intemperança não só acontece pela boca, mas em escolher os lugares mais confortáveis para sentar-se em casa: minha cadeira, meu lugar no sofá, minha mesa, meu canto preferido.

    As Relações Pessoais

             Inclinações, sentimentos, sentidos, entendimento e vontade devem integrar-se para surgir uma personalidade equilibrada e madura, apta a estabelecer relações pessoais autênticas e profundas, que ajudam a crescer. O homem não é um ser isolado, mas necessitado dos demais. As relações com outras pessoas ajudam a configurar a própria identidade e delas surgem sentimentos, desejos, pensamentos e o amor. Isolados e sem relações, a pessoa chega a se desconhecer e se empobrece como ser humano, pois o homem não existe isoladamente, mas em comunhão.

             O bom relacionamento exige, além do autoconhecimento, a capacidade de aceitar e amar cada pessoa como ela é: um ser único e irrepetível. Conhecimento e amor são a essência de toda relação pessoal. Valorizar as relações que recebemos sem escolhê-las e as que estabelecemos livre e responsavelmente

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