Categoria: EDUCAÇÃO

  • Crescer em convicções firmes

    Crescer em convicções firmes

             Os princípios que regem o modo próprio de viver são aqueles que vão se tornando conaturais e determinantes da conduta pessoal, porque se transformam em convicções que vão se formando por meio das decisões pessoais. Com isso, cada um vai construindo ou descontruindo a própria vida, porque as convicções não são teóricas, mas induzem ao comportamento.

             Há convicções que alcançam a categoria de autênticas ideias-mestras, pois influenciam toda a vida e são apoio em momentos de dúvidas: quem está convicto de que seus dons e capacidades pessoais são para servir aos demais, saberá evitar condutas egoístas, exclusivistas; quem está convencido de que para alcançar ideais grandes precisa ser mais sacrificado, põe mãos à obra; quem está convicto da importância de ter vida de fé, levará mais a sério o seu trato com Deus; quem tem a honestidade por um valor indiscutível, não aceitará subornos; quem preza a palavra dada procura ser fiel aos seus compromissos, e assim por diante…

             As convicções são criadas por razões consistentes que iluminam a inteligência e movem a vontade para agir. Se a vontade não se move, é necessário examinar as disposições interiores – sejam as pessoais ou as dos filhos –, pois os gostos, sentimentos e paixões pessoais quando contrariados podem ir por caminhos opostos à inteligência; ou porque as razões oferecidas à inteligência não foram suficientes para esclarecer e promover a mudança de conduta, caso em que é necessário conferir para ressignificar os conceitos.

             Criar ou transmitir convicções pode parecer processo lento, mas na realidade é o mais rápido ao não se perder tempo com desvios irracionais. O voluntarismo ou as ordens peremptórias não oferecem razões profundas, e produzem resultados apenas imediatos para evitar cobranças, mas não por um querer livre e verdadeiro. Por isso, é mais formativo e eficaz criar ou ajudar a os filhos a desenvolver convicções que fazem agir por um querer livre.

             Os adolescentes e jovens quando ajudados com razões profundas, sabem oferecer argumentos sólidos àqueles que desejam induzi-los a atitudes inconvenientes. Formar é iluminar a inteligência com argumentos consistentes, de modo que as decisões partam não dos educadores, mas dos educandos, por estarem convencidos das verdades que baseiam seus argumentos, e não por imposição de outros. As razões profundas não precisam ser impostas, mas transmitidas, pois se impõem por si mesmas ao fortalecer as convicções. A verdadeira tarefa formativa não é um caminhar na frente, como quem puxa o outro por uma corda, mas andar ao lado, iluminando com a lanterna das razões sólidas.

             A pessoa bem formada é aquela que age livremente e o seu querer está de acordo com o bem e a verdade. Os filhos devem ser educados não como carentes de juízo, ou pessoas que se limitam a executar materialmente o que lhes foi dito. A educação deve levá-los a ser pessoas de critério, capazes de tomar decisões próprias em direção ao bem e sentir alegria nessa escolha. Os pais devem estimular, respeitar e orientar, conscientes de que a responsabilidade é dos próprios filhos. Essa ideia é fundamental, e exige que os educadores pensem, estudem, peçam luzes a Deus para acertar no que dizer e na forma de o fazer. Não mandar, mas aconselhar, não é tática, mas caminho para fomentar a responsabilidade pessoal. Evidentemente, para as crianças pequenas as decisões são tomadas pelos pais, pois elas ainda não têm a inteligência desenvolvida e tendem a agir movidas pelos impulsos dos sentimentos e paixões.

             É importante compreender que tanto a formação pessoal como a oferecida aos filhos é mais uma questão de fomentar convicções do que transmitir decisões prontas. É mais difícil construir convicções, pois exige pensar mais profundamente e não se conformar com respostas banais, ou em recorrer a receitas pré-fabricadas. Em outras palavras, formar é mais transmitir princípios do que repassar conclusões; é mais ajudar a entender do que animar a fazer: só oferecendo aos filhos argumentos profundos sobre as inconveniências do namoro precoce, uso de drogas, sexo fora do casamento, jogos online, pornografia na internet, deixar-se levar pela preguiça e comodidade, é que desenvolverão convicções fortes que movem a vontade em busca do bem.

             Como adquirir razões sólidas e profundas? Por meio do estudo, leituras, vídeos, áudios. Há editoras que oferecem livros com doutrina segura sobre antropologia, virtudes humanas, valores ou modelos de conduta, sexualidade, critérios sobre o sadio das telas digitais, entre outros Editoras Quadrante e Cultor de livros, por exemplo). No Youtube há palestras, vídeos e podcasts, onde bons educadores tratam com profundidade temas de educação comportamental. Em nossa página Boletins por temas, no site www.aresteves.com.br, encontram-se vários textos curtos e de fácil leitura que oferecem bons argumentos e fontes para aprofundamento sobre como enfrentar os problemas atuais que dificultam o reto comportamento humano. O Catecismo da Igreja Católica (há PDF gratuito na internet), no capítulo acerca dos Dez Mandamentos, oferece razões profundas sobre a moralidade dos atos livres, baseados na correta compreensão da natureza humana, e que são luzes para todas as pessoas, tenham fé ou não, ou sejam de outros credos religiosos.

  • Filhos sem Deus, sem virtudes, sem rumo

    Filhos sem Deus, sem virtudes, sem rumo

             Desejar que os filhos sejam virtuosos, sem lhes oferecer para isso um motivo profundo, é edificar sobre areia. Que motivo dar a eles para que sejam honestos, sinceros, fiéis, solidários, castos, ordenados, responsáveis? Basear o esforço por ser melhor apenas em argumentos psicológicos ou em preceitos humanos, faz carecer de força e garantia de perpetuidade a vida moral, pois os homens mudam facilmente de opinião e tendem a seguir seus gostos e preferências. Aguiló chama de “psicologismo ascético” a tendência de reduzir a vida espiritual e moral a explicações puramente psicológicas. Não se trata de desmerecer a psicologia, mas esta não substitui a dimensão transcendental e sobrenatural da vida humana. “Por que o caminho espiritual é tão importante? Por que na vida as coisas não acontecem segundo nossas previsões. Por que aqueles que amamos morrem. Por que as decepções são dolorosas”, diz Leonardo Sax. Os filhos serão fortes e atravessarão “a noite escura da alma” se lhes foi ensinado a cultivar a vida interior e o trato com Deus.

             A necessidade de voltar o olhar para Deus e nEle fundamentar as atitudes humanas vem pautando a vida de muitas pessoas como antídoto ao individualismo e à falta de grandes ideais. A crença em Deus e na vida após a morte torna as pessoas mais resilientes e motivadas para lutar contra os próprios defeitos. Muitos adolescentes e jovens desistem do esforço para ter uma vida reta e virtuosa porque suas convicções morais são insuficientes e os modelos de conduta oferecidos são insuficinetes e mutáveis, não aportando razões transcendentes para mover a conduta. Pais que acreditam em Deus, mas não levam a sério sua fé e não a transmitem com a palavra e exemplo aos filhos, se darão conta desse erro tarde demais, e com amargura. O maior bem que os pais podem transmitir aos filhos é a fé e o amor a Deus

             Há quem acredita que os problemas espirituais e morais têm uma causa psicológica, e confundem a fé com estados emocionais e interpretam a vida espiritual apenas como um “bem-estar psicológico”. A psicologia como ciência é importante para compreender as pessoas e auxiliá-las em certas dificuldades. Contudo, a psicologia não serve como explicação totalizante do ser humano, pois a vida espiritual não se reduz a processos psíquicos, mas envolve a relação pessoal com Deus, realidades que vão além do campo psicológico: a oração, a realidade do pecado, a força da graça de Deus…

             Quando o psicologismo domina, a fé se transforma em mera técnica de equilíbrio emocional, enfraquecendo a vida espiritual fundamentada no amor a Deus e no seguimento de Cristo. Portando, psicologia e vida espiritual devem se complementar: a psicologia ajuda a remover certos obstáculos humanos; e a vida espiritual e religiosa motiva a caminhar tendo em vista o sentido último da existência humana, que não se encerra nesta vida.

             É possível encontrar pessoas de grande retidão moral que não creem em Deus, ou se deparar com doutrinas éticas que excluem a fé. Porém, nenhuma razão que exclui a Deus e a religião, serve para fundamentar a luta própria e a dos filhos na busca das virtudes: uma ética sem Deus, baseada apenas no consenso social ou em tradições culturais, não oferece garantia diante da patente debilidade do homem, sua capacidade de ser manipulado e de desistir facilmente diante do esforço exigido para manter-se ético.

             Há ocasiões em que os motivos de conveniência natural para agir bem impulsionam com grande força. Mas há ocasiões em que esses motivos perdem força, e então o suporte para a ação correta ou a busca do bem encontra-se nos motivos sobrenaturais: prescindir tanto dos motivos naturais como dos sobrenaturais é erro moral e educativo de grandes proporções.

             A referência a Deus serve não só para justificar a existência de normas perenes de conduta, que devem ser observadas. Quando se prescinde voluntariamente de Deus, é fácil que o homem se converta na única instância que decide sobre o que é bom ou mal em função de seus próprios interesses: por que ser fiel ao outro cônjuge?; por que não aceitar um suborno que vem de modo tão fácil?; por que dizer a verdade? Quem não aceita a existência do Ser superior que julga nossas ações, fica indefeso frente a tentação de se erigir como juiz supremo do bem e do mal. Isso não significa que aquele que tem fé haja sempre com retidão e nunca se engana, mas sabe que não está só e qual é qual é o caminho para retornar com humildade. Assim, está menos exposto a enganar-se a si mesmo ao dizer que é bom o que gosta e mau o que não gosta, pois sabe que tem dentro de si há uma voz que o adverte: – Basta, não siga por esse caminho!

             É imprescindível fundamentar em Deus e na existência de vida após a morte, o esforço pessoal e o dos filhos para a aquisição de hábitos que encaminhem até o bem. Sem Deus é fácil duvidar se vale a pena o esforço por adquirir virtudes, porque não se tem motivos suficientes para manter condutas que supõem sacrifícios! Negar a existência de um juízo pessoal e a vida após a morte, reduz a perspectiva humana ao que se consegue lucrar apenas nesta vida: carpe diem ou aproveite o dia, pois não haverá razões suficientes para manter o esforço que exige uma vida reta. Evidentemente, a existência de Deus é objetiva e de infinitas consequências, e não se reduz a proporcionar motivos de garantia acerca de leis morais permanentes e imutáveis, mas é razão suficiente para mover as pessoas a conhecê-las e a observá-las. O progresso interior ou espiritual sempre será difícil, pois requer a assimilação teórica e o emprego prático daquilo que se acredita, pois não basta saber o que é bom, mas é necessário fazer o bem, caso contrário não haverá melhora pessoal, mas um simples ilustrar-se teoricamente sobre o que é o bem.

  • Fortalecer a vontade

    Fortalecer a vontade

             Autocontrole é o domínio que a vontade exerce sobre a memória, imaginação, sentimentos, paixões, forças instintivas… Para conseguir isso é necessário o desenvolvimento da força de vontade, a que podemos chamar de virtude da fortaleza, que é consequência de um habitual treinamento de fazer o que a razão ou inteligência mostra que deve ser feito em cada momento. No caso das crianças, como a inteligência e a vontade delas não estão desenvolvidas, devem ser guiadas pelos pais e educadores.

             Cumprir o dever de cada momento deve ser um ato da vontade, do querer livre, e não ação condicionada apenas pela força dos sentimentos, que por vezes podem estar ausentes ou serem contrários ao que deve ser feito. O verbo próprio para a determinação da vontade é “querer”; já o verbo empregado às inclinações dos afetos é “gostar”. O querer deve ser a inclinação da vontade em direção ao bem e à verdade reveladas pela inteligência, e o que lhe dá forças; o gostar ou não gostar é o que agrada ou não a afetividade.

             Outro motor do funcionamento humano é a afetividade (sentimentos, emoções, paixões). Os sentimentos podem ser positivos ou negativos: positivos quando apoiam as decisões da vontade (o querer livre); os negativos ocorrem quando dificultam a vontade de comandar as ações: não faço o que devo porque me custa esforço e não gosto de contrariar os meus sentimentos.

             Durante a infância, a afetividade domina as ações da criança, que sempre buscar sentir-se bem ou não se sentir mal, e a educação nessa fase consiste em educar a afetividade. Quando os pais vão esclarecendo a inteligência da criança, ainda em desenvolvimento, para compreender as razões de uma determinada ação, a ela passará aos poucos a agir pela determinação da vontade. O exercício diário da débil vontade da criança deve ser estimulado para o que é bom, tanto para ela quanto para os demais, a fim de que crie bons hábitos ou virtudes.

             O que é bom em cada momento é determinado pelo juízo da inteligência ou consciência prática, que julga a realidade a partir dos conhecimentos adquiridos (no caso das crianças, pelas pessoas encarregadas de formá-las). O domínio da vontade sobre a afetividade necessita primeiramente do esclarecimento da inteligência, que oferece sua luz para que a vontade se incline ao que deve ser feito, e tenha forças para controlar as demais funções psíquicas e corporais: percepção, memória, imaginação sentimentos, emoções, paixões e instintos. O exercício desse controle supõe esforço no início, mas logo se transforma no hábito ou virtude da fortaleza, de modo que a vontade vai desenvolvendo uma permanente capacidade de amar e procurar o bem.

             As batalhas entre a afetividade e a vontade são variadas e se travam no interior da pessoa, pois os sentidos (visão, audição, paladar, olfato e tato) induzidos pela afetividade (sentimentos, emoções, paixões) tendem a buscar o que é divertido, agradável e gostoso no momento e evitar o que custa esforço: é mais fácil assistir a um vídeo fora de hora, refastelar-se na poltrona ou sofá, jogar games ou ouvir música quando se deveria cumprir uma obrigação, comer fora de hora, etc., mas isso fomenta o vício da preguiça, intemperança e cria outras dependências que conduzem ao enfraquecimento da vontade. Algumas pessoas pensam que a liberdade é realizar os atos que lhe apetecem afetivamente ou porque sentem gosto em fazê-los. Ações agradáveis como ver televisão, comer, beber podem ser condutas livres, mas trata-se de uma liberdade superficial, externa. A verdadeira liberdade tem a ver com a vontade ou o querer livre que impulsiona a afetividade, imaginação, memória e percepção para agir em busca do bem: posso não sentir gosto em realizar uma tarefa, mas devo fazê-la porque é importante.

             Os sentimentos e as emoções positivas (autoestima, alegria de cumprir o dever, segurança, confiança) agem como óleo lubrificante que ajudam no autocontrole pessoal. No dia a dia se encontram muitas pequenas oportunidades de viver o chamado “minuto heroico”, desenvolvido pela espiritualidade cristã: minuto heroico porque é uma decisão rápida de não protelar ou empurrar com a barriga o que deve ser feito em cada momento, e se vive isso com ânimo esportivo de começar e recomeçar após o incumprimento de uma obrigação. Os esportistas continuamente buscam com alegria a melhora de sua performance, e quando falham recomeçam. Quem desfruta dessa luta positiva se cansa menos porque a afetividade, que procura o mais fácil a curto prazo, passa a sentir prazer e alegria ao cumprir as obrigações, e a pessoa cresce em força de vontade, autocontrole e maturidade. Quando a vontade está no comando das ações, a sensação de ser livre e protagonista da própria vida produz verdadeira felicidade.

             Outra frente de batalha consiste em evitar que estímulos intensos – internos ou externos – ofusquem a inteligência e enfraqueçam a vontade, dificultando a pessoa para decidir pelo que é bom e verdadeiro. Por exemplo, sentimentos como angústia, tristeza, ansiedade, insegurança, medo, sentimento de inferioridade, ira, inveja, raiva, desejo de poder e ganhar dinheiro a qualquer custo, podem criar barreiras e induzir a condutas irracionais. Esse é o processo de todos os vícios, que reduzem a liberdade e o desejo de querer o bem.

             Alguém que desde a infância se deixou conduzir mais pela afetividade, tem alterado seu funcionamento psicológico, e se convence facilmente de que é livre e suas decisões são frutos da razão e da vontade. Porém, na realidade, não percebe estar dominado por sentimentos e emoções que determinam suas ações: um hipocondríaco pode tomar seu pulso de hora em hora e pensar que isso é correto, e que o faz livremente; outro, entra em sites inconvenientes e acha que faz isso livremente, sem perceber que está escravizado por um vício ou paixão que obscurece sua inteligência e enfraquece sua vontade. Um fanático por futebol facilmente se convence de que na área do seu time, os jogadores adversários se atiram ao chão de propósito para simular pênaltis; enquanto que na área contrária, os jogadores do seu time sempre sofrem pênaltis quando caem. Há quem se comporta de modo violento e se justifica ter agido livre e racionalmente para não concluir que se deixou levar pela paixão da ira. Viciados que passam horas e horas em mídias e telas digitais acreditam agir livremente, sem perceber que estão escravizados por paixões que os levam a perder tempo com frivolidades que enfraquecem o caráter, empobrecem a inteligência para pensar profundamente e debilitam a vontade para assumir compromissos. Enfim, são muitos os exemplos de pessoas que se acham dominadas por emoções negativas intensas e acreditam agir livre e racionalmente.

             Quando se vive com verdadeira liberdade, não se quer viver de outra maneira. Agir habitualmente não movido pelos impulsos dos afetos (quando estes são negativos), faz experimentar uma verdadeira liberdade interior. Para ganhar essa luta, o segredo está em fortalecer a vontade por meio de pequenos e constantes vencimentos diários: não comer fora de hora, posicionar-se com modos na poltrona ou sofá, ser pontual e não atrasar o estudo e as tarefas, manter ordem nos objetos pessoais, ter o rosto alegre quando não se tem gosto para isso, crescer em espírito de serviço no lar, não interromper os afazeres para conferir as redes sociais e estabelecer um horário para isso…

  • Você dá bom exemplo ao seu filho?

    Você dá bom exemplo ao seu filho?

             Muitos pais trabalham dia e noite para dar aos filhos a melhor educação, brinquedos caros, quarto bonito, boa escola, mas sem perceber podem estar negando o que realmente deixará marca e formará o caráter dos filhos: o exemplo diário! Marian Rojas (1) ensina como o exemplo dos pais influencia enormemente os filhos, e afirma que uma criança poderá esquecer os presentes de aniversários que ganhou dos pais, mas nunca como viam os pais agirem no dia a dia, como a olharam, trataram e falaram com ela. A coerência entre a teoria e a conduta é a melhor prova da convicção e da validade daquilo que se ensina aos filhos; é condição imprescindível para a eficácia da educação comportamental.

             O exemplo paterno e materno molda o cérebro da criança, e deixa rastro mais profundo do que as palavras. Educar, mais do que dar instruções, é ensinar com a vida. O que os filhos percebem no modo de ser dos pais os marcará para sempre. Rojas testemunhou algo que jamais esqueceu: –“Doutora, não me lembro das muitas frases que minha mãe repetia para mim, mas lembro como todas as noites, apesar de exausta, ela vinha ao meu quarto, me abraçava e me dizia que tudo ficaria bem”. Essa cena diária, aparentemente simples, ficou gravada na memória desse homem porque foi uma silenciosa mensagem que dizia: –”Você não está sozinho. Estou aqui para você, que é muito importante para mim”.

             O modo de estar presente educa sem explicações, pois o cérebro humano aprende observando e por imitação por meio dos neurônios-espelho, descobertos há algumas décadas. Desde o berço a criança registra na estrutura cerebral como seus pais se movem, agem e a tratam. O pai que vê o filho brincando distraidamente e discute de maus modos com alguém ao telefone, não percebe que a criança vê e reproduzirá esse comportamento em seus desentendimentos: o respeito deve transparecer no modo de agir com os demais. Se a mãe é educada com a atendente do supermercado e com o porteiro do prédio, a criança replicará esse modelo de conduta. A mentira dita a um parente ou amigo faz a criança desaprender o significado da honra e da verdade.

             Educar exige calma, falar com paciência, ouvir sem interromper. A impaciência é atalho para reações automáticas. Saber lidar com a pressa e o estresse é fundamental na educação pelo exemplo. Trata-se de criar pequenas pausas conscientes que permitam agir em vez de reagir. Algo simples como o respirar fundo antes de responder, fazer uma breve pausa antes de dar uma indicação, um gesto que indique desacelerar são pequenas interrupções que rompem o ciclo da pressa e do estresse, e evitam palavras e gestos indelicados. Os filhos se lembrarão mais tarde da calma e respeito com que os pais os tratavam, mesmo em situações difíceis ou sob pressão.

             Não se trata de ser perfeito, mas ter a consciência de que marcas profundas ficam nos filhos pelo que se faz ou não se faz. Ou seja, os pais não educam só com o que dizem, mas com o que fazem mesmo sem perceber. O caráter dos filhos não se molda por frases, mas pelo modo como os pais vivem. Comportamentos diários são absorvidos mesmo que os pais nada digam: gestos, hábitos e reações silenciosas transmitem mensagens sem a necessidade de palavras, mesmo que passem despercebidas aos olhos dos pais, mas não aos da criança. A incoerência entre o dizer e o fazer é prejudicial porque ensina que o dito não é tão importante quanto o feito. A confiança e a credibilidade é corroída quando não há coerência nas ações dos pais: se pedem respeito aos demais, mas criticam um vizinho ou parente, a criança pensará que o respeito é relativo e aplicado conforme o interesse. Já a coerência é a âncora emocional que oferece segurança e estabilidade ao aprendizado da criança.

             Viver como se o celular fosse o protagonista é um erro silencioso comum. O celular constantemente grudado nas mãos dos pais deseduca porque diz aos filhos que merecem a atenção dividida com esse aparelho; que as telas têm precedência sobre as pessoas; que as conversas devem ser interrompidas para responder a uma mensagem; que os momentos juntos na vida familiar ou no trabalho devem ceder lugar às mensagens e vídeos. O adulto fisicamente presente e emocionalmente ausente prejudica a comunicação e o desenvolvimento emocional da criança, que necessita de olhares longos, silêncios compartilhados, momentos de conexão profunda. Substituir tais momentos por telas faz a criança entender que a presença dela não é importante. Mudar esse padrão requer consciência e coragem. Não se trata de desistir da tecnologia, mas de saber quando e como usá-la. Tempo de qualidade sem distrações fortalece o vínculo e ensina à criança que as pessoas estão acima das telas digitais. Se os pais erram nisso, devem reconhecer e pedir perdão, pois a humildade vivida diante da criança é lição valiosa.

             Outro mau exemplo silencioso e comum se dá quando os pais negligenciam o próprio bem-estar físico e emocional. As crianças observam se eles se tratam com carinho e respeito, se dormem o suficiente, se alimentam-se saudavelmente, se fazem exercícios, se dedicam tempo ao descanso. Cuidar-se não é luxo, mas dever: quem não se cuida reduz sua capacidade física e mental para enfrentar as responsabilidades. Pais exaustos, irritáveis e sem energias têm menos paciência e tolerância emocional, o que impacta diretamente o ambiente familiar. O autocuidado ensina aos filhos que para amar e servir aos demais é preciso estar bem, e isso não é egoísmo, mas base para uma vida equilibrada.

             O clima emocional mantido no lar se instala na mente da criança. Viver em ambiente onde predominam reclamações e pessimismos é como respirar ar poluído. Frases diárias de que tudo anda errado torna a criança medrosa. Pais queixosos fazem a criança viver com medo; pais otimistas e resilientes fortalecem o filho. Não se trata de negar os problemas, mas de saber como lidar com eles. O modo de olhar para a vida será o modo de a enfrentar. O pessimismo crônico é um filtro mental que limita a capacidade de sonhar e de buscar soluções. Mostrar esperança é o caminho que ensina enfrentar de forma positiva os problemas:  –”Vamos ver o que podemos fazer” ou –“Encontraremos uma solução”, ensinam aos filhos que otimismo não nega a realidade, mas a enfrenta-a com dinamismo e fortaleza.

             O primeiro passo para educar pelo exemplo é ser honesto e não justificar as ações erradas ao dizer para si que não afetarão a criança: projete um mau hábito seu na vida do filho para quando ele alcançar 20 anos! Não subestime as más condutas. Por isso, pergunte ao outro cônjuge se suas ações contradizem o que você diz. Identificar as incoerências é como acender uma luz em sala escura. Pedir perdão não desabona os pais, mas os torna mais humanos. É equivocado pensar que reconhecer um erro diante do filho suprime a autoridade. Ao contrário, faz ganhar o respeito que nasce da verdade. Ao pedir perdão, os pais ensinam que cometer erros e corrigi-los faz parte da vida: – “Eu errei ao dizer aquilo a você”, é atitude poderosa porque assume a responsabilidade sem desculpas, e revela que os relacionamentos podem ser curados. Este é um legado emocional incalculável que fará o filho admitir e corrigir as próprias falhas.

             Os valores ou modelos de conduta não devem ser impostos goela abaixo, mas vividos e incorporados por meio de rotinas familiares. As rotinas são fios invisíveis que tecem a segurança emocional da criança, dando a ela estrutura e previsibilidade; são rituais que marcam e reforçam os valores que se quer transmitir. Por exemplo, as refeições em família sem celulares ou telas digitais demonstram que a conexão humana é mais importante; que ler juntos na sala revela o valor que se dá à cultura, arte e literatura para a vida… As rotinas não precisam ser longas ou complicadas, mas consistentes. Um hábito pequeno que se repete, com o tempo se tornará parte da identidade da criança. O segredo está na participação dos pais nas rotinas, e não como algo que os filhos fazem sob a supervisão dos pais.

             Educar com o exemplo é – depois da transmissão da fé e do amor a Deus –, o maior presente que os pais podem dar aos filhos. Mais do que grandes discursos, o exemplo ensina silenciosamente como resolver os problemas e encarar a vida por meio dos gestos e ações práticas. Os filhos não precisam de pais perfeitos, mas de pais que demonstrem com a vida que se pode cair e levantar novamente; que sentir medo não impede continuar a lutar; que se pode manter o amor quando se está cansado… Os pais devem se perguntar sobre como gostariam que o filho se lembrasse deles daqui a 20 anos. Essa resposta será a bússola que orientará para deixar de lado o que não é necessário e manter firme o leme na rota do bom porto. O exemplo que os pais oferecem hoje é privilégio e legado único que sustentará os filhos por toda a vida. Não há presente maior do que deixar aos filhos um modelo de amor, respeito, resiliência e esperança.

  • Filhos: como lidam com mal-entendidos, autonomia e redes sociais?

    Filhos: como lidam com mal-entendidos, autonomia e redes sociais?

             Reunidos em atividade (1) que visou a educação comportamental dos filhos, centenas de pais e mães deram as seguintes respostas às quatro questões a seguir:

    1) Filhos que reagem com violência diante de mal-entendidos

    • O predomínio da afetividade (sentimentos, emoções e paixões) sobre a vontade e a inteligência, e a baixa tolerância à frustração e o fracasso, tornam imaturos os filhos, que respondem encolerizados e agem sem pensar diante dos conflitos.
    • Manter atenção, interesse e respeito ao que o filho diz, ao explicar um conflito, mesmo que não concorde com ele. Perguntar sobre o que aconteceu, como se sentiu. Se possível, ouvir as partes envolvidas e pedir esclarecimentos para ajudar identificar o mal-entendido.
    • Explicar-lhes o que é o autocontrole ou educação da afetividade, a fim de que a vontade, iluminada pela inteligência, conduza as ações sem se deixar dominar por sentimentos desregulados. Autocontrole é o domínio da vontade sobre as demais funções psíquicas e comportamentais. Para isso, é preciso fortalecer a vontade deles exigindo que cumpram habitualmente seus deveres, e não se deixem levar apenas por atividades prazerosas.
    • Ensinar-lhes a comunicação não violenta, que faz a agir e não reagir precipitadamente diante dos fatos. Consegue-se isso ao colocar-se na situação do outro, não julgar suas intenções (poderá ter agido por ignorância ou fraqueza); manter o foco no problema e não na pessoa. Trata-se de ver os conflitos como oportunidades de aprendizagem mútua.
    • Ser exemplo para os filhos ao manter a serenidade nos contratempos familiares, pois os eles aprendem mais ao ver os pais agirem racionalmente diante de mal-entendidos na família, no trânsito, no trabalho, nas relações de vizinhança; pais que nunca fazem mexericos nem criticam ninguém, sejam parentes, colegas de trabalho ou vizinhos.

    2) Como incentivar a autonomia dos filhos

    • Dar oportunidades para que os filhos exerçam sua independência, por exemplo, assumindo responsabilidades diárias no lar. Evitar a superproteção, que os impede de enfrentar desafios e lidar com frustrações e “nãos”. A superproteção faz a criança perder a confiança em si mesma, e vive a perguntar a opinião dos pais por medo exagerado de errar ou decidir sozinha.
    • Orientar e acompanhar à distância as tarefas, mas não fazer pela criança, a fim de que ganhe confiança em si mesma e aprenda a assumir as consequências de suas ações, não atribuindo suas falhas aos demais. Ter paciência e estimular a repetir as ações para aprender a fazê-las bem. Descontrair a criança ansiosa ao fazê-la ver que as tentativas fazem parte do aprendizado; reforçar a ideia de que o erro não é um fracasso, mas uma oportunidade para melhorar. Depois, reconhecer o esforço e elogiar, mesmo que a tarefa não ficou perfeita.
    • Encorajar a resolução dos problemas e não intervir sem substituir: intervir é dar dicas e mostrar como se faz e deixar que a criança tente sozinha; substituir é fazer por ela. Dar responsabilidades e encorajar a fazê-las, dando espaço para que faça sozinha, mesmo que erre, pois isso faz parte do aprendizado.
    • Passar valores ou modelos de conduta para que assumam por vontade própria. Fazer compreender que não se pode ter tudo o que se quer, sendo preciso aprender a esperar. Não controlar excessivamente os horários e deveres dos filhos, nem falar por eles ao entrar numa loja para comprar uma roupa ou fazer um pedido na lanchonete: deixar que eles mesmos peçam as coisas. Manter os filhos curtos de dinheiro para que aprenda a usá-lo.

    3) Mau uso das redes sociais e internet

    • Conquistar a confiança do filho para crescer na amizade com ele. Manter comunicação aberta para aprender a conversar na linguagem dele, e se interessar pelo que gosta, quem admira, como interage nas redes. Participar como aliado e não como inimigo. Depois, examinar com calma esses interesses para desenvolver neles o pensamento crítico ao alertar sobre o que é positivo e negativo naquilo que consome. Aproveitar os conteúdos positivos para ter conversas significativas, presenciais. Refletir juntos sobre valores ou modelos de conduta, interesses por temas técnicos, artísticos e culturais: –“Que acha desse assunto?”; –“Que perigo você vê em tal programa?”. Trocar informações interessantes.
    • Fomentar a virtude da temperança ou autodomínio para que cresça em força de vontade e não se deixe dominar pela curiosidade frívola e gosto pelo fútil, ocasionando grandes perdas de tempo. Dar encargos no lar para que aprenda a deixar de lado o celular e passe a cumprir suas responsabilidades.
    • Como pais, dar exemplo ao se policiar para não consultar as redes sociais fora de hora (refeições, bate-papos familiares, passeios…). Estabelecer acordos prévios com o filho para que todos tenham limites definidos de tempo e de uso, a fim de não entrarem em sites de jogos, frívolos ou arriscados moralmente. Ninguém deve se isolar com telas digitais: transparência para saber o que todos veem na internet. Ressaltar a importância de valorizar a privacidade nas redes, pois seria uma pueril falta de pudor e enorme imprudência apregoar a intimidade do corpo, da consciência e da família na internet, com graves e permanentes consequência àqueles que se expõem a isso (abordar casos reais).

    4) Respostas agressivas dos filhos: o que há por trás?

    • Ao ouvir algo agressivo por parte de um filho, não responda da mesma maneira: aja e não reaja. Mantenha equilíbrio, respire fundo e conte até dez. Se ele estiver exaltado, não ponha mais lenha na fogueira ao não revidar na mesma moeda, e espere para responder em outro momento. Focar no assunto central e não na pessoa. Falar com modos, mas exigir respeito à autoridade dos pais, que são os responsáveis pelo lar: filho não manda na casa, mas obedece (ouvir a opinião dele, mas quem decide são os pais).
    • O filho que diz sem pensar o que lhe vem à cabeça revela imaturidade, imprudência e grosseria, e causará muitos problemas de convivência por onde andar. Fomentar nele as virtudes contrárias: prudência, ponderação, equilíbrio, respeito aos demais, empatia, virtudes da convivência. Ensinar que a comunicação não violenta é necessária para pensar e agir com prudência, pois uma mente exaltada toma decisões erradas.
    • Dar exemplo ao filho ao ouvir e responder a ele com empatia, controlando o tom de voz: em vez de contra-atacar, dizer: -“Você parece pressionado. Precisa de ajuda?”. Tentar compreender não é justificar a agressividade, mas identificar o que há por trás dela, antes de tomar uma decisão ou medida disciplinar.
    • As fortes emoções podem apontar para necessidades mais profundas. Mantenha o foco na necessidade e não nas palavras, que podem ser rudes porque o filho carece de autocontrole, mas se vê necessitado de apoio, segurança e compreensão. Tentar entender o que está acontecendo com ele, pois poderá haver algo de verdade ou necessidade não atendida por trás de falas agressivas do tipo: –“Você nunca me ouve!” (precisa de atenção e validação). –“Vocês são uns egoístas!” (pais que andam sempre metidos em seus interesses). – “Chega de tanta cobrança” (precisa de espaço e alívio de stress). –“Não complique tudo!” (pais sempre fazendo críticas e alertas desnecessários). – “Me deixa em paz!” (deseja mais espaço, autonomia). – “Não falem mais!” (anseia por tranquilidade para apaziguar emoções descontroladas).

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  • Cinco erros para não cometer na educação dos filhos

    Cinco erros para não cometer na educação dos filhos

    A criança não precisa apenas de comida, roupa e abrigo, mas de um ambiente emocionalmente seguro onde possa explorar o mundo, cometer erros, aprender a lidar com a frustração, ter confiança ao sentir que suas emoções são validadas e respeitadas. O cérebro dela se desenvolverá emocionalmente saudável se a ela crescer em lar repleto de amor, limites claros, segurança. Porém, se vive em meio a gritos, falta de conexão emocional, estresse, manifestará baixa autoestima, ansiedade, medos, inseguranças e terá dificuldades para gerenciar suas emoções e lidar com a frustração.

             Cinco erros comuns que os pais podem cometer e que afetam negativamente o emocional e o cognitivo da criança, são relatados por Marian Rojas1, psiquiatra espanhola:

    1)-Ouvir pela metade

             A criança que se sente ouvida, respeitada e compreendida, constrói conexões neurais que promovem sua regulação emocional e bem-estar. Ao não ser ouvida ativamente; se suas emoções e sentimentos não são validados, mas ignorados ou minimizados, perde a segurança e a capacidade de se expressar e de se conectar com os outros, isolando-se ao evitar relacionamentos. Pais atentos a outros interesses faz a criança se sentir invisível e afetada em sua autoestima, segurança emocional e na confiança em seus pais. A escuta não ativa cria um vazio emocional e a criança não expressará seus pensamentos, sentimentos e emoções, desregulando emocionalmente seu cérebro, dificultando-o para lidar com a frustração, tristeza e ansiedade. Já a escuta ativa que se faz com os olhos nos olhos e total atenção para penetrar no mundo da criança, e entender também o que não foi dito, envia a mensagem de que as emoções e os pensamentos do filho são valiosos, fortalecendo a capacidade dele para se comunicar, regular suas emoções e se sentir seguro em um mundo por vezes caótico, além de desenvolver fortes conexões neurais.

    2) A superproteção

             A superproteção é um erro que os pais cometem com a intenção de evitar ao filho a dor, o fracasso e a frustração. Porém, não percebem que cerceiam a capacidade de resiliência do filho para enfrentar a vida. O cérebro da criança amadurece emocionalmente ao lidar na prática com a frustração e os erros. A superproteção impede vivenciar experiências negativas e fomenta a insegurança para enfrentar dificuldades, tonando a criança dependente, medrosa e ansiosa ao lidar com desafios, pois seu cérebro não desenvolverá conexões de autorregulação emocional, e terá dificuldades para lidar com os altos e baixos da vida. A resiliência ou capacidade de se levantar após um insucesso não é algo que se aprende na teoria, mas na prática. Permitir que o filho enfrente pequenos contratempos e vivencie frustrações o fará saber como administrá-las. Criança que enfrenta e supera desafios se fortalece e se torna emocionalmente equilibrada. O papel dos pais não é absorver eles as contrariedades do filho, mas ensinar a lidar com elas e ser apoio quando a criança sentir necessidade de conforto ou conselho, a fim de ensiná-la a confiar em suas próprias habilidades e crescer em autoestima.

    3) A crítica destrutiva

             A crítica negativa impacta profundamente o cérebro da criança, pois a fará interpretar as palavras como ameaça à autoestima, incapacidade de aprender com os erros e terá vergonha e medo de fracassar. A criança associará sua identidade aos julgamentos negativos e criará conexões cerebrais que associam o fracasso à humilhação, à perda de autoconfiança em si, à baixa autoestima, à ansiedade e ao medo de rejeição, caldo propício para o estresse e depressão. A correção construtiva foca naquilo que a criança pode melhorar, e não no que faz mal, o que permite que o errado se transforme em oportunidade de melhora, sem julgar o valor da criança como pessoa. Ao elogiar os esforços, o cérebro da criança associará os erros ao aprendizado, e não ao fracasso, fazendo-a crescer emocionalmente. Em vez de criticar, dizer com empatia: –”Eu entendo que você ficou triste, mas tente novamente”, ou –“O que você fez poderá ficar ainda melhor”. Esse tipo de correção positiva reforça a confiança e fortalece a capacidade da criança lidar com suas emoções e as situações mais difíceis, pois saberá que cometer erros é apenas parte do processo de crescimento, não um motivo para se sentir mal.

    4) Falta de limites claros

              As crianças precisam conhecer seu espaço e saber o que é permitido e o que não o é, para que seu cérebro se estruture com segurança ao agir (tal como as faixas e guard-rail nas estradas). Quando a criança desconhece o que se espera dela, se sente insegura e seu cérebro não desenvolverá conexões de confiança. Sem limites claros, a criança passa a não compreender as consequências de suas ações, e afetará sua capacidade de respeitar os outros. Os limites firmam a criança no comportamento certo, regulam suas emoções, faz entender que suas ações têm consequências positivas ou negativas sobre os demais, ajuda a tomar decisões responsáveis e ensina a lidar com a frustração ao não poder fazer tudo o que quer. A falta de limites, ao contrário, cria ocasião para manipular as situações a seu favor, enfraquecendo a capacidade de coexistir de forma respeitosa e harmônica com os demais. Estabelecer limites claros não significa ser rígido ou autoritário, mas ser consistente e justo e fazer a criança entender que uma regra é estabelecida para o seu bem e segurança emocional. Assim, seu cérebro aceitará as regras como parte natural do aprendizado para a vida e se desenvolverá de forma saudável.

    5) Pais que não cuidam de si mesmos

             Não cuidar de si mesmos é um erro que os pais podem cometer ao colocar as necessidades dos filhos acima do bem do casal. Pais que não se cuidam afetam a própria saúde emocional para administrar suas emoções diante dos conflitos e, impacientes, deixam de oferecer orientação equilibrada. Esse estresse afeta emocionalmente o filho, ao ver seus pais ansiosos, sobrecarregados e emocionalmente esgotados. Os pais precisam encontrar tempo para cuidar de si mesmos, estabelecer limites às suas próprias demandas e pedir ajuda quando necessário. Não ver nisso egoísmo, mas necessidade para retornar às suas responsabilidades revigorados. O cuidado dos pais deve ser preocupação do filho, que precisa reconhecer que o bem-estar emocional deles é importante para todos.

    Conclusão

             Não existe um manual de instruções para ser pai e mãe ideais, mas se forem exemplos de autorreflexão, honestidade emocional e responsabilidade, os filhos aprenderão mais com o que veem do que com o que ouvem. A paternidade não é um caminho fácil, e frequentemente os pais se deparam com dúvidas sobre como agir corretamente. Porém, o mais importante não é que sejam perfeitos, mas que procurem se formar bem como pais, lutem para agir bem e estejam cientes de que suas ações afetam o filho. Ao reconhecer seus erros e dar os passos para melhorar, os pais constroem relacionamentos fortes e saudáveis com o filho.

  • Ler em família

    Ler em família

             A família é o ambiente de convívio mais grato para uma criança, pois ali é criada, amada e onde começa sua educação para os valores, socialização e inserção no mundo dos livros. O gosto pelos livros e o hábito de ler se iniciam quando os pais criam no lar um ambiente de incentivo à leitura não por imposição, mas pelo prazer e estímulo à curiosidade e à fantasia desde as primeiras idades, principalmente ao começar a despertar na criança o desejo de novas descobertas por meio das incansáveis perguntas acerca de tudo ao seu redor.

             Os pais incentivam o hábito de leitura ao promover estratégias no âmbito familiar: contação de histórias, momentos e espaços de leituras, criação de jogos com os nomes das histórias, animar as crianças a narrarem ou encenarem os contos que mais gostaram, montar uma minibiblioteca, visitar livrarias e espaços culturais. Assim, os livros passam a fazer parte da vida da criança.

             Para ganhar fascínio pelas histórias e se tornar leitora, a criança precisa ser motivada a conviver com livros de ficção, pois trazem um mundo de aventuras e atrativos que divertem e enriquecem o imaginário com novas experiências, além de prevenir as crianças sobre o bem e do mal que certamente se apresentarão na vida real. O ato de ler – mesmo quando realizado por um irmão ou pelos pais – abre novos horizontes na vida da criança e a distancia do vício das telas digitais, que a tornaria preguiçosa, passiva e pouco criativa. Veja neste link diversas obras literárias relacionadas por idade.

             Quando praticada habitualmente, a leitura proporciona muitos benefícios à criança: desenvolvimento mental, afetivo e emocional; amplia o vocabulário e a expressividade; torna-se fonte inestimável de crescimento intelectual ao dar à criança maior capacidade de concentração e compreensão dos assuntos, além de enriquecer culturalmente.

  • As crianças são dominadas pelos sentimentos, emoções e paixões

    As crianças são dominadas pelos sentimentos, emoções e paixões

             Ajudar a criança a compreender os motivos de suas ações facilita-lhe o esforço para agir bem e se sentir feliz com isso. A racionalidade ainda não se desenvolveu plenamente na criança, e por isso age motivada pela afetividade (sentimentos, emoções, paixões). Cabe aos pais fazerem o papel da razão e da vontade dela por meio de explicações claras e acessíveis ou servindo-se de pequenas medidas corretivas. Assim, aos poucos ela passa a compreender como deve se comportar, as consequências de seus atos, ganha hábitos que esclarecerem a inteligência em desenvolvimento e fortalece a vontade para não se deixar dominar pelos afetos. A infância é o período mais propício para aprender a equilibrar a afetividade e não se conduzir apenas pelos sentimentos. A educação dos afetos na adolescência e juventude é bem mais difícil. Educar a afetividade não significa reprimi-la, mas integrá-la à razão e à vontade.

             Na sociedade atual, valoriza-se excessivamente o êxito exterior — riqueza, fama e poder — e subestima-se o êxito interior, essencial para a verdadeira felicidade. A educação, influenciada por muitos pais e professores, foca sobretudo em resultados académicos, competências técnicas e sucesso profissional, negligenciando o desenvolvimento emocional e humano. Falta, nos programas educativos, uma formação que ajude crianças e jovens a lidar com medos, inseguranças, impulsividade e emoções negativas como ira, inveja e ciúmes, promovendo maturidade, autocontrole e resiliência.

             Muitas crianças sonham com a profissão que terão, mas desconhecem que tipo de pessoa devem tornar-se, pois a educação valoriza apenas conquistas externas. Os êxitos exteriores não se sustentam se a personalidade for malformada. O ser humano nasce imperfeito e tem como tarefa desenvolver plenamente as suas capacidades, especialmente inteligência e vontade, procurando conhecer e amar o bem e a verdade, e educar seus afetos para que se inclinem ao bem proposto pela inteligência. Cada ação influencia o mundo e molda o caráter: boas ações beneficiam o indivíduo e a sociedade; e as más ações prejudicam ambos. A educação deve ensinar a distinguir o bem do mal, refletir antes de agir para escolher as melhores atitudes.

             A maturidade psicológica resulta da harmonia entre afetividade (coração), inteligência e vontade (cabeça), com a primeira apoiando as faculdades superiores. Esta harmonia deve ser construída desde cedo, através de atos guiados pela razão. Os educadores devem ajudar as crianças a refletir sobre os próprios sentimentos, avaliando se estes são adequados e se as ações foram corretas. Esse exercício fortalece a vontade e ajuda a controlar a influência das emoções. Com prática e orientação, é possível alcançar a harmonia hierárquica entre razão, vontade e afetividade, surgindo assim as qualidades da maturidade.

             A educação para a maturidade psicológica visa desenvolver todas as faculdades — inteligência, vontade, afetividade, imaginação, memória e percepção — e harmonizá-las sob a liderança da razão e da vontade. A formação da razão implica refletir antes e depois de agir, analisando causas e consequências, o que conduz ao autoconhecimento e à melhoria contínua. Quanto mais cedo esse hábito for adquirido, mais firme se torna, funcionando como um “piloto automático” para agir corretamente.

             Educar a vontade para dominar a afetividade significa motivar para realizar o que é correto, mesmo que seja difícil ou desagradável no momento. Durante a infância e adolescência, a afetividade é mais forte, levando à busca de prazer imediato fomentado pelo gosto ou sentimentos, por exemplo, comer doces o dia inteiro, ficar nas telas digitais o tempo todo e não cumprir suas tarefas… O objetivo é alinhar afetividade com a razão e vontade, para que o prazer venha ao fazer o que é certo. Mesmo quando se treina a vontade com objetivos superficiais, como o esporte, ou por meio de pequenas tarefas, como cumprir os encargos familiares, esses esforços fortalecem a criança para desafios maiores, como superar medos, inseguranças e preguiças, resultados de deixar-se levar apenas pelos sentimentos.

             O pensamento, a imaginação, a memória, a percepção e a afetividade, junto com a vontade, formam as funções psíquicas humanas. Quanto mais orientadas pela razão, mais contribuem para a felicidade. Porém, guiadas sobretudo pela afetividade, geram conflitos. Coordenar estas funções exige treino psicológico, apoio e motivação constantes para não se deixar levar apenas pelo prazenteiro ou agradável. Os pais devem estar atentos para suprir o que a educação escolar atual não consegue fazer.

  • Para uma cultura de diálogo

    Para uma cultura de diálogo

             Dialogar é praticar a arte de se aproximar do outro. Diante dos desafios que a convivência multicultural traz à sociedade contemporânea, segundo Jutta Burggraf1, se faz necessário o diálogo para superar conflitos, preconceitos e violências que surgem das diferenças de mentalidades, culturas, opiniões e formas de viver. Para a cultura do diálogo não basta tolerar, mas é preciso ouvir, compreender e conversar para transmitir as próprias ideias de forma serena e respeitosa. Não se trata de anular as diferenças, mas de valorizá-las como fontes de enriquecimento mútuo. O diálogo não é um debate para vencer, mas uma caminhada em comum rumo à verdade. Nesse caminho, todos aprendem e crescem. No final, não haverá vencidos nem vencedores, mas pessoas convencidas pela verdade.

             Adotar uma postura crítica e seletiva em relação aos meios de comunicação é necessário para que o excesso de informação não confunda e aliene. A convivência harmoniosa na sociedade multicultural só é possível pela cultura de diálogo, que se baseia na escuta, no pensamento crítico e na coragem de viver de forma consciente. Trata-se de um apelo à responsabilidade pessoal e coletiva neste mundo cada vez mais fragmentado e marcado pela diversidade cultural e constante mudança.

             A influência invisível da opinião pública molda os pensamentos e impõe uma uniformização das opiniões. Com isso, deixa-se de fazer uma apreciação própria sobre os assuntos para seguir o que muitos dizem. É salutar redescobrir o valor do silêncio, da reflexão individual e do contato direto com a realidade. Não permitir que o cansaço físico e mental, aliado ao ritmo frenético da vida moderna, impeça a reflexão profunda porque parece ser mais atrativo refugiar-se nas telas digitais para se afastar do contato humano direto que propicia o diálogo aberto e o olho no olho.

             Para criar a cultura do diálogo, algumas medidas são necessárias:

             1-Adaptar-se à realidade atual. Em vez de resistir às transformações sociais e culturais com nostalgia ou medo, viver o presente com abertura e autenticidade. Reconhecer que a história avança e que a identidade humana se constrói no diálogo com o mundo atual.

             2-O diálogo mais do que falar exige empatia, escuta ativa, amizade e autenticidade. Quem está em paz consigo mesmo encontra sua identidade e não teme acolher a opinião do outro. Esse respeito mútuo fomenta a verdadeira comunicação, mesmo entre pessoas com convicções ou opiniões diferentes.

             3- Abrir-se ao mundo, pois todos têm algo a ensinar, mesmo que as opiniões nos pareçam erradas, pois nelas pode se esconder de alguma parte da verdade. O encontro com culturas diferentes enriquece a nossa própria visão do mundo, como acontece com os que regressam do estrangeiro, que retornam com “olhos novos”.

             4. Compreender o outro exige mais do que informar-se, mas amar e ter simpatia para que da convivência nasça a cooperação real. Exemplo: os preconceitos históricos entre católicos e evangélicos na Alemanha só foram superados quando conviveram em situações-limite, como nos campos de concentração, onde todos se reconheceram como irmãos.

             5-Respeitar é mais do que tolerar: é aceitar as diferenças como valor enriquecedor e reconhecer a liberdade do outro para viver segundo a sua consciência. Certo rei polonês afirmou “não sou rei das vossas consciências”, o que revela que o respeito profundo é base para qualquer convivência justa. Tomás de Aquino, na Suma Teológica, expõe com elegância intelectual e imparcialidade os argumentos contrários aos dele.

             O verdadeiro diálogo é um exercício de humanidade, pois implica reconhecer a dignidade do outro, escutá-lo com o coração aberto para construir pontes entre mentalidades diferentes. Não se trata de anular as diferenças, mas de valorizá-las como fontes de enriquecimento mútuo.

             O papel transformador do diálogo é caminho de autenticidade, crescimento e paz. Jutta Burgraff nos desafia a comunicar a verdade com delicadeza, reconhecendo o outro como interlocutor digno e não como adversário.

             Condições para o diálogo verdadeiro:

             1-Dar a conhecer a própria identidade com transparência fomenta o verdadeiro diálogo, que não esconde o que se pensa para evitar conflitos, já que tal atitude conduz a uma falsa e superficial harmonia. A comunicação genuína, sincera e respeitosa, fortalece as relações: quanto mais fiel for cada pessoa à sua consciência, mais autêntica será a unidade que nasce da verdade partilhada. Ser fiel às próprias convicções não exclui a convivência, pelo contrário, faz crescer o respeito mútuo.

             2-Dialogar é dar e receber, é escutar com atenção e abertura, é reconhecer que o outro pode trazer uma perspectiva válida. O diálogo não é um debate para vencer, mas uma caminhada em comum rumo à verdade. Neste caminho, todos aprendem e crescem.

             3- Distinguir entre o essencial e o acidental. É importante diferenciar o que é fundamental e inegociável na nossa identidade, daquilo que é opinável ou relativo. Segundo Newman e Kierkegaard, absolutizar o relativo é sinal de rigidez e mediocridade espiritual. Saber discernir o essencial e o acidental é essencial para um diálogo maduro e produtivo.

             4-Humildade e abertura à verdade. Agostinho de Hipona dizia que ninguém deve afirmar que já encontrou plenamente a verdade. Devemos buscá-la juntos, com humildade e caridade. Esta atitude impede o orgulho e favorece uma escuta autêntica. No final, não haverá vencidos nem vencedores, mas pessoas convencidas pela verdade.

             5- Dialogar é caminho para a paz e maturidade; é praticar a arte de se aproximar do outro, mesmo quando surgem mal-entendidos ou desilusões. Dialogar ajuda vencer barreiras, acolher a diversidade como riqueza e crescer em humanidade. Por isso, é urgente educar para o diálogo, desde cedo, seja nas famílias, escolas, nos ambientes de trabalho e na sociedade. Encorajar o diálogo intergeracional, por exemplo, entre pais e filhos, em torno dos conteúdos consumidos, promove o uso ativo e consciente das telas digitais e da internet, em vez de os rejeitar por completo.

  • Beleza corporal e beleza interior

    Beleza corporal e beleza interior

             A aparência corporal é buscada na sociedade atual como sinônimo de bem-aventurança. O corpo se tornou protagonista principal da bem-aventurança: a beleza física, a saúde e a plenitude corpórea obtida com exercícios regulares, o prazer dos sentidos, a comodidade, o relaxamento, o conforto e o bem-estar do corpo fazem crescer demasiadamente o sistema físico e atrofiar o valor do desenvolvimento psicológico na busca da felicidade, ensina Fernando Sarráis, psiquiatra1.

             A falta de desenvolvimento psicológico aumentou no Ocidente, o que fez crescer o número de pessoas imaturas (neuróticas, em linguagem técnica), propensas a sofrer de enfermidades mentais, a ter mais conflitos no âmbito familiar, profissional e social, e a sofrer com vícios motivados pela busca de maior prazer, sempre confundindo isso com a busca da felicidade.

             O número de pessoas imaturas vem aumentando, pois a demanda pelo desenvolvimento corporal, as horas gastas para melhorar o visual a ser postado nas redes sociais, a falta de outros valores buscados nas boas obras literárias e religiosas, fizeram diminuir o número de pessoas com a formação adequada para incentivarem crianças, adolescentes e jovens a seguir por caminhos seguros e verdadeiros.

             À medida que cresce o número de indivíduos obcecados pelo desenvolvimento corporal perfeito, aumenta o descuido pelo equilíbrio interior devido ao enfraquecimento de duas habilidades importantes para o ser humano: a capacidade de introspecção e o domínio das funções psíquicas (percepção, imaginação, memória, pensamento e afetividade).

             A capacidade de introspecção é a habilidade de entrar em si para avaliar os estados interiores, identificar o que é necessário para construir uma personalidade rica e sadia e não ficar à mercê da opinião alheia. Já o domínio das funções psíquicas revela-se na capacidade de não depender dos estados de ânimo (sentimentos, emoções e paixões) para agir, mas sim motivados pela clareza da inteligência e determinação da vontade.

             A sociedade atual exagera a importância do êxito exterior: status social, poder, fama e riqueza material independentemente de como foi obtida, porque entende que a felicidade vem de fora, dos resultados que se obtém no mundo exterior, de quantos likes somou nas redes sociais. Com isso, sabe-se o modo de se vestir, o look do penteado, o que comer ou como se divertir, que esporte praticar, mas cega-se para o encontro com a felicidade que está em servir, em dar amor aos demais, quais as características psicológicas são necessárias para desenvolver uma personalidade rica.

             A beleza exterior resolve-se facilmente com um bom penteado, roupa, perfume e pouco mais, sendo fácil avaliá-la. Porém, a beleza interior, por ser mais valiosa, exige um pouco mais de empenho, mas oferece muito mais: torna a pessoa resiliente diante dos obstáculos, dá força para ser fiel aos compromissos, não troca sua honradez por ganhos fáceis, ama o bem e a verdade assumidos em valores ou modelos perenes da conduta, não se deixa influenciar pela opinião dos demais nas redes sociais (mal que tem levado adolescentes mulheres a estados depressivos e de ansiedade).

             Nota-se atualmente que pais e professores fomentam motivações externas ao exigir apenas que as crianças se destaquem socialmente nas boas notas escolares, dominem outro idioma, sejam esportistas de elite e se encaminhem para uma carreira que dê muito dinheiro. Seria mais sábio que as ajudassem a superar medos, vergonhas, timidezes, hipersensibilidades emocionais, condutas egoístas voltadas apenas ao que gostam e não ao que devem fazer. Por mais que tenham bom desempenho nos aspectos externos, se não tiverem valores interiores se tornarão dependentes, inconstantes, manipuláveis pelos meios de comunicação, imaturas frente às dificuldades da vida, ansiosas, incapacitadas para controlar emoções negativas (ódio, raiva, ira, preguiças, gula, inveja, ciúme) e desajustadas para trabalhos em equipe e a convivência social.

             Muitos adolescentes sabem o que querem ser ao crescer, mas não têm ideia de como gostariam de ser do ponto de vista de caráter e personalidade, pois desconhecem valores a assumir, já que seus educadores não os fizeram compreender a importância da beleza interior por meio das virtudes para obter a verdadeira felicidade.

             A maturidade psicológica consiste em obter equilíbrio entre inteligência, vontade e afetividade. Os sentimentos, emoções e paixões são aspectos irracionais da afetividade que devem submeter-se à inteligência e vontade para que haja harmonia nas ações humanas, tal como na orquestra os instrumentos obedecem à mente do maestro. Por isso, é necessário priorizar a formação da inteligência para que seja esclarecida com a verdade acerca de temas importantes, e educar a vontade para ter autodomínio sobre os impulsos da afetividade (comer, beber, dormir, descansar, desfrutar, sentir…). A educação da inteligência e da vontade deve começar desde a infância, a fim de que não arraiguem vícios difíceis de tirar na adolescência e juventude. Quanto maio for a força de vontade, mais liberdade terá a pessoa para não ser impulsionada exclusivamente pelo motor afetivo (sentimentos, emoções, estados de ânimo). A disciplina dos sentidos e dos sentimentos se faz por meio das virtudes ou hábitos contrários às desordens que por vezes ocorrem. Muitos vícios e transtornos comportamentais em crianças, adolescentes e jovens estão relacionados ao domínio da afetividade sobre a razão.