Categoria: FAMÍLIA

  • A arte e a cultura na educação dos filhos

    A arte e a cultura na educação dos filhos

             O contato com a arte e a cultura é essencial para qualquer pessoa, e deve começar na fase instrucional da criança. A falta de interesse de muitos pais por esses temas fará seus filhos se lamentarem mais tarde de que a falta gosto lhes atingiu porque seus pais agiram preguiçosamente nesses aspectos. Temas culturais e artísticos não são apenas extras na educação, porque fazem vivenciar experiências que unem conhecimento, emoção e realidade, tornam o processo de aprendizagem mais envolvente e significativo, entram em contato com tradições, histórias, valores e conhecimentos que ensinam a interpretar significados, analisar contextos e a refletir sobre questões sociais, políticas e históricas. Todos esses enfoques são fundamentais para potencializar as competências exigidas em qualquer atividade.

             Saber apreciar uma obra artística contribui para a construção da identidade: capacita para observar além das realidades cotidianas, torna a pessoa mais sensível e capaz de expressar suas emoções, estimula a imaginação e a criatividade, permite explorar ideias e desenvolver soluções originais para muitos problemas.

    Algumas iniciativas culturais para o desfrute familiar

             Não é necessário ser rico para estimular o encontro com a cultura ou admirar-se diante da multiforme capacidade dos artistas para transformar diferentes materiais em objetos plenos de beleza. Saber escolher o que é bom e belo pode ser realizado de diversas formas: selecionar bons vídeos culturais, artísticos e históricos e trocar impressões sobre eles; ir a encontros artísticos gratuitos em espaços públicos; visitar exposições e sites de museus; passear no campo ou parques para despertar o espírito de contemplação ao apreciar a natureza. A mãe de Gaudí, o grande arquiteto espanhol, levou seu filho desde criança para apreciar os campos, e o artista assimilou seus elementos e os colocou na famosa igreja da Sagrada Família, em Barcelona, onde as colunas do templo são como imensos caules de árvores segurando as abóbadas. Ao ouvir o canto dos pássaros e os infinitos seres que vivem junto às plantas, as crianças descobrem a beleza nas coisas simples, e não em imagens irreais das telas digitais.

             Cada família tem seu patrimônio cultural que deve ser transmitido às crianças por meio de fotografias, objetos de decoração que são lembranças de pessoas ou momentos vividos no passado, vídeos, gravações de viagens… Narrar a vida sacrificada e virtuosa de muitos familiares falecidos deixam marcas profundas e incentivam crianças e adultos a imitarem suas atitudes como uma marca ou tradição da família. As tertúlias ou bate-papo entre familiares e amigos podem abordar descontraidamente temas culturais e artísticos, narrar viagens ou prática esportiva, tocar instrumentos musicais… São momentos de forte imersão para todos, principalmente para as crianças e os adolescentes.

    Há muitos modos de fomentar nos filhos o amor à arte e à cultura:

    FILMES: o cinema pode se tornar uma metodologia simples e acessível para a educação dos sentimentos, nesta época em que impera a cultura da emoção e da imagem. Os enredos possibilitam o diálogo familiar diante de atitudes de personagens que tocam os afetos ao abordar aspectos essenciais da vida humana, ajudando a refletir como cada um conduz a própria vida. Os sentimentos, emoções e paixões não devem ser ignorados no processo educativo de adolescentes e jovens, e cabe aos pais e educadores servir-se da afetividade como porta de entrada para a compreensão da alma juvenil e seu universo atual.

    TEATRO: é expressão artística onde os atores apresentam histórias que despertam nos assistentes sentimentos variados e indagações que servem tanto para o conhecimento pessoal como para a vida, pois com seu forte realismo ganha-se experiência por meio de vidas alheias. O teatro ensina colaborar, escutar e trabalhar em grupo. As boas peças teatrais, mesmo em vídeos, nos colocam com diante do bem e do mal: noAuto da Compadecida aprendemos o que é um coração misericordioso; em Odisseia, de Homero, revela-se o valor da fidelidade, como a de Penélope e Ulisses; Macbeth, de Shakespeare, nos mostra como o desejo de poder pode levar uma pessoa a cometer loucuras; Hamlet traz à baila a tragédia de um príncipe que busca vingar a morte de seu pai, e essa densa narrativa de conflitos familiares, amores, loucura e sanidade desvenda até onde pode chegar a condição humana.

    PINTURA: apreciar pinturas pode parecer algo “simples”, mas na verdade traz várias vantagens emocionais e cognitivas. Há obras que despertam sentimentos profundos de calma, nostalgia, alegria e até inquietação, o que ajuda a entrar em contacto com as próprias emoções de forma mais consciente. Melhora a atenção aos detalhes ao treinar o cérebro a notar cores, formas, luz, sombras e composição. Essa observação refinada influencia a forma de ver o mundo no dia a dia. Certas obras fazem viajar no tempo ao abordar temas históricos, contextos sociais e ideias de diferentes épocas. A pintura estimula a criatividade ao ver como os artistas expressam suas ideias. Contemplar um quadro faz desacelerar, porque não é só “olhar”, mas interpretar, sentir e refletir. E quanto mais se aprecia essa arte, mais rica a experiência se torna.

    Como animar as crianças a visitar exposições de pintura? Entrar no site da galeria e selecionar junto com o filho, os quadros que ele mais gostou. Ao chegar no local, iniciar uma espécie de jogo de encontrar a obra, e perguntar à criança o que ela acrescentaria na pintura, a fim de que comece a se fixar nos detalhes. Mas não manifeste opinião negativa sobre o gosto da criança para não a desconcertar ou inibir.

    ESCULTURA é arte tridimensional: envolve altura, largura e profundidade. Transforma matéria bruta (pedra, madeira, ferro, bronze, mármore…) em significado estético, que leva o apreciador a admirar-se da capacidade criadora do artista de manejar instrumentos e dar “vida” a materiais inertes. Ao contrário da pintura, a escultura pode ser vista de vários ângulos e, em alguns casos, até tocada, o que cria uma relação mais física e imersiva com a obra. Esta arte carrega emoções e intenções do artista como dor, beleza, tensão, espiritualidade, e quem a observa pode até projetar os seus próprios sentimentos na obra. Muitas esculturas não são apenas decorativas, mas provocam ideias, questionamentos, debates sociais; podem trazer novas perspectivas sobre a vida, momentos históricos ou a condição humana. Frequentemente representam épocas, crenças ou figuras importantes, e fazem conectar-se com outras culturas. A escultura dialoga e transforma e embeleza o espaço público ou privado. O prazer de contemplar formas com equilíbrio e beleza é experiência que acalma, inspira e emociona.

    LIVROS DE LITERATURA enriquecem a nossa compreensão de mundo e abre a porta para realidades desconhecidas. “Sem a arte narrativa – e aí se enquadra o cinema – o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).

    As obras de qualidadepermitem sair do plano da vida cotidiana e imergir na trama de outras vidas. O amor pelos livros é forte antídoto para as crianças se verem livres do vício das telas digitais. Mas para isso, os pais devem se esforçar para ser bons leitores. Contos, romances e novelas oferecem muito mais à inteligência e à sensibilidade do que as longas horas deglutindo sucessivos programas de tv, desenhos, jogos eletrônicos e fotos em redes sociais. A leitura torna criativa a imaginação e desenvolve a inteligência para a compreensão de textos. Um excelente plano é ler para as crianças pequenas e visitar com elas livrarias, bibliotecas, feiras de livros, e deixá-las escolher um livro. Inscreva seu filho na biblioteca pública do bairro.

    POESIA: promover em casa a leitura dos grandes poetas é um grande recurso para amar a própria língua. Os poetas são os que melhor utilizam as palavras que, para eles, têm cor, cheiro, sabor, musicalidade. Com palavras bem pensadas e artisticamente colocadas, eles transmitem sentimentos e nos levam a expressar melhor o que sentimos, além de ensinar a utilizar os termos com mais precisão e concisão. Não se domina um idioma sem a leitura de seus poetas.

    MÚSICA: se os pais não desejam que as filhas pequenas cantem o que ouvem em exaustão nas mídias ou em pancadões em bairros da periferia – muitas vezes com letras ofensiva, mesmo que não entendam o que dizem –, e passem a imitar as danças sensuais que veem na TV, precisam introduzir as crianças ao que é estética e moralmente mais belo. Seja ao vivo ou em vídeos, promover para elas audições musicais de diferentes gêneros: Clássico, MPB, Samba, Frevo, Baião, Sertanejo, Blues, Jazz… Fugir da subcultura da moda, que vem causando grandes danos à sensibilidade estética.

             É tarefa dos pais promover um sadio ambiente cultural na família e ampliar a sensibilidade de todos diante das diferentes formas de beleza, dando eles o exemplo, pois “longo é o caminho com preceitos, mas breve e eficaz aquele com exemplos”, dizia Sêneca. Para isso, os pais podem contar com o apoio e sugestão de pessoas amigas e apaixonadas pela arte e cultura.

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  • Dar aos filhos um sentido de missão

    Dar aos filhos um sentido de missão

             Todos temos uma missão na vida. Os pais devem ajudar cada filho a descobrir a sua vocação, a fim de lhe dar um motivo grande para viver, não apenas sobreviver ou acumular bens (motivação extrínseca), mas ser feliz ao sair de si e ter um projeto de vida para servir aos demais com os próprios dons (motivação transcendente).

             Porém, o empobrecimento das relações familiares tem conduzido a conversas de curta duração e de pouco significado. Muitos pais se preocupam mais com o dinheiro para pagar as contas, do que abordar temas que configurem o caráter do filho e o ajude a desenvolver sua personalidade por meio de virtudes ou valores assumidos que esclareçam a inteligência e movam a vontade em direção a um ideal maior.

    O vício das telas digitais

             A geração atual de jovens cresceu sob a influência das telas digitais, utilizadas de forma desmedida para o entretenimento. Isso a faz padecer de inúmeros defeitos que os pais precisam diagnosticar e enfrentar com paciência e carinho, pois a escola não os substituirá nessa tarefa: falta de vontade, pouca resiliência diante das dificuldades, busca incessante de conforto e entretenimento, consumo de pornografia, atraso na maturidade, enfraquecimento da vontade e sobrevalorização dos sentimentos e emoções como regras de conduta, medo de arriscar-se, tendência ao imediatismo e ao resultado a curto prazo, fuga do silêncio necessário para o pensar com profundidade, incapacidade para ver além do óbvio, desprezo pelo trabalho e o estudo…

    Construir um ambiente familiar formativo

             O pouco tempo que a vida moderna permite aos pais conviver com cada filho deve ser um tempo de qualidade, não apenas de convivência sob o mesmo teto. Interessa criar no lar um ambiente que favoreça o estudo e fomente hábitos de trabalho como meio de crescimento pessoal, profissional e espiritual. Um ambiente de trabalho e estudo afasta distrações inúteis e fomenta metas altas, concretas, e ambições nobres. Por isso, é importante examinar se o próprio lar é formativo, ao tratar de questões profundas, ou se nele prevalecem temas supérfluos.

             Como construir um ambiente familiar que edifique a personalidade do filho e o ajude a concluir que o tempo não é interminável, mas algo que se esvai? Como conscientizá-lo de que o vício das telas digitais, que adquiriu, enfraquece seu caráter para abraçar projetos mais altos? Como ajudá-lo a desenvolver as virtudes necessárias para suas circunstâncias atuais e futuras responsabilidades familiares, profissionais, sociais e pessoais?

             Para construir um ambiente familiar formativo, os pais precisam ajudar cada filho a assumir valores ou modelos de conduta em direção ao bem e à verdade como atitudes próprias. Porém, transmitir valores não se restringe a dizer para não utilizar drogas, não acessar pornografia na internet, não namorar na adolescência, nem gastar o tempo em redes sociais ou games. Serão necessárias razões antropológicas que ajudem ao jovem a ter elementos para compreender sua dignidade, valor, identidade e lugar n mundo. Para isso, os pais podem ler, por exemplo, as razões humanas que Catecismo da Igreja Católica oferece na parte dedicada aos atos morais (o catecismo está disponível gratuitamente no site do Vaticano), selecionar no Youtube vídeos de orientadores familiares com doutrina segura acerca da pessoa humana, indo à  página “Boletins por temas”, no site staging.ariesteves.com.br/… Com isso, oferecerão a cada filho respostas esclarecedoras e convincentes sobre os interrogantes atuais, ajudando-o a formar a consciência e desenvolver o hábito da reflexão pessoal, tão necessário para cultivar convicções pessoais fortes e profundas para mover a vontade a agir em direção à verdade, ao bem e à beleza, e saber orientar outros amigos.

    Desenvolver as habilidades pessoais

             Ajudar cada filho a desenvolver a habilidade que nele se destaca − seja no campo da literatura, arte, esporte, religião, humanidades, saúde, ciência, tecnologia ou outro −, e ter um projeto de vida para se dedicar. Cada adolescentes possui uma competência ou aptidão especial, que talvez nem a perceba ou valorize. Cabe aos pais fazê-lo notar isso, se necessário ao trocar impressões entre si para diagnosticar a capacidade do filho, buscar conselho com professores, ler artigos ou ouvir palestras no Youtube de psicólogos e pedagogos sobre como identificar as aptidões do filho, além de animá-lo a preencher testes vocacionais gratuitos na internet, caso a dúvida ainda permaneça. Ver também nosso boletim: O adolescente e a escolha da profissão.

             Competência é um comportamento observável e habitual que facilita o êxito em alguma atividade ou função, e resulta de características inatas, conhecimentos, motivações e habilidades da pessoa (gosto é diferente de aptidão: posso gostar de futebol, mas não ter habilidade para praticar esse esporte).

             Certas profissões exigem inteligência relacional para entrosar-se com pessoas; outras, inteligência mecânica para destrinchar problemas práticos; algumas, inteligência abstrata dotada para estudos teóricos. Cada qualidade se manifesta no dia a dia da vida familiar: habilidade para consertar objetos; aptidão para ouvir, aconselhar e fazer amizades; talento para prever e organizar; liderança; capacidade de manter atenção e aprofundar nos assuntos, etc.

             Além da competência técnica, conhecida como habilidades difíceis (hard skills), as empresas valorizam hoje em dia os virtuosismos comportamentais ou habilidades sociais (soft skills). Os soft skills são mais subjetivos e requerem o desenvolvimento interpessoal como empatia, capacidade de ouvir, habilidades para comunicação, interagir positivamente em equipes, entre outras. A união das habilidades técnicas com os virtuosismos comportamentais faz cada filho se destacar em sua área de atuação.

             Para o desenvolvimento das habilidades sociais (soft skills), os pais devem observar como os filhos cuidam de seus objetos, como reagem às contrariedades, se são responsáveis ou preguiçosos, corajosos ou covardes, indiferentes ou preocupados com os demais, respeitosos ou grosseiros, serviçais ou egoístas. Depois, trata-se de ajudá-los a desenvolver as virtudes que lhes faltam, e que apoiarão os talentos e habilidades técnicas que possuem para melhor servir aos demais: generosidade, espírito de serviço, solidariedade, austeridade, responsabilidade, fortaleza, temperança, castidade e sinceridade. Essas virtudes devem ser desenvolvidas com mentalidade alegre e espírito esportivo e pronto para recomeçar após cada falha, vendo nas dificuldades um modo de treinamento das virtudes.

    Os pais e a qualidade do tempo que oferecem aos filhos

             A família é o ambiente mais próximo da pessoa e o primeiro âmbito para a formação integral: inteligência, vontade e afetividade (sentimentos, emoções e paixões). Nela se aprende que os verdadeiros valores não dependem de estados de ânimo ou da opinião pessoal, porque são guias e critérios de conduta que orientam para bens elevados e não mudam ao sabor das opiniões pessoais ou com o passar do tempo. Se alguém assume como valor a riqueza, o bem-estar, poder, divertimentos, ficará à mercê da instabilidade própria desses bens passageiros. Porém, se busca valores estáveis e permanentes como amizade, honra, fidelidade, solidariedade, Deus, verdade, família, servir com seus talentos, dará grande sentido à sua vida.

             Como foi afirmado no início deste texto, o pouco tempo que a vida moderna oferece aos pais para estar com os filhos, deve ser um tempo de qualidade, não apenas de convivência sob o mesmo teto. Por isso, fazer o filho perceber o que todos notam: que o vício das telas que adquiriu está desfigurando sua personalidade e projetando-o como alguém sem responsabilidade e ávido por frivolidades, e que impedirá sua inteligência e vontade de abraçar ideais mais elevados. O tempo não é interminável, mas algo que se esvai, e gastá-lo apenas em entretenimento é deixá-lo escorrer para o ralo. O melhor é utilizar o tempo para desenvolver a competência pessoal que possui e se preparar para a futura profissão.

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  • Educar o coração desde a infância

    Educar o coração desde a infância

             Os sentimentos formam-se sobretudo na infância, sendo os pais os principais responsáveis por ensinar a amar e a servir. A boa formação afetiva dos filhos depende de pais emocionalmente equilibrados, que sabem ser a educação dos filhos continuação do amor dos pais entre si, pois isso dá segurança às crianças, ajudando-as a crescerem felizes e prepararem-se para a vida. Educar bem os filhos começa desde cedo pela educação dos afetos (sentimentos, emoções, paixões). Crianças educadas com equilíbrio emocional enfrentam melhor as dificuldades da adolescência, juventude e maturidade, além de desenvolverem mais fortemente a inteligência e a vontade, pois sem a harmonia afetiva é mais difícil o desenvolvimento do espírito (inteligência e vontade).

              Os sentimentos não devem escapar ao controle da vontade, mas serem orientados por ela. Os afetos têm origem no coração humano e são um motor importante das ações, quando direcionados para o bem pela inteligência. Bem formados, os sentimentos incentivam comportamentos corretos e ajudam a evitar o mal ao apoiar o raciocínio na direção do bem. A vida moral não deve basear-se apenas nos sentimentos, mas também não deve ignorá-los. Os afetos devem ajudar o agir correto, sem dominar a razão. Os sentimentos dão força e entusiasmo às ações, enquanto a razão orienta e harmoniza essas emoções.

             As paixões não são más em si; pelo contrário, dão força para agir corretamente, quando bem orientadas. Em vez de suprimi-las, é necessário educá-las e direcioná-las para o amor a Deus e ao próximo. Assim, os pais devem ajudar os filhos a encontrar alegria em fazer o bem e servir, formando um coração equilibrado e virtuoso. Atribuir às crianças tarefas no lar, apropriadas à idade de cada uma, faz com elas cresçam em espírito de serviço, e comecem a compreender que o amor está em servir e não em ser servido. Por isso, os pais não devem substituir as crianças naquilo que elas conseguem fazer. A superproteção, que retira das crianças o que elas poderiam fazer, as torna individualistas e unicamente metidas em seus interesses, sem participar dos afazeres do lar e na ajuda aos pais e irmãos. As crianças gostam de colaborar com os pais e se sentem felizes ao fazerem isso.

             A formação da afetividade começa por ajudar os filhos a se conhecerem e a compreenderem seus sentimentos, a fim de equilibrá-los para reagir em proporção à realidade, sem darem notas dissonantes, ou exageradas . Isso inclui aceitar as situações que não podem ser mudadas, e confiar em Deus.

             Os pais devem dialogar com os filhos para os ajudar a entender e superar emoções como medo, irritação ou antipatias. A educação dos sentimentos também pode valer-se dos exemplos retirados da literatura, histórias e filmes que ensinam a reagir e a enfrentar corretamente as situações. Essas experiências ajudam a desenvolver emoções positivas, como compaixão, justiça, fortaleza, determinação e incentivam o desejo de viver de forma mais nobre e equilibrada. O contato com boas histórias ajuda a desenvolver o gosto estético e o sentido crítico, prevenindo a vulgaridade e a falta de pudor. Os pais devem ensinar os filhos a rejeitar ambientes que banalizam os sentimentos e empobrecem a sensibilidade.

             A educação da afetividade é mais ampla do que a educação da sexualidade, mas um ambiente familiar de confiança facilita o diálogo sobre o amor humano e ajuda a orientar corretamente essa dimensão da vida. (ver boletim Filhos: informação sexual, em staging.ariesteves.com.br/). A educação das emoções visa formar um coração capaz de amar a Deus e aos outros, com compreensão, perdão e espírito de sacrifício, sem contabilizar as obras de amor. Um ambiente familiar de amor, confiança e serenidade ajuda os filhos a crescerem com equilíbrio emocional, favorecendo sentimentos positivos e ensinando a lidar com os negativos de forma construtiva.

             É importante orientar o coração para o que realmente importa, sobretudo para Deus. Assim, ao ordenar e disciplinar os sentimentos, a pessoa torna-se mais livre para amar o que realmente interessa de forma profunda, plena e verdadeira.

             O coração é visto como o centro da pessoa, que precisa ser formado e orientado para o bem, afastando-o do egoísmo e do comodismo. Ao viver segundo o exemplo de Cristo, a pessoa amadurece afetivamente, tornando-se mais generosa e capaz de agir segundo a vontade de Deus. Mesmo diante de dificuldades, esse crescimento permite compreender e controlar melhor as emoções, encontrando apoio em Deus.

    Resumo do texto de J.M. Martín, J. Verdiá, em https://opusdei.org/pt-br/article/educar-o-coracao/ Imagem: ChatGPT. Veja também o nosso boletim “Educar o coração” https://staging.ariesteves.com.br/2023/02/educar-o-coracao/

  • Meu filho não é o anjo que eu imaginava!

    Meu filho não é o anjo que eu imaginava!

             Há um momento em que os pais atravessam uma espécie de decepção: a percepção de que o filho real não corresponde totalmente ao filho idealizado. Frases como “a sua filha não foi honesta” ou “o seu filho foi o provocador” podem variar, mas o impacto é semelhante. Mesmo quando se trata de erros pequenos — uma mentira, uma exclusão ou uma atitude cruel — algo se nos pais se quebra internamente. O filho não é um “monstro”, mas deixa de ser o “anjo” imaginado.

             O amor leva os pais a criar uma imagem ideal do filho: justo, generoso, corajoso. Durante a infância, essa visão suaviza os defeitos, interpretando-os de forma positiva. No entanto, com a chegada da pré-adolescência, a dimensão moral torna-se mais clara: já não são apenas atitudes inocentes, mas escolhas que afetam os outros.

             Imaginemos um pai que, após falar com o professor, descobre que o filho não foi vítima de um mal-entendido, mas sim o responsável por uma mentira que prejudicou um colega. Nesse momento, mais do que raiva, surge uma sensação de estranheza: “quem é este filho?”. O “menino doce” dá lugar a alguém capaz de ferir intencionalmente, sendo esse o duelo mais difícil: aceitar que o próprio filho pode magoar os outros de forma consciente.

    Dor pelo filho e pela ingenuidade dos pais

             Surge então um duplo sofrimento: pelo filho e pela própria ingenuidade dos pais. No fundo, não é tanto uma desilusão com o filho, mas com a imagem idealizada que os pais criaram. O que dói é ver cair essa visão perfeita. No entanto, educar exige realismo: os filhos não precisam de pais fascinados pelo encanto, mas de adultos capazes de encarar a verdade com equilíbrio. Aceitar que o filho tem falhas não é falta de amor, mas um ato de humildade. O papel dos pais não é defendê-lo sempre, mas ajudá-lo a assumir responsabilidades. Negar os erros pode parecer protetor, mas acaba por confundir, pois transmite a ideia de que a aparência vale mais do que o comportamento.

    Sem visão crítica não há reflexão, e sem reflexão não há mudança.

             A diferença entre o filho idealizado e o real costuma tornar-se evidente na escola, que funciona como o primeiro espelho social, sem o filtro do afeto familiar. É aí que a criança deixa de ser o centro e passa a ser apenas mais um entre os outros, e onde os seus erros ganham dimensão pública. Por isso, quando a escola aponta uma falha, não pretende atacar a família, mas mostrar uma realidade que o amor dos pais tende a suavizar.

             Na atual cultura de superproteção, a correção é muitas vezes vista como agressão. No entanto, proteger não é evitar todo o desconforto, mas ajudar a criança a lidar com ele. Perceber o erro não deve ser evitado, pois se trata de uma oportunidade essencial de aprendizagem. Se os pais “escondem” a realidade para evitar sofrimento, impedem o filho de compreender as consequências dos seus atos. Sem esse desconforto, não há reflexão nem crescimento.

             Um adolescente que burla dos outros não está condenado a ser cruel, mas precisa entender o impacto das suas ações. Uma criança que cola não está definida pela desonestidade, mas precisa aprender que a verdade é mais importante do que o resultado. O essencial não é a perfeição, mas o que se aprende após o erro.

    O erro é parte do processo de aprendizagem

             A filosofia moral lembra-nos que as virtudes não surgem espontaneamente, mas aprendem-se dentro de práticas e comunidades. Como explica Alasdair MacIntyre, ninguém se torna justo ou corajoso apenas por inclinação natural; o carácter forma-se através de hábitos e de padrões externos que orientam o comportamento. Assim, o erro não é algo estranho, mas parte do processo de aprendizagem. O filho não é “bom por natureza” nem está perdido por falhar: está em formação.

             Esse desenvolvimento não acontece isoladamente. Família e escola fazem parte da mesma “comunidade moral”. Estudos de Diana Baumrind mostram que os filhos se tornam mais autónomos e responsáveis quando crescem em ambientes que equilibram afeto e exigência. Não basta amar nem apenas impor regras: o essencial é a coerência entre ambos.

    Família e escola devem atuar em concordância

             Quando a escola corrige um comportamento e a família o desvaloriza, a mensagem torna-se confusa. Mas quando ambos atuam com clareza e equilíbrio, o jovem compreende que as suas ações têm consequências e que pode aprender com elas. Se o erro é tratado com realismo e serenidade, transmite-se ao filho uma ideia essencial: o seu valor não depende do seu comportamento imediato. Essa é a verdadeira forma de amor incondicional.

             Estudos sobre o ambiente escolar mostram que a colaboração entre famílias e professores reduz o bullying e aumenta o sentimento de pertença. Essa coerência não é apenas organizacional: é fundamental para a formação do jovem. Se o aluno percebe que os adultos se contradizem, aprende que as regras são relativas e que pode evitar responsabilidades. Mas, se há consistência entre família e escola, entende que os limites não são arbitrariedades, mas formas de cuidado e orientação.

    O limite como prova do amor incondicional

             Quando um filho erra e os pais não negam nem exageram a situação, mas a enfrentam com serenidade e continuam a amá-lo, transmite uma verdade fundamental: o seu valor não depende do seu comportamento. Esse é o verdadeiro amor incondicional. O filho não é amado por ser sempre correto, mas por ser quem é. E é precisamente por amor que os pais o corrigem, pois sabem que a felicidade não é compatível com a injustiça, a mentira ou o desrespeito pelos outros. Corrigir não significa retirar amor, mas exercê-lo de forma exigente.

             Aprender a lidar com os erros sem perder o afeto é profundamente formador. A criança percebe que pode reconhecer falhas sem perder o seu lugar e entende que o amor não desaparece com o erro, mas também não o ignora. Assim, o “pequeno duelo” dos pais — aceitar que o filho real não corresponde ao idealizado — não é uma derrota, mas o início de uma educação mais verdadeira. Só ao abandonar a ilusão de perfeição é possível acompanhar o crescimento moral do filho, que, com as suas imperfeições, é mais educável do que a versão idealizada.

    Resumo do artigo “El duelo de abrazar al hijo real”, de Maria Paz Montero Orphanopoulos, em ACEPRENSA https://www.aceprensa.com/familia/el-duelo-de-abrazar-al-hijo-real/. Resumo elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/

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  • Atividades de entretenimento em família

    Atividades de entretenimento em família

             O que faz uma família manter o hábito de atividades conjuntas de entretenimento? Não é nada fácil. Eu, por exemplo, gosto de filmes de ação, futebol e séries da National Geographic, minha esposa aprecia séries românticas dos streamings. Por sua vez, meus dois filhos não abrem mão de filmes da Marvel e DC, vídeos do YouTube e, obviamente, futebol. 

             É possível que uma programação atraia a todos nós e consigamos realizar coisas juntos? Certamente, é difícil isso acontecer de forma tal que todos se divirtam de forma autêntica. Quando isso se dá, parece quase um milagre. Idas ao parque, casa de amigos em comum, refeições em família em casa ou em bons restaurantes são boas pedidas. Mantenho a firme a convicção de pai de que quanto mais fazemos as atividades em conjunto, mais fortificado fica a família.

             Encontramos há pouco um jogo de tabuleiro chamado Hister que está fazendo o maior sucesso aqui em casa! O objetivo é simples, porém viciante: organizar as músicas em ordem cronológica na sua linha do tempo musical! Não somos uma família musical, porém a combinação de um jogo das antigas que envolve cartas com músicas do catálogo do Spotify acaba divertindo a todos!

             Outro sucesso que empolgou toda a família nestas férias foi o seriado Jovem Sheldon (Young Sheldon). Trata-se de uma série de televisão criada e produzida por Chuck LorreeBill Prady que estreou na CBS em 25 de setembro de 2017. A série é um Spin Off de Big Bang Theory e acompanha o genial Sheldon em sua infância e adolescência em que vive com sua família no Texas. O tema central do enredo mostra as agruras do convívio de um menino superdotado com sua “família normal” da década de 80. 

             Inicialmente você pode pensar que a série é sobre o pequeno Sheldon Cooper, o qual vai crescendo no decorrer da série, e as esquisitices de um gênio egocêntrico e incompreendido na infância. Todavia, no decorrer da série, você começa a perceber que os irmãos e os pais ganham relevância e toda a família desperta interesse. E as estratégias utilizadas por essa família normal para fazer o melhor pelo gênio da família constroem um enredo bastante envolvente.

             A irmã gêmea Missy, não herdou a genialidade de Sheldon. Porém, tem uma inteligência emocional gigante, vive intensamente como uma menina da sua idade e com o tempo aprende a conviver com o irmão gênio. O irmão mais velho Georgie é um típico adolescente da década de 80. Se arrisca em novas aventuras e não tem medo de nada. Sabe recuar e ter a humildade de pedir desculpas. A mãe, Mary, é uma pessoa bastante religiosa que conduz a família com sensibilidade e compreensão em relação a todos. Seu marido, George, é um técnico escolar de futebol americano que de maneira simples procura atender as necessidades de todos os familiares. Por fim, temos avó materna, figura debochada e liberal, que traz leveza e, de alguma forma, representa um ponto de equilíbrio no ambiente.

             Por que esse seriado funcionou tão bem em nosso contexto familiar? A título de esclarecimento, citamos a frase “é a economia, estúpido!”, cunhada em 1992 por James Carville, então estrategista de campanha do ex-presidente Bill Clinton. Tal frase tornou-se um mantra político mundial desde então para destacar a importância do desempenho econômico nas eleições. E, para explicar o sucesso de Jovem Sheldon que tão profundamente uniu nossa família, parafraseamos a citação de James Carville: “é a família, estúpido”.

             Lembro-me de quando meus filhos tinham 3 e 6 anos e estávamos com dificuldades de encontrar estes momentos. O professor Pablo me deu de presente o DVD do filme A Noviça Rebelde (The Sound of Music). Ele me disse que na sua infância, as músicas cantadas por junto às crianças e a conquista do coração do durão capitão Von Trapp (Cristopher Plummer) deram certo.  Tentei, imaginando que o filme estava ultrapassado e que não funcionaria… Para a minha surpresa, deu muito certo. Já vimos a Noviça Rebelde em família umas 20 vezes desde então. Todos concentrados no filme, ninguém distraído com celular ou outras telas…

             Acredito que é necessário ser feliz individualmente sempre. Por outro lado, conseguir em alguns momentos que o entretenimento e a felicidade sejam usufruídos em um grupo familiar representa uma grande vitória em nossas vidas. Assim, encerro essa reflexão, parafraseando James Carville novamente: “é a família, estúpido”.

  • Os primeiros sete anos moldam o cérebro da criança

    Os primeiros sete anos moldam o cérebro da criança

             Os primeiros anos de vida não são apenas uma fase de crescimento físico. Entre o nascimento e os sete anos, o cérebro da criança atravessa o período mais decisivo de toda a sua formação. É nesse tempo — e não apenas na adolescência ou na vida acadêmica — que se constrói a base emocional, relacional e cognitiva que acompanhará o indivíduo ao longo da vida.

             A neurociência mostra que, nessa fase, o cérebro infantil funciona como uma matéria extremamente moldável. Cada experiência cotidiana — o tom de voz dos adultos, os abraços, os silêncios, os gritos, a presença ou a ausência, as rotinas da casa, o uso excessivo de telas digitais — vai deixando marcas profundas. A criança aprende não apenas conteúdos, mas formas de sentir, reagir, confiar e se relacionar com o mundo.

             Vale que especialmente as mães (nessa fase, os cuidados maternais são muito importantes), pais e cuidadores façam pausas honestas para refletir: O que meu filho aprende com a maneira como falo com ele? O que ele sente quando chego cansada e impaciente? Que mensagens emocionais estou transmitindo nos momentos simples do dia?

    O cérebro se constrói nas relações

             Durante os primeiros anos, o cérebro cria milhões de conexões por segundo. Estudos do Center on the Developing Child, da Universidade de Harvard, mostram que as experiências precoces constroem literalmente a arquitetura cerebral. A criança não apenas cresce: ela vai sendo organizada por dentro, e os adultos próximos — pais, mães e cuidadores — têm papel central nesse processo.

             Muito do que o cérebro aprende não vem de explicações ou discursos, mas das experiências repetidas. Quando a criança é acolhida, consolada, escutada e protegida, seu cérebro aprende segurança. Quando encontra rejeição constante, tensão ou indiferença, aprende alerta e defesa.

             Isso acontece mesmo nos dias comuns, quando o adulto está cansado, distraído ou sobrecarregado. A criança registra o clima emocional do ambiente: calma ou caos, previsibilidade ou instabilidade, afeto ou distância.

    Presença é mais importante que perfeição

             Nenhuma mãe ou pai consegue acertar sempre. E não é isso que o cérebro infantil precisa. O que realmente constrói um desenvolvimento saudável é a presença emocional: responder ao chamado da criança, olhar nos olhos, escutar, acolher.

             Na ciência do desenvolvimento, isso é chamado de interação afetiva — aquele diálogo silencioso em que a criança busca contato e o adulto responde. Um olhar que encontra outro olhar. Um choro que encontra colo. Um medo que encontra abraço. Essas pequenas trocas organizam circuitos cerebrais ligados à calma, à atenção e ao vínculo seguro.

             Quando a criança chora e alguém a consola, o cérebro aprende: o mundo é seguro. Quando erra e não é humilhada, aprende: posso tentar de novo. Quando se assusta e é acolhida, aprende: não estou sozinha. Essas mensagens não ficam guardadas como lembranças narráveis, mas como memória emocional, que influencia toda a vida adulta.

    O estresse infantil também ensina e cobra seu preço

             Assim como aprende com o amor, o cérebro também aprende com o estresse. Gritos frequentes, tensão constante, pressa permanente, humilhações, violência verbal ou emocional ensinam a criança a viver em estado de alerta.

             Nessas condições, o organismo libera cortisol, o hormônio do estresse. Em pequenas doses, ele é natural. Mas quando o estresse se torna repetido, o cérebro passa do modo de aprendizado para o modo de sobrevivência. A criança pode se tornar mais irritada, dispersa, ansiosa, chorosa ou excessivamente quieta. O corpo fala aquilo que ela ainda não consegue expressar em palavras.

             Importante lembrar: o estresse não vem apenas de grandes traumas, mas também das pequenas atitudes repetidas todos os dias.

    Sempre é possível reparar

             A boa notícia é que o cérebro infantil é altamente plástico. Ele pode se reorganizar, aprender de novo e se acalmar quando encontra um adulto disponível e sereno. A ciência chama isso de corregulação: a criança aprende a regular suas emoções a partir da regulação do adulto.

             Quando o adulto abaixa a voz, respira fundo, nomeia o que a criança sente e oferece contato físico, o cérebro infantil recebe uma mensagem poderosa: estou segura agora.

             O lar não precisa ser perfeito. A infância não precisa ser livre de dificuldades. O que a criança realmente precisa é de um adulto que tente novamente: um olhar mais atento, um abraço mais demorado, uma escuta verdadeira.

    Três cuidados essenciais para o cérebro infantil

             Entre zero e sete anos, três elementos simples nutrem profundamente o desenvolvimento cerebral:

    • Brincadeira livre, sem telas excessivas
    • Linguagem viva: conversar, contar histórias, ler, nomear o mundo
    • Contato físico afetuoso: abraços, carinho, presença corporal

             Esses gestos não custam dinheiro, mas constroem a base emocional de toda uma vida.

             No fim do dia pergunte-se, não para gerar culpa, mas afinar a consciência: – Meu filho escuta mais ordens apressadas ou sente que é escutado? A resposta pode doer — e justamente por isso pode abrir espaço para mudanças pequenas e possíveis. Sempre há tempo para recomeçar com um gesto mais gentil e um “estou aqui”.

  • 7 hábitos que ensinam disciplina e respeito aos filhos

    7 hábitos que ensinam disciplina e respeito aos filhos

             “Por que meu filho não me obedece? Por que ele não respeita limites? Por que parece que tudo o que eu falo entra por um ouvido e sai pelo outro?”

             O problema não está na criança, diz a psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa, mas na forma como se transmite disciplina e respeito. Hoje se confunde amor com permissividade e pensa-se que dizer “não” traumatiza os filhos. O resultado é uma geração de crianças e adolescentes que não sabe lidar com a frustração, não sabe o significado de responsabilidade, e acredita que o mundo gira ao redor deles. Porém, nunca é tarde para estabelecer as bases de uma educação sólida.

             Ana Beatriz ensina 7 hábitos psicológicos que podem ajudar a educar os filhos. Não se trata de fórmulas mágicas, mas de princípios baseados em neurociência, psicologia do desenvolvimento e de experiências clínicas que podem mudar não apenas a relação com os filhos, mas o futuro deles como pessoas íntegras, responsáveis e respeitosas.

    1. Consistência: o princípio mais negligenciado

             Quando as regras mudam com frequência, porque dependem do humor dos pais, estabelece-se no cérebro da criança o caos absoluto, a insegurança e a ansiedade. O cérebro infantil está em constante processo de mapeamento do mundo, e para isso necessita de previsibilidade e de padrões de causa e efeito.

             Quando os pais dizem “não” hoje e “sim” amanhã para o mesmo assunto; quando estabelecem uma regra e não a cumprem; quando ameaçam e nunca agem, estão desorganizando o sistema lógico dos filhos, tal como ficaria confuso o motorista que entrasse numa cidade onde as cores dos semáforos fossem aleatórias: o verde significaria algumas vezes “pare”, o vermelho “siga” e o amarelo “fique desatento”. As crianças se sentem confusas diante de pais inconsistentes e perdem a confiança neles: consistência não é rigidez, mas confiabilidade, e esta é a base de todo respeito.

    2. O poder do “não” amoroso

             Uma frase que virou tabu na educação contemporânea é que dizer não causa traumas irreparáveis nas crianças. Com isso, desenvolveu-se um medo coletivo de frustrar os filhos, ofertando a eles passe livre para o que desejarem. Mas eis uma verdade inconveniente: os filhos precisam enfrentar frustrações, pois são essenciais para o desenvolvimento emocional saudável. Sem isso, criam-se crianças emocionalmente frágeis, incapazes de lidar com os desafios. Existe uma diferença entre um “não” autoritário e um “não” amoroso: o não amoroso é firme, empático, explicativo, porque valida o sentimento da criança, e mantém vivo os limites. Os sentimentos devem ser validados diante de um motivo justo que chateou ou irritou a criança, sendo necessário compreender seu estado de ânimo. Porém, não o mau modo como ela manifesta seus sentimentos: -“Compreendo que você ficou chateado porque seu irmão quebrou o seu brinquedo. Mas não está certo você bater nele. O que vamos fazer é pedir a ele para que dê a você um dos brinquedos dele”. O bater no irmão não foi aprovado, mas o sentimento de desconsolo foi compreendido.

    3. Consequências naturais e lógicas

             Aqui está outro conceito transformador: consequências naturais e lógicas não são punições arbitrárias, baseadas no medo, mas consequências consistentes que ensinam a ser responsável devido ao binômio causa e efeito. A vida é excelente professora: se o adolescente esqueceu de levar o lanche ou o casaco para a escola, apesar de ter sido avisado de o fazer, não saia correndo até a escola para entregar o que foi esquecido. A consequência lógica de passar fome ou frio educará o cérebro para ser mais pronto em alertar sobre as consequências.

    4. Os pais ensinam pelo exemplo

             Não se ensina o que não se pratica! Os filhos aprendem muito mais com o que veem os pais fazerem do que com mil palavras que proferem. As crianças são espelhos que refletem seus pais: se os pais querem ensinar respeito, sejam respeitosos; se querem ensinar serenidade, sejam calmos; se querem que os filhos assumam responsabilidade, devem assumir as próprias. Pais que pedem desculpas, admitem seus erros e mostram vulnerabilidade, ensinam que errar é humano.

    5. Comunicação conectada

             Comunicação conectada exige dos pais escuta real, validação emocional e presença no lar. Antes de corrigir, conectem-se com o filho; antes de ensinar, mantenham olho no olho, escutem e entendam; antes de disciplinar, sintam as disposições da criança, pois se não forem boas no momento, aguardem que melhorem antes de corrigi-la.

    6. Autonomia progressiva

             Quanto mais os pais substituem os filhos nas tarefas que estes podem realizar, menos os preparam para a vida. Ensinar autonomia é como subir uma escada com a criança pela primeira vez; depois, ficar atrás dela e apenas acompanhar. Errar faz parte do processo de aprendizado. Porém, a proteção excessiva rouba as oportunidades de a criança crescer em autoconfiança, que é uma das maiores heranças que os pais podem transmitir aos filhos.

    7. Rituais familiares

             Rituais criam previsibilidade, segurança e conexão emocional. Não precisam ser complexos, mas simples e constantes para construir a identidade familiar: ler para a criança antes de dormir; ao chegar do trabalho, sentar-se no chão e brincar com ela por 15 minutos; o beijo e o abraço quando ela sai para a escola; partilhar todos juntos ao menos uma das refeições diárias, sem celular e televisão, para ouvir e falar… Todos esses hábitos constroem saudável memória afetiva na criança

             Ao aplicar esses 7 hábitos com paciência, logo ocorrerão mudanças profundas no comportamento dos filhos, e também na relação e no futuro emocional deles.

  • Rotinas familiares dão segurança às crianças

    Rotinas familiares dão segurança às crianças

             As rotinas ou rituais familiares desempenham um papel fundamental no desenvolvimento saudável das crianças, pois oferecem estrutura, previsibilidade e segurança emocional num mundo que, para elas, ainda parece confuso e imprevisível.

             Em primeiro lugar, as rotinas ajudam a criança a sentir-se segura. Saber o que vai acontecer a seguir — a hora de acordar, comer, brincar ou dormir — reduz a ansiedade e aumenta a confiança. Essa previsibilidade cria um ambiente estável, essencial para o bem-estar emocional. O cérebro infantil aprecia rotinas, pois elas ajudam a criança a orientar-se no tempo e nas atividades, fazendo com que o mundo faça sentido.

             Além disso, as rotinas contribuem para o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade. Quando a criança participa dos hábitos diários, como arrumar os brinquedos, lavar as mãos antes das refeições, ajudar na reparação da mesa para as refeições ou preparar-se para dormir, aprende gradualmente a cuidar de si e a compreender regras e limites.

             Criar rotinas ou rituais familiares oferece estabilidade e paz no lar. Rituais simples como a hora do banho, do jantar e da história antes de dormir criam momentos de conexão emocional que se tornam verdadeiras âncoras na memória afetiva da criança. A experiência mostra que, anos depois, já adultos, os filhos recordam-se não de presentes caros ou viagens exóticas, mas dos rituais simples: as histórias antes de dormir, o bolo no lanche dos domingos, as conversas no carro a caminho da escola, as brincadeiras com os pais e irmãos.

             Alguns rituais diários têm um impacto profundo no emocional infantil. Antes de sair para a escola, por exemplo, um abraço de dez segundos acompanhado de uma frase de encorajamento liberta ocitocina, o hormônio da conexão, e ajuda a definir o tom emocional do dia. O ritual do jantar em família, sem televisão ou celulares, favorece o diálogo, ensina a ouvir e a ser ouvido e cria oportunidades para os pais partilharem como foi o seu dia, pois saber o que os pais fazem no trabalho desperta grande interesse na criança, a ponto de elas contarem isso à outras crianças.

             O ritual de dormir merece especial atenção, e deve seguir uma sequência previsível que sinalize ao cérebro que é hora de desacelerar: conversa sobre o dia, jantar, banho, pijama, escovar os dentes, contar uma história, oração de agradecimento e beijo de boa noite, sempre na mesma ordem e no mesmo horário. Isso não é rigidez, mas amor expresso em pequenos cuidados. Famílias que enfrentam conflitos constantes na hora de dormir se beneficiam enormemente quando implantam um ritual consistente, pois o cérebro da criança aprende rapidamente a transitar do estado de alerta para o de repouso e sono.

             Outro ritual poderoso é o da reconexão. Ao chegar do trabalho, antes de iniciar as tarefas domésticas, os pais podem dedicar cerca de 15 minutos de atenção exclusiva ao filho: deixar o celular de lado, sentar-se no chão, perguntar como foi o dia e escutar com presença verdadeira e brincar com a criança. Esses minutos previnem horas de birras e comportamentos desafiadores no fim do dia, pois a criança recebe aquilo de que mais precisa: a atenção dos pais.

             Os rituais também transmitem valores importantes. A oração antes do jantar ensina agradecer o dom de poder trabalhar para obter o sustento do lar; ajudar nas tarefas domésticas promove o cuidado e o pensar nos demais; visitar os avós reforça o respeito pelos mais velhos e a valorização da família. Assim, os rituais tornam-se parte da identidade familiar, criam sentido de pertença e constroem memórias compartilhadas que acompanham a criança até a vida adulta.

             É importante, contudo, que os rituais sejam realistas e sustentáveis. Um ritual simples e consistente é mais eficaz do que um complexo e difícil de manter. A consistência é mais importante do que a perfeição. Além disso, os rituais devem evoluir à medida que a criança cresce: o que funciona para uma criança de três anos não será adequado para um adolescente de quinze. O princípio, porém, permanece o mesmo: criar momentos previsíveis de conexão que comunicam “você é importante, é amado.”

             Outro aspeto relevante é o impacto das rotinas no desenvolvimento cognitivo e comportamental. Rotinas bem estabelecidas favorecem a concentração, facilitam a aprendizagem e ajudam a regular o comportamento, reduzindo birras e conflitos, especialmente nas transições entre atividades.

             As rotinas são também essenciais para a saúde física, sobretudo no que diz respeito ao sono e à alimentação. Horários regulares promovem um sono mais reparador, melhor digestão e níveis de energia mais equilibrados ao longo do dia.

             Por fim, é importante lembrar que as rotinas devem ser flexíveis e adaptadas à idade e às necessidades da criança. Não se trata de rigidez, mas de consistência aliada ao afeto, ao diálogo e à adaptação. Em resumo, as rotinas são uma base sólida para o crescimento equilibrado das crianças, ajudando-as a desenvolver segurança, autonomia, saúde emocional e competências essenciais para a vida.

             Leia também o boletim “A rotina na vida da criança”: https://staging.ariesteves.com.br/2021/02/a-rotina-na-vida-das-criancas/, de Ari Esteves.

  • Sem medo de dizer não ao filho

    Sem medo de dizer não ao filho

             Um tabu da educação contemporânea é o medo de dizer não às crianças pelo receio de que frustrá-las causará traumas irreparáveis. A criança ao não ter desenvolvida a sua racionalidade necessita da direção dos pais para salvar-se de escolhas que lhe causem mal. O “não” é um parâmetro ou coordenada que a criança tem o direito de ouvir para evitar a ocorrência de algum prejuízo para ela, é bússola para não ficar à deriva num mar de possibilidades traiçoeiras.

             Um filho precisa ouvir o não para aprender a lidar com as negativas. A frustração é essencial para o desenvolvimento emocional. Proteger a criança de toda frustração, remover os obstáculos do caminho dela e dizer sempre sim aos seus desejos, a tornará emocionalmente frágil e incapaz de lidar com os desafios inevitáveis da vida familiar, escolar e social. O cérebro infantil necessita aprender a tolerar a frustração para se desenvolver resiliência emocional, tal como um músculo que necessita ser exercitado para não definhar.

             Ceder após uma birra transmite à criança que sua manipulação emocional é estratégia válida: se gritar, chorar ou fazer escândalo, o “não” se transformará em sim! Ninguém gosta de ver o filho chorando e fazendo escândalo no meio do supermercado, mas é o momento de ensinar a ele a grande lição da vida: nem sempre conseguimos o que queremos, e isso não é o fim do mundo.

             Um não precisa ser dito de forma amorosa, firme e explicativa. O não amoroso não é agressivo, autoritário, mas claro e acompanhado de empatia. Se a criança de 5 anos cada vez que vai ao shopping pede um brinquedo novo, pode-se dizer: – “Entendo que você quer esse brinquedo, mas hoje não vamos comprar porque você tem muitos brinquedos em casa e precisa valorizar os que já tem. No seu aniversário poderá escolher outro brinquedo”. A resposta foi educativa ao compreender o desejo da criança, mas atender esse sentimento seria uma desordem, e por isso ouviu um não dito de forma firme, educada e esclarecedora. O não amoroso valida o emocional da criança ao procurar entender a chateação dela, por exemplo, porque foi impedida de ficar acordada até mais tarde, mas não aprova o comportamento dela e explica que crianças precisam dormir cedo para crescerem saudáveis e não criarem hábitos corrosivos.

             Adolescente que entra em colapso emocional porque recebeu nota baixa e pensa em desistir da escola; ou porque se desentendeu com alguém de suas relações e fala em suicídio; ao não entrar na faculdade desejada diz que a vida não tem mais sentido, age assim porque passou a infância sem que nada lhe fosse negado e não desenvolveu tolerância à frustração. Nunca aprendeu a mudar de direção para recomeçar e tocar a vida adiante dentro das próprias possibilidades.

             Um “não” dito a torto e a direito, sem critério ou de qualquer maneira, deve ser evitado, não porque causará traumas, mas porque cansará a criança e criará nela resistência natural a expressões do tipo “não faça isso!”, “não pode”, “não vou deixar. Ter presente que a criança ao entrar na fase de afirmar a identidade testará os limites dos pais para conseguir mais autonomia, e os “nãos” indiscriminados ativarão automaticamente a resistência dela. Para não desgastar a força educativa do “não”, sempre que possível reformule positivamente suas expressões: ao invés de dizer “não corra”, diga: “ande devagar aqui dentro”; em vez de dizer “não grite”, diga “fale mais suave”; em vez de “não bata no seu cãozinho”, diga: “mãos são para acariciar”. Assim, se diz a mesma coisa e o ”não” amoroso, empático e educativo manterá sua força positiva e medicinal.

  • Pais previsíveis, coerentes

    Pais previsíveis, coerentes

             Quando no lar não há regras ou elas mudam com frequência e ao sabor do humor dos pais, o cérebro da criança deixa de seguir padrões e entra em parafuso, pois deixa de entender a lógica de causa e efeito. É necessário previsibilidade para um desenvolvimento emocional sadio. Dizer ”não” hoje e “sim” amanhã sobre a mesma coisa, ou afirmar que haverá consequência para um comportamento desajustado e nada fazer quando este ocorre, desorganiza o sistema cerebral da criança, tal como ocorreria com um motorista numa cidade onde os semáforos funcionassem de forma aleatória, o vermelho por vezes significaria “siga em frente” e, noutras, “pare”.

             Coerência não é rigidez ou inflexibilidade, mas manter princípios claros e não ceder por cansaço ou pena: avisar a criança que não haverá sobremesa se rejeitar o almoço, a medida deve ser aplicada. Se o menino de 8 anos é agressivo, quebra as coisas, bate nos irmãos e desrespeita os pais, é porque não lhe foram estabelecidas consequências, ou não foram cumpridas. Afirmar ao garoto que ficará sem o videogame, e depois de meia hora de choro ceder ou dizer que não irão ao parque se não se comportar bem, e depois ir porque sentiram pena, o resultado é que cérebro da criança passará a concluir que as palavras dos pais não têm valor, que suas ameaças são vazias, que se insistir o suficiente eles cedem.

             Se os pais agirem com coerência serão mais consistentes e haverá para o cérebro infantil um mapa confiável para transitar, e a criança passará a compreender que as palavras dos pais são válidas, pois sempre cumprem o que dizem.