{"id":11616,"date":"2023-11-21T10:26:29","date_gmt":"2023-11-21T13:26:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ariesteves.com.br\/?p=11616"},"modified":"2023-11-21T10:26:29","modified_gmt":"2023-11-21T13:26:29","slug":"a-autoridade-em-epocas-sentimentais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/staging.ariesteves.com.br\/?p=11616","title":{"rendered":"A autoridade em \u00e9pocas sentimentais"},"content":{"rendered":"\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A autoridade n\u00e3o est\u00e1 de moda. Isso n\u00e3o significa que n\u00e3o a necessitemos, mas dizem que n\u00e3o \u00e9 de bom tom exigi-la para n\u00e3o se parecer autorit\u00e1rio. O que todos gostariam mesmo \u00e9 de ser obedecido sem precisar mandar.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\u2015\u201cProfessora, temos que fazer hoje de novo o que quisermos?\u201d, perguntou certa vez uma aluna a uma professora determinada a impor a n\u00e3o-diretividade ou condu\u00e7\u00e3o da aula, porque era a favor do respeito ao suposto direito da crian\u00e7a de alcan\u00e7ar a felicidade atrav\u00e9s de sua liberdade e por meios pr\u00f3prios.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Aqueles que criticam a disciplina de conten\u00e7\u00e3o [que procura evitar os erros] e as rotinas impostas, costumam acreditar que existe um princ\u00edpio que brota espontaneamente da alma em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade, independente de uma educa\u00e7\u00e3o a ser oferecida. Estes deveriam olhar um pouco mais de perto para a realidade, porque a conten\u00e7\u00e3o pode expressar um autodom\u00ednio louv\u00e1vel em uma pessoa adulta, e as rotinas (higiene, alimenta\u00e7\u00e3o, sono, etc.) contribuem para a estabilidade psicol\u00f3gica e emocional da crian\u00e7a, ao facilitar-lhe a vida e proporcionar a fundamental experi\u00eancia da virtude da ordem contra o caos ou a desordem.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O amor \u00e9 uma moeda de duas faces: uma \u00e9 a aceita\u00e7\u00e3o do ser amado por ser quem ele \u00e9; a outra \u00e9 a exig\u00eancia de que o ser amado esteja \u00e0 altura de ser quem ele \u00e9. Cada face da moeda corrige os excessos da outra. N\u00e3o negarei que nem sempre \u00e9 f\u00e1cil manter a moeda equilibrada na borda, pois \u00e0s vezes cai de um lado e \u00e0s vezes do outro. Mas a aceita\u00e7\u00e3o do outro sem exig\u00eancia degenera facilmente em indulg\u00eancia, tal como a exig\u00eancia sem aceita\u00e7\u00e3o geralmente degenera em frustra\u00e7\u00e3o. O amor n\u00e3o se contenta com mensagens de autoajuda. \u00c9 por isso que admiramos os pais que ajudam os seus filhos a crescerem com compet\u00eancia diante do risco.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Decidi escrever sobre estas quest\u00f5es depois de receber um presente de uma amiga francesa. Trata-se de seu caderno escolar de quando tinha onze anos, anos letivos de 1959-1960. Na primeira p\u00e1gina encontrei o seguinte texto escrito em magn\u00edfica caligrafia: \u201c<em>A escola desenvolve a nossa intelig\u00eancia, forma a nossa consci\u00eancia e o nosso car\u00e1cter e nos torna boas pessoas<\/em>\u201d. Depois, ao virar as p\u00e1ginas, encontrei outras preciosidades: \u201c<em>\u00c9 preciso fazer cada dia um esfor\u00e7o para ser um pouco melhor que no dia anterior. Coragem<\/em>&#8220;; \u201c<em>Vai-te para onde queiras, que ali encontrar\u00e1s a tua consci\u00eancia<\/em>\u201d; \u201c<em>O bem n\u00e3o tem sempre recompensa. \u00c9 preciso fazer o bem pelo bem, n\u00e3o pela recompensa<\/em>&#8221; \u201c<em>Tudo na vida est\u00e1 sujeito a deveres: em ser fiel a eles est\u00e1 a honra; em n\u00e3o os respeitar est\u00e1 a vergonha<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Podemos pensar que se trata de uma ret\u00f3rica ultrapassada, t\u00edpica de tempos austeros, mas os testes internacionais confirmam que os melhores resultados escolares s\u00e3o obtidos por crian\u00e7as que frequentam ao que uma destas provas (PIRLS 2016) chama de \u201c<em>Safe Schools<\/em>\u201d, escolas seguras, isto \u00e9, escolas sem problemas de disciplina. Al\u00e9m disso, os melhores leitores, seja qual for o pa\u00eds que considerarmos, frequentam escolas onde os professores enfatizam o sucesso acad\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Costumo defender a import\u00e2ncia da autoridade familiar com tr\u00eas raz\u00f5es b\u00e1sicas:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;1. A crian\u00e7a precisa de aliados fortes para lutar contra os monstros que est\u00e3o sempre debaixo da cama.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;2. O que educa a crian\u00e7a \u00e9 a eleva\u00e7\u00e3o do seu olhar at\u00e9 os olhos dos pais, e n\u00e3o ao contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;3. A crian\u00e7a possui naturalmente muito mais energia do que bom senso para control\u00e1-la, e quem deve suprir com sentido comum as defici\u00eancias de bom senso da crian\u00e7a \u00e9 o adulto.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Essas tr\u00eas raz\u00f5es tamb\u00e9m me servem para defender a autoridade na escola:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;1. O aluno precisa de aliados fortes para combater seus erros e inseguran\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;2. O aluno necessita para formar-se de algu\u00e9m que mere\u00e7a o seu respeito e o ajude a visualizar, de forma cr\u00edvel, o melhor que pode chegar a ser.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;3. O professor necessita de doses enormes de bom senso para suprir as defici\u00eancias n\u00e3o de uma crian\u00e7a, mas das muitas crian\u00e7as que tem na sala de aula.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A pessoa educada \u00e9 aquela que disp\u00f5e de recursos para \u2013 como disse uma de nossas m\u00edsticas, Irm\u00e3 Mar\u00eda Jes\u00fas de \u00c1greda \u2013 elevar-se acima de si mesma. Mas este exerc\u00edcio \u00e9 imposs\u00edvel se n\u00e3o tiver a luz do olhar de um adulto que ajude a crescer, encorajando a confrontar as expectativas razo\u00e1veis com a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;As \u00e9pocas em que aquilo que \u00e9 velho se resiste a morrer e o que \u00e9 novo se recusa a nascer s\u00e3o prop\u00edcias para as crises de autoridade. As figuras de autoridade tradicionais parecem ter esgotado a capacidade de ganhar respeito e j\u00e1 n\u00e3o podem atuar como guias, por\u00e9m ainda n\u00e3o surgiram novas figuras orientadoras. Nestes momentos corre-se o risco de cair em generalizado ceticismo. Possivelmente nos encontramos em um deles, pois at\u00e9 o pr\u00f3prio conceito de adulto parece ter entrado em crise.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;At\u00e9 h\u00e1 pouco tempo um adulto era um ser humano que, pela sua experi\u00eancia e bom senso acumulado (que inclu\u00eda o fato de ter vivido a sua pr\u00f3pria inf\u00e2ncia), tinha respostas para tranquilizar as inquieta\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a. E a crian\u00e7a reconhecia espontaneamente no adulto uma capacidade maior que a sua para diferenciar o grande do pequeno, o bom do mau, o seguro do arriscado, o belo do feio, o conveniente do vergonhoso, etc. Esses adultos possu\u00edam o segredo da autoridade que, em \u00faltima an\u00e1lise, consiste em n\u00e3o defraudar.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para a crian\u00e7a, o adulto era a pessoa a quem ela queria impressionar. \u00c9 por isso que ela exigia frequentemente a aten\u00e7\u00e3o dele: \u2015\u201c<em>Veja o que consigo fazer!<\/em>\u201d. O adulto era o homem s\u00e1bio cuja aprova\u00e7\u00e3o sincera confirmava o valor dela.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que hoje n\u00f3s, adultos, perdemos a autoridade diante das crian\u00e7as porque nos cansamos de ser adultos, ou seja, de ser chatos, e preferimos elogiar indiscriminadamente tudo o que as crian\u00e7as fazem, com esfor\u00e7o ou sem esfor\u00e7o, coisa que, desde logo \u00e9 certamente menos desagrad\u00e1vel. O pre\u00e7o a pagar pela elei\u00e7\u00e3o do mais f\u00e1cil \u00e9 que as crian\u00e7as encontram em n\u00f3s um olhar rotineiramente complacente. Procuramos oferecer-lhes um mundo acolchoado, uma sala de jogos sem arestas, sem dificuldades nas quais possam trope\u00e7ar e, portanto, com as quais poderiam medir-se a si mesmas. Em vez de direcionar grandes expectativas para as nossas crian\u00e7as, direcionamos baixas expectativas para o mundo. Onde as crian\u00e7as devem buscar respostas importantes para sua autoestima, quando educadas no relativismo?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter foi substitu\u00edda pela cultura da emotividade, para n\u00e3o p\u00f4r em risco a autoestima da crian\u00e7a e que, pelo contr\u00e1rio, a ajude a sentir-se bem consigo mesma. Para mim, a crescente incontin\u00eancia emocional me faz desejar a conten\u00e7\u00e3o, e considero que mais nobre do que a empatia \u00e9 o dever de ajudar naquilo que \u00e9 considerado incompreens\u00edvel, mas que necessita que se lhe estenda a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O giro emocional que a educa\u00e7\u00e3o vive \u00e9 um giro orbital dos adultos em torno do fr\u00e1gil <em>eu<\/em> da crian\u00e7a. Por isso custa-me cada vez mais esfor\u00e7o convencer aqueles que me querem ouvir de que o conhecimento rigoroso tem o valor de uma experi\u00eancia moral. A compreens\u00e3o de um problema geom\u00e9trico, por exemplo, me permite descobrir uma verdade eterna, admir\u00e1vel, diante da qual n\u00e3o sou o medidor, mas o medido. Na escola, a raz\u00e3o comum emudece diante das opini\u00f5es, das compet\u00eancias, das emo\u00e7\u00f5es e, em suma, diante do <em>eu<\/em> da crian\u00e7a. Mas continuo acreditando que a melhor maneira de cuidar da nossa alma \u00e9 proporcionando a ela experi\u00eancias de ordem, come\u00e7ando pelos conhecimentos rigorosos. Continuo acreditando tamb\u00e9m que no mesmo conceito de raz\u00e3o est\u00e1 impl\u00edcita a ideia de hierarquia, e que por isso um pensamento rigoroso \u00e9 mais valioso que uma opini\u00e3o, por mais que seja minha.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Donoso Cort\u00e9s [fil\u00f3sofo espanhol falecido em 1853] dizia que \u201co segredo dos crescimentos e das decad\u00eancias das sociedades est\u00e1 no uso que fazem dos pronomes\u201d. Em nossa sociedade o mais usado \u00e9 o \u201ceu\u201d que, segundo Donoso, \u00e9 a \u00fanica palavra que se ouve no inferno.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Concluo com uma anedota contada por David Brooks, colunista do The New York Times, em seu livro <em>The Path of Character<\/em>: quando George Bush pai concorria pela presid\u00eancia dos Estados Unidos, se recusava a falar sobre si mesmo devido aos valores que lhe inculcaram na inf\u00e2ncia. Se um editor inclu\u00eda a palavra \u201ceu\u201d em seus discursos, ele automaticamente a riscava. Os seus colaboradores lhe disseram: \u201cSe est\u00e1 competindo pela presid\u00eancia, tem que falar de voc\u00ea mesmo!\u201d, e o for\u00e7aram a faz\u00ea-lo. No dia seguinte, Bush recebeu um telefonema de sua m\u00e3e, que lhe disse: \u2015\u201c<em>George, outra vez est\u00e1 falando de ti\u2026<\/em>\u201d. E Bush voltou ao redil, n\u00e3o mais com \u201ceu\u201d nos discursos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color\" style=\"color:#a63f3f\">Artigo de Gregorio Luri: \u201c<em>La autoridad en tiempos emotivos<\/em>\u201d, publicado em Aceprensa &nbsp;<a href=\"https:\/\/www.aceprensa.com\/firma-invitada\/la-autoridad-en-tiempos-emotivos\/\">https:\/\/www.aceprensa.com\/firma-invitada\/la-autoridad-en-tiempos-emotivos\/<\/a>, traduzido e adaptado por <em>Ari Esteves<\/em> para o site <a href=\"http:\/\/www.ariesteves.com.br\/boletins\">staging.ariesteves.com.br\/boletins<\/a>. Imagem de Monstera Production.<\/p>\n\n\n\n<p>Siga-nos no Telegram, pois nele tamb\u00e9m h\u00e1 links para todos os boletins publicados: https:\/\/t.me\/ariesteves_pedagogo<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A autoridade n\u00e3o est\u00e1 de moda. Isso n\u00e3o significa que n\u00e3o a necessitemos, mas dizem que n\u00e3o \u00e9 de bom tom exigi-la para n\u00e3o se parecer autorit\u00e1rio. 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