Blog

  • Dialogar e não monologar com o adolescente

    Dialogar e não monologar com o adolescente

             Como tem sido sua experiência ao tentar conversar com seu filho? Pais reclamam que seu filho, antes comunicativo, passou a ser silencioso, monossilábico e com frases entrecortadas. Já os filhos se justificam ao afirmar que seus pais não deixam falar e logo começam com sermões, fazem afirmações que revelam não prestar atenção aos que eles dizem, disparam afirmações dogmáticas, traem a confiança deles ao expor uma confidência que fez, utilizam tom de voz e trejeitos julgadores e incriminatórios, só falam do que lhes interessa, ordenam e criticam e não deixam espaço para os filhos expressarem seus pensamentos e sentimentos.

    O que fazer quando o diálogo parece impossível?

             O verdadeiro diálogo tem equilíbrio: um fala e o outro ouve com verdadeiro interesse em compreender. Há pais sem sintonia com o filho e desconhecem suas preferências artísticas e culturais (músicas, vídeos, filmes…), assuntos técnicos ou científicos que aprecia…Os pais devem dar o primeiro passo para iniciar uma conversação grata, com temas que interessam ao filho: jogo de futebol que participou, o videogame preferido, músicas que aprecia, o ídolo que admira, o instrumento musical que almeja aprender a tocar… Mostrem interesse quando ele fala com palavras que demonstrem atenção ao que diz: “entendo”, “que bom”, “puxa, interessante!”, “verdade!”, “fico feliz em saber disso”, “compreendo o que você está me dizendo”. Não há pressa em querer falar, a ponto de cortar a fala dele. Ouçam de forma passiva, sem emitir juízos ou interromper a fala dele. Nunca se escandalizem com o que ele diz, e não lancem um torpedo do tipo “eu não falei; bem que avisei!”, mas dizer “acho que isso tem solução”, “nada acontece sem que Deus permita”, “a gente ganha experiência com nossos erros”… Evitar discussões ou atitudes de ataque e defesa que fazem ambos os lados se fecharem no orgulho.

             O verdadeiro diálogo constrói pontes entre mentalidades diferentes, ao dar a conhecer a própria opinião com transparência, sem esconder o que se pensa para evitar conflitos, pois essa falsa atitude tornaria superficial convivência. O diálogo com o adolescente não deve ser professoral, mas testemunhal.As pessoas hoje dão mais importância ao testemunho pessoal do que ao tom professoral, do tipo “você precisa fazer isso”; “você tem que…”. O Papa Paulo VI disse que «o homem contemporâneo escuta com mais vontade aqueles que dão testemunho do que aqueles que ensinam», e continuava: «Se escutam os que ensinam, é porque eles dão testemunho».

    Adolescentes não querem ser tratados como crianças

             Os adolescentes querem ser tratados não como crianças, mas como adultos, e são muito sensíveis ao modo como são abordados pelos pais: um tom de voz paternalista ou autoritário lança por terra a tentativa de manter uma conversa. Falem descontraidamente com ele, e deem poucos conselhos, e só os mais importantes e necessários para não aborrecer com muitas indicações, que acabam perdendo força. Seu filho se abrirá ao não se sentir coagido a compartilhar sua intimidade. Não façam perguntas fechadas que podem ser respondidas com um “sim” ou “não”, mas abertas, a fim de saber o que pensa sobre um assunto e fomentar o diálogo: –“Que acha dessa notícia que saiu na imprensa?”.

    Considerem seu filho digno de confiança; mostrem que vocês confiam nele ao pedir favores e dando-lhe privilégios: ajudar na educação do irmão menor, cuidar de certas gestões familiares (ir ao banco, pagar contas…), pois isso aumentará sua autoestima. Peçam a opinião dele sobre os projetos familiares e como solucionar determinada situação… Elogiem não só os mais novos, pois os adolescentes precisam de alento para se sentirem considerados.

    A conversa com adolescentes deve chegar a ideias e não a fatos concretos, pois as ideias conduzem a ações práticas. Não critiquem o amigo dele, pois ele o defenderá com ardor, mas conversem com ele sobre o que pensa ser uma verdadeira amizade, e aproveite uma boa história literária (por exemplo, Pinóquio, de Carlo Collodi), e deixe-o concluir sozinho que o verdadeiro amigo está junto também nas horas amargas, os colegas só para se divertirem juntos e os cumplices para sugerir coisas erradas. Não dar sermões ou aconselhar desde uma cátedra e em tom professoral, mas conversar, ouvir, perguntar e deixar que concluam as coisas.

             A verdadeira comunicação é uma estrada de duas mãos: falar com o filho é dialogar com ele; falar para o filho é monologar e não deixá-lo falar. Diálogos não restritos às notas escolares, questões polêmicas como festas, excesso de telas digitais e celulares, que podem ser deixadas para o momento em que estiverem bem-dispostos para conversar.

             É muito humano iniciar uma conversa com temas simples, permeada de risos, pois fomenta a amizade: músicas que apreciam, a classificação do time de futebol preferido, como gostam de descansar… A conversa corriqueira age como gravetos que alimentam a fogueira para abordar temas mais profundos. Essa conversa é provocada não com perguntas fechadas que podem ser respondidas com “sim” ou “não”, mas aberta para provocar o diálogo e compreender como ele pensa: – Que acha dessa notícia que saiu na imprensa? Aproveitem os instantes juntos no carro e coloquem muita atenção ao que dizem, pois comentários descontraídos revelam o que há no coração e abrem horizontes educativos. Deixar de abordar temas mais profundos indicaria um clima familiar carente de objetivos e que não alcança valores mais altos: Deus, ideais de servir, escolha da profissão, aproveitamento do tempo, desenvolver as habilidades pessoais para melhor servir aos demais…

             Nas conversas sinceras há espaço para discordar sem que isso abale o trato mútuo. A amizade não depende de esconder o que se pensa, porque necessita da autenticidade, desde que demonstrada com respeito e carinho. Num diálogo, quanto mais fiel for cada pessoa à sua consciência, mais autêntica será a unidade entre elas. Ser fiel às próprias convicções não impede a convivência, pelo contrário, faz crescer o respeito mútuo. Uma boa conversa leva à troca de sentimentos, ideias e experiências, e não apenas temas superficiais só para matar o tempo. Uma boa conversa leva pais e filhos abrirem a alma, porque se compreendem, sabem ouvir e não temem falar de temas profundos, como projetos pessoais, dificuldades, valores, fé, drogas, sexualidade.

    Mudanças de interesse e identidade

             Como você lida com as mudanças no modo de vestir, falar ou se divertir de seu filho? Consegue enxergar isso como parte natural da formação da identidade? Um adolescente não quer ser tratado como criança, mas como adulto. A maturidade é um tema importante, ligado à personalidade, ao modo estável de se relacionar consigo próprio, com os demais, e com o mundo. É natural no homem a autonomia, a independência, e deve ser educado para isso. Não prender os filhos em casa. É importante desenvolver a autonomia desde a infância, ao não fazer pelo filho aquilo que ele pode fazer sozinho.

    Há pais e mães inseguros em tornar seus filhos independentes, pois os querem como eternas crianças fofinhas e engraçadas. Com isso, acabam substituindo os filhos em tudo o que eles deveriam fazer sozinhos, e os tornam moles, preguiçosos e sempre dependentes de que os demais façam tudo por eles. Pais que não querem ver o filho deixar de ser criança educam mal. Já se disse que à supermãe ou ao superpai corresponde um infrafilho, sem capacidade de voar por si só.

             As dicas aqui expostas servem não apenas para o diálogo com os adolescentes, mas também com os amigos e colegas do trabalho e das relações sociais.

             Indique nossos boletins a parentes e amigos para que possam se inscrever pelo site staging.ariesteves.com.br/, e receber os textos gratuitamente e por e-mail.

  • As narrativas e a transmissão de valores

    As narrativas e a transmissão de valores

             Um modo de adquirir ou transmitir valores e modelos de conduta encontra-se nas narrativas: histórias familiares, contos, romances… Contar histórias é melhor do que discursos teóricos para a configuração da personalidade humana e conhecimento do bem e do mal, porque a experiência narrativa oferece à inteligência valores ou antivalores concretizados em modelos a imitar ou a evitar. É muito humano ter modelos, mas é preciso não errar na escolha para não construir sobre bases falsas que originam fracassos.

             Mesmo em época de crise de valores, como a atual, encontramos na família, nas relações profissionais e sociais indivíduos que personificam um ideal de excelência humana com sua vida edificante: casais que completam 30, 40 ou 50 anos de união transmitem valor de fidelidade; colegas de trabalho que não aceitam subornos revelam-se como modelos de honestidade; lares generosos e abertos à geração de filhos mostram ser a família um valor fundamental; pessoas que sacrificam sua comodidade nos fins de semana para ajudar em ONGs ou entidades de apoio aos necessitados transmitem desprendimento próprio e a alegria em servir…

             A literatura também oferece muitas obras repleta de valores: “Odisseia”, de Homero, mostra a fidelidade entre Ulisses e Penélope; MacBeth, de Shakespeare, revela o antivalor da ambição e até onde pode chegar a paixão pelo poder; Pinóchio, de Carlo Collodi, revela o que são as falsas amizades e como a mentira destrói o corpo e a alma. Modelo maior de valores assumidos e de virtudes vividas é Jesus Cristo: basta ler sua biografia, que são os quatro Evangelhos, para se sentir convidado a imitá-Lo.

             Em nossa época impera a cultura da imagem e da emoção, o que torna o cinema um grande recurso para a transmissão de valores e educação dos sentimentos. Os bons enredos apresentam cenas onde personagens vivenciam aspectos essenciais da vida humana, facilitando o conhecimento do bem e do mal ao apresentar valores (fidelidade, fortaleza, resiliência), ou antivalores (covardia, traição, falsidades). Os bons filmes propiciam ocasiões excelentes para manter diálogos significativos com os filhos: “O último samurai”, um canto à honra e ao serviço”, “O resgate do soldado Ryan”, entre tantos outros (o site https://pablogonzalezblasco.com.br comenta vários e excelentes filmes e livros).

             Educar em boa parte é transmitir os valores. Um valor não necessita ser enfiado goela abaixo, porque ele se impõe pela carga de verdade que possui, e que tanto esclarece a inteligência e fortalece a vontade, sendo assumido por decisão própria. A pergunta sobre os valores ou modelos que escolhemos tem sentido porque direcionamos a nossa vida por eles. Há quem age por valores de utilidade primária (comer, beber, se divertir, beleza física, fama, poder, dinheiro); outros, por valores transcendentais que visam servir a Deus e aos demais. Atualmente, muitos adolescentes se massificam ao imitar youtubers de sucesso e com pouco valor moral a transmitir. Examinar os valores que regem a própria vida e os que se deseja para os filhos é necessário para não construir sobre bases falsas que originam fracassos.

  • A escravidão da aprovação: a serenidade perdida

    A escravidão da aprovação: a serenidade perdida

             A vida pessoal virou espetáculo. Redes sociais substituíram relacionamentos reais. Likes tornaram-se sinônimos de valor. Seguidores são, para muitos, símbolo de relevância. Mas, por trás da tela iluminada, cresce o número de pessoas consumidas pela ansiedade, reféns da opinião alheia.

             Pessoalmente – e até por dever de ofício – estou nas redes sociais. Reconheço seu valor inestimável. As redes globalizaram o conhecimento, aproximaram culturas, abriram vias importantes para o exercício da liberdade. Mas, ao mesmo tempo, vislumbro seus riscos. A obsessão por aprovação está adoecendo a alma. Gente que acorda e dorme checando o celular. Que mede o próprio valor pela repercussão de uma postagem. Que ajusta o discurso para agradar à audiência. Que teme ser “cancelada”. A liberdade virou refém da aceitação. A consciência foi terceirizada para o tribunal instável da opinião pública digital.

             A dependência dos seguidores – e a busca incessante por mais deles – é uma armadilha sutil. Não se trata apenas de vaidade ou marketing pessoal. Trata-se de uma erosão da identidade. Quando alguém passa a moldar sua vida para ser agradado, perde o eixo. Vive em função do aplauso. E, inevitavelmente, se torna escravo.

             A crítica alheia, que antes fazia parte do convívio social normal, virou fonte de desespero. Um comentário negativo pode arruinar o dia. Um post ignorado vira motivo de frustração. O medo de parecer inadequado paralisa. A exposição constante criou uma cultura de comparação permanente. E quem vive se comparando, vive em guerra com a própria realidade.

             Essa dinâmica doentia não é apenas um problema psicológico. É também – e sobretudo -um drama espiritual. A ausência de uma referência superior, de um sentido transcendente, de uma rocha firme sobre a qual construir a vida, deixou o indivíduo vulnerável. A alma sem Deus é campo fértil para a insegurança crônica.

             A tecnologia, bem usada, é uma aliada. Mas o uso atual, impulsivo e emocional, tem servido para inflar egos frágeis e encobrir vazios existenciais. O celular é um confessionário moderno – mas um confessionário invertido. Nele, não se busca perdão, mas validação. Não se encontra misericórdia, mas julgamento. E esse tribunal é volúvel, impiedoso e superficial.

             A raiz de muitos distúrbios modernos está nesse olhar invertido: o indivíduo vive voltado para fora, esperando dos outros o que só Deus pode oferecer. Espera acolhimento, valor, amor e sentido de quem também está perdido. É a fome de infinito tentando saciar-se com migalhas digitais.

             Contra essa cultura da performance, é urgente redescobrir o silêncio, a interioridade, a verdade. E, sobretudo, reencontrar o abandono em Deus.

             Abandonar-se em Deus não é alienação. É libertação. É descansar na certeza de que somos amados por Aquele que não muda. É deixar de correr atrás de aplausos para viver com autenticidade. É romper com a ditadura da aparência para viver na liberdade da verdade.

             A fé cristã oferece esse caminho de equilíbrio. O olhar de Deus, ao contrário do olhar do mundo, não é instável. Não se baseia em números, curtidas ou algoritmos. Deus nos vê como filhos. E quem se sabe filho, amado gratuitamente, não precisa desesperadamente provar nada a ninguém.

             A ansiedade, alimentada pelo excesso de estímulos e pela insegurança existencial, encontra alívio não em fórmulas mágicas, mas na confiança. Uma confiança sólida, não emocional. Uma confiança que nasce do conhecimento de Deus e do conhecimento de si mesmo.

             Santa Teresa d’Ávila resumiu isso com clareza: “Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa. Deus não muda. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta.”. Essa é uma resposta possível – e urgente – ao mal-estar moderno.

             Mas essa entrega não é automática. Ela exige decisão. Exige romper com a lógica do mundo. Exige aceitar a impopularidade. Exige silêncio interior. Exige oração.

             Quem vive da imagem acaba vazio. Quem vive da verdade, ainda que incompreendido, permanece em pé. A rocha não é a aprovação pública. A rocha é Deus. E só quem constrói sobre Ele pode resistir às tempestades.

             O excesso de conectividade está nos tornando desconectados de nós mesmos. A superexposição está matando a intimidade. A necessidade constante de aplauso está minando a liberdade. E a única saída está em voltar à fonte: Deus.

             Não se trata de desprezar a crítica. Ela é, muitas vezes, necessária e formativa. Mas trata-se de não permitir que a crítica ou o elogio se tornem senhores da alma. Quando Deus é o centro, os demais julgamentos perdem o poder de nos destruir.

             Há uma liberdade profunda em ser visto por Deus. Uma liberdade que o mundo não conhece. É essa liberdade que permite viver sem medo do olhar dos outros. É essa liberdade que sustenta, que equilibra, que serena.

             A serenidade não é fruto de uma vida sem problemas. É fruto de uma alma ancorada. Uma alma que sabe em quem confia. Uma alma que não vive em função de curtidas, mas da verdade.

             É hora de voltar ao essencial. É hora de desligar um pouco a tela e abrir a alma. É hora de reconhecer que a vida não cabe numa postagem. É hora de reencontrar a paz que só o abandono em Deus pode dar.

  • Educar para ser: visão integral da pessoa

    Educar para ser: visão integral da pessoa

             Todos temos necessidade de nos conhecermos, e dar unidade ou integrar as inclinações, afetos, inteligência, vontade e relações. Essa unidade se constrói pela assimilação das experiências e da formação recebidas. As rupturas que surgem nessa unidade resultam de falhas de integração: se há harmonia e integração na interioridade, as decisões, ações e relações alcançam o seu sentido mais profundo.

    O lugar dos sentimentos

             Essa integração começa por entender o papel das inclinações e dos sentimentos: as inclinações representam a forma (necessidades e desejos) de nos relacionarmos com o mundo e as pessoas; os sentimentos revelam o modo de julgarmos essas relações (como algo agradável ou desagradável, favorável ou desfavorável).

             Cada sentimento é apreciação concreta de uma realidade e o modo da subjetividade se comunicar com ela: como afeta e o que significa para a pessoa que sente. Cada sentimento deve ser interpretado e avaliado para ser ou não aceito como motivo da ação. Ele indica em que situação se encontra a subjetividade, como e por que determinada realidade o provoca, que ressonâncias o desperta e que existe na pessoa que favorece tal reação afetiva.

             Compreender o que ocorre na subjetividade pessoal e na dos outros ajuda a entender melhor os sentimentos e o alcance deles, a fim de orientá-los e transformá-los em contribuição para o crescimento pessoal e moral. É ineficaz rejeitar um sentimento simplesmente com uma verdade geral ou um dever, pois significaria contrapor a afetividade à razão e à vontade, e se passaria a encarar os afetos como um obstáculo ao cumprimento das obrigações, e que devem ser ignorados, conduzindo à insensibilidade e à aridez interior. Por outro lado, justificar a ação – correta ou não – com base em um sentimento, leva ao desequilíbrio, desencanto e à perda de sentido da própria vida, dada à inconstâncias dos estados afetivos.

    O Lugar do Entendimento

             A falta de capacidade para interpretar e purificar os próprios sentimentos deixa que eles permaneçam em estado embrionário, sem ajustes ou integração. O amadurecimento pessoal exige a compreensão dos sentimentos, que por não serem racionais, podem levar ao engano, exagerando ou minimizando a realidade. Conhecer a vida de pessoas que souberam integrar ou harmonizar seus sentimentos (espelhos objetivos), seja na convivência com outros ou através da literatura e filmes, colhe-se experiencias enriquecedoras, que ajudam a compreender a verdade sobre si mesmo. Recorrer a pessoas capazes e de confiança para ajudar a compreender os sentimentos, colabora no reconhecimento da verdade sobre si mesmo, pois o diálogo profundo permite refletir se os próprios sentimentos correspondem à realidade e à verdade.

    O Lugar da Vontade

             Os sentimentos estabelecem a relação pessoal com o mundo e com as pessoas, a inteligência traz essa relação ao contexto da própria vida, e a vontade move à ação. A vontade se inclina e consente com base nos motivos apresentados pela razão, mas os motivos que levam a essa inclinação em grande parte nascem da afetividade, além do querer consciente da vontade. As decisões moldam o modo de ser de uma pessoa.

             Para agir, a vontade necessita de motivação e luz, que iluminam e aquecem o coração. A falta de força de vontade diante das dificuldades costuma nascer de uma afetividade não integrada. Sem essa luz interior, sem a voz do coração, corre-se o risco de ir por caminhos do racionalismo frio ou do voluntarismo cego, que faz mirrar a vida interior e esgota as energias da pessoa. Se, ao contrário, a decisão tem uma motivação integrada, nasce a energia que fecunda a ação.

             Para um querer de verdade é preciso que os sentimentos, desejos, pensamentos e ações amem a verdade, pois isso leva ao amor a Deus e ao próximo, e a sentir aversão pelo que é mau. Educar interiormente significa orientar-se para o que é bom, verdadeiro e belo. Em tal processo, o entendimento e a vontade deixam-se atrair e preencher-se pelo bem, e as razões, propósitos e decisões transformam a vida, convertendo-se em convicções firmes.

             A vontade se desperta e encontra no bem a sua motivação mais profunda, não por imposição de outros, mas por sua abertura à verdade. Os sentimentos surgem antes que a razão e a vontade possam despertar. Mas isso não significa que os sentimentos não devam ser ajustados, desenvolvidos e refinados pela inteligência e vontade. Há períodos em que sentimentos e vontade parecem não entrar em harmonia, sendo necessário ter serenidade e conter as reações imediatas e refletir, rezar e pedir ajuda da graça divina para ter uma perspectiva justa para as situações difíceis.

             Decisões profundas não são frutos de um instante, mas exigem tempo e reflexão para chegar às razões adequadas que conduzam a ações responsáveis, capazes de explicar a si e aos demais o porque das escolhas. Desconhecer as motivações ou justificá-las com fatores externos é sinal de decisão imatura, de quem não assume os atos realizados, mas atribui-os a fatores externos e não pessoais.

    O lugar dos sentidos externos

             Um modo para ir melhorando a formação pessoal não está apenas na educação da inteligência, vontade e afetos. É preciso afinar cada um dos cinco sentidos que compõem o sistema sensorial humano (visão, audição, paladar, olfato e tato), pois eles enviam informações à inteligência, a ponto de os clássicos afirmarem que “nada há no intelecto que não tenha passado pelos sentidos”.

             Se os sentidos permanecem no grotesco, no elementar, a sensibilidade fica impedida de levantar voo para a verdade e beleza, e se fecham para compreensão do mundo e das pessoas. Quem passa muitas horas semanais degustando vídeos de muita ação – esportes, filmes, videogames –, fica incomodado com enredos mais elaborados e reflexivos.

             A vista pode se tornar preguiçosa e não se ater por muito tempo na contemplação de algo, por ex, fixar-se em detalhes e deleitar-se diante de uma obra de arte.

             A audição pode ser educada para encontrar ilhas de silêncio e abrir espaço à leitura e reflexão. O excesso de áudios e vídeos dificulta esses momentos. Há horários para ouvir boa música, e não só ouvir música.

             O paladar é um sentido que pode ser afinado: ir mudando o gosto por hambúrguer com batas fritas, bacon, ovos, muito ketchup e mostarda, para saber apreciar sabores menos marcante e mais sutis.

             O olfato está relacionado à higiene corporal: ir bem limpo, barbeado, asseado, talvez com um pouco de perfume discreto para tornar a presença agradável, roupa limpa e cheirosa…

             O tato é o sentido mais primitivo e está presente não somente nas mãos, mas na pele que envolve todo o corpo, da cabeça aos pés. Ele se relaciona com o cuidado das formas, tom humano, delicadeza no trato com os demais. O modo de se apresentar, de se sentar esparrado ou não, de se postar na mesa para estudar ou trabalhar, de torcer pelo time de futebol sem descontroles… A intemperança não só acontece pela boca, mas em escolher os lugares mais confortáveis para sentar-se em casa: minha cadeira, meu lugar no sofá, minha mesa, meu canto preferido.

    As Relações Pessoais

             Inclinações, sentimentos, sentidos, entendimento e vontade devem integrar-se para surgir uma personalidade equilibrada e madura, apta a estabelecer relações pessoais autênticas e profundas, que ajudam a crescer. O homem não é um ser isolado, mas necessitado dos demais. As relações com outras pessoas ajudam a configurar a própria identidade e delas surgem sentimentos, desejos, pensamentos e o amor. Isolados e sem relações, a pessoa chega a se desconhecer e se empobrece como ser humano, pois o homem não existe isoladamente, mas em comunhão.

             O bom relacionamento exige, além do autoconhecimento, a capacidade de aceitar e amar cada pessoa como ela é: um ser único e irrepetível. Conhecimento e amor são a essência de toda relação pessoal. Valorizar as relações que recebemos sem escolhê-las e as que estabelecemos livre e responsavelmente

    Peça aos parentes, amigos e colegas de trabalho para assinar o nosso boletim, que é gratuito e enviado semanalmente por e-mail. Inscreva-se pelo site staging.ariesteves.com.br/

  • Crescer em convicções firmes

    Crescer em convicções firmes

             Os princípios que regem o modo próprio de viver são aqueles que vão se tornando conaturais e determinantes da conduta pessoal, porque se transformam em convicções que vão se formando por meio das decisões pessoais. Com isso, cada um vai construindo ou descontruindo a própria vida, porque as convicções não são teóricas, mas induzem ao comportamento.

             Há convicções que alcançam a categoria de autênticas ideias-mestras, pois influenciam toda a vida e são apoio em momentos de dúvidas: quem está convicto de que seus dons e capacidades pessoais são para servir aos demais, saberá evitar condutas egoístas, exclusivistas; quem está convencido de que para alcançar ideais grandes precisa ser mais sacrificado, põe mãos à obra; quem está convicto da importância de ter vida de fé, levará mais a sério o seu trato com Deus; quem tem a honestidade por um valor indiscutível, não aceitará subornos; quem preza a palavra dada procura ser fiel aos seus compromissos, e assim por diante…

             As convicções são criadas por razões consistentes que iluminam a inteligência e movem a vontade para agir. Se a vontade não se move, é necessário examinar as disposições interiores – sejam as pessoais ou as dos filhos –, pois os gostos, sentimentos e paixões pessoais quando contrariados podem ir por caminhos opostos à inteligência; ou porque as razões oferecidas à inteligência não foram suficientes para esclarecer e promover a mudança de conduta, caso em que é necessário conferir para ressignificar os conceitos.

             Criar ou transmitir convicções pode parecer processo lento, mas na realidade é o mais rápido ao não se perder tempo com desvios irracionais. O voluntarismo ou as ordens peremptórias não oferecem razões profundas, e produzem resultados apenas imediatos para evitar cobranças, mas não por um querer livre e verdadeiro. Por isso, é mais formativo e eficaz criar ou ajudar a os filhos a desenvolver convicções que fazem agir por um querer livre.

             Os adolescentes e jovens quando ajudados com razões profundas, sabem oferecer argumentos sólidos àqueles que desejam induzi-los a atitudes inconvenientes. Formar é iluminar a inteligência com argumentos consistentes, de modo que as decisões partam não dos educadores, mas dos educandos, por estarem convencidos das verdades que baseiam seus argumentos, e não por imposição de outros. As razões profundas não precisam ser impostas, mas transmitidas, pois se impõem por si mesmas ao fortalecer as convicções. A verdadeira tarefa formativa não é um caminhar na frente, como quem puxa o outro por uma corda, mas andar ao lado, iluminando com a lanterna das razões sólidas.

             A pessoa bem formada é aquela que age livremente e o seu querer está de acordo com o bem e a verdade. Os filhos devem ser educados não como carentes de juízo, ou pessoas que se limitam a executar materialmente o que lhes foi dito. A educação deve levá-los a ser pessoas de critério, capazes de tomar decisões próprias em direção ao bem e sentir alegria nessa escolha. Os pais devem estimular, respeitar e orientar, conscientes de que a responsabilidade é dos próprios filhos. Essa ideia é fundamental, e exige que os educadores pensem, estudem, peçam luzes a Deus para acertar no que dizer e na forma de o fazer. Não mandar, mas aconselhar, não é tática, mas caminho para fomentar a responsabilidade pessoal. Evidentemente, para as crianças pequenas as decisões são tomadas pelos pais, pois elas ainda não têm a inteligência desenvolvida e tendem a agir movidas pelos impulsos dos sentimentos e paixões.

             É importante compreender que tanto a formação pessoal como a oferecida aos filhos é mais uma questão de fomentar convicções do que transmitir decisões prontas. É mais difícil construir convicções, pois exige pensar mais profundamente e não se conformar com respostas banais, ou em recorrer a receitas pré-fabricadas. Em outras palavras, formar é mais transmitir princípios do que repassar conclusões; é mais ajudar a entender do que animar a fazer: só oferecendo aos filhos argumentos profundos sobre as inconveniências do namoro precoce, uso de drogas, sexo fora do casamento, jogos online, pornografia na internet, deixar-se levar pela preguiça e comodidade, é que desenvolverão convicções fortes que movem a vontade em busca do bem.

             Como adquirir razões sólidas e profundas? Por meio do estudo, leituras, vídeos, áudios. Há editoras que oferecem livros com doutrina segura sobre antropologia, virtudes humanas, valores ou modelos de conduta, sexualidade, critérios sobre o sadio das telas digitais, entre outros Editoras Quadrante e Cultor de livros, por exemplo). No Youtube há palestras, vídeos e podcasts, onde bons educadores tratam com profundidade temas de educação comportamental. Em nossa página Boletins por temas, no site www.aresteves.com.br, encontram-se vários textos curtos e de fácil leitura que oferecem bons argumentos e fontes para aprofundamento sobre como enfrentar os problemas atuais que dificultam o reto comportamento humano. O Catecismo da Igreja Católica (há PDF gratuito na internet), no capítulo acerca dos Dez Mandamentos, oferece razões profundas sobre a moralidade dos atos livres, baseados na correta compreensão da natureza humana, e que são luzes para todas as pessoas, tenham fé ou não, ou sejam de outros credos religiosos.

  • Filhos sem Deus, sem virtudes, sem rumo

    Filhos sem Deus, sem virtudes, sem rumo

             Desejar que os filhos sejam virtuosos, sem lhes oferecer para isso um motivo profundo, é edificar sobre areia. Que motivo dar a eles para que sejam honestos, sinceros, fiéis, solidários, castos, ordenados, responsáveis? Basear o esforço por ser melhor apenas em argumentos psicológicos ou em preceitos humanos, faz carecer de força e garantia de perpetuidade a vida moral, pois os homens mudam facilmente de opinião e tendem a seguir seus gostos e preferências. Aguiló chama de “psicologismo ascético” a tendência de reduzir a vida espiritual e moral a explicações puramente psicológicas. Não se trata de desmerecer a psicologia, mas esta não substitui a dimensão transcendental e sobrenatural da vida humana. “Por que o caminho espiritual é tão importante? Por que na vida as coisas não acontecem segundo nossas previsões. Por que aqueles que amamos morrem. Por que as decepções são dolorosas”, diz Leonardo Sax. Os filhos serão fortes e atravessarão “a noite escura da alma” se lhes foi ensinado a cultivar a vida interior e o trato com Deus.

             A necessidade de voltar o olhar para Deus e nEle fundamentar as atitudes humanas vem pautando a vida de muitas pessoas como antídoto ao individualismo e à falta de grandes ideais. A crença em Deus e na vida após a morte torna as pessoas mais resilientes e motivadas para lutar contra os próprios defeitos. Muitos adolescentes e jovens desistem do esforço para ter uma vida reta e virtuosa porque suas convicções morais são insuficientes e os modelos de conduta oferecidos são insuficinetes e mutáveis, não aportando razões transcendentes para mover a conduta. Pais que acreditam em Deus, mas não levam a sério sua fé e não a transmitem com a palavra e exemplo aos filhos, se darão conta desse erro tarde demais, e com amargura. O maior bem que os pais podem transmitir aos filhos é a fé e o amor a Deus

             Há quem acredita que os problemas espirituais e morais têm uma causa psicológica, e confundem a fé com estados emocionais e interpretam a vida espiritual apenas como um “bem-estar psicológico”. A psicologia como ciência é importante para compreender as pessoas e auxiliá-las em certas dificuldades. Contudo, a psicologia não serve como explicação totalizante do ser humano, pois a vida espiritual não se reduz a processos psíquicos, mas envolve a relação pessoal com Deus, realidades que vão além do campo psicológico: a oração, a realidade do pecado, a força da graça de Deus…

             Quando o psicologismo domina, a fé se transforma em mera técnica de equilíbrio emocional, enfraquecendo a vida espiritual fundamentada no amor a Deus e no seguimento de Cristo. Portando, psicologia e vida espiritual devem se complementar: a psicologia ajuda a remover certos obstáculos humanos; e a vida espiritual e religiosa motiva a caminhar tendo em vista o sentido último da existência humana, que não se encerra nesta vida.

             É possível encontrar pessoas de grande retidão moral que não creem em Deus, ou se deparar com doutrinas éticas que excluem a fé. Porém, nenhuma razão que exclui a Deus e a religião, serve para fundamentar a luta própria e a dos filhos na busca das virtudes: uma ética sem Deus, baseada apenas no consenso social ou em tradições culturais, não oferece garantia diante da patente debilidade do homem, sua capacidade de ser manipulado e de desistir facilmente diante do esforço exigido para manter-se ético.

             Há ocasiões em que os motivos de conveniência natural para agir bem impulsionam com grande força. Mas há ocasiões em que esses motivos perdem força, e então o suporte para a ação correta ou a busca do bem encontra-se nos motivos sobrenaturais: prescindir tanto dos motivos naturais como dos sobrenaturais é erro moral e educativo de grandes proporções.

             A referência a Deus serve não só para justificar a existência de normas perenes de conduta, que devem ser observadas. Quando se prescinde voluntariamente de Deus, é fácil que o homem se converta na única instância que decide sobre o que é bom ou mal em função de seus próprios interesses: por que ser fiel ao outro cônjuge?; por que não aceitar um suborno que vem de modo tão fácil?; por que dizer a verdade? Quem não aceita a existência do Ser superior que julga nossas ações, fica indefeso frente a tentação de se erigir como juiz supremo do bem e do mal. Isso não significa que aquele que tem fé haja sempre com retidão e nunca se engana, mas sabe que não está só e qual é qual é o caminho para retornar com humildade. Assim, está menos exposto a enganar-se a si mesmo ao dizer que é bom o que gosta e mau o que não gosta, pois sabe que tem dentro de si há uma voz que o adverte: – Basta, não siga por esse caminho!

             É imprescindível fundamentar em Deus e na existência de vida após a morte, o esforço pessoal e o dos filhos para a aquisição de hábitos que encaminhem até o bem. Sem Deus é fácil duvidar se vale a pena o esforço por adquirir virtudes, porque não se tem motivos suficientes para manter condutas que supõem sacrifícios! Negar a existência de um juízo pessoal e a vida após a morte, reduz a perspectiva humana ao que se consegue lucrar apenas nesta vida: carpe diem ou aproveite o dia, pois não haverá razões suficientes para manter o esforço que exige uma vida reta. Evidentemente, a existência de Deus é objetiva e de infinitas consequências, e não se reduz a proporcionar motivos de garantia acerca de leis morais permanentes e imutáveis, mas é razão suficiente para mover as pessoas a conhecê-las e a observá-las. O progresso interior ou espiritual sempre será difícil, pois requer a assimilação teórica e o emprego prático daquilo que se acredita, pois não basta saber o que é bom, mas é necessário fazer o bem, caso contrário não haverá melhora pessoal, mas um simples ilustrar-se teoricamente sobre o que é o bem.

  • Fortalecer a vontade

    Fortalecer a vontade

             Autocontrole é o domínio que a vontade exerce sobre a memória, imaginação, sentimentos, paixões, forças instintivas… Para conseguir isso é necessário o desenvolvimento da força de vontade, a que podemos chamar de virtude da fortaleza, que é consequência de um habitual treinamento de fazer o que a razão ou inteligência mostra que deve ser feito em cada momento. No caso das crianças, como a inteligência e a vontade delas não estão desenvolvidas, devem ser guiadas pelos pais e educadores.

             Cumprir o dever de cada momento deve ser um ato da vontade, do querer livre, e não ação condicionada apenas pela força dos sentimentos, que por vezes podem estar ausentes ou serem contrários ao que deve ser feito. O verbo próprio para a determinação da vontade é “querer”; já o verbo empregado às inclinações dos afetos é “gostar”. O querer deve ser a inclinação da vontade em direção ao bem e à verdade reveladas pela inteligência, e o que lhe dá forças; o gostar ou não gostar é o que agrada ou não a afetividade.

             Outro motor do funcionamento humano é a afetividade (sentimentos, emoções, paixões). Os sentimentos podem ser positivos ou negativos: positivos quando apoiam as decisões da vontade (o querer livre); os negativos ocorrem quando dificultam a vontade de comandar as ações: não faço o que devo porque me custa esforço e não gosto de contrariar os meus sentimentos.

             Durante a infância, a afetividade domina as ações da criança, que sempre buscar sentir-se bem ou não se sentir mal, e a educação nessa fase consiste em educar a afetividade. Quando os pais vão esclarecendo a inteligência da criança, ainda em desenvolvimento, para compreender as razões de uma determinada ação, a ela passará aos poucos a agir pela determinação da vontade. O exercício diário da débil vontade da criança deve ser estimulado para o que é bom, tanto para ela quanto para os demais, a fim de que crie bons hábitos ou virtudes.

             O que é bom em cada momento é determinado pelo juízo da inteligência ou consciência prática, que julga a realidade a partir dos conhecimentos adquiridos (no caso das crianças, pelas pessoas encarregadas de formá-las). O domínio da vontade sobre a afetividade necessita primeiramente do esclarecimento da inteligência, que oferece sua luz para que a vontade se incline ao que deve ser feito, e tenha forças para controlar as demais funções psíquicas e corporais: percepção, memória, imaginação sentimentos, emoções, paixões e instintos. O exercício desse controle supõe esforço no início, mas logo se transforma no hábito ou virtude da fortaleza, de modo que a vontade vai desenvolvendo uma permanente capacidade de amar e procurar o bem.

             As batalhas entre a afetividade e a vontade são variadas e se travam no interior da pessoa, pois os sentidos (visão, audição, paladar, olfato e tato) induzidos pela afetividade (sentimentos, emoções, paixões) tendem a buscar o que é divertido, agradável e gostoso no momento e evitar o que custa esforço: é mais fácil assistir a um vídeo fora de hora, refastelar-se na poltrona ou sofá, jogar games ou ouvir música quando se deveria cumprir uma obrigação, comer fora de hora, etc., mas isso fomenta o vício da preguiça, intemperança e cria outras dependências que conduzem ao enfraquecimento da vontade. Algumas pessoas pensam que a liberdade é realizar os atos que lhe apetecem afetivamente ou porque sentem gosto em fazê-los. Ações agradáveis como ver televisão, comer, beber podem ser condutas livres, mas trata-se de uma liberdade superficial, externa. A verdadeira liberdade tem a ver com a vontade ou o querer livre que impulsiona a afetividade, imaginação, memória e percepção para agir em busca do bem: posso não sentir gosto em realizar uma tarefa, mas devo fazê-la porque é importante.

             Os sentimentos e as emoções positivas (autoestima, alegria de cumprir o dever, segurança, confiança) agem como óleo lubrificante que ajudam no autocontrole pessoal. No dia a dia se encontram muitas pequenas oportunidades de viver o chamado “minuto heroico”, desenvolvido pela espiritualidade cristã: minuto heroico porque é uma decisão rápida de não protelar ou empurrar com a barriga o que deve ser feito em cada momento, e se vive isso com ânimo esportivo de começar e recomeçar após o incumprimento de uma obrigação. Os esportistas continuamente buscam com alegria a melhora de sua performance, e quando falham recomeçam. Quem desfruta dessa luta positiva se cansa menos porque a afetividade, que procura o mais fácil a curto prazo, passa a sentir prazer e alegria ao cumprir as obrigações, e a pessoa cresce em força de vontade, autocontrole e maturidade. Quando a vontade está no comando das ações, a sensação de ser livre e protagonista da própria vida produz verdadeira felicidade.

             Outra frente de batalha consiste em evitar que estímulos intensos – internos ou externos – ofusquem a inteligência e enfraqueçam a vontade, dificultando a pessoa para decidir pelo que é bom e verdadeiro. Por exemplo, sentimentos como angústia, tristeza, ansiedade, insegurança, medo, sentimento de inferioridade, ira, inveja, raiva, desejo de poder e ganhar dinheiro a qualquer custo, podem criar barreiras e induzir a condutas irracionais. Esse é o processo de todos os vícios, que reduzem a liberdade e o desejo de querer o bem.

             Alguém que desde a infância se deixou conduzir mais pela afetividade, tem alterado seu funcionamento psicológico, e se convence facilmente de que é livre e suas decisões são frutos da razão e da vontade. Porém, na realidade, não percebe estar dominado por sentimentos e emoções que determinam suas ações: um hipocondríaco pode tomar seu pulso de hora em hora e pensar que isso é correto, e que o faz livremente; outro, entra em sites inconvenientes e acha que faz isso livremente, sem perceber que está escravizado por um vício ou paixão que obscurece sua inteligência e enfraquece sua vontade. Um fanático por futebol facilmente se convence de que na área do seu time, os jogadores adversários se atiram ao chão de propósito para simular pênaltis; enquanto que na área contrária, os jogadores do seu time sempre sofrem pênaltis quando caem. Há quem se comporta de modo violento e se justifica ter agido livre e racionalmente para não concluir que se deixou levar pela paixão da ira. Viciados que passam horas e horas em mídias e telas digitais acreditam agir livremente, sem perceber que estão escravizados por paixões que os levam a perder tempo com frivolidades que enfraquecem o caráter, empobrecem a inteligência para pensar profundamente e debilitam a vontade para assumir compromissos. Enfim, são muitos os exemplos de pessoas que se acham dominadas por emoções negativas intensas e acreditam agir livre e racionalmente.

             Quando se vive com verdadeira liberdade, não se quer viver de outra maneira. Agir habitualmente não movido pelos impulsos dos afetos (quando estes são negativos), faz experimentar uma verdadeira liberdade interior. Para ganhar essa luta, o segredo está em fortalecer a vontade por meio de pequenos e constantes vencimentos diários: não comer fora de hora, posicionar-se com modos na poltrona ou sofá, ser pontual e não atrasar o estudo e as tarefas, manter ordem nos objetos pessoais, ter o rosto alegre quando não se tem gosto para isso, crescer em espírito de serviço no lar, não interromper os afazeres para conferir as redes sociais e estabelecer um horário para isso…

  • Você dá bom exemplo ao seu filho?

    Você dá bom exemplo ao seu filho?

             Muitos pais trabalham dia e noite para dar aos filhos a melhor educação, brinquedos caros, quarto bonito, boa escola, mas sem perceber podem estar negando o que realmente deixará marca e formará o caráter dos filhos: o exemplo diário! Marian Rojas (1) ensina como o exemplo dos pais influencia enormemente os filhos, e afirma que uma criança poderá esquecer os presentes de aniversários que ganhou dos pais, mas nunca como viam os pais agirem no dia a dia, como a olharam, trataram e falaram com ela. A coerência entre a teoria e a conduta é a melhor prova da convicção e da validade daquilo que se ensina aos filhos; é condição imprescindível para a eficácia da educação comportamental.

             O exemplo paterno e materno molda o cérebro da criança, e deixa rastro mais profundo do que as palavras. Educar, mais do que dar instruções, é ensinar com a vida. O que os filhos percebem no modo de ser dos pais os marcará para sempre. Rojas testemunhou algo que jamais esqueceu: –“Doutora, não me lembro das muitas frases que minha mãe repetia para mim, mas lembro como todas as noites, apesar de exausta, ela vinha ao meu quarto, me abraçava e me dizia que tudo ficaria bem”. Essa cena diária, aparentemente simples, ficou gravada na memória desse homem porque foi uma silenciosa mensagem que dizia: –”Você não está sozinho. Estou aqui para você, que é muito importante para mim”.

             O modo de estar presente educa sem explicações, pois o cérebro humano aprende observando e por imitação por meio dos neurônios-espelho, descobertos há algumas décadas. Desde o berço a criança registra na estrutura cerebral como seus pais se movem, agem e a tratam. O pai que vê o filho brincando distraidamente e discute de maus modos com alguém ao telefone, não percebe que a criança vê e reproduzirá esse comportamento em seus desentendimentos: o respeito deve transparecer no modo de agir com os demais. Se a mãe é educada com a atendente do supermercado e com o porteiro do prédio, a criança replicará esse modelo de conduta. A mentira dita a um parente ou amigo faz a criança desaprender o significado da honra e da verdade.

             Educar exige calma, falar com paciência, ouvir sem interromper. A impaciência é atalho para reações automáticas. Saber lidar com a pressa e o estresse é fundamental na educação pelo exemplo. Trata-se de criar pequenas pausas conscientes que permitam agir em vez de reagir. Algo simples como o respirar fundo antes de responder, fazer uma breve pausa antes de dar uma indicação, um gesto que indique desacelerar são pequenas interrupções que rompem o ciclo da pressa e do estresse, e evitam palavras e gestos indelicados. Os filhos se lembrarão mais tarde da calma e respeito com que os pais os tratavam, mesmo em situações difíceis ou sob pressão.

             Não se trata de ser perfeito, mas ter a consciência de que marcas profundas ficam nos filhos pelo que se faz ou não se faz. Ou seja, os pais não educam só com o que dizem, mas com o que fazem mesmo sem perceber. O caráter dos filhos não se molda por frases, mas pelo modo como os pais vivem. Comportamentos diários são absorvidos mesmo que os pais nada digam: gestos, hábitos e reações silenciosas transmitem mensagens sem a necessidade de palavras, mesmo que passem despercebidas aos olhos dos pais, mas não aos da criança. A incoerência entre o dizer e o fazer é prejudicial porque ensina que o dito não é tão importante quanto o feito. A confiança e a credibilidade é corroída quando não há coerência nas ações dos pais: se pedem respeito aos demais, mas criticam um vizinho ou parente, a criança pensará que o respeito é relativo e aplicado conforme o interesse. Já a coerência é a âncora emocional que oferece segurança e estabilidade ao aprendizado da criança.

             Viver como se o celular fosse o protagonista é um erro silencioso comum. O celular constantemente grudado nas mãos dos pais deseduca porque diz aos filhos que merecem a atenção dividida com esse aparelho; que as telas têm precedência sobre as pessoas; que as conversas devem ser interrompidas para responder a uma mensagem; que os momentos juntos na vida familiar ou no trabalho devem ceder lugar às mensagens e vídeos. O adulto fisicamente presente e emocionalmente ausente prejudica a comunicação e o desenvolvimento emocional da criança, que necessita de olhares longos, silêncios compartilhados, momentos de conexão profunda. Substituir tais momentos por telas faz a criança entender que a presença dela não é importante. Mudar esse padrão requer consciência e coragem. Não se trata de desistir da tecnologia, mas de saber quando e como usá-la. Tempo de qualidade sem distrações fortalece o vínculo e ensina à criança que as pessoas estão acima das telas digitais. Se os pais erram nisso, devem reconhecer e pedir perdão, pois a humildade vivida diante da criança é lição valiosa.

             Outro mau exemplo silencioso e comum se dá quando os pais negligenciam o próprio bem-estar físico e emocional. As crianças observam se eles se tratam com carinho e respeito, se dormem o suficiente, se alimentam-se saudavelmente, se fazem exercícios, se dedicam tempo ao descanso. Cuidar-se não é luxo, mas dever: quem não se cuida reduz sua capacidade física e mental para enfrentar as responsabilidades. Pais exaustos, irritáveis e sem energias têm menos paciência e tolerância emocional, o que impacta diretamente o ambiente familiar. O autocuidado ensina aos filhos que para amar e servir aos demais é preciso estar bem, e isso não é egoísmo, mas base para uma vida equilibrada.

             O clima emocional mantido no lar se instala na mente da criança. Viver em ambiente onde predominam reclamações e pessimismos é como respirar ar poluído. Frases diárias de que tudo anda errado torna a criança medrosa. Pais queixosos fazem a criança viver com medo; pais otimistas e resilientes fortalecem o filho. Não se trata de negar os problemas, mas de saber como lidar com eles. O modo de olhar para a vida será o modo de a enfrentar. O pessimismo crônico é um filtro mental que limita a capacidade de sonhar e de buscar soluções. Mostrar esperança é o caminho que ensina enfrentar de forma positiva os problemas:  –”Vamos ver o que podemos fazer” ou –“Encontraremos uma solução”, ensinam aos filhos que otimismo não nega a realidade, mas a enfrenta-a com dinamismo e fortaleza.

             O primeiro passo para educar pelo exemplo é ser honesto e não justificar as ações erradas ao dizer para si que não afetarão a criança: projete um mau hábito seu na vida do filho para quando ele alcançar 20 anos! Não subestime as más condutas. Por isso, pergunte ao outro cônjuge se suas ações contradizem o que você diz. Identificar as incoerências é como acender uma luz em sala escura. Pedir perdão não desabona os pais, mas os torna mais humanos. É equivocado pensar que reconhecer um erro diante do filho suprime a autoridade. Ao contrário, faz ganhar o respeito que nasce da verdade. Ao pedir perdão, os pais ensinam que cometer erros e corrigi-los faz parte da vida: – “Eu errei ao dizer aquilo a você”, é atitude poderosa porque assume a responsabilidade sem desculpas, e revela que os relacionamentos podem ser curados. Este é um legado emocional incalculável que fará o filho admitir e corrigir as próprias falhas.

             Os valores ou modelos de conduta não devem ser impostos goela abaixo, mas vividos e incorporados por meio de rotinas familiares. As rotinas são fios invisíveis que tecem a segurança emocional da criança, dando a ela estrutura e previsibilidade; são rituais que marcam e reforçam os valores que se quer transmitir. Por exemplo, as refeições em família sem celulares ou telas digitais demonstram que a conexão humana é mais importante; que ler juntos na sala revela o valor que se dá à cultura, arte e literatura para a vida… As rotinas não precisam ser longas ou complicadas, mas consistentes. Um hábito pequeno que se repete, com o tempo se tornará parte da identidade da criança. O segredo está na participação dos pais nas rotinas, e não como algo que os filhos fazem sob a supervisão dos pais.

             Educar com o exemplo é – depois da transmissão da fé e do amor a Deus –, o maior presente que os pais podem dar aos filhos. Mais do que grandes discursos, o exemplo ensina silenciosamente como resolver os problemas e encarar a vida por meio dos gestos e ações práticas. Os filhos não precisam de pais perfeitos, mas de pais que demonstrem com a vida que se pode cair e levantar novamente; que sentir medo não impede continuar a lutar; que se pode manter o amor quando se está cansado… Os pais devem se perguntar sobre como gostariam que o filho se lembrasse deles daqui a 20 anos. Essa resposta será a bússola que orientará para deixar de lado o que não é necessário e manter firme o leme na rota do bom porto. O exemplo que os pais oferecem hoje é privilégio e legado único que sustentará os filhos por toda a vida. Não há presente maior do que deixar aos filhos um modelo de amor, respeito, resiliência e esperança.

  • Filhos: como lidam com mal-entendidos, autonomia e redes sociais?

    Filhos: como lidam com mal-entendidos, autonomia e redes sociais?

             Reunidos em atividade (1) que visou a educação comportamental dos filhos, centenas de pais e mães deram as seguintes respostas às quatro questões a seguir:

    1) Filhos que reagem com violência diante de mal-entendidos

    • O predomínio da afetividade (sentimentos, emoções e paixões) sobre a vontade e a inteligência, e a baixa tolerância à frustração e o fracasso, tornam imaturos os filhos, que respondem encolerizados e agem sem pensar diante dos conflitos.
    • Manter atenção, interesse e respeito ao que o filho diz, ao explicar um conflito, mesmo que não concorde com ele. Perguntar sobre o que aconteceu, como se sentiu. Se possível, ouvir as partes envolvidas e pedir esclarecimentos para ajudar identificar o mal-entendido.
    • Explicar-lhes o que é o autocontrole ou educação da afetividade, a fim de que a vontade, iluminada pela inteligência, conduza as ações sem se deixar dominar por sentimentos desregulados. Autocontrole é o domínio da vontade sobre as demais funções psíquicas e comportamentais. Para isso, é preciso fortalecer a vontade deles exigindo que cumpram habitualmente seus deveres, e não se deixem levar apenas por atividades prazerosas.
    • Ensinar-lhes a comunicação não violenta, que faz a agir e não reagir precipitadamente diante dos fatos. Consegue-se isso ao colocar-se na situação do outro, não julgar suas intenções (poderá ter agido por ignorância ou fraqueza); manter o foco no problema e não na pessoa. Trata-se de ver os conflitos como oportunidades de aprendizagem mútua.
    • Ser exemplo para os filhos ao manter a serenidade nos contratempos familiares, pois os eles aprendem mais ao ver os pais agirem racionalmente diante de mal-entendidos na família, no trânsito, no trabalho, nas relações de vizinhança; pais que nunca fazem mexericos nem criticam ninguém, sejam parentes, colegas de trabalho ou vizinhos.

    2) Como incentivar a autonomia dos filhos

    • Dar oportunidades para que os filhos exerçam sua independência, por exemplo, assumindo responsabilidades diárias no lar. Evitar a superproteção, que os impede de enfrentar desafios e lidar com frustrações e “nãos”. A superproteção faz a criança perder a confiança em si mesma, e vive a perguntar a opinião dos pais por medo exagerado de errar ou decidir sozinha.
    • Orientar e acompanhar à distância as tarefas, mas não fazer pela criança, a fim de que ganhe confiança em si mesma e aprenda a assumir as consequências de suas ações, não atribuindo suas falhas aos demais. Ter paciência e estimular a repetir as ações para aprender a fazê-las bem. Descontrair a criança ansiosa ao fazê-la ver que as tentativas fazem parte do aprendizado; reforçar a ideia de que o erro não é um fracasso, mas uma oportunidade para melhorar. Depois, reconhecer o esforço e elogiar, mesmo que a tarefa não ficou perfeita.
    • Encorajar a resolução dos problemas e não intervir sem substituir: intervir é dar dicas e mostrar como se faz e deixar que a criança tente sozinha; substituir é fazer por ela. Dar responsabilidades e encorajar a fazê-las, dando espaço para que faça sozinha, mesmo que erre, pois isso faz parte do aprendizado.
    • Passar valores ou modelos de conduta para que assumam por vontade própria. Fazer compreender que não se pode ter tudo o que se quer, sendo preciso aprender a esperar. Não controlar excessivamente os horários e deveres dos filhos, nem falar por eles ao entrar numa loja para comprar uma roupa ou fazer um pedido na lanchonete: deixar que eles mesmos peçam as coisas. Manter os filhos curtos de dinheiro para que aprenda a usá-lo.

    3) Mau uso das redes sociais e internet

    • Conquistar a confiança do filho para crescer na amizade com ele. Manter comunicação aberta para aprender a conversar na linguagem dele, e se interessar pelo que gosta, quem admira, como interage nas redes. Participar como aliado e não como inimigo. Depois, examinar com calma esses interesses para desenvolver neles o pensamento crítico ao alertar sobre o que é positivo e negativo naquilo que consome. Aproveitar os conteúdos positivos para ter conversas significativas, presenciais. Refletir juntos sobre valores ou modelos de conduta, interesses por temas técnicos, artísticos e culturais: –“Que acha desse assunto?”; –“Que perigo você vê em tal programa?”. Trocar informações interessantes.
    • Fomentar a virtude da temperança ou autodomínio para que cresça em força de vontade e não se deixe dominar pela curiosidade frívola e gosto pelo fútil, ocasionando grandes perdas de tempo. Dar encargos no lar para que aprenda a deixar de lado o celular e passe a cumprir suas responsabilidades.
    • Como pais, dar exemplo ao se policiar para não consultar as redes sociais fora de hora (refeições, bate-papos familiares, passeios…). Estabelecer acordos prévios com o filho para que todos tenham limites definidos de tempo e de uso, a fim de não entrarem em sites de jogos, frívolos ou arriscados moralmente. Ninguém deve se isolar com telas digitais: transparência para saber o que todos veem na internet. Ressaltar a importância de valorizar a privacidade nas redes, pois seria uma pueril falta de pudor e enorme imprudência apregoar a intimidade do corpo, da consciência e da família na internet, com graves e permanentes consequência àqueles que se expõem a isso (abordar casos reais).

    4) Respostas agressivas dos filhos: o que há por trás?

    • Ao ouvir algo agressivo por parte de um filho, não responda da mesma maneira: aja e não reaja. Mantenha equilíbrio, respire fundo e conte até dez. Se ele estiver exaltado, não ponha mais lenha na fogueira ao não revidar na mesma moeda, e espere para responder em outro momento. Focar no assunto central e não na pessoa. Falar com modos, mas exigir respeito à autoridade dos pais, que são os responsáveis pelo lar: filho não manda na casa, mas obedece (ouvir a opinião dele, mas quem decide são os pais).
    • O filho que diz sem pensar o que lhe vem à cabeça revela imaturidade, imprudência e grosseria, e causará muitos problemas de convivência por onde andar. Fomentar nele as virtudes contrárias: prudência, ponderação, equilíbrio, respeito aos demais, empatia, virtudes da convivência. Ensinar que a comunicação não violenta é necessária para pensar e agir com prudência, pois uma mente exaltada toma decisões erradas.
    • Dar exemplo ao filho ao ouvir e responder a ele com empatia, controlando o tom de voz: em vez de contra-atacar, dizer: -“Você parece pressionado. Precisa de ajuda?”. Tentar compreender não é justificar a agressividade, mas identificar o que há por trás dela, antes de tomar uma decisão ou medida disciplinar.
    • As fortes emoções podem apontar para necessidades mais profundas. Mantenha o foco na necessidade e não nas palavras, que podem ser rudes porque o filho carece de autocontrole, mas se vê necessitado de apoio, segurança e compreensão. Tentar entender o que está acontecendo com ele, pois poderá haver algo de verdade ou necessidade não atendida por trás de falas agressivas do tipo: –“Você nunca me ouve!” (precisa de atenção e validação). –“Vocês são uns egoístas!” (pais que andam sempre metidos em seus interesses). – “Chega de tanta cobrança” (precisa de espaço e alívio de stress). –“Não complique tudo!” (pais sempre fazendo críticas e alertas desnecessários). – “Me deixa em paz!” (deseja mais espaço, autonomia). – “Não falem mais!” (anseia por tranquilidade para apaziguar emoções descontroladas).

    Inscreva-se com nome e e-mail e receba gratuita e semanalmente nosso Boletim Pedagogia do Comportamento: curto e fácil de ler. Temas: educação comportamental, cultura, virtudes humanas…

  • Cinco erros para não cometer na educação dos filhos

    Cinco erros para não cometer na educação dos filhos

    A criança não precisa apenas de comida, roupa e abrigo, mas de um ambiente emocionalmente seguro onde possa explorar o mundo, cometer erros, aprender a lidar com a frustração, ter confiança ao sentir que suas emoções são validadas e respeitadas. O cérebro dela se desenvolverá emocionalmente saudável se a ela crescer em lar repleto de amor, limites claros, segurança. Porém, se vive em meio a gritos, falta de conexão emocional, estresse, manifestará baixa autoestima, ansiedade, medos, inseguranças e terá dificuldades para gerenciar suas emoções e lidar com a frustração.

             Cinco erros comuns que os pais podem cometer e que afetam negativamente o emocional e o cognitivo da criança, são relatados por Marian Rojas1, psiquiatra espanhola:

    1)-Ouvir pela metade

             A criança que se sente ouvida, respeitada e compreendida, constrói conexões neurais que promovem sua regulação emocional e bem-estar. Ao não ser ouvida ativamente; se suas emoções e sentimentos não são validados, mas ignorados ou minimizados, perde a segurança e a capacidade de se expressar e de se conectar com os outros, isolando-se ao evitar relacionamentos. Pais atentos a outros interesses faz a criança se sentir invisível e afetada em sua autoestima, segurança emocional e na confiança em seus pais. A escuta não ativa cria um vazio emocional e a criança não expressará seus pensamentos, sentimentos e emoções, desregulando emocionalmente seu cérebro, dificultando-o para lidar com a frustração, tristeza e ansiedade. Já a escuta ativa que se faz com os olhos nos olhos e total atenção para penetrar no mundo da criança, e entender também o que não foi dito, envia a mensagem de que as emoções e os pensamentos do filho são valiosos, fortalecendo a capacidade dele para se comunicar, regular suas emoções e se sentir seguro em um mundo por vezes caótico, além de desenvolver fortes conexões neurais.

    2) A superproteção

             A superproteção é um erro que os pais cometem com a intenção de evitar ao filho a dor, o fracasso e a frustração. Porém, não percebem que cerceiam a capacidade de resiliência do filho para enfrentar a vida. O cérebro da criança amadurece emocionalmente ao lidar na prática com a frustração e os erros. A superproteção impede vivenciar experiências negativas e fomenta a insegurança para enfrentar dificuldades, tonando a criança dependente, medrosa e ansiosa ao lidar com desafios, pois seu cérebro não desenvolverá conexões de autorregulação emocional, e terá dificuldades para lidar com os altos e baixos da vida. A resiliência ou capacidade de se levantar após um insucesso não é algo que se aprende na teoria, mas na prática. Permitir que o filho enfrente pequenos contratempos e vivencie frustrações o fará saber como administrá-las. Criança que enfrenta e supera desafios se fortalece e se torna emocionalmente equilibrada. O papel dos pais não é absorver eles as contrariedades do filho, mas ensinar a lidar com elas e ser apoio quando a criança sentir necessidade de conforto ou conselho, a fim de ensiná-la a confiar em suas próprias habilidades e crescer em autoestima.

    3) A crítica destrutiva

             A crítica negativa impacta profundamente o cérebro da criança, pois a fará interpretar as palavras como ameaça à autoestima, incapacidade de aprender com os erros e terá vergonha e medo de fracassar. A criança associará sua identidade aos julgamentos negativos e criará conexões cerebrais que associam o fracasso à humilhação, à perda de autoconfiança em si, à baixa autoestima, à ansiedade e ao medo de rejeição, caldo propício para o estresse e depressão. A correção construtiva foca naquilo que a criança pode melhorar, e não no que faz mal, o que permite que o errado se transforme em oportunidade de melhora, sem julgar o valor da criança como pessoa. Ao elogiar os esforços, o cérebro da criança associará os erros ao aprendizado, e não ao fracasso, fazendo-a crescer emocionalmente. Em vez de criticar, dizer com empatia: –”Eu entendo que você ficou triste, mas tente novamente”, ou –“O que você fez poderá ficar ainda melhor”. Esse tipo de correção positiva reforça a confiança e fortalece a capacidade da criança lidar com suas emoções e as situações mais difíceis, pois saberá que cometer erros é apenas parte do processo de crescimento, não um motivo para se sentir mal.

    4) Falta de limites claros

              As crianças precisam conhecer seu espaço e saber o que é permitido e o que não o é, para que seu cérebro se estruture com segurança ao agir (tal como as faixas e guard-rail nas estradas). Quando a criança desconhece o que se espera dela, se sente insegura e seu cérebro não desenvolverá conexões de confiança. Sem limites claros, a criança passa a não compreender as consequências de suas ações, e afetará sua capacidade de respeitar os outros. Os limites firmam a criança no comportamento certo, regulam suas emoções, faz entender que suas ações têm consequências positivas ou negativas sobre os demais, ajuda a tomar decisões responsáveis e ensina a lidar com a frustração ao não poder fazer tudo o que quer. A falta de limites, ao contrário, cria ocasião para manipular as situações a seu favor, enfraquecendo a capacidade de coexistir de forma respeitosa e harmônica com os demais. Estabelecer limites claros não significa ser rígido ou autoritário, mas ser consistente e justo e fazer a criança entender que uma regra é estabelecida para o seu bem e segurança emocional. Assim, seu cérebro aceitará as regras como parte natural do aprendizado para a vida e se desenvolverá de forma saudável.

    5) Pais que não cuidam de si mesmos

             Não cuidar de si mesmos é um erro que os pais podem cometer ao colocar as necessidades dos filhos acima do bem do casal. Pais que não se cuidam afetam a própria saúde emocional para administrar suas emoções diante dos conflitos e, impacientes, deixam de oferecer orientação equilibrada. Esse estresse afeta emocionalmente o filho, ao ver seus pais ansiosos, sobrecarregados e emocionalmente esgotados. Os pais precisam encontrar tempo para cuidar de si mesmos, estabelecer limites às suas próprias demandas e pedir ajuda quando necessário. Não ver nisso egoísmo, mas necessidade para retornar às suas responsabilidades revigorados. O cuidado dos pais deve ser preocupação do filho, que precisa reconhecer que o bem-estar emocional deles é importante para todos.

    Conclusão

             Não existe um manual de instruções para ser pai e mãe ideais, mas se forem exemplos de autorreflexão, honestidade emocional e responsabilidade, os filhos aprenderão mais com o que veem do que com o que ouvem. A paternidade não é um caminho fácil, e frequentemente os pais se deparam com dúvidas sobre como agir corretamente. Porém, o mais importante não é que sejam perfeitos, mas que procurem se formar bem como pais, lutem para agir bem e estejam cientes de que suas ações afetam o filho. Ao reconhecer seus erros e dar os passos para melhorar, os pais constroem relacionamentos fortes e saudáveis com o filho.