Necessitamos de verdades claras ou critérios que fundamentem a atuação pessoal. A diversidade de pareceres sobre tantas matérias, as diferentes situações que se apresentam no dia a dia, as notícias que chegam e exigem uma tomada de posição, tornam indispensáveis uns valores ou normas de juízo para acertar nas decisões. Que valores ou princípios regem a minha vida? Sendo guia ou referência para o agir humano, enganar-se na escolha de um valor faz construir a vida sobre o erro e encaminhar-se para o fracasso. Todos queremos ser felizes, mas é preciso saber distinguir entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso para construir sobre bases seguras e não sobre um iceberg à deriva pelo oceano. Atualmente não se pensa muito sobre o agir, e se atua segundo o gosto ou sentimentos do momento, sempre inconstantes.
Deve haver coerência entre o que se considera verdadeiro e a conduta pessoal: quem repele teoricamente o suborno, mas aceita propinas indevidas, enfraquece seu caráter, perde a capacidade de julgar retamente e faz as escolhas dependerem apenas do gosto pessoal e não de verdades externas, objetivas. Quem se enclausura em sua subjetividade e entroniza o seu eu como fundamento da verdade, deixará de lado a realidade de cada ser, que é objetiva, universal e válida para todos os tempos, e padecerá as consequências de suas escolhas. Se não há capacidade de identificar os valores, predominará o conflito na vida pessoal.
Há valores perenes e passageiros: orientar a vida para valores como riqueza, divertimento, bem-estar, dinheiro, poder, fama, colocará a existência à mercê da instabilidade desses bens sensíveis e passageiros. Quem busca valores permanentes e universais como amor, amizade, solidariedade, Deus, família, trabalho como modo de servir aos demais, plenifica sua vida de forma estável e duradora.
Guardini disse que um valor é aquilo pelo qual um ser é digno de ser, uma ação é digna de ser cumprida. Algo se torna digno se está de acordo com o bem e a verdade. Logicamente a verdade, bondade e beleza só se encontra de modo absoluto em Deus. Porém, cada ser criado participa em graus diferentes desses predicados, que não são produtos da mente humana, nem dependem da opinião dos demais, mas obedecem a um plano superior de Quem os criou.
Hierarquizar os valores é comparar objetivamente um bem em relação a outro, sem deixar-se enganar pelos estados de ânimo ou opinião da maioria, pois a verdade é uma adequação da inteligência com a realidade externa. O critério de verdade está também nas coisas corriqueiras da vida: por exemplo, o que define uma boa música, um bom vinho e uma boa obra literária? No caso da música, certamente não é o gosto de cada um, pois a beleza dela tem critérios objetivos de harmonia, melodia, ritmo, letra e produção musical… No caso do vinho, basta perguntar a um sommelier para saber que o bom vinho se distingue pelo aroma que não se identifica com odores desagradáveis como mofo ou vinagre; a persistência do sabor na boca após a degustação; o corpo, a viscosidade, a acidez controlada, a região de origem e as condições climáticas e do solo sobre a qualidade da uva, e consequentemente do vinho. E o que define uma boa obra literária? Não vamos entrar nesse campo, pois faltaria tempo.
Há muitos modos de adquirir valores ou modelos de conduta para se andar na verdade. A formação da consciência por meio do estudo da moral, riquissimamente desenvolvida no Catecismo da Igreja e na Encíclica Veritais Splendor, o estudo das normas antropológicas que fundamentam a natureza humana sobre tantos assuntos: vida, casamento, família, sexualidade, trabalho… A religião é princípio unificador da vida ao permitir considerar os acontecimentos à luz da fé e pautar a vida sobre essas verdades.
A família é a grande transmissora de valores, pois o comportamento das pessoas tem muito a ver com as atitudes transmitidas pelos pais. Se desde crianças os filhos foram vendo o exemplo dos pais e ouvindo sobre o valor da castidade, solidariedade, disciplina, aproveitamento do tempo, descanso criativo, espírito de serviço no lar, etc., terão a força da verdade para não sucumbir a tantos erros que hoje sucumbem tantos adolescentes e jovens: namoro precoce, vício em telas digitais, pornografia, excessos de games, jogos de azar, fuga do trabalho e do esforço…
Quem objetivamente sabe que a família é um valor maior que o trabalho, encerrará o expediente no horário para estar logo com a esposa e os filhos. O conhecimento desse valore dará à vontade força para parar encerrar o trabalho por mais agradável que seja. Quem conhece o valor do trabalho como meio para adquirir virtudes, saberá não se conduzir pelos sentimentos e evitará a curiosidade de consultar fora de hora as redes sociais; saberá ver na sua profissão um modo de servir aos demais, e não apenas como meio para acumular bens materiais. Quem sabe o valor da saúde para melhor servir a Deus e aos demais, avaliará o grau de colesterol e de açúcar nos alimentos e não se deixará levar pelo gosto (o pudim de limão é veneno para o diabético).
Outro modo de adquirir valores é por meio de pessoas exemplares que viveram uma vida cheia de significados, deixando de lado o comodismo e a tranquilidade para “complicaram” a vida para promover obras de serviço aos demais: muitas dessas pessoas possivelmente conhecemos na vida familiar, profissional ou social. Os bons filmes e as boas obras literárias também oferecem modelos de condutas virtuosos. Dado que os jovens de hoje agem baseados em sentimentos e emoções, os bons roteiros movem o emocional em direção às virtudes apresentadas pelos diferentes personagens: Os últimos dos samurais, O soldado Ryan, Pinóchio...
Vivemos hoje imersos em antivalores que nos chegam à enxurrada pelos meios de comunicação. O fenômeno do intruvisismo (de intruso), onde pessoas famosas utilizam o prestígio que o dom artístico, esportivo ou profissional lhes dá – dom que receberam gratuitamente Deus –, para se pôr a pontificar sobre temas que desconhecem, tais como família, amor humano, direito à vida, casamento, sexualidade humana, etc., influenciando com critérios errados a vida de tantas pessoas.
Vamos concluir essas considerações, tendo em conta que a nossa formação não deve terminar nunca. É muito fácil infiltrar-se pontos de vista inexatos na mente, resultado da paulatina condescendência com os erros próprios ou alheios. Ninguém deve se considerar plenamente formado, mas melhorar continuamente seu conhecimento para dar respostas aos problemas atuais. Como cristãos, temos que influenciar positivamente – e na medida das forças pessoais –, nos ambientes em que nos movemos e nos meios de comunicação, hoje tão facilitados à criatividade de todos.
Os esforços por estudar, trabalhar bem e com retidão de intenção, manter uma vida de piedade sólida e formar a consciência para decidir bem, alicerçam os valores perenes da conduta humana, e aportam ideias claras para não chamar de bom o que é mau, nem se deixar contagiar por falsos critérios sobre temas como educação, família, sexualidade, religião, finalidade do trabalho, nem por modos de descanso ou lazer perigosos e dispendiosos porque se perdeu o sabor da beleza encontrada nas coisas simples da vida.
Cultivar as virtudes por meio da repetição de atos contrários aos defeitos pessoais ou dos filhos, expande a liberdade e faz amar o bem: quem repete um dia e outro a ação de aproveitar melhor o tempo, trabalhar com retidão, ter espírito de serviço no lar, não mentir, ser fiel aos compromissos assumidos, cria uma conaturalidade ou força para perseverar no bem e ser verdadeiramente feliz.
Texto de Ari Esteves. Imagem de Pavel Danilyuk.