Categoria: VIRTUDES

  • Os bons hábitos dos filhos

    Os bons hábitos dos filhos

    1 – Dimensão afetiva e racional da pessoa humana. 2 – Afetividade domina a criança até os seis anos. 3 – A importância da criança ser ordenada desde a primeira infância. 4 – Hábitos racionais ou virtudes. 5 – Educação da vontade nas diferentes idades. 6 – Ter sempre presente na educação da criança.

    1 – Dimensão afetiva e racional da pessoa humana

    Para ajudar a criança a ganhar bons hábitos ou virtudes é necessário compreender que existe na pessoa humana uma dimensão afetiva (os animais também possuem afetividade ligada aos instintos) e uma dimensão racional. Nos afetos residem os sentimentos, as emoções e paixões, além dos instintos de preservação (alimentação), segurança (abrigo) e procriação. Como dimensão propriamente humana está a racionalidade, que envolve a inteligência e a vontade: os afetos se adestram, a inteligência se instrui, a vontade se educa!

    2 – Afetividade domina a criança até os seis anos

    Não se pode falar em racionalidade na criança até aos seis anos, porque ainda não estruturou seu pensamento. Nesse período ela pode adquirir bons hábitos, que se transformarão em virtudes ao serem racionalizados, a partir dos seis anos (Fundamental 1). Antes disso, falaremos apenas de hábitos, cujo mecanismo é a repetição. Tornar uma criança virtuosa é muito rápido, se ela desde as primeiras idades começar a fazer sua cama, manter organizados seus brinquedos e roupas, acostumar-se com os horários estabelecidos. Se a criança não ganhou bons hábitos até aos seis anos, será mais difícil adquirir virtudes na adolescência. Os hábitos são uma preparação ou trampolim para as virtudes, que por estarem na esfera racional ou volitiva, exigem que a criança faça escolhas livres e conscientes: − “Eu quero comer verduras porque não quero ser um moleque enjoado e cheio de manhas!”, tal afirmação baseia-se em conhecimento intelectual e na decisão livre da vontade.

    3 – A importância da criança ser ordenada desde a primeira infância

    Mas antes da fase racional, a criança pode acostumar-se a agir bem ao viver aspectos de ordem em seus brinquedos, ao ajudar nos pequenos encargos do lar, ao comer e dormir na hora certa, ao vestir-se sozinha, ao arrumar sua cama. É interessante o que conseguiu uma mãe com o filho que começava a andar em pé: após trocar a fralda dele, ensinou-o a levar a suja até o cesto de lixo. Mesmo que não compreendesse o motivo para agir assim, a criança cumpria prazerosamente a tarefa pela segurança da rotina e por agradar a mãe. Investir muito na afetividade dos filhos, principalmente nos aspectos de ordem, é missão importante dos pais: se uma criança bate, joga o sapato, atira no chão os talheres é porque não está educada na afetividade, e pouco se exige dela.

    A criança deve ganhar autonomia disciplinar ao cumprir as tarefas que lhe são ensinadas, não devido à presença da mãe, mas porque tornou-se independente. Para isso, é importante exigir que desde as primeiras idades seja ordenada. O hábito da ordem, que só se adquire com exercícios diários, tem quatro aspectos: ordem material, ordem temporal, ordem afetiva e ordem mental:

        Ordem material: a partir de um ano de idade a criança já pode começar a viver a ordem material ao guardar seus brinquedos e roupas nos locais que lhe foram indicados. A mãe não deve fazer isso por ela, mas precisa ensiná-la a fazê-lo, repetindo várias vezes a ação junto com a criança, até que esta passe a agir sozinha. Cada passo nesse sentido é uma conquista. Se os pais não vencerem a batalha dos aspectos materiais, os filhos sempre desejarão que os outros façam as coisas por eles, tornando-se pequenos imperadores cercados de servos. A criança que não desenvolveu bons hábitos porque se acostumou a não arrumar seus brinquedos e roupas, a ficar na cama ou comer fora de hora, a assistir desenhos o dia todo, etc., não terá forças para viver as virtudes aos seis anos, pois sua vontade estará escravizada por uma afetividade débil e desordenada.

        Ordem temporal: a criança se sente segura nas rotinas. Para isso, ela precisa começar a cumprir horários. A afetividade começa a entrar nos trilhos com a ordem material e temporal: ter horário de brincar e parar; ter horário para tomar banho, jantar e dormir. O hábito do sono exige um ritual, sendo importante que a criança vista o pijama e não vá para a cama com outra roupa. Quando a criança é desordenada e agitada na hora de dormir, significa que está indisciplinada na ordem temporal do sono, pois assiste TV ou faz atividades que já não convém nesse horário, e que a impedem de conciliar o sono.

        Ordem afetiva: É preciso dizer “não” à criança, sem medo de contrariá-la, a fim de que saiba esperar pelas coisas e controle seus afetos. A criança não deve assistir desenhos sempre que quiser; ao divertir-se, deve apanhar um brinquedo de cada vez e pacientemente esgotar suas possibilidades e não pegar outro a cada instante, a fim de dominar a tendência à inconstância. Se a mãe cede a todos os caprichos da criança, é porque teme que ela fique triste. Agindo assim, a mãe logo perderá autoridade, além de tornar caprichosa e pouco criativa a criança. A educação afetiva inclui a alimentação: comer de tudo e no horário, sem permitir dengos (apresentar a comida de várias formas).

        Ordem mental: mesmo que não tenha a racionalidade desenvolvida, a criança com quatro anos já deve perguntar se pode ou não fazer tal coisa. A boa explicação começará a desenvolver a racionalidade dela. A ordem mental também pode ser desenvolvida com jogos. Para isso, diminuir o tempo de desenhos animados, que torna a criança passiva e preguiçosa para pensar e imaginar brincadeiras, além de criar dificuldades com aritmética e disciplinas que exigirão atenção no Fundamental 1. Substitua os desenhos por jogos de memória, de discorrer, dominó, damas, xadrez, lego, cubos, quebra-cabeça, etc. A criança que sabe jogar saberá estudar e cumprir seus deveres. Tanto os jogos como o esporte fomentam muitas virtudes e habilidades sociais, pois exigem seguir regras e respeitar os “adversários”. Além disso, a criança precisa aprender a brincar sozinha (parear cartas de figuras iguais, lego, montar quebra-cabeça, entre outras), pois o silêncio exigido por essas brincadeiras ajuda fixar a atenção − prejudicada hoje pela velocidade das imagens midiáticas −, e despertará a interioridade da criança, ensinando-a a resolver sozinha seus pequenos problemas e a fará ganhar autonomia e independência para agir. Após brincar, a criança deve guardar seus objetos. Pais, não interrompam o silêncio e a atenção das crianças!

    4 – Hábitos racionais ou virtudes

    Aos seis anos (Fundamental 1) a criança entra no mundo racional e tem necessidade de conhecer a verdade sobre as coisas que a cercam: é a fase das perguntas incessantes que irão ilustrar a sua inteligência. Enquanto não praticar racionalmente suas ações, a criança pode adquirir bons hábitos de forma, digamos, mecânica, pois estes são bases para as virtudes. Passar do hábito à virtude significa que a criança começou a agir com inteligência e vontade próprias: − “Quero tomar banho frio de manhã para ficar forte”. – “Quero comer salada para aprender a comer de tudo”. – “Quero ajudar minha mãe nas tarefas da casa”. – “Quero ter um horário diário para estudar”. Quando a criança compreende que deve fazer algum sacrifício, então alcançou o nível da virtude, que exige querer (inclinação da vontade) algo pensado pela inteligência, mesmo que afetivamente no início não agrada realizar.

    Se a afetividade da criança estiver ajustada, ela terá prazer em ser corajosa, constante e laboriosa, que são escolhas racionais, e saberá enfrentar os sentimentos contrários ou a falta de gosto para estudar ou arrumar suas coisas. A virtude logo dará à criança grande alegria ao ser colocada em prática. Muitos pais perdem essa batalha ao não exigir que os filhos cumpram as tarefas, quando estes manifestam falta de gosto em fazê-las: se não forem exigidos, nunca aprenderão a cumprir e amar seus deveres.

    5 – Educação da vontade nas diferentes idades

    O terceiro momento da educação é o da vontade, onde reside a inclinação para o amor e o exercício da liberdade e das escolhas livres. A inteligência ao revelar uma verdade inclina a vontade, que é o apetite da inteligência, para aderir a essa verdade, e os afetos, quando ordenados, apoiam a decisão da vontade. Uma afetividade desajustada – preguiçosa ou indolente – domina a vontade e pode impedir a pessoa decidir bem.

    Ao ter adquirido até seis anos o bom hábito de ficar quinze minutos diários numa mesinha para fazer desenhos, folhear revistas com historinhas em imagens, além de jogos que exigiam concentração, será fácil a criança dedicar mais tempo diário ao estudo no Fundamental 1. Mas, se nunca estudou, como fará isso na adolescência?

    Dos seis aos dez anos a criança deve aprender a ser generosa: compartilhar coisas, convidar os amigos para brincar em casa com seus brinquedos, doar às crianças de um orfanato os brinquedos que já não utiliza, deixar que as pessoas escolham os melhores lugares, desprender-se do tempo e ajudar a mãe a colocar a mesa para as refeições, dar lugar no jogo para outros brincarem, participar de jogos ou atividades que não a atraem tanto a fim de conviver com os demais, compartilhar o lanche, emprestar a bola, ajudar os amigos com dificuldades em alguma matéria escolar. Se gosta de xadrez, poderá organizar um campeonato na escola; se aprecia a leitura de contos, poderá ler para a avó.

    Se a mãe foi possessiva e protegeu demais a criança até os seis anos, ao evitar que fizesse sacrifícios, terá transformado o filho numa maria-mole. Dos seis aos dez anos a criança deverá desenvolver a rijeza de pular da cama no horário previsto, não reclamar da comida ou da temperatura, não dormir à tarde, ir à padaria com chuva, sair de casa e enfrentar a fila do ônibus: são atividades de embate que favorecem a capacidade de enfrentar dificuldades. Neste período é importante a atuação do pai, que deverá fazer excursões mais exigentes: subir morros, andar vinte quilometro de bicicleta, incentivar o filho a desenvolver-se bem em algum esporte, ir ao campo em dia de chuva.

    Dos onze aos quatorze anos (Fundamental 2), fase da puberdade, entrará mais fortemente o tema da sexualidade (assistir a live 43 de João Malheiro – Youtube jebmalheiro). A fortaleza é a grande virtude do Fundamental 2 (no Fundamental 1 foi a temperança ou autodomínio).

    As virtudes do ensino médio são temperança (compreender profundamente a sexualidade humana, que é diferente à do animal); prudência para julgar e atuar bem; ter ideais e saber utilizar a liberdade para se comprometer com algo que vale à pena, e a serviço dos demais; ser responsáveis pelas próprias ações (os pais já não interferem muito, mas podem ajudar o jovem a que tenha iniciativas e as assuma responsavelmente). É o momento da descoberta da própria identidade, se foram desenvolvidas as virtudes dos períodos anteriores. O jovem deve conhecer suas qualidades e virtudes para potenciá-las ainda mais, e reconhecer seus defeitos de temperamento e caráter para corrigi-los, a fim de saber conviver com as pessoas e escolher com acerto uma profissão. Ao ter ajustada a sua afetividade, inteligência e vontade, saberá conduzir-se e responder com segurança à indagação “para que existo e qual a minha função neste mundo?”.

    6 – Ter sempre presente na educação da criança

    1) Crescer em virtudes é necessário para educar bem; 2) Não se deixar levar pelo falso raciocínio – fruto do comodismo – de que o tempo resolverá os problemas comportamentais das crianças; 3) Ter um plano educativo para cada filho; 3) Ser persistentes ao começar e recomeçar cada dia a tarefa de educar; 5) Manter um tempo diário de leitura sobre a educação dos filhos, mesmo que sejam dez ou quinze minutos (esse investimento de tempo evitará dores de cabeça em futuro próximo).

    Texto produzido por Ari Esteves para o Boletim Pedagogia do Comportamento, baseado na live 61, de João Malheiro, com o título “A virtude da ordem e a disciplina e equilíbrio emocional da criança”, disponível no canal do Youtube de Jebmalheiro.

  • As virtudes por idade

    As virtudes por idade

    1 – Melhores períodos para o aprendizado de crianças e adolescentes. 2 – Aprendizado da criança da gravidez aos quatro anos. 3 – Aprendizado da criança até 12 anos.  4 – Aprendizado do adolescente de 12 a 18 anos.

    1 – Melhores períodos para o aprendizado de crianças e adolescentes

        Conhecer os períodos naturais em que a criança e o adolescente estão mais predispostos a aprender facilita o processo educativo. Chamam-se “períodos sensitivos” e ocorrem apenas uma vez na vida (perdem-se ao redor dos vinte anos). São períodos porque correspondem a uma determinada etapa natural que torna fácil o aprendizado e o desenvolvimento de bons hábitos; e sensitivos porque estão na esfera biológica e psicológica de cada pessoa.

        Ao possuir inteligência e vontade livre, a pessoa pode determinar-se a aprender algo em qualquer idade, mesmo depois dos períodos sensitivos. Mas é preciso ter em conta que passado esse período, o aprendizado torna-se mais laborioso: aprender a andar de bicicleta aos 40 anos é mais difícil que aos quatro, e nunca o fará com facilidade; aprender matemática simples é mais fácil aos 7 que aos 30 anos.

        Existem períodos de nível material (andar, equilibrar-se…), e períodos de nível intelectual (ordem, jogos, idiomas). O período de ouro é o da educação da vontade (a partir dos 7 anos).

        Falaremos de aprendizados. Porém, ter em conta que as crianças também podem adquirir bons hábitos como espírito de serviço, solidariedade, ordem material e temporal, entre outros. Até aos seis anos, a criança ainda não tem desenvolvida sua inteligência e vontade, de modo que não se pode falar em virtudes humanas até essa idade, pois são qualidades que exigem o querer livre e consciente da vontade esclarecida pela inteligência. Porém, até os seis anos, a criança pode adquirir bons hábitos, que se transformarão em virtudes a partir dos seis anos. Uma criança que até a idade de seis anos não foi exigida para ser ordenada e a cumprir pequenas tarefas no lar, estará menos preparada para desenvolver a virtude da ordem, entre outras.

    2 – Aprendizado da criança da gravidez aos quatro anos

       – Da gravidez até os 3 anos: escutar música clássica a partir dos 6 ou 7 meses de gravidez cria conexões e estruturas que favorecem o bom gosto musical e a facilidade para idiomas.

       – 10 aos 15 meses: andará sozinha apenas observando os adultos.

       – 1 aos 3 anos: ordem, pois a criança se acostuma a ter seus brinquedos guardados no mesmo lugar, desfrutando-se em organizá-los. Porém, necessita observar como os mais velhos da casa repetem essas ações.

     – 3 aos 5 anos: equilíbrio, capacidade para andar de patins ou bicicleta (jamais esquecerá, mesmo que fique muitos anos sem praticar).

       – 1 aos 4 anos: falar a língua materna e aprender outros idiomas (dois anos e meio), desde que conviva com falantes desses idiomas.

     – 2 aos 4 anos, a descoberta do eu: a partir dos 2 anos a criança deixa de ser individualista e compreende o limite entre o “meu” e o “seu”, e aprende a compartilhar. Aos 3 anos pode iniciar a compreensão da natureza tripla da pessoa humana: corpo (material), alma (imaterial: inteligência e vontade) e espírito (a consciência do “eu”). Helena Lubienska, a grande discípula de Maria Montessori, afirmava “dizer que a criança até os 3 anos não passa de um tubo digestivo é negar o espírito”. “Tratar a criança como se fosse apenas um conjunto de funções fisiológicas, vendo nela apenas a vida vegetativa e animal, é desconhecer sua vida psíquica e negar seu espírito”. E fazia exercícios onde a criança, a partir dos 3 anos, ficava em pé para olhar o seu corpo (pernas, mãos, braços), sem confundi-los com o seu “eu”, que deveria comandar esses órgãos: − “Diga às suas pernas: caminhe!”. Nessa primazia do espírito, o “eu” decide e comanda tanto o corpo (que se vê) como a alma (que pensa e quer).

        As atividades manuais, exercícios físicos, brincadeiras e jogos devem servir para a criança considerar a conquista de seu corpo como um trabalho pessoal, fruto de seus esforços. Isso a conduzirá pedagogicamente ao desenvolvimento de uma personalidade consciente e responsável.

    3 – Aprendizado da criança até 12 anos

     – 3 aos 9 anos, sinceridade: entre 3 e 6 anos a criança vive a sinceridade de modo natural (não sabem mentir), e distinguem o certo do errado porque assim lhe foi assim explicado. Dos 6 aos 9 anos, como consequência da justiça, devem continuar a ser sinceros, mas é nessa fase que aprendem as falsas “vantagens” da mentir).

      – Antes dos 6 anos, obediência: porque estão predispostas a isso ao reconhecer uma autoridade coerente, persistente, confiável e carinhosa.

      – 4 aos 7 anos, os jogos: a idade do jogo é mais intensa nesse período (desde os 2 anos é capaz de entreter-se e inventar brincadeiras). A criança que aprendeu a jogar bem (exige esforço e concentração) terá facilidade para estudar e cumprir bem suas tarefas.

       – 7 aos 11 anos, responsabilidade para assumir as tarefas e não fazer apenas o que gosta; perseverança para levar adiante a decisão que tomou; o amor à justiça começa a se desenvolver e se entristecem diante das injustiças; afã de superação, desejo de melhorar e superar-se no dia a dia; o valor à própria imagem e a opinião que os demais têm deles deve ser aproveitados para que cresçam em virtudes; pudor (11 anos) para guardar a intimidade do corpo e da alma da curiosidade alheia (as meninas começam antes).

       – 7 aos 12 anos, estudo: possuem desejos de aprender; generosidade e impulsos de ajudar aos demais; laboriosidade, ao querer ser útil e ajudar; fortaleza, ao desenvolver a capacidade de sacrifício e esforço ao cumprir seus encargos e deveres diários.

     4 – Aprendizado do adolescente de 12 a 18 anos

      – 12 aos 15 anos: aumenta a autonomia, inteligência e o idealismo: ajudar aos demais com as qualidades pessoais desenvolvidas, pois podem desenvolver a consciência de que devem ser generosos; amizade, dada a necessidade de ser estimado e valorizado pelos amigos (é o momento da influência da turma). É preciso conhecer os amigos e explicar o que significa uma verdadeira amizade.

       – 13 aos 15 anos, sobriedade: acostumar-se a viver com pouco dinheiro, pois se dão conta de que podem se divertir sem gastar muito; não acumular roupas e tênis, tendo apenas os necessários.

       – 15 aos 18 anos, formação de critério: pré-disposição para pensar, julgar, analisar e argumentar. Fomentar o desejo de influenciar positivamente no ambiente social em que vive.

    Texto elaborado por Ari Esteves com base nos livros “Educar hoje”, de Fernando Corominas, Editora Quadrante, 2017, São Paulo; e “A educação do homem consciente”, de Helena Lubienska de Lenval, Editora Kirion, Campinas, 2018.

  • A rotina na vida das crianças

    A rotina na vida das crianças

    1 – Os benefícios das rotinas para as crianças. 2 – Os quatro aspectos da virtude da ordem. 3 – Ser paciente ao ensinar uma rotina à criança.

    1 – Os benefícios das rotinas para as crianças

        A rotina se insere dentro da virtude da ordem, e são imensos os benefícios que ela traz à criança: é fonte de estabilidade e segurança ao dar confiança sobre o que fazer em cada momento, promove a disciplina interior, ajuda a controlar a afetividade, facilita a obediência, faz o ambiente do lar serenar, o que é importante para a criança.

        É importante que os pais compreendam que a rotina tem sabedoria por trás, não sendo meramente externa, pragmática, tal como buscar uma eficiência organizativa para transformar a criança em robô. É algo muito maior, ligado ao enriquecimento interno da criança. A rotina é o caminho para ela alcançar disciplina interior, controlar a afetividade ao se dirigir às próximas atividades, facilitar a obediência, ganhar habilidades motoras em aprendizados que a ajudarão a dominar o seu mundo afetivo, vivenciando, assim, sua primeira interioridade.

        De segunda à sexta-feira, a vida já traz certa rotina aos pequenos: retorno da escola, lavar-se, trocar de roupa, almoçar, estudar, encargos na casa, brincar, banhar-se, jantar, dormir. Porém, nos fins de semana os pais ficam sem entender o motivo pelo qual muitas crianças manifestam certo desgoverno na afetividade e brigam com os irmãos, quebram objetos por acidente e são desobedientes. A criança não é um mini adulto que procura desafiar os pais, e que precisa ser adestrado: se os pais não a ajudam a ter rotinas, ela ficará desorientada e à mercê de caprichos.

    2 – Os quatro aspectos da virtude da ordem

        A virtude da ordem tem quatro pilares: ordem material (guardar os objetos em seu lugar), ordem temporal (onde se insere cada rotina), ordem afetiva (dos sentimentos, emoções, paixões, que deve começar o quanto antes) e ordem mental (a partir dos seis ou sete anos).

        A rotina pertence à ordem temporal. Os adultos também necessitam fazer as coisas em função do tempo, e não em função das coisas ou tarefas. Gastar três horas para preparar um bolo fará atropelar afazeres mais importantes e essa desordem será causa de afobações e atropelos. A ordem temporal dá paz e ajuda a colocar a cabeça nas pessoas que dependem de nós, sendo mais fácil viver o amor e o serviço a eles. O bolo não pode ser a desculpa para desatender compromissos mais importantes. Uma pessoa que trabalha em função do tempo, e não das coisas, consegue se organizar para os deveres de daqui a pouco, de manhã, da semana que vem, do final do mês…

        Até os cinco anos, a criança deve crescer na dimensão material e temporal da ordem, pois isso dará a ela mais estabilidade comportamental, disciplina, atenção e equilíbrio emocional para controlar a sua sensibilidade (ordem afetiva).

    3 – Ser paciente ao ensinar uma rotina à criança

        O confinamento imposto pela pandemia revelou que os pais não estão preparados para criar rotinas na vida das crianças. Em atividades online e em outras deixaram os filhos sozinhos ao acreditar que eram pequenos adultos que saberiam se conduzir. As coisas não funcionam assim. Ou seja, não tiveram a paciência de ajudá-los, sentando-se ao lado deles para ensiná-los a se conduzir. Sem isso, a criança se impacienta e desiste logo. Para criar uma rotina é preciso ter paciência e insistir por semanas, e parabenizar o esforço da criança cada vez que alcançou uma etapa.

        A rotina de limpar o pó dos livros − ou do espelho, etc. − tem que ser pacientemente explicada, a fim de que a criança não fique confusa e desista ao não se sentir preparada. Não ter pressa ao ensinar é o segredo, já que não se trata de buscar a eficiência material de limpar livros. A limpeza de uma prateleira de livros poderá demorar uma semana. O importante é fazer lentamente os movimentos com a mão que tira o pó, depois colocar calmamente o livro na estante e retirar o seguinte.

    4 – A criança não compreende a sucessão do tempo

        O primeiro aspecto da ordem para a criança é a ordenação material dos objetos: com um ano e pouco aprende a guardar seus brinquedos nas respectivas caixas. Depois, deve ser ajudada a saber o que fazer em seguida (ordem temporal), pois, ao não ter ainda racionalidade, ela não tem senso de previsibilidade ou de sucessão temporal e poderá ficar apenas à mercê de seus caprichos, sem se importar com mais nada. É evidente que a criança não deve ser um mini executivo com a agenda lotada e olhos pregados no relógio. Mas, ao não saber o que fazer, ela se inquieta, torna-se confusa e pode chegar à irritação ou habituar-se às desordens.

        A criança pequena não distingue o passado e o futuro, mas apenas o presente. Dizer para uma criança que irá passear daqui a uma semana não quer dizer nada, pois apenas consegue ver o dia de hoje. Ela não tem noção de que é um dia tem vinte e quatro horas, que uma semana tem sete dias e um mês trinta dias. Ao ouvir contar as histórias da Bíblia, ela pensa que Abraão, Moisés e Cristo eram coleguinhas que viveram na mesma época (séculos, o que é isso?).

        A criança nunca sabe o que vem depois: se é hora de lanchar ou de brincar. O mesmo acontece com um adulto colocado em ambiente onde não sabe o que fazer, tal como em um acampamento militar, não sendo militar: ficará desorientado. É preciso mostrar a sequência de atividades de um modo que ela entenda, por exemplo, colocando na parede uma cartela com desenhos coloridos que indiquem a sequência das atividades. Em cada sala de aula da Escola Porto Real, no Rio de Janeiro, há uma pequena cartela com as 15 atividades que as crianças desenvolverão no período integral. A encarregada da sala vai deslocando a bolinha para a próxima atividade a ser realizada. Sem isso, as crianças não saberiam o que fazer e iriam ou para o lanche ou para o pátio antes da hora prevista.

        A criança deve fazer as coisas ao seu ritmo, e não no dos adultos. A ajuda na sucessão das atividades deve ser feita com paz e serenidade, pois isso tranquiliza a criança. Somente por volta dos sete ou oito anos é que ela saberá se organizar sozinha; antes disso dificilmente conseguirá.

    Texto produzido por Ari Esteves para o Boletim Pedagogia do Comportamento, com base na live 61, de João Malheiro, com o título “A virtude da ordem e a disciplina e equilíbrio emocional da criança”, disponível no canal do Youtube de Jebmalheiro.

  • Enquanto ainda é tempo…

    Enquanto ainda é tempo…

    1 – Corrigir as crianças com paciência.  2 – Cada cônjuge deva dar mais do que espera receber. 3 – Na família deve haver regras claras.

    1 – Corrigir as crianças com paciência

        As crianças têm traços encantadores e defeitos que precisam ser pacientemente corrigidos desde pequenas, a fim de não adentrarem na pré-adolescência e adolescência com as mesmas deficiências. A missão dos pais consiste em educar a vontade e formar o caráter, ajudando-os a adquirirem bons hábitos. A família que não souber educar os filhos na infância, porque os pais apenas se preocupam em mantê-las ocupadas com muitas diversões, e contam com a passagem do tempo para que elas melhorem, logo se verá metida em apuros e perderá a falsa paz angariada ao custo de não exigir dos filhos.

        Junto com os traços maravilhosos, as crianças apresentam sérios defeitos e vícios que vão se tornando cada vez mais evidentes com a passagem do tempo. A partir dos dois anos de idade começam a dizer não e aferrar-se em teimosias, egocentrismos e em desejos de dominar pela birra ou manipulação aos que a cercam, para que ajam como elas querem. São impulsionadas a agir por apetites e paixões, que devem ser constantemente corrigidas.

        Para ensinar os bons hábitos às crianças pequenas é necessário repetir muitas vezes a explicação, tendo a certeza de que a reiteração não será eterna, e que em determinado momento elas passarão a incorporar o hábito. A criança precisa ser ajudada a corrigir seus modos sempre que necessário. Por exemplo, insistir para que digam “por favor”, “obrigado”, “com licença”, mesmo que pareça não haver progresso. Os pais devem ter a convicção de que a semente lançada produzirá efeito e um dia testemunharão a criança dizer essas expressões ao se dirigir aos outros. Os pais devem considerar o sacrifício da persistência como investimento que dará frutos permanentes.

     2 – Cada cônjuge deva dar mais do que espera receber

       O casamento não é um contrato onde os lucros são divididos na proporção 50/50, mas em 80/20 ou 90/10. Ou seja, cada cônjuge dá muito mais do que espera receber. O amor verdadeiro não significa partilha justa, mas em esquecer-se de si mesmo e entregar-se ao outro até o sacrifício. Pais que vivem dessa forma transmitem aos filhos profundas lições, porque a atitude da criança para com a mãe e o pai reflete a conduta que estes têm entre si. Quando o casal se respeita, os filhos seguem o mesmo exemplo dos pais. 

       Portanto, os filhos ganham hábitos em primeiro lugar vendo o exemplo dos pais, porque os imitam inconscientemente. Berros e grandes discursos têm pouco ou nenhum efeito sobre eles, se não veem os pais praticarem as virtudes que exigem deles. Em segundo lugar, ganham hábitos pela prática dirigida que os estimula a fazer uma e outra vez determinada ação. Em terceiro, pela explicação verbal do que se espera deles, desde que observem os pais praticarem o que ensinam.

    3 – Na família deve haver regras claras

        Desde pequenas, as crianças mostram grande amor aos pais e irmãos, e o pior pesadelo delas é o receio de serem separadas da família. Têm grande prazer em viver e acordam alegres porque veem o seu dia como uma dádiva ou oportunidade para brincar e ajudar nas tarefas do lar, quando são ensinadas a fazer isso. A criança está sempre disposta a rir e a agir. Quando pequenas, elas não sabem mentir e têm grande amor à verdade; só aprendem a enganar a si mesmas e aos outros quando se tornam mais velhas.

        Na família, como em qualquer outra sociedade ou instituição, deve haver regras claras e razoáveis para serem vividas por todos, inclusive pelos pais. As regras fazem as crianças saberem o que se espera delas e, com isso, ganham confiança em si mesmas para agir. As regras funcionam como o guard rail de uma autoestrada, pois dão segurança e revelam a fronteira do certo e do errado: ultrapassar as regras causará estragos a si e aos demais.

        Exemplos de regras que vão formando o caráter dos filhos, e que precisam ser anunciadas com frequência no lar: “Em casa nunca falamos mal de ninguém”, “Não interrompemos as pessoas quando falam”, “Ao sermos corrigidos, não retrucamos ou damos desculpas”, “Cumprimos com a palavra dada”, “Não discutimos durante as refeições”, “Só entramos em casa com os sapatos limpos”, “Cada um guarde as roupas e objetos próprios”, “Não comemos fora de hora”, “Quando usamos um prato ou copo, lavamos e o colocamos no lugar”, “Voltamos direto do trabalho (os pais) ou da escola (os filhos) para casa”, “Não assistimos televisão durante as refeições”.

        Certamente o lar não é um quartel com regras frias e sem alma. Junto às normas, que ao serem vividas demonstram a preocupação de uns pelos outros, deve haver muito carinho entre pais e filhos. Um lar para ser luminoso e alegre constrói-se com o generoso e sorridente sacrifício de todos.

    Texto produzido por Ari Esteves, baseado na obra “Enquanto é tempo”, de James B. Stenson, Editora Quadrante, São Paulo.

  • Pais submissos, crianças sem limites

    Pais submissos, crianças sem limites

    1 – A criança consumista não é criativa. 2 – O mal do consumismo infantil. 3 – Pais submissos, crianças sem limites. 4 – A criança não deve fazer tudo o que quer.

    1 – A criança consumista não é criativa

        “Tem mais quem precisa de menos” é provérbio da sabedoria popular e de senso comum. Dar tudo o que a criança quer não é o caminho de uma boa educação, pois esta consiste em fazer por merecer, alegrar-se e sofrer pelo que vale a pena, entusiasmar-se com as próprias descobertas, inventar ou criar para suprir as necessidades: a criança criativa faz seus brinquedos e inventa brincadeiras.

        Educar é um saber prático, visto que consiste em ensinar o outro a comportar-se. Muitos presentes insensibilizam a criança, que passa a não reconhecer o custo das coisas, além de se tornar passiva e mal agradecida. Para deslumbrar uma criança consumista são necessários brinquedos cada vez mais sofisticados e caros. Pais submissos compram roupas de grife e mochilas da moda porque não querem que o seu fofinho – coitadinho − aproveite as roupas do irmão ou a mochila fora de moda. No fundo, desejam crianças-troféus para serem exibidas.

    2 – O mal do consumismo infantil

        Miguel Cervantes dizia que o caminho da virtude é estreito, e o do vício é amplo espaçoso. A criança mimada, paparicada, a quem os pais não colocam limites, terá a vontade e a imaginação reduzidas, e sua capacidade de esforço será para voos curtos como o das galinhas, e não para chegar às alturas como o das Águias. O que é bom e valioso exige esforço, mas elas não estão dispostas a isso.

        Saturada pela espiral negativa do consumismo, a “criança digital” já não se admira com as coisas simples que a natureza oferece, e perde o padrão de todo conhecimento e conclusão, pois estes têm como base a realidade. A falta de limites, muito própria do consumismo frenético, principalmente o da irrealidade digital, destrói nas crianças a curiosidade para as coisas valiosas que a cercam, e as faz pensar que as pessoas e o mundo devem se comportar como elas querem. A sensação de prazer e bem-estar que causa na criança a saturação dos sentidos, a faz perder a curiosidade e o apreço pelo silêncio, tão necessário para fomentar a criatividade.

        A criança que possui tudo foge do esforço para conseguir algo por si mesma, já que recebe tudo pronto. Ao perder a capacidade inventiva, ela necessita de filmes e videogames sempre mais acelerados, pois não possui interioridade e imaginação para criar algo. O consumismo reduz na criança o desejo de conhecimento e a conduz à falta de limites, que a indispõe para virtude, pois esta exige esforço.

        A criatividade e a descoberta, que são formas mais elevada de conhecer, surgem de maneira natural nas crianças, dada a tendência delas para a verdade, bondade e beleza. Porém, descobrir ou inventar algo não surge do caos, do apertar o play que traz tudo pronto, do barulho contínuo e da saturação dos sentidos pela falta de limites e indisciplina. O silêncio contemplativo diante de uma embalagem vazia que tem em mãos, faz a criança ser criativa e inventar seus próprios brinquedos,

    3 – Pais submissos, crianças sem limites

        O pensamento simplista da criança é assim: Se as coisas não são como eu quero, fico emburrada e birrenta para que sejam como quero”. A birra, que começa a partir dos dois anos, é consequência da frustração do “não” gordo e rotundo que recebeu. Se os pais cedem em tudo, reforçam aquele pensamento; se não cedem, deixam claro que as coisas não são como elas acham que devem ser. Quando a criança conclui isso − bem-vinda à vida real! – terá menos frustrações ao iniciar a convivência com outras pessoas.

        É comum ver nos supermercados e shoppings crianças que pedem aos gritos porque não aceitam um “não”. Então, batem, gritam e jogam as coisas, tudo sob o olhar compassivo de pais que abdicaram de exigir delas. São crianças que necessitam ter menos produtos caros e mais objetos simples; menos videogames e mais esforço para andar de bicicleta e jogar bola; menos presentes e mais espírito de serviço e dedicação de tempo e carinho pelos familiares; menos TV e tabletes e mais passeio pelo parque ou praça arborizada para observar a natureza; menos barulho e mais silêncio criativo.

    4 – A criança não deve fazer tudo o que quer

        Há uma lei que as crianças precisam conhecer e viver o quanto antes: somos livres para fazer o que queremos, mas não o somos para as consequências que os nossos atos provocam. O mundo tem suas leis: o sol queima, queiramos ou não. Para ir ao parque em dia ensolarado é preciso colocar o boné. Se a criança não quer colocá-lo, não é necessário enfiá-lo à força, mas com cara alegre e descontraída, para que ela compreenda que é assim que as coisas funcionam, dizer simplesmente: − Que pena, querido, então não iremos ao parque! Vamos aguardar para ir em dia sem sol, já que você não quer ir de boné. A criança ao sentir a segurança dos pais em suas afirmações, não mais colocará à prova o limite deles.

        Viver a liberdade exige da criança aprender a ter limites para brincar, comer, dormir, ler, ver desenhos, e não temer o esforço para a conquista de bons hábitos ou virtudes. Soa paradoxal falar de limites e de esforço como condição da liberdade, mas não é. Montessori resolve esse aparente paradoxo ao dizer para deixar a criança que ainda não desenvolveu sua vontade fazer o que ela quiser, é trair o sentido de liberdade (porque isso leva à libertinagem, acrescento eu). A liberdade é consequência do desenvolvimento da personalidade, adquirida no esforço por viver retamente.

    Texto produzido por Ari Esteves com base no capítulo 7 “Ter tudo? Estabelecer e fazer respeitar os limites”, do livro “Educar na curiosidade”, de Catherine L´Ecuyer, Editora Fons Sapientiae, 3ª. Edição, São Paulo, 2016.

  • Apego digital: teste seu filho

    Apego digital: teste seu filho

    1 – Observe como sua criança reage diante da natureza. 2 – Como resolver o problema do tédio da criança?

    1 – Observe como sua criança reage diante da natureza

        A natureza é uma das primeiras janelas de curiosidade da criança; é onde ela conclui que as coisas não são imediatas e possuem ritmo próprio: o arrastar do caracol, o broto da planta que surge lentamente da terra, o ovo no ninho, a incansável formiga em sua sinuosa trilha, o casulo da borboleta debaixo da folha, a pequenina aranha tecendo sua teia… Todas as coisas belas e valiosas requerem tempo de maturação: a gravidez, a árvore, a amizade, o amor. Ajude seu filho a se encantar com as coisas simples!

        Nos feriados ou fins de semanas vá a espaços abertos na natureza (parque, praça arborizada, jardim, campo), onde não haja atividades estruturadas, brinquedos ou alguém que dite como brincar, e observe se a sua criança sabe se divertir sozinha ao imaginar brincadeiras e jogos, ou se logo fica entediada e quer voltar para casa.

    2 – Como resolver o problema do tédio da criança?

        Não é normal o tédio ou apatia em criança de 3 e 6 anos, pois sua criatividade é infinita. Se ela passar pela prova da natureza, passará pela prova do comportamento na igreja, na sala de espera do consultório, supermercado, shopping… Se age com birra ou impaciência, se bate, se grita e joga as coisas, talvez seja porque – além da falta de autoridade dos pais – anda hiperestimulada pelas telas digitais, e não suporta aguardar o ritmo real das coisas, pois o excesso de mídias dá a ilusão de que tudo se resolve com apertar botões de aplicativos para obter na hora o que quiser.

        Einstein dizia que não podemos resolver problemas usando o mesmo padrão de pensamento que tivemos ao criá-los, o que significa que não será por meio de telas que a hiperatividade se consertará. Como resolver essa questão? A resposta foi dada há mais de sete séculos por Tomás de Aquino: a admiração, que é o desejo de conhecimento.

        A infância é mágica e tem sede de curiosidades, sendo desnecessário artificializá-la. A estrutura, que é meio, deve ser mínima para estimular a criatividade, a observação silenciosa e a descoberta que faz extasiar. Deixe a criança se entreter em sua quietude misteriosa ao manipular pequenos objetos; não interrompa nem ofereça tabletes ou TV, pois ela está fazendo suas próprias descobertas. Educar com menos brinquedos eletrônicos faz com que as pilhas e os botões estejam dentro da criança, e não fora dela.

    Texto produzido por Ari Esteves com base na obra “Educar na curiosidade”, de Catherine L´Ecuyer, Editora Fons Sapientiae, 3ª. Edição, São Paulo, 2016.

  • A família e as virtudes dos filhos

    A família e as virtudes dos filhos

    1 – A educação familiar é profunda e permanente. 2 – Os pais não podem transferir a missão de educar à escola. 3 – É na vida familiar que as virtudes começam a ser vividas.

    1 – A educação familiar é profunda e permanente

        A família é uma organização natural que chega ao mais profundo da pessoa: à intimidade. A escola não é organização natural, mas cultural e visa apoiar os pais ao transmitir cultura aos seus alunos. Se na família a pessoa é aceita pelo que é não pelo que faz, isso já não ocorre em outras organizações da sociedade, onde as pessoas são aceitas pela sua funcionalidade: um jogador de futebol é recebido enquanto cumprir sua função esportiva; na empresa, ao desenvolver a determinada função; na escola os alunos são aceitos enquanto cumprirem a missão de estudar.

    2 – Os pais não podem transferir a missão de educar à escola

        Os pais são os primeiros educadores dos seus filhos, pois ao gerá-los adquirem o intransferível dever de prepará-los para a vida. Para isso, devem ajudar os filhos a desenvolverem hábitos operativos bons, que são as virtudes humanas, a fim de que cresçam em maturidade, tenham estabilidade de ânimo, capacidade de tomar decisões ponderadas e fazer juízos retos sobre pessoas e acontecimentos. Não é correto que os pais deleguem a sua principal função à escola. O ideal seria que filhos chegassem às instituições de ensino com as virtudes desenvolvidas, para ali receberem somente cultura. Se isso não ocorre na realidade, a escola inteligente ajuda subsidiariamente os pais ao aproximar deles temas de orientação familiar e educação nas virtudes.

    3 – É na vida familiar que as virtudes começam a ser vividas

        Os pais devem aproveitar os acontecimentos cotidianos da vida familiar para ajudar os filhos a viverem as virtudes com intensidade e intenção reta, e não de modo medíocre: se querem que os filhos sejam generosos, que o sejam não apenas com os amigos, mas com pessoas realmente necessitadas; se vai doar um brinquedo a uma criança sem recursos, que o faça não para ficar bem diante dos familiares.

        Para adquirir um hábito operativo bom ou virtude – ser laborioso ou ordenado, por exemplo – é preciso repetir muitas vezes esses atos nas pequenas ocasiões que surgem no dia a dia (estudar, cumprir os encargos, guardar as próprias roupas etc.). Atribuir tarefas às crianças para que cumpram diariamente, as torna felizes porque se sentem parte do time responsável por deixar o lar ordenado e aconchegante para o conforto de todos. A repetição desses afazeres gera hábitos ou virtudes que elas levarão pelo resto da vida.  A reiteração desses atos pela criança acontece se houver algum tipo de exigência que promova a repetição de fazer algo (exigência operativa) ou de não fazer uma ação ruim (exigência preventiva). A exigência operativa é a base do desenvolvimento de muitas virtudes: ordem, constância, laboriosidade, perseverança, entre outras.

    Texto produzido por Ari Esteves, com base no livro ”A educação das virtudes humanas e a sua avaliação”, de David Isaacs, Editora Quadrante, São Paulo, 2014.

  • Plano de Ação para corrigir um filho

    Plano de Ação para corrigir um filho

    1 – O que é um Plano de Ação. 2 – Há vários formas de Planos de Ação. 3 – Partes de um Plano de Ação. 4 – Educar hoje é diferente.

    1 – O que é um Plano de Ação

        Para haver ação educativa é preciso intencionalidade (intenção de educar). Não basta a convivência pura e simples sem um projeto baseado no conhecimento pessoal de cada filho, visando o desenvolvimento harmônico de sua personalidade, que inclui não apenas a educação da inteligência, mas a da vontade e da afetividade (sentimentos, emoções, paixões).

    Plano de Ação é a estratégia utilizada pelos pais para motivar um filho/a a executar atos que o levarão a desenvolver uma virtude ou vencer um mau hábito. É falso o raciocínio de que os filhos melhoram com o passar do tempo (isso só acontece com o vinho). Quando não se estabelecem Planos de Ação, os problemas tendem a aumentar e se tornarão mais difíceis de serem desarraigados. Os defeitos progridem em proporção geométrica à passagem do tempo, quando não há esforço por eliminá-los.

        Os Planos de Ação podem ser elaborados para ajudar a criança em diferentes aspectos: melhorar a autoestima; ajudá-la a ser obediente e responsável nos encargos; manter em ordem seus objetos; fortaleza e constância no estudo; aprender a ser amigo (companheirismo); ser cortês com os mais velhos; ter espírito de sacrifício para ajudar os pais e os irmãos; ser generoso com seu tempo e brinquedos; não mentir, entre muitos outros. Veja alguns Planos de Ação prontos.

    2 – Há vários formas de Planos de Ação

    Planos de Ação para o Passado: surgem como consequência de ações mal feitas ou mau comportamento. Os pais atuam em consequência de fatos já ocorridos. Podem ter diferentes enfoques: evitar brigas entre irmãos, ajudar um filho a se tornar obediente ou ordenado, ser estudioso, potenciar uma capacidade baixa, corrigir um costume, alterar uma situação (por exemplo, mudar de amigos), etc.

    Planos de Ação para o Presente: são realizados para alcançar melhor cumprimento de alguma norma já estabelecida ou a estabelecer, viver em família algum novo costume, revisar a distribuição dos encargos. A finalidade desses planos é promover a boa convivência no lar e estimular as virtudes da família no dia a dia: pontualidade nas refeições, almoçar todos juntos aos domingos e ter um bate-papo ou tertúlia após essa refeição, estabelecer um encarregado para limpeza e ordem da cozinha a cada dia da semana, revisar a ordem nos armários, ajudar um irmão a estudar matemática, etc.

    Planos de Ação para o Futuro: estes são os melhores que existem! Pensados pelos pais antecipadamente, previnem ações futuras, sem que tenha havido causa ou incidente no presente. Pretende-se ajudar os filhos a que sejam pessoas livres e responsáveis ao potencializar suas qualidades, corrigir possíveis pontos fracos: evitar a impontualidade na futura escola, ao animar desde já a ser pontual no esporte e nos encargos domésticos; fomentar a generosidade ao estimular um filho a dar aulas de reforço ao irmão mais novo; prevenir acerca dos perigos da pornografia na internet e sobre o vício de videogames; acautelar sobre os efeitos deletérios das drogas. Se o filho tem dois ou três anos, pode ser estimulado a ser ordenado, a fim de que seja um adolescente organizado. Ao filho que em breve irá à escola, ensinar a distinguir o que é um amigo (presente nas horas ruins), um colega (pronto só para se divertir) e um cúmplice (para ações erradas), com a finalidade de ajudá-lo a escolher bem suas amizades (a leitura de Pinóquio, de Carlos Colodi, poderá ajudar nessa distinção).

    3 – Partes de um Plano de Ação

        Pai e mãe dialogam para estabelecer um Plano de Ação, que tem as seguintes partes:

    1. Análise da Situação ou descrição do fato a ser corrigido: Joãozinho, de 11 anos, não estuda e suas notas são baixas. Além disso, vê muita televisão.
    2. Objetivo ou hábito bom a ser alcançado: fomentar no Joaozinho a virtude da laboriosidade.
    3. Meios ou recursos a empregar para alcançar o objetivo: o filho deverá ater-se a um horário de estudo, que será de 2ª a 6ª-feira, das 14h às 17h. A televisão da casa não será ligada nesse período. Os irmãos mais novos deverão fazer silêncio e aproveitarão para ler, pintar, montar quebra-cabeça, mas tudo em silêncio.
    4. Motivação ou argumentos que levarão o Joãozinho a desejar colocar em prática os atos para alcançar a virtude da laboriosidade e eliminar o defeito da preguiça: disseram ao garoto que o horário de estudo fortalecerá não apenas sua capacidade de compreensão, mas também a sua vontade será potencializada e ele não se deixará levar pelo mais cômodo, pois as imagens da TV tornam a mente cada vez mais preguiçosa e a pessoa fica passiva e sem iniciativas para abraçar qualquer meta que exija esforço e disciplina, seja no esporte, no aprendizado de um instrumento musical. Como o Joãozinho gosta de animais e quer ser veterinário, seus pais afirmaram que o hábito de estudo criará o de leitura, e ambos ajudarão a que ele entre na melhor escola pública do país. Joãozinho se animou a cumprir o horário previsto.
    5. História ou análise de como vem se desenvolvendo os meios ou recursos colocados em prática: todos estão colaborando para que o Joãozinho ganhe o hábito de estudo. Inclusive, para dar exemplo, no período da tarde a mãe deixou de assistir certa novela; e o pai não assiste partidas de futebol, indo à casa de amigos quando o jogo vale à pena.
    6. Resultados ou conclusões sobre as metas alcançadas: foi positivo o resultado, que exigiu mudança de hábito de toda a família, a fim de ajudar o Joãozinho. Ao garoto foi um Plano de Ação para o Passado, e Plano de Ação para o Futuro aos demais irmãos. A partir de agora é importante que os pais perseverem para converter o plano em costume familiar.

    4 – Educar hoje é diferente

    Os pais devem estar atentos para prevenir ou corrigir, pois as mídias sociais e os diferentes ambientes frequentados pelos filhos nem sempre oferecem influência sadia. Educar hoje exige dos pais uma melhor preparação para dar respostas convincentes, já que não basta dizer “porque eu quero” ou “porque sim“. É necessário dedicar alguns minutos diários à leitura de temas de educação do comportamento de crianças e adolescentes. Na página https://staging.ariesteves.com.br/livros/ indicamos boas obras para a formação de pais e educadores. Lembrem-se: todos os problemas têm solução; basta que sejam bem estudados!

    Texto produzido por Ari Esteves, com base no livro “100 Planes de Acción”, de Fernando Corominas, Colleción Hacer Família, Ediciones Palabra, Espanha. Essa publicação, entre outras, pertence ao IEEE − Instituto Europeo de Estudios de la Educación, onde há excelentes cursos e livros para os pais (www.ieee.com.es).

  • Educar na realidade

    Educar na realidade

    1 – A criança deve se admirar com as coisas simples ao seu redor. 2 – O perigo da superestimulação das telas. 3 – A perda da curiosidade e da criatividade infantil. 4 – Fomentar brincadeiras imaginativas.

    1 – A criança deve se admirar com as coisas simples ao seu redor

    O essencial na educação da criança é a qualidade do relacionamento dela com seus pais ou educadores. A criança necessita olhar para rostos carinhosos e dispostos a dedicar tempo a ela, e não se fixar em telas de tabletes ou tv. Dos seis aos vinte e quatro meses a criança se diverte quando o pai ou a mãe brinca de se esconder e reaparecer, gosta de engatinhar e se encanta com os pequenos objetos que encontra no caminho: a cor e o ruído do papel celofane, a formiga que carrega uma folha, a embalagem vazia no chão da cozinha. É assim que ela vivencia suas próprias experiências e desenvolve as habilidades motoras e de percepção.

    As crianças necessitam despertar a curiosidade diante das pessoas e objetos que as cercam, buscar respostas para as suas próprias experiências, e não obter tudo pronto ao apertar botões de equipamentos eletrônicos, que roubam delas a interação com as pessoas e o mundo ao seu redor. A admiração é um sentimento de elevação diante de algo que supera a própria pessoa. A curiosidade provoca o interesse e isso é fundamental no desenvolvimento psicológico da criança, que passa a tirar suas próprias conclusões. As perguntas das crianças de dois ou três anos não exigem respostas profundas, pois são a maneira de se admirar com a realidade: “Pai, por que não chove para cima?”, “Mãe, por que as abelhas não fabricam doce de leite? “As formigas não sentem preguiça?”.

    2 – O perigo da superestimulação das telas

    A criança que passa a depender da superestimulação artificial das telas, se acomoda e não é capaz de se encantar ou admirar-se com nada mais, pois deseja apenas retornar à hiperatividade das tecnologias, onde muitos desenhos tidos como “infantis” mudam de cena a cada oito segundos (7,5 cenas por minuto), o que não acontece no mundo real da criança. A televisão ligada diante do campo de visão do bebê é algo imprudente, pois desvia o olhar dele do entorno em que vive – e com o qual deve se deliciar: ver os pais e irmãos, sentir os cheiros e os sons da casa – para fixar sua atenção no campo frenético da tela.

    Encontrar estimulação em detalhes que passam despercebidos aos adultos é próprio das crianças: sua baixa estatura a faz atentar às pequenas realidades ao seu entorno. Porém, pais ou educadores com pouca sensibilidade ou dificuldade para colocar-se no lugar da criança, ao pô-las diante de telas digitais – julgam que a ajudarão se divertir e aprender mais – entopem-na de estímulos artificiais que anulam a curiosidade e a capacidade dela de se motivar com a vida real. O excesso de imagens satura os sentidos e bloqueia a imaginação. A criança se torna passiva e entediada com o mundo real, porque acha-o chato, lento e sem graça. Quando sai à rua com os pais não sabe fixar a atenção em nada ao seu redor porque, acostumada à superestimulação, perdeu a curiosidade e sua imaginação se acomodou.

    3 – A perda da curiosidade e da criatividade infantil

    A falta de limites e o consumismo vertiginoso das crianças atuais vêm destruindo a curiosidade delas, pois acham que tudo deve vir à la carte pela tela. O modo mais fácil de matar a curiosidade delas é deixar a vida ao alcance do botão play. Uma mente assim acostumada fica preguiçosa e pouco imaginativa. Contudo, a criança se torna hiperativa, nervosa e com desejo de chamar a atenção quando é afastada desse mundo irreal dos videogames, etc. Como um fumante ansioso, a criança acostumada às sensações aceleradas necessita de conteúdos cada vez mais agressivos, o que a tornará um adolescente desejoso de estímulos novos e mais agressivos (pornografia, drogas), porque já viu e se acostumou com tudo.

    Muitas crianças hoje são hiperativas, dispersas e com dificuldades para se relacionar, estabelecer vínculos e demonstrar afeto ou aceitar a autoridade (fenômenos raros antes das telas!). São crianças-troféu para serem exibidas, mas que crescem sem limites e pouco acostumadas a receberem um “não”. É comum ver nos supermercados e shoppings a tirania das que pedem aos gritos, xingam e batem porque não aguentam receber uma recusa, nunca dita a elas.

    4 – Fomentar brincadeiras imaginativas

    É importante que os brinquedos escolhidos não tenham pilhas ou botões, que devem estar dentro da criança, e não fora dela: não é a brincadeira que deve funcionar, mas a criança. A brincadeira é a atividade por excelência com a qual a criança aprende movida pela curiosidade.

    Vários estudos associam a brincadeira imaginativa da criança com a melhora e controle de sua impulsividade, porque a capacidade de imaginar e de desejar algo faz a criança refletir, começar e recomeçar, agindo ativamente. Filmes, desenhos e videogames, ainda que com o fim educativos, tornam a criança passiva, preguiçosa e sem iniciativa, dado o pouco esforço que é exigido dela.

    Brincar é o trabalho da criança. Mas isso não se confunde com o lançar-se sobre o sofá e jogar videogames a tarde toda, como recurso para matar o tédio do mundo real. A brincadeira deve ser a realização de uma tarefa que a criança faz com o coração, colocando nela a imaginação e a criatividade. A criança que passa horas concentrada em montar um castelo de lego ou armando uma cabana de lençol entre os móveis da sala, usa criativamente a imaginação e faz descobertas vivenciais.

        Nos fins de semana, quando não há atividades estruturadas ou formais – sejam as da escola ou de outro local que dizem às crianças o que devem fazer −, é um bom momento para observar se, no espaço aberto de um parque, seu filho brinca por horas sozinho ou com o irmão, sem outros brinquedos, mas imaginando as diversões que a natureza pode proporcionar. No entretenimento livre a criança equilibra os estados de tédio com o de ansiedade (tédio quando algo é fácil de realizar; ansiedade quando é difícil demais). Caso ela fique entediada em pouco tempo e ansiosa para retornar às telas, é que sua mente já se tornou hiperativa e dependente do ritmo dos ambientes artificializados, estruturados e com níveis altos de estímulos.

    A criança não se educa sozinha, mas necessita ser ajudada por adultos com sensibilidade para preparar um ambiente que não cede ao mais fácil (colocar nas mãos dela um tablete, por exemplo), mas deixam que ela seja a protagonista da sua própria educação. Ao invés de perguntarem à criança se deseja ver televisão, indagam sobre o que ela gostaria de construir com os tijolos de lego. Assim, permitem que a iniciativa seja da própria criança, que utilizará sua imaginação e aumentará suas habilidades.

    Texto produzido por Ari Esteves, com base na obra “Educar na curiosidade”, de Catherine L´Ecuyer, Editora Fons Sapientiae, 3ª. Edição, São Paulo, 2016.

  • Os valores são guias para os filhos.

    Os valores são guias para os filhos.

    1 – Valores fortalecem a vontade. 2 – Tenacidade e Constância. 3 – Obediência e Diligência. 4 – Sinceridade e Generosidade. 5 – Respeito e Responsabilidade. 6 – Ternura e Temperança. 7 – Ordem e Asseio.

    1 – Valores fortalecem a vontade

        A transmissão de valores começa desde os primeiros anos da criança ao incentivá-la a ter bons hábitos que logo se tornarão virtudes e alicerces do caráter. Quem não tem valores ou guias de conduta é como o barco sem leme que segue qualquer vento.

    2 – Tenacidade e Constância

        A tenacidade e precisa ser fortalecida entre um e três anos, ao ensinar a criança a ser perseverante e constante. Ao ver que ela tenta fazer uma torre com cubos, anime-a a concluir para que se habitue a terminar o que começou. Ao finalizar, aplauda-a, parabenize-a, pois é uma maneira de motivá-la a se esforçar sempre para findar o que iniciou. A aprovação do pai e da mãe é sempre animadora. Encoraje-a a fazer as coisas sozinha: vestir a boneca, montar um castelo de lego, devolver os brinquedos nas caixas, colocar no prato a própria comida, limpar os sapatos. A criança deve ver que os pais também se empenham naquilo que fazem. Ensine-a a não fazer apenas o que agrada: não a deixe ver televisão a tarde inteira, e force-a para que vá brincar no quintal ou jardim; não permita que abra a geladeira ou o pote de bolachas no armário, a fim de não se habituar a comer fora de hora. Uma criança com a vontade educada desde pequena, logo será um jovem perseverante, tenaz e decidido. A preguiça e o ócio − que estão ligados a uma vontade fraca − não criarão raízes nele. Não espere o tempo passar para iniciar o fortalecimento da vontade de seu filho.

    3 – Obediência e Diligência

    A desobediência é um péssimo hábito da criança, que desespera os pais. É preciso explicar sempre a ela o porquê de uma atitude, pois é mais fácil obedecer quando se compreende a razão de uma ordem. A obediência aos pais deve se converter em hábito. Mas atenção, pais, não fiquem obcecados com a obediência, pois a criança pode acabar farta de tanta cobrança. Não se esforcem por arranjar situações em que coloque à prova a obediência de seu filho. Façam as coisas de modo natural, e aproveitem as ocasiões que surgem: por exemplo, se a criança rasgou o desenho da irmã, explique serenamente que a maninha fez a pintura na escola, e queria que todos pudessem apreciá-la. Ao rasgá-la, ninguém pode vê-las, o que deixou triste a todos. De modo delicado foi explicado o que não deveria ser feito e como respeitar os outros. Mas não cante vitória antecipadamente, pois o pirralho poderá repetir sua habilidade de picar papéis. Não desanime até que ele deixe de fazê-lo. Se for necessário, repita a explicação todas as vezes que ele rasgar, pois trata-se da psicologia do anúncio: de tanto repetir, a coisa entra na cabeça.

    Seu filho deve ser diligente a partir dos 2 anos e meio ou três. Não permita que demore muito a obedecer, porque isso poderá se transformar num péssimo hábito. Não é exagerado exigir a obediência desde pequeno. Muitos pais desistem dessa luta. Porém, esse esforço não será em vão, pois ao habituar a criança a não fazer só o que agrada, ela se fortalecerá para metas altas e que custam mais esforços para serem atingidas (estudar para entrar numa universidade pública). Crianças mimadas só fazem o que gostam e fogem do esforço e do sacrifício.

    4 – Sinceridade e Generosidade

    O diálogo entre pais e filhos deve ser aberto, desde o momento em que a criança começa falar: – Filho, quem colocou o brinquedo dentro do vaso sanitário? Diga-me, porque se me contar, o papai não vai se aborrecer, mas se me esconder a verdade, irei descobrir e castigar quem fez isso.  − Fui eu, pai! − Grande garoto. Limpe o brinquedo e coloque ele para secar. Cuide e não estrague suas coisas. Que conseguiu o pai com este diálogo?  Criou um clima de confiança entre ele e a criança ao não dar um show de histeria.  Isso evitará que o filho faça as coisas ocultamente. Com destemperos, a criança tende a negar a má ação, e você perderá a oportunidade de corrigi-la.  A criança deve comentar com os pais as coisas boas e más que fez, porque sabe que o pai ficará zangado ao ver as paredes sujas e a lâmpada quebrada, sem que o autor tenha se acusado.  O clima de diálogo prepara os filhos para que na adolescência fale de seus planos de fins de semana (com quem sairá; o que fará na casa dos amigos), e assim você não terá que dar uma de Sherlock Holmes para investigar. A criança habitua-se a dizer a verdade se vive num ambiente de confiança. E assim, não terá a personalidade dupla de quem é simpática e aberta com os amigos, mas estranha e ressabiada dentro de casa. Quem se habituou desde a infância a dizer a verdade, não muda nunca seu modo de agir.

    Dizer que a criança é egoísta soa a afirmação gratuita, pois dependerá de como foi educada. Uma criança se torna generosa quando seu coração desde a infância compartilha as próprias coisas com os pais, irmãos, amigos e crianças carentes. Mostre a seu filho que a verdadeira felicidade não está em ter muitas coisas, mas em estar desprendido (tem mais quem precisa de menos). A criança aprende rápido a sair de seu próprio ego ao ser estimulada a doar seus brinquedos, e ficará feliz com isso. Generosidade significa renúncia de si mesmo, e torna a alma grande, magnânima. Dar é sempre difícil, mas se a criança começa a fazê-lo, crescerá desprendida e feliz, contrariamente à egoísta, que é triste porque nunca está contente com o que tem, sempre quer mais e inveja o que não possui. Ao emprestar o seu carrinho ao irmão menor, ficará feliz ao vê-lo alegre. Estimule sua filha a deixar o chocolate para o pai, porque ele gosta muito e chegará cansado do trabalho. Não se trata de ajudar a criança a ser generosa apenas em coisas materiais, mas também com as imateriais, ao dedicar tempo para servir aos demais. Claro, não exija que seu filho doe o ursinho com que dorme todas as noites, porque não irá parar de chorar ao pensar que o boneco sofre ao não dormir mais a seu lado.

    5 – Respeito e Responsabilidade

    Não é correto pensar que nos primeiros anos as crianças são terríveis e não há nada a fazer. É muito cômodo deixar de corrigir, mas a fatura chegará com juros altos. Desde pequenas devem ser ensinadas a ter respeito pelas pessoas e pelas coisas, e a ter limites. Assim, entrarão na adolescência sabendo se apresentar em qualquer lugar, dando mostras de que seus pais foram bons educadores. Logo que a criança começar a falar, deve aprender a ter bons modos e a viver as regras de boa educação (obrigado, por favor, desculpe, olá, tchau, com licença). Vale a pena aplicar um corretivo com uma explicação carinhosa para a criança aprender a não entrar na sala e brincar sobre o sofá, nem ligar a televisão ou manchar as paredes. Ao exigir respeito a algumas regras, a criança terá pontos de referência para distinguir o que pode ou não fazer. Não limitar-se a gritar, mas faça-a entender a diferença entre o certo e o errado.

        Nas famílias numerosas, os filhos mais novos aprendem observando os mais velhos. Com dois anos e meio ou três a criança pode começar a fazer as coisas sozinha, ainda que tenha que ser ajudada no começo: regar as plantas, pôr a comida do cachorro, atender ao telefone, dar o dinheiro ao entregador do mercado, colocar o lixo no cesto, deixar a roupa suja ao lado da máquina de lavar. A criança cumpre essas tarefas com alegria, pois se sente importante como os pais, que também têm tarefas diárias a cumprir. Elogie a criança que fez uma tarefa bem feita; estimule-a a que continue a realizá-la para o conforto de todos da casa. Quando incentivada a ser responsável, a criança se torna mais independente, e os pais não terão que andar atrás dela o dia todo para que dê descarga no vaso sanitário, almoce no horário e se apronte para a escola. É melhor gastar tempo durante alguns dias ao ensiná-la a se vestir sozinha, do que varar os anos vestindo-a, e fazendo-a pensar que todos devem fazer as coisas para ela. Ao se habituar a realizar os encargos domésticos, na adolescência não fugirá das responsabilidades escolares e outros compromissos; e se tornará segura de si própria e sem medo ou preguiça para se propor metas altas nos estudos e na vida.

    6 – Ternura e Temperança

    Quanto mais amor receber um filho, mais alegre e seguro ele será, porque se sentirá protegido pelos seus pais. Os beijos e abraços dos pais nunca são demais, nem tornam os filhos mimados, se também são exigidos para que cumpram seus deveres. Mostre a seu filho que é amado: “Meu tesouro!”. Criança a quem não foi manifestado muito amor, torna-se reservada, distante e custará a ela expressar seus sentimentos. É melhor exceder-se em dar amor, do que errar pela ausência dele. Nos primeiros anos, dê à criança todo afeto que puder: por amor a seus pais ela se portará bem mesmo na ausência deles. Muitos adultos têm problemas emocionais relacionados à ausência de carinho na infância.

    Aprende-se a ser sóbrio e desprendido dos objetos desde a infância, começando pelos brinquedos e doces. Ajude seu filho a valorizar o que possui, e aprender a viver com pouco, pois saberá desfrutar melhor do que possui. Ao não ter muitos brinquedos, aprenderá a ser constante e imaginativo ao se divertir durante um bom tempo com o que possui. A criança abarrotada de brinquedos não percebe o quanto as coisas custam, se entedia rápido com aquilo que tem entre as mãos e torna-se inconstante ao largá-lo para pegar outro. Não permita que avós e tias encham as crianças de presentes. Contrarie os caprichos da criança insaciável por ganhar brinquedos, não para aborrecê-la, mas para não destruir a imaginação dela, que deve fazer seus carrinhos com embalagens vazias de produtos caseiros (se divertirá mais com isso do que com carros elétricos que fazem tudo sozinhos). Que tenham poucos brinquedos bons, ganhos em épocas especiais (Natal, aniversário…). Quanto aos doces, limite-os para os fins de semana. Assim, quando forem mais velhos não terão problemas de autocontrole, porque se habituaram a privar-se e a dizer não a muitas coisas que poderiam agradar. Começam por dominar-se diante das guloseimas, e mais adiante não serão vítimas dos apelos consumistas, excesso de jogos e lazer, e saberão privar-se de buscar novas sensações nas drogas.

    7 – Ordem e Asseio

    É preciso tornar a criança ordenada desde pequena, sendo esta uma das primeiras virtudes a ser ensinada. Procure que ela identifique a palavra brincar com a de arrumar, após brincar. Não espere que cresça para exigir isso, nem aceite a desculpa de que durante os primeiros anos o bebê pode fazer o que quiser. A ordem deve começar a ser vivida desde o dia em que a criança nasce: ordem no sono (pouca ou nenhuma luz para atender o bebê na madrugada fará que perceba que há dia e noite, e que a noite é silenciosa e está feita para dormir); ordem nos horários de refeições e banhos, nas roupas e brinquedos. Os pais não podem passar o dia recolhendo o que a criança deixou por todo canto. Desde que tenha um ano, ao acabar de brincar, deve colocar na caixa os seus brinquedos (cole em cada caixa o desenho ou figura do que ali deve ser guardado). Ponha prateleiras ao alcance da criança. Aos três anos do pirralho, consiga uma mesa de trabalho com gavetas para ele fazer desse o lugar de recortar, colar, rabiscar, montar o quebra-cabeças, desenhar; mais tarde esse será o lugar de estudar, concentrar-se, ler e fazer as tarefas escolares. Se a criança começa a ser ordenada por fora, logo o será por dentro (gavetas, armários); e quando for adolescente será organizado na distribuição do tempo e na capacidade de planejar o que irá fazer em cada momento. Organizar-se no dia a dia não se aprende de um momento para outro, mas se capacita desde muito cedo. Mas, pais, não fiquem obcecados pela ordem, nem passem o dia gritando com a criança. Basta dedicar um tempo diário – por exemplo, antes do banho da tarde − para que ela arrume o próprio quarto.

    É preciso aprender a ser asseado desde pequeno: banho diário, dentes e cabelos lavados e escovados, roupa limpa. Torne o banho atraente ao colocar dentro da banheira algum brinquedo, pois é a maneira da criança associar o banho com divertimento, em vez de convertê-lo num suplício diário. Para ter hábitos de higiene, crie horários: pela manhã, lavar o rosto, as mãos, escovar os dentes e pentear os cabelos; ao retornar das brincadeiras ou da rua, lavar as mãos; à noite, tomar banho, limpar os ouvidos e pentear bem os cabelos; aos sábados, cortar as unhas. Quem não aprende a ser limpo desde pequeno, será difícil andar arrumado quando for adulto, pois sempre faltará algum detalhe. A criança com costumes de higiene apreciará manter a casa arrumada por fora (aquilo que toda a gente vê) e por dentro (aquilo que não se vê). O hábito de asseio será levado vida afora pela criança. Já se disse que uma criança é desmazelada porque seus pais o são. Mas, pais, não fiquem obcecados a ponto de ralhar com a criança porque se sujou no jardim ou durante a refeição. As crianças têm que se sujar, o que não quer dizer que devam andar sujas o todo o dia.

    Texto produzido por Ari Esteves, com base na obra “Tu hijos de 1 a 3 años”, de Blanca de Jordán de Urríes, Colección Hacer Familia, Espanha.