Categoria: CULTURA

  • Ser rico é ser livre?

    Ser rico é ser livre?

          

             Todos somos sensíveis ao tema da liberdade, pois sentir-se livre é fundamental para buscar a autorrealização. Qual é a concepção que se tem da liberdade? O consumismo atual associa a liberdade ao status económico: quem tem dinheiro pode satisfazer todos os seus desejos! Será que viver para juntar muito dinheiro é a melhor maneira de empregar a liberdade? As redes sociais revelam com frequência que entre os ricos e famosos encontram-se muitos ansiosos, solitários porque trocaram o amor às pessoas pelo amor ao dinheiro, os que desconfiam de todos por achar que só querem seus bens, os que gastam muito com divertimentos e esportes caros para se sentirem felizes, os que se afundam em vícios, os que invejam aquilo que não conseguem possuir… Essas contínuas insatisfações conduzem à tristeza e a outras formas de evasão.

             Ser rico não é sinônimo de ser livre. Aliás, quem vive na abundância material acostuma-se a ter tudo o que quer e tem dificuldades para lidar com as doenças, ausência de talentos pessoais; suporta com mau-humor os contratempos da vida cotidiana e afunda-se no poço das lamentações inúteis, ou se prende ao passado com a inútil nostalgia de que antes tudo era melhor, vive em meio a críticas negativas e murmurações que o fazem perder a liberdade de espírito.

             A pessoa realmente livre aceita as frustrações e as limitações pessoais como parte de seu caminho, pois entende que é preciso viver uma certa pobreza para ser verdadeiramente rico e não atar-se ou prender-se às coisas (tem mais e é mais livre quem precisa de menos); compreende que é preciso sofrer algum tipo de doença para descobrir o valor da saúde; descobre que a felicidade grande está em servir e doar seu tempo e dinheiro para aliviar as dores dos demais…E aqui surge um paradoxo: as dificuldades e os fracassos são oportunidades de crescimento pessoal para as pessoas livres, que aceitam a realidade tal como é, e vê o tempo presente como o melhor da história para aportar soluções criativas.

             A liberdade não é um fim em si mesma, mas para ser empregada em ideais onde o Bem, a Verdade e a Beleza estão presentes. E não há ideal que mais faça ser livre e feliz o ser humano do que amar e sentir-se amado: não só amar, mas sentir-se amado. Pode-se corromper o amor ao colocá-lo em coisas, e quem age assim acaba ficando sozinho, pois as coisas são insensíveis e não amam. Na família ou em uma vocação de entrega aos demais pode-se amar e sentir-se amado.

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  • Tom humano

    Tom humano

  • O que ler?

    O que ler?

    1 – Ler e escutar. 2 – O hábito de ler. 3 – Diante da enxurrada de livros.

             Ler é essencial para ampliar horizontes, pois amadurece o caráter, faz compreender a complexidade da vida, desperta para a beleza do simples, aprofunda o pensamento… Escutar e ler são hábitos essenciais para ampliar o horizonte pessoal, pois os livros suprem a limitação humana ao trazer as experiências necessárias que não se possuem.

    1 – Ler e escutar

             Os meios da comunicação e entretenimento visual, as redes sociais e a publicidade disputam a atenção das pessoas, porque compreenderam que esse capital é o mais valioso para alavancarem os seus negócios. Quem não for esperto será constantemente interrompido para ter a sua atenção fragmentada pelo inútil, e isso empobrece e lança a pessoa para fora de si mesma, esvaziando-a de conteúdos significativos. Para fugir dessa maligna dispersão é preciso fazer escolhas firmes e decididas, como por exemplo, habituar-se às boas leituras.

             Focar no que interessa é permitir que as realidades – livros, pessoas e acontecimentos – se tornem mais vivas dentro de si. A escuta e a leitura selecionadas tornam possível uma maior riqueza interior ao abandonar o que é frívolo e faz perder o tempo, tão limitado hoje em dia.

             Ler e escutar o que vale a pena permite viver novas experiências, graças ao processo de interiorização que as realidades interessantes fornecem. Legere significa recolher, reunir o que interessa. Ler, mais do que reconhecer as palavras, é ser capaz de habitar dentro de si para buscar compreender as situações e as pessoas. A cultura humana cresce por meio dos que adotam este estilo de aptidão. A aceleração da vida e a multiplicação de tarefas dificultam as boas leituras e, assim, as semanas e os meses passam sem que se encontre tempo para curtir um bom livro. Daí a importância de saber defender um momento diário para ler, mesmo que sejam dez minutos. Por vezes o tempo falta porque não se sabe priorizar o que é mais importante. A decisão de ver menos noticiários e fugir de curiosear nas redes sociais fará encontrar preciosos minutos para enriquecer-se com boas leituras. O tempo para ler pode ser encontrado nos transportes públicos ao deixar de lado o excesso de músicas; tempos de espera e fins de semana propiciam bons momentos de leitura… Ter sempre um livro em mãos facilita encontrar tempo para ler, mesmo que sejam poucos minutos: a soma de momentos pequenos é como a irrigação gota a gota que faz a vegetação crescer com o passar dos dias e semanas, sem que se perceba no início.

    2 – O hábito de ler

             Quem não lê tem um mapa do mundo precário e limitado às parcas experiências pessoais, estacionando-se no elementar, e pouco contribuindo para o debate das ideias a fim de tornar melhor o mundo em que vive. A leitura bem escolhida – non legere, sed eligere, diz um adágio clássico – é uma das chaves para melhor compreender a vida e desenvolver uma mentalidade universal, não bairrista ou de panelinhas. A boa leitura amplia os horizontes pessoais e faz aprofundar no que é permanente, vivo e verdadeiro, fugindo da frivolidade.

             Pedagogos e especialistas em educação de jovens ressaltam que é difícil alcançar hábitos de leitura se não foram adquiridos na infância. Constatam também que há diferenças significativas entre as crianças que leem e as que não leem: as que leem têm maior facilidade para se expressar, maior penetração de pensamento e de compreensão, melhor conhecimento próprio, gosto por estudar e riqueza imaginativa. As que focam a atenção em outras formas de entretenimento, como games e telas digitais, têm mais dificuldades para amadurecer, reduzida capacidade de compreensão e mente preguiçosa pela passividade de ficar diante de telas. A imaginação das crianças viciadas em celulares e tabletes é reduzida porque dependem dos estímulos das telas, que ao se apagar, apaga a memórias e a criatividade dessas crianças. Não se trata de fomentar a literatura à base de demonizar a televisão ou os videogames, mas de despertar para a fascinação e a riqueza das leituras, que podem oferecer muito mais.

             Em cada família é importante que alguém exerça o papel de fomentador da leitura: o pai, a mãe, um irmão mais velho, um avô; pode-se também valer-se do trabalho de professores ou amigos que apreciam a leitura. Perceber a sensibilidade de um jovem leitor é importante para ajudá-lo a descobrir seu itinerário de leitura, seja por meio da literatura universal ou outros gêneros que correspondem à sua personalidade. Além do exemplo dos pais, será preciso sugerir ao adolescente que experimente o prazer da leitura, ao descobrir o gênero literário que mais gosta, mas sem cair no egoísmo de preferi-la para fugir do diálogo e da convivência com os demais.

             São inesquecíveis as histórias contadas na infância, as leituras dos primeiros livros ou textos da história sagrada adaptados às crianças; como também não se apaga a lembrança daquele professor que revelou a beleza da poesia e dos contos, contagiando com seu entusiasmo.

             As tecnologias digitais facilitam a proliferação de audiolivros para quem necessita passar horas ao volante, caminhando ou realizando trabalhos domésticos. As boas gravações de audiolivros relembram épocas passadas em que ao redor de um leitor se reunia um grupo de ouvintes, que se deliciava com a leitura.

    3 – Diante da enxurrada de livros

             A cada ano se editam milhares de livros no mundo. Além disso, a internet dá acesso gratuito a uma infinidade de textos. Diante de tantas possibilidades, e com a evidente limitação de tempo que a todos afeta, sempre será atual a consideração de São João Paulo II: “Sempre tive este dilema: o que devo ler? Buscava escolher aquilo que fosse mais essencial. A produção editorial é tão vasta! Nem todos os livros têm o mesmo valor e utilidade. É preciso saber escolher e pedir conselho a respeito do que merece ser lido”.

             A leitura é um bom entretenimento para momentos de descanso. Há livros que educam e ao mesmo tempo divertem. Ninguém pode dizer que não gosta de ler, mas sim que não encontrou ainda o tipo de leitura que lhe poderia trazer mais prazer em ler. Não se trata de “ler muito”, mas de ler de acordo com a capacidade e as circunstâncias de cada um. É preciso identificar o gênero literário que mais agrade: filosófico, teológico, histórico, científico, contos, biografia, romance, ficção científica, crônica, etc. São tantos os enfoques literários e campos do saber que podem fazer a pessoa crescer por dentro, desde que tenha um pouco de paciência para encontra o tipo de leitura que mais lhe agrade.

             Na hora de escolher um livro é importante ter em conta que muitas empresas de comunicação controlam os negócios editoriais e informam sobre as publicações suas publicações, em detrimento de livros talvez mais valiosos, porém editados por empresas menores ou com menos presença nos meios de comunicação. Por isso, não cair no engodo da valorização exagerada da última publicação da moda, ou do mais vendido, como se isso fosse garantia de qualidade. “Há livros dos quais a capa e a contracapa são de longe são as melhores”, escrevia ironicamente Charles Dickens. Querer estar sempre na última moda em termos de leitura fará escapar títulos mais importantes, inteligentes e criativos, que estão à espera nas boas estantes. Quem dispõe de pouco tempo para ler precisa escolher o que vale a pena, sem se deixar levar por anúncios publicitários.

             Quem assistiu a um filme medíocre lamenta-se por ter perdido duas horas da sua vida. Já quem lê um livro que não agrada, encerra a leitura porque há muitos outros livros que talvez sejam mais interessantes. Mas quem chegou ao final da leitura de um bom livro enriqueceu-se interiormente. Zapear é o ato de mudar rápida e repetidamente de canal de televisão ou a frequência do rádio, de forma a encontrar algo interessante para ver ou ouvir. Com os livros pode acontecer o mesmo e esconder a impaciência, falta de firmeza ou capacidade de esforço para ir até o final da leitura que, por valer a pena, exige um pouco mais de esforço. Porém, zapear livros, principalmente por pessoas que afirmam não gostar de ler, permitirá que encontrem títulos que as farão desfrutar de uma leitura, para logo serem fisgadas pelos livros.

             Ninguém está obrigado a ir até o final de um livro. Mas é bom dar ao autor a oportunidade de ganhar a atenção. Pode acontecer que a leitura de grandes clássicos custe mais porque há carência na formação literária. Então, deixa-se o livro descansando por mais um tempo na estante, e escolhe-se outro mais ameno. Certamente, uma vida inteira não seria suficiente para ler todos os bons livros que se gostaria, principalmente os clássicos. Por isso, é necessário a escolher as leituras, como quem escolhe as amizades: de Aristóteles a Shakespeare, de Cícero a Molière, de Dostoievski a Chesterton? O fato é que durante a leitura de um bom livro, tanto o autor como os personagens se tornam companheiros do leitor; e ao terminar o livro, bate a saudades de todos eles, que se tornaram-se amigos que ficaram em algum lugar.

             Consulte a nossa página livros – https://staging.ariesteves.com.br/livros/ -, com dezenas de sugestões de boas obras separadas por gênero literário.

    Texto adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base no artigo “O que ler? Nosso mapa do mundo”, de Luis Ramoneda e Carlos Ayxelà, publicado em https://opusdei.org/pt-br/article/o-que-ler-i-nosso-mapa-do-mundo/. Imagem Canva..

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  • Crescer para dentro

    Crescer para dentro

    1 – Não basta ao homem seguir os instintos. 2 – Possuir valores que orientam as ações para a verdade. 3 – As várias dimensões do crescer para dentro. 4 – Viver para um ideal grande.

    1 – Não basta ao homem seguir os instintos

             A vida moderna pode tornar a pessoa inquieta, preocupada com o resultado de muitas coisas, nem sempre as mais importantes. Em sua dimensão integral, o homem necessita crescer não apenas biologicamente, mas exercitar suas potencialidades psíquicas – entendimento, vontade e sentimentos –, e desenvolver-se espiritualmente, que é o mais importante, pois aqui reside o seu “eu”, fonte de todas as suas decisões sobre o caminho a seguir. Evidentemente, essas duas últimas dimensões não ocorrem ao animal, pois basta-lhe a primeira, que é seguir seus instintos para assegurar sua melhor forma de viver. Ao deixar-se levar por suas tendências instintivas – comer, beber, dormir, buscar segurança e acasalar –, o animal atua bem, porque seus instintos orientam as suas ações para a conservação da espécie, e nada mais do que isso.

             Ao homem não lhe basta seguir os instintos, pois necessita idealizar projetos mais profundos, além de que seus instintos são inseguros e não lhe garantem a sobrevivência porque cada um procura apenas a sua satisfação, sem se importar com todo o organismo: o desejo de se alimentar pode impelir o diabético a comer os doces que não deveria, o desejo de beber leva alcóolatra a enxarcar-se de álcool, o sensual a alimentar as desordens da sexualidade.

    2 – Possuir valores que orientam as ações para a verdade

             O espírito humano – o eu consciente – é que deve orientar as ações para a verdade. Ao não crescer espiritualmente, a vida estaciona no biológico e numa fraca psicologia que não dará respostas às questões mais profundas da alma humana: amor, liberdade, sentido da vida… Com um eu rebaixado não haverá inquietação ou busca de grandes ideais, mas apenas alegrias pontuais, pequenos momentos de satisfação dos sentidos e nada mais.

             Quem não interioriza grandes valores a perseguir acomoda-se no medíocre e narcotiza a consciência para não se inquietar a participar na construção de uma sociedade melhor, e fecha-se no egoísmo de pensar só em si mesmo, e nas pequenas satisfações que os instintos solicitam. A falta de valores gera uma interioridade estreita, unidimensional, conduzida pelos impulsos recebidos do exterior, pelo que diz a opinião pública em cada momento, e não por sonhos e ideais mais relevantes.

             O homem exterior teme o silêncio, o estar só para refletir e comprometer-se. Então, preenche o seu interior com o ruído em forma de muita música, de mil informações desencontradas, de impressões epidérmicas, curiosidades e opiniões da moda. Com isso, seu pensamento é pouco profundo, alimentado mais com imagens do que com textos escritos que podem conduzir ao fundo das questões.

             Como diz Servais Pinckaers, crescer para dentro não se confunde com a interioridade psicológica do homem ensimesmado em seus sentimentos, num fluxo e refluxo estéril, egoísta; nem na espécie de abrigo íntimo dos tímidos que se assustam com o mundo exterior carregado de lutas e exigências. A verdadeira interioridade é a moral, que é mais profunda e consiste na capacidade de acolher em si verdade e o bem até ficar fecundado por esses valores, gerando com isso ações que transformam a si e o mundo ao redor. Quando essa interioridade se abre a Deus mediante a oração e a consideração da filiação divina, ganha em profundidade nova e insondável, capaz de produzir obras imperecíveis e livres do egoísmo humano: a interioridade humana unida à divina não permanece encerrada em si mesma, mas alarga-se em grande espectro.

             Não se transforma o mundo com um mexer-se superficial, já que este é movido por ideias que nascem dentro de alguém, sejam de consumo ou de ânsias de poder e dinheiro, ou de ideias comprometidas com a verdade e o bem. Sem uma interioridade comprometida com a verdade não há matriz onde se gestam as melhores ações do homem. Todas as grandes obras da humanidade – seja no plano moral, literário ou científico –, foram gestadas no silêncio da vida espiritual de grandes homens: Pasteur, Dante, Cervantes, Camões, Jeronime Legeune, Tomás de Aquino, Dostoiewisky, Shekespeare.

    3 – As várias dimensões do crescer para dentro

             Ensina Pinckaers que a interioridade implica várias dimensões, sendo a primeira a profundidade ou capacidade de refletir e deixar para trás as impressões, sentimentos, ideias e representações superficiais, para penetrar no fundo das realidades humanas e das questões morais. Para fazer crescer dentro de si os grandes valores, é necessário meditar neles. Alfonso Quintás ensina que pensar com rigor é penetrar no núcleo de cada realidade ou acontecimento. Por exemplo, uma moça decidiu se casar e criar um lar com o seu marido. Surgiram problemas no decorrer da união e ela vai pedir ajuda à mãe, que diz: – Você quis se casar, agora agente. A mãe agiu bem ou foi profunda na questão? Aguentar é o termo correto?, pergunta Quintás. Aguentar o peso dos males como uma coluna aguenta o peso de um telhado não é próprio do ser humano. Para suportar uma situação é necessário pensar nos valores que estão em jogo. Ser fiel supõe uma atitude criadora, ativa, responsável, e não um simples e passivo aguentar, ensina Quintás. Em vista de um bem maior, a mãe poderia ter orientado a filha que para ser fiel e levar o lar adiante o lar teria que sacrificar algo, como o bem-estar, para seguir adiante na grande tarefa de cumprir com sua palavra dada a Deus, ao marido e à sociedade, visando a formação dos filhos e reconquistar a alma do marido, levando-o ao céu. Porém, a mãe da moça por não ter uma interioridade rica, alimentada com a verdade sobre a família, foi infeliz no comentário infra-humano que fez: o “agora aguente”, não abriu à filha o caminho certo para a solução do problema.

             A segunda dimensão da interioridade é a altura. Porém, o elevar-se custa esforço e o moralmente baixo, a preguiça, por exemplo, não custa sacrifício algum. Por isso, para subir alto requer-se fortaleza para enfrentar-se consigo, humildade para reconhecer os próprios erros e fé em Deus. Quem não abraça um grande ideal e prefere a vida medíocre porque teme o sacrifício para construí-lo, não tem altura e voa como galinha e não como águia: o crescimento nas virtudes ajudará a conquistar a altura.

             A terceira dimensão da interioridade é a densidade. A superficialidade é leve porque lhe falta substância. O homem interior é de pensamento denso, resultado de paciente acúmulo no espírito e no coração das reflexões, experiências e esforços. É fruto da lenta aquisição das experiências da vida, do pensamento adquirido no estudo e nas leituras de boas obras literárias, na oração. Tudo isso eleva as ideias. Um livro é bom quando se presta à releitura. Quem não desenvolve o gosto por ler obras clássicas da literatura e prefere as notícias ou fofocas do dia a dia ou vídeos divertidos e fáceis, revela sintoma de preguiça mental. Quantos livros eu li neste mês ou no último ano? Não digo livros técnicos exigidos pela profissão, mas aqueles que buscamos com liberdade e fruto de um descanso criativo: A morte de Ivan Ilishit, de Tolstoi; O jogador, de Dostoiéwisk, Hamlet, de Shekspeare; entre tantos outros autores (Cronin, Ernest Emingway, Saint Éxpery).

             A quarta dimensão da interioridade é a amplitude de quem não se contenta com as impressões parciais, e se esforça para fugir do moralmente baixo. A amplitude permite compreender os diferentes pontos de vista e opiniões, às vezes opostas, e extrair delas ideias que enriquecem o espírito, e faz compreender também o pensamento de outras épocas da história para discernir nelas a continuidade viva da tradição espiritual.

    4 – Viver para um ideal grande

             A realização de um ideal de felicidade que dá sentido à vida deve ser maior que toda esperança puramente humana, porque esta é finita e o homem necessita de uma felicidade que ultrapasse os umbrais desta vida: Deus. A questão do sentido e fim último da vida é chave para a felicidade, pois nada é mais difícil do que suportar um vazio na própria existência. O homem moderno perdeu o sentido de finalidade última de sua vida, e substituiu essa carência pelo simples evitar o sofrimento e desfrutar das pequenas e pontuais felicidades que a sociedade de consumo oferece.

             Crescer para dentro é uma dimensão essencial da ordem moral, e meio para escapar da visão unidimensional da vida. Possuir altura de pensamento, ter densidade ou capacidade de acumular na cabeça e no coração as reflexões e as experiências da vida, ganhar amplitude de alma e magnitude ou alargamento do espírito, leva a pessoa à melhor expressão de si mesma, e às ações para melhorar com seu esforço o entorno em que vive. Crescer para dentro, eis a questão. Só a experiência do silêncio e da oração faz amadurecer e desenvolver uma interioridade verdadeira: “Não se viam as plantas cobertas pela neve. E o agricultou, dono do campo, comentou jovialmente: “agora estão crescendo para dentro”. Pensei em ti, na tua forçosa inatividade. E, diz-me uma coisa: também cresces para dentro?” (Caminho, n.294).

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    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base nas obras “Las fuentes de la moral cristiana”, de Servais Pinckaers, Ediciones Universidad de Navarra (Pamplona), 2007; e “Cómo formarse en ética a través de la literatura”, de Alfonso López Quintás, Ediciones Rialp, Madri, 1994. Imagem de Felix Mittermeier.

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  • Afinar a sensibilidade

    Afinar a sensibilidade

            1 – Visão. 2 – Audição. 3 – Paladar. 4 – Olfato. 5 – Tato

             Afinar cada um dos cinco sentidos que compõem o sistema sensorial humano é tarefa possível e enriquecedora que permite alcançar realidades antes ignoradas. Os sentidos são os responsáveis por alimentar ou enviar as informações obtidas ao sistema nervoso central, e por isso se diz que nada há no intelecto que não tenha passado pelos sentidos (visão, audição, paladar, olfato e tato). Alimentar os sentidos apenas com o grotesco ou elementar impede a sensibilidade dar voos mais altos, reduzindo, assim, a possibilidade de compreensão mais autêntica das realidades. Ao permitir a captação de imagens, sons, sabores, odores e toques, os sentidos garantem uma percepção mais completa do ambiente.

    1 – Visão

             A vista pode se tornar preguiçosa e não se ater por muito tempo na mesma imagem, porque borboleteia por todo canto. Então, precisa ser afinada para fixar-se em detalhes e deleitar-se, por exemplo, diante de uma obra de arte ou de um livro de literatura… Quem passa muitas horas semanais degustando vídeos de muita ação – esportes, filmes –, costuma ficar incomodado com enredos mais elaborados e reflexivos. Então, é preciso despregar do chão a cabeça e o coração para interesses mais elaborados, a fim de potencializar o próprio mundo interior. Ao ampliar o campo de interesse para atividades que pouco a pouco enriquecem a visão do mundo e das pessoas, seja por meio de filmes com excelentes enredos ou pela boa literatura, tornam a pessoa mais conhecedora da complexa psique humana, e isso permitirá melhor interação consigo ou com as pessoas.

    2 – Audição

             A audição também pode ser educada. A facilidade com que hoje se tem à mão áudios e vídeos dificulta os momentos de silêncio e de reflexão interior, tão necessários para uma compreensão mais profunda das realidades. É frequente encontrar no ônibus ou no metrô pessoas de todas as idades enfrascadas em fones de ouvido, seja com músicas ou podcast. Outros, ao sair de carro, fazer cooper, andar de bicicleta, realizar trabalhos manuais, automaticamente sintonizam algum tipo de som porque temem o silêncio, o encontro consigo mesmo. Músicas de gêneros intensos como o reggae e o rock poluem o cérebro e dificultam a ação de pensar e contemplar. Há os que se queixam da incapacidade de se concentrar no estudo, de se recolher em oração ou dedicar-se a pensar em algo mais profundamente, mas o que esperar se durante o dia estiveram continuamente preenchendo o cérebro com estímulos sonoros?

             Encontrar ilhas de silêncio no dia ao aproveitar deslocamentos, momentos de espera, etc., permite acudir à mente outras ideias, torna a pessoa mais criativa e rica interiormente. Alguém já chamou de contemplar seus pensamentos a ação de deixar vir ao pensamento lembranças, imagens ou reflexões sobre um tema ou assunto. Bento XVI disse que o silêncio é capaz de escavar um espaço interior no nosso mundo íntimo para ali fazer habitar Deus (Audiência geral de 07/03/2012). Não se trata de criar um vácuo mental, mas de abrir a mente à passagem de ideias próprias, e não as que são socadas na mente pelas mídias sociais. Trata-se de permitir-se o diálogo consigo mesmo e, melhor ainda, o diálogo interior com Deus, que transforma os próprios pensamentos em oração. Sobre a necessidade do silêncio interior não é por acaso que o cardeal R. Sarah escreveu uma obra de 300 páginas intitulada “A força do silêncio: contra a ditadura do ruído”. pela Fons Sapientiae.

    3 – Paladar

             O paladar é um sentido que também pode ser afinado. Diante da pergunta sobre o prato favorito, se a resposta for, por exemplo, um hambúrguer com batas fritas, bacon, ovo e muito ketchup, talvez seja o caso de se abrir para apreciar sabores menos marcante e mais sutis. Não se trata de chegar ao requinte de algumas etiquetas de vinho, ironizadas por certo humorista, que dizem para captar “o sabor complexo, cheio de matizes, com notas de sândalo e um final tânico poderoso, que revelam longas notas tostadas”.

             O paladar pode ser reprogramado de forma progressiva, por meio de pequenos esforços como o de não reclamar do prato que se diante, variar a alimentação, carregar menos no sal e açúcar, comer um pouco mais do que se gosta menos e um pouco menos do que se gosta mais, não repetir a comida, comer devagar, saborear uma culinária mais elaborada, que certamente deixará feliz a pessoa que a preparou. O paladar doce pode ser mudado com a inclusão de vegetais amargos ou azedos (rúcula, agrião, jiló, rabanete, alho-poró…); há especiarias que ajudam a camuflar o sabor doce: gengibre, noz-moscada, canela, cravo e, claro, pimenta…

    4 – Olfato

             O olfato está relacionado à higiene corporal: ir bem limpo, barbeado, no caso dos homens, asseado, talvez com um pouco de perfume discreto e não enjoativo, mas que torna a presença mais agradável. A roupa cheirosa, bem passada, com o colarinho não puído e trocada com frequência para não utilizá-las por dois dias seguidos, pois se trata de viver a virtude da economia, já que o esforço para lavar roupa encardida faz desgastar mais o tecido.

             Não se trata de ser produzido, afetado, nem de se vestir da mesma maneira em todas as ocasiões, mas de cultivar o senso estético, a pulcritude, no próprio aspecto externo. O cuidado com esses pormenores torna a alma sensível para captar o perfume das flores e se interessar pelo nome de cada uma, agradecer o aroma da comida bem-preparada que vem da cozinha, o cheiro da casa limpa…

             Um olfato sensível e delicado faz ampliar o interesse por conhecer os nomes das flores, árvores, plantas e pássaros da região em que se vive; ao retornar ao lar, saberá agradecer as mãos que colocaram flores sobe um móvel para embelezar o ambiente.

    5 – Tato

             O tato é conhecido como o sentido mais elementar e primitivo. O tato está presente não somente nas mãos, mas na pele que envolve todo o corpo, da cabeça aos pés. Pode-se relacionar o tato com o cuidado das formas, ao tom humano, à delicadeza no trato com os demais. O modo de se apresentar, de se sentar esparrado ou não, de se postar na mesa, de enfatizar, de torcer pelo time de futebol… A intemperança não só ocorre pela boca, mas em escolher os lugares mais confortáveis para se sentar, seja em casa, no trabalho ou no restaurante (minha cadeira, meu lugar no sofá, minha mesa, meu canto preferido)… Não são meros convencionalismos sociais, mas manifestação de respeito a si e aos demais viver desapegado das coisas materiais. O modo intemperado de assistir uma partida de futebol reflete um mundo interior desajustado, a necessidade de chamar a atenção dos demais, e o descontrole exagerado de manifestar os sentimentos.

             Ser discretos, pedir por favor, agradecer, chamar as pessoas pelo nome e não pelo apelido, saudar delicadamente e não com um tapa nas costas, evitar palavrões, não bocejar ou se espreguiçar em público, são exemplos de delicadeza nas formas que tornam a convivência muito mais agradável.

             Não abordaremos neste boletim os sentidos internos, principalmente a memória e a imaginação, que também devem ser educadas para evitar a algazarra interior ao trazer lembranças e imagens inoportunas que impedem a concentração e a atenção naquilo que se está fazendo. A imaginação, que é tão importante para a criação de todo tipo de instrumentos, e fundamental para as obras de arte, pode se tornar a “louca da casa”, como dizia Teresa de Jesus.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na obra A formação da afetividade – Uma perspectiva cristã, Cap.5 Desenvolver a afetividade a partir das virtudes teologais, de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2021. Imagem: a do diapasão é de Thirdman; as palavras introduzidas são de Ari Esteves.

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  • Os pais e a cultura familiar

    Os pais e a cultura familiar

    1 – Família e cultura. 2 – Pais que promovem atividades culturais. 3 – Algumas iniciativas culturais para o desfrute familiar

    1 – Família e cultura

             O contato com a arte é essencial para qualquer pessoa, especialmente na fase educacional da criança e do adolescente, pois amplia o conhecimento e torna a sensibilidade mais criativa e com capacidade de contemplação para atentar aos detalhes importantes da vida. A família é o primeiro âmbito de promoção da cultura, exatamente por ser o ambiente mais próximo da pessoa, e o que mais pode ajudar seus integrantes a desenvolver a sensibilidade para o belo, que tem algo de divino e inspira o coração para os bens mais altos.

             “Uma das principais funções da família é criar um ambiente em que a instrução tende a converter-se em cultura e a cultura converter-se em sabedoria no sentido de saborear”, disse Gustave Thibon. Os pais precisam compreender que são os responsáveis pela cultura familiar, ao introduzir as crianças e os adolescente no mundo da arte, ampliando assim o seu universo de conhecimentos para bens mais altos do espírito.

             Cultura é um termo que sugere a ação de cultivar o espírito, sair do estado bruto, tal como se cultiva a terra ao tirar as pedras e abrolhos para que se possa colocar sementes selecionadas que produzam bons frutos. Para o espírito humano isso pode ser feito por meio da arte, que é a atividade criadora de beleza, e regida pelo sentido da estética.

    2 – Pais que promovem atividades culturais

             Para fomentar a cultura familiar não é necessário ser rico, mas saber escolher o que é bom nas imensas possibilidades disponíveis na internet, na busca de livros em bibliotecas públicas, na seleção de vídeos, nos inúmeros encontros artísticos gratuitos que acontecem nos espaços públicos, em visitas às exposições na própria cidade, navegar em sites dos importantes museus europeus, entre outras opções.

             Os pais conseguem que seus filhos rapidamente se cultivem se eles, pais, forem cultivados: a qualidade da educação que oferecem será proporcional à qualidade da formação que possuem, porque o exemplo educa mais do que as palavras: “longo o caminho com preceitos, mas breve e eficaz com exemplos”, dizia Sêneca. O esforço para vencer a preguiça nos fins de semana, e estimular a família para o encontro com o belo, é uma obrigação moral dos pais. A falta de interesse e esforço dos pais pela formação cultural decepciona os filhos, que um dia se lamentarão, por exemplo, de não terem gosto pela leitura porque seus genitores agiram preguiçosamente nesse campo.

             O fascínio perante o belo eleva a alma para os bens espirituais. Ao apreciar um quadro, escultura, poesia ou peça musical, há uma elevação do espírito, uma sensação de alegria e êxtase capaz de sensibilizar o coração. A arte é “capaz de expressar e de tornar visível a necessidade que o homem tem de ir além daquilo que se vê, pois manifesta a sede e a busca do infinito. Aliás, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e para uma verdade que vão além da vida quotidiana. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, impelindo-nos rumo ao alto” (Bento, XVI, Audiência geral, 31-08-2011).

    3 – Algumas iniciativas culturais o desfrute familiar

             A título de sugestão seguem algumas iniciativas que os pais podem promover, a fim de enriquecer o espírito de cada membro da família, que passará a produzir do que se alimentar e participará com boas ideias do debate cultural e social:

    • Filmes: em nossa época, onde impera a cultura da emoção e da imagem, o cinema é um grande recurso para a educação dos sentimentos. Os enredos possibilitem o diálogo familiar sobre as atitudes dos personagens. As cenas muitas vezes tocam os afetos ao abordar aspectos essenciais da vida humana, e com isso ajudam a refletir como cada um conduz a própria vida. A afetividade, onde residem sentimentos, emoções e paixões, não deve ser ignorada no processo educativo de adolescentes e jovens. Cabe aos pais e educadores servir-se dos afetos como porta de entrada para a compreensão da alma juvenil e seu universo atual, valendo-se do cinema como metodologia simples e acessível.
    • Teatro: o teatro é uma expressão artística onde os atores apresentam histórias que despertam nos assistentes sentimentos variados e indagações que servem tanto para o autoconhecimento como para o conhecimento da vida e das demais pessoas. As boas peças teatrais, sejam presenciais ou em vídeos, nos colocam com intenso realismo diante do bem e do mal: em O Auto da Compadecida aprendemos o que é um coração misericordioso; em Odisseia, de Homero, vemos a fidelidade de Penélope e de Ulisses; Macbeth ensina onde o desejo de poder pode levar uma pessoa; em Hamlet, vivenciamos a tragédia onde um príncipe busca vingar a morte de seu pai, com uma densa narrativa sobre conflitos de família, amores, loucura e sanidade, circunstâncias a que pode chegar a condição humana. Devido ao forte realismo do teatro, aprende-se por meio da experiência alheia.
    • Pintura: a pintura amplia a capacidade de apreciar as cores, luzes, sombras e formas dos mais variados seres, reais ou imaginários; permite viajar ao passado e descobrir hábitos e costumes de cada época; revela a sensibilidade de cada artista para o belo e para o detalhe… Os diferentes estilos pictóricos são um desafio para a imaginação dos pintores, extasiam e provocam a admiração dos apreciadores das imagens. Antes de ir a uma galeria de quadros com criança (poucas, para que não se distraiam ao brincar umas com as outras), entre no site da exposição e selecione junto com a criança os quadros que ela mais gostou, e no local criar uma espécie de jogo de encontrar; ao encontrar a obra, pergunte à criança que mais ela acrescentaria naquela pintura, a fim de que comece a se fixar em detalhes: lembre-se, não manifeste uma opinião negativa sobre o gosto da criança para não desconcertá-la ou inibi-la.
    • Escultura é a arte das formas espaciais em terceira dimensão que transforma a matéria bruta (pedra, madeira, ferro, bronze, mármore) em arte plena de significado e senso estético. A escultura é pensada muitas vezes para embelezar espaços públicos ou áreas privadas. O encontro com uma escultura sempre provoca admiração porque retrata a capacidade criadora do artista, e a difícil arte de manejar instrumentos para dar “vida” às pedras e outros materiais inertes.
    • Livros de literatura: o amor pelos livros será um forte antídoto para as crianças se verem livres do vício de celulares, desde que os pais lutem também para serem bons leitores, e não se esparramem no sofá para ficar diante da TV. Fomentar a leitura de contos, romances e novelas oferece muito mais à inteligência e à sensibilidade do que as longas horas deglutindo sucessivos desenhos, jogos eletrônicos e fotos em redes sociais. Com a leitura, os filhos desenvolverão uma sadia imaginação e se tornarão criativos e com grande força de expressão e inteligência para a compreensão de textos. Leia para as crianças pequenas, visite com elas livrarias, bibliotecas, feiras de livros, e as deixe escolher um livro. Inscreva seu filho ou filha na biblioteca pública do bairro.
    • Passear pelo campo ou por grandes parques para apreciar a natureza desperta o espírito de contemplação. O silêncio da natureza e seu entorno fará perceber o canto dos pássaros, conhecer os infinitos seres que vivem junto ao verde das plantas. Com isso, aprenderão a perceber a beleza nas coisas simples, e não na estrondosa agitação das telas que roubam o tempo da reflexão. Gaudí, o grande arquiteto espanhol, foi um apreciador da natureza e colocou seus elementos na famosa igreja da Sagrada Família, em Barcelona.
    • Poesia: promover saraus ou tertúlias em casa para a leitura dos grandes poetas é um grande recurso para amar a própria língua. Dentre os que manuseiam a palavra, os poetas são os que melhor utilizam cada vocábulo, que para eles têm grande ressonância: cor, cheiro, sabor, musicalidade; eles transmitem seus sentimentos com palavras bem pensadas, artisticamente colocadas, e com isso todos aprendemos a utilizar os termos com mais precisão e concisão. Não se domina um idioma sem a leitura de seus poetas.
    • Música: se os pais não desejam que as filhas pequenas cantem o que ouvem a exaustão nas mídias ou em pancadões, principalmente em bairros da periferia – muitas vezes com letras ofensiva, mesmo que não entendam o que dizem –, e passem a imitar as danças sensuais que veem na TV, precisam colocar as crianças frente ao que é estética e moralmente mais belo. Para isso, devem levar as crianças a audições musicais de diferentes gêneros (Clássico, MPB, Samba, Frevo, Baião, Sertanejo, Blues, Jazz…), seja ao vivo em salas ou locais públicos de apresentação gratuita ou de baixo custo, que ocorrem habitualmente nas grandes cidades. Com isso, as crianças saberão fugir da subcultura e de seus sucedâneos que ficam de moda, mas que depois são esquecidos, não sem causar grandes danos à sensibilidade estética.
    • Bate-papo familiar: outra forma para os pais promoverem o amor mútuo e a cultura entre seus familiares é, por exemplo, fazerem juntos ao menos uma das refeições diárias, por exemplo, a do jantar, onde todos possam falar ao trocar impressões do ocorrido no dia, ouvir em silêncio e com atenção a fala dos demais, olhar-se nos olhos. Assim, as crianças passam a saber como é o trabalho do pai ou da mãe, e isso as enriquecem e as fazem sentir-se valorizadas. Ter um horário fixo para essa refeição facilitará a que todos deixem outros compromissos para chegar pontualmente a ela. No bate-papo familiar sentados na sala ou em torno da mesa da cozinha, após a refeição e com a TV desligada, será o momento de transmitir o patrimônio cultural da família por meio de fotografias, objetos de decoração que são lembranças de pessoas ou momentos vividos no passado, vídeos e gravações de viagens, tradições e costumes da família.
    • Tertúlia é o encontro entre familiares ou amigos para abordar de modo descontraído algum tema de interesse comum, ou simplesmente conversar, conviver descontraidamente, rir. As tertúlias são um grande recurso para transmitir apreciações artísticas, esportivas, culturais, musicais… Os pais, que não são os únicos responsáveis pelas tertúlias, podem convidar amigos ou parentes para narrar alguma prática esportiva, estudos, cantar ou tocar um instrumento musical, falar de viagens ou excursão ao exterior, colecionismo… Pode-se programar também sessões de vídeos culturais, históricos, geográficos, e depois trocar impressões sobre eles.
    • Clube familiar: fomentar em casa ou em outro local (área do condomínio, praça, quadra da escola…) uma vez por semana (por exemplo, aos sábados pela manhã), um encontro onde meninos ou meninas da mesma idade, mas separadamente, possam brincar e conviver entre si, e estar junto com o pai (as meninas com a mãe), é algo ansiosamente esperado pelas crianças ao longo da semana. No clube aproveita-se para transmitir às crianças, por meio de uma palestra de 15 minutos, o modo de viver alguma virtude na semana (ordem nos brinquedos e roupas, espírito de serviço ao ter uma tarefa para ajudar em casa diariamente, fomentar a generosidade ao doar um brinquedo a alguma criança pobre…). Depois, organiza-se uma prática esportiva ou jogo entre as crianças e termina o encontro com um lanche para repor as forças (cada um trouxe algo que compartilhará com os demais). Uma vez por mês, todos juntos (pais, mães, filhos e filhas) podem fazer uma visita cultural ou excursão para passar o dia fora, e fazem juntos uma refeição compartilhada. O clube infantil fomenta a convivência das crianças entre si e com seus pais. Muitos adultos testemunham que seus melhores amigos, com os quais mantêm vivamente contato até os dias atuais (e entre si vários se tornaram até padrinhos de casamento ou dos filhos), são aqueles que conheceram quando crianças no clube familiar; afirmam que os amigos e colegas que conheceram em outras situações (ensino médio, universidade, trabalho…) não formaram laços tão profundos quanto aos do clube familiar.

             Ficam registradas acima algumas atividades culturais que enriquecem o espírito e tornam mais felizes as pessoas, que já não sentirão necessidade de modos de entretenimento exagerados, sofisticados e caros. Essa elevação da alma faz desprender-se dos bens materiais a que todos somos bombardeados a todo momento a consumir. Outro benefício dessas atividades culturais, é que as crianças e adolescentes se libertarão do vício da chupeta eletrônica, que as tornam hiperativas, preguiçosas para pensar (é mais fácil receber tudo pronto das telas) e entediadas com a lentidão do mundo real, porque não tem um botão para apertar e mudar a cena.

    Texto de Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Olia Danilevich.

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  • A idiotice da frivolidade

    A idiotice da frivolidade

    1 – Memória e imaginação ou lojas de quinquilharias? 2- Aproveitar melhor o tempo: o descanso criativo. 3 – Assumir valores que orientem a vida. 4 – Coerência entre o que se acredita e o que se vive. 5 – O que é frívolo empobrece a alma.

    1 – Memória e imaginação ou lojas de quinquilharias?

             Frívolo significa de pouca importância, inconsistente, inútil, superficial, e quem se ocupa de frivolidades é fútil, leviano. Portanto, idiotice frívola e perigosa nas diferentes idades é permitir que penetre pelos sentidos aquilo que não interessa ou não tem importância. Já abordamos este tema no boletim Inteligência ou depósito de futilidades, mas vale a pena tornar a considerar a necessidade de utilizar bem o tempo para potencializar os talentos pessoais, a fim de melhor servir aos demais. “Nós somos os únicos responsáveis pelas coisas que jogamos dentro de nós. Se não somos totalmente responsáveis, pelo menos temos o controle da grande maioria das coisas que comemos, lemos, assistimos, ouvimos e tocamos. Assim, temos que assumir o controle do que permitimos entrar pelos nossos sentidos. Se não assumirmos esse controle, outras pessoas assumirão, e aí perderemos o domínio de nós próprios”, diz Luiz Marins.

             Os olhos e os ouvidos são os porteiros da alma, e por onde entra o bom ou o vil. Para encontrar o ouro é preciso peneirar o cascalho ou arrancar a ganga. Selecionar os conteúdos na internet leva a priorizar assuntos de maior interesse, seja no campo da orientação familiar, profissional, entretenimento, cultura, artes (literatura, pintura, teatro, escultura, música). Palestras, vídeos, áudios, filmes e artigos estão disponíveis na web, mas é necessário distinguir o brilho falso das lantejoulas, que tornam a vida estéril, para não borboletear nas redes sociais apenas para satisfazer a ânsia de curiosidades, que transforma a memória e a imaginação em loja de bricabraque ou de quinquilharias.

    2- Aproveitar melhor o tempo: o descanso criativo

             O excesso de imagens e informações desencontradas dá a ilusão de se conhecer muitas coisas, mas na realidade fomenta o vazio intelectual porque a inteligência não consegue processar ou encontrar sentido em tantas informações desencontradas. Com isso, a mente se torna preguiçosa, arredia e incapaz de se aprofundar em assuntos que valem a pena, ou manter a atenção em algo que exija esforço.

             Para um descanso criativo, melhor do que gastar seis ou sete horas na semana em redes sociais (cujo efeito é como água que escorre sobre a pedra, sem penetrar), é investir esse tempo, por exemplo, na leitura de um bom livro como “A morte de Ivan Ilyich”, de Tolstói, o “Pequeno Príncipe”, de Saint Exupéry, entre muitos outros, pois são leituras que penetram na alma e a enriquecem, já que os grandes mestres da literatura penetram com profundidade na alma humana, e seus personagens fornecem janelas que permitem a compreensão de si e dos demais. Um verdadeiro leitor não gasta seu tempo limitado rolando telas de celulares e tabletes a procura de frivolidades, nem “lendo mil livros medíocres que embotam seu senso crítico e ferem sua sensibilidade literária” (Nicolás Gómez Dávila).

    3 – Assumir valores que orientem a vida

             Conhecer melhor aquilo que se ama faz parte da natureza humana. Fernando Sarráis, em seu livro Maturidade psicológica, diz que quando se ama algo bom, busca-se conhecer aquilo que é amado, e o amor aumenta mais o desejo desse conhecimento. Assim, podemos afirmar que aquele que perde tempo em curiosidades frívolas não ama senão à própria preguiça ou comodidade, sendo esta a razão pela qual não se interessa por empenhar-se a conhecer algo com maior fundura.

            O ser humano sempre age em vista de valores que assume como importantes, e que passam a orientar suas ações e escolhas. Portanto, os valores agem como critérios ou guias da existência pessoal. Quando esses valores se orientam à verdade e ao bem, enriquecem a personalidade, mas se buscam apenas um entretenimento superficial, a vida não passará de casca que oculta um buraco negro e vazio.

            Ensinam José Angel Lombo e Francesco Russo que cada pessoa se constrói ao buscar valores hierarquicamente estruturados, e de acordo com o que considera importante para sua vida. Os valores não são neutros, nem apenas algo teórico, mas performativo ao envolver a pessoa inteira pela livre adesão a eles. A hierarquia de valores estabelece as preferências pessoais mediante formas de comportamento: por exemplo, se alguém tem como valor a família, o estudo ou a solidariedade, saberá empenhar-se para vivê-los na prática. Um valor que não é assumido vitalmente, fará a pessoa não se interessar por ele, mesmo que o considere de relevo. Os valores assumidos fazem entrar em ressonância não apenas a inteligência, mas também a afetividade (sentimentos, emoções e paixões).

    4 – Coerência entre o que se acredita e o que se vive

             “A autorrealização do homem será plena na medida em que se orienta a valores mais elevados, e não a valores relativos e passageiros: quem assume como valor maior de sua vida a riqueza, o prazer ou o bem-estar, a sua existência será exposta à instabilidade própria desses bens sensíveis. Se, pelo contrário, referir-se a valores estáveis e universais, a sua liberdade se elevará, no sentido de que as potencialidades espirituais se estenderão a objetos que não se exaurem: a amizade, a solidariedade, o amor a Deus, que não têm limite próprios e não são contingentes”, afirmam José Lombo e Francesco Russo.

             Hoje ocorre a perigosa cisão entre a verdade teórica e a verdade prática, entre o que o indivíduo reconhece e considera verdadeiro, e, portanto, um valor, e o reflexo dessa verdade ou valor na conduta pessoal. Se falta essa coerência, essa autenticidade, os valores acabam por parecer indiferentes e sem força para conduzir a ação ou o comportamento pessoal. Ocorre o relativismo dos valores, que deixam de ser universais e passam a ser um joguete pessoal e subjetivo, portanto volátil. E quando não há coerência entre aquilo que se tem por verdadeiro, a conduta humana perde referências e a pessoa deixa de julgar retamente.

    5 – O que é frívolo empobrece a alma

             Cada um é plenamente responsável por selecionar e assumir os valores que considera como verdadeiros, e afastar-se do que é frívolo, faz perder o tempo e empobrece a alma. E como o bem é difusivo, ter o zelo de ajudar os filhos e os amigos a assumirem os valores que enriquecem a alma, e ajudá-los a aproveitar melhor o tempo. Essa responsabilidade inclui a atenção às crianças, que vivem hoje no meio de muitas informações e imagens digitais desnecessárias, e que as tornam passivas, sedentárias, preguiçosas… O que mais necessitam as crianças é da atenção, carinho e do tempo dos pais, além de se aterem às realidade simples ao seu entorno.

    Texto elaborado por Ari Esteves com base nos livros “Antropologia Filosófica”, de José Angel Lombo e Francesco Russo, Editora Cultor de Livros, São Paulo (SP), 2020; “Maturidade Psicológica e Felicidade – A educação da afetividade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros; e “Ética, virtudes, valores”, de Luiz Marins, da Integrare Editora e Livraria Ltda, São Paulo (SP), 2022.

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  • Telas digitais X crianças

    Telas digitais X crianças

    1 – As telas produzem mais efeitos negativos do que positivos. 2 – Crianças pequenas aprendem interagindo com pessoas e não com telas. 3 – O excesso de telas torna a mente preguiçosa.

    1 – As telas produzem mais efeitos negativos do que positivos

        Catherine L’Ecuyer cita diversas pesquisas de cientistas e institutos americanos e europeus que revelam os problemas que as telas digitais vêm causando às crianças e adolescentes*. Diz que a Academia Americana de Pediatria recomenda que se evite telas até os 2 anos, por considerar que vários estudos indicam que elas produzem mais efeitos negativos do que positivos. Para crianças acima de 2 anos, a Academia recomenda limitar o tempo de exposição às telas a menos de duas horas por dia, tendo o máximo de cuidados com os conteúdos que assistem. Porém, esses critérios sanitários são colocados como regras mínimas e não de excelência educacional.

    2 – Crianças pequenas aprendem interagindo com pessoas e não com telas

        Para o bom desenvolvimento da personalidade, as crianças precisam, desde seus primeiros anos, de relações interpessoais com seu principal cuidador. O tempo passado no mundo virtual rouba das crianças as experiências humanas que deveriam ter. A tela se converte em obstáculo inclusive para a criação de laços afetivos. A criança que substitui as atividades reais pelas virtuais terá diminuído o seu bom desenvolvimento como pessoa em muitos aspectos: motor, cognitivo, comportamental e de relações com outras pessoas…

        As crianças necessitam vivenciar realidades concretas, e quando pequenas aprendem por meio de interações com humanos, e não com telas: precisam do olhar dos pais e dos professores para calibrarem a realidade. Imaginemos, por exemplo, que em uma sala de educação infantil entra um funcionário para substituir a lâmpada queimada, e ao subir na escada para trocá-la deixa cair a ferramenta e solta um palavrão. As crianças não olharão nem para a ferramenta e nem para o operário, mas para a professora. Se a professora não der importância, elas também não darão; se a professora franzir a testa, indicando que aquilo não se deve dizer, elas chegarão à mesma conclusão; se a mestra rir, elas farão o mesmo. E à noite, irão contar aos pais o episódio ocorrido na sala de aula, e adotarão as mesmas reações da professora, que neste caso foi a intermediária entre a criança e a realidade, dando sentido à aprendizagem. Uma tela não pode substituir o papel do cuidador, porque não faz a calibragem viva, real, da informação à criança. O déficit de realidade ou de aprendizagem ao vivo vem trazendo diminuição até no vocabulário dos bebês e no desenvolvimento motor e cognitivo destes. Há forte relação entre o acesso às telas durante os três primeiros anos da criança e os problemas de atenção aos sete anos.

    3 – O excesso de telas torna a mente preguiçosa

        Um estudo realizado ao longo de dez anos, estabeleceu relação entre o consumo de televisão por crianças de 29 e de 53 meses, com redução da motivação para aprender na escola, diminuição nos resultados de matemática, aumento das vítimas de assédio escolar e da massa corporal em crianças de até 10 anos. Outro estudo estabeleceu a relação entre o consumo de televisão por crianças de 5 anos com problemas de atenção e concentração aos 11 anos. Esses estudos indicam que os efeitos da televisão prejudicam não apenas crianças abaixo de 2 anos, mas perduram no tempo. As telas não vêm contribuindo para o bom desenvolvimento das crianças pequenas, pois as afasta do aprendizado vivencial que as realidades oferecem.

    *O texto acima foi adaptado por Ari Esteves com base no capítulo “Telas na primeira infância”, do livro “Educar na realidade”, de Catherine L’Ecuyer, editora Fons Sapientiae, 2019. Nessa obra, a autora indica dezenas de links e menciona vários artigos com as experiências científicas que lastreiam suas afirmações. O Autor do primeiro desenho (Crianças versus telas digitais) é David Plat.

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  • Fazer da curiosidade uma aliada

    Fazer da curiosidade uma aliada

    1 – Há muitos modos de olhar para o mesmo fato. 2 – O olhar da curiosidade vã. 3 – Pensar bem antes de clicar o play. 4 – Frutos da temperança.

    1 – Há muitos modos de olhar para o mesmo fato

        Há muitas maneiras de olhar para o que nos rodeia. O fotógrafo e o pintor têm um olhar estético para a mesa ornada com muitos pratos, e tentará captar a beleza que a arte culinária orna a necessidade primária de alimentar-se. Já o glutão tem para a mesma mesa um olhar possessivo e empastado. As diferentes formas de apreciar a realidade manifestam como uma pessoa se relaciona com o mundo. Há quem passa diante de um jardim com os olhos grudados nas imagens do celular, e não percebe a beleza que ali reina entre plantas, flores, arbustos, pássaros, e mal sabe nomear ou identificar cada um desses seres.

        Ver a realidade de uma maneira nova exige desprender-se de si para não ver as coisas apenas do ponto de vista da utilidade que elas têm para o proveito próprio. O olhar contemplativo longe está de ser egoísta ou possessivo porque, transfigurado pela virtude da temperança, admira o brilho divino que cada realidade possui em si mesma.

    2 – O olhar da curiosidade vã

        O olhar do intemperado considera as pessoas e as realidades do ponto de vista do benefício que estas podem trazer para si, do favor que podem prestar, sendo incapaz de ver o que o outro necessita, o que poderá fazer por ele ou apenas para admirar o que é belo sem desejar apropriar-se dele. Manipular a realidade com desejos egoístas traz cegueira ao espírito. A falta de temperança destrói o ser humano porque o torna insensível para o verdadeiro conhecimento das pessoas e das realidades, o que conduz a erros de conduta. O olhar não enriquecido pela virtude da temperança impregna a pessoa de interesses egoístas, possessivos, tal como o de um animal que se fixa na sua presa. Esse olhar que divaga de imagem em imagem nas telas digitais é predador porque busca apenas satisfazer a paixão pela curiosidade superficial, e revela um modo de ver tudo pelo prisma do próprio interesse, e não sabe apreciar o que cada realidade transmite porque se prende rigidamente a um único ângulo, tal como o do glutão diante de uma mesa artisticamente preparada ou do olhar do animal para com sua presa, pois só desejam a satisfazer o estômago.

        O olhar intemperado se comporta como a borboleta que pula de flor em flor, sem fixar-se em nada, e se detém o tempo mínimo indispensável para satisfazer a ânsia de uma curiosidade insaciável. Tomás de Aquino chamou esse olhar de curiositas, vício oposto à virtude da studiositas, que consiste em dar a justa medida ao desejo de conhecer, e remove os obstáculos que impedem ver com profundidade e com o esforço de concentração que todo processo de aprendizagem e de admiração trazem consigo. O olhar da curiositas  faz o papel de coletor de lixo das redes sociais e internet que varre para dentro da razão milhares de imagens e informações desencontradas, impossíveis de serem correlacionadas ou integradas, afetando a aprendizagem e tornando cega a inteligência: “O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado” (Mt 6,22). A falta de conteúdos significativos impede a pessoa de oferecer seus dons para o bem dos demais, pois se tornou frívola, superficial e incapaz de habitar em si mesma.

    3 – Pensar bem antes de clicar o play

        É necessário desenvolver um sereno processo de discernimento para dedicar tempo e fazer crescer as potencialidades ou dotes pessoais, com o fim de aplicá-los à solução das necessidades que carecem tantas pessoas ao redor. Fugir do imediatismo da vã curiosidade: antes de clicar o play de um vídeo, ou navegar sem rumo na internet, pensar para onde isso conduzirá, e saber prescindir do que faz mal à própria alma, tendo a convicção de que esse discernimento não diminuirá a liberdade pessoal, mas livrará o coração de ser escravo de banalidades.

        O olhar desprendido do temperado capacita-o para descobrir a beleza que se oculta nas coisas simples, faz aprofundar na verdade das coisas, pois o mundo revela e fala de Quem o criou. O olhar temperado faz descobrir maravilhas insuspeitadas porque a moderação liberta e purifica o coração, e facilita uma relação serena com as pessoas e as coisas (o egoísta e o invejoso são infelizes porque nada os saciam). O primeiro efeito da temperança é a “tranquilidade de espírito”, fruto da ordem interior da pessoa. O olhar desprendido e limpo repara nos verdadeiros tesouros da vida e da convivência, e neles encontra um autêntico repouso.

    4 – Frutos da temperança

        A temperança leva a não olhar desnecessariamente o celular durante o trabalho ou na convivência com as pessoas. Essa renúncia que parece de pouco valor é decisiva para concentrar os cinco sentidos naquilo que deve ser feito: dizer “não” ao que dispersa a mente é dizer “sim” ao que realmente importa. Tal esforço desenvolve a interioridade e contribui para despojar-se do que é superficial e da perda de tempo: “A vida recupera então os matizes que a intemperança descolore. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes”, diz Escrivá de Balaguer.

    Texto produzido por Ari Esteves.

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  • Férias escolares: aproveitamento criativo do tempo

    Férias escolares: aproveitamento criativo do tempo

    1 – A ociosidade não descansa. 2 – O descanso familiar criativo. 3 – Livros de literatura enriquecem o pensamento e descansam. 4 – Importância das tradicionais brincadeiras infantis. 5- Atividades para adolescentes nas férias

    1 – A ociosidade não descansa

        Descansar não é ficar sem fazer nada, mas distrair-se em atividades que exijam menos esforços (Caminho, n. 357). Trata-se de um bom conselho para os pais terem em conta nos meses de férias escolares de seus filhos, a fim de que aproveitem melhor o tempo e se enriqueçam humana e culturalmente: diz o velho refrão que a ociosidade é a mãe de todos os vícios! Com inteligência, perspicácia e criatividade, os pais devem incentivar o descanso dos filhos – sejam eles crianças, adolescentes ou jovens –, e fazê-los compreender que as muitas horas passadas diante de celulares, tabletes ou TV trazem enorme enfraquecimento intelectual e fraqueza da vontade, além de facilitar a entrada em sites inconvenientes e viciantes.

        O primeiro passo para programar as atividades é ter horário de dormir e de acordar, de fazer as refeições, de findar o trabalho e retornar para casa… Um lar onde não há atividades fixas se torna um caos e favorece o empobrecimento humano e cultural de seus membros: chegar do trabalho ou da escola na hora que quiser, fazer as refeições diante da televisão ou no sofá, deixar os objetos pessoais em qualquer canto, descansar de forma isolada e não em família…. Com isso, a TV passa a ser a protagonista da casa e cria ocasiões de perdas de tempos, impede o silêncio necessário para as atividades criativas, e leva cada um a agir como bem entender.

    2 – O descanso familiar criativo

        Fins de semana, feriados e períodos de férias são oportunidades não apenas para descansar, mas para fomentar o diálogo familiar. Faz parte de uma boa rotina familiar sair aos domingos ao menos meio período, e uma vez por mês passar o dia fora.

        Os pais devem promover a cultura familiar por meio de boas rotinas distribuídas ao longo do dia, da semana e do mês: tertúlias ou bate-papos após as refeições, audição de músicas de qualidade, sessões de vídeos culturais ou filmes selecionados, leitura de obras literárias e de contos para as crianças, jogos de sala, passeios em parques ou pelo campo para curtir a natureza; visitar museus, exposições artísticas, feiras de livros; ir ao teatro infantil; cozinhar em família… Essas iniciativas facilitam que os filhos abandonem celulares e telas digitais, e criam excelente ambiente no lar para ampliar os horizontes culturais de todos.

        Em bairros periféricos das grandes cidades as crianças são forçadas a ouvir à exaustão o funk e o rap, que penetram nos lares de forma insistente através dos pancadões das vizinhanças. É importante que os pais sejam criativos e ampliem o gosto das crianças ao deslumbrá-las com outros gêneros musicais: MPB, música clássica própria para cada idade, chorinho, samba, sertanejo, blue, jaz, corais, orquestras, música instrumental… Isso pode ser feito com DVDs, pesquisa no Youtube, apresentações ao vivo…

        Em nossa época, onde impera a cultura da emoção e da imagem, os pais podem contar com o cinema como grande aliado na educação dos sentimentos dos filhos. As cenas de filmes selecionados, por conter bons enredos, tocam os afetos ao abordarem aspectos essenciais da vida humana: coragem, honestidade, lealdade, fidelidade, o que leva cada um a refletir sobre o modo como conduz a própria vida. A afetividade, onde residem os sentimentos, emoções e paixões, não deve ser ignorada no processo educativo de adolescentes e jovens. Assim, para programar filmes que aportem valores ou modelos de conduta, sugerimos visitar o site https://pablogonzalezblasco.com.br/, que possui excelentes comentários e sugestões sobre bons filmes para serem vistos em família.

    3 – Livros de literatura enriquecem o pensamento e descansam

        Promover minutos diários para a leitura dos clássicos e das boas obras contemporâneas é excelente modo de descansar e de aproveitar o tempo. A leitura forja o caráter, cura as doenças da alma, resgata a autoestima, aumenta a preparação intelectual e cultural ao incidir diretamente sobre a inteligência, amplia o nível e o alcance do pensamento, enriquece o vocabulário, melhora a forma de expressar o pensamento escrito e ora, e faz ganhar com a experiência do outro (“escarmentar em cabeça alheia”, diz o ditado): “Sem a arte narrativa – e aí se enquadra o cinema – o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote, teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).

        É preciso nutrir a veia criativa das crianças por meio da contação de histórias e sessões de leitura para elas. Essas atividades deixam um legado para a vida toda, que é o gosto pela leitura. Na internet há vários vídeos com dicas sobre contação de histórias e leituras interativas.

        No site https://staging.ariesteves.com.br/literatura-infanto-juvenil/, há inúmeras sugestões de livros por idade. Caso o adolescente não esteja habituado a ler livros, sugerimos iniciar pela literatura infantil, tão apreciada também pelos adultos (o famoso filósofo C.S. Lewis, professor de Oxford, durante toda sua vida leu contos de fadas, duendes, animais que falam, reis e rainhas…).

    4 – Importância das tradicionais brincadeiras infantis

        Educar as crianças na realidade do dia a dia, e não na irrealidade das telas digitais, oferece oportunidades para incentivá-las a desenvolver bons hábitos ou virtudes. Surgem nas férias excelentes maneiras de fomentar as clássicas brincadeiras infantis, essenciais para o desenvolvimento motor e intelectual das crianças: criam novas habilidades, ajudam a explorar o imaginário com o “faz de conta”, fixam a atenção, desenvolvem a estratégia e o raciocínio lógico, sociabiliza e favorece o autodomínio… Infinitamente melhor do que ficar passivamente diante de telas são as brincadeiras de pular corda, amarelinha, pião, queimada, batata quente, pega-pega, bolinha de gude, passar anel, empinar pipa, esconde-esconde, cinco marias, telefone sem fio, stop ou adedanha, jogo da velha, bolinha de sabão, entre muitas outras. No site https://quindim.com.br/blog/jogos-e-brincadeiras-antigas/ há explicações de como promover essas brincadeiras.

        Criar acampamento em casa, fazer sessões de história e de leitura, jogos de tabuleiro, brincadeira no jardim ou no parque de esguichar água um no outro, ginástica em grupo… Os jogos de inteligência, como o quebra-cabeça, xadrez, lego, damas, de memória, entre outros, resgatam as crianças das telas digitais. Passeios em parques, jardins ou campo são ótimas ocasiões para se conhecer os tipos de flores, árvores, pássaros e insetos que circulam nesses ambientes.

        A ”oficina de brinquedos” solta a imaginação das crianças ao transformar em brinquedos garrafas pet, rolos de papel toalha, caixa de leite, embalagens descartáveis de produtos de cozinha e limpeza.

        Visitar exposições de arte com crianças exige certa estratégia. Trata-se de criar uma espécie de jogo com elas. Antes de ir ao local, entrar no site da exposição e gravar ou imprimir os quadros ou esculturas que as crianças mais apreciaram. Depois, no local da exposição, pedir a elas que localizem as obras escolhidas (nunca diga que a escolha é feia, pois inibirá a espontaneidade da criança), e pergunte a cada uma, caso fosse a artista, que mais colocaria na obra de arte. Com isso, a criança fixará a atenção nos detalhes para imaginar o que mais poderia acrescentar.

    5- Atividades para adolescentes nas férias

        Sem horário de dormir e de acordar não se pode planejar nada seriamente, nem crescer em virtudes humanas. É medicamente comprovado que as pessoas em condições normais de saúde precisam de 7h30 a 8h de sono por dia, sem necessidade de tirar a sesta após o almoço, a fim de não ficarem preguiçosas e com ânimo arredio a qualquer esforço físico ou mental. Portanto, se um adolescente dorme às 22h, poderá pular da cama no horário fixado, por exemplo, às 6h30, para cumprir o planejado: tempo de asseio, café da manhã e iniciar as atividades programadas.

        Quais ocupações os adolescentes podem se dedicar nas férias? Dependerá da situação de cada um: quem foi mal em algumas disciplinas do ensino fundamental ou médio, deverá dedicar uma ou duas horas diárias para melhorar o desempenho nessas matérias. Também poderá adiantar o estudo das disciplinas que cursará após as férias.

        O aluno que passa muito tempo em games e redes sociais, certamente tem dificuldades com a redação, caligrafia discursiva (só escreve com letras de forma) e desconhece a grafia das palavras. A falta de leitura leva muitos adolescentes a reter apenas a sonoridade das palavras, e não sua grafia: ao invés de escreverem a “gente foi passear”, anotam “agente foi passear”, “seromano” e não “ser humano”. Soma-se a essa carência a de não saber colocar pontos finais no mesmo parágrafo ao concluir uma ideia, enchendo-o de vírgulas: Minha família é muito legal (caberia um ponto final após essa ideia), agente (a gente) se gosta muito (poderia ter outro ponto final), vamos passear e viajar junto (caberia colocar aqui outro ponto final e um “s” em junto), minha mãe e meu pai amo eles… As férias ofertam a possibilidade de mudar o triste panorama do analfabetismo funcional, onde adolescentes e jovens já não reconhecem as palavras e, por não compreender os textos que leem, não captam as ideias centrais para explicar o conteúdo do que foi lido.

        Os pais, mesmo não sendo professores de português, devem perceber as dificuldades que os filhos têm para escrever. Para isso, basta pedir que redijam um texto curto (dez linhas, por exemplo) sobre um fato cotidiano, e depois ler ou apresentá-lo a um amigo que possa lê-lo e orientar sobre o modo de corrigir as carências apresentadas.

        Uma sugestão para melhorar a escrita dos adolescentes e jovens, é a leitura do livro de contos “Brás, Bixiga e Barra Funda”, de Antonio de Alcântara Machado, que escreve frases curtas e com ponto final, fáceis para os adolescentes “pegarem” o jeito do autor e passar a imitá-lo, sem necessidade de enfrentar as complicadas regras gramaticais.

        Na aritmética, muitos jovens falham nas contas de multiplicar e de dividir, e atribuem a culpa à pandemia ou à escola pública. Mas, se forem sinceros, deverão atribuir a culpa à falta de interesse em estudar por conta própria, seja em livros ou por meio de aulas gratuitas no Youtube. Aproveitar as férias para aprofundar nessa disciplina escolar.

        O período de férias é excelente momento para o filho ou filha conferir a faculdade pública ou privada que pretende ingressar, e iniciar o preparo para o vestibular com um ou dois anos de antecedência, seja o ENEM, Fuvest ou outro. Para decidir sobre a carreira que pretende fazer, caso haja dúvida, é preciso examinar os dotes naturais e o gosto pessoal para depois escolher, entre as carreiras que utilizam tais competências, aquela que mais se ajusta ao gosto, e à qual poderá imaginar-se a trabalhar nela pelos próximos anos. Para isso, na dúvida entre um curso ou outro, a sugestão é verificar pelo site de cada instituição de ensino, as disciplinas que a carreira irá percorrer nos anos do curso, optando por aquela que mais se ajusta às preferências e competências pessoais.

        As férias são também oportunidades para desenvolver algum hobby para o qual tenha talento: desenho, pintura, aprender um instrumento musical, treinar uma modalidade esportiva, xadrez, jardinagem, voluntariado em algum projeto social, aprender um idioma, iniciar alguma coleção.

        Outra sugestão para evitar a dispersão em mil assuntos ou curiosidades oferecidas pela internet e redes sociais – o cérebro não consegue ordenar o excesso de informações desencontradas –, é concentrar o interesse dentro de um campo do saber. Para isso, dedicar-se mais profundamente a algum tema científico, cultural ou artístico, seja por meio de lives, vídeos, áudios, cursos online… Com conhecimento mais aprofundado em algum tema, poderá o jovem contribuir para a formação humana e cultural de familiares e amigos, além de poder colaborar com aulas e palestras em alguma ONG e enriquecer o debate cultural.

    Texto produzido por Ari Esteves. Desenho de Charles Parker

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