Categoria: FAMÍLIA

  • A sabedoria de dizer não às crianças

    A sabedoria de dizer não às crianças

             Saber dizer não à criança é uma atitude que os pais devem enfrentar para ajudá-la a fortalecer o caráter ao ter autocontrole, capacidade de dominar os sentimentos quando algo não ocorre como desejado, ter paciência para esperar… Não se trata de contrariar a criança sem que a razão maior seja o bem dela. O não é um limite de proteção como o guard rail, que evita o acidente de sair da pista. A falta de limites gera na criança instabilidade, insegurança e desorientação porque, quando pequena, não age motivada por raciocínios lógicos, mas por instinto que a faz buscar o que é agradável e fugir do que não o é: por exemplo, passará a manhã diante da televisão por falta de controle, sem medir as consequências desse comportamento sobre si mesma. A falta de ordem ou disciplina cria hábitos viciosos difíceis de arrancar. Quando não contrariada para deixar de abrir a geladeira fora de hora, guardar seus brinquedos e roupas, obedecer aos horários da casa (refeição, banho, divertimentos, encargos para a boa ordem do lar), a indômita criança será forçada pelos impulsos instintivos a fazer apenas o que é agradável.

             Os psicólogos chamam a atitude de aguardar ou ter paciência para esperar de “saber adiar a gratificação”. Isso permite que a criança desenvolva o autocontrole para não se irritar porque as coisas não saem no momento que desejam. Adiar a gratificação também ocorre quando a criança primeiro cumpre suas pequenas obrigações no lar, como ajudar a colocar a mesa, tirar o pó dos móveis, levar o lixo para porta, dar de comer ao pet, e só depois sairá para brincar. A criança incapaz de adiar uma gratificação será escrava de seus instintos e paixões, que a impelirão a não esperar, e sem liberdade de dizer não a si mesma para renunciar algo que, mesmo bom e agradável, deve ser preterido para alcançar algo ainda melhor: ler um livro ao invés de jogar games, estudar com tempo e profundidade as matérias escolares…

             Se a criança adiar algo prazeroso, porque compreendeu que há um motivo maior para isso, passará a ter as rédeas de si mesma, e não precisará que a todo momento os pais lhe digam o que fazer. Se o gosto pelos games ou desenhos fora de hora comandam as ações, o controle da criança não será dela, mas das circunstâncias externas que a comandam (os psicólogos chamam essa atitude de locus externo). Locus significa “lugar”, e locus de controle indica se a origem do comportamento da pessoa é externo ou interno. Se a criança desenvolver o locus de controle interno, não irá a reboque das circunstâncias externas, mas agirá por decisão de sua vontade e não porque seus sentimentos, instigados pelos objetos externos, a obrigam (locus de controle externo). Quanto mais cedo a criança desenvolver o locus de controle interno, mais saberá adiar a gratificação de abrir a geladeira fora de hora (terá temperança), não fugirá da obrigação de estudar (crescerá em fortaleza), ajudará nos encargos do lar (terá espírito de serviço), não dará show no supermercado porque lhe disseram que não comprariam a barra de chocolate que pediu (não manipulará os pais com birras)… Ou seja, crescerá responsável e forte, sem necessitar que os demais cumpram as obrigações que cabem a ela, fato que a despersonalizaria e a tornaria uma maria-mole (“com maria-mole não se faz alavanca”, diz um sábio refrão).

    Sugerimos a leitura do boletim “A sobriedade se vive desde a infância”.

    Texto elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Kampus Production.

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  • Tom humano

    Tom humano

  • Humildade

    Humildade

    O vício contrário à humildade é a soberba. A humildade é a verdade, dizia Teresa de Ávila. Todos somos portadores de qualidades e defeitos. Ensinar às criança a não se vangloriarem pelas qualidades humanas que possuem, fazendo-as perceber que foram dadas gratuitamente por Deus, a fim de que elas possam servir aos demais com seus talentos. A pessoa humilde também percebe que possui defeitos, e procura lutar contra eles, sem desanimar, pois o desânimo é fruto da soberba de quem se achava perfeito e por fim descobre que possui misérias, limitações e fraquezas. Desânimos, enfados, sentir-se insultado por qualquer coisa que contrarie, é fruto da soberba que, dependendo do tipo de temperamento, pode levar a agir com violência ou isolar-se.

    A tendência à vaidade no vestir-se com excessiva preocupação pela moda (as marcar famosas e caras!), a ânsia de querer agradar aos demais para ficar bem com todos, são manifestações de falta de humildade que precisam ser corrigidas desde criança, a fim de que aprendam a agir com simplicidade e naturalidade.

    Também demonstra vaidade a tendência a comparar-se com os demais, e sentir inveja ao não ter as qualidades que percebe em outras pessoas. A inveja é a tristeza diante do bem alheio. Ensinar aos filhos que todos recebemos de Deus qualidades e que somos diferentes porque Deus não se repete, e não nos cria como garrafas de refrigerantes fabricadas em série. As qualidades que recebemos são únicas e devemos fomentá-las para ajudar aos demais. Os filhos não podem se sentir inferiores a outras crianças ao se compararem e perceberem que não possuem as qualidades que veem nelas, e que não as possuem: fazê-los perceber que suas capacidades são outras, e que com elas serão felizes aos ajudar aos demais.

  • Respeito aos pais

    Respeito aos pais

    Os filhos devem ter detalhes de carinho e respeito pelos pais, e serem obedientes. Para conquistarem esse respeito, os pais não necessitam deixar de exercer a autoridade, nem temer dizer “não” aos filhos, com receio de contrariá-los. Quando os pais exercem a autoridade sem autoritarismos, mas com carinho e sem ceder naquilo que entendem ser o correto, os filhos passam a amá-los ainda mais. Carinho e firmeza com os filhos são como guard rail da estrada, que dão segurança para manter-se no caminho certo. Sem essa firmeza dos pais, as crianças ficam desorientadas, e com o passar do tempo deixam de amar o que é correto.

  • Educar para a fé e amizade com Deus

    Educar para a fé e amizade com Deus

  • A autoridade em épocas sentimentais

    A autoridade em épocas sentimentais

             A autoridade não está de moda. Isso não significa que não a necessitemos, mas dizem que não é de bom tom exigi-la para não se parecer autoritário. O que todos gostariam mesmo é de ser obedecido sem precisar mandar.

             ―“Professora, temos que fazer hoje de novo o que quisermos?”, perguntou certa vez uma aluna a uma professora determinada a impor a não-diretividade ou condução da aula, porque era a favor do respeito ao suposto direito da criança de alcançar a felicidade através de sua liberdade e por meios próprios.

             Aqueles que criticam a disciplina de contenção [que procura evitar os erros] e as rotinas impostas, costumam acreditar que existe um princípio que brota espontaneamente da alma em direção à verdade, independente de uma educação a ser oferecida. Estes deveriam olhar um pouco mais de perto para a realidade, porque a contenção pode expressar um autodomínio louvável em uma pessoa adulta, e as rotinas (higiene, alimentação, sono, etc.) contribuem para a estabilidade psicológica e emocional da criança, ao facilitar-lhe a vida e proporcionar a fundamental experiência da virtude da ordem contra o caos ou a desordem.

             O amor é uma moeda de duas faces: uma é a aceitação do ser amado por ser quem ele é; a outra é a exigência de que o ser amado esteja à altura de ser quem ele é. Cada face da moeda corrige os excessos da outra. Não negarei que nem sempre é fácil manter a moeda equilibrada na borda, pois às vezes cai de um lado e às vezes do outro. Mas a aceitação do outro sem exigência degenera facilmente em indulgência, tal como a exigência sem aceitação geralmente degenera em frustração. O amor não se contenta com mensagens de autoajuda. É por isso que admiramos os pais que ajudam os seus filhos a crescerem com competência diante do risco.

             Decidi escrever sobre estas questões depois de receber um presente de uma amiga francesa. Trata-se de seu caderno escolar de quando tinha onze anos, anos letivos de 1959-1960. Na primeira página encontrei o seguinte texto escrito em magnífica caligrafia: “A escola desenvolve a nossa inteligência, forma a nossa consciência e o nosso carácter e nos torna boas pessoas”. Depois, ao virar as páginas, encontrei outras preciosidades: “É preciso fazer cada dia um esforço para ser um pouco melhor que no dia anterior. Coragem“; “Vai-te para onde queiras, que ali encontrarás a tua consciência”; “O bem não tem sempre recompensa. É preciso fazer o bem pelo bem, não pela recompensa” “Tudo na vida está sujeito a deveres: em ser fiel a eles está a honra; em não os respeitar está a vergonha”.

             Podemos pensar que se trata de uma retórica ultrapassada, típica de tempos austeros, mas os testes internacionais confirmam que os melhores resultados escolares são obtidos por crianças que frequentam ao que uma destas provas (PIRLS 2016) chama de “Safe Schools”, escolas seguras, isto é, escolas sem problemas de disciplina. Além disso, os melhores leitores, seja qual for o país que considerarmos, frequentam escolas onde os professores enfatizam o sucesso acadêmico.

             Costumo defender a importância da autoridade familiar com três razões básicas:

             1. A criança precisa de aliados fortes para lutar contra os monstros que estão sempre debaixo da cama.

             2. O que educa a criança é a elevação do seu olhar até os olhos dos pais, e não ao contrário.

             3. A criança possui naturalmente muito mais energia do que bom senso para controlá-la, e quem deve suprir com sentido comum as deficiências de bom senso da criança é o adulto.

             Essas três razões também me servem para defender a autoridade na escola:

             1. O aluno precisa de aliados fortes para combater seus erros e inseguranças.

             2. O aluno necessita para formar-se de alguém que mereça o seu respeito e o ajude a visualizar, de forma crível, o melhor que pode chegar a ser.

             3. O professor necessita de doses enormes de bom senso para suprir as deficiências não de uma criança, mas das muitas crianças que tem na sala de aula.

             A pessoa educada é aquela que dispõe de recursos para – como disse uma de nossas místicas, Irmã María Jesús de Ágreda – elevar-se acima de si mesma. Mas este exercício é impossível se não tiver a luz do olhar de um adulto que ajude a crescer, encorajando a confrontar as expectativas razoáveis com a realidade.

             As épocas em que aquilo que é velho se resiste a morrer e o que é novo se recusa a nascer são propícias para as crises de autoridade. As figuras de autoridade tradicionais parecem ter esgotado a capacidade de ganhar respeito e já não podem atuar como guias, porém ainda não surgiram novas figuras orientadoras. Nestes momentos corre-se o risco de cair em generalizado ceticismo. Possivelmente nos encontramos em um deles, pois até o próprio conceito de adulto parece ter entrado em crise.

             Até há pouco tempo um adulto era um ser humano que, pela sua experiência e bom senso acumulado (que incluía o fato de ter vivido a sua própria infância), tinha respostas para tranquilizar as inquietações da criança. E a criança reconhecia espontaneamente no adulto uma capacidade maior que a sua para diferenciar o grande do pequeno, o bom do mau, o seguro do arriscado, o belo do feio, o conveniente do vergonhoso, etc. Esses adultos possuíam o segredo da autoridade que, em última análise, consiste em não defraudar.

             Para a criança, o adulto era a pessoa a quem ela queria impressionar. É por isso que ela exigia frequentemente a atenção dele: ―“Veja o que consigo fazer!”. O adulto era o homem sábio cuja aprovação sincera confirmava o valor dela.

             Tenho a sensação de que hoje nós, adultos, perdemos a autoridade diante das crianças porque nos cansamos de ser adultos, ou seja, de ser chatos, e preferimos elogiar indiscriminadamente tudo o que as crianças fazem, com esforço ou sem esforço, coisa que, desde logo é certamente menos desagradável. O preço a pagar pela eleição do mais fácil é que as crianças encontram em nós um olhar rotineiramente complacente. Procuramos oferecer-lhes um mundo acolchoado, uma sala de jogos sem arestas, sem dificuldades nas quais possam tropeçar e, portanto, com as quais poderiam medir-se a si mesmas. Em vez de direcionar grandes expectativas para as nossas crianças, direcionamos baixas expectativas para o mundo. Onde as crianças devem buscar respostas importantes para sua autoestima, quando educadas no relativismo?

             A formação do caráter foi substituída pela cultura da emotividade, para não pôr em risco a autoestima da criança e que, pelo contrário, a ajude a sentir-se bem consigo mesma. Para mim, a crescente incontinência emocional me faz desejar a contenção, e considero que mais nobre do que a empatia é o dever de ajudar naquilo que é considerado incompreensível, mas que necessita que se lhe estenda a mão.

             O giro emocional que a educação vive é um giro orbital dos adultos em torno do frágil eu da criança. Por isso custa-me cada vez mais esforço convencer aqueles que me querem ouvir de que o conhecimento rigoroso tem o valor de uma experiência moral. A compreensão de um problema geométrico, por exemplo, me permite descobrir uma verdade eterna, admirável, diante da qual não sou o medidor, mas o medido. Na escola, a razão comum emudece diante das opiniões, das competências, das emoções e, em suma, diante do eu da criança. Mas continuo acreditando que a melhor maneira de cuidar da nossa alma é proporcionando a ela experiências de ordem, começando pelos conhecimentos rigorosos. Continuo acreditando também que no mesmo conceito de razão está implícita a ideia de hierarquia, e que por isso um pensamento rigoroso é mais valioso que uma opinião, por mais que seja minha.

             Donoso Cortés [filósofo espanhol falecido em 1853] dizia que “o segredo dos crescimentos e das decadências das sociedades está no uso que fazem dos pronomes”. Em nossa sociedade o mais usado é o “eu” que, segundo Donoso, é a única palavra que se ouve no inferno.

             Concluo com uma anedota contada por David Brooks, colunista do The New York Times, em seu livro The Path of Character: quando George Bush pai concorria pela presidência dos Estados Unidos, se recusava a falar sobre si mesmo devido aos valores que lhe inculcaram na infância. Se um editor incluía a palavra “eu” em seus discursos, ele automaticamente a riscava. Os seus colaboradores lhe disseram: “Se está competindo pela presidência, tem que falar de você mesmo!”, e o forçaram a fazê-lo. No dia seguinte, Bush recebeu um telefonema de sua mãe, que lhe disse: ―“George, outra vez está falando de ti…”. E Bush voltou ao redil, não mais com “eu” nos discursos.

    Artigo de Gregorio Luri: “La autoridad en tiempos emotivos”, publicado em Aceprensa  https://www.aceprensa.com/firma-invitada/la-autoridad-en-tiempos-emotivos/, traduzido e adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/boletins. Imagem de Monstera Production.

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  • Amizade e companheirismo

    Amizade e companheirismo

    Saber querer a todos os companheiros, e não formar panelinhas. Os pais devem ensinar o adolescente a superar as simpatias e as antipatias, pois todas as pessoas são amadas por Deus, mesmo com seus defeitos. Isso não significa que ele não seja mais amigo de alguns, seja por razões de gostos, aptidões, caráter, etc. Quando houver algum desentendimento com um amigo, ensinar a passar por alto e saber perdoar para não criar rancores, nem buscar revanches.

    Mostrar que a murmuração, a maledicência, a crítica destrói a própria consciência, além de prejudicar o amigo. Ensinar a não humilhar ou ressaltar algo pejorativo de algum colega, pois todos temos defeitos e necessitamos da compreensão dos demais.

    Querer aos demais como são, e não como quereria que fossem, pois assim ele aprende na prática a aceitar e a compreender a todos, e a não julgar mal ou excluir a ninguém (só Deus sabe o que passa verdadeiramente na consciência de uma pessoa). Os pais não devem tolerar comentários negativos sobre os companheiros dos filhos, professores, etc.

  • Laboriosidade

    Laboriosidade

    Deve-se procurar que os filhos aproveitem bem o tempo, empregando-o em atividades úteis, formativas, ajudando nas tarefas do lar, descansando de modo criativo… O sentido de responsabilidade deve ser fomentado desde a primeira infância. Ajudar a que sejam laboriosos, independentemente de prêmios ou benesses, pois a virtude está em amar o bem pelo bem. É preciso corrigir a inatividade, as perdas de tempo, as atitudes preguiçosas. Oferecer ideias de acordo com as possibilidades e aptidões de cada filho: descobrir seus pontos fortes e incentivá-los a investir tempo para desenvolver seus talentos, que devem ser empregados como modo de servir aos demais, pois isso é prova de verdadeiro amor.

    Imagem de Matheus Ferrero

  • Sinceridade

    Sinceridade

    O mundo atual, onde qualquer opinião é válida, necessita de pessoas apaixonadas pela verdade. A sinceridade deve ser ensinada desde o primeiro momento na vida da criança: conformar as palavras com o pensamento. A sinceridade de vida é compatível com os erros e os defeitos, porque nos leva a não os esconder e a nos esforçarmos por corrigi-los. «Os homens não poderiam viver juntos se não tivessem confiança recíproca, ou seja, se não manifestarem a verdade», diz Tomás de Aquino.

    Assim, para manter a ordem na vida familiar é indispensável que aqueles que a compõem digam a verdade: de outro modo seria difícil empreender projetos juntos ou confiar em alguém. Esta sinceridade abarca não só os fatos externos (quem quebrou o vaso, o modo de aproveitar o tempo, etc.), mas também a coerência com a própria consciência.

    Os pais devem facilitar que a criança seja sincera e não tema dizer a verdade, pois sabe que será ajudada, pois só assim será possível educá-la.

  • Educação comportamental: crianças de 0 a 12 anos

    Educação comportamental: crianças de 0 a 12 anos

    1 – Fase pré-natal. 2 – De zero aos três anos. 3 – Dos quatro aos sete anos. 4 – Dos oito aos nove anos. 5 – Dos dez aos doze anos

    1 – Fase pré-natal

             Conhecer a realidade das crianças de acordo com cada fase é a melhor forma de oferecer uma excelente educação. A passagem de uma etapa para outra geralmente é manifestada por aspectos notórios. Existe a fase pré-natal (no útero materno), onde já ocorrem aspectos fisiológicos e psicológicos: uma forte tensão emocional ou estresse da mãe liberam hormônios alterados que chegarão ao feto e criarão na futura criança tendência à ansiedade ou angústia; um lar com ruídos fortes provocados pelas múltiplas mídias, discussões, chegam à audição do feto a partir da décima semana, e prejudica a bioquímica do cérebro e do coração. Por isso, um lar sereno, a seleção de boas músicas – melhor se for cantada suavemente pela mãe -, fará a criança captar esses sons agradáveis que influirão no futuro bebê.

    2 – De zero aos três anos

             Com a saída do útero a criança penetra num ambiente muito diferente, que poderá trazer a ela aspectos positivos ou negativos, caso não seja atendida devidamente, tanto nos aspectos fisiológicos, manifestados pelas necessidades básicas naturais (comer, dormir, ouvir sons) e pela hereditariedade, quanto nos psicológicos: sentimento de acolhimento, harmonia, tranquilidade e segurança desde os primeiros meses; ou de medo e insegurança.

             A normalidade sentimental ou afetiva da criança (sentimentos, emoções e paixões) é a primeira e mais importante educação a ser oferecida pelos pais, e não pela escola. As falhas nesse âmbito dificultarão a educação da vontade e da inteligência, consideradas faculdades superiores, pois o bom desenvolvimento destas apoia-se no autocontrole e domínio emocional.

             Toda criança está centrada em si mesma não por egoísmo, mas por necessidade da natureza. Aos poucos o bebê vai percebendo a vida ao seu redor, sendo importante para ele a boa relação com a mãe, pai e irmãos. Nessa fase a criança aprenderá através da imitação, e não por raciocínio: imitará o sorriso, gestos, ritos e atitudes das pessoas a quem ama. O bom relacionamento dos pais entre si é fundamental para a criança nessa fase para se sentir segura, pois do contrário se assustará e somatizará os desentendimentos dos pais. Por isso, o lar deve ser sem limpo, cheiroso (a criança começará a sentir os bons odores do seu lar), e sem estridências, pois os sons da casa serão captados desde o berço. Se os horários do lar estiverem bem determinados, o bebê e a criança até três anos vivenciarão com alegria as rotinas, pois sente segurança ao repetir sempre as mesmas coisas e nos mesmos horários: banhos, refeições, brincadeiras, luzes apagadas à noite e sono… Tudo isso dará a elas sentimentos de segurança, ternura, alegria e autonomia ao vivenciar o ritmo de cada etapa do dia. Mais adiante, a criança de três anos ficará entretida em seus brinquedos e pensará em voz alta, sendo importante não a interromper para resolver os pequenos problemas dela, nem oferecer a ela o celular ou o tablete (atitude dos adultos que merece chibatadas!). Mais adiante essa criança será ordenada e saberá concentrar-se para cumprir suas tarefas, sem que a fiquem cobrando para isso.

    3 – Dos quatro aos sete anos

             Neste período a criança é muito ativa e deseja conhecer o mundo que a circunda, e inicia fase dos “porquês”, ao desejar saber a utilidade prática das coisas (poderá até quebrar objetos para ver o que acontece). O mundo vivo e o inerte são para ela uma coisa só. Começa certo movimento de oposição (dizer não), de impor seu gosto e de certa exibição do eu para se autoafirmar. Inicia a saída do âmbito familiar para adentrar no da escola, festas e outras atividades fora de casa; terá novos amigos e gostará de brincar e jogar com eles, e não mais só. Entre os seis e sete anos começa a raciocinar sobre o concreto e não sobre o conceitual e abstrato. Desperta a consciência moral para a compreensão do que é certo ou errado, mas sendo seu raciocínio muito concreto, a leitura dos contos clássicos terá importante papel ao materializar para a criança o bem e o mal por meios dos personagens das histórias. Nesta fase o exemplo das pessoas com as quais convive é intensamente absorvido e imitado: modos de agir e de falar; hábitos de ordem ou desordem e de aproveitamento ou perdas de tempo; espírito de serviço ou falta de preocupação pelos demais; de ser solidaria e colaborar para com a ordem e limpeza da casa ou viver só para si e suas coisas…

             O prazer que as crianças nessas idades têm de ouvir contos, histórias e narrativas oferece de mão beijada aos pais a melhor oportunidade de fazê-las amar os livros e se verem livres de perder o tempo com celulares, tabletes e excesso de TV. Se no início dessa fase os pais e os irmãos lerem para elas os clássicos contos infantis (ver nossa lista de contos infantis), ficarão felizes e aguardarão ansiosamente esse momento, desejando aprender a ler para viajarem sozinhas pelo mundo das letras. Quem lê para crianças pequenas deve armar-se de paciência, pois elas pedem para repetir incansavelmente as histórias que apreciaram, sem cansar-se de ouvi-las.

             As atividades ao ar livre são maravilhosas para as crianças de quatro a sete anos, acostumando-as a não depender de celulares e tablets para se divertir (crianças viciadas em telas digitais ficam entediadas com o mundo real, pois acostumaram-se a apertar botões para ver apenas o irreal). Jardins botânicos, parques e zoológicos as fazem contemplar ao vivo a maravilhosa ordem estabelecida por Deus na Criação: animais e aves com seus pares, plantas e flores de todas formas e cores revelam a existência de uma ordem ou inteligência na natureza… Passeios pelo campo fazem as crianças conhecerem as plantas e os seus nomes, além dos pequenos animais e insetos que ali vivem. Os pais não devem temer que subam em árvores ou se deitem na grama para olhar as figuras desenhadas pelas nuvens. Em dias de chuvosos, mais do que socar as crianças dentro de uma sala, onde facilmente contraem gripes e resfriados, é melhor vesti-las com roupa impermeável para brincar na chuva e apreciar o ecossistema desses dias, bem diferentes dos ensolarados: o cheiro de terra molhada, o brilho das folhas, as multidões de pequenos insetos que passam a circular nas folhagens úmidas (caracóis, lesmas, entre outros) permitem novas descobertas.

             Aos sete anos inicia a idade escolar com sua carga de horários, provas e tarefas com prazos pré-fixados, que ajudarão a crescer no sentido de responsabilidade, e a não fazer apenas o agradável ou gostoso. Se os pais exigiram desde os três anos de idade a que cumprissem seus pequenos encargos familiares e aos horários estabelecidos, terão adquirido hábitos que agora, na infância, permitirão agir com soltura, determinação e sem manhas, choradeiras ou preguiças.

    4 – Dos oito aos nove anos

             Nesta fase, e até um pouco antes, o sentido de oposição, independência e de opinião são mais veementes (pretendem fazer e decidir sozinhos). Cresce nas crianças a necessidade de socialização e multiplica-se o número de amigos, pois são capazes de cultivar amizades mais conscientemente. O modo de pensar continua a ser concreto, mas a consciência moral desponta, fazendo a criança se sentir incomodada diante de más ações, próprias ou praticadas por outros. Aumenta o sentido de responsabilidade, e passa a compreender melhor as necessidades dos demais, sendo um ótimo momento para ganhar hábitos de solidariedade, de combater egoísmos ou de desejar encerrar-se em suas coisas (meu tempo, meus jogos…): visitar orfanatos junto com o pai para doar brinquedos bons, não mais utilizados; levar bolo aos idosos de um asilo; ajudar irmãos e amigos com dificuldade escolares; visitar amigos doentes…

             Trata-se de um período em que a criança é capaz de contemplar, escutar, assimilar, interiorizar e maravilhar-se. Mas não é capaz de ouvir por muito tempo, e nem de trabalhar isoladamente por longos períodos. Aflora com veemência a criatividade de inventar jogos e regras, de construir objetos e imaginar brincadeiras em equipe, entre outras iniciativas, desde que não tenham adquirido o vício de celulares e telas eletrônicas, que lhes sugam a imaginação e engenhosidade, resumidas em apertar botões e se satisfazer com isso.

             As crianças nesta fase são facilmente introduzidas no mundo da cultura e da arte. Para lhes ampliar o gosto estético, visitar com elas museus e exposições de quadros e esculturas; percorrer feiras de livros ou livrarias; inscrevê-las na biblioteca pública mais próxima da residência; levá-las a salas de contação de história ou de recitação de poesias e de leitura, ir ao teatro infantil… As apresentações musicais ao vivo ou em vídeos, com diferentes gêneros musicai, aguçará o sentido estético para fugir dos pobres gêneros impostos pelas mídias atuais. Muitas crianças nesta fase se interessam por aprender a tocar um instrumento musical ou a desenvolver um hobbie artístico que as fará aproveitar melhor as horas livres.

    5 – Dos dez aos doze anos

             É a idade prática, do gosto pelo jogo, aventura e da vivência em grupo. Desejam possuir e dominar o mundo, julgam-se autossuficientes, mas continuam com dificuldades para captar o abstrato e pouco se conhecem a si mesmos. Aceitam as leis e as regras como parte de um jogo (inclusive as inventam para suas brincadeiras e disputas). Os hábitos bons ou ruins se cristalizam com facilidade nestas idades, e serão levados para fase seguinte (da juventude): terão bons hábitos se os pais exigirem com paciência a que cumpram os encargos e as tarefas que lhes cabem; que tenham horários de dormir e acordar; de jogar e de cumprir suas tarefas e encargos. As rotinas, atividades pré-fixadas e fórmulas prontas lhes facilitam a vida e trazem mais segurança: uniformes, horários estabelecidos para todos na vida familiar, nas atividades escolares e outros compromissos.

             Nestas idades, se não foram educados em valores ou modelos de conduta, facilmente se deixarão influenciar pelos amigos (roupas, modos de agir e de dizer, hábitos…), razão pela qual os pais devem esclarecer bem a inteligência deles para que possam fundamentar uma opinião contrária à dos demais sobre a sexualidade humana, imagens pornográficas, drogas, roupas e materiais esportivos caros…

             Caracterizam também esta fase a boa memória, o aprendizado fácil, o aprofundamento na noção de tempo e de causa. Possuem capacidade para se esforçar, se não adquiriram o vício da preguiça na fase anterior por falta de exigência dos pais. Idealistas, aceitam os desafios para metas que estejam dentro de suas capacidades, mesmo que exijam esforços por alcançá-las. Aprendem com facilidade por meio de exposições ou palestras vivas, concretas e criativas: encenações, gestos, cantos, cartazes e vídeos bem selecionados. O gosto pela ficção científica e pela aventura podem levá-los a ações temerárias. Influenciados pelos amigos podem aceitar certas formas de agressão e crueldade com os animais. Tendem a viver em torno de seus planos e manifestam frieza e indiferença para com as pessoas, se não foram iniciados em casa para a solidariedade, espírito de serviço e preocupação pelos demais. Podem desobedecer com facilidade, seja por preguiça, teimosia ou autoafirmação. Têm capacidade para avaliar moralmente suas ações, possuem senso de justiça e se revoltam diante de injustiças praticadas contra os menos favorecidos. São suscetíveis, magoam-se facilmente e afastam-se dos pais, caso estes não compreendam suas razões.

             Esta fase pode ser bem aproveitada para a transmissão de valores ou modelos de conduta: solidariedade ou preocupação pelos demais, buscar ideais altos com os quais possam servir com suas qualidades pessoais, não mentir e ser honestos e verazes, a não se corromperem por dinheiro ou outras facilidades…

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, inspirado pelo artigo “Educação das crianças”, de Nilva Brugnera, no livro “Como educar hoje” – Reflexões e propostas para uma educação integral”, Editora Mundo e Missão, São Paulo (SP), 2003. Imagens de Pavel Danilyuk.

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