Caráter – Temperamento – Personalidade

1 – O desenvolvimento do caráter depende da vontade. 2 – Cada pessoa é responsável pelo caráter que possui. 3 – Temperamento. 4 – Personalidade. 5 – Muito temperamento e pouco caráter

1 – O desenvolvimento do caráter depende da vontade

    Por vezes ouvimos expressões do tipo “é uma pessoa de caráter” ou “falta-lhe caráter”. Caráter tem um sentido mais psicológico e está ligado à racionalidade, ao querer da vontade, à retidão ou falta de retidão de consciência, à compostura, ao modo de ser e de agir pensado e desejado. Em outras palavras, o caráter se centra na vontade, nos valores éticos assumidos pela pessoa, e está influenciado pelo intelecto e pela vontade, sendo possível modificá-lo para melhor ou pior, dependendo dos hábitos, conceitos e da vontade de cada pessoa.

    Não há determinismo ou congelamento do caráter porque o homem, ao agir livremente, poderá empenhar-se para ganhar os traços de caráter que não possui (por exemplo, ser mais seguro, corajoso, ordenado, laborioso) ou modificar aspectos negativos dele (deixar de mentir, de aceitar subornos, de falar mal dos outros, vencer a preguiça…).

    Adolescentes e jovens habitualmente se deixam influenciar ou conduzir pelos sentimentos, impulsos e afetos, tornando-se necessário que adquiram força de caráter com a educação que lhes é oferecida. Para isso, é importante ajudá-los a fortalecer a vontade por meio do cumprimento de suas responsabilidades diárias. Assim, terão forças para não se deixar levar exclusivamente pelo gosto da sensibilidade, que os inclina apenas ao prazenteiro, a fim de atuar por meio da vontade.

2 – Cada pessoa é responsável pelo caráter que possui

    A vontade é chamada de apetite da inteligência, pois seu querer tem fundo racional, livre (diferente do gostar ou não gostar próprios dos sentimentos e paixões, que são irracionais). A vontade expressa unidade pessoal, não sendo o resultado de uma coleção de tendências inatas e agrupadas. A vontade se é forte impõe unidade e hierarquia no conjunto dos apetites, tendências e hábitos. Dado que o caráter tem base intelectiva, a vontade é causa e efeito do caráter. Por isso, se afirma que cada um é responsável pelo caráter que possui, porque é possível superar e transcender o biológico (temperamento) por meio da educação e do esforço por adquirir virtudes. Ou seja, o carácter tem a possibilidade de melhorar ou piorar, já que depende do esforço de cada um.

    O caráter está vinculado à parte mais espiritual ou intelectiva-volitiva, sendo possível modificá-lo pelo uso que a pessoa faça do seu querer livre e responsável, e recebe influências dos fatores culturais, do meio em que vive, da família, educação recebida, das amizades. O caráter se forja pelo esforço pessoal, sendo a forma secundária (não primária) de reagir aos estímulos do ambiente: a resposta de cada pessoa dependerá de ter controlado ou não seu temperamento, sentimentos e paixões por meio da vontade. Se o caráter é uma resposta secundária e não espontânea, supõe que os impulsos inferiores da pessoa se encontrem submetidos ao influxo das faculdades superiores (inteligência e vontade).

3 – Temperamento

    Já ouvimos expressões do tipo “é uma pessoa de temperamento difícil” ou “é ansioso e agitado”. O temperamento é o produto da incidência entre o corpo (fundo vital) e o anímico-espiritual (instintos e afetos da personalidade), e está mais condicionado aos fatores genéticos, à herança transmitida pelos pais. Trata-se do conjunto de inclinações inatas, próprias do indivíduo e resultantes de sua constituição físico-psicológica, intimamente ligadas aos fatores bioquímicos, endócrinos e neurovegetativos, que imprimem uns traços distintivos à conduta primariamente operativa da pessoa.

    O temperamento, mais ligado à biologia, é a forma de reagir diante dos estímulos do ambiente; é a resposta ou reação primária que cada um apresenta segundo seu tipo ou estrutura constitucional, independente do querer da vontade, mas que deve ser controlado por esta: se cada um não é responsável pelo temperamento que possui, é causador do caráter que tem.

    As disposições hereditárias têm grande plasticidade e aceitam modificar-se, sobretudo se há luta e atuação de uma vontade forte que desenvolva as virtudes contrárias aos aspectos negativos do temperamento: por exemplo, o entusiasmo, a espontaneidade afetiva e a emotividade exagerada recebidas do fundo vital (ler abaixo), são traços temperamentais que poderão ser modificados dentro de uns limites razoáveis, desde que a pessoa se empenhe para isso.

4 – Personalidade

    A personalidade está formada pelo caráter (que sofre influência do meio ambiente, educação, profissão, etc ) e pelo temperamento (com seus instintos, afetos, tendências, e fundo vital). A noção de caráter está muito ligada à de personalidade, entendendo-se por esta o resultado das funções e propriedades correspondentes a três níveis biopsíquicos da pessoa, que Lersch aborda da seguinte maneira:

  1. Corpo, com sua anatomia e seu estrato básico e elementar constituído pelo “fundo vital”, que é o funcionamento orgânico com suas funções básicas de nutrição, crescimento e procriação. Dessas funções surgem as tendências ou impulsos do instinto de conservação (alimentação, agressão e fuga) e instinto sexual, surgindo dessas funções os estados afetivos de prazer e dor. Os animais participam desse fundo vital.
  2. Alma, com sua zona apetitiva, impulsos, instintos, tendências e paixões que constituem o segundo estrato da pessoa, e que nascem independentemente do “eu consciente”, mas que pelo “eu consciente” devem ser dirigidos. Esses apetites e instintos também são comuns aos animais, que não conseguem controlá-los por lhes faltar racionalidade.
  3. Espírito, onde residem a inteligência, memória e vontade, de níveis superiores e racionais, que devem atuar sobre os estratos inferiores, fazendo com que a pessoa aja por determinação e consciência próprias (os animais não possuem este estrato).

    O fundo vital e a zona apetitiva estão mais ligadas ao temperamento; sendo que o caráter se constitui pelos estratos da atividade superior volitiva-racional. A personalidade engloba as três dimensões acima citadas, e com isso se explica que no homem haja unidade e hierarquia: se uns estratos podem influenciar outros, a decisão de agir ou não, de seguir ou não as tendências inatas, será sempre do “eu consciente”.

5 – Muito temperamento e pouco caráter

    Pessoas que se deixam levar pelos seus impulsos instintivos são chamadas de temperamentais (ou sentimentais), pois têm na realidade muito temperamento e pouco caráter. Como foi explicado, o temperamento não é um destino inalterável, rígido: iniciar o quanto antes a mudança é o ideal, a fim de não deixar cristalizar-se modos de ser indesejados, principalmente se carregados desde a infância. Uma pessoa com força de vontade e virtudes sabe desenvolver um caráter firme e reto, dominar seu temperamento e construir uma rica personalidade.

Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterología”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Universiarias, Madrid, España, 2003.

Siga-nos no Telegram, pois nele há links para todos os boletins publicados: https://t.me/ariesteves_pedagogo