Emotividade: o sanguíneo e o fleumático

1 – Temperamento sanguíneo. 2 – Temperamento fleumático

1 – Temperamento sanguíneo

    O sanguíneo é não-emotivo, ativo e primário. Tranquilo, prático e oportunista, procura fins ou resultados imediatos. É mais reflexivo do que impulsivo. Deseja a harmonia e reconcilia-se com facilidade. É perseverante, sincero e leal. Não gosta do isolamento. É expansivo e amante do esporte. Desprendido, não se importa com o que dizem dele, nem interfere na vida dos demais. Extrovertido, é o mais otimista dos caracteres (otimismo sem entusiasmo), e julga que as coisas se consertam com o tempo. Independente em seus juízos, tem réplica para tudo, e se interessa pelo que é atual, concreto. Versátil, diplomático, cortês e com presença de espírito. É permeável às influências coletivas.

    Defeitos do sanguíneo: tende a ser egoísta, duro, oportunista e com pouca compaixão. Cético e crítico sarcástico, diverte-se ao provocar os emotivos e os tímidos. Ainda que tranquilo, em algumas ocasiões pode ter atitudes de violência e irritação. Muito trabalhador, mas com tendência a não acabar bem as tarefas devido à ânsia de mudar de atividade. Interessa-se por tudo, sendo seduzido pelas novidades. Entregue aos seus interesses, é alheio às necessidades dos demais. Tem vontade fraca e cede diante das dificuldades. Fraco de vida moral, pode cometer indelicadezas e mentir facilmente. Integra-se bem ao ambiente familiar. Há sanguíneos que se aproximam dos coléricos, dada à sua primariedade, espírito empreendedor e veemência (estes apreciam crônicas esportivas, novelas e aventuras). Aqueles que se parecem com os amorfos têm menos atividades, mas são ávidos leitores de notícias políticas.

    Modo de tratar o sanguíneo: criar-lhe um ambiente afetuoso para que se dedique aos demais com amor, e para viver a benevolência ao ajudar no que pode. Sendo frio, ensiná-lo a se emocionar, a desenvolver a emoção intelectual e a moderar a primariedade. Sua tendência à indiferença pode ser corrigida por uma educação que o faça perceber as necessidades dos demais, e a ter compaixão pelos que sofrem. Suscitar nele uma verdadeira sensibilidade para transformar sua bondade externa, mais voltada aos seus interesses, para uma bondade interna, profunda e generosa. Na adolescência, ajudá-lo a perceber a doçura da mãe e os sacrifícios do pai, sendo que a missão da mãe é decisiva para conduzi-lo à simpatia com os demais, a não ignorar a dor alheia e a ter encargos familiares para se desprender de si. Corrigi-lo com certa severidade e fazê-lo perceber que pode causar danos ao faltar a caridade com os demais. Alguns sanguíneos podem deixar-se dominar pelos sentidos e prazeres, sendo necessário estar atento para ensiná-los a viver a virtude da temperança ou autodomínio. Vaidoso, ambicioso, deve mudar seus valores por outros mais nobres. Organizar o seu trabalho ou estudo, ensiná-lo a ter espírito de equipe e dar a ele tarefas que o tirem do isolamento. Fazê-lo ver que uma das causas dos seus fracassos é a inconstância, e ajudá-lo a perseverar no esforço continuado. Buscar motivos intelectuais, mais do que práticos. Orientar sua curiosidade, que tenta suprir a pobreza interior, para algo que valha a pena.

2 – Temperamento fleumático

    O fleumático é não-emotivo, ativo e secundário. Trabalha com constância, sendo decidido, pontual, sempre ocupado, veraz e digno de confiança. Costuma ser pouco expansivo. De humor constante, é natural, simples de trato, não vaidoso e nem ambicioso. Tem interesses intelectuais. Reflexivo, chega a grandes resultados, ainda que lentamente. É tradicionalista, tranquilo, objetivo, silencioso e discreto. Ajuda a quem lhe pede um favor, mas não costuma adiantar-se ou fazer mais do que o solicitado. Aprecia as conversas sérias, mas sendo pouco falador prefere ouvir. Não teme o esforço ao buscar interesses próprios. Tem vontade de fazer bem as coisas e gosta de limpeza. Quando estudante, costuma ser hábil no raciocínio; ordenado nos cadernos, livros e mesa de trabalho e não causa problemas aos professores. Sua vida familiar discorre sem efusões, e ama os pais mais por sentido de dever do que por sentimentos de gratidão. Não é inovador, mas facilmente adaptável.

    Defeitos do fleumático: por manifestar poucos sentimentos e emoções não tem grandes expansões ou arranques, tende à frialdade e pode chegar a ter orgulho de sua frieza. Prefere jogos solitários. É calculador, metódico e pouco compreensível. Pouco compreensível, é por vezes é irônico, severo, insensível e altaneiro com os demais. Tende à solidão, a fugir da convivência, e a desdenhar o carinho familiar e dos amigos. Pode ter manias de ordem.  

    Modos de tratar o fleumático: apesar de não se deixar guiar facilmente, o fleumático necessita de orientação para resolver questões concretas. O fleumático não se fixa muito nos modos ou figura do tutor, mas sim em suas ideias e métodos. É necessário tratá-lo com sentido de humor, pois isso lhe cai bem, dado o tipo de caráter que possui. Ter presente que a maturidade psicológica exige integrar de modo harmonioso os sentimentos e afetos para colocar não apenas a cabeça, mas também o coração naquilo que faz e na relação com os demais. A afetividade humana requer aprendizagem para evitar extremos: o de quem nega o valor dos afetos e os silencia tal como se não existissem, e age friamente só pela razão; ou o de quem converte o impulso afetivo na única instância de decisão e de ação. Esses dois casos revelam fragilidades que desembocam ou na rigidez e inflexibilidade ou na desorientação de quem muda continuamente de rumo, porque se deixa levar unicamente pela percepção imediata dos sentimentos. Por isso, o fleumático – e o amorfo – deve criar sentimentos para compreender os demais e ter uma inteligência não alheia aos sentimentos; precisa ser compreensivo com os defeitos alheios, não teoricamente, mas com detalhes concretos fundados no amor, na doação de si. Para não se isolar deve procurar atividades coletivas, participar das conversas, melhorar a sua relação com os demais…

    Para o fleumático ser mais sensível e vencer a indiferença e a frieza, deve ganhar virtudes como a sociabilidade, generosidade, misericórdia, espírito de serviço, benevolência. Despertar sua emotividade sem utilizar tentativas violentas ou forçadas. A vida de fé e a luta espiritual, além da boa literatura, oferecem a ele exemplos concretos de doação de si. Desenvolver o olhar estético para contemplar a beleza da natureza, que a princípio pouco lhe afeta, ajudará a despertar seus sentimentos e a ter mais sensibilidade para o que o cerca. Fomentar a que tenha dor pelos erros cometidos e saiba pedir perdão, e não ser indiferente ao desgosto que poderá ter causado. Precisa ser prevenido para não se deixar levar por automatismos, que o tornam meticuloso e cheio de manias.

    No próximo boletim analisaremos os dois últimos temperamentos: amorfo e apático.

Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Guía práctica de caracterologia”, de José Gay Bochaca, Ediciones Internacionales Univertarias, Madri. Sugestão de leitura: “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa, Editora Quadrante, São Paulo. Imagem de Pixabay.

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