Blog

  • Crescer para dentro

    Crescer para dentro

    1 – Não basta ao homem seguir os instintos. 2 – Possuir valores que orientam as ações para a verdade. 3 – As várias dimensões do crescer para dentro. 4 – Viver para um ideal grande.

    1 – Não basta ao homem seguir os instintos

             A vida moderna pode tornar a pessoa inquieta, preocupada com o resultado de muitas coisas, nem sempre as mais importantes. Em sua dimensão integral, o homem necessita crescer não apenas biologicamente, mas exercitar suas potencialidades psíquicas – entendimento, vontade e sentimentos –, e desenvolver-se espiritualmente, que é o mais importante, pois aqui reside o seu “eu”, fonte de todas as suas decisões sobre o caminho a seguir. Evidentemente, essas duas últimas dimensões não ocorrem ao animal, pois basta-lhe a primeira, que é seguir seus instintos para assegurar sua melhor forma de viver. Ao deixar-se levar por suas tendências instintivas – comer, beber, dormir, buscar segurança e acasalar –, o animal atua bem, porque seus instintos orientam as suas ações para a conservação da espécie, e nada mais do que isso.

             Ao homem não lhe basta seguir os instintos, pois necessita idealizar projetos mais profundos, além de que seus instintos são inseguros e não lhe garantem a sobrevivência porque cada um procura apenas a sua satisfação, sem se importar com todo o organismo: o desejo de se alimentar pode impelir o diabético a comer os doces que não deveria, o desejo de beber leva alcóolatra a enxarcar-se de álcool, o sensual a alimentar as desordens da sexualidade.

    2 – Possuir valores que orientam as ações para a verdade

             O espírito humano – o eu consciente – é que deve orientar as ações para a verdade. Ao não crescer espiritualmente, a vida estaciona no biológico e numa fraca psicologia que não dará respostas às questões mais profundas da alma humana: amor, liberdade, sentido da vida… Com um eu rebaixado não haverá inquietação ou busca de grandes ideais, mas apenas alegrias pontuais, pequenos momentos de satisfação dos sentidos e nada mais.

             Quem não interioriza grandes valores a perseguir acomoda-se no medíocre e narcotiza a consciência para não se inquietar a participar na construção de uma sociedade melhor, e fecha-se no egoísmo de pensar só em si mesmo, e nas pequenas satisfações que os instintos solicitam. A falta de valores gera uma interioridade estreita, unidimensional, conduzida pelos impulsos recebidos do exterior, pelo que diz a opinião pública em cada momento, e não por sonhos e ideais mais relevantes.

             O homem exterior teme o silêncio, o estar só para refletir e comprometer-se. Então, preenche o seu interior com o ruído em forma de muita música, de mil informações desencontradas, de impressões epidérmicas, curiosidades e opiniões da moda. Com isso, seu pensamento é pouco profundo, alimentado mais com imagens do que com textos escritos que podem conduzir ao fundo das questões.

             Como diz Servais Pinckaers, crescer para dentro não se confunde com a interioridade psicológica do homem ensimesmado em seus sentimentos, num fluxo e refluxo estéril, egoísta; nem na espécie de abrigo íntimo dos tímidos que se assustam com o mundo exterior carregado de lutas e exigências. A verdadeira interioridade é a moral, que é mais profunda e consiste na capacidade de acolher em si verdade e o bem até ficar fecundado por esses valores, gerando com isso ações que transformam a si e o mundo ao redor. Quando essa interioridade se abre a Deus mediante a oração e a consideração da filiação divina, ganha em profundidade nova e insondável, capaz de produzir obras imperecíveis e livres do egoísmo humano: a interioridade humana unida à divina não permanece encerrada em si mesma, mas alarga-se em grande espectro.

             Não se transforma o mundo com um mexer-se superficial, já que este é movido por ideias que nascem dentro de alguém, sejam de consumo ou de ânsias de poder e dinheiro, ou de ideias comprometidas com a verdade e o bem. Sem uma interioridade comprometida com a verdade não há matriz onde se gestam as melhores ações do homem. Todas as grandes obras da humanidade – seja no plano moral, literário ou científico –, foram gestadas no silêncio da vida espiritual de grandes homens: Pasteur, Dante, Cervantes, Camões, Jeronime Legeune, Tomás de Aquino, Dostoiewisky, Shekespeare.

    3 – As várias dimensões do crescer para dentro

             Ensina Pinckaers que a interioridade implica várias dimensões, sendo a primeira a profundidade ou capacidade de refletir e deixar para trás as impressões, sentimentos, ideias e representações superficiais, para penetrar no fundo das realidades humanas e das questões morais. Para fazer crescer dentro de si os grandes valores, é necessário meditar neles. Alfonso Quintás ensina que pensar com rigor é penetrar no núcleo de cada realidade ou acontecimento. Por exemplo, uma moça decidiu se casar e criar um lar com o seu marido. Surgiram problemas no decorrer da união e ela vai pedir ajuda à mãe, que diz: – Você quis se casar, agora agente. A mãe agiu bem ou foi profunda na questão? Aguentar é o termo correto?, pergunta Quintás. Aguentar o peso dos males como uma coluna aguenta o peso de um telhado não é próprio do ser humano. Para suportar uma situação é necessário pensar nos valores que estão em jogo. Ser fiel supõe uma atitude criadora, ativa, responsável, e não um simples e passivo aguentar, ensina Quintás. Em vista de um bem maior, a mãe poderia ter orientado a filha que para ser fiel e levar o lar adiante o lar teria que sacrificar algo, como o bem-estar, para seguir adiante na grande tarefa de cumprir com sua palavra dada a Deus, ao marido e à sociedade, visando a formação dos filhos e reconquistar a alma do marido, levando-o ao céu. Porém, a mãe da moça por não ter uma interioridade rica, alimentada com a verdade sobre a família, foi infeliz no comentário infra-humano que fez: o “agora aguente”, não abriu à filha o caminho certo para a solução do problema.

             A segunda dimensão da interioridade é a altura. Porém, o elevar-se custa esforço e o moralmente baixo, a preguiça, por exemplo, não custa sacrifício algum. Por isso, para subir alto requer-se fortaleza para enfrentar-se consigo, humildade para reconhecer os próprios erros e fé em Deus. Quem não abraça um grande ideal e prefere a vida medíocre porque teme o sacrifício para construí-lo, não tem altura e voa como galinha e não como águia: o crescimento nas virtudes ajudará a conquistar a altura.

             A terceira dimensão da interioridade é a densidade. A superficialidade é leve porque lhe falta substância. O homem interior é de pensamento denso, resultado de paciente acúmulo no espírito e no coração das reflexões, experiências e esforços. É fruto da lenta aquisição das experiências da vida, do pensamento adquirido no estudo e nas leituras de boas obras literárias, na oração. Tudo isso eleva as ideias. Um livro é bom quando se presta à releitura. Quem não desenvolve o gosto por ler obras clássicas da literatura e prefere as notícias ou fofocas do dia a dia ou vídeos divertidos e fáceis, revela sintoma de preguiça mental. Quantos livros eu li neste mês ou no último ano? Não digo livros técnicos exigidos pela profissão, mas aqueles que buscamos com liberdade e fruto de um descanso criativo: A morte de Ivan Ilishit, de Tolstoi; O jogador, de Dostoiéwisk, Hamlet, de Shekspeare; entre tantos outros autores (Cronin, Ernest Emingway, Saint Éxpery).

             A quarta dimensão da interioridade é a amplitude de quem não se contenta com as impressões parciais, e se esforça para fugir do moralmente baixo. A amplitude permite compreender os diferentes pontos de vista e opiniões, às vezes opostas, e extrair delas ideias que enriquecem o espírito, e faz compreender também o pensamento de outras épocas da história para discernir nelas a continuidade viva da tradição espiritual.

    4 – Viver para um ideal grande

             A realização de um ideal de felicidade que dá sentido à vida deve ser maior que toda esperança puramente humana, porque esta é finita e o homem necessita de uma felicidade que ultrapasse os umbrais desta vida: Deus. A questão do sentido e fim último da vida é chave para a felicidade, pois nada é mais difícil do que suportar um vazio na própria existência. O homem moderno perdeu o sentido de finalidade última de sua vida, e substituiu essa carência pelo simples evitar o sofrimento e desfrutar das pequenas e pontuais felicidades que a sociedade de consumo oferece.

             Crescer para dentro é uma dimensão essencial da ordem moral, e meio para escapar da visão unidimensional da vida. Possuir altura de pensamento, ter densidade ou capacidade de acumular na cabeça e no coração as reflexões e as experiências da vida, ganhar amplitude de alma e magnitude ou alargamento do espírito, leva a pessoa à melhor expressão de si mesma, e às ações para melhorar com seu esforço o entorno em que vive. Crescer para dentro, eis a questão. Só a experiência do silêncio e da oração faz amadurecer e desenvolver uma interioridade verdadeira: “Não se viam as plantas cobertas pela neve. E o agricultou, dono do campo, comentou jovialmente: “agora estão crescendo para dentro”. Pensei em ti, na tua forçosa inatividade. E, diz-me uma coisa: também cresces para dentro?” (Caminho, n.294).

    Inscreva-se para receber nossos boletins, que são gratuitos e enviados uma vez por semana, via e-mail. Inscrição (basta nome e e-mail). Dê continuidade à sua formação, que nunca deve terminar.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base nas obras “Las fuentes de la moral cristiana”, de Servais Pinckaers, Ediciones Universidad de Navarra (Pamplona), 2007; e “Cómo formarse en ética a través de la literatura”, de Alfonso López Quintás, Ediciones Rialp, Madri, 1994. Imagem de Felix Mittermeier.

    Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados: https://t.me/ariesteves_pedagogo

  • Afinar a sensibilidade

    Afinar a sensibilidade

            1 – Visão. 2 – Audição. 3 – Paladar. 4 – Olfato. 5 – Tato

             Afinar cada um dos cinco sentidos que compõem o sistema sensorial humano é tarefa possível e enriquecedora que permite alcançar realidades antes ignoradas. Os sentidos são os responsáveis por alimentar ou enviar as informações obtidas ao sistema nervoso central, e por isso se diz que nada há no intelecto que não tenha passado pelos sentidos (visão, audição, paladar, olfato e tato). Alimentar os sentidos apenas com o grotesco ou elementar impede a sensibilidade dar voos mais altos, reduzindo, assim, a possibilidade de compreensão mais autêntica das realidades. Ao permitir a captação de imagens, sons, sabores, odores e toques, os sentidos garantem uma percepção mais completa do ambiente.

    1 – Visão

             A vista pode se tornar preguiçosa e não se ater por muito tempo na mesma imagem, porque borboleteia por todo canto. Então, precisa ser afinada para fixar-se em detalhes e deleitar-se, por exemplo, diante de uma obra de arte ou de um livro de literatura… Quem passa muitas horas semanais degustando vídeos de muita ação – esportes, filmes –, costuma ficar incomodado com enredos mais elaborados e reflexivos. Então, é preciso despregar do chão a cabeça e o coração para interesses mais elaborados, a fim de potencializar o próprio mundo interior. Ao ampliar o campo de interesse para atividades que pouco a pouco enriquecem a visão do mundo e das pessoas, seja por meio de filmes com excelentes enredos ou pela boa literatura, tornam a pessoa mais conhecedora da complexa psique humana, e isso permitirá melhor interação consigo ou com as pessoas.

    2 – Audição

             A audição também pode ser educada. A facilidade com que hoje se tem à mão áudios e vídeos dificulta os momentos de silêncio e de reflexão interior, tão necessários para uma compreensão mais profunda das realidades. É frequente encontrar no ônibus ou no metrô pessoas de todas as idades enfrascadas em fones de ouvido, seja com músicas ou podcast. Outros, ao sair de carro, fazer cooper, andar de bicicleta, realizar trabalhos manuais, automaticamente sintonizam algum tipo de som porque temem o silêncio, o encontro consigo mesmo. Músicas de gêneros intensos como o reggae e o rock poluem o cérebro e dificultam a ação de pensar e contemplar. Há os que se queixam da incapacidade de se concentrar no estudo, de se recolher em oração ou dedicar-se a pensar em algo mais profundamente, mas o que esperar se durante o dia estiveram continuamente preenchendo o cérebro com estímulos sonoros?

             Encontrar ilhas de silêncio no dia ao aproveitar deslocamentos, momentos de espera, etc., permite acudir à mente outras ideias, torna a pessoa mais criativa e rica interiormente. Alguém já chamou de contemplar seus pensamentos a ação de deixar vir ao pensamento lembranças, imagens ou reflexões sobre um tema ou assunto. Bento XVI disse que o silêncio é capaz de escavar um espaço interior no nosso mundo íntimo para ali fazer habitar Deus (Audiência geral de 07/03/2012). Não se trata de criar um vácuo mental, mas de abrir a mente à passagem de ideias próprias, e não as que são socadas na mente pelas mídias sociais. Trata-se de permitir-se o diálogo consigo mesmo e, melhor ainda, o diálogo interior com Deus, que transforma os próprios pensamentos em oração. Sobre a necessidade do silêncio interior não é por acaso que o cardeal R. Sarah escreveu uma obra de 300 páginas intitulada “A força do silêncio: contra a ditadura do ruído”. pela Fons Sapientiae.

    3 – Paladar

             O paladar é um sentido que também pode ser afinado. Diante da pergunta sobre o prato favorito, se a resposta for, por exemplo, um hambúrguer com batas fritas, bacon, ovo e muito ketchup, talvez seja o caso de se abrir para apreciar sabores menos marcante e mais sutis. Não se trata de chegar ao requinte de algumas etiquetas de vinho, ironizadas por certo humorista, que dizem para captar “o sabor complexo, cheio de matizes, com notas de sândalo e um final tânico poderoso, que revelam longas notas tostadas”.

             O paladar pode ser reprogramado de forma progressiva, por meio de pequenos esforços como o de não reclamar do prato que se diante, variar a alimentação, carregar menos no sal e açúcar, comer um pouco mais do que se gosta menos e um pouco menos do que se gosta mais, não repetir a comida, comer devagar, saborear uma culinária mais elaborada, que certamente deixará feliz a pessoa que a preparou. O paladar doce pode ser mudado com a inclusão de vegetais amargos ou azedos (rúcula, agrião, jiló, rabanete, alho-poró…); há especiarias que ajudam a camuflar o sabor doce: gengibre, noz-moscada, canela, cravo e, claro, pimenta…

    4 – Olfato

             O olfato está relacionado à higiene corporal: ir bem limpo, barbeado, no caso dos homens, asseado, talvez com um pouco de perfume discreto e não enjoativo, mas que torna a presença mais agradável. A roupa cheirosa, bem passada, com o colarinho não puído e trocada com frequência para não utilizá-las por dois dias seguidos, pois se trata de viver a virtude da economia, já que o esforço para lavar roupa encardida faz desgastar mais o tecido.

             Não se trata de ser produzido, afetado, nem de se vestir da mesma maneira em todas as ocasiões, mas de cultivar o senso estético, a pulcritude, no próprio aspecto externo. O cuidado com esses pormenores torna a alma sensível para captar o perfume das flores e se interessar pelo nome de cada uma, agradecer o aroma da comida bem-preparada que vem da cozinha, o cheiro da casa limpa…

             Um olfato sensível e delicado faz ampliar o interesse por conhecer os nomes das flores, árvores, plantas e pássaros da região em que se vive; ao retornar ao lar, saberá agradecer as mãos que colocaram flores sobe um móvel para embelezar o ambiente.

    5 – Tato

             O tato é conhecido como o sentido mais elementar e primitivo. O tato está presente não somente nas mãos, mas na pele que envolve todo o corpo, da cabeça aos pés. Pode-se relacionar o tato com o cuidado das formas, ao tom humano, à delicadeza no trato com os demais. O modo de se apresentar, de se sentar esparrado ou não, de se postar na mesa, de enfatizar, de torcer pelo time de futebol… A intemperança não só ocorre pela boca, mas em escolher os lugares mais confortáveis para se sentar, seja em casa, no trabalho ou no restaurante (minha cadeira, meu lugar no sofá, minha mesa, meu canto preferido)… Não são meros convencionalismos sociais, mas manifestação de respeito a si e aos demais viver desapegado das coisas materiais. O modo intemperado de assistir uma partida de futebol reflete um mundo interior desajustado, a necessidade de chamar a atenção dos demais, e o descontrole exagerado de manifestar os sentimentos.

             Ser discretos, pedir por favor, agradecer, chamar as pessoas pelo nome e não pelo apelido, saudar delicadamente e não com um tapa nas costas, evitar palavrões, não bocejar ou se espreguiçar em público, são exemplos de delicadeza nas formas que tornam a convivência muito mais agradável.

             Não abordaremos neste boletim os sentidos internos, principalmente a memória e a imaginação, que também devem ser educadas para evitar a algazarra interior ao trazer lembranças e imagens inoportunas que impedem a concentração e a atenção naquilo que se está fazendo. A imaginação, que é tão importante para a criação de todo tipo de instrumentos, e fundamental para as obras de arte, pode se tornar a “louca da casa”, como dizia Teresa de Jesus.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na obra A formação da afetividade – Uma perspectiva cristã, Cap.5 Desenvolver a afetividade a partir das virtudes teologais, de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2021. Imagem: a do diapasão é de Thirdman; as palavras introduzidas são de Ari Esteves.

    Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados: https://t.me/ariesteves_pedagogo

  • Seu filho e a escolha da profissão

    Seu filho e a escolha da profissão

    1 – Não atrasar a escolha da profissão. 2 – Como ajudar seu filho a escolher uma carreira. 3 – As qualidades pessoais estão para servir aos demais. 4 – Fomentar a autoestima do adolescente indeciso. 5 – Evitar o sentido utilitarista da vida.

    1 – Não atrasar a escolha de uma profissão

             Muitos adolescentes e jovens, já no ensino médio, estão indecisos acerca da carreira universitária que pretendem fazer. Ao buscar a orientação ouvem de alguns pais o ingênuo conselho de que ainda são muitos jovens para decidir. Com isso, franqueiam as vagas não para seus filhos, mas para aqueles que já na primeira série do ensino médio, principalmente das escolas particulares, vêm se preparando para o vestibular do ENEM, Fuvest ou outros, com vários simulados por ano.

             Ao não tomarem providências o quanto antes, muitos jovens do ensino médio das deficientes escolas públicas poucas chances terão de passar no vestibular das concorridas universidades públicas – gratuitas –, pois com a desculpa de que ainda não sabem que carreira seguir, malbarateiam o tempo ao gastar seis horas diárias com games e redes sociais, ao invés de enfrentarem o desafio da escolha de um curso ao pesquisar na internet as diferentes carreiras e disciplinas dos anos de graduação dos cursos aos quais têm dúvidas, a pontuação média exigida para todas as disciplinas do ENEM e a mínima das disciplinas consideradas mais importantes para cada curso, a fim de refletir se terão condições intelectuais e gosto pela carreira. Trata-se de uma tarefa que devem enfrentar o quanto antes, e não na metade do ensino médio, quando já não terão tempo suficiente de se prepararem bem para o vestibular.

    2 – Como ajudar seu filho a escolher uma carreira

             Os pais podem ajudar o filho indeciso a se decidir livremente por uma carreira. Para isso, mais que viajar na maionese, começar por fazê-lo perceber os talentos ou capacidades que possui, pois são essas que permitirão a ele realizar mais facilmente determinado curso. Ao contrário, a escolha de uma carreira para a qual não se tenha talento exigirá um esforço maior, com o risco de não se destacar ao desempenhá-la com imperfeição. A carreira deve quadrar-se com o gosto e as aptidões pessoais, pois só assim seu filho se tornará um profissional competente.

             Refletir sobre as qualidades ou talentos naturais que se possui é necessário. O exercício de autorreflexão, que os pais devem estimular a que cada filho faça, ajudará a que decida por si próprio sobre a carreira que pretende seguir. Analise com o filho os pontos fortes e fracos que ele possui, e ajude-o a centrar-se em suas melhores qualidades, pois nela possivelmente se aloja a profissão dele. Por exemplo, se ele é mediano ou fraco em matemática, mas excelente em português, gosta de escrever contos e redações, deverá ser incentivado a aproveitar essas qualidades, já que a matemática lhe é uma limitação natural, e mesmo que dedique muito tempo a essa ciência, certamente nunca chegará ao desempenho ideal. Porém, poderá ser dar muito bem em carreiras onde o ato de escrever esteja fortemente presente: direito, jornalismo, letras, entre muitas outras… Trata-se, portanto, de desenvolver ou fortalecer aquilo que seu filho faz bem e se destaca em relação às demais pessoas.

             Dedicar-se com gosto a uma atividade que faz a pessoa se energizar e trabalhar nela durante horas seguidas, é indício de algum talento. Valorize até as pequenas coisas que seu filho aprecia, pois atrás de alguma delas estará a profissão dele. Faça-o perceber que tipo de ajuda os parentes e amigos pedem a ele, porque percebem que as realiza com facilidade e melhor que os demais. Há hobbies que não estão distantes de uma opção profissional: gosto por ler livros de literatura ou técnicos, cuidar de plantas e animais, preparar refeições para a família, aconselhar os amigos, destreza manual…

             Como foi dito, os talentos permitem realizar com facilidade e prazer determinadas atividades, que podem direcionar a escolha mais acertada de uma profissão. Toda pessoa nasce com algum talento ou qualidade que irá destacá-la no serviço que poderá prestar aos demais: facilidade para falar diante dos colegas da sala de aula, aptidão para números, jeito com crianças, cuidar de idosos, cozinhar, capacidade de concentração…

             Onde há fumaça há fogo, diz o ditado. Um talento pode se manifestar com naturalidade desde a infância, e continua a se desenvolver na juventude ao dar prazer em realizá-lo: desenhar, pintar, escrever, habilidade ou destreza manual para montagens, liderar no esporte, aconselhar, ter empatia, organizar atividades, falar diante dos colegas da classe, pesquisar com prazer para realizar trabalhos escolares, facilidade para cálculos ou idiomas, consertar objetos… O adolescente que fala em público com desenvoltura pode ser um futuro professor, palestrante ou advogado; se gosta de escrever poderá ser escritor, jornalista, historiador, redator. Há os desinibidos que apreciam o contato com pessoas, gerenciar atividades, planejar, resolver demandas…

             Se a dúvida sobre a escolha de uma carreira profissional persistir, depois de se ter fixado nas percepções mais à mão, surge então a necessidade de fazer testes vocacionais. Na internet há ensaios gratuitos, com perguntas e afirmações que podem identificar habilidades ou indício para determinadas carreiras. Porém, se não forem suficientes, então o ideal será realizar testes em institutos oficiais, conduzidos por profissionais especializados e conhecedores de técnicas para o autoconhecimento.

    3 – As qualidades pessoais estão para servir aos demais

             Não nascemos para viver isolados, e necessitamos uns dos outros. Há infinitos talentos, o que torna a humanidade interessante ao fazer com que uns uns se apoiem em outros: o que seria se cada pessoa tivesse que fazer as próprias roupas, criar ou consertar os aparelhos que utiliza, diagnosticar e tratar suas enfermidades, cozinhar, cortar o próprio cabelo…

             Os talentos ou qualidades devem ser colocadas ao serviço dos demais, e não para satisfazer egoísmos pessoais; devem ser continuamente aprimorados pelo esforço do estudo, da prática e pela ajuda que os demais podem oferecer, pois a formação nunca deve parar. Quem utiliza bem seus talentos pessoais colabora com a melhoria da sociedade, seja através dos serviços que presta para o desenvolvimento social, ou por meio das ideias que aporta no debate cultural, profissional, político, científico ou artístico. Sem perder o entusiasmo de colocar em prática as qualidades próprias, é necessário depois ser constante e paciente para continuar a se desenvolver. Mas se o romantismo da primeira hora diminuir, então, pedir a Deus força emprestada dEle para perseverar, pois o verdadeiro amor está em servir aos demais com as qualidades que Ele deu a cada um.

    4 – Fomentar a autoestima do adolescente

             Há jovens que se subestimam ao conviver com familiares ou pessoas de certas áreas profissionais, às quais percebem não ter as qualidades necessárias para elas. Outros minusvalorizam-se porque não possuem as aptidões que percebem em seus colegas de escola. Os pais devem estar atentos a esses desajustes que a inexperiência da vida pode trazer, e ajudar os filhos a se conscientizarem de suas verdadeiras qualidades, que são diferentes das outras pessoas, mas que devem valorizar porque nasceram para realizar com elas outras atividades, certamente com maior competência que os demais.

             Por vezes, os jovens não percebem que realizam bem determinadas tarefas porque julgam que é algo natural e que todos as realizam também, o que não é verdade! Trata-se, então, de fazê-los perceber que desenhar, falar em público, ser sociável, gostar de ler, saber preparar pratos, entre muitas outras atividades, nem todo mundo faz com facilidade.

    5 – Evitar o sentido utilitarista da vida

             Tratamos neste boletim acerca das capacidades pessoais que podem ser descobertas e desenvolvidas, a fim de colocá-las ao serviço dos outros. Entretanto, para evitar o sentido utilitarista da vida, deve ficar bem claro que a dignidade humana não deriva das qualidades que se possui, mas do fato de que cada pessoa tem sua alma criada diretamente por Deus, e à imagem e semelhança (os pais colaboraram com o corpo), cuja sabedoria é infinita e não mede as pessoas pelo que sabem ou não fazer, mas porque ama infinitamente cada um dos seus filhos, e deseja ser amado por eles. Se um dia alguém vier a perder suas capacidades por acidente, velhice ou doença, jamais deixará de ter a grande dignidade de ser amada por Deus. Pense nisso.

    Texto de Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Kindel Media.

    Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados: https://t.me/ariesteves_pedagogo

  • Os pais e a cultura familiar

    Os pais e a cultura familiar

    1 – Família e cultura. 2 – Pais que promovem atividades culturais. 3 – Algumas iniciativas culturais para o desfrute familiar

    1 – Família e cultura

             O contato com a arte é essencial para qualquer pessoa, especialmente na fase educacional da criança e do adolescente, pois amplia o conhecimento e torna a sensibilidade mais criativa e com capacidade de contemplação para atentar aos detalhes importantes da vida. A família é o primeiro âmbito de promoção da cultura, exatamente por ser o ambiente mais próximo da pessoa, e o que mais pode ajudar seus integrantes a desenvolver a sensibilidade para o belo, que tem algo de divino e inspira o coração para os bens mais altos.

             “Uma das principais funções da família é criar um ambiente em que a instrução tende a converter-se em cultura e a cultura converter-se em sabedoria no sentido de saborear”, disse Gustave Thibon. Os pais precisam compreender que são os responsáveis pela cultura familiar, ao introduzir as crianças e os adolescente no mundo da arte, ampliando assim o seu universo de conhecimentos para bens mais altos do espírito.

             Cultura é um termo que sugere a ação de cultivar o espírito, sair do estado bruto, tal como se cultiva a terra ao tirar as pedras e abrolhos para que se possa colocar sementes selecionadas que produzam bons frutos. Para o espírito humano isso pode ser feito por meio da arte, que é a atividade criadora de beleza, e regida pelo sentido da estética.

    2 – Pais que promovem atividades culturais

             Para fomentar a cultura familiar não é necessário ser rico, mas saber escolher o que é bom nas imensas possibilidades disponíveis na internet, na busca de livros em bibliotecas públicas, na seleção de vídeos, nos inúmeros encontros artísticos gratuitos que acontecem nos espaços públicos, em visitas às exposições na própria cidade, navegar em sites dos importantes museus europeus, entre outras opções.

             Os pais conseguem que seus filhos rapidamente se cultivem se eles, pais, forem cultivados: a qualidade da educação que oferecem será proporcional à qualidade da formação que possuem, porque o exemplo educa mais do que as palavras: “longo o caminho com preceitos, mas breve e eficaz com exemplos”, dizia Sêneca. O esforço para vencer a preguiça nos fins de semana, e estimular a família para o encontro com o belo, é uma obrigação moral dos pais. A falta de interesse e esforço dos pais pela formação cultural decepciona os filhos, que um dia se lamentarão, por exemplo, de não terem gosto pela leitura porque seus genitores agiram preguiçosamente nesse campo.

             O fascínio perante o belo eleva a alma para os bens espirituais. Ao apreciar um quadro, escultura, poesia ou peça musical, há uma elevação do espírito, uma sensação de alegria e êxtase capaz de sensibilizar o coração. A arte é “capaz de expressar e de tornar visível a necessidade que o homem tem de ir além daquilo que se vê, pois manifesta a sede e a busca do infinito. Aliás, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e para uma verdade que vão além da vida quotidiana. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, impelindo-nos rumo ao alto” (Bento, XVI, Audiência geral, 31-08-2011).

    3 – Algumas iniciativas culturais o desfrute familiar

             A título de sugestão seguem algumas iniciativas que os pais podem promover, a fim de enriquecer o espírito de cada membro da família, que passará a produzir do que se alimentar e participará com boas ideias do debate cultural e social:

    • Filmes: em nossa época, onde impera a cultura da emoção e da imagem, o cinema é um grande recurso para a educação dos sentimentos. Os enredos possibilitem o diálogo familiar sobre as atitudes dos personagens. As cenas muitas vezes tocam os afetos ao abordar aspectos essenciais da vida humana, e com isso ajudam a refletir como cada um conduz a própria vida. A afetividade, onde residem sentimentos, emoções e paixões, não deve ser ignorada no processo educativo de adolescentes e jovens. Cabe aos pais e educadores servir-se dos afetos como porta de entrada para a compreensão da alma juvenil e seu universo atual, valendo-se do cinema como metodologia simples e acessível.
    • Teatro: o teatro é uma expressão artística onde os atores apresentam histórias que despertam nos assistentes sentimentos variados e indagações que servem tanto para o autoconhecimento como para o conhecimento da vida e das demais pessoas. As boas peças teatrais, sejam presenciais ou em vídeos, nos colocam com intenso realismo diante do bem e do mal: em O Auto da Compadecida aprendemos o que é um coração misericordioso; em Odisseia, de Homero, vemos a fidelidade de Penélope e de Ulisses; Macbeth ensina onde o desejo de poder pode levar uma pessoa; em Hamlet, vivenciamos a tragédia onde um príncipe busca vingar a morte de seu pai, com uma densa narrativa sobre conflitos de família, amores, loucura e sanidade, circunstâncias a que pode chegar a condição humana. Devido ao forte realismo do teatro, aprende-se por meio da experiência alheia.
    • Pintura: a pintura amplia a capacidade de apreciar as cores, luzes, sombras e formas dos mais variados seres, reais ou imaginários; permite viajar ao passado e descobrir hábitos e costumes de cada época; revela a sensibilidade de cada artista para o belo e para o detalhe… Os diferentes estilos pictóricos são um desafio para a imaginação dos pintores, extasiam e provocam a admiração dos apreciadores das imagens. Antes de ir a uma galeria de quadros com criança (poucas, para que não se distraiam ao brincar umas com as outras), entre no site da exposição e selecione junto com a criança os quadros que ela mais gostou, e no local criar uma espécie de jogo de encontrar; ao encontrar a obra, pergunte à criança que mais ela acrescentaria naquela pintura, a fim de que comece a se fixar em detalhes: lembre-se, não manifeste uma opinião negativa sobre o gosto da criança para não desconcertá-la ou inibi-la.
    • Escultura é a arte das formas espaciais em terceira dimensão que transforma a matéria bruta (pedra, madeira, ferro, bronze, mármore) em arte plena de significado e senso estético. A escultura é pensada muitas vezes para embelezar espaços públicos ou áreas privadas. O encontro com uma escultura sempre provoca admiração porque retrata a capacidade criadora do artista, e a difícil arte de manejar instrumentos para dar “vida” às pedras e outros materiais inertes.
    • Livros de literatura: o amor pelos livros será um forte antídoto para as crianças se verem livres do vício de celulares, desde que os pais lutem também para serem bons leitores, e não se esparramem no sofá para ficar diante da TV. Fomentar a leitura de contos, romances e novelas oferece muito mais à inteligência e à sensibilidade do que as longas horas deglutindo sucessivos desenhos, jogos eletrônicos e fotos em redes sociais. Com a leitura, os filhos desenvolverão uma sadia imaginação e se tornarão criativos e com grande força de expressão e inteligência para a compreensão de textos. Leia para as crianças pequenas, visite com elas livrarias, bibliotecas, feiras de livros, e as deixe escolher um livro. Inscreva seu filho ou filha na biblioteca pública do bairro.
    • Passear pelo campo ou por grandes parques para apreciar a natureza desperta o espírito de contemplação. O silêncio da natureza e seu entorno fará perceber o canto dos pássaros, conhecer os infinitos seres que vivem junto ao verde das plantas. Com isso, aprenderão a perceber a beleza nas coisas simples, e não na estrondosa agitação das telas que roubam o tempo da reflexão. Gaudí, o grande arquiteto espanhol, foi um apreciador da natureza e colocou seus elementos na famosa igreja da Sagrada Família, em Barcelona.
    • Poesia: promover saraus ou tertúlias em casa para a leitura dos grandes poetas é um grande recurso para amar a própria língua. Dentre os que manuseiam a palavra, os poetas são os que melhor utilizam cada vocábulo, que para eles têm grande ressonância: cor, cheiro, sabor, musicalidade; eles transmitem seus sentimentos com palavras bem pensadas, artisticamente colocadas, e com isso todos aprendemos a utilizar os termos com mais precisão e concisão. Não se domina um idioma sem a leitura de seus poetas.
    • Música: se os pais não desejam que as filhas pequenas cantem o que ouvem a exaustão nas mídias ou em pancadões, principalmente em bairros da periferia – muitas vezes com letras ofensiva, mesmo que não entendam o que dizem –, e passem a imitar as danças sensuais que veem na TV, precisam colocar as crianças frente ao que é estética e moralmente mais belo. Para isso, devem levar as crianças a audições musicais de diferentes gêneros (Clássico, MPB, Samba, Frevo, Baião, Sertanejo, Blues, Jazz…), seja ao vivo em salas ou locais públicos de apresentação gratuita ou de baixo custo, que ocorrem habitualmente nas grandes cidades. Com isso, as crianças saberão fugir da subcultura e de seus sucedâneos que ficam de moda, mas que depois são esquecidos, não sem causar grandes danos à sensibilidade estética.
    • Bate-papo familiar: outra forma para os pais promoverem o amor mútuo e a cultura entre seus familiares é, por exemplo, fazerem juntos ao menos uma das refeições diárias, por exemplo, a do jantar, onde todos possam falar ao trocar impressões do ocorrido no dia, ouvir em silêncio e com atenção a fala dos demais, olhar-se nos olhos. Assim, as crianças passam a saber como é o trabalho do pai ou da mãe, e isso as enriquecem e as fazem sentir-se valorizadas. Ter um horário fixo para essa refeição facilitará a que todos deixem outros compromissos para chegar pontualmente a ela. No bate-papo familiar sentados na sala ou em torno da mesa da cozinha, após a refeição e com a TV desligada, será o momento de transmitir o patrimônio cultural da família por meio de fotografias, objetos de decoração que são lembranças de pessoas ou momentos vividos no passado, vídeos e gravações de viagens, tradições e costumes da família.
    • Tertúlia é o encontro entre familiares ou amigos para abordar de modo descontraído algum tema de interesse comum, ou simplesmente conversar, conviver descontraidamente, rir. As tertúlias são um grande recurso para transmitir apreciações artísticas, esportivas, culturais, musicais… Os pais, que não são os únicos responsáveis pelas tertúlias, podem convidar amigos ou parentes para narrar alguma prática esportiva, estudos, cantar ou tocar um instrumento musical, falar de viagens ou excursão ao exterior, colecionismo… Pode-se programar também sessões de vídeos culturais, históricos, geográficos, e depois trocar impressões sobre eles.
    • Clube familiar: fomentar em casa ou em outro local (área do condomínio, praça, quadra da escola…) uma vez por semana (por exemplo, aos sábados pela manhã), um encontro onde meninos ou meninas da mesma idade, mas separadamente, possam brincar e conviver entre si, e estar junto com o pai (as meninas com a mãe), é algo ansiosamente esperado pelas crianças ao longo da semana. No clube aproveita-se para transmitir às crianças, por meio de uma palestra de 15 minutos, o modo de viver alguma virtude na semana (ordem nos brinquedos e roupas, espírito de serviço ao ter uma tarefa para ajudar em casa diariamente, fomentar a generosidade ao doar um brinquedo a alguma criança pobre…). Depois, organiza-se uma prática esportiva ou jogo entre as crianças e termina o encontro com um lanche para repor as forças (cada um trouxe algo que compartilhará com os demais). Uma vez por mês, todos juntos (pais, mães, filhos e filhas) podem fazer uma visita cultural ou excursão para passar o dia fora, e fazem juntos uma refeição compartilhada. O clube infantil fomenta a convivência das crianças entre si e com seus pais. Muitos adultos testemunham que seus melhores amigos, com os quais mantêm vivamente contato até os dias atuais (e entre si vários se tornaram até padrinhos de casamento ou dos filhos), são aqueles que conheceram quando crianças no clube familiar; afirmam que os amigos e colegas que conheceram em outras situações (ensino médio, universidade, trabalho…) não formaram laços tão profundos quanto aos do clube familiar.

             Ficam registradas acima algumas atividades culturais que enriquecem o espírito e tornam mais felizes as pessoas, que já não sentirão necessidade de modos de entretenimento exagerados, sofisticados e caros. Essa elevação da alma faz desprender-se dos bens materiais a que todos somos bombardeados a todo momento a consumir. Outro benefício dessas atividades culturais, é que as crianças e adolescentes se libertarão do vício da chupeta eletrônica, que as tornam hiperativas, preguiçosas para pensar (é mais fácil receber tudo pronto das telas) e entediadas com a lentidão do mundo real, porque não tem um botão para apertar e mudar a cena.

    Texto de Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Olia Danilevich.

    Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados: https://t.me/ariesteves_pedagogo

  • Conhecer-se para se construir

    Conhecer-se para se construir

    1 – Não nascemos prontos. 2 – Ser artífice da própria vida. 3 – Buscar os aspectos a polir. 4 – Acender uma luz dentro de si. 5 – Iniciar com propósitos simples.

    1 – Não nascemos prontos

             “A cada homem se lhe confia a tarefa de ser artífice da própria vida; em certo sentido, deve fazer dela uma obra de arte, uma obra mestra” (João Paulo II, Carta aos Artistas). Ninguém nasce pronto, mas como obra inacabada. Primeiramente cada um é ajudado pelos pais para se desenvolver como pessoa; depois, quando adulto, faz suas escolhas pelo livre arbítrio para alcançar o melhor de si, sendo que essa tarefa há de durar a vida inteira, já que ninguém em sã consciência pode achar-se plenamente formado, pois sempre podemos aprender e melhorar mais.

             Na trajetória para o aperfeiçoamento pessoal quem não melhora retrocede, sendo preciso ser inconformista e não aceitar conviver com o erro dentro da própria alma, tal como não se deseja conviver com vírus ou bactérias no corpo: ao invés de dizer “é que sou assim”, dizer “eu me fiz assim, mas quero melhorar”.

             O conhecimento próprio é fundamental para a reforma pessoal. Para isso, como bons comerciantes que no final do dia fazem um balanço para ver os ganhos e as perdas, é preciso fazer um exame diário de três minutos no final do dia, a fim de verificar os pontos positivos e negativos do caráter e do temperamento, para fomentar uns e corrigir outros. O espírito de exame corresponde a uma necessidade de amor, de sensibilidade. Se por preguiça descuida-se desse exame, não se pode evitar que no terreno da alma e dos afetos cresçam abrolhos e espinhos.

    2 – Ser artífice da própria vida

             Por vezes queremos mudar o mundo, mas em primeiro lugar devemos melhorar a nós próprios. Se não há luta contra os defeitos eles tendem a crescer com o passar do tempo. Há quem não vai ao médico porque teme que lhe seja diagnosticada alguma doença, e prefere viver “feliz” e consciente de sua própria ignorância, e com isso deixa de dar o grande passo para a cura, que é pôr os remédios apropriados. Ser artífice da própria vida começa por não ter medo de se examinar para descobrir aspectos a corrigir, a fim de não andar às cegas e cair num buraco. Quem descobre aspectos a melhorar deve se sentir feliz porque não lutará às cegas ou dará socos no ar, mas poderá travar uma luta alegre e esportista, tal como o atleta que busca melhorar cada dia mais a sua performance, começando e recomeçando seus exercícios (sua luta) uma dia e outro.         

    3 – Buscar os aspectos a polir

             Para fazer da nossa vida uma obra de arte temos que reconhecer que é universal a experiência da fraqueza humana, e que também somos vítimas dela, pois os bens nos atraem e podemos usufruí-los de modo intemperado, sejam eles bens do instinto (comida, bebida, conforto…), ou de inclinação psicológica (trabalho profissional que faz distanciar da família, curiosidades frívolas nas redes sociais, etc..).

             Já se afirmou que o orgulho morre duas horas depois da pessoa. Como filhos de Eva, a primeira vítima da lisonja, também detectamos em nós sintomas de orgulho, vaidade, egoísmos, preguiças…. Outras vezes percebemos defeitos de temperamento, como a indiferença pelas pessoas, ironias, antipatias, suscetibilidades, pouco agradecidos, não saber ouvir, dar demasiada relevância à opinião própria e não entender as razões dos demais, emburramentos, teimosias, espírito crítico, reações destemperadas, não cumprir o prometido, juízos temerários que etiquetam erradamente as pessoas, deixar as coisas para a última hora…

             Eita, a lista acima parece que não deixa de crescer! Não se trata de corrigir tudo de uma vez, mas começar pelo aspecto mais relevante a ser corrigido. Pelo princípio da unidade da pessoa humana, quando melhoramos em um ponto, melhoramos em muitos outros ao mesmo tempo. O importante é começar, como foi dito, por meio de uma luta alegre e esportista.

    4 – Acender uma luz dentro de si

             Quem procura conhecer-se não fará o papel daqueles que Cristo disse que “amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más e não queriam que fossem vistas”, claro, nem por si mesmos! O humilde é consciente das próprias debilidades e pede ajuda a Deus, que vem ligeiro ao seu auxílio, tal como um bom pai que estende o braço para ajudar a sua criança.

             Uma sugestão de leitura é o pequeno livro de bolso “Conhecer-se”, de Joaquim Malvar Fonseca, publicado pela Editora Quadrante, em São Paulo, que faz a seguinte apresentação da obra: “Quem sou eu? Esta pergunta não é banal. Está latente, sob múltiplas formas, mais ou menos complicadas, nas indagações dos filósofos, nas consultas psiquiátricas, na agitação dos jovens e na própria insegurança das instituições sociais. «Conhecer-Te para conhecer-me», responde Santo Agostinho. O destino do homem ultrapassa o homem, e só nos conhecemos verdadeiramente quando nos conhecemos à luz de Deus. Este conhecimento próprio à luz de Deus é, aliás, o único conhecimento eficaz, porque traz consigo a terapia, quebrando os círculos viciosos do eu e abrindo a porta às mudanças”.

    5 – Iniciar com propósitos simples

             Começa a reconstruir-se quem no final de cada dia faz para si a seguinte pergunta: ― Que fiz mal?, que fiz bem?, que poderia ter feito melhor? Em seguida, estabelecer um ou dois propósitos pequenos e concretos para corrigir as falhas detectadas no dia: levantar-se no horário para chegar e sair pontualmente do trabalho; chegar cedo em casa e ajudar a esposa, ouvir a criança com atenção e ajudar nas tarefas domésticas; sorrir quando não se tem vontade para evitar uma cara mal-humorada… Com isso, enxota-se as pequenas ou grandes faltas que afastam de Deus e dos demais.

             A luta contra os defeitos do temperamento é permanente e necessária para sermos aquilo que diz Caminho n.4: “Ser homens de caráter e personalidade: eis a rocha sobre a qual construímos a verdadeira santidade. As virtudes sobrenaturais infusas apoiam‑se na forte estrutura de virtudes humanas que formam o caráter”.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Chinmay Singh.

    Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados: https://t.me/ariesteves_pedagogo

  • Aprender a amar. Lar luminoso

    Aprender a amar. Lar luminoso

    1 – Um querer verdadeiro. 2 – Ser paciente com os defeitos dos demais. 3 – O amor se demonstra na convivência diária. 4 – A mulher sabe tornar o lar amável e atraente

    1 – Um querer verdadeiro

             As pessoas de uma família devem aprender a querer-se. Não basta tolerarem-se, que seria muito pouco. O carinho deve ser não apenas humano, mas sobrenatural ao ter Deus de permeio. E para querer-se, não há nada que arraste tanto como o carinho.

             A caridade – também chamada de amor – é ordenada, o que significa que não basta ser simpático com as pessoas do ambiente escolar, profissional ou social, e deixar de sê-lo com os da família, pois tal comportamento revela hipocrisia, falsidade.

             Marido e mulher devem se amar, e depois fazer esse amor transbordar aos filhos, e não ao contrário. Ter o cônjuge em primeiro lugar no amor não diminui o afeto dos filhos pelos pais, ao contrário, lhes dá segurança ao comprovar que os pais ao se amarem verdadeiramente torna estável e permanente o lar, pois permanecerá sempre unido. Infelizmente, quando marido e mulher deixam esfriar o amor mútuo, correm o risco de que a separação bate à porta do casal, que por vezes transferiu o amor unicamente ao filho, e este agora se verá sozinho. A esposa (ou marido) que dedica mais atenção à criança, e esquece do outro cônjuge, se equivoca em sua missão, deseduca o filho, e coloca em risco a estabilidade da família.

    2 – Ser paciente com os defeitos dos demais

             A convivência familiar é possível quando todos tratam de ir corrigindo as suas deficiências, e sabem passar por alto os pequenos defeitos dos demais, sem fazer tempestade em copo de água. Cada pessoa tem seu temperamento, caráter, gostos, gênio ou mau gênio… E não há filho de Adão e Eva que não tenha defeitos a corrigir por meio de uma luta alegre, paciente e positiva, a fim de ganhar as virtudes contrárias aos defeitos que possui; como também será difícil que alguém não tenha em seu temperamento e caráter aspectos agradáveis que facilitam a querê-lo bem.

             Quando há amor entre todos os membros da família, supera-se rapidamente aquilo que poderia ser motivo de divisão ou divergência. Se alguém na família diz que não pode aguentar isso ou aquilo do outro, exagera e busca motivos para justificar sua impaciência e pouca caridade, além de demonstrar possuir um coração mesquinho, não magnânimo.

             Um grande princípio de vida é saber calar-se e esperar para dizer as coisas de modo positivo, em outro momento. Devemos buscar em Deus a fortaleza necessária para dominar os próprios caprichos, ceder em assuntos de livre opinião, colocar-se ao serviço aos demais e saber mudar os planos pessoais para se adaptar ao querer dos demais.

    3 – O amor se demonstra na convivência diária

             No dia a dia da vida familiar encontram-se as ocasiões para sacrificar-se alegre e discretamente para fazer a vida agradável aos demais, e demonstrar na prática que ama os seus familiares: pai, mãe, irmãos…

             Vários são os pormenores que dão sabor agradável à convivência diária de uma família, e que revelam que ali há verdadeiro carinho entre as pessoas:

             – O sorriso habitual, o bom-humor, que são expressão da paz e ordem interiores;

             – Saber pedir desculpas quando se erra;

             – Evitar dizer as coisas quando se está irritado para não correr o risco de proferir palavras cheias de amargura que ferem, e que depois serão motivos de arrependimentos;

             – Decoração simples e acolhedora (a riqueza é desnecessária);

             – O cuidado material da casa: consertar rapidamente o que está com defeito para que dure;

            – Manter a casa limpa, ordenada, com flores, e utensílios domésticos reluzentes;

             – A ordem nos objetos pessoais;

             – Correção nos vestir, andar sem fazer estrépito;

             – Asseio no corpo, nas roupas e na alma;

             – O jantar diário em horário fixo para cada um controlar o tempo de outros afazes e chegar pontualmente;

             – Fazer as refeições na mesa e não no sofá vendo TV;

             – O bate-papo familiar durante as refeições, sem que a TV seja a protagonista, faz crescer o amor mútuo;

             – A limpeza dos pratos, talheres e guardar tudo nos devidos lugares, após as refeições, é dever de todos os comensais, e não apenas de um deles;

             – Se a criança deseja falar algo, parar o que se está fazendo para ouvi-la com atenção, olhando nos olhos dela;

             – Não deixar que as preocupações pessoais isolem dos demais demonstra verdadeira caridade cristã, e sentido sobrenatural que leva a fazer tudo tendo presente a Deus na própria vida;

             – Lar é disciplinado com horário de dormir e acordar, a fim de facilitar a que todos vivam a ordem e descansem as horas necessárias: não mais que oito horas, nem menos que 7h30;

            – Passeios familiar de meio período nos fins de semana (parques, exposições, museus), ou dia inteiro uma vez por mês (contemplar a natureza, parques temáticos, etc);

            – Ocasião maravilhosa para crescer no amor mútuo são as tertúlias ou bate-papo após as refeições, sentados na sala ou na cozinha, onde cada um ouve com atenção ao que o outro diz, e também conta coisas divertidas ocorridas durante o dia (TV e celulares desligados).

    4 – A mulher sabe tornar o lar amável e atraente

             Todos esses detalhes ajudam enormemente que haja no lar um ambiente sereno e aconchegante, onde todos ansiarão por retornar no final do dia. A mãe é a força que reveste de atração a vida familiar; é a quem possui a sabedoria para atribuir tarefas a cada filho – do menor ao maior –, para que todos aprendam a ser generosos e colaborem com o bem-estar de todos, e não vivam uma vida egoísta e reclusa em seu quarto. A mulher tem especial dom para criar um lar acolhedor, onde tudo funciona bem. Certamente o marido ajuda nessa tarefa, e supõe um reforço à autoridade materna, a fim de que as crianças obedeçam e colaborem sempre.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Nataliya Vaitkevich.

    Nossos boletins são gratuitos e enviados semanalmente aos assinantes, via e-mail, para que possam dar continuidade à formação, que nunca deve terminar. Para receber os boletins inscreva-se aqui.

    Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados: https://t.me/ariesteves_pedagogo

  • A idiotice da frivolidade

    A idiotice da frivolidade

    1 – Memória e imaginação ou lojas de quinquilharias? 2- Aproveitar melhor o tempo: o descanso criativo. 3 – Assumir valores que orientem a vida. 4 – Coerência entre o que se acredita e o que se vive. 5 – O que é frívolo empobrece a alma.

    1 – Memória e imaginação ou lojas de quinquilharias?

             Frívolo significa de pouca importância, inconsistente, inútil, superficial, e quem se ocupa de frivolidades é fútil, leviano. Portanto, idiotice frívola e perigosa nas diferentes idades é permitir que penetre pelos sentidos aquilo que não interessa ou não tem importância. Já abordamos este tema no boletim Inteligência ou depósito de futilidades, mas vale a pena tornar a considerar a necessidade de utilizar bem o tempo para potencializar os talentos pessoais, a fim de melhor servir aos demais. “Nós somos os únicos responsáveis pelas coisas que jogamos dentro de nós. Se não somos totalmente responsáveis, pelo menos temos o controle da grande maioria das coisas que comemos, lemos, assistimos, ouvimos e tocamos. Assim, temos que assumir o controle do que permitimos entrar pelos nossos sentidos. Se não assumirmos esse controle, outras pessoas assumirão, e aí perderemos o domínio de nós próprios”, diz Luiz Marins.

             Os olhos e os ouvidos são os porteiros da alma, e por onde entra o bom ou o vil. Para encontrar o ouro é preciso peneirar o cascalho ou arrancar a ganga. Selecionar os conteúdos na internet leva a priorizar assuntos de maior interesse, seja no campo da orientação familiar, profissional, entretenimento, cultura, artes (literatura, pintura, teatro, escultura, música). Palestras, vídeos, áudios, filmes e artigos estão disponíveis na web, mas é necessário distinguir o brilho falso das lantejoulas, que tornam a vida estéril, para não borboletear nas redes sociais apenas para satisfazer a ânsia de curiosidades, que transforma a memória e a imaginação em loja de bricabraque ou de quinquilharias.

    2- Aproveitar melhor o tempo: o descanso criativo

             O excesso de imagens e informações desencontradas dá a ilusão de se conhecer muitas coisas, mas na realidade fomenta o vazio intelectual porque a inteligência não consegue processar ou encontrar sentido em tantas informações desencontradas. Com isso, a mente se torna preguiçosa, arredia e incapaz de se aprofundar em assuntos que valem a pena, ou manter a atenção em algo que exija esforço.

             Para um descanso criativo, melhor do que gastar seis ou sete horas na semana em redes sociais (cujo efeito é como água que escorre sobre a pedra, sem penetrar), é investir esse tempo, por exemplo, na leitura de um bom livro como “A morte de Ivan Ilyich”, de Tolstói, o “Pequeno Príncipe”, de Saint Exupéry, entre muitos outros, pois são leituras que penetram na alma e a enriquecem, já que os grandes mestres da literatura penetram com profundidade na alma humana, e seus personagens fornecem janelas que permitem a compreensão de si e dos demais. Um verdadeiro leitor não gasta seu tempo limitado rolando telas de celulares e tabletes a procura de frivolidades, nem “lendo mil livros medíocres que embotam seu senso crítico e ferem sua sensibilidade literária” (Nicolás Gómez Dávila).

    3 – Assumir valores que orientem a vida

             Conhecer melhor aquilo que se ama faz parte da natureza humana. Fernando Sarráis, em seu livro Maturidade psicológica, diz que quando se ama algo bom, busca-se conhecer aquilo que é amado, e o amor aumenta mais o desejo desse conhecimento. Assim, podemos afirmar que aquele que perde tempo em curiosidades frívolas não ama senão à própria preguiça ou comodidade, sendo esta a razão pela qual não se interessa por empenhar-se a conhecer algo com maior fundura.

            O ser humano sempre age em vista de valores que assume como importantes, e que passam a orientar suas ações e escolhas. Portanto, os valores agem como critérios ou guias da existência pessoal. Quando esses valores se orientam à verdade e ao bem, enriquecem a personalidade, mas se buscam apenas um entretenimento superficial, a vida não passará de casca que oculta um buraco negro e vazio.

            Ensinam José Angel Lombo e Francesco Russo que cada pessoa se constrói ao buscar valores hierarquicamente estruturados, e de acordo com o que considera importante para sua vida. Os valores não são neutros, nem apenas algo teórico, mas performativo ao envolver a pessoa inteira pela livre adesão a eles. A hierarquia de valores estabelece as preferências pessoais mediante formas de comportamento: por exemplo, se alguém tem como valor a família, o estudo ou a solidariedade, saberá empenhar-se para vivê-los na prática. Um valor que não é assumido vitalmente, fará a pessoa não se interessar por ele, mesmo que o considere de relevo. Os valores assumidos fazem entrar em ressonância não apenas a inteligência, mas também a afetividade (sentimentos, emoções e paixões).

    4 – Coerência entre o que se acredita e o que se vive

             “A autorrealização do homem será plena na medida em que se orienta a valores mais elevados, e não a valores relativos e passageiros: quem assume como valor maior de sua vida a riqueza, o prazer ou o bem-estar, a sua existência será exposta à instabilidade própria desses bens sensíveis. Se, pelo contrário, referir-se a valores estáveis e universais, a sua liberdade se elevará, no sentido de que as potencialidades espirituais se estenderão a objetos que não se exaurem: a amizade, a solidariedade, o amor a Deus, que não têm limite próprios e não são contingentes”, afirmam José Lombo e Francesco Russo.

             Hoje ocorre a perigosa cisão entre a verdade teórica e a verdade prática, entre o que o indivíduo reconhece e considera verdadeiro, e, portanto, um valor, e o reflexo dessa verdade ou valor na conduta pessoal. Se falta essa coerência, essa autenticidade, os valores acabam por parecer indiferentes e sem força para conduzir a ação ou o comportamento pessoal. Ocorre o relativismo dos valores, que deixam de ser universais e passam a ser um joguete pessoal e subjetivo, portanto volátil. E quando não há coerência entre aquilo que se tem por verdadeiro, a conduta humana perde referências e a pessoa deixa de julgar retamente.

    5 – O que é frívolo empobrece a alma

             Cada um é plenamente responsável por selecionar e assumir os valores que considera como verdadeiros, e afastar-se do que é frívolo, faz perder o tempo e empobrece a alma. E como o bem é difusivo, ter o zelo de ajudar os filhos e os amigos a assumirem os valores que enriquecem a alma, e ajudá-los a aproveitar melhor o tempo. Essa responsabilidade inclui a atenção às crianças, que vivem hoje no meio de muitas informações e imagens digitais desnecessárias, e que as tornam passivas, sedentárias, preguiçosas… O que mais necessitam as crianças é da atenção, carinho e do tempo dos pais, além de se aterem às realidade simples ao seu entorno.

    Texto elaborado por Ari Esteves com base nos livros “Antropologia Filosófica”, de José Angel Lombo e Francesco Russo, Editora Cultor de Livros, São Paulo (SP), 2020; “Maturidade Psicológica e Felicidade – A educação da afetividade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros; e “Ética, virtudes, valores”, de Luiz Marins, da Integrare Editora e Livraria Ltda, São Paulo (SP), 2022.

    Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados: https://t.me/ariesteves_pedagogo

  • A superproteção dos filhos

    A superproteção dos filhos

    1 – Não substituir os filhos naquilo que eles podem fazer. 2 – Pôr um fim à obsessão protetiva. 3 – O reinado dos filhos superprotegidos. 4 – Não quero que meu filho passe pelo que passei. 5 – A superproteção cerceia a autonomia da criança. 6 – Atribuir encargos às crianças fomenta autonomia

    1 – Não substituir os filhos naquilo que eles podem fazer

             Há pais e mães inseguros em tornar seus filhos independentes, e acabam substituindo-os em tudo o que estes deveriam fazer sozinhos. São genitores muitas vezes conscientes de que a superproteção é um mal que cerceia a liberdade e despersonaliza os filhos, mas não conseguem se libertar dessa ânsia protetiva porque seus sentimentos gritam mais fortemente que a razão e impedem de se verem livres desse exagerado agasalhar.

             Os filhos não são propriedades dos pais, que devem prepará-los para o mundo, e não para se aninharem sob as asas paternais ou maternais. A criança tem que aprender a ser guerreira, e para isso, é preciso ir soltando a linha para ela subir mais alto! Há mães carentes que esticam o período de baby de um garoto de dez anos, e não o preparam nem para ir ao supermercado da esquina, tomar ônibus para ir à escola no bairro vizinho, caminhar até o parque, jogar bola no clube do bairro. A desculpa para tal comportamento é que poderão ser assaltados, e com isso acorrentam os filhos em permanente infância, agarrados às suas saias, mas não livres dos perigos ainda mais cruéis que o uso sem controle da internet via celulares e tabletes vêm acarretando para o psicológico e à educação dos afetos de crianças e adolescentes.

    2 – Pôr um fim à obsessão protetiva

             Para libertar-se da obsessão protetiva os pais necessitam pensar seriamente nas consequências negativas de viver poupando os filhos dos esforços e sacrifícios que deveriam realizar. Alguns dos efeitos negativos da superproteção são os seguintes:

    • Os filhos perdem a autonomia e a capacidade de resolver as coisas por conta própria, e se tornam emocionalmente fracos e dependentes;
    • Ficam egoístas, centrados em si mesmos e cada vez mais exigentes e ciosos de serem cuidados por todos como um direito que lhes pertencem;
    • Acomodam-se passivamente na postura de esperar que os pais sempre decidam por eles;
    • Tornam-se introvertidos, com vergonha de se expor e com medo de arriscar porque não estão habituados a pensar e agir por conta própria;
    • Ficam moles, passivos, chorões e queixosos diante de qualquer incomodidade ou tarefa que lhes custe esforço realizar;
    • Tornam-se inábeis para o convívio social e passam a ser subservientes de amigos mais lançados e decididos;
    • Convertem-se em mal-agradecidos porque em seu emocional julgam normal toda a atenção que se dá a eles, como príncipes em sua corte;
    • Se tornam fortes candidatos ao TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), porque ao fazer apenas o que gostam – se não gostar os pais agem por eles – são vítimas dos estados de ânimo que os faz mudar constantemente de atividade.

    3 – O reinado dos filhos superprotegidos

             Acostumada a fazer a vontade dos filhos em tudo, a mãe fraca tem medo de corrigir e diz: − Ele joga as coisas e bate em mim, mas com o tempo irá melhorar. Ou − Puxa, por que você fez isso pra mamãe? São frases de mães superprotetores que, desconcertadas, pretendem educar na “peninha”, na compaixão pela mamãe (filhos até cinco anos não percebem o que é compaixão). A mãe age assim porque não tem coragem de dizer com firmeza o que deve ser dito, e acredita que se pode educar na “peninha da mamãe”. A criança entende uma argumentação firme, clara, segura e respeitosa: − Você não devia ter feito isso; agora vá pegar a vassoura e limpe o chão. Ou, Filho, não faça mais isso; se ocorrer de novo ficará toda manhã sem sua bicicleta. A criança entende uma indicação do tipo “não suje porque terá que limpar” e não algo sentimental como: − Ah, não faça isso pra mamãe. Mandar é diferente de pedir. A mãe submissa não comanda o filho porque diz: − Arrume sua cama pra mamãe, vai! (evitou dizer o momento em que deveria fazer). A criança precisa de comandos delicados, mas firmes: − Julinho, arrume sua cama agora.

    4 – Não quero que meu filho passe pelo que passei

             Há pais que passaram por dificuldades na infância e não desejam que seus filhos tenham tais experiências, poupando-os de qualquer sofrimento. É uma boa preocupação desejar que os filhos não provem certas situações como separação dos pais, falta de carinho, violências domésticas, autoritarismos ou permissivíssimos, falta de atenção, etc. Porém, há dificuldades necessárias e educativas que fortalecerem o caráter e a vontade: cumprir encargos familiares, resolver sozinhos seus problemas na escola, não ter tudo de bate-pronto, não criar falsas necessidades, andar curto de dinheiro para não acostumar-se com caprichos…

             A tolerância à frustração também é um aspecto relevante a ser desenvolvido na criança, pois a levará a não desmoronar diante dos pequenos e inevitáveis fracassos que terá que suportar, seja na infância ou na adolescência. Aprender a ser resiliente ao tentar uma e outra vez é meta a ser alcançada pelas crianças, com os pais incentivando animadamente a recomeçar, mas retirando-se discretamente e a tempo de que a criança julgue que foi ela mesma quem conseguiu o feito. Um outro aspecto é fazer a criança acostumar-se a receber um “não” diante de pretensões inoportunas, sem achar que o mundo desabe sobre a cabeça dela. Trata-se de uma luta que os pais precisam enfrentar, sem temer o show de um berreiro no shopping ou supermercado, pois será o modo de ensinar a criança a ter capacidade de suportar situações adversas.

             As frustrações são necessárias para que a criança desenvolva tolerância às contrariedades, como acontece com todas as pessoas. Fazê-la crescer entre as almofadas e algodões da superproteção, despersonaliza e a torna frágil frente os inevitáveis reveses que a vida traz, seja na infância ou na adolescência. A frustração começa desde o berço quando o bebê não é atendido naquilo que deve esperar, pois as mães sabem quando um choro é motivado por alguma necessidade (alimentação, asseio, frio ou calor, doença…) ou por um capricho que pode aguardar, como não pegá-lo no colo ou não acender a luz do quarto de madrugada, a fim de que ele perceba que a noite é para dormir (a luz artificial não permite distinguir o dia da noite).

    5 – A superproteção cerceia a autonomia da criança

             A superproteção impede a autonomia da criança, e pode ser praticada até mesmo sem que os pais se deem conta disso. Por exemplo, impacientes e com a desculpa de que não têm tempo para esperar – e porque farão mais rápido e melhor –, os pais por vezes se adiantam a realizar o que a criança poderia fazer sozinha, porém em menor velocidade ou destreza, que virá com o tempo, para se vestir sozinha, preparar seu lanche e arrumar seus apetrechos escolares ou fazer a cama ao acordar. Crianças de pais impacientes não sabem cortar o próprio bife no refeitório da escola, nem amarrar o tênis na aula de educação física…

    A autonomia deve ser fomentada ainda quando os filhos são crianças: se o garoto trocou os sapatos de pés e indaga se estão corretos, não responda, mas pergunte sobre o que ele acha. Se houver um desentendimento com um amigo da escola, dialogue sobre que meios ele deverá ele empregar para resolver a situação.

    6 – Atribuir encargos às crianças fomenta autonomia

             Responsabilizar os filhos para realizar tarefas no lar fortalece a vontade deles para cumprir outras obrigações, torna-se um treino para que enfrentem ideais mais custosos, além de os fazer pensar nos demais e não apenas em si próprios. Para evitar a superproteção e fomentar a autonomia das crianças, é importante que os filhos − do menor ao maior − tenham encargos no lar, adaptados à idade e à capacidades de cada um. Mas, seja por impaciência ou para evitar desconfortos ao filho, ou até porque não confia na capacidade dele, a mãe superprotetora não atribui encargos e vive dizendo: − Aí, vai quebrar o copo e se cortar; deixa que eu guardo. Ou – Eu levo a mochila pra você não cair. – Tadinho, a professora passou muita lição de casa! Ou – Cadeira malvada, por que você machucou o pé do meu filhinho?, e a mãe dá palmadas na cadeira como se o móvel fosse culpado pela imprudência da criança.

             As crianças colaboraram com alegria nas tarefas apropriadas à sua idade, e apreciam contribuir para a boa organização do lar. Sem esses encargos elas se tornam egoístas e interessadas apenas em suas coisas. Por isso, não se deve impedir nem substituir a criança pequena de cumprir qualquer tarefa que tenha capacidade de fazê-la, mesmo que no começo não faça com perfeição e exija paciente e bem-humorado treinamento. Com isso, ela ganhará autodomínio, independência, espírito de serviço e preocupação pelos demais. Crescer em autonomia é crescer em liberdade, e isso acontece quando os pais só intervêm quando é realmente necessário. É preciso confiar na capacidade dos filhos resolverem seus problemas, e perguntar sempre a opinião deles sobre o que pretendem fazer − se acham certo ou errado −, e dar chances para que reflitam sobre suas ações. Esse é o caminho para o amadurecimento de uma personalidade sadia. Veja neste link diversos vídeos onde mães oferecem dicas preciosas de tarefas que podem ser atribuídas aos filhos desde criança.

             Ao fomentar o sentido de responsabilidade e educar os filhos para que sejam movidos pelo amor e pelo espírito de serviço aos demais, os filhos cresçam em autonomia, ganham virtudes e amadureçam humana e espiritualmente.

    Texto escrito por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Oleksandr Pidvalnyi

    Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados: https://t.me/ariesteves_pedagogo

  • Para os filhos serem maravilhosos

    Para os filhos serem maravilhosos

       

             Os pais sempre sonham que seus filhos cheguem a ser adultos maravilhosos. Para isso acontecer é necessário que eles sejam antes crianças, adolescentes e jovens maravilhosos, e não plastificados pela cultura de massa que os transforma em produção em série, sem espírito crítico, indolentes, preguiçosos e que vão aonde todos vão: mesmos shoppings, mesmas comidas industrializadas e games da moda, mesmas redes sociais e roupas, mesmos planos de diversão…

             Seguem dicas de pais e mães que tornaram seus filhos maravilhosos:

    • Assumam os valores que acreditam. Os filhos devem ouvir e testemunhar com frequência os valores que seus pais adotam na vida, aos quais não abrem mão: não falam mal de ninguém, são honestos e não tiram sequer uma uva do supermercado ou um clip da empresa onde trabalham, nunca mentem ou falseiam a realidade, quando erram sabem pedir perdão ao filho, são laboriosos e aproveitam bem o tempo nos fins de semana;
    • Não temam dizer “não”. Não se importem que o filho se chateie, nem temam perder a estima dele ao dizer, por exemplo, para não ir a determinadas festas ou programas com a turma, pois mais adiante compreenderá os motivos e agradecerá a vocês. Não temam corrigi-lo ao notar algum comportamento errado, a fim de não ser cúmplices dos desvios de conduta. A autoridade e a estima não se perdem quando se está na verdade e se busca um bem maior aos filhos, que assim também compreenderão que quem manda no lar são os pais, que devem ser objeto de respeito e obediência;
    • Não dar tudo o que pede. Evitar dar à criança todos os brinquedos que pedir, a fim de que aprenda a esperar por uma ocasião especial, e para que compreenda que dinheiro não dá em árvores. Dar tudo com facilidade à criança (dinheiro, viagens, passeios, aparelhos eletrônicos, roupas de grife) a fará acostumar-se a satisfazer seus sentimentos e caprichos e nunca saberá suportar as contrariedades, nem enfrentará o que custa, como por exemplo, o estudo, fazer esforços pelo bem dos demais. O filho não deve o reizinho paparicado que impera e julga que todos devem servi-lo;
    • Não temer o esforço. Animar o filho a não temer o esforço para conquistar algo que vale a pena, pois só assim crescerá em virtudes humanas: só deslumbra um belo panorama quem se esforçou para subir ao topo da montanha;
    • Fugir da superproteção. Ensinem a criança a ser autônoma e não ficar dependente de que os demais façam as coisas por ela. A superproteção deforma o caráter da criança porque a substitui em tudo aquilo que ela poderia fazer: ensine-a a que sozinha amarre os próprios sapatos, vista-se, deixe a mesa posta para as refeições, ordene o próprio quarto… Fazer tudo por ela facilitará que seja egoísta ao se preocupar apenas com suas coisas, e será escrava do que agrada ou afaga seus sentimentos;
    • Saber exigir. Se a criança bagunçou ou sujou, ensine-a a ordenar ou limpar; que aprenda a guardar suas roupas nas gavetas, os brinquedos nas caixas e que ajude a manter a casa em ordem atribuindo a ela algumas tarefas diárias;
    • Ouvir a criança com paciência. Cessem tudo o que estejam fazendo e ouçam as pequenas queixas e explicações da criança, a fim de que ela se sinta valorizada e compreendida, e sempre venha contar as coisas aos pais, pois sabe que será ouvida atenção e carinho;
    • Estimule a imaginação da criança. Não deixe a poderosa imaginação e a curiosidade natural de seu filho ser sufocada por tantas imagens digitais e informações inúteis obtidas nas redes sociais; anime-o a não ficar dependente de imagens digitais ao habituá-lo a ler livros de literatura, praticar jogos de inteligência e de memória (xadrez, dominó, quebra-cabeça, caça-palavras, paciência, sudoku, jogo das diferenças…), fazer esporte, visitar museus e exposições científicas e de arte, selecionar filmes e vídeos com bons conteúdos, entre outras iniciativas;
    • Introduza a criança no mundo real. Insira aos poucos a criança no mundo real: quando for a um velório, leve-a para saber que a vida tem princípio e fim; visite com ela algum orfanato ou asilo para fazer felizes as pessoas que sofrem (levem um doce ou algum brinquedo em bom estado, mas que seu filho já não utiliza);
    • Transmitir a fé. Ensine a criança a rezar e a ter fé em Deus, pois uma esperança somente humana não tem sentido, já que tudo nesta vida tem um fim. A fé é o maior bem que os pais deixam para os filhos;
    • Ser agradecido. Um bem que transforma o coração é o agradecimento. O filho precisa aprender a agradecer tudo que fazem por ele, pois a ingratidão é irmã da soberba. Não sabe agradecer aquele que não reconhece o esforço dos demais e porque julga que todos devem servi-lo;
    • A virtude do desprendimento. Tem mais aquele que precisa de menos. Os invejosos e os gananciosos sempre querem mais e por isso nunca estão felizes. A virtude do desprendimento ou da pobreza é um bem espiritual que ajuda que afastar-se de tantas frivolidades, apegos e bombardeio da publicidade para que se adquira mais e mais produtos. Ensine o seu filho não ser vítima ou escravo das modas;
    • Sejam pacientes. Fujam das explosões raivosas com as crianças, pois fazem dizer coisas que magoam e são difíceis de se esquecer, prejudicando a confiança: não gritem nem deem palmadas nos filhos como resultado de descontrole e impulsividade;
    • Pais alegres e bem-humorados. Os pais que estão sempre alegres e de bom humor, apesar das dificuldades do dia a dia, transformam o lar em ambiente luminoso, onde todos anseiam por regressar no final do dia. Ao ter presente que tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, e que os problemas são de ordinária administração, é mais fácil enfrentar as dificuldades com um sorriso;
    • Pais não reclamões. Reclamar a todo instante do frio ou calor, do cansaço, de algo que deu errado, de uma pequena enxaqueca ou dor, blá, blá, blá…. revela que os pais são fracos e pouco resilientes e sem capacidade para suportar contrariedades: tudo isso passara como osmose para o filho;
    • Um filho não pode esfriar o amor entre o casal. Não deixar que a criança esfrie o amor entre marido e mulher, pois se isso acontecer, além do casal, a criança também será prejudicada: certo adolescente perguntou à mãe, se ela gostava mais dele ou do pai, e a resposta foi: primeiro do seu pai, e depois de você. Ao fazer a mesma pergunta ao pai, obteve a mesma resposta: primeiro de sua mãe e depois de você. A criança ficou um pouco desconcertada com tais respostas. Porém, ao entrar na adolescência viu com tristeza que seus pais deixaram esfriar o amor mútuo e se separaram. Então, o garoto, agora sozinho, compreendeu como era importante que eles continuassem a se amar primeiramente. Erra a mãe que substitui o marido pelo filho ou filha, e erra o marido que substitui a esposa pelo filho ou filha. A segurança de uma família está no amor entre marido e esposa.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de August de Richelieu.

    Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados: https://t.me/ariesteves_pedagogo

  • Trabalho e família: como conciliar?

    Trabalho e família: como conciliar?

    1 – Vida familiar e profissional. 2 – O remorso por trocar a família pelo trabalho. 3 – A família é o “melhor negócio. 4 – Hierarquizar as tarefas profissionais e familiares. 5 – Para aproveitar melhor o tempo. 6 – Destinar um tempo para a oração.

    1 – Vida familiar e profissional

        O trabalho está presente em todas as esferas da vida humana, pois o homem foi criado para trabalhar a fim de sustentar a si e aos seus e contribuir para com o progresso e o bem-estar da sociedade humana. Conciliar vida laboral e familiar surge como um fenômeno novo e complexo ocasionado, afirma-se, pela incorporação da mulher ao mercado de trabalho, fazendo mudar a dinâmica tranquila onde imperava uma clara divisão de tarefas: o âmbito doméstico era mais próprio da mulher e o do trabalho externo pertencia ao homem.

        Se a mulher conquistou espaço para se realizar humana e profissionalmente, não significa que perdeu suas qualidades femininas e a forte inclinação natural para a família e a maternidade, que as realiza imensamente. João Paulo II diz “Por um lado, de fato, existe uma consciência mais viva da liberdade pessoal e uma maior atenção à qualidade das relações interpessoais no matrimonio, à promoção da dignidade da mulher, à procriação responsável, à educação dos filhos; há, além disso, a consciência da necessidade de que se desenvolvam relações entre as famílias por uma ajuda recíproca espiritual e material, a descoberta de novo da missão eclesial própria da família e da sua responsabilidade na construção de uma sociedade mais justa” (Exortação Apostólica Familiaris Consortio, n. 6,)

    2 – O remorso por trocar a família pelo trabalho

        Muitos casais que se ausentam do lar para provê-lo afirmam que a tarefa profissional impede dar atenção ao outro cônjuge, filhos e aos cuidados da casa. Entretanto, hoje já não tem sentido manter a oposição entre trabalho e família, pois os atuais recursos tecnológicos multiplicaram exponencialmente as opções profissionais e as condições de trabalho, permitindo encontrar um ofício ou profissão de acordo com as aptidões pessoais, de modo que se possa trabalhar mais próximo da família.

        Porém, pode-se introduzir no trabalho profissional o orgulho ou a vaidade que levam a locupletar-se dos dons recebidos gratuitamente de Deus para melhor servir aos demais, a fim de se ter como um deus e rejeitar as tarefas que não têm brilho, como as de levar adiante a família. Trata-se de um erro desprezar as tarefas simples e sem brilho externo – mas não sem importância – como são as que pertencem à esfera familiar, para deixar-se enganar pelas que oferecem o falso brilho dos holofotes sociais. É vasto o testemunho de homens e mulheres que falharam como pais e esposos porque trocaram a família pelo trabalho, afirmando que “trabalhavam para a família”, mas na verdade buscavam a si próprios: a honra vaidosa, o status pelo status, dinheiro e poder. O sucesso que alcançaram na carreira profissional não os livrou do remorso de verem destruídas a vida familiar e o descaminho dos filhos: ficou-lhes o inapagável ressaibo de tristeza e ausência da verdadeira felicidade ao traírem as pessoas que mais dependiam deles.

        O Papa Francisco afirmou que “A família é um grande teste. Quando a organização do trabalho a mantém refém, ou até lhe impede o caminho, então estamos certos de que a sociedade humana começou a agir contra si mesma. É preciso dar unidade a essas esferas, fixar objetivos mais altos, como realizá-las por amor a Deus, em primeiro lugar, pois derivam da condição de ser pais, cônjuges, amigos, companheiros, etc.” (Audiência geral de 19-08-2015).

    3 – A família é o “melhor negócio”

        Se “a família é o melhor “negócio” de cada pessoa, como afirmam muitos estudos e pensadores, não há razão para permitir que colidam as esferas profissional e doméstica, mas devem ser integradas: o âmbito familiar necessita da atividade profissional para sobreviver com dignidade, e a vida profissional encontra seu sentido e finalidade na perspectiva de servir a família. Assim, se pode aplicar à gestão do lar o método de trabalho das empresas: fixar metas de disciplina familiar, utilizar estratégias para que a esfera profissional não invada a familiar, distribuir as tarefas para que os trabalhos domésticos sejam realizados também pelos filhos e não apenas pelos pais (todos devem contribuir para com a ordem e harmonia da casa), participar de cursos de orientação familiar para melhor integrar os âmbitos profissional e familiar. As empresas inteligentes colaboram com muitas iniciativas para que seus funcionários tenham uma sadia vida familiar, pois assim trabalham melhor.

        Cada família tem seu próprio projeto existencial, mas sempre destacando a importância da mulher na vida familiar. Se uma mulher decide dedicar-se ao cuidado do lar sua opção é legítima, e de fato muitas mães optam pelo cuidado exclusivo do lar, conduzindo essa atividade com mentalidade profissional. Já as mulheres que decidem conciliar a vida familiar com o trabalho profissional devem ter presente que o mais importante para elas é a família, pois na empresa é facilmente substituída, mas no lar nunca será.

    4 – Hierarquizar as tarefas profissionais e familiares

        Para conciliar vida familiar e profissional é necessário a virtude da ordem para que as tarefas de cada esfera não invadam o espaço da outra. Os múltiplos afazeres de cada esfera (familiar e profissional) devem ser hierarquizados de acordo com o seu valor. Não errará no estabelecimento das prioridades diárias quem hierarquizar suas obrigações da seguinte forma: Deus, os outros e eu. Se considerarmos cada esfera como uma caixa que possa ser introduzida harmoniosamente dentro da outra, teremos a seguinte ordem com seus respectivos deveres: a primeira e grande caixa é a de Deu; depois, introduzida (ou encaixada!) nessa primeira vem a caixa da família, seguida pela do trabalho profissional, e por último pela caixa das demais relações. Hierarquizar essas esferas é colocar em primeiro lugar os deveres para com Deus, depois os deveres para com a família, seguido depois pelos deveres da caixa do trabalho profissional e pelas obrigações das demais relações. Se, ao contrário, alguém prioriza a caixa do trabalho, ficam de fora a de Deus e a da família; se prioriza a caixa das relações sociais, por exemplo, ao ir todos os fins de semana jogar futebol com os amigos, poderão ficar de fora todas as demais caixas, rompendo a harmonia das engrenagens e causando distúrbios e dramas na vida de todos os envolvidos. Manter as esferas dentro de uma ordem dá paz e segurança para agir corretamente, sabendo o que se deve fazer em cada momento.

    5 – Para aproveitar melhor o tempo

        O equilíbrio adequado entre trabalho profissional e vida familiar exige aproveitar bem o tempo e colocar os cinco sentidos naquilo que se está fazendo – “Faz o que deves e está no que fazes” (Caminho, n. 815) –, a fim de dedicar a cada tarefa o prazo exato, nem mais nem menos, para não correr o risco de atrasar-se e invadir atribuições da outra esfera (familiar ou profissional). Fixar a hora de iniciar e concluir o trabalho profissional a cada dia, para retornar ao lar na hora certa, tendo sagrada a convivência com a esposa e filhos, exige que se trabalhe na empresa com intensidade para não atrasar as tarefas, evitando-se para isso paradas para cafezinhos, conversas desnecessárias, consulta às redes sociais… Ao especificar o dia e a hora de cada tarefa, na sua correspondente esfera, não haverá atropelos, pois não será necessário se deixar levar pela improvisação, já que o mais importante de cada esfera terá sido atendido, mesmo que para o dia seguinte fiquem algumas tarefas para serem realizadas, que certamente não serão as mais importantes.

        Uma vida familiar saudável requer que o uso do tempo seja feito com qualidade. Em casa, evitar atividades isoladas, como pôr-se diante da TV e ficar procurando algo para assistir, pois isso indica falta de organização pessoal e acomodar-se ao mais fácil e não ao mais importante. Ter presente que o curto tempo que se passa com a família deve ser bem aproveitado para dialogar com a esposa e filhos. Fazer atividades conjuntamente para descansar e os pequenos encargos do lar enriquecem e reforçam os vínculos familiares.

    6 – Destinar um tempo para a oração

        Dor e cansaço estarão sempre presentes no trabalho bem realizado, seja ele profissional ou familiar, e isso é o que adorna a pessoa de muitas virtudes e forja o caráter e a personalidade. Consegue enfrentar com alegria e otimismo o trabalho profissional e o cuidado da família quem fixa um tempo diário de 10 a 15 minutos, antes de sair para o trabalho, para falar com Deus, tal como um filho ou filha conversa descontraidamente com seu pai. Quanto mais complicado de tempo e mais responsabilidades possui uma pessoa, mais necessita ela dessa conversa filial com Deus para obter luzes e forças e não se sentir sozinha na luta diária para conciliar família e trabalho.

    Texto produzido por Ari Esteves, e inspirado no artigo “Trabalho e família: diretrizes para conciliar” de Rosalía Baena em www.opusdei.org/pt-br. Imagem de Ketut Subiyanto 

    Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados: https://t.me/ariesteves_pedagogo