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  • Ler em família

    Ler em família

             A família é o ambiente de convívio mais grato para uma criança, pois ali é criada, amada e onde começa sua educação para os valores, socialização e inserção no mundo dos livros. O gosto pelos livros e o hábito de ler se iniciam quando os pais criam no lar um ambiente de incentivo à leitura não por imposição, mas pelo prazer e estímulo à curiosidade e à fantasia desde as primeiras idades, principalmente ao começar a despertar na criança o desejo de novas descobertas por meio das incansáveis perguntas acerca de tudo ao seu redor.

             Os pais incentivam o hábito de leitura ao promover estratégias no âmbito familiar: contação de histórias, momentos e espaços de leituras, criação de jogos com os nomes das histórias, animar as crianças a narrarem ou encenarem os contos que mais gostaram, montar uma minibiblioteca, visitar livrarias e espaços culturais. Assim, os livros passam a fazer parte da vida da criança.

             Para ganhar fascínio pelas histórias e se tornar leitora, a criança precisa ser motivada a conviver com livros de ficção, pois trazem um mundo de aventuras e atrativos que divertem e enriquecem o imaginário com novas experiências, além de prevenir as crianças sobre o bem e do mal que certamente se apresentarão na vida real. O ato de ler – mesmo quando realizado por um irmão ou pelos pais – abre novos horizontes na vida da criança e a distancia do vício das telas digitais, que a tornaria preguiçosa, passiva e pouco criativa. Veja neste link diversas obras literárias relacionadas por idade.

             Quando praticada habitualmente, a leitura proporciona muitos benefícios à criança: desenvolvimento mental, afetivo e emocional; amplia o vocabulário e a expressividade; torna-se fonte inestimável de crescimento intelectual ao dar à criança maior capacidade de concentração e compreensão dos assuntos, além de enriquecer culturalmente.

  • As crianças são dominadas pelos sentimentos, emoções e paixões

    As crianças são dominadas pelos sentimentos, emoções e paixões

             Ajudar a criança a compreender os motivos de suas ações facilita-lhe o esforço para agir bem e se sentir feliz com isso. A racionalidade ainda não se desenvolveu plenamente na criança, e por isso age motivada pela afetividade (sentimentos, emoções, paixões). Cabe aos pais fazerem o papel da razão e da vontade dela por meio de explicações claras e acessíveis ou servindo-se de pequenas medidas corretivas. Assim, aos poucos ela passa a compreender como deve se comportar, as consequências de seus atos, ganha hábitos que esclarecerem a inteligência em desenvolvimento e fortalece a vontade para não se deixar dominar pelos afetos. A infância é o período mais propício para aprender a equilibrar a afetividade e não se conduzir apenas pelos sentimentos. A educação dos afetos na adolescência e juventude é bem mais difícil. Educar a afetividade não significa reprimi-la, mas integrá-la à razão e à vontade.

             Na sociedade atual, valoriza-se excessivamente o êxito exterior — riqueza, fama e poder — e subestima-se o êxito interior, essencial para a verdadeira felicidade. A educação, influenciada por muitos pais e professores, foca sobretudo em resultados académicos, competências técnicas e sucesso profissional, negligenciando o desenvolvimento emocional e humano. Falta, nos programas educativos, uma formação que ajude crianças e jovens a lidar com medos, inseguranças, impulsividade e emoções negativas como ira, inveja e ciúmes, promovendo maturidade, autocontrole e resiliência.

             Muitas crianças sonham com a profissão que terão, mas desconhecem que tipo de pessoa devem tornar-se, pois a educação valoriza apenas conquistas externas. Os êxitos exteriores não se sustentam se a personalidade for malformada. O ser humano nasce imperfeito e tem como tarefa desenvolver plenamente as suas capacidades, especialmente inteligência e vontade, procurando conhecer e amar o bem e a verdade, e educar seus afetos para que se inclinem ao bem proposto pela inteligência. Cada ação influencia o mundo e molda o caráter: boas ações beneficiam o indivíduo e a sociedade; e as más ações prejudicam ambos. A educação deve ensinar a distinguir o bem do mal, refletir antes de agir para escolher as melhores atitudes.

             A maturidade psicológica resulta da harmonia entre afetividade (coração), inteligência e vontade (cabeça), com a primeira apoiando as faculdades superiores. Esta harmonia deve ser construída desde cedo, através de atos guiados pela razão. Os educadores devem ajudar as crianças a refletir sobre os próprios sentimentos, avaliando se estes são adequados e se as ações foram corretas. Esse exercício fortalece a vontade e ajuda a controlar a influência das emoções. Com prática e orientação, é possível alcançar a harmonia hierárquica entre razão, vontade e afetividade, surgindo assim as qualidades da maturidade.

             A educação para a maturidade psicológica visa desenvolver todas as faculdades — inteligência, vontade, afetividade, imaginação, memória e percepção — e harmonizá-las sob a liderança da razão e da vontade. A formação da razão implica refletir antes e depois de agir, analisando causas e consequências, o que conduz ao autoconhecimento e à melhoria contínua. Quanto mais cedo esse hábito for adquirido, mais firme se torna, funcionando como um “piloto automático” para agir corretamente.

             Educar a vontade para dominar a afetividade significa motivar para realizar o que é correto, mesmo que seja difícil ou desagradável no momento. Durante a infância e adolescência, a afetividade é mais forte, levando à busca de prazer imediato fomentado pelo gosto ou sentimentos, por exemplo, comer doces o dia inteiro, ficar nas telas digitais o tempo todo e não cumprir suas tarefas… O objetivo é alinhar afetividade com a razão e vontade, para que o prazer venha ao fazer o que é certo. Mesmo quando se treina a vontade com objetivos superficiais, como o esporte, ou por meio de pequenas tarefas, como cumprir os encargos familiares, esses esforços fortalecem a criança para desafios maiores, como superar medos, inseguranças e preguiças, resultados de deixar-se levar apenas pelos sentimentos.

             O pensamento, a imaginação, a memória, a percepção e a afetividade, junto com a vontade, formam as funções psíquicas humanas. Quanto mais orientadas pela razão, mais contribuem para a felicidade. Porém, guiadas sobretudo pela afetividade, geram conflitos. Coordenar estas funções exige treino psicológico, apoio e motivação constantes para não se deixar levar apenas pelo prazenteiro ou agradável. Os pais devem estar atentos para suprir o que a educação escolar atual não consegue fazer.

  • Para uma cultura de diálogo

    Para uma cultura de diálogo

             Dialogar é praticar a arte de se aproximar do outro. Diante dos desafios que a convivência multicultural traz à sociedade contemporânea, segundo Jutta Burggraf1, se faz necessário o diálogo para superar conflitos, preconceitos e violências que surgem das diferenças de mentalidades, culturas, opiniões e formas de viver. Para a cultura do diálogo não basta tolerar, mas é preciso ouvir, compreender e conversar para transmitir as próprias ideias de forma serena e respeitosa. Não se trata de anular as diferenças, mas de valorizá-las como fontes de enriquecimento mútuo. O diálogo não é um debate para vencer, mas uma caminhada em comum rumo à verdade. Nesse caminho, todos aprendem e crescem. No final, não haverá vencidos nem vencedores, mas pessoas convencidas pela verdade.

             Adotar uma postura crítica e seletiva em relação aos meios de comunicação é necessário para que o excesso de informação não confunda e aliene. A convivência harmoniosa na sociedade multicultural só é possível pela cultura de diálogo, que se baseia na escuta, no pensamento crítico e na coragem de viver de forma consciente. Trata-se de um apelo à responsabilidade pessoal e coletiva neste mundo cada vez mais fragmentado e marcado pela diversidade cultural e constante mudança.

             A influência invisível da opinião pública molda os pensamentos e impõe uma uniformização das opiniões. Com isso, deixa-se de fazer uma apreciação própria sobre os assuntos para seguir o que muitos dizem. É salutar redescobrir o valor do silêncio, da reflexão individual e do contato direto com a realidade. Não permitir que o cansaço físico e mental, aliado ao ritmo frenético da vida moderna, impeça a reflexão profunda porque parece ser mais atrativo refugiar-se nas telas digitais para se afastar do contato humano direto que propicia o diálogo aberto e o olho no olho.

             Para criar a cultura do diálogo, algumas medidas são necessárias:

             1-Adaptar-se à realidade atual. Em vez de resistir às transformações sociais e culturais com nostalgia ou medo, viver o presente com abertura e autenticidade. Reconhecer que a história avança e que a identidade humana se constrói no diálogo com o mundo atual.

             2-O diálogo mais do que falar exige empatia, escuta ativa, amizade e autenticidade. Quem está em paz consigo mesmo encontra sua identidade e não teme acolher a opinião do outro. Esse respeito mútuo fomenta a verdadeira comunicação, mesmo entre pessoas com convicções ou opiniões diferentes.

             3- Abrir-se ao mundo, pois todos têm algo a ensinar, mesmo que as opiniões nos pareçam erradas, pois nelas pode se esconder de alguma parte da verdade. O encontro com culturas diferentes enriquece a nossa própria visão do mundo, como acontece com os que regressam do estrangeiro, que retornam com “olhos novos”.

             4. Compreender o outro exige mais do que informar-se, mas amar e ter simpatia para que da convivência nasça a cooperação real. Exemplo: os preconceitos históricos entre católicos e evangélicos na Alemanha só foram superados quando conviveram em situações-limite, como nos campos de concentração, onde todos se reconheceram como irmãos.

             5-Respeitar é mais do que tolerar: é aceitar as diferenças como valor enriquecedor e reconhecer a liberdade do outro para viver segundo a sua consciência. Certo rei polonês afirmou “não sou rei das vossas consciências”, o que revela que o respeito profundo é base para qualquer convivência justa. Tomás de Aquino, na Suma Teológica, expõe com elegância intelectual e imparcialidade os argumentos contrários aos dele.

             O verdadeiro diálogo é um exercício de humanidade, pois implica reconhecer a dignidade do outro, escutá-lo com o coração aberto para construir pontes entre mentalidades diferentes. Não se trata de anular as diferenças, mas de valorizá-las como fontes de enriquecimento mútuo.

             O papel transformador do diálogo é caminho de autenticidade, crescimento e paz. Jutta Burgraff nos desafia a comunicar a verdade com delicadeza, reconhecendo o outro como interlocutor digno e não como adversário.

             Condições para o diálogo verdadeiro:

             1-Dar a conhecer a própria identidade com transparência fomenta o verdadeiro diálogo, que não esconde o que se pensa para evitar conflitos, já que tal atitude conduz a uma falsa e superficial harmonia. A comunicação genuína, sincera e respeitosa, fortalece as relações: quanto mais fiel for cada pessoa à sua consciência, mais autêntica será a unidade que nasce da verdade partilhada. Ser fiel às próprias convicções não exclui a convivência, pelo contrário, faz crescer o respeito mútuo.

             2-Dialogar é dar e receber, é escutar com atenção e abertura, é reconhecer que o outro pode trazer uma perspectiva válida. O diálogo não é um debate para vencer, mas uma caminhada em comum rumo à verdade. Neste caminho, todos aprendem e crescem.

             3- Distinguir entre o essencial e o acidental. É importante diferenciar o que é fundamental e inegociável na nossa identidade, daquilo que é opinável ou relativo. Segundo Newman e Kierkegaard, absolutizar o relativo é sinal de rigidez e mediocridade espiritual. Saber discernir o essencial e o acidental é essencial para um diálogo maduro e produtivo.

             4-Humildade e abertura à verdade. Agostinho de Hipona dizia que ninguém deve afirmar que já encontrou plenamente a verdade. Devemos buscá-la juntos, com humildade e caridade. Esta atitude impede o orgulho e favorece uma escuta autêntica. No final, não haverá vencidos nem vencedores, mas pessoas convencidas pela verdade.

             5- Dialogar é caminho para a paz e maturidade; é praticar a arte de se aproximar do outro, mesmo quando surgem mal-entendidos ou desilusões. Dialogar ajuda vencer barreiras, acolher a diversidade como riqueza e crescer em humanidade. Por isso, é urgente educar para o diálogo, desde cedo, seja nas famílias, escolas, nos ambientes de trabalho e na sociedade. Encorajar o diálogo intergeracional, por exemplo, entre pais e filhos, em torno dos conteúdos consumidos, promove o uso ativo e consciente das telas digitais e da internet, em vez de os rejeitar por completo.

  • Beleza corporal e beleza interior

    Beleza corporal e beleza interior

             A aparência corporal é buscada na sociedade atual como sinônimo de bem-aventurança. O corpo se tornou protagonista principal da bem-aventurança: a beleza física, a saúde e a plenitude corpórea obtida com exercícios regulares, o prazer dos sentidos, a comodidade, o relaxamento, o conforto e o bem-estar do corpo fazem crescer demasiadamente o sistema físico e atrofiar o valor do desenvolvimento psicológico na busca da felicidade, ensina Fernando Sarráis, psiquiatra1.

             A falta de desenvolvimento psicológico aumentou no Ocidente, o que fez crescer o número de pessoas imaturas (neuróticas, em linguagem técnica), propensas a sofrer de enfermidades mentais, a ter mais conflitos no âmbito familiar, profissional e social, e a sofrer com vícios motivados pela busca de maior prazer, sempre confundindo isso com a busca da felicidade.

             O número de pessoas imaturas vem aumentando, pois a demanda pelo desenvolvimento corporal, as horas gastas para melhorar o visual a ser postado nas redes sociais, a falta de outros valores buscados nas boas obras literárias e religiosas, fizeram diminuir o número de pessoas com a formação adequada para incentivarem crianças, adolescentes e jovens a seguir por caminhos seguros e verdadeiros.

             À medida que cresce o número de indivíduos obcecados pelo desenvolvimento corporal perfeito, aumenta o descuido pelo equilíbrio interior devido ao enfraquecimento de duas habilidades importantes para o ser humano: a capacidade de introspecção e o domínio das funções psíquicas (percepção, imaginação, memória, pensamento e afetividade).

             A capacidade de introspecção é a habilidade de entrar em si para avaliar os estados interiores, identificar o que é necessário para construir uma personalidade rica e sadia e não ficar à mercê da opinião alheia. Já o domínio das funções psíquicas revela-se na capacidade de não depender dos estados de ânimo (sentimentos, emoções e paixões) para agir, mas sim motivados pela clareza da inteligência e determinação da vontade.

             A sociedade atual exagera a importância do êxito exterior: status social, poder, fama e riqueza material independentemente de como foi obtida, porque entende que a felicidade vem de fora, dos resultados que se obtém no mundo exterior, de quantos likes somou nas redes sociais. Com isso, sabe-se o modo de se vestir, o look do penteado, o que comer ou como se divertir, que esporte praticar, mas cega-se para o encontro com a felicidade que está em servir, em dar amor aos demais, quais as características psicológicas são necessárias para desenvolver uma personalidade rica.

             A beleza exterior resolve-se facilmente com um bom penteado, roupa, perfume e pouco mais, sendo fácil avaliá-la. Porém, a beleza interior, por ser mais valiosa, exige um pouco mais de empenho, mas oferece muito mais: torna a pessoa resiliente diante dos obstáculos, dá força para ser fiel aos compromissos, não troca sua honradez por ganhos fáceis, ama o bem e a verdade assumidos em valores ou modelos perenes da conduta, não se deixa influenciar pela opinião dos demais nas redes sociais (mal que tem levado adolescentes mulheres a estados depressivos e de ansiedade).

             Nota-se atualmente que pais e professores fomentam motivações externas ao exigir apenas que as crianças se destaquem socialmente nas boas notas escolares, dominem outro idioma, sejam esportistas de elite e se encaminhem para uma carreira que dê muito dinheiro. Seria mais sábio que as ajudassem a superar medos, vergonhas, timidezes, hipersensibilidades emocionais, condutas egoístas voltadas apenas ao que gostam e não ao que devem fazer. Por mais que tenham bom desempenho nos aspectos externos, se não tiverem valores interiores se tornarão dependentes, inconstantes, manipuláveis pelos meios de comunicação, imaturas frente às dificuldades da vida, ansiosas, incapacitadas para controlar emoções negativas (ódio, raiva, ira, preguiças, gula, inveja, ciúme) e desajustadas para trabalhos em equipe e a convivência social.

             Muitos adolescentes sabem o que querem ser ao crescer, mas não têm ideia de como gostariam de ser do ponto de vista de caráter e personalidade, pois desconhecem valores a assumir, já que seus educadores não os fizeram compreender a importância da beleza interior por meio das virtudes para obter a verdadeira felicidade.

             A maturidade psicológica consiste em obter equilíbrio entre inteligência, vontade e afetividade. Os sentimentos, emoções e paixões são aspectos irracionais da afetividade que devem submeter-se à inteligência e vontade para que haja harmonia nas ações humanas, tal como na orquestra os instrumentos obedecem à mente do maestro. Por isso, é necessário priorizar a formação da inteligência para que seja esclarecida com a verdade acerca de temas importantes, e educar a vontade para ter autodomínio sobre os impulsos da afetividade (comer, beber, dormir, descansar, desfrutar, sentir…). A educação da inteligência e da vontade deve começar desde a infância, a fim de que não arraiguem vícios difíceis de tirar na adolescência e juventude. Quanto maio for a força de vontade, mais liberdade terá a pessoa para não ser impulsionada exclusivamente pelo motor afetivo (sentimentos, emoções, estados de ânimo). A disciplina dos sentidos e dos sentimentos se faz por meio das virtudes ou hábitos contrários às desordens que por vezes ocorrem. Muitos vícios e transtornos comportamentais em crianças, adolescentes e jovens estão relacionados ao domínio da afetividade sobre a razão.

  • Carinho sem mimo, firmeza sem autoritarismo

    Carinho sem mimo, firmeza sem autoritarismo

             Concessões contínuas e mimos excessivos são uma espécie de visgo que seduz e prende os filhos no cordão umbilical psicológico da perpétua e desvirtuada dependência que, falsificando o verdadeiro amor, alimenta possível caráter possessivo da paternidade ou da maternidade.

             Dar mimo é uma forma de demonstrar amor e carinho, mas quando se torna excessivo, pode trazer consequências negativas, especialmente no desenvolvimento emocional e comportamental de crianças: baixa tolerância à frustração ou diante de um não; falta de autonomia ou capacidade para desenvolver problemas, tomar decisões e ser responsáveis pelos seus atos; comportamentos egocêntricos ao acreditar que o mundo deve girar à sua volta, o que dificulta a empatia e o respeito pelos demais; dificuldades sociais em partilhar, colaborar, aceitar regras no ambiente escolar e com amigos; pouca resiliência na juventude e vida adulta ao se sentir frustrados e abatidos diante das dificuldades…

             À supermãe ou ao superpai corresponde um infrafilho, com pouca capacidade de voar alto. Autoridade e carinho devem partir tanto do pai como da mãe, sempre de modo dosado. Um lar com excessiva de autoridade e sem carinho transforma-se em quartel; um lar com excesso de mimos e sem autoridade se transforma em fábrica de doces maria-mole. Mimos que levem pais e mães a exigirem pouco formam desfibrados para assumirem responsabilidades.

             O verdadeiro carinho opõe-se tanto ao autoritarismo como ao mimo que escraviza os filhos. Mimo não é carinho, mas elevada dose de açúcar que faz aumentar a “diabetes do espírito” e se converte em busca de frivolidades e compensações egoístas. O amor autêntico deseja o bem da pessoa amada, sendo oferecido com coragem, paciência e intransigência diante dos deveres.

             Pais que tiveram de lutar a sério na vida e ultrapassaram barreiras sem conta, mas que depois dão aos filhos uma vida cômoda, mole; ou que foram educados autoritariamente e agora adocicam excessivamente a vida dos filhos, pagarão alto preço por esse erro pedagógico.

             Proteger os filhos de toda espécie de dificuldades enfraquece o caráter e debilita a vontade deles ao retirar-lhes as ocasiões de crescerem em fortaleza, resiliência. Grande é a sabedoria de habituar os filhos ao esforço de dormir e acordar na hora certa, de não fugir dos encargos familiares, de estudar na hora certa, de comer o que se põe na mesa, de arrumar a própria cama e não deixar esse serviço para a empregada… Quando são poupados dessas tarefas, os filhos se enclausuram em planos pessoais, e dão de ombros às necessidades dos demais.

             Certa vez, um taxista foi chamado por uma mãe para levar o filho dela, adolescente, à escola. A primeira pergunta que ouviu da senhora foi se o carro tinha ar-condicionado. Sendo negativa a resposta (o equipamento seria reparado no dia seguinte), a mãe disse: – Meu filho só anda em carro com ar-condicionado. Sem comentários… Outra mãe, superprotetora, deu o seguinte conselho ao seu filho recém-saído da academia de aviação: – Meu filho, voe baixinho e devagar, sem desconfiar que a pior orientação a ser dada a um piloto. Cabe lembrar o velho ditado que diz “Com churros não se faz alavanca!”.

             O carinho é fundamental e todos necessitam dele. Mas não do carinho mal-entendido, meloso e desequilibrado, que fomenta fraquezas e deforma o caráter devido às concessões e dispensas do cumprimento do dever. Filhos não são reis que imperam sobre servos que lhes suprem em tudo o que deveriam fazer. O verdadeiro carinho suaviza o trato, mas não teme exigir, o que faz crescer a autoridade legitima dos pais. Filhos assim educados agradecerão por toda a vida a compreensão de que não terem sido criados apenas como sujeitos de direitos, mas também de obrigações filiais-paternais.

  • A arte de sentir: a educação dos sentimentos

    A arte de sentir: a educação dos sentimentos

            Os sentimentos e afetos humanos – popularmente chamados de paixões – fazem a ponte entre a vida sensível e a espiritual, assim como os sentidos externos (visão, audição, olfato, paladar e tato) são caminhos para o conhecimento intelectual do mundo exterior.

            As paixões, como o amor, o ódio, o desejo, a tristeza, o temor ou a audácia, influenciam profundamente nossas ações. O amor tende à união com o amado; o ódio, ao afastamento do que é nocivo; o desejo impulsiona à conquista de um bem distante; a tristeza revela um mal presente; a audácia enfrenta os obstáculos que se opõem à conquista de um bem; o temor faz evitar os perigos.

            Em si mesmas, as paixões não são boas nem más: tornam-se ordenadas ou desordenadas, boas ou más, conforme a direção dada a elas. O amor, por exemplo, é bom quando se volta ao verdadeiro bem; é nocivo se busca apenas o prazer egoísta; a alegria é paixão que motiva para o trabalho diligente; o temor afasta as escolhas imprudentes.

            Educar não é suprimir as paixões: é iluminá-las com a razão; é corrigi-las com a vontade fortalecida pelas virtudes que eliminam os egoísmos, vícios e preguiças que impedem a busca do bem e da verdade… A personalidade madura não suprime os afetos, mas os purifica e os coloca ao serviço de bens maiores: família, trabalho, amizades, ideais elevados…

            É possível e necessário endereçar as paixões para o bem:

    • O amor, para a família, os amigos e as grandes causas.
    • O ódio, contra o pecado, os vícios e as injustiças.
    • O desejo, para organizar obras sociais em prol dos mais necessitados.
    • A aversão, para afastar-se do que impede a realização do bem.
    • A esperança, para impulsionar a busca por ideais grandes, mas alcançáveis com esforço.
    • A desesperança, transformada em desconfiança pessoal para apoiar-se na fortaleza de Deus.
    • A audácia, como intrepidez e valentia para crescer nas virtudes contrárias aos defeitos pessoais.
    • O temor, para fugir das ocasiões de praticar o mal.
    • A ira, como indignação diante das injustiças.

            Ignorar os afetos empobrece a ação humana. Deus nos criou com inteligência, vontade e coração, e a formação integral supõe o equilíbrio dessas capacidades, tal como na orquestra os diferentes instrumentos soam em harmonia. Se as condutas humanas fossem unicamente racionais, frias, e ignorassem a vertente afetiva ou do coração, não viveríamos integramente como Deus nos criou.

  • Saber ouvir

    Saber ouvir

             Nos diálogos cotidianos, duas atitudes são frequentes: ouvir com atenção e interesse ou, ao contrário, escutar de corpo presente, mas com a mente em outro lugar. No entanto, toda boa conversa necessita da escuta atenta para compreender melhor ao outro e construir vínculos profundos e relacionamentos mais humanos: ouvir com atenção é reconhecer que a pessoa que nos fala é naquele momento a mais importante.

             O livro Manu, a menina que sabia ouvir, de Michael Ende, ilustra com ternura a virtude de bem ouvir: Manu escutava com tal empatia e atenção seus interlocutores que, ao desabafarem, acabavam encontrando por si mesmos as respostas que buscavam.

             Os diálogos verdadeiros deixam marcas, provocam reflexões e fazem compreender os sentimentos mútuos. Mesmo quando o assunto não interessa, ouvir com atenção não é hipocrisia, mas obra de caridade, esforço sincero para superar os próprios gostos e tornar agradável a vida aos demais. Quem ouve com atenção passa a ter como próprias as alegrias ou inquietações de quem fala. Além disso, compreender os sentimentos do outro abre campos de conversação e enriquece a ambos os interlocutores.

             Ao se ouvir dizer que tal pessoa sabe escutar, logo vem à mente tratar-se de alguém cujo olhar parece indicar: – O meu tempo é seu; pode falar, pois quero ouvir você. O modelo maior dessa virtude tão atrativa é Cristo, que ouvia com atenção as dores e preocupações dos que falavam com Ele: o jovem rico, as crianças, Nicodemos, a Samaritana, o cego Bartimeu…

             É comum crianças e adolescentes afirmarem que seus pais não lhes dão atenção quando falam, porque não se interessam pelos seus temas. Ter boa comunicação com os filhos é o que todos os pais têm de ansiar, pois se esta porta se fecha não há como educar. A verdadeira comunicação é uma estrada de duas mãos: a de falar e a de ouvir de forma aberta e interessada. Ou seja: falar com o filho (dialogar) e não falar para o filho (monologar), pois estes precisam se sentir aceitos pelos pais, com demonstrações práticas de afetos: – Compreendo, filho, o que você está me dizendo; ou por meio de linguagens não verbais que revelam os sentimentos paternos ou maternos pela postura, sem que digam palavra alguma: olhar nos olhos, ouvir com atenção, expressões faciais e tom de voz são mensagens positivas que abrem caminho para uma grata conversação (leia o boletim Comunicação com os filhos)

             Sugestões para uma escuta virtuosa, base para um diálogo enriquecedor:

    • Nunca interrompa quem fala; acolha-o com paciência: quem não encontra espaço para falar percebe que seu interlocutor só se preocupa consigo mesmo.
    • Ao escutar, não fique pensando na resposta que dará ao que fala, como quem quer adaptar a realidade aos próprios interesses: apenas ouça-o com empatia.
    • Fuja de respostas insubstanciais, estereotipadas e que caem no tópico ou frase feita porque não compreendeu ou se desinteressou pelo que foi dito.
    • Evite a presunção de valorizar a própria opinião e os gestos afetados e prepotentes e ao falar.
    • Combata a soberba de ficar suscetível diante de opiniões que discordem de seu parecer, de tratar continuamente sobre si mesmo e de querer dar a última palavra em tudo.
    • Não seja professoral ou como quem fala de cima para baixo, mas ofereça apenas um testemunho pessoal, sem fazer afirmações veementes.
    • Quando alguém se aproximar para conversar, suspenda o que estiver fazendo e dedique toda a atenção a ele.

             Ouvir é mais que uma técnica: é virtude, modo de amar com verdadeira caridade; é sinal de maturidade; é se tornar pessoa confiável, profundamente humana que criadora de relações duradouras: quem ouve atentamente está mais próximo de aconselhar com prudência e acerto. A arte de falar leva em conta a arte de escutar para saber o que dizer. O espírito de quem sabe ouvir se renova constantemente com as novas ideias que recebe com sinceridade e interesse.

  • Frutificar os talentos e dons recebidos

    Frutificar os talentos e dons recebidos

             Todos nós recebemos gratuitamente, como parte do nosso “DNA interior”, qualidades pessoais e capacidades únicas. Cabe a cada um descobri-las, desenvolvê-las e colocá-las a serviço do crescimento humano, profissional, cultural e espiritual, tanto próprio como daqueles que nos rodeiam: amigos, colegas, vizinhos, companheiros de trabalho ou de escola.

             Os talentos se manifestam de maneiras variadas: organizar, fazer, ensinar, escutar, criar, ajudar, unir. É essencial identificar essas capacidades e potencializá-las, aproveitando bem o tempo para não correr o risco de desperdiçá-las com frivolidades e curiosidades, caindo em uma vida superficial e vazio interior.

             Um exemplo luminoso de quem soube avaliar suas possibilidades foi a vida de Maria de Lurdes Guarda, que faleceu em 5 de maio de 1996. Ela ficou paraplégica por erro médico e passou os primeiros vinte anos da doença revoltada. Mas, ao colocar-se diante de Deus para saber qual era a vontade dEle, entendeu que ainda podia ajudar outros paraplégicos e doentes crônicos. Desde sua cama, e usando os únicos movimentos que conservava — dos braços — passou a escrever cartas e fazer telefonemas a pessoas desesperançadas. Ajudava-as a encontrar sentido, coragem e até meios práticos para sustentar suas famílias. Ela os animava a viverem a doença unidos à Cruz de Cristo. Sua vida frutificou intensamente. A Diocese de Jundiaí, sua cidade natal, deu início ao processo de sua beatificação.

             Há muitos tipos de talentos ou qualidades pessoais. Eis alguns exemplos:

             Talentos Criativos: desenhar ou pintar, escrever bem (textos, poesia, histórias), cantar ou tocar instrumentos musicais, atuar ou se expressar artisticamente, criar ideias novas (design, soluções originais, inovação)…

             Talentos Intelectuais: facilidade com lógica e raciocínio, capacidade de aprender rapidamente, habilidade em matemática ou ciência, espírito analítico e crítico, boa capacidade de concentração e foco…

             Talentos de Comunicação: falar em público com clareza e persuasão, ouvir com empatia e atenção, escrever com impacto, ensinar com paciência e didática, inspirar e motivar pessoas…

             Talentos Interpessoais: trabalhar bem em equipe, resolver conflitos com diplomacia, liderar com empatia, fazer amizades com facilidade, gerar confiança…

             Talentos Práticos: habilidade manual (consertar, construir, costurar, cozinhar…), organizar e planejar, gerenciar o tempo com eficiência, cuidar de ambientes ou de pessoas com atenção, facilidade com tecnologia ou ferramentas…

             Talentos Emocionais e Espirituais: intuição sensível, paciência e autocontrole, capacidade de perdoar ou acolher, sabedoria para aconselhar, disposição para servir e ajudar os outros…

             Esses talentos se manifestam de forma única e mais intensa em cada pessoa. O importante é reconhecê-los e colocá-los a serviço do bem comum. Como propõe este boletim: é preciso frutificar os talentos e os dons recebidos.

             O que não pode acontecer é alguém paralisar-se diante dos talentos dos outros, comparando-se com inveja e esquecendo-se de valorizar os próprios dons. Toda pessoa tem potencial para alcançar grandes resultados, desde que se proponha a examinar com honestidade suas capacidades — sejam pequenas ou grandes — e fazê-las frutificar por amor a Deus e aos demais.

             É verdade que podemos “enterrar” nossas qualidades quando ficamos presos às limitações. No entanto, o maior fruto que podemos dar é o amor. Qualquer pessoa pode amar, se for generosa. O segredo da felicidade está precisamente nas obras de amor.

             É fundamental incentivar crianças, adolescentes e jovens a descobrirem suas aptidões, sem forçá-los para áreas que não correspondam às suas inclinações. Vale ajudá-los a investir o tempo com sabedoria e aproveitar melhor o tempo, não desperdiçando-o em redes sociais ou games, mas em bons podcasts, vídeos, livros, visitas a museus e ambientes culturais ou científicos que despertem e entusiasmem para corresponder à vocação à qual estão chamados.

  • Qual a idade certa para seu filho ter um celular?

    Qual a idade certa para seu filho ter um celular?

             Não é a idade que determina se uma criança pode ou não ter um celular, mas uma qualidade chamada autodomínio ou capacidade de não se deixar dominar pelas coisas ou gosto pessoal, também chamada de virtude da temperança. Se para os adultos é difícil ter autocontrole para não consultar as redes sociais fora de hora, dada a imensa atratividade dos celulares, pensemos quão difícil é para uma criança agir temperadamente, pois ainda não domina seus sentimentos e paixões, nem desenvolveu o sentido de hierarquia para atender antes suas obrigações.

             No canal do Youtube LuzNaJornada1, a terapeuta familiar Daniela Monteiro oferece dicas preciosas para os pais identificarem o momento de dar um celular ao filho, para não gerar problemas a ele e aos pais.

             Para avaliar o momento em que a criança está apta para manusear um celular, os pais devem antes considerar certas atitudes comportamentais do filho:

             – Se é capaz de privar-se do seu gosto ou deixar uma brincadeira para cumprir o encargo que lhe foi determinado ou fazer a lição da escola;

             – Se reluta deixar de ver televisão e ir às refeições ou preparar-se para ir à escola;

             – Se pela manhã não levanta no horário e atrasa todo o planejamento familiar;

             – Se deixa de fazer frequentemente a lição de casa;

             – Se não respeita a autoridade dos pais e com raiva diz o que lhe vem à cabeça;

             – Se na mesa come ou bebe com avidez e exagero e não controla os impulsos e abre a geladeira fora de hora…

             Caso as respostas às perguntas acima forem afirmativas, não é o momento de dar ao seu filho um celular, pois o atrativo desse aparelho é muito grande e ele não terá forças para dominá-lo. Não ceder à chantagem emocional das crianças se disserem que foi um presente dos avós, ou porque os colegas de sala de aula possuem, ou porque têm dinheiro da mesada ou ganharam dos tios para comprar um celular…

             Ao invés de dizer um rotundo “não daremos a você um celular”, proponham a ele um desafio: – Você vai ter um celular assim que estudar diariamente e fizer as lições de casa, porque essas são suas obrigações principais. Os desafios podem ser outros: cumprir primeiramente os encargos que lhe foram atribuídos na casa, obedecer quando for indicado para ir dormir… Ou seja, seu filho deve ter a mínima capacidade de autodomínio e de dizer não a si e aos seus impulsos. Essa constatação poderá revelar que o filho mais novo pode ter um celular e o mais velho não.

             Quando seu filho apresentar traços de autodomínio, tenha uma conversa com ele para combinar o modo como deverá utilizar o celular. Será uma espécie de contrato com seis regras que vocês, pais, também se submeterão nas suas circunstâncias pessoais, a fim de dar exemplo:

             1 – O celular só deverá ser usado nos locais públicos da casa, e não no quarto ou banheiro;

             2 – Excluem os horários de uso do celular durante o tempo que está na escola (para os pais, na vida familiar e no trabalho), a fim de facilitar a concentração e a socialização do filho. A Daniela Monteiro explica que é possível liberar na escola o uso de aplicativos que interessam: Uber, calculadora, agenda, etc, e bloquear aplicativos que não interessam nesse período: se o tempo de uso do celular na escola for pequeno, não há problema algum.

             3 – Nos fins de semana a criança poderá utilizar o celular por duas horas, e não mais, para não se isolar ou viciar-se em condutas individualistas: deve gastar tempo para fazer esporte ou brincar ao ar livre, ler, conviver com os parentes e amigos, participar de atividades familiares…

             4 – Regular o tempo máximo para usar certos aplicativos, como por exemplo, 30 minutos para o Youtube ou outros, uma hora para games e desenhos para não se tornar passivo, preguiçoso e sem iniciativas;

             5 – Ficarão ativados filtros de conteúdo para adultos, a fim de impedir a entrada em sites, canais ou blogs com material viciante ou nocivo à saúde mental;

             6 – Não terá autorização para instalar aplicativos no celular, tais como certos jogos ou outras plataformas que levem a curiosiar e perder o tempo, a não ser que conte com o consentimento dos pais.

             Se o filho aceitar essas regras que vocês, pais, também procurarão vivê-las, podem entregar a ele um celular. Digam-lhe que as restrições desse contrato poderão ser amenizadas se ele souber administrar bem a própria liberdade, ou aumentadas se cometer abusos. Se no período de uso do aparelho ele reclamar das restrições, diga que foi o acordado e que vocês, pais, estão vivendo o combinado e que ele também precisa ser coerente com a palavra dada.

             No final do vídeo, Daniela oferece dois links que ensinam como configurar os aplicativos que controlarão o uso do celular em aparelhos androides ou da Apple.

             Aproveite para ler o boletim EDUCAR PARA A TEMPERANÇA

  • Critérios para condutas

    Critérios para condutas

            Necessitamos de verdades claras ou critérios que fundamentem a atuação pessoal. A diversidade de pareceres sobre tantas matérias, as diferentes situações que se apresentam no dia a dia, as notícias que chegam e exigem uma tomada de posição, tornam indispensáveis uns valores ou normas de juízo para acertar nas decisões. Que valores ou princípios regem a minha vida? Sendo guia ou referência para o agir humano, enganar-se na escolha de um valor faz construir a vida sobre o erro e encaminhar-se para o fracasso. Todos queremos ser felizes, mas é preciso saber distinguir entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso para construir sobre bases seguras e não sobre um iceberg à deriva pelo oceano. Atualmente não se pensa muito sobre o agir, e se atua segundo o gosto ou sentimentos do momento, sempre inconstantes.

            Deve haver coerência entre o que se considera verdadeiro e a conduta pessoal: quem repele teoricamente o suborno, mas aceita propinas indevidas, enfraquece seu caráter, perde a capacidade de julgar retamente e faz as escolhas dependerem apenas do gosto pessoal e não de verdades externas, objetivas. Quem se enclausura em sua subjetividade e entroniza o seu eu como fundamento da verdade, deixará de lado a realidade de cada ser, que é objetiva, universal e válida para todos os tempos, e padecerá as consequências de suas escolhas. Se não há capacidade de identificar os valores, predominará o conflito na vida pessoal.

            Há valores perenes e passageiros: orientar a vida para valores como riqueza, divertimento, bem-estar, dinheiro, poder, fama, colocará a existência à mercê da instabilidade desses bens sensíveis e passageiros. Quem busca valores permanentes e universais como amor, amizade, solidariedade, Deus, família, trabalho como modo de servir aos demais, plenifica sua vida de forma estável e duradora.

            Guardini disse que um valor é aquilo pelo qual um ser é digno de ser, uma ação é digna de ser cumprida. Algo se torna digno se está de acordo com o bem e a verdade. Logicamente a verdade, bondade e beleza só se encontra de modo absoluto em Deus. Porém, cada ser criado participa em graus diferentes desses predicados, que não são produtos da mente humana, nem dependem da opinião dos demais, mas obedecem a um plano superior de Quem os criou.

            Hierarquizar os valores é comparar objetivamente um bem em relação a outro, sem deixar-se enganar pelos estados de ânimo ou opinião da maioria, pois a verdade é uma adequação da inteligência com a realidade externa. O critério de verdade está também nas coisas corriqueiras da vida: por exemplo, o que define uma boa música, um bom vinho e uma boa obra literária? No caso da música, certamente não é o gosto de cada um, pois a beleza dela tem critérios objetivos de harmonia, melodia, ritmo, letra e produção musical… No caso do vinho, basta perguntar a um sommelier para saber que o bom vinho se distingue pelo aroma que não se identifica com odores desagradáveis como mofo ou vinagre; a persistência do sabor na boca após a degustação; o corpo, a viscosidade, a acidez controlada, a região de origem e as condições climáticas e do solo sobre a qualidade da uva, e consequentemente do vinho. E o que define uma boa obra literária? Não vamos entrar nesse campo, pois faltaria tempo.

            Há muitos modos de adquirir valores ou modelos de conduta para se andar na verdade. A formação da consciência por meio do estudo da moral, riquissimamente desenvolvida no Catecismo da Igreja e na Encíclica Veritais Splendor, o estudo das normas antropológicas que fundamentam a natureza humana sobre tantos assuntos: vida, casamento, família, sexualidade, trabalho… A religião é princípio unificador da vida ao permitir considerar os acontecimentos à luz da fé e pautar a vida sobre essas verdades.

            A família é a grande transmissora de valores, pois o comportamento das pessoas tem muito a ver com as atitudes transmitidas pelos pais. Se desde crianças os filhos foram vendo o exemplo dos pais e ouvindo sobre o valor da castidade, solidariedade, disciplina, aproveitamento do tempo, descanso criativo, espírito de serviço no lar, etc., terão a força da verdade para não sucumbir a tantos erros que hoje sucumbem tantos adolescentes e jovens: namoro precoce, vício em telas digitais, pornografia, excessos de games, jogos de azar, fuga do trabalho e do esforço…

            Quem objetivamente sabe que a família é um valor maior que o trabalho, encerrará o expediente no horário para estar logo com a esposa e os filhos. O conhecimento desse valore dará à vontade força para parar encerrar o trabalho por mais agradável que seja. Quem conhece o valor do trabalho como meio para adquirir virtudes, saberá não se conduzir pelos sentimentos e evitará a curiosidade de consultar fora de hora as redes sociais; saberá ver na sua profissão um modo de servir aos demais, e não apenas como meio para acumular bens materiais. Quem sabe o valor da saúde para melhor servir a Deus e aos demais, avaliará o grau de colesterol e de açúcar nos alimentos e não se deixará levar pelo gosto (o pudim de limão é veneno para o diabético).

            Outro modo de adquirir valores é por meio de pessoas exemplares que viveram uma vida cheia de significados, deixando de lado o comodismo e a tranquilidade para “complicaram” a vida para promover obras de serviço aos demais: muitas dessas pessoas possivelmente conhecemos na vida familiar, profissional ou social. Os bons filmes e as boas obras literárias também oferecem modelos de condutas virtuosos. Dado que os jovens de hoje agem baseados em sentimentos e emoções, os bons roteiros movem o emocional em direção às virtudes apresentadas pelos diferentes personagens: Os últimos dos samurais, O soldado Ryan, Pinóchio...

            Vivemos hoje imersos em antivalores que nos chegam à enxurrada pelos meios de comunicação. O fenômeno do intruvisismo (de intruso), onde pessoas famosas utilizam o prestígio que o dom artístico, esportivo ou profissional lhes dá – dom que receberam gratuitamente Deus –, para se pôr a pontificar sobre temas que desconhecem, tais como família, amor humano, direito à vida, casamento, sexualidade humana, etc., influenciando com critérios errados a vida de tantas pessoas.

            Vamos concluir essas considerações, tendo em conta que a nossa formação não deve terminar nunca. É muito fácil infiltrar-se pontos de vista inexatos na mente, resultado da paulatina condescendência com os erros próprios ou alheios. Ninguém deve se considerar plenamente formado, mas melhorar continuamente seu conhecimento para dar respostas aos problemas atuais. Como cristãos, temos que influenciar positivamente – e na medida das forças pessoais –, nos ambientes em que nos movemos e nos meios de comunicação, hoje tão facilitados à criatividade de todos.

            Os esforços por estudar, trabalhar bem e com retidão de intenção, manter uma vida de piedade sólida e formar a consciência para decidir bem, alicerçam os valores perenes da conduta humana, e aportam ideias claras para não chamar de bom o que é mau, nem se deixar contagiar por falsos critérios sobre temas como educação, família, sexualidade, religião, finalidade do trabalho, nem por modos de descanso ou lazer perigosos e dispendiosos porque se perdeu o sabor da beleza encontrada nas coisas simples da vida.

            Cultivar as virtudes por meio da repetição de atos contrários aos defeitos pessoais ou dos filhos, expande a liberdade e faz amar o bem: quem repete um dia e outro a ação de aproveitar melhor o tempo, trabalhar com retidão, ter espírito de serviço no lar, não mentir, ser fiel aos compromissos assumidos, cria uma conaturalidade ou força para perseverar no bem e ser verdadeiramente feliz.