Categoria: VIRTUDES

  • Educar primeiro os afetos da criança

    Educar primeiro os afetos da criança

    1 – Buscar a normalidade sentimental dos filhos. 2 – Iniciar a educação pelos hábitos de temperança e de fortaleza. 3 – O desequilíbrio afetivo conduz a comportamentos problemáticos. 4 – Os pais devem ser educados para educar bem.

    1 – Buscar a normalidade sentimental dos filhos

             A normalidade sentimental ou afetiva da criança é a primeira e mais importante educação a ser oferecida pelos pais, e não pela escola. A normalização da afetividade (sentimentos, emoções e paixões) da pessoa humana é básica, e as falhas nesse âmbito tornarão difícil a educação da vontade e da inteligência.

             O equilíbrio dos afetos, paixões e sentimentos da primeira infância até aos dez ou onze anos, é indispensável para que as grandes faculdades espirituais (inteligência e vontade) se desenvolvam em toda potencialidade: a criança dominada pelo mal hábito da preguiça não se disporá a estudar e a cumprir outras tarefas porque a vontade estará enfraquecida para superar os sentimentos de má vontade; se não for educada para vencer-se e a ter autodomínio irá desmoronar diante das frustrações e reagirá de modo desproporcionado ao ser contrariada, defeitos que adentrarão na adolescência, juventude e idade adulta. O desequilíbrio afetivo e emocional trará dificuldades no desenvolvimento não só da aprendizagem, mas também na formação integral da personalidade.

    2 – Iniciar a educação pelos hábitos de temperança e de fortaleza

             A criança move-se inicialmente pelo que é imediato, pelos caprichos de cada momento e impulsos primários, pois quer se sentir bem e deixar de se sentir mal, mesmo à custa de fazer coisas más ou deixar de fazer coisas boas. Por isso, convém iniciar a educação afetiva da criança pelos hábitos de temperança e de fortaleza: pela temperança ao educar para não abrir a geladeira e comer fora de hora ou só o que aprecia; para não passar horas e horas vendo desenhos e deixar de cumprir outras atividades. Quanto à educação para a fortaleza, que pode se desenvolver desde a primeira infância, começa quando a criança é estimulada a ser disciplinada para cumprir horários de banho, refeições, dormir e acordar; quando ajuda nos pequenos encargos do lar, adaptados à sua idade, como guardar brinquedos e roupas no lugar certo, enxugar o banheiro, colocar a fralda suja no lixo, colaborar na colocação de pratos e talheres na mesa, etc…

             O desenvolvimento de bons hábitos na criança deve anteceder a educação nas virtudes, pois estas exigem o querer livre da vontade iluminada pela inteligência, que começa a ocorrer a partir dos seis ou sete anos, quando a criança passa a compreender e a dizer, por exemplo: – Eu quero ter meu quarto, roupas e brinquedos ordenados. Antes disso, como a inteligência e a vontade ainda não estão desenvolvidas, a criança age mais em função de gostos ou caprichos, e necessita ser ajudá-la a criar hábitos bons que depois passarão a ser racionais ou queridos pela própria vontade.

    3 – O desequilíbrio afetivo conduz a comportamentos problemáticos

             Se não há normalização sentimental porque as paixões se desorganizaram e passaram a ser dominantes, será difícil que a criança chegue à adolescência e à juventude com hábitos de estudo e capacidade de resiliência para alcançar ideais que exijam sacrifícios, que tenha autonomia e força de vontade para assumir responsabilidades… O desequilíbrio afetivo e o deixar-se conduzir apenas pelos sentimentos e emoções levará o adolescente ou jovem a ter dificuldades no domínio do temperamento e correrá o risco de buscar formas exageradas de divertimento, que facilmente o conduzirão à pornografia, às drogas ou a desajustes psicológicos.

    4 – Os pais devem ser educados para educar bem

             Os pais devem se esforçar para se respeitarem, amarem-se, terem espírito de serviço, apoiarem-se mutualmente, não se desautorizarem ou se contradizerem: “um pai ou uma mãe mal-educados não podem ser bons educadores”, diz Leonardo Polo. Isso porque a fase mimética ou de imitação da criança é intensa na infância.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado no livro “Ayudar a crecer: cuestiones filosóficas de la educación”, de Leonardo Polo, Ediciones Universidad de Navarra, España, 2006.

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  • A escolha de princípios

    A escolha de princípios

    1 – Toda pessoa busca ser feliz. 2 – Existe uma hierarquia entre os valores. 3 – Coerência entre o que se pensa e a conduta. 4 – Há vidas exemplares que transmitem valores.

    1 – Toda pessoa busca ser feliz

             Que valores ou princípios regem a minha vida? Sendo guia ou referência para o agir humano, enganar-se na escolha de um valor poderá ser fatal, pois construir a vida sobre o erro é caminho para o fracasso. Nada melhor que andar na verdade sobre nós mesmos e sobre as realidades que nos cercam. Uma verdade que se torna critério é um valor para reger a conduta. O homem age em vista de finalidades ou valores prévios que guiam suas escolhas, sempre orientadas para a felicidade própria, já que ninguém procura ser infeliz. Porém, a almejada felicidade está dentro da esfera da verdade e do bem não teóricos, mas práticos, alcançáveis. Busca-se o que se considera importante dentro de uma hierarquia de valores que compara um bem em relação a outro: quem procura manter a saúde avalia o grau de colesterol dos alimentos; quem dá valor ao descanso programa um divertimento sadio para o fim de semana, mas substitui esse valor pelo da caridade a fim de visitar o amigo que soube estar internado num hospital. Se não houvesse capacidade de ordenar os desejos, segundo um pondo de vista objetivo, predominaria o conflito entre as diversas pretensões pessoais.

             Guardini disse que valor é aquilo pelo qual um ser é digno de ser, uma ação é digna de ser cumprida. O valor é uma qualidade inerente à realidade; é um aspecto do bem e da verdade, que são inseparáveis, que emanam do objeto que se conhece, e se torna um bem para a pessoa e para os demais. O fundamento de um valor não está no sujeito que o conhece, mas em cada ser criado, que faz transcender de si valores como verdade, bondade e beleza, perceptíveis ao colher dele sua inteligibilidade, bondade e beleza emanados em grau diversos, o que permite compreender que há valores mais elevados em relação a outro.

             Os valores estão ligados à realidade e não são os homens que os estabelecem de modo arbitrário. Não podemos colher a beleza e a verdade de modo absoluto, porque só Deus Absoluto. Porém, cada ser participa do belo e do verdadeiro não por se tratar de produto da mente humana, mas porque a beleza e a verdade são transcendentes e universais: uma flor no alto de uma montanha continuará sendo bela mesmo ninguém a veja, mas porque participa da beleza da criação em pequeno grau da beleza absoluta de Quem a criou. Analogamente, o fundamento dos valores transcende a subjetividade pessoal, e ao homem cabe se abrir com sua inteligência e vontade para acolhê-los.

             Portanto, os valores são guias e critérios de conduta, e à medida que se orientam para bens mais elevados, realizam e tornam mais feliz a pessoa. Se alguém assume como guia de vida a riqueza, divertimento ou o bem-estar, sua existência se exporá à instabilidade própria desses bens sensíveis e passageiros. Porém, se busca valores estáveis e universais – portanto, não contingentes ou passageiros –, plenifica e eleva de forma duradora sua vida: amizade, solidariedade, amor a Deus, desejo de montar uma família, aperfeiçoar suas habilidades ou talentos pessoais para melhor servir aos demais…

    2 – Existe uma hierarquia entre os valores

             A capacidade de distinguir entre o mais e o menos importante é condição para o desenvolvimento pessoal e dos demais. Isso porque há valores estáveis, objetivos, que não dependem de estados de ânimo ou da opinião pessoal, pois a verdade é uma adequação da inteligência com a realidade externa.

             A dimensão reflexiva é necessária para cultivar convicções pessoais fortes e profundas, ilumina a consciência, permite dar respostas coerentes com as próprias ações, e ajuda a formar as inclinações naturais para desejar, mesmo sensivelmente, o que é verdadeiramente bom para a pessoa.

             Capta-se o grau de um valor ao tornar os interesses objetivos, fugindo de subjetivismos: procurar saber o que define a boa música, a boa literatura, o bom vinho fará crescer o conhecimento desses seres porque se objetivou os próprios interesses, elevando, assim, a capacidade de compreender e distinguir o mais e o menos importante, condição essa para crescer em conhecimento e para ajudar aos demais. Basear o comportamento pessoal apenas em estados de ânimo, e não na ordem objetiva da realidade, faz perder a harmonia consigo e com os demais: a incapacidade de ordenar os próprios desejos, segundo um ponto de vista objetivo, gera permanente conflito entre as diversas pretensões e satisfações pessoais.

             Ao desenvolver a capacidade de intuir a qualidade de um valor autêntico e verdadeiro, cada objetivo pessoal será escalonado na posição superior ou inferior, independente do gosto, da experiência pessoal ou dos estados afetivos. Os valores são objetivos e universais, e não subjetivos, relativizáveis, e se impõem por si mesmos, e não pelo que cada um acha, ou pelo que acham muitas pessoas. Quem se enclausura na sua subjetividade e entroniza o seu eu como fundamento da verdade, deixando de lado a realidade ou a verdade externa de cada ser, se equivoca em seu individualismo e chegará a padecer de muitos problemas psicológicos devidos a essa incoerência com o real.

    3 – Coerência entre o que se pensa e a conduta

             Se houver cisão entre a verdade teórica e a verdade prática, entre o que o indivíduo considera verdadeiro e sua conduta pessoal, ocorrerá a duplicidade de vida que enfraquecerá a personalidade e destruirá o caráter, como ocorre a quem repele teoricamente o suborno, mas aceita propinas indevidas. A Falta de coerência entre o que se tem por verdadeiro e a conduta leva à incapacidade de julgar retamente, reflete a falta de valores, demonstra não se acreditar em valores universais, e indica que as escolhas pessoais dependem apenas do gosto de cada um, que cria seus próprios valores independente de verdades objetivas.

    4 – Há vidas exemplares que transmitem valores

             Os valores que cada um persegue tem muito a ver com as atitudes e comportamentos cotidianos, transmitidos sobretudo pela família. Quando os pais mostram a importância de um bem em relação a outro, cria nos filhos a ressonância necessária para que um valor não caia na indiferença, mas seja assumido: de nada adiantaria, por exemplo, falar da importância da solidariedade ou do estudo, se não houvesse interesse dos filhos em aceitar tais valores, que devem ser reconhecidos e apreciados de acordo com a sua importância, a fim de que por uma adesão livre envolvam a pessoa inteira: cabeça e coração ou vontade e sentimentos.

             Além do aprendizado que devem oferecer os pais ou responsáveis, outro modo de reconhecer e assumir valores ocorre por meio do mimetismo ou do exemplo de vidas admiráveis, oferecidas nos relatos de heróis que vivem ou viveram uma vida cheia de significado, deixando de lado uma cômoda segurança para se arriscarem por algum grande ideal. As biografias de pessoas valorosas ou de santos, que são heróis religiosos, os bons filmes e a boa literatura também são modos de conhecer e assumir valores. Pode-se adotar como modelos pessoas que na vida familiar, profissional ou social são exemplares por suas virtudes.

             A sociedade atual está influenciada por pessoas famosas no campo artístico, esportivo ou profissional, mas contraditórias, inconstantes e superficiais no comportamento pessoal. O pior ocorre quando pelo fenômeno do intrusismo (de intrusos), esses famosos se põem a dar critérios sobre temas que desconhecem: família, amor humano, direito à vida, casamento, sexualidade humana, etc. Ao utilizar o prestígio que o dom artístico ou esportivo lhes oferece – dom que receberam gratuitamente Deus –, põem-se a pontificar sobre temas que desconhecem, e acabam influenciando a muitos com inverdades, principalmente aos jovens.

             Concluímos ao vincar que um valor verdadeiro é universal e busca o bem do homem, e não apenas o de um homem, para não incorrer no risco de esvaziar o conceito de valor ao torná-lo um subjetivo e de clichê.

    Texto adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base no livro “Antropologia Filosófica”, de José Angel Lombo e Francesco Russo, Editora Cultor de Livros, São Paulo, SP, 2020. Imagem de Justina Ražanauskaitė

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  • A educação dos afetos equilibra o comportamento

    A educação dos afetos equilibra o comportamento

    1 – Os sentimentos influenciam a conduta. 2 – Cada afeto busca apenas um bem parcial. 3 – A formação da afetividade faz inclinar-se para o bem maior.

    1 – Os sentimentos influenciam a conduta

             A influência dos sentimentos e emoções sobre a conduta cresce enormemente, principalmente entre os jovens, o que torna necessária a formação da afetividade para se ter um agir equilibrado que facilite tomar decisões acertadas.

             A afetividade é o conjunto de emoções, afetos, sentimentos e paixões que residem em cada ser humano, fazendo-o sentir-se à vontade ou desconfortável nas diferentes situações em que se encontra. O prazer ou o mal-estar gerado pela afetividade pode ser sensitivo (o prazer da comida, de um perfume) ou intelectual (prazer da boa leitura, da boa conversa), e impulsiona de forma imediata o comportamento a ser buscado ou evitado, mas que em seguida deve ser examinado pela razão para acertar na conduta.

    2 – Cada afeto busca apenas um bem parcial

             Cada afeto ou sensação busca o agradável e foge do desagradável, sem levar em conta o que é melhor para a totalidade física ou psicológica da pessoa. Por exemplo, sentir cansaço é uma sensação física de curto prazo, que poderá entrar em choque com a necessidade de estudar as disciplinas para a prova de um concurso que haverá no fim de semana. Ao concluir que o estímulo de descansar vendo TV ou dormindo diminuirá o tempo de aprendizado, colocando em risco o sucesso e o prazer de alcançar boas notas no concurso, poderá fazer a pessoa não levar em consideração o descanso devido a proximidade da prova e a necessidade de rever as matérias.

             No exemplo citado, o bem indicado pela sensibilidade (descansar) é parcial e conflitou com o bem intelectual maior da aprovação no concurso, que para a sensibilidade não importa, já que seu bem é o descanso. Para saber qual estímulo deve ser levado em consideração, deve-se prestar atenção à hierarquia de valores que sinaliza os bens que devem ser sacrificados para se obter bens maiores. O afeto que induz a descansar, apresentado pela sensibilidade, não é mau em si, mas não é função dele – nem de qualquer outro afeto – racionalizar sobre o que é melhor ou pior em relação ao todo e, por isso, tal afeto não pode exigir para si o posto de proeminência, para não colocar em risco o bem mais importante da aprovação no concurso.

    3 – A formação da afetividade faz inclinar-se para o bem maior

             A formação da afetividade facilita que a inteligência e a vontade se inclinem para o bem maior, e conduz a pessoa a manifestar na medida certa os seus sentimentos, ao não colocá-los de forma demasiada em situações que merecem menos sentimentos, nem deixando de manifestá-los mais intensamente em situações que merecem expressá-los.

             No caso de sentimentos que entram em conflito (descansar ou estudar?; comer a torta de limão, reclamada pelo apetite do diabético, ou evitá-la para conservar a saúde?), não se trata de ter uma visão negativa, como a de impor um mero controle ou repressão de uma tendência sobre a outra. Trata-se da atitude positiva de criar na cabeça e no coração uma conaturalidade para com o bem maior, que poderá estar em jogo. Isso permite de forma quase instintiva valorar melhor se o que de imediato parece mais atraente deve ser seguido ou não, a fim de optar pelo que é mais coerente com o sentido que se quer dar à própria vida. Tal atitude permite alegrar-se tanto com o bem alcançado, como da renúncia do bem sacrificado para obter o maior.

             O processo formativo da afetividade, ou o domínio positivo da sensibilidade, afetos e paixões, permite a pessoa avançar na melhor expressão de si mesma, e levar adiante com mais facilidade e alegria a vocação humana e sobrenatural a que está chamada a realizar nesta vida. Quem possui a sensibilidade bem orientada não correrá o risco de gastar horas e horas navegando sem rumo na internet ou em redes sociais, em prejuízo de bens maiores a serem conquistados.

             Complete a leitura sobre este tema com outros boletins que estão em nossa página Boletins por temas, no item EDUCAR OS AFETOS.

    Texto adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base no livro “A formação da Afetividade”, de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2021. Imagem de William Warby.

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  • Sobriedade se vive desde a infância

    Sobriedade se vive desde a infância

    1 – Educar na austeridade. 2 – Aprender a dizer não a si mesmo. 3 – A temperança se vive desde a infância. 4 – Respeitar a liberdade da criança.

    1 – Educar na austeridade

             As crianças precisam aprender a ser valentes, a ter coragem de ser austeras consigo próprias, senão o fracasso será rotundo, pois crescerão moles de ânimo e fracas de caráter e de vontade. A valentia necessária para viver a virtude da temperança deve ser proposta como um estilo de vida sóbrio, bom e desejável, que é a perfeição de si próprio. Comportar-se com sobriedade é um bem, é colocar ordem nos sentimentos e paixões quando estes se desorbitam e tornar-se dono de si próprio, é preparar-se para a vida.

             “Tenham a coragem de educar na austeridade, senão não conseguirão nada”, dizia um educador a um grupo de famílias. Os filhos não entendem por que não podem fazer tudo o que gostam: navegar na internet por horas, passar o dia vendo desenhos ou jogando games, comer só o que apreciam, detestar encargos ou responsabilidades no lar… Para que façam também o que não é agradável, muitas respostas poderiam ser dadas a eles: – “Porque você tem outras obrigações a cumprir”, ou – “Para que você não seja caprichoso e faça também o que não gosta”. São respostas pobres que os filhos entendem apenas como negação ao que os atrai, sem revelar a beleza da virtude da temperança, que é afirmativa e capacita-os para serem donos de si próprios ao ordenar a sensibilidade, afetividade e instintos, e manter equilíbrio no uso dos bens.

             Satisfazer as tendências naturais não é algo ruim, e faz parte da natureza humana. Mas é inegável que há um princípio interno de desordem em todos os seres humanos, o que afeta a ordem e o equilíbrio das tendências instintivas a ponto de que cada uma busque apenas o que a atrai, sem se preocupar com o bem de organismo: o instinto de se alimentar é bom, mas pode desajustar-se e conduzir à intemperança no comer e beber; a função procriativa pode conduzir à pornografia; o instinto de segurança quando se desorbita leva a pessoa a pânicos ou medos infundados. A função da temperança é proteger e orientar a ordem interior das pessoas.

    2 – Aprender a dizer não a si mesmo

             A frase “Acostuma-te a dizer que não” (Caminho, n. 5) revela uma atitude firme diante das ambições desordenadas dos sentimentos e paixões. É mais fácil dizer sim e deixar de lutar, mas isso é admitir a derrota sem se esforçar: a vitória e a paz vêm depois da luta ou da autoafirmação do eu consciente sobre nossos inconscientes desejos. Negar-se ao que é desordenado é afirmar a própria liberdade e não ser escravo de tendências cegas; dizer sim a tudo leva à despersonalização e torna a pessoa marionete de suas paixões. Para construir-se é necessário dizer não a algumas coisas é sim a outras, e isso indica que se possui uma escala de valores comprometidas com a verdade, e da qual não se abre mão.

             “Temperança é espírito senhoril. Nem tudo que experimentamos no corpo e na alma deve ser deixado à rédea solta. Nem tudo o que se pode fazer se deve fazer. É mais cômodo deixar-se arrastar pelos impulsos que chamam de naturais; mas no fim deste caminho encontra-se a tristeza, o isolamento na miséria própria (Amigos de Deus, n. 95). O destemperado perde o controle de si na busca de fugazes sensações que sempre reclamam outras novas. Já o temperado ao dizer não às desordens instintivas educa suas sensações para respeitar a ordem das coisas, sem necessitar se empastelar ou fusionar-se nelas, mas mantendo a distância que convida à contemplação dos seres e não seu uso irracional.

    3 – A temperança se vive desde a infância

             Se desde pequena a criança é educada para controlar seus apetites, se aprende a apreciar menus variados e a comer também o que não aprecia tanto, se sabe aguardar a que todos se sirvam antes de começar a comer, se tem paciência para esperar e não desejar as coisas imediatamente, se cumpre seus pequenos encargos no lar, pode-se dizer que vivencia modos concretos de fortalecer a vontade, e se tornará um adolescente forte, sóbrio, longe de cair em adicções ou vícios que arrastam para o álcool, drogas e pornografia aqueles que possuem a vontade fraca.

             A temperança deve ser ensinada aos filhos no ambiente familiar, primeiramente pelo exemplo de vida que adotam os pais: se são desprendidos e renunciam com alegria comodidades e caprichos (tal como comer fora de hora); se sacrificam-se para atender as crianças nas tarefas escolares, banhá-las ou dar comida aos menores; se “gastam” tempo para brincar com elas; se não jogam fora a comida que sobra, mas utilizam-na para completar outros pratos; se são laboriosos e não preguiçosos… Com tais exemplos, as crianças crescem considerando naturais tais modos de proceder, que passarão a vivê-los sem perceber. Além do exemplo de vida dos pais, e de modo que as crianças possam entender (elas captam as coisas melhor do que julgam os adultos), os pais darão explicações do porquê atuar de uma maneira e não de outra, relacionando o comportamento com o bem da própria pessoa, dos demais ou para oferecer um pequeno sacrifício a Jesus.

             As circunstâncias para educar são diferentes em cada idade. Se a adolescência exige moderação nas relações sociais, mais do que na infância, será necessário dar maiores explicações sobre os motivos que levam a agir de um modo e não de outro. Quando a criança é pequena talvez não seja o caso de dar explicações complicadas para dizer que não irão a determinado local, para não coma fora de hora nem abrir a geladeira ao primeiro impulso de fome… Já na adolescência a explicação para viver a temperança no modo de descansar ou de comer com moderação dever ser sustentada por arrazoados que nutram a inteligência com argumentos que alavanquem a vontade para a pessoa autodominar-se.

    4 – Respeitar a liberdade da criança

             A educação capacita para tomar decisões livres e acertadas que vão configurando os valores a serem assumidos na vida. Mas, se na educação não há regras fixas, o importante é ajudar o educando e ter como nítidos os comportamentos que devem ser promovidos e quais os evitados. Isso deve ser conseguido longe de uma educação protetora que cerceie a autonomia das crianças, mal que ocorre quando os pais substituem os filhos em tudo o que eles poderiam fazer. Tampouco se educa com autoritarismos que não deixam espaço para o crescimento da personalidade e do critério próprio, porque se obedece por medo. Isso revela que os pais querem que seus filhos sejam uma caricatura deles, o que os despersonaliza.

             Convém promover o princípio do respeito à liberdade! É preferível errar em algumas situações ao não impor o próprio juízo, principalmente se os filhos veem nisso algo pouco razoável e arbitrário. De acordo com cada idade, as crianças devem ir tomando as suas próprias decisões e assumir as consequências: – Quer ir ao parque ou ao shopping? Se escolheu ir ao parque, e lá chegando acha que está chato e pede para ir ao shopping, deve assumir a sua escolha e deixar o shopping para outro dia, a fim de aprender a pensar melhor; se quer ir à festa com o vestido verde, não insista para que vá com o azul: é melhor exigir em pontos mais importantes e não desgastar-se com picuinhas, que fazem perder a autoridade e tornam enfadonha a vida das crianças.

             Dois exemplos sobre assumir as consequências de seus atos: certo garoto decidiu jogar contra a parede o prato da comida que não gostava, e seus pais deixaram a marca suja por vários dias para que a criança tivesse presente as consequências de sua ação, e com isso conjugaram o respeito à liberdade da criança com o não transigir com o erro dela. Outro casal, cansado dos caprichos do filho que só comia o que gostava, decidiu servir-lhe uma refeição convencional (arroz, feijão, carne e batata), que a criança não quis comer. Então, mantiveram o prato rejeitado nas refeições seguintes até que o pirralho, com fome de leão, comeu tudo, e vendo a determinação dos pais deixou de ser enjoado e cheio de frescura.

             Por fim, os pais, com insistentes orações, não podem deixar de contar com a graça e a proteção de Deus para que seus filhos amem o bem e as virtudes, e se afastem do que é mau e desordenado.

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    Texto adaptado e acrescentado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base no artigo “Educar na temperança e na sobriedade”, de J. De la Veja e J.M. Martín, no site www.opusdei.org/pt-br/. Imagem de Mikhail Nilov.

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  • Crescer para dentro

    Crescer para dentro

    1 – Não basta ao homem seguir os instintos. 2 – Possuir valores que orientam as ações para a verdade. 3 – As várias dimensões do crescer para dentro. 4 – Viver para um ideal grande.

    1 – Não basta ao homem seguir os instintos

             A vida moderna pode tornar a pessoa inquieta, preocupada com o resultado de muitas coisas, nem sempre as mais importantes. Em sua dimensão integral, o homem necessita crescer não apenas biologicamente, mas exercitar suas potencialidades psíquicas – entendimento, vontade e sentimentos –, e desenvolver-se espiritualmente, que é o mais importante, pois aqui reside o seu “eu”, fonte de todas as suas decisões sobre o caminho a seguir. Evidentemente, essas duas últimas dimensões não ocorrem ao animal, pois basta-lhe a primeira, que é seguir seus instintos para assegurar sua melhor forma de viver. Ao deixar-se levar por suas tendências instintivas – comer, beber, dormir, buscar segurança e acasalar –, o animal atua bem, porque seus instintos orientam as suas ações para a conservação da espécie, e nada mais do que isso.

             Ao homem não lhe basta seguir os instintos, pois necessita idealizar projetos mais profundos, além de que seus instintos são inseguros e não lhe garantem a sobrevivência porque cada um procura apenas a sua satisfação, sem se importar com todo o organismo: o desejo de se alimentar pode impelir o diabético a comer os doces que não deveria, o desejo de beber leva alcóolatra a enxarcar-se de álcool, o sensual a alimentar as desordens da sexualidade.

    2 – Possuir valores que orientam as ações para a verdade

             O espírito humano – o eu consciente – é que deve orientar as ações para a verdade. Ao não crescer espiritualmente, a vida estaciona no biológico e numa fraca psicologia que não dará respostas às questões mais profundas da alma humana: amor, liberdade, sentido da vida… Com um eu rebaixado não haverá inquietação ou busca de grandes ideais, mas apenas alegrias pontuais, pequenos momentos de satisfação dos sentidos e nada mais.

             Quem não interioriza grandes valores a perseguir acomoda-se no medíocre e narcotiza a consciência para não se inquietar a participar na construção de uma sociedade melhor, e fecha-se no egoísmo de pensar só em si mesmo, e nas pequenas satisfações que os instintos solicitam. A falta de valores gera uma interioridade estreita, unidimensional, conduzida pelos impulsos recebidos do exterior, pelo que diz a opinião pública em cada momento, e não por sonhos e ideais mais relevantes.

             O homem exterior teme o silêncio, o estar só para refletir e comprometer-se. Então, preenche o seu interior com o ruído em forma de muita música, de mil informações desencontradas, de impressões epidérmicas, curiosidades e opiniões da moda. Com isso, seu pensamento é pouco profundo, alimentado mais com imagens do que com textos escritos que podem conduzir ao fundo das questões.

             Como diz Servais Pinckaers, crescer para dentro não se confunde com a interioridade psicológica do homem ensimesmado em seus sentimentos, num fluxo e refluxo estéril, egoísta; nem na espécie de abrigo íntimo dos tímidos que se assustam com o mundo exterior carregado de lutas e exigências. A verdadeira interioridade é a moral, que é mais profunda e consiste na capacidade de acolher em si verdade e o bem até ficar fecundado por esses valores, gerando com isso ações que transformam a si e o mundo ao redor. Quando essa interioridade se abre a Deus mediante a oração e a consideração da filiação divina, ganha em profundidade nova e insondável, capaz de produzir obras imperecíveis e livres do egoísmo humano: a interioridade humana unida à divina não permanece encerrada em si mesma, mas alarga-se em grande espectro.

             Não se transforma o mundo com um mexer-se superficial, já que este é movido por ideias que nascem dentro de alguém, sejam de consumo ou de ânsias de poder e dinheiro, ou de ideias comprometidas com a verdade e o bem. Sem uma interioridade comprometida com a verdade não há matriz onde se gestam as melhores ações do homem. Todas as grandes obras da humanidade – seja no plano moral, literário ou científico –, foram gestadas no silêncio da vida espiritual de grandes homens: Pasteur, Dante, Cervantes, Camões, Jeronime Legeune, Tomás de Aquino, Dostoiewisky, Shekespeare.

    3 – As várias dimensões do crescer para dentro

             Ensina Pinckaers que a interioridade implica várias dimensões, sendo a primeira a profundidade ou capacidade de refletir e deixar para trás as impressões, sentimentos, ideias e representações superficiais, para penetrar no fundo das realidades humanas e das questões morais. Para fazer crescer dentro de si os grandes valores, é necessário meditar neles. Alfonso Quintás ensina que pensar com rigor é penetrar no núcleo de cada realidade ou acontecimento. Por exemplo, uma moça decidiu se casar e criar um lar com o seu marido. Surgiram problemas no decorrer da união e ela vai pedir ajuda à mãe, que diz: – Você quis se casar, agora agente. A mãe agiu bem ou foi profunda na questão? Aguentar é o termo correto?, pergunta Quintás. Aguentar o peso dos males como uma coluna aguenta o peso de um telhado não é próprio do ser humano. Para suportar uma situação é necessário pensar nos valores que estão em jogo. Ser fiel supõe uma atitude criadora, ativa, responsável, e não um simples e passivo aguentar, ensina Quintás. Em vista de um bem maior, a mãe poderia ter orientado a filha que para ser fiel e levar o lar adiante o lar teria que sacrificar algo, como o bem-estar, para seguir adiante na grande tarefa de cumprir com sua palavra dada a Deus, ao marido e à sociedade, visando a formação dos filhos e reconquistar a alma do marido, levando-o ao céu. Porém, a mãe da moça por não ter uma interioridade rica, alimentada com a verdade sobre a família, foi infeliz no comentário infra-humano que fez: o “agora aguente”, não abriu à filha o caminho certo para a solução do problema.

             A segunda dimensão da interioridade é a altura. Porém, o elevar-se custa esforço e o moralmente baixo, a preguiça, por exemplo, não custa sacrifício algum. Por isso, para subir alto requer-se fortaleza para enfrentar-se consigo, humildade para reconhecer os próprios erros e fé em Deus. Quem não abraça um grande ideal e prefere a vida medíocre porque teme o sacrifício para construí-lo, não tem altura e voa como galinha e não como águia: o crescimento nas virtudes ajudará a conquistar a altura.

             A terceira dimensão da interioridade é a densidade. A superficialidade é leve porque lhe falta substância. O homem interior é de pensamento denso, resultado de paciente acúmulo no espírito e no coração das reflexões, experiências e esforços. É fruto da lenta aquisição das experiências da vida, do pensamento adquirido no estudo e nas leituras de boas obras literárias, na oração. Tudo isso eleva as ideias. Um livro é bom quando se presta à releitura. Quem não desenvolve o gosto por ler obras clássicas da literatura e prefere as notícias ou fofocas do dia a dia ou vídeos divertidos e fáceis, revela sintoma de preguiça mental. Quantos livros eu li neste mês ou no último ano? Não digo livros técnicos exigidos pela profissão, mas aqueles que buscamos com liberdade e fruto de um descanso criativo: A morte de Ivan Ilishit, de Tolstoi; O jogador, de Dostoiéwisk, Hamlet, de Shekspeare; entre tantos outros autores (Cronin, Ernest Emingway, Saint Éxpery).

             A quarta dimensão da interioridade é a amplitude de quem não se contenta com as impressões parciais, e se esforça para fugir do moralmente baixo. A amplitude permite compreender os diferentes pontos de vista e opiniões, às vezes opostas, e extrair delas ideias que enriquecem o espírito, e faz compreender também o pensamento de outras épocas da história para discernir nelas a continuidade viva da tradição espiritual.

    4 – Viver para um ideal grande

             A realização de um ideal de felicidade que dá sentido à vida deve ser maior que toda esperança puramente humana, porque esta é finita e o homem necessita de uma felicidade que ultrapasse os umbrais desta vida: Deus. A questão do sentido e fim último da vida é chave para a felicidade, pois nada é mais difícil do que suportar um vazio na própria existência. O homem moderno perdeu o sentido de finalidade última de sua vida, e substituiu essa carência pelo simples evitar o sofrimento e desfrutar das pequenas e pontuais felicidades que a sociedade de consumo oferece.

             Crescer para dentro é uma dimensão essencial da ordem moral, e meio para escapar da visão unidimensional da vida. Possuir altura de pensamento, ter densidade ou capacidade de acumular na cabeça e no coração as reflexões e as experiências da vida, ganhar amplitude de alma e magnitude ou alargamento do espírito, leva a pessoa à melhor expressão de si mesma, e às ações para melhorar com seu esforço o entorno em que vive. Crescer para dentro, eis a questão. Só a experiência do silêncio e da oração faz amadurecer e desenvolver uma interioridade verdadeira: “Não se viam as plantas cobertas pela neve. E o agricultou, dono do campo, comentou jovialmente: “agora estão crescendo para dentro”. Pensei em ti, na tua forçosa inatividade. E, diz-me uma coisa: também cresces para dentro?” (Caminho, n.294).

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    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base nas obras “Las fuentes de la moral cristiana”, de Servais Pinckaers, Ediciones Universidad de Navarra (Pamplona), 2007; e “Cómo formarse en ética a través de la literatura”, de Alfonso López Quintás, Ediciones Rialp, Madri, 1994. Imagem de Felix Mittermeier.

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  • Afinar a sensibilidade

    Afinar a sensibilidade

            1 – Visão. 2 – Audição. 3 – Paladar. 4 – Olfato. 5 – Tato

             Afinar cada um dos cinco sentidos que compõem o sistema sensorial humano é tarefa possível e enriquecedora que permite alcançar realidades antes ignoradas. Os sentidos são os responsáveis por alimentar ou enviar as informações obtidas ao sistema nervoso central, e por isso se diz que nada há no intelecto que não tenha passado pelos sentidos (visão, audição, paladar, olfato e tato). Alimentar os sentidos apenas com o grotesco ou elementar impede a sensibilidade dar voos mais altos, reduzindo, assim, a possibilidade de compreensão mais autêntica das realidades. Ao permitir a captação de imagens, sons, sabores, odores e toques, os sentidos garantem uma percepção mais completa do ambiente.

    1 – Visão

             A vista pode se tornar preguiçosa e não se ater por muito tempo na mesma imagem, porque borboleteia por todo canto. Então, precisa ser afinada para fixar-se em detalhes e deleitar-se, por exemplo, diante de uma obra de arte ou de um livro de literatura… Quem passa muitas horas semanais degustando vídeos de muita ação – esportes, filmes –, costuma ficar incomodado com enredos mais elaborados e reflexivos. Então, é preciso despregar do chão a cabeça e o coração para interesses mais elaborados, a fim de potencializar o próprio mundo interior. Ao ampliar o campo de interesse para atividades que pouco a pouco enriquecem a visão do mundo e das pessoas, seja por meio de filmes com excelentes enredos ou pela boa literatura, tornam a pessoa mais conhecedora da complexa psique humana, e isso permitirá melhor interação consigo ou com as pessoas.

    2 – Audição

             A audição também pode ser educada. A facilidade com que hoje se tem à mão áudios e vídeos dificulta os momentos de silêncio e de reflexão interior, tão necessários para uma compreensão mais profunda das realidades. É frequente encontrar no ônibus ou no metrô pessoas de todas as idades enfrascadas em fones de ouvido, seja com músicas ou podcast. Outros, ao sair de carro, fazer cooper, andar de bicicleta, realizar trabalhos manuais, automaticamente sintonizam algum tipo de som porque temem o silêncio, o encontro consigo mesmo. Músicas de gêneros intensos como o reggae e o rock poluem o cérebro e dificultam a ação de pensar e contemplar. Há os que se queixam da incapacidade de se concentrar no estudo, de se recolher em oração ou dedicar-se a pensar em algo mais profundamente, mas o que esperar se durante o dia estiveram continuamente preenchendo o cérebro com estímulos sonoros?

             Encontrar ilhas de silêncio no dia ao aproveitar deslocamentos, momentos de espera, etc., permite acudir à mente outras ideias, torna a pessoa mais criativa e rica interiormente. Alguém já chamou de contemplar seus pensamentos a ação de deixar vir ao pensamento lembranças, imagens ou reflexões sobre um tema ou assunto. Bento XVI disse que o silêncio é capaz de escavar um espaço interior no nosso mundo íntimo para ali fazer habitar Deus (Audiência geral de 07/03/2012). Não se trata de criar um vácuo mental, mas de abrir a mente à passagem de ideias próprias, e não as que são socadas na mente pelas mídias sociais. Trata-se de permitir-se o diálogo consigo mesmo e, melhor ainda, o diálogo interior com Deus, que transforma os próprios pensamentos em oração. Sobre a necessidade do silêncio interior não é por acaso que o cardeal R. Sarah escreveu uma obra de 300 páginas intitulada “A força do silêncio: contra a ditadura do ruído”. pela Fons Sapientiae.

    3 – Paladar

             O paladar é um sentido que também pode ser afinado. Diante da pergunta sobre o prato favorito, se a resposta for, por exemplo, um hambúrguer com batas fritas, bacon, ovo e muito ketchup, talvez seja o caso de se abrir para apreciar sabores menos marcante e mais sutis. Não se trata de chegar ao requinte de algumas etiquetas de vinho, ironizadas por certo humorista, que dizem para captar “o sabor complexo, cheio de matizes, com notas de sândalo e um final tânico poderoso, que revelam longas notas tostadas”.

             O paladar pode ser reprogramado de forma progressiva, por meio de pequenos esforços como o de não reclamar do prato que se diante, variar a alimentação, carregar menos no sal e açúcar, comer um pouco mais do que se gosta menos e um pouco menos do que se gosta mais, não repetir a comida, comer devagar, saborear uma culinária mais elaborada, que certamente deixará feliz a pessoa que a preparou. O paladar doce pode ser mudado com a inclusão de vegetais amargos ou azedos (rúcula, agrião, jiló, rabanete, alho-poró…); há especiarias que ajudam a camuflar o sabor doce: gengibre, noz-moscada, canela, cravo e, claro, pimenta…

    4 – Olfato

             O olfato está relacionado à higiene corporal: ir bem limpo, barbeado, no caso dos homens, asseado, talvez com um pouco de perfume discreto e não enjoativo, mas que torna a presença mais agradável. A roupa cheirosa, bem passada, com o colarinho não puído e trocada com frequência para não utilizá-las por dois dias seguidos, pois se trata de viver a virtude da economia, já que o esforço para lavar roupa encardida faz desgastar mais o tecido.

             Não se trata de ser produzido, afetado, nem de se vestir da mesma maneira em todas as ocasiões, mas de cultivar o senso estético, a pulcritude, no próprio aspecto externo. O cuidado com esses pormenores torna a alma sensível para captar o perfume das flores e se interessar pelo nome de cada uma, agradecer o aroma da comida bem-preparada que vem da cozinha, o cheiro da casa limpa…

             Um olfato sensível e delicado faz ampliar o interesse por conhecer os nomes das flores, árvores, plantas e pássaros da região em que se vive; ao retornar ao lar, saberá agradecer as mãos que colocaram flores sobe um móvel para embelezar o ambiente.

    5 – Tato

             O tato é conhecido como o sentido mais elementar e primitivo. O tato está presente não somente nas mãos, mas na pele que envolve todo o corpo, da cabeça aos pés. Pode-se relacionar o tato com o cuidado das formas, ao tom humano, à delicadeza no trato com os demais. O modo de se apresentar, de se sentar esparrado ou não, de se postar na mesa, de enfatizar, de torcer pelo time de futebol… A intemperança não só ocorre pela boca, mas em escolher os lugares mais confortáveis para se sentar, seja em casa, no trabalho ou no restaurante (minha cadeira, meu lugar no sofá, minha mesa, meu canto preferido)… Não são meros convencionalismos sociais, mas manifestação de respeito a si e aos demais viver desapegado das coisas materiais. O modo intemperado de assistir uma partida de futebol reflete um mundo interior desajustado, a necessidade de chamar a atenção dos demais, e o descontrole exagerado de manifestar os sentimentos.

             Ser discretos, pedir por favor, agradecer, chamar as pessoas pelo nome e não pelo apelido, saudar delicadamente e não com um tapa nas costas, evitar palavrões, não bocejar ou se espreguiçar em público, são exemplos de delicadeza nas formas que tornam a convivência muito mais agradável.

             Não abordaremos neste boletim os sentidos internos, principalmente a memória e a imaginação, que também devem ser educadas para evitar a algazarra interior ao trazer lembranças e imagens inoportunas que impedem a concentração e a atenção naquilo que se está fazendo. A imaginação, que é tão importante para a criação de todo tipo de instrumentos, e fundamental para as obras de arte, pode se tornar a “louca da casa”, como dizia Teresa de Jesus.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na obra A formação da afetividade – Uma perspectiva cristã, Cap.5 Desenvolver a afetividade a partir das virtudes teologais, de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2021. Imagem: a do diapasão é de Thirdman; as palavras introduzidas são de Ari Esteves.

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  • Conhecer-se para se construir

    Conhecer-se para se construir

    1 – Não nascemos prontos. 2 – Ser artífice da própria vida. 3 – Buscar os aspectos a polir. 4 – Acender uma luz dentro de si. 5 – Iniciar com propósitos simples.

    1 – Não nascemos prontos

             “A cada homem se lhe confia a tarefa de ser artífice da própria vida; em certo sentido, deve fazer dela uma obra de arte, uma obra mestra” (João Paulo II, Carta aos Artistas). Ninguém nasce pronto, mas como obra inacabada. Primeiramente cada um é ajudado pelos pais para se desenvolver como pessoa; depois, quando adulto, faz suas escolhas pelo livre arbítrio para alcançar o melhor de si, sendo que essa tarefa há de durar a vida inteira, já que ninguém em sã consciência pode achar-se plenamente formado, pois sempre podemos aprender e melhorar mais.

             Na trajetória para o aperfeiçoamento pessoal quem não melhora retrocede, sendo preciso ser inconformista e não aceitar conviver com o erro dentro da própria alma, tal como não se deseja conviver com vírus ou bactérias no corpo: ao invés de dizer “é que sou assim”, dizer “eu me fiz assim, mas quero melhorar”.

             O conhecimento próprio é fundamental para a reforma pessoal. Para isso, como bons comerciantes que no final do dia fazem um balanço para ver os ganhos e as perdas, é preciso fazer um exame diário de três minutos no final do dia, a fim de verificar os pontos positivos e negativos do caráter e do temperamento, para fomentar uns e corrigir outros. O espírito de exame corresponde a uma necessidade de amor, de sensibilidade. Se por preguiça descuida-se desse exame, não se pode evitar que no terreno da alma e dos afetos cresçam abrolhos e espinhos.

    2 – Ser artífice da própria vida

             Por vezes queremos mudar o mundo, mas em primeiro lugar devemos melhorar a nós próprios. Se não há luta contra os defeitos eles tendem a crescer com o passar do tempo. Há quem não vai ao médico porque teme que lhe seja diagnosticada alguma doença, e prefere viver “feliz” e consciente de sua própria ignorância, e com isso deixa de dar o grande passo para a cura, que é pôr os remédios apropriados. Ser artífice da própria vida começa por não ter medo de se examinar para descobrir aspectos a corrigir, a fim de não andar às cegas e cair num buraco. Quem descobre aspectos a melhorar deve se sentir feliz porque não lutará às cegas ou dará socos no ar, mas poderá travar uma luta alegre e esportista, tal como o atleta que busca melhorar cada dia mais a sua performance, começando e recomeçando seus exercícios (sua luta) uma dia e outro.         

    3 – Buscar os aspectos a polir

             Para fazer da nossa vida uma obra de arte temos que reconhecer que é universal a experiência da fraqueza humana, e que também somos vítimas dela, pois os bens nos atraem e podemos usufruí-los de modo intemperado, sejam eles bens do instinto (comida, bebida, conforto…), ou de inclinação psicológica (trabalho profissional que faz distanciar da família, curiosidades frívolas nas redes sociais, etc..).

             Já se afirmou que o orgulho morre duas horas depois da pessoa. Como filhos de Eva, a primeira vítima da lisonja, também detectamos em nós sintomas de orgulho, vaidade, egoísmos, preguiças…. Outras vezes percebemos defeitos de temperamento, como a indiferença pelas pessoas, ironias, antipatias, suscetibilidades, pouco agradecidos, não saber ouvir, dar demasiada relevância à opinião própria e não entender as razões dos demais, emburramentos, teimosias, espírito crítico, reações destemperadas, não cumprir o prometido, juízos temerários que etiquetam erradamente as pessoas, deixar as coisas para a última hora…

             Eita, a lista acima parece que não deixa de crescer! Não se trata de corrigir tudo de uma vez, mas começar pelo aspecto mais relevante a ser corrigido. Pelo princípio da unidade da pessoa humana, quando melhoramos em um ponto, melhoramos em muitos outros ao mesmo tempo. O importante é começar, como foi dito, por meio de uma luta alegre e esportista.

    4 – Acender uma luz dentro de si

             Quem procura conhecer-se não fará o papel daqueles que Cristo disse que “amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más e não queriam que fossem vistas”, claro, nem por si mesmos! O humilde é consciente das próprias debilidades e pede ajuda a Deus, que vem ligeiro ao seu auxílio, tal como um bom pai que estende o braço para ajudar a sua criança.

             Uma sugestão de leitura é o pequeno livro de bolso “Conhecer-se”, de Joaquim Malvar Fonseca, publicado pela Editora Quadrante, em São Paulo, que faz a seguinte apresentação da obra: “Quem sou eu? Esta pergunta não é banal. Está latente, sob múltiplas formas, mais ou menos complicadas, nas indagações dos filósofos, nas consultas psiquiátricas, na agitação dos jovens e na própria insegurança das instituições sociais. «Conhecer-Te para conhecer-me», responde Santo Agostinho. O destino do homem ultrapassa o homem, e só nos conhecemos verdadeiramente quando nos conhecemos à luz de Deus. Este conhecimento próprio à luz de Deus é, aliás, o único conhecimento eficaz, porque traz consigo a terapia, quebrando os círculos viciosos do eu e abrindo a porta às mudanças”.

    5 – Iniciar com propósitos simples

             Começa a reconstruir-se quem no final de cada dia faz para si a seguinte pergunta: ― Que fiz mal?, que fiz bem?, que poderia ter feito melhor? Em seguida, estabelecer um ou dois propósitos pequenos e concretos para corrigir as falhas detectadas no dia: levantar-se no horário para chegar e sair pontualmente do trabalho; chegar cedo em casa e ajudar a esposa, ouvir a criança com atenção e ajudar nas tarefas domésticas; sorrir quando não se tem vontade para evitar uma cara mal-humorada… Com isso, enxota-se as pequenas ou grandes faltas que afastam de Deus e dos demais.

             A luta contra os defeitos do temperamento é permanente e necessária para sermos aquilo que diz Caminho n.4: “Ser homens de caráter e personalidade: eis a rocha sobre a qual construímos a verdadeira santidade. As virtudes sobrenaturais infusas apoiam‑se na forte estrutura de virtudes humanas que formam o caráter”.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Chinmay Singh.

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  • A idiotice da frivolidade

    A idiotice da frivolidade

    1 – Memória e imaginação ou lojas de quinquilharias? 2- Aproveitar melhor o tempo: o descanso criativo. 3 – Assumir valores que orientem a vida. 4 – Coerência entre o que se acredita e o que se vive. 5 – O que é frívolo empobrece a alma.

    1 – Memória e imaginação ou lojas de quinquilharias?

             Frívolo significa de pouca importância, inconsistente, inútil, superficial, e quem se ocupa de frivolidades é fútil, leviano. Portanto, idiotice frívola e perigosa nas diferentes idades é permitir que penetre pelos sentidos aquilo que não interessa ou não tem importância. Já abordamos este tema no boletim Inteligência ou depósito de futilidades, mas vale a pena tornar a considerar a necessidade de utilizar bem o tempo para potencializar os talentos pessoais, a fim de melhor servir aos demais. “Nós somos os únicos responsáveis pelas coisas que jogamos dentro de nós. Se não somos totalmente responsáveis, pelo menos temos o controle da grande maioria das coisas que comemos, lemos, assistimos, ouvimos e tocamos. Assim, temos que assumir o controle do que permitimos entrar pelos nossos sentidos. Se não assumirmos esse controle, outras pessoas assumirão, e aí perderemos o domínio de nós próprios”, diz Luiz Marins.

             Os olhos e os ouvidos são os porteiros da alma, e por onde entra o bom ou o vil. Para encontrar o ouro é preciso peneirar o cascalho ou arrancar a ganga. Selecionar os conteúdos na internet leva a priorizar assuntos de maior interesse, seja no campo da orientação familiar, profissional, entretenimento, cultura, artes (literatura, pintura, teatro, escultura, música). Palestras, vídeos, áudios, filmes e artigos estão disponíveis na web, mas é necessário distinguir o brilho falso das lantejoulas, que tornam a vida estéril, para não borboletear nas redes sociais apenas para satisfazer a ânsia de curiosidades, que transforma a memória e a imaginação em loja de bricabraque ou de quinquilharias.

    2- Aproveitar melhor o tempo: o descanso criativo

             O excesso de imagens e informações desencontradas dá a ilusão de se conhecer muitas coisas, mas na realidade fomenta o vazio intelectual porque a inteligência não consegue processar ou encontrar sentido em tantas informações desencontradas. Com isso, a mente se torna preguiçosa, arredia e incapaz de se aprofundar em assuntos que valem a pena, ou manter a atenção em algo que exija esforço.

             Para um descanso criativo, melhor do que gastar seis ou sete horas na semana em redes sociais (cujo efeito é como água que escorre sobre a pedra, sem penetrar), é investir esse tempo, por exemplo, na leitura de um bom livro como “A morte de Ivan Ilyich”, de Tolstói, o “Pequeno Príncipe”, de Saint Exupéry, entre muitos outros, pois são leituras que penetram na alma e a enriquecem, já que os grandes mestres da literatura penetram com profundidade na alma humana, e seus personagens fornecem janelas que permitem a compreensão de si e dos demais. Um verdadeiro leitor não gasta seu tempo limitado rolando telas de celulares e tabletes a procura de frivolidades, nem “lendo mil livros medíocres que embotam seu senso crítico e ferem sua sensibilidade literária” (Nicolás Gómez Dávila).

    3 – Assumir valores que orientem a vida

             Conhecer melhor aquilo que se ama faz parte da natureza humana. Fernando Sarráis, em seu livro Maturidade psicológica, diz que quando se ama algo bom, busca-se conhecer aquilo que é amado, e o amor aumenta mais o desejo desse conhecimento. Assim, podemos afirmar que aquele que perde tempo em curiosidades frívolas não ama senão à própria preguiça ou comodidade, sendo esta a razão pela qual não se interessa por empenhar-se a conhecer algo com maior fundura.

            O ser humano sempre age em vista de valores que assume como importantes, e que passam a orientar suas ações e escolhas. Portanto, os valores agem como critérios ou guias da existência pessoal. Quando esses valores se orientam à verdade e ao bem, enriquecem a personalidade, mas se buscam apenas um entretenimento superficial, a vida não passará de casca que oculta um buraco negro e vazio.

            Ensinam José Angel Lombo e Francesco Russo que cada pessoa se constrói ao buscar valores hierarquicamente estruturados, e de acordo com o que considera importante para sua vida. Os valores não são neutros, nem apenas algo teórico, mas performativo ao envolver a pessoa inteira pela livre adesão a eles. A hierarquia de valores estabelece as preferências pessoais mediante formas de comportamento: por exemplo, se alguém tem como valor a família, o estudo ou a solidariedade, saberá empenhar-se para vivê-los na prática. Um valor que não é assumido vitalmente, fará a pessoa não se interessar por ele, mesmo que o considere de relevo. Os valores assumidos fazem entrar em ressonância não apenas a inteligência, mas também a afetividade (sentimentos, emoções e paixões).

    4 – Coerência entre o que se acredita e o que se vive

             “A autorrealização do homem será plena na medida em que se orienta a valores mais elevados, e não a valores relativos e passageiros: quem assume como valor maior de sua vida a riqueza, o prazer ou o bem-estar, a sua existência será exposta à instabilidade própria desses bens sensíveis. Se, pelo contrário, referir-se a valores estáveis e universais, a sua liberdade se elevará, no sentido de que as potencialidades espirituais se estenderão a objetos que não se exaurem: a amizade, a solidariedade, o amor a Deus, que não têm limite próprios e não são contingentes”, afirmam José Lombo e Francesco Russo.

             Hoje ocorre a perigosa cisão entre a verdade teórica e a verdade prática, entre o que o indivíduo reconhece e considera verdadeiro, e, portanto, um valor, e o reflexo dessa verdade ou valor na conduta pessoal. Se falta essa coerência, essa autenticidade, os valores acabam por parecer indiferentes e sem força para conduzir a ação ou o comportamento pessoal. Ocorre o relativismo dos valores, que deixam de ser universais e passam a ser um joguete pessoal e subjetivo, portanto volátil. E quando não há coerência entre aquilo que se tem por verdadeiro, a conduta humana perde referências e a pessoa deixa de julgar retamente.

    5 – O que é frívolo empobrece a alma

             Cada um é plenamente responsável por selecionar e assumir os valores que considera como verdadeiros, e afastar-se do que é frívolo, faz perder o tempo e empobrece a alma. E como o bem é difusivo, ter o zelo de ajudar os filhos e os amigos a assumirem os valores que enriquecem a alma, e ajudá-los a aproveitar melhor o tempo. Essa responsabilidade inclui a atenção às crianças, que vivem hoje no meio de muitas informações e imagens digitais desnecessárias, e que as tornam passivas, sedentárias, preguiçosas… O que mais necessitam as crianças é da atenção, carinho e do tempo dos pais, além de se aterem às realidade simples ao seu entorno.

    Texto elaborado por Ari Esteves com base nos livros “Antropologia Filosófica”, de José Angel Lombo e Francesco Russo, Editora Cultor de Livros, São Paulo (SP), 2020; “Maturidade Psicológica e Felicidade – A educação da afetividade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros; e “Ética, virtudes, valores”, de Luiz Marins, da Integrare Editora e Livraria Ltda, São Paulo (SP), 2022.

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  • Para evitar o consumismo infantil

    Para evitar o consumismo infantil

        Fomente na criança desde as primeiras idades o gosto por bens que não sejam exclusivamente materiais. Mantenha-se firme diante da insistência dela ao pedir brinquedos fora de datas especiais (Natal, aniversário ou outra ocasião importante), a fim de não acostumá-la a ter regalos fora de época, que a levarão a não valorizar o esforço dos pais.

         Sugestões para a criança desenvolver o gosto por bens não materiais, além de afastá-la do vício dos celulares ou tabletes:

    • Contar histórias: todos gostamos de ouvir histórias! Leia para a criança os clássicos infantis: elas ficarão encantadas ao ver se materializar em personagens, de forma criativa, o bem a praticar e o mal a evitar. No site staging.ariesteves.com.br/, página Literatura Infanto-Juvenilhá uma lista com títulos de excelentes obras e seus autores. No conhecido site www.estantevirtual.com.br é possível adquirir livros seminovos a baixo custo;
    • Tertúlias ou bate-papos familiares: convide parentes ou amigos para uma tertúlia ou bate-papo, a fim de que conte alguma experiência interessante: viagem, alpinismo, excursões, fotos, colecionismo, esporte que pratica, música, pintura…;
    • Museus e Exposições: visite com a criança museus e exposições de quadros ou esculturas. Transforme essa atividade em jogo de encontrar. Para isso, visite antes o site da instituição e imprima as imagens das obras que ela mais gostou. Depois, ao chegar no local, peça à criança para localizar as escolhas feitas, sem fazer juízo de valor para não inibi-la, caso você não aprecie a obra, e pergunte: – Se você fosse a autora desse quadro, que mais colocaria nele? (a criança fixará mais a atenção na obra e dará sua criativa sugestão);
    • Música: desenvolva o gosto da criança pela boa música, popular ou clássica, a fim de que ela não ouça apenas as canções de consumo veiculadas pelas mídias ou pelos paredões de sons em veículos que infernizam os bairros populares com péssimas músicas. Leve a criança a locais onde possa ouvir músicos tocarem ao vivo e anime-a aprender um instrumento musical. Convide parentes e amigos que tocam algum instrumento musical para se apresentar em sua casa;
    • Teatro infantil: leve a criança ao teatro infantil, mas informe-se antes e não vá se a peça apresenta contravalores. Incentive-a a montar pequenas peças teatrais em casa, junto com outras crianças (as Fábulas de La Fontaine, e muitas outras, são facilmente representáveis);
    • Livrarias e exposições: vá com a criança a livrarias, feiras de livros e exposição de flores ou plantas para ela se encantar-se com muitas formas de beleza;
    • Programar desenhos: assista desenhos que tornem fácil para a criança perceber valores ou contravalores, e depois troque impressões com ela. Sobre a verdade e a mentira veja Pinóquio, de Carlo Collodi; A verdade segundo Arthur, de Tim Hopgood; Pig, o Travesso, de Aaron Blabey…
    • Vídeos culturais: a criança desconhece muitas coisas interessantes. Descubra aquelas que possam se interessar mais: animais, aviões, foguetes, montanhismo, mágicas, circo…;
    • Desenvolver habilidades: se a criança tem algum dom especial (esportivo, desenho, canto, dança, gosto por barcos ou mar, astronomia, matemática…), assista com ela vídeos que a incentivem a se aprofundar nos temas de interesse. Com isso, os pais estarão preparando um futuro jovem que poderá participar mais ativamente do mundo da cultura, ciência ou arte;
    • Saraus em casa: promova em casa encontros para contação de histórias, recitação de poesias e leituras de livros. Convide parentes ou amigos para ajudar nas narrativas;
    • Contemplar a natureza: é muito importante para a criança desenvolver a sensibilidade para o belo. Programe com a família um passeio mensal e passe o dia no campo, parques arborizados, jardim botânico, zoológico;
    • Crie brinquedos simples: se a criança insiste em ter brinquedos caros, construa brinquedos com embalagens vazias de produtos caseiros, pois ela terá carinho especial pelos que foram feitos pelos seus pais. Junte potes e embalagens plásticas para ela organizar e colecionar;
    • Aprender a poupar: para a criança compreender que dinheiro não nasce em árvores, e que os pais o adquirem com grandes esforços, antes de ir ao supermercado combine com a criança quais produtos irão comprar, e quanto poderão gastar. À medida que um produto vai para o carrinho, faça a conta de subtração junto com ela, e peça a ajuda dela para pesquisar nas prateleiras produtos mais em conta.

        Para compreender melhor os efeitos negativos do consumismo infantil, sugerimos a leitura de outro boletim com o título “Consumismo infantil”, em nosso site.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Ryutaro Tsukata

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  • Diga não ao palavrão

    Diga não ao palavrão

     1 – Não se acostumar com os palavrões. 2 – As palavras revelam a interioridade da pessoa. 3 – Palavrões ditos por crianças. 4 – Como reagir diante de quem fala muitos palavrões

    1 – Não se acostumar com os palavrões

        Qualquer pessoa que reflita um instante acerca do palavrão que ouviu ou proferiu, chegará à conclusão de que foi uma grosseira que deve ser evitada por todos, sejam adultos, adolescentes ou crianças. É desgastante e incômodo conviver com pessoas que falam palavrões a torto e a direito, porque revelam pobreza interior e embrutecimento do espírito.

        Parece que praguejar e dizer palavrões alivia as dores de quem se machucou, irritou-se ou não soube expressar com exatidão sua admiração. Os palavrões mais utilizados têm conotação provenientes de desordens sexuais, e há pessoas acostumadas a pronunciá-los, mesmo sem intenção de ofender alguém, e que mal percebem a estranheza que causam, tal como aquele cuja sudorese cheira mal e não capta que desagrada aos demais.

        Se nos policiamos para evitar o “né” enquanto falamos, com mais razão devemos nos resguardar dos palavrões, que podem revelar o que trazemos por dentro, e que determinam o modo como pretendemos ser tratados nos ambientes em que frequentamos. Palavrões são formas pouco eloquentes de expressar emoções, e revelam um vocabulário limitado e atrofia da capacidade de expor com precisão os próprios sentimentos. Tal vazio verbal provém da fuga dos livros de literatura, cuja leitura estimula a atenção que se deve dar às palavras, e sua falta empobrece o rol de expressões e conceitos, e induz empregar palavrões como tentativa de realçar o que se quer dizer. Quem leu Dom Quixote, de Miguel Cervantes, poderá constatar o modo rico e criativo com o qual o Cavaleiro Andante, que reproduzia a fala do homem de sua época, maldizia algumas ações de seu escudeiro; Jesus Cristo não utilizou palavrões, mas serviu-se de expressões fortes para enquadrar algumas pessoas ou situações: “sepulcros caiados”, “raça de víboras”, “tardos de inteligência”, “hipócritas”. Ou seja, há maneiras mais ricas e criativas para expressar desacordo ou admiração.

    2 – As palavras revelam a interioridade da pessoa

        O bom emprego da palavra é manifestação de justiça e promoção do bem comum material e espiritual, ao que todos devem contribuir. A cortesia e a delicadeza no trato com os demais temperam os diálogos. Não se trata de medir ou calibrar milímetro a milímetro o sentido preciso e o alcance de nossos gestos e palavras, mas tampouco devemos dar rédeas soltas a tudo que nos vem à boca, sem discernir bem sobre o que estamos nos referindo. A falta de educação e as incorreções verbais revelam ausência de fineza espiritual e pouco domínio do próprio temperamento e dos estados de ânimo.

        O emprego do palavrão pode estar na maledicência, na crítica destrutiva, no ridicularizar, no bancar o engraçado ao utilizar-se de imagens sexuais como fazem os maus humoristas, na admiração ou estupefação diante de algo que assombrou. Todo indivíduo deve acomodar seus atos e palavras à lei moral, pois se trata de uma exigência fundamental da verdade e do respeito à dignidade das pessoas. Como afirma Matheus (XII,16), os palavrões não deixam de ser expressões ociosas que cada um deverá dar conta no dia do juízo. Tomás de Aquino ensina que a ordem das palavras e das ações exige que estas sejam conformes à realidade que expressam, tal como o sinal se adequa à coisa significada, sendo isso exigência da virtude da veracidade. A verdade enquanto conhecida pertence ao entendimento, e as palavras devem ser utilizadas para expressar a verdade. Se é próprio da virtude da veracidade a adequação entre o que se fala e o que se pensa (a interioridade se extravasa para a exterioridade), parece lógico que os palavrões tendem a se opor à verdade, pois sua malícia está na mentira ou no modo irrefletido de enunciar algo que é falso, e se não for falso, trata-se, então, de não difamar ninguém.

        Ouvir palavrões pela boca de mulheres é experiência que dói aos ouvidos dos homens, porque a delicadeza e os sentimentos femininos, tão necessários para humanizar e tirar as asperezas deste mundo, se estilhaçam como uma peça de cristal lançada ao chão; ouvir palavrões de crianças causa estranheza, perplexidade, porque faz desmoronar a ingenuidade e simplicidade próprias da idade, tão necessárias para desarmar o coração dos adultos de sua autossuficiência. Entre os adolescentes os palavrões parecem ser um modo de autoafirmação, de querer se integrar a um grupo ao tentar reproduzir as falas deste, mas se o adolescente é respeitado e ouvido pela família, não necessitará de palavrões para se fazer querido e objeto de atenções.

    3 – Palavrões ditos por crianças

        A criança pequena não entende o que diz, e repete o palavrão porque percebe a reação de choque ou, infelizmente, de riso dos adultos, o que a fará repetir o dito para receber a atenção que lhe falta; ou porque reproduz palavras que ouviu em casa ou na escola. Não achar divertido os palavrões pronunciados por elas, a fim de não as incentivar a repeti-los em outras ocasiões, muitas vezes embaraçosas. É importante explicar às crianças que há palavras que não devem ser ditas nem casa, nem na escola ou na rua, monitorando-as diante do que é sofrível. O ambiente familiar representa muito na educação das crianças: se a família é educada e as pessoas se tratam com respeito e carinho, o palavrão será naturalmente desestimulado, pois surgirá como nota estridente na harmonia de uma sinfonia; se há indelicadezas e desrespeitos, os palavrões serão reproduzidos de forma espontânea.

        Não exagere em suas reações diante de um palavrão pronunciado por uma criança, pois melodramas reforçam o comportamento com o qual ela quis chamar a atenção; também não ria, como já dissemos, a fim de não incentivá-la a repeti-lo: considere que a criança é uma aprendiz da fala, e não percebe a gravidade do que possa dizer; porém, alerte-a de que tal palavra é feia e não deve ser dita porque machuca e desagrada a todos. O vício dos palavrões vem sendo incentivado por filmes, videogames, novelas ou músicas cujo falso naturalismo faz os personagens dizerem palavras inadequadas. Na escola, os adolescentes costumam seguir o exemplo de amigos, sendo este mais um motivo para os professores enriquecerem o vocabulário dos alunos.

    4 – Como reagir diante de quem fala muitos palavrões

         Devemos nos empenhar para respeitar a pessoa e sua liberdade, e tratar a todos com extrema delicadeza. Se quem diz palavrões for um adulto, de modo simpático e respeitoso podemos lembrá-lo de não dizer tais palavras, até que aos poucos a indicação penetre na consciência dele. Se excepcionalmente for necessário corrigir um adulto com mais energia, nunca deixar-se arrastar por apaixonamentos a fim de que as palavras não o venham a ferir ou magoar; após a correção, lançar o balsamo da simpatia para curar, e afirmar que naquele momento foi necessário proceder daquele modo. Se a correão deve ser feita em uma criança, como já foi dito acima, explicar com calma e simplicidade que certas palavras não devem ser pronunciadas porque são feias e ofensivas. Já com os adolescentes, explicar as vantagens e importância de se comunicar de maneira limpa, saudável e criativa.

    Texto elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Sara Shimazaki.

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