1 – Toda pessoa busca ser feliz. 2 – Existe uma hierarquia entre os valores. 3 – Coerência entre o que se pensa e a conduta. 4 – Há vidas exemplares que transmitem valores.
1 – Toda pessoa busca ser feliz
Que valores ou princípios regem a minha vida? Sendo guia ou referência para o agir humano, enganar-se na escolha de um valor poderá ser fatal, pois construir a vida sobre o erro é caminho para o fracasso. Nada melhor que andar na verdade sobre nós mesmos e sobre as realidades que nos cercam. Uma verdade que se torna critério é um valor para reger a conduta. O homem age em vista de finalidades ou valores prévios que guiam suas escolhas, sempre orientadas para a felicidade própria, já que ninguém procura ser infeliz. Porém, a almejada felicidade está dentro da esfera da verdade e do bem não teóricos, mas práticos, alcançáveis. Busca-se o que se considera importante dentro de uma hierarquia de valores que compara um bem em relação a outro: quem procura manter a saúde avalia o grau de colesterol dos alimentos; quem dá valor ao descanso programa um divertimento sadio para o fim de semana, mas substitui esse valor pelo da caridade a fim de visitar o amigo que soube estar internado num hospital. Se não houvesse capacidade de ordenar os desejos, segundo um pondo de vista objetivo, predominaria o conflito entre as diversas pretensões pessoais.
Guardini disse que valor é aquilo pelo qual um ser é digno de ser, uma ação é digna de ser cumprida. O valor é uma qualidade inerente à realidade; é um aspecto do bem e da verdade, que são inseparáveis, que emanam do objeto que se conhece, e se torna um bem para a pessoa e para os demais. O fundamento de um valor não está no sujeito que o conhece, mas em cada ser criado, que faz transcender de si valores como verdade, bondade e beleza, perceptíveis ao colher dele sua inteligibilidade, bondade e beleza emanados em grau diversos, o que permite compreender que há valores mais elevados em relação a outro.
Os valores estão ligados à realidade e não são os homens que os estabelecem de modo arbitrário. Não podemos colher a beleza e a verdade de modo absoluto, porque só Deus Absoluto. Porém, cada ser participa do belo e do verdadeiro não por se tratar de produto da mente humana, mas porque a beleza e a verdade são transcendentes e universais: uma flor no alto de uma montanha continuará sendo bela mesmo ninguém a veja, mas porque participa da beleza da criação em pequeno grau da beleza absoluta de Quem a criou. Analogamente, o fundamento dos valores transcende a subjetividade pessoal, e ao homem cabe se abrir com sua inteligência e vontade para acolhê-los.
Portanto, os valores são guias e critérios de conduta, e à medida que se orientam para bens mais elevados, realizam e tornam mais feliz a pessoa. Se alguém assume como guia de vida a riqueza, divertimento ou o bem-estar, sua existência se exporá à instabilidade própria desses bens sensíveis e passageiros. Porém, se busca valores estáveis e universais – portanto, não contingentes ou passageiros –, plenifica e eleva de forma duradora sua vida: amizade, solidariedade, amor a Deus, desejo de montar uma família, aperfeiçoar suas habilidades ou talentos pessoais para melhor servir aos demais…
2 – Existe uma hierarquia entre os valores
A capacidade de distinguir entre o mais e o menos importante é condição para o desenvolvimento pessoal e dos demais. Isso porque há valores estáveis, objetivos, que não dependem de estados de ânimo ou da opinião pessoal, pois a verdade é uma adequação da inteligência com a realidade externa.
A dimensão reflexiva é necessária para cultivar convicções pessoais fortes e profundas, ilumina a consciência, permite dar respostas coerentes com as próprias ações, e ajuda a formar as inclinações naturais para desejar, mesmo sensivelmente, o que é verdadeiramente bom para a pessoa.
Capta-se o grau de um valor ao tornar os interesses objetivos, fugindo de subjetivismos: procurar saber o que define a boa música, a boa literatura, o bom vinho fará crescer o conhecimento desses seres porque se objetivou os próprios interesses, elevando, assim, a capacidade de compreender e distinguir o mais e o menos importante, condição essa para crescer em conhecimento e para ajudar aos demais. Basear o comportamento pessoal apenas em estados de ânimo, e não na ordem objetiva da realidade, faz perder a harmonia consigo e com os demais: a incapacidade de ordenar os próprios desejos, segundo um ponto de vista objetivo, gera permanente conflito entre as diversas pretensões e satisfações pessoais.
Ao desenvolver a capacidade de intuir a qualidade de um valor autêntico e verdadeiro, cada objetivo pessoal será escalonado na posição superior ou inferior, independente do gosto, da experiência pessoal ou dos estados afetivos. Os valores são objetivos e universais, e não subjetivos, relativizáveis, e se impõem por si mesmos, e não pelo que cada um acha, ou pelo que acham muitas pessoas. Quem se enclausura na sua subjetividade e entroniza o seu eu como fundamento da verdade, deixando de lado a realidade ou a verdade externa de cada ser, se equivoca em seu individualismo e chegará a padecer de muitos problemas psicológicos devidos a essa incoerência com o real.
3 – Coerência entre o que se pensa e a conduta
Se houver cisão entre a verdade teórica e a verdade prática, entre o que o indivíduo considera verdadeiro e sua conduta pessoal, ocorrerá a duplicidade de vida que enfraquecerá a personalidade e destruirá o caráter, como ocorre a quem repele teoricamente o suborno, mas aceita propinas indevidas. A Falta de coerência entre o que se tem por verdadeiro e a conduta leva à incapacidade de julgar retamente, reflete a falta de valores, demonstra não se acreditar em valores universais, e indica que as escolhas pessoais dependem apenas do gosto de cada um, que cria seus próprios valores independente de verdades objetivas.
4 – Há vidas exemplares que transmitem valores
Os valores que cada um persegue tem muito a ver com as atitudes e comportamentos cotidianos, transmitidos sobretudo pela família. Quando os pais mostram a importância de um bem em relação a outro, cria nos filhos a ressonância necessária para que um valor não caia na indiferença, mas seja assumido: de nada adiantaria, por exemplo, falar da importância da solidariedade ou do estudo, se não houvesse interesse dos filhos em aceitar tais valores, que devem ser reconhecidos e apreciados de acordo com a sua importância, a fim de que por uma adesão livre envolvam a pessoa inteira: cabeça e coração ou vontade e sentimentos.
Além do aprendizado que devem oferecer os pais ou responsáveis, outro modo de reconhecer e assumir valores ocorre por meio do mimetismo ou do exemplo de vidas admiráveis, oferecidas nos relatos de heróis que vivem ou viveram uma vida cheia de significado, deixando de lado uma cômoda segurança para se arriscarem por algum grande ideal. As biografias de pessoas valorosas ou de santos, que são heróis religiosos, os bons filmes e a boa literatura também são modos de conhecer e assumir valores. Pode-se adotar como modelos pessoas que na vida familiar, profissional ou social são exemplares por suas virtudes.
A sociedade atual está influenciada por pessoas famosas no campo artístico, esportivo ou profissional, mas contraditórias, inconstantes e superficiais no comportamento pessoal. O pior ocorre quando pelo fenômeno do intrusismo (de intrusos), esses famosos se põem a dar critérios sobre temas que desconhecem: família, amor humano, direito à vida, casamento, sexualidade humana, etc. Ao utilizar o prestígio que o dom artístico ou esportivo lhes oferece – dom que receberam gratuitamente Deus –, põem-se a pontificar sobre temas que desconhecem, e acabam influenciando a muitos com inverdades, principalmente aos jovens.
Concluímos ao vincar que um valor verdadeiro é universal e busca o bem do homem, e não apenas o de um homem, para não incorrer no risco de esvaziar o conceito de valor ao torná-lo um subjetivo e de clichê.
Texto adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base no livro “Antropologia Filosófica”, de José Angel Lombo e Francesco Russo, Editora Cultor de Livros, São Paulo, SP, 2020. Imagem de Justina Ražanauskaitė
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