Categoria: EDUCAÇÃO

  • Carinho sem mimo, firmeza sem autoritarismo

    Carinho sem mimo, firmeza sem autoritarismo

             Concessões contínuas e mimos excessivos são uma espécie de visgo que seduz e prende os filhos no cordão umbilical psicológico da perpétua e desvirtuada dependência que, falsificando o verdadeiro amor, alimenta possível caráter possessivo da paternidade ou da maternidade.

             Dar mimo é uma forma de demonstrar amor e carinho, mas quando se torna excessivo, pode trazer consequências negativas, especialmente no desenvolvimento emocional e comportamental de crianças: baixa tolerância à frustração ou diante de um não; falta de autonomia ou capacidade para desenvolver problemas, tomar decisões e ser responsáveis pelos seus atos; comportamentos egocêntricos ao acreditar que o mundo deve girar à sua volta, o que dificulta a empatia e o respeito pelos demais; dificuldades sociais em partilhar, colaborar, aceitar regras no ambiente escolar e com amigos; pouca resiliência na juventude e vida adulta ao se sentir frustrados e abatidos diante das dificuldades…

             À supermãe ou ao superpai corresponde um infrafilho, com pouca capacidade de voar alto. Autoridade e carinho devem partir tanto do pai como da mãe, sempre de modo dosado. Um lar com excessiva de autoridade e sem carinho transforma-se em quartel; um lar com excesso de mimos e sem autoridade se transforma em fábrica de doces maria-mole. Mimos que levem pais e mães a exigirem pouco formam desfibrados para assumirem responsabilidades.

             O verdadeiro carinho opõe-se tanto ao autoritarismo como ao mimo que escraviza os filhos. Mimo não é carinho, mas elevada dose de açúcar que faz aumentar a “diabetes do espírito” e se converte em busca de frivolidades e compensações egoístas. O amor autêntico deseja o bem da pessoa amada, sendo oferecido com coragem, paciência e intransigência diante dos deveres.

             Pais que tiveram de lutar a sério na vida e ultrapassaram barreiras sem conta, mas que depois dão aos filhos uma vida cômoda, mole; ou que foram educados autoritariamente e agora adocicam excessivamente a vida dos filhos, pagarão alto preço por esse erro pedagógico.

             Proteger os filhos de toda espécie de dificuldades enfraquece o caráter e debilita a vontade deles ao retirar-lhes as ocasiões de crescerem em fortaleza, resiliência. Grande é a sabedoria de habituar os filhos ao esforço de dormir e acordar na hora certa, de não fugir dos encargos familiares, de estudar na hora certa, de comer o que se põe na mesa, de arrumar a própria cama e não deixar esse serviço para a empregada… Quando são poupados dessas tarefas, os filhos se enclausuram em planos pessoais, e dão de ombros às necessidades dos demais.

             Certa vez, um taxista foi chamado por uma mãe para levar o filho dela, adolescente, à escola. A primeira pergunta que ouviu da senhora foi se o carro tinha ar-condicionado. Sendo negativa a resposta (o equipamento seria reparado no dia seguinte), a mãe disse: – Meu filho só anda em carro com ar-condicionado. Sem comentários… Outra mãe, superprotetora, deu o seguinte conselho ao seu filho recém-saído da academia de aviação: – Meu filho, voe baixinho e devagar, sem desconfiar que a pior orientação a ser dada a um piloto. Cabe lembrar o velho ditado que diz “Com churros não se faz alavanca!”.

             O carinho é fundamental e todos necessitam dele. Mas não do carinho mal-entendido, meloso e desequilibrado, que fomenta fraquezas e deforma o caráter devido às concessões e dispensas do cumprimento do dever. Filhos não são reis que imperam sobre servos que lhes suprem em tudo o que deveriam fazer. O verdadeiro carinho suaviza o trato, mas não teme exigir, o que faz crescer a autoridade legitima dos pais. Filhos assim educados agradecerão por toda a vida a compreensão de que não terem sido criados apenas como sujeitos de direitos, mas também de obrigações filiais-paternais.

  • Saber ouvir

    Saber ouvir

             Nos diálogos cotidianos, duas atitudes são frequentes: ouvir com atenção e interesse ou, ao contrário, escutar de corpo presente, mas com a mente em outro lugar. No entanto, toda boa conversa necessita da escuta atenta para compreender melhor ao outro e construir vínculos profundos e relacionamentos mais humanos: ouvir com atenção é reconhecer que a pessoa que nos fala é naquele momento a mais importante.

             O livro Manu, a menina que sabia ouvir, de Michael Ende, ilustra com ternura a virtude de bem ouvir: Manu escutava com tal empatia e atenção seus interlocutores que, ao desabafarem, acabavam encontrando por si mesmos as respostas que buscavam.

             Os diálogos verdadeiros deixam marcas, provocam reflexões e fazem compreender os sentimentos mútuos. Mesmo quando o assunto não interessa, ouvir com atenção não é hipocrisia, mas obra de caridade, esforço sincero para superar os próprios gostos e tornar agradável a vida aos demais. Quem ouve com atenção passa a ter como próprias as alegrias ou inquietações de quem fala. Além disso, compreender os sentimentos do outro abre campos de conversação e enriquece a ambos os interlocutores.

             Ao se ouvir dizer que tal pessoa sabe escutar, logo vem à mente tratar-se de alguém cujo olhar parece indicar: – O meu tempo é seu; pode falar, pois quero ouvir você. O modelo maior dessa virtude tão atrativa é Cristo, que ouvia com atenção as dores e preocupações dos que falavam com Ele: o jovem rico, as crianças, Nicodemos, a Samaritana, o cego Bartimeu…

             É comum crianças e adolescentes afirmarem que seus pais não lhes dão atenção quando falam, porque não se interessam pelos seus temas. Ter boa comunicação com os filhos é o que todos os pais têm de ansiar, pois se esta porta se fecha não há como educar. A verdadeira comunicação é uma estrada de duas mãos: a de falar e a de ouvir de forma aberta e interessada. Ou seja: falar com o filho (dialogar) e não falar para o filho (monologar), pois estes precisam se sentir aceitos pelos pais, com demonstrações práticas de afetos: – Compreendo, filho, o que você está me dizendo; ou por meio de linguagens não verbais que revelam os sentimentos paternos ou maternos pela postura, sem que digam palavra alguma: olhar nos olhos, ouvir com atenção, expressões faciais e tom de voz são mensagens positivas que abrem caminho para uma grata conversação (leia o boletim Comunicação com os filhos)

             Sugestões para uma escuta virtuosa, base para um diálogo enriquecedor:

    • Nunca interrompa quem fala; acolha-o com paciência: quem não encontra espaço para falar percebe que seu interlocutor só se preocupa consigo mesmo.
    • Ao escutar, não fique pensando na resposta que dará ao que fala, como quem quer adaptar a realidade aos próprios interesses: apenas ouça-o com empatia.
    • Fuja de respostas insubstanciais, estereotipadas e que caem no tópico ou frase feita porque não compreendeu ou se desinteressou pelo que foi dito.
    • Evite a presunção de valorizar a própria opinião e os gestos afetados e prepotentes e ao falar.
    • Combata a soberba de ficar suscetível diante de opiniões que discordem de seu parecer, de tratar continuamente sobre si mesmo e de querer dar a última palavra em tudo.
    • Não seja professoral ou como quem fala de cima para baixo, mas ofereça apenas um testemunho pessoal, sem fazer afirmações veementes.
    • Quando alguém se aproximar para conversar, suspenda o que estiver fazendo e dedique toda a atenção a ele.

             Ouvir é mais que uma técnica: é virtude, modo de amar com verdadeira caridade; é sinal de maturidade; é se tornar pessoa confiável, profundamente humana que criadora de relações duradouras: quem ouve atentamente está mais próximo de aconselhar com prudência e acerto. A arte de falar leva em conta a arte de escutar para saber o que dizer. O espírito de quem sabe ouvir se renova constantemente com as novas ideias que recebe com sinceridade e interesse.

  • Frutificar os talentos e dons recebidos

    Frutificar os talentos e dons recebidos

             Todos nós recebemos gratuitamente, como parte do nosso “DNA interior”, qualidades pessoais e capacidades únicas. Cabe a cada um descobri-las, desenvolvê-las e colocá-las a serviço do crescimento humano, profissional, cultural e espiritual, tanto próprio como daqueles que nos rodeiam: amigos, colegas, vizinhos, companheiros de trabalho ou de escola.

             Os talentos se manifestam de maneiras variadas: organizar, fazer, ensinar, escutar, criar, ajudar, unir. É essencial identificar essas capacidades e potencializá-las, aproveitando bem o tempo para não correr o risco de desperdiçá-las com frivolidades e curiosidades, caindo em uma vida superficial e vazio interior.

             Um exemplo luminoso de quem soube avaliar suas possibilidades foi a vida de Maria de Lurdes Guarda, que faleceu em 5 de maio de 1996. Ela ficou paraplégica por erro médico e passou os primeiros vinte anos da doença revoltada. Mas, ao colocar-se diante de Deus para saber qual era a vontade dEle, entendeu que ainda podia ajudar outros paraplégicos e doentes crônicos. Desde sua cama, e usando os únicos movimentos que conservava — dos braços — passou a escrever cartas e fazer telefonemas a pessoas desesperançadas. Ajudava-as a encontrar sentido, coragem e até meios práticos para sustentar suas famílias. Ela os animava a viverem a doença unidos à Cruz de Cristo. Sua vida frutificou intensamente. A Diocese de Jundiaí, sua cidade natal, deu início ao processo de sua beatificação.

             Há muitos tipos de talentos ou qualidades pessoais. Eis alguns exemplos:

             Talentos Criativos: desenhar ou pintar, escrever bem (textos, poesia, histórias), cantar ou tocar instrumentos musicais, atuar ou se expressar artisticamente, criar ideias novas (design, soluções originais, inovação)…

             Talentos Intelectuais: facilidade com lógica e raciocínio, capacidade de aprender rapidamente, habilidade em matemática ou ciência, espírito analítico e crítico, boa capacidade de concentração e foco…

             Talentos de Comunicação: falar em público com clareza e persuasão, ouvir com empatia e atenção, escrever com impacto, ensinar com paciência e didática, inspirar e motivar pessoas…

             Talentos Interpessoais: trabalhar bem em equipe, resolver conflitos com diplomacia, liderar com empatia, fazer amizades com facilidade, gerar confiança…

             Talentos Práticos: habilidade manual (consertar, construir, costurar, cozinhar…), organizar e planejar, gerenciar o tempo com eficiência, cuidar de ambientes ou de pessoas com atenção, facilidade com tecnologia ou ferramentas…

             Talentos Emocionais e Espirituais: intuição sensível, paciência e autocontrole, capacidade de perdoar ou acolher, sabedoria para aconselhar, disposição para servir e ajudar os outros…

             Esses talentos se manifestam de forma única e mais intensa em cada pessoa. O importante é reconhecê-los e colocá-los a serviço do bem comum. Como propõe este boletim: é preciso frutificar os talentos e os dons recebidos.

             O que não pode acontecer é alguém paralisar-se diante dos talentos dos outros, comparando-se com inveja e esquecendo-se de valorizar os próprios dons. Toda pessoa tem potencial para alcançar grandes resultados, desde que se proponha a examinar com honestidade suas capacidades — sejam pequenas ou grandes — e fazê-las frutificar por amor a Deus e aos demais.

             É verdade que podemos “enterrar” nossas qualidades quando ficamos presos às limitações. No entanto, o maior fruto que podemos dar é o amor. Qualquer pessoa pode amar, se for generosa. O segredo da felicidade está precisamente nas obras de amor.

             É fundamental incentivar crianças, adolescentes e jovens a descobrirem suas aptidões, sem forçá-los para áreas que não correspondam às suas inclinações. Vale ajudá-los a investir o tempo com sabedoria e aproveitar melhor o tempo, não desperdiçando-o em redes sociais ou games, mas em bons podcasts, vídeos, livros, visitas a museus e ambientes culturais ou científicos que despertem e entusiasmem para corresponder à vocação à qual estão chamados.

  • Qual a idade certa para seu filho ter um celular?

    Qual a idade certa para seu filho ter um celular?

             Não é a idade que determina se uma criança pode ou não ter um celular, mas uma qualidade chamada autodomínio ou capacidade de não se deixar dominar pelas coisas ou gosto pessoal, também chamada de virtude da temperança. Se para os adultos é difícil ter autocontrole para não consultar as redes sociais fora de hora, dada a imensa atratividade dos celulares, pensemos quão difícil é para uma criança agir temperadamente, pois ainda não domina seus sentimentos e paixões, nem desenvolveu o sentido de hierarquia para atender antes suas obrigações.

             No canal do Youtube LuzNaJornada1, a terapeuta familiar Daniela Monteiro oferece dicas preciosas para os pais identificarem o momento de dar um celular ao filho, para não gerar problemas a ele e aos pais.

             Para avaliar o momento em que a criança está apta para manusear um celular, os pais devem antes considerar certas atitudes comportamentais do filho:

             – Se é capaz de privar-se do seu gosto ou deixar uma brincadeira para cumprir o encargo que lhe foi determinado ou fazer a lição da escola;

             – Se reluta deixar de ver televisão e ir às refeições ou preparar-se para ir à escola;

             – Se pela manhã não levanta no horário e atrasa todo o planejamento familiar;

             – Se deixa de fazer frequentemente a lição de casa;

             – Se não respeita a autoridade dos pais e com raiva diz o que lhe vem à cabeça;

             – Se na mesa come ou bebe com avidez e exagero e não controla os impulsos e abre a geladeira fora de hora…

             Caso as respostas às perguntas acima forem afirmativas, não é o momento de dar ao seu filho um celular, pois o atrativo desse aparelho é muito grande e ele não terá forças para dominá-lo. Não ceder à chantagem emocional das crianças se disserem que foi um presente dos avós, ou porque os colegas de sala de aula possuem, ou porque têm dinheiro da mesada ou ganharam dos tios para comprar um celular…

             Ao invés de dizer um rotundo “não daremos a você um celular”, proponham a ele um desafio: – Você vai ter um celular assim que estudar diariamente e fizer as lições de casa, porque essas são suas obrigações principais. Os desafios podem ser outros: cumprir primeiramente os encargos que lhe foram atribuídos na casa, obedecer quando for indicado para ir dormir… Ou seja, seu filho deve ter a mínima capacidade de autodomínio e de dizer não a si e aos seus impulsos. Essa constatação poderá revelar que o filho mais novo pode ter um celular e o mais velho não.

             Quando seu filho apresentar traços de autodomínio, tenha uma conversa com ele para combinar o modo como deverá utilizar o celular. Será uma espécie de contrato com seis regras que vocês, pais, também se submeterão nas suas circunstâncias pessoais, a fim de dar exemplo:

             1 – O celular só deverá ser usado nos locais públicos da casa, e não no quarto ou banheiro;

             2 – Excluem os horários de uso do celular durante o tempo que está na escola (para os pais, na vida familiar e no trabalho), a fim de facilitar a concentração e a socialização do filho. A Daniela Monteiro explica que é possível liberar na escola o uso de aplicativos que interessam: Uber, calculadora, agenda, etc, e bloquear aplicativos que não interessam nesse período: se o tempo de uso do celular na escola for pequeno, não há problema algum.

             3 – Nos fins de semana a criança poderá utilizar o celular por duas horas, e não mais, para não se isolar ou viciar-se em condutas individualistas: deve gastar tempo para fazer esporte ou brincar ao ar livre, ler, conviver com os parentes e amigos, participar de atividades familiares…

             4 – Regular o tempo máximo para usar certos aplicativos, como por exemplo, 30 minutos para o Youtube ou outros, uma hora para games e desenhos para não se tornar passivo, preguiçoso e sem iniciativas;

             5 – Ficarão ativados filtros de conteúdo para adultos, a fim de impedir a entrada em sites, canais ou blogs com material viciante ou nocivo à saúde mental;

             6 – Não terá autorização para instalar aplicativos no celular, tais como certos jogos ou outras plataformas que levem a curiosiar e perder o tempo, a não ser que conte com o consentimento dos pais.

             Se o filho aceitar essas regras que vocês, pais, também procurarão vivê-las, podem entregar a ele um celular. Digam-lhe que as restrições desse contrato poderão ser amenizadas se ele souber administrar bem a própria liberdade, ou aumentadas se cometer abusos. Se no período de uso do aparelho ele reclamar das restrições, diga que foi o acordado e que vocês, pais, estão vivendo o combinado e que ele também precisa ser coerente com a palavra dada.

             No final do vídeo, Daniela oferece dois links que ensinam como configurar os aplicativos que controlarão o uso do celular em aparelhos androides ou da Apple.

             Aproveite para ler o boletim EDUCAR PARA A TEMPERANÇA

  • Critérios para condutas

    Critérios para condutas

            Necessitamos de verdades claras ou critérios que fundamentem a atuação pessoal. A diversidade de pareceres sobre tantas matérias, as diferentes situações que se apresentam no dia a dia, as notícias que chegam e exigem uma tomada de posição, tornam indispensáveis uns valores ou normas de juízo para acertar nas decisões. Que valores ou princípios regem a minha vida? Sendo guia ou referência para o agir humano, enganar-se na escolha de um valor faz construir a vida sobre o erro e encaminhar-se para o fracasso. Todos queremos ser felizes, mas é preciso saber distinguir entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso para construir sobre bases seguras e não sobre um iceberg à deriva pelo oceano. Atualmente não se pensa muito sobre o agir, e se atua segundo o gosto ou sentimentos do momento, sempre inconstantes.

            Deve haver coerência entre o que se considera verdadeiro e a conduta pessoal: quem repele teoricamente o suborno, mas aceita propinas indevidas, enfraquece seu caráter, perde a capacidade de julgar retamente e faz as escolhas dependerem apenas do gosto pessoal e não de verdades externas, objetivas. Quem se enclausura em sua subjetividade e entroniza o seu eu como fundamento da verdade, deixará de lado a realidade de cada ser, que é objetiva, universal e válida para todos os tempos, e padecerá as consequências de suas escolhas. Se não há capacidade de identificar os valores, predominará o conflito na vida pessoal.

            Há valores perenes e passageiros: orientar a vida para valores como riqueza, divertimento, bem-estar, dinheiro, poder, fama, colocará a existência à mercê da instabilidade desses bens sensíveis e passageiros. Quem busca valores permanentes e universais como amor, amizade, solidariedade, Deus, família, trabalho como modo de servir aos demais, plenifica sua vida de forma estável e duradora.

            Guardini disse que um valor é aquilo pelo qual um ser é digno de ser, uma ação é digna de ser cumprida. Algo se torna digno se está de acordo com o bem e a verdade. Logicamente a verdade, bondade e beleza só se encontra de modo absoluto em Deus. Porém, cada ser criado participa em graus diferentes desses predicados, que não são produtos da mente humana, nem dependem da opinião dos demais, mas obedecem a um plano superior de Quem os criou.

            Hierarquizar os valores é comparar objetivamente um bem em relação a outro, sem deixar-se enganar pelos estados de ânimo ou opinião da maioria, pois a verdade é uma adequação da inteligência com a realidade externa. O critério de verdade está também nas coisas corriqueiras da vida: por exemplo, o que define uma boa música, um bom vinho e uma boa obra literária? No caso da música, certamente não é o gosto de cada um, pois a beleza dela tem critérios objetivos de harmonia, melodia, ritmo, letra e produção musical… No caso do vinho, basta perguntar a um sommelier para saber que o bom vinho se distingue pelo aroma que não se identifica com odores desagradáveis como mofo ou vinagre; a persistência do sabor na boca após a degustação; o corpo, a viscosidade, a acidez controlada, a região de origem e as condições climáticas e do solo sobre a qualidade da uva, e consequentemente do vinho. E o que define uma boa obra literária? Não vamos entrar nesse campo, pois faltaria tempo.

            Há muitos modos de adquirir valores ou modelos de conduta para se andar na verdade. A formação da consciência por meio do estudo da moral, riquissimamente desenvolvida no Catecismo da Igreja e na Encíclica Veritais Splendor, o estudo das normas antropológicas que fundamentam a natureza humana sobre tantos assuntos: vida, casamento, família, sexualidade, trabalho… A religião é princípio unificador da vida ao permitir considerar os acontecimentos à luz da fé e pautar a vida sobre essas verdades.

            A família é a grande transmissora de valores, pois o comportamento das pessoas tem muito a ver com as atitudes transmitidas pelos pais. Se desde crianças os filhos foram vendo o exemplo dos pais e ouvindo sobre o valor da castidade, solidariedade, disciplina, aproveitamento do tempo, descanso criativo, espírito de serviço no lar, etc., terão a força da verdade para não sucumbir a tantos erros que hoje sucumbem tantos adolescentes e jovens: namoro precoce, vício em telas digitais, pornografia, excessos de games, jogos de azar, fuga do trabalho e do esforço…

            Quem objetivamente sabe que a família é um valor maior que o trabalho, encerrará o expediente no horário para estar logo com a esposa e os filhos. O conhecimento desse valore dará à vontade força para parar encerrar o trabalho por mais agradável que seja. Quem conhece o valor do trabalho como meio para adquirir virtudes, saberá não se conduzir pelos sentimentos e evitará a curiosidade de consultar fora de hora as redes sociais; saberá ver na sua profissão um modo de servir aos demais, e não apenas como meio para acumular bens materiais. Quem sabe o valor da saúde para melhor servir a Deus e aos demais, avaliará o grau de colesterol e de açúcar nos alimentos e não se deixará levar pelo gosto (o pudim de limão é veneno para o diabético).

            Outro modo de adquirir valores é por meio de pessoas exemplares que viveram uma vida cheia de significados, deixando de lado o comodismo e a tranquilidade para “complicaram” a vida para promover obras de serviço aos demais: muitas dessas pessoas possivelmente conhecemos na vida familiar, profissional ou social. Os bons filmes e as boas obras literárias também oferecem modelos de condutas virtuosos. Dado que os jovens de hoje agem baseados em sentimentos e emoções, os bons roteiros movem o emocional em direção às virtudes apresentadas pelos diferentes personagens: Os últimos dos samurais, O soldado Ryan, Pinóchio...

            Vivemos hoje imersos em antivalores que nos chegam à enxurrada pelos meios de comunicação. O fenômeno do intruvisismo (de intruso), onde pessoas famosas utilizam o prestígio que o dom artístico, esportivo ou profissional lhes dá – dom que receberam gratuitamente Deus –, para se pôr a pontificar sobre temas que desconhecem, tais como família, amor humano, direito à vida, casamento, sexualidade humana, etc., influenciando com critérios errados a vida de tantas pessoas.

            Vamos concluir essas considerações, tendo em conta que a nossa formação não deve terminar nunca. É muito fácil infiltrar-se pontos de vista inexatos na mente, resultado da paulatina condescendência com os erros próprios ou alheios. Ninguém deve se considerar plenamente formado, mas melhorar continuamente seu conhecimento para dar respostas aos problemas atuais. Como cristãos, temos que influenciar positivamente – e na medida das forças pessoais –, nos ambientes em que nos movemos e nos meios de comunicação, hoje tão facilitados à criatividade de todos.

            Os esforços por estudar, trabalhar bem e com retidão de intenção, manter uma vida de piedade sólida e formar a consciência para decidir bem, alicerçam os valores perenes da conduta humana, e aportam ideias claras para não chamar de bom o que é mau, nem se deixar contagiar por falsos critérios sobre temas como educação, família, sexualidade, religião, finalidade do trabalho, nem por modos de descanso ou lazer perigosos e dispendiosos porque se perdeu o sabor da beleza encontrada nas coisas simples da vida.

            Cultivar as virtudes por meio da repetição de atos contrários aos defeitos pessoais ou dos filhos, expande a liberdade e faz amar o bem: quem repete um dia e outro a ação de aproveitar melhor o tempo, trabalhar com retidão, ter espírito de serviço no lar, não mentir, ser fiel aos compromissos assumidos, cria uma conaturalidade ou força para perseverar no bem e ser verdadeiramente feliz.

  • Educar a masculinidade e a feminilidade

    Educar a masculinidade e a feminilidade

             A partir da filosofia de García Hoz, a educação personalizada parte do princípio da singularidade: cada pessoa é única em seu modo de aprender, crescer e se relacionar. Quando falamos em diferenças entre meninos e meninas, não estamos nos referindo apenas a aspectos físicos ou hormonais, mas a tendências gerais no ritmo de maturação neurológica, expressão emocional, interesses e formas de interação com o conhecimento.

             Estudos como os de Park et al. (2016) e Riordan (2015) mostram que, em média:

    • Meninos tendem a maior impulsividade, resposta motora e interesse por desafios físicos e mecânicos.
    • Meninas, por sua vez, tendem a melhor desempenho inicial em linguagem, maior sensibilidade social e foco em tarefas estruturadas.

             Essas tendências não determinam o destino de ninguém, mas oferecem pistas para práticas pedagógicas mais eficazes, pois permitem aplicar metodologias específicas que respeitam as diferenças sem fomentar competição precoce entre os gêneros. Como ressalta Jennifer Wimer (2011), isso favorece o desenvolvimento moral em um ritmo mais adequado à maturação de cada grupo.

             Alfonso Aguiló diz que meninos e meninas apresentam diferenças no ritmo de desenvolvimento, na forma de aprender, no processamento de emoções, nas motivações e interesses. O ensino ao se adaptar à forma de aprender peculiar de cada sexo, torna a igualdade de oportunidades uma possibilidade mais real.

             A seguir, relacionamos sete dicas para a educação de meninos e de meninas, oferecidas por Gabriel Sestrem, jornalista da Gazeta do Povo:

    7 dicas para incentivar a masculinidade nos meninos

    1. Desenvolva a responsabilidade desde cedo: dê pequenas tarefas físicas em casa, como carregar sacolas, ajudar em reparos simples e cuidar do jardim. Lembre-se de fazer com que ele se sinta realmente útil com frases como “Que bom que você me ajudou nisso”, ou “Se eu fizesse sozinho, demoraria muito mais”. Isso faz com que ele desenvolva o senso de proteção e serviço.

    2. Incentive atividades físicas e desafios: praticar esportes, aprender a se defender (se possível, matricule-o em uma boa academia para aprender uma arte marcial) e testar os próprios limites, o que ajuda a desenvolver coragem, disciplina e força.

    3.  Ensine respeito, liderança e hierarquia: aproveite situações do dia a dia para ensiná-lo a proteger os mais fracos, respeitar mulheres e idosos, tomar iniciativa e liderar em situações cotidianas. Homens valorizam muito a hierarquia; ensine-o a entender o seu lugar em cada ambiente.

    4. Valorize a firmeza emocional: ensine que é normal sentir emoções como medo ou angústia, mas que a masculinidade envolve autocontrole e resolução racional dos problemas. Incentive-o a enfrentar os medos e a resolver problemas, e comemore toda pequena conquista.

    5. Ensine sobre honra e palavra: o “fio do bigode” é algo que se perdeu com o tempo. Seu filho precisa saber que um homem deve ser confiável e que a palavra tem valor.

    6. Cultive um espírito aventureiro: brincadeiras físicas, exploração ao ar livre, superação de desafios físicos e participação em competições são muito úteis para fortalecer a identidade masculina.

    7.  Reforce sempre o papel de provedor e protetor: mostre, pelo exemplo e ensino, que homens devem cuidar da família, proteger aqueles que amam e ser trabalhadores responsáveis.

    7 dicas para incentivar a feminilidade nas meninas

    1. Incentive a delicadeza e a gentileza: ensine boas maneiras, tom de voz agradável (evitando gritos e palavrões), a importância do sorriso e da postura cuidadosa. Pequenos gestos, como ajudar um irmão menor a se vestir, ajudam a desenvolver um comportamento acolhedor e atencioso.

    2. Valorize o cuidado com a aparência: ensine sobre roupas femininas, higiene pessoal, cabelo bem cuidado e elegância natural. Isso fortalece a autoestima e reforça o valor da feminilidade como algo belo e natural.

    3. Desenvolva habilidades domésticas e de organização: ensine a cozinhar, cuidar de casa, organizar o espaço e receber bem as pessoas. Desde cedo, as meninas podem aprender que manter um ambiente bonito e organizado é uma forma de carinho pela família.

    4. Encoraje a valorização da maternidade: mostre como a maternidade é bela e significativa. O clássico brincar de boneca deve ser estimulado, já que ajuda a desenvolver o senso de cuidado e proteção. Ter contato com bebês também é muito positivo.

    5. Ensine sobre a importância do casamento e da família: converse sobre a construção de um lar, a parceria com o marido e o papel da mulher na estabilidade familiar. Isso a ajudará a ver o casamento não como um fardo, mas como uma missão honrosa e gratificante.

    6. Fomente interesses como artes, decoração, moda, literatura clássica, música, culinária e hospitalidade, pois são áreas que ajudam a enriquecer a feminilidade.

    7. Incentive-a a aprender defesa pessoal: esse item pode parecer estranho, pois não tem a ver diretamente com feminilidade. Mas feminilidade não significa fragilidade. Se para um homem é importante ter noções de defesa pessoal, para uma mulher isso é mais do que essencial. Se possível, matricule-a em uma arte marcial – de preferência, jiu-jitsu.

             Por fim, diz Sestrem, o mais importante é que os pais sejam exemplos vivos do que ensinam. O menino precisa ver o pai como um homem forte e confiável, e a menina precisa enxergar a mãe como uma mulher graciosa e segura. O ambiente familiar molda a identidade das crianças muito mais do que palavras. Faça sua parte!

             Sugerimos assistir o vídeo da Dra. María Calvo, que resume bem as ideias apresentadas por diferentes autores sobre o tema deste boletim:  Claves de la Educación Diferenciada – María Calvo (15min44s). Explica como meninos e meninas aprendem de forma diferente e como o modelo single-sex potencializa isso com intencionalidade formativa.

      Indicação bibliográfica: “Educação single-sex”, de Alfonso Aguiló, Editora Quadrante, São Paulo, 2015.

  • O olhar superficial e o olhar profundo

    O olhar superficial e o olhar profundo

            

             Há formas superficiais e profundas de olhar para as realidades do entorno, e isso tem a ver com o modo pessoal de pensar e se relacionar com o mundo. Há quem permanece apenas nos fragmentos das coisas ao se deixar absorver pela curiosidade que leva a gastar centenas de horas mensais nas redes sociais e internet, malbaratando o tempo que poderia ser utilizado para se aprofundar em algum tema cultural, artístico ou técnico, a fim de compreender o mundo em que vive e assim melhor servir aos demais.

             Desenvolver uma atitude pensante e contemplativa predispõe para chegar ao núcleo dos assuntos e ganhar densidade interior. Aristóteles dizia que pensar é a maior forma de vida, e quem não exerce essa faculdade tem sua humanidade enfraquecida. Muitas ideologias, sistemas políticos, propagandas midiáticas e programas de TV que exploram a vida dos outros, impedem o hábito de pensar porque assim é mais mais fácil influenciar, controlar e manipular as pessoas.

             Existe uma forma intemperada de olhar que se comporta como a borboleta que pula de flor em flor, detendo-se em algo o tempo mínimo para satisfazer a curiosidade e captar apenas o superficial: esse olhar não busca a profundidade, mas apenas o prazer fugaz de novas e superficiais informações. Tomás de Aquino chamava essa atitude de curiositas, oposta à studiositas ou conhecimento profundo, buscado com o esforço que todo processo sério de aprendizagem traz.

             Ceder à curiosidade de navegar habitualmente sem rumo nas redes sociais e internet desenraiza jovens e adultos de habitar em si mesmos, e lhes torna o espírito errante e inquieto que se manifesta em palavras insensatas, insuficiência na abordagem dos assuntos, perdas do sentido de hierarquia dos afazeres, enfraquecimento da vontade para assumir projetos que exigem esforço, e para fugir desse vazio interior, se valem do mundo da distração das telas. Paradoxalmente ao abandonar a própria interioridade, que é o único lugar onde podem encontrar Aquele que sacia a sede de felicidade que todos temos, tornam realidade em sua vida o que dizia Agostinho de Hipona: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem”.

             Para o olhar chegar ao núcleo de cada realidade é necessário desenvolver um sereno e detido processo de discernimento para refletir e fugir da pressa do borboleteio: antes de clicar o play a um vídeo ou série, julgar se é verdadeiramente isso que deve ser feito no momento. É certo que todos necessitam de descanso, de se distrair e distender em atividades prazerosas que não exigem esforço, pois o fio de um arco muito esticado pode romper-se. Mas há momentos para descansar a fim de retornar renovados aos trabalhos e responsabilidades. O que não pode ocorrer é refugiar-se no entretenimento do celular quando se deveria trabalhar, pois tal atitude enfraquece a vontade e debilita o caráter. Um olhar que não vive a virtude da temperança é funesto e causa de muitos vícios: torna o caráter superficial e conduz a erros por vezes irreparáveis na apreciação das realidades e nas decisões pessoais. Tal cegueira do espírito impede perceber o que necessitam aqueles que estão ao seu redor, e a singularidade ou o encanto que cada personalidade oferece.

             O olhar que conduz ao pensar profundo é fruto da temperança. As renúncias são decisivas para concentrar as potências internas e externas em projetos que valem a pena. Tal olhar desenvolve a interioridade e descarta o superficial que leva à perda de tempo e ao mau uso da liberdade, e faz descobrir maravilhas inesperadas ao pôr ordem no espírito. Purificar o coração das mil imagens fugazes evita o deixar-se levar pelas aparências e primeiras impressões ou juízos superficiais. Os artistas, poetas, filósofos e as pessoas observadoras descobrem a beleza nas coisas miúdas da vida, sem necessitar de ir em busca do estrondoso ou da insaciável volúpia por novas notícias.

             Viver a temperança no olhar é o que mais capacita cada um para descobrir a beleza da Criação e o aprofundamento na verdade das coisas. É da responsabilidade pessoal fomentar buscar uma formação que enriqueça continuamente a interioridade pessoal e a abertura do espírito aos demais, sacrificando-se por eles. Desenvolver hábitos de reflexão, de escuta, de empatia e de interesse pelo que sucede nos tempos atuais contribui positivamente à solução dos problemas que hoje afetam a tantos. Pais e responsáveis por crianças devem ajudá-las a não se viciarem em telas digitais, que as tornam passivas, preguiçosas e entediadas com a realidade ao seu redor, preferindo viver na irrealidade das imagens. Ajudá-las a ganhar o hábito de ouvir ou ler histórias, brincar com quebra-cabeça, lego, jogos de sala e atividades ao ar livre com outras crianças; partilhar das tarefas do lar para que aprenderem a ser generosas com o seu tempo e se preocupem com os demais.

    Gostou deste boletim? Se puder colaborar com o nosso trabalho, envie sua contribuição para o Pix ariesteves.pedagogo@gmail.com ou pelo QRCode abaixo:

    Em nosso site os boletins estão organizados também por assunto, com link para cada título: ver página

    Inscreva-se para receber gratuita e semanalmente o Boletim Pedagogia do Comportamento, via e-mail. Basta colocar nome e e-mail: Inscrição

  • Educar o pudor desde a infância

    Educar o pudor desde a infância

             O pudor é uma virtude de valor inestimável que leva a pessoa a não manifestar publicamente sua própria intimidade. Uma personalidade rica em valores para se autoafirmar não necessita revelar a todos a sua intimidade, pois a verdadeira autoestima conduz ao justo amor ao próprio eu. O sentimento de pudor se manifesta não somente na proteção corporal frente aos olhares alheios, mas também resguarda a pessoa de expor sua interioridade aos curiosos. Torna-se supérfluo o pudor onde se carece de personalidade ou de valores interiores, tal como ocorre com os animais. A falta de pudor manifesta que a intimidade própria é considerada de pouco valor e de tal modo irrelevante que é desnecessário preservá-la.

             Um profundo valor antropológico possui o pudor ao defender a intimidade do homem ou da mulher, revelando-a de modo correto, na medida adequada, no momento conveniente e no contexto propício. Agir contrariamente expõe a pessoa ao ridículo de não ser levada a sério, e a não ser considerada com o devido respeito nem por si mesma, nem pelos outros.

             O mistério da pessoa é resguardado pelo pudor, seja na salvaguarda do corpo ou na manifestação de seus sentimentos e pensamentos, orientando aos demais a respeitarem e reconhecerem o que se possui de mais pessoal e íntimo. No referente ao corpo revela-se no rosto, nas mãos, no olhar, nos gestos e no vestuário, que expressa a imagem e o respeito que se pretende que os demais tenham de si. A elegância, o bom gosto, o asseio e o arranjo pessoal surgem como manifestação primeira do pudor. O despudor, ao contrário, leva à grosseria, ao descuido pessoal, ao desrespeito por si, além de manifesta desordem e pobreza interior. O respeito à intimidade própria e alheia permite dar-se a conhecer na justa medida e nos diversos contextos em que a pessoa se move, tornando mais atrativa a personalidade e as relações interpessoais, na medida em que se vão compartilhando as esferas de intimidade.

             O clima geral de falta de pudor em muitos ambientes torna necessário ter personalidade para manter o tom de modéstia e sobriedade. O bom exemplo é essencial na educação para o pudor. Pai, mãe e os demais adultos da casa, ao se comportarem com recato e modéstia diante das crianças pequenas, revelam dignidade e elegância sem afetação. Os pais podem e devem manifestar o carinho mútuo, mas reservando certas efusões do amor aos momentos de intimidade do casal. O clima de descontração familiar não autoriza um relaxamento nas posturas ou no modo de se vestir: andar seminu ou trocar de roupa diante dos filhos rebaixa o tom humano do lar e convida ao crescente descuido pessoal e ao mau costume de devassar o que é íntimo. Especial atenção se deve ter nas temporadas de calor, pois o clima, os tecidos mais leves e o facto de se estar em férias podem abrir a porta ao descuido. Cada momento e lugar requer um modo de vestir, mas sempre mantendo o decoro.

             O pudor ao abarcar também o campo dos pensamentos e ideias, e se relacionar com a manifestação da intimidade própria, proíbe manifestar o que pertence à intimidade alheia. É pouco nobre e educativo, além de faltar à justiça e à caridade, alimentar as conversas familiares de fofocas, bisbilhotices e confidências sobre a vida dos outro, pois isso faria os filhos se considerem com direito a intrometer-se e falar da intimidade de outros. É importante zelar para que não penetre no lar pela televisão ou por outros veículos de comunicação, programas que fazem revelam a vida das pessoas para satisfazer a curiosidades frívolas e mórbidas de seu público, a fim de ganhar dinheiro com isso. Os pais devem explicar aos filhos que esse “tráfico da intimidade” não deve entrar no lar. Explicar também às crianças que não sejam indiscretas ao revelar aos de fora, sejam parentes ou amigos, aquilo que pertence à intimidade do lar.

             Nas questões de educação cada detalhe é importante. A fim de se acostumar a valorizar a esfera privada dos demais, e a descobrir a própria, desde a primeira infância uma das tarefas formativas é consolidar hábitos que mais adiante facilitarão o desenvolvimento da virtude da castidade e do pudor, que vão se despertando na criança à medida que gradativamente descobre a sua própria intimidade. Pequenos detalhes colaboram para construir uma intimidade rica: vestir as filhas adequadamente, e não com poucas roupas ao sair à rua; não achar graça se a criança correr pela casa à modo de Adão ou Eva no Paraíso, a fim de desincentivá-la a repetir tal comportamento: sem dramatizar, corrigir com carinho e esclarecer que não se comportou bem. Ensinar a criança a se lavar sozinha e não à vista dos irmãos; ao trocar de roupa por si mesma, fechar a porta do quarto; trancar a porta do banheiro ao entrar para utilizá-lo; bater à porta do quarto dos pais e irmãos e esperar a resposta para entrar; não bisbilhotar nas gavetas e armários dos outros. Esses bons hábitos vividos desde a infância facilitarão a entrada na adolescência e juventude com sensibilidade, respeito pelo próprio corpo e comportamentos virtuosos.

             Educadas com tal sabedoria, as crianças aprendem a respeitar a intimidade própria e a dos demais, e crescem com sensibilidade para os assuntos profundos da alma e de intimidade com seu Pai Deus. Pouco a pouco abandonam o natural egocentrismo e descobrem que os outros merecem ser tratados como elas gostam de ser tratadas.

    Gostou deste boletim? Se puder colaborar com o nosso trabalho, envie sua contribuição para o Pix ariesteves.pedagogo@gmail.com ou pelo QRCode abaixo:

    Em nosso site os boletins estão organizados também por assunto, com link para cada título: ver página

    Inscreva-se para receber gratuita e semanalmente o Boletim Pedagogia do Comportamento, via e-mail. Basta colocar nome e e-mail: Inscrição

    Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados: ariesteves_pedago

  • Educação preventiva

    Educação preventiva

             Educar preventivamente é agir antes de que surjam problemas em cada fase evolutiva dos filhos, preparando-os para evitar dificuldades ou municiá-los com as competências necessárias para superá-las. A verdadeira educação não se limita a ser corretiva ou reparadora, mas oferece respostas antecipadas aos inconvenientes que a descarga desinformativa faz chegar aos filhos pelos diferentes meios de comunicação, ambiente escolar, amizades, relações sociais.

             Já não basta apenas o bom senso para educar bem: é necessário que os pais se preparem com leituras adequadas para atuar na prevenção, pois esta tem caráter proativo ao possibilitar a identificação antecipada dos fatores de riscos ou condutas impróprias: falta de comunicação com os pais, fracasso escolar, tabagismo, alcoolismo, preguiça e acomodamento, drogas, sedentarismo, bullyng escolar, desrespeito à autoridade, vício em telas digitais, namoro precoce, etc.

             Todos presenciamos apenados situações tristes de jovens mergulhados em adições difíceis de extirpar, e nos perguntamos por que isso aconteceu. Não basta deixar correr o tempo da infância, adolescência e juventude para os filhos darem certo na vida. É necessário que cada etapa da vida deles seja um aprendizado para o período seguinte. Pais criativos atuam preventivamente para evitar comportamentos inadequados. Por exemplo, para contornar o vício das telas digitais incentivam os filhos desde a primeira infância a fugir do sedentarismo com brincadeiras ao ar livre, leem contos para eles se divertirem e se interessarem pela leitura, fomentam jogos de mesa e quebra-cabeças para esquivá-los da passividade e preguiça mental fomentada pelas telas digitais, atribuem encargos no lar para que se sintam membros da equipe que deixa a casa limpa e harmoniosa…

             Nas diferentes fases da infância e da adolescência ocorrem alterações psicofísicas que exigem modos adequados de aproximação, evitando sempre a superproteção. A primeira infância é o melhor período para o fomento de bons hábitos, que logo se transformam em virtudes (ver o boletim “Hábitos de ordem nas crianças de 1 a 3 anos). Autodomínio, temperança, estudo e laboriosidade, gosto pela leitura, disciplina, entre outros, devem ser fomentados o quanto antes, e à medida que a criança passe a ter mais compreensão. Na adolescência ocorre o desejo de independência para a autoafirmação, atração pelo sexo oposto, abandono dos hábitos infantis e abertura para novos interesses… Os pais necessitam ler sobre os temas imprescindíveis para ajudar nessas etapas: educação da sexualidade, formação do caráter e temperamento, transmitir valores ou modelos de conduta que iluminam a inteligência para grandes ideais, fortalecimento da vontade, educação dos afetos, a importância da literatura na formação humanística, virtudes humanas, entre outros. Todos esses temas estão abordados em nossa Boletins por temas.

             Quanto à educação da sexualidade, deve ser oferecida desde as primeiras idades, logicamente atendendo à capacidade de compreensão da criança. O boletim “Filhos: informação sexual” oferece modos de abordagens para cada idade, evitando que os pais cheguem atrasados e os filhos recebem má orientação de professores, amigos ou mídias digitais. O que dizer à filha de 13 anos que pretende namorar? Nossos boletins oferecem alguns argumentos para explicar a ela que a partir da puberdade, ou mesmo antes, as adolescentes sentem forte atração pelos meninos e surge nelas a vontade de agradá-los. A mãe poderá dizer à filha que ela é ainda muito jovem para namorar, e que a força do amor que sente agora a preparam para que se torne em breve uma mulher segura e equilibrada. Porém, neste momento seus sentimentos ainda não estão amadurecidos, e não bastam os vigores instintivos ou sentimentais para acertar no amor e ser feliz, sendo necessário atuar com inteligência para avaliar todos os aspectos que estão em jogo:

             − Filha, Deus fez surgir em você forças de afeto e carinho para que aprenda a dominá-las e não seja subjugada por elas, pois os sentimentos são muito flutuantes, indo e voltando o todo tempo. Você mais adiante utilizará essas forças para um projeto mais sério, e não para um mero passatempo com um garoto que mal sabe o que quer da vida, com o risco de ter com ele tristes experiências que roubarão o melhor de você. O namoro não está feito para passar o tempo, mas para conhecer a outra pessoa (caráter, temperamento, ideais, virtudes), e ter certeza de que os dois poderão unir suas vidas em função de um projeto comum, que é o grande ideal de montar uma família e ter filhos. Porém, agora, você deve se preparar para crescer em muitos aspectos, estudar, ler livros de literatura para aprofundar com os bons autores no conhecimento da alma humana, crescer no amor a Deus para respeitá-Lo e respeitar-se. Antes de pensar em namoro, estude e prepare-se para uma profissão, que será um serviço aos demais pela aplicação de suas qualidades pessoais, que você deve descobrir e desenvolver. Você agora está em tempo de amadurecimento, como que preparando a boa terra para dar bons frutos na época certa. Além disso, a experiência revela que os adolescentes não são muito fiéis aos seus compromissos, e logo abandonam suas namoradas ao encontrar outra mais bonitinha. Sei que não é isso que você quer. A amizade é uma coisa boa e bela e você talvez me pergunte se pode ter como amigo um rapaz. Não há mal nisso, mas quando você notar que sente por ele − e ele por você − algo mais do que amizade, será bom reavaliar o trato com ele. Quando ele se aproximar de você e disser que é bonita e tentar beijá-la, isso já é mais do que uma simples amizade, então deve se afastar desse relacionamento.

             Para facilitar aos pais o conhecimento desses temas, a fim de atuarem preventivamente e oferecer respostas esclarecedoras aos filhos, reiteramos a sugestão de ler os textos curtos e de fácil leitura em: https://staging.ariesteves.com.br/boletins-por-temas/

    Em nosso site os boletins estão organizados também por assunto, com link para cada título: ver página

    Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados: ariesteves_pedagogo

  • Maturidade e Imaturidade: características

    Maturidade e Imaturidade: características

             A maturidade é um dos traços da personalidade harmoniosa que se relaciona bem consigo própria, com os demais e com o mundo: dá a nota adequada a cada situação, sem estridências, tal como um instrumento musical afinado. Esse processo se desenvolve ao longo dos anos, e ninguém pode se considerar totalmente amadurecido, pois a vida traz novos desafios que não se sabe como serão enfrentados. Definir o que é uma pessoa madura não é fácil, mas o é perceber a falta de maturidade no comportamento de alguém. O psicólogo americano Gordon Allport, professor de Harvard, considerado o pai da psicologia da personalidade, oferece seis critérios para a avaliação da própria maturidade, e a daqueles a quem se deve ajudar em sua formação:

    1. Extensão do sentido de si mesmo: refere-se à conexão do eu pessoal com o de outra pessoa. Sair do limite pessoal e perceber os desejos, sentimentos e necessidades do outro é tão importante quanto ao bem próprio, seja na família, no trabalho, na escola ou na vida social. A extensão de si mesmo evita apontar as carências que se percebem numa instituição ou em seus dirigentes, porque ao fazer a pessoa se sentir inserida nesse contexto, procura ajudar a resolver os problemas, não agindo como telespectador que se dedica a criticar.
    2. Relação emocional com outras pessoas. É característica da pessoa madura relacionar-se emocionalmente bem com todos: é empática, compreensiva, tira importância dos defeitos dos demais, ouve com atenção e convive com os que pensam diferente. Com isso, faz autênticas amizades porque age desinteressadamente, foge das críticas e murmurações, não cria panelinhas. O imaturo quer que todos pensem a ajam como ele, e quando as coisas não são como deseja, lança o veneno das queixas, críticas, ciúmes e sarcasmos.
    3. Segurança emocional. Trata-se da pessoa que expressa seus sentimentos com proporcionalidade, não exagerando neles em situações que merecem poucos sentimentos, nem coloca menos sentimentos em situações que mereceriam mais. Por exemplo, seria uma desordem colocar mais sentimentos nos animais que em pessoas; ter tal preocupação pela comodidade pessoal que leva à indiferença ou falta de espírito de serviço aos demais. O maduro sentimentalmente tem saudável autocrítica, que o torna flexível às circunstâncias: sabe perdoar, cumpre suas obrigações quando seu estado de ânimo é contrário, não é imediatista e persevera no esforço por alcançar um bem maior, mas distante; tolera as frustrações e contrariedades sem chutar o balde; não cai na raiva ou na autocompaixão diante dos seus erros, não busca um culpado para descarregar a própria culpa. Estar atento na formação das pessoas sobre o modo como vivenciam, desde pequenas, seus estados de ânimo: friezas ou rompantes afetivos que destoem da realidade de cada situação.
    4. Percepção realista diante dos fatos. A capacidade de interagir com a realidade, vendo-a sem distorcê-la sentimental ou emocionalmente, é sinal de maturidade. Essa capacidade é muito importante para trabalhar em equipe, pois apresenta soluções reais e factíveis. O pensamento imaturo é mágico e infantil, distorcendo ou negando a realidade: “– Não, isso não pode acontecer comigo!”, é altera os fatos para acomodá-los às suas emoções ou critérios egoístas, porque afetam seus interesses próprios.
    5. Autoconhecimento e senso de humor. Conhecer-se bem e admitir as próprias qualidades e defeitos é sinal de maturidade. Quem é consciente de suas limitações é menos propenso a atribuir defeitos nos demais, e por isso é mais aceito nos diferentes grupos a que pertence; e, caso deva fazer algum julgamento, é compreensivo. O ditado que diz: “o melhor negócio do mundo é comprar um homem pelo que vale e vendê-lo pelo que acha que vale”, revela o desconhecimento de si que possuem os imaturos. Um bom caminho para o real conhecimento de si é perguntar-se: “–Como as pessoas me veem?”, “É correta ou falsa a opinião que têm de mim?”. Não pode haver distância entre o que sou, o que poderia ser, o que gostaria de ser, o que creio que deveria ser e o que os outros me dizem que poderia ser.
    6. Filosofia unificadora da vida. A personalidade madura tem uma filosofia que orienta suas ações em busca do fim que escolheu alcançar. Avalia a coerência de suas ações em busca de seus objetivos vitais. Allport diz que o teórico procura a verdade, o utilitarista busca o útil, o estético busca a forma, o político busca o poder, o religioso busca a unidade de sua vida com Deus. Cada pessoa deve descobrir seu caminho e aderir livremente a ele. Pais e educadores devem apresentar um ideal de vida atrativo e atingível àqueles a quem ajudam a formar: que se perguntem sobre o tipo de pessoa que desejam ser, que ideal as atrai, o que podem oferecer como o melhor de si para servir e ser úteis aos demais, contando para isso com a ajuda de Deus.

    Em nosso site os boletins estão organizados também por assunto, com link para cada título: ver página

    Siga-nos no Telegram, pois nele também há links para todos os boletins publicados