Categoria: EDUCAÇÃO

  • A família está acima dos êxitos profissionais

    A família está acima dos êxitos profissionais

             Apostar fortemente na educação familiar e, para isso, encontrar tempo mesmo quando parece não haver. Ter espírito de abnegação e sacrifício, mesmo que em alguns casos afete a posição econômica familiar. O prestígio profissional que um pai ou uma mãe buscam não pode ter como consequência o abandono dos filhos, pois isso traz frustrações, já que o bem da família está acima dos êxitos profissionais. Dilemas às vezes aparentes que possam ocorrer nesse campo devem ser resolvidos com fé e oração, procurando a vontade de Deus.

             Ter presente que é limitado e preciosíssimo o tempo que os filhos permanecem no ambiente familiar. Nesse período pode ocorrer que o tempo que os pais dedicam aos filhos é pouco, tornando difícil exigir deles devido aos escassos momentos de convivência, passando-se, assim, a ignorar o que fazem e como agem, fazendo que essa ausência seja a porta aberta para muitos vícios e individualismos que carregarão por toda a vida.

             A virtude da esperança é muito necessária aos pais. Educar os filhos produz muitas satisfações, mesmo que algumas vezes produza dissabores ou preocupações. Não se deixar levar por sentimentos de fracasso, aconteça o que acontecer! Pelo contrário, recomeçar sempre com otimismo, fé e esperança. Nenhum esforço será desperdiçado, ainda que de imediato não se percebam os seus frutos.

  • Educar para a vida

    Educar para a vida

             O termo educar deriva das palavras latinas e-ducere e e-ducare. A primeira etimologia se relaciona à ação de oferecer valores que conduzam ao pleno desenvolvimento da pessoa; a segunda, indica a ação de extrair da pessoa o que de melhor pode dar, tal como o artista que extrai do bloco de mármore uma bela escultura. Em qualquer das duas acessões, a liberdade do educando tem um papel decisivo.

             Formar os jovens é uma tarefa entusiasmante que cabe fundamentalmente ao protagonismo dos pais, mesmo que contem com a ajuda de preceptores ou professores. Trabalho delicado, forte, paciente e alegre, não isento de perplexidades, que se torna necessário pedir luzes a Deus. Educar é obra de artista que leva à plenitude as potencialidades que residem em cada filho, ajudando-o a descobrir a importância de se preocupar com os outros, ensinando a criar relações autenticamente humanas e a vencer o medo de comprometer-se… Ou seja, é capacitar cada filho para que responder ao projeto de Deus sobre a sua vida.

             Não há educação perfeita e sempre será possível melhorar ao aprender com os erros e dedicar tempo para atualizar a formação pessoal. Educar é preparar para a vida, e isso exige o mesmo esforço que qualquer meta no âmbito profissional, humano ou espiritual. Educar enfrenta dificuldades vindas do ambiente e exige que educador e educando melhorem em vários aspectos. Escrivá de Balaguer animava os pais a terem o coração jovem para vivenciar as aspirações nobres ou extravagâncias dos filhos, sabendo lidar com situações novas que possam não agradar, mas que por vezes são modos diferentes de viver até melhores que os de antigamente. Há ocasiões em que as dificuldades surgem de assuntos sem importância, mas que devem ser superados com bom-humor.

             Os pais não só educam sempre, mas educam para sempre, porque suas atuações nunca são neutras ou indiferentes. Os filhos necessitam de orientações, além de que desde pequenas impõem a lei dos seus caprichos. De pouco serviria uma educação que se limitasse a resolver situações momentâneas e sem projeção futura, deixando os filhos à mercê de dependências relacionadas ao consumismo, intemperanças, vícios, ideologias da moda, egoísmo de pensar apenas em si…

             O segredo de uma boa educação está na confiança. Crianças, adolescentes e jovens necessitam falar sem medo com os pais, e crescer na confiança por meio do diálogo aberto, amigável. Escrivá de Balaguer aconselhava aos pais para serem amigos dos filhos e se colocarem ao nível deles para os entenderem e facilitar a autoridade paterna, exigida pela própria educação. Os jovens, mesmo os mais indóceis e independentes, querem essa aproximação com os pais.

             Educar em clima de familiaridade e nunca dar a impressão de desconfiança, mas de liberdade com responsabilidade: é preferível que os pais se deixem enganar alguma vez, do que desconfiar sempre. Os filhos se sentem envergonhados, caso alguma vez os filhos traiam a confiança dos pais. Mas, se percebem que os pais não confiam neles, se sentirão propensos a enganar sempre. Alimentar constantemente o ambiente de confiança ao acreditar sempre no que digam, sem duvidar e sem criar distâncias.

  • Cultivar convicções firmes

    Cultivar convicções firmes

             A formação pessoal deve fortalecer as virtudes e contribuir para a configuração do caráter. Em primeiro lugar, é preciso fomentar o hábito de reflexão pessoal, pensar sobre as próprias ideias, aspirações, desejos e sentimentos, tendo sempre presente que o fim último da vida não é acumular dinheiro ou poder, porque não temos por aqui cidade permanente, mas nos encaminhamos para a futura. A dimensão reflexiva é necessária para cultivar convicções pessoais fortes e profundas que movam a vontade em direção à verdade, ao bem e à beleza, dando, assim, firmeza e coerência ao agir.

             O conhecimento dos valores que regem a conduta humana favorece a resposta livre, de amor, à ação, e não um simples cumprimento de obrigações ou regras que espartilham. Distinguir entre valores essenciais e os que não o são é uma das características da personalidade madura e que dá passos seguros ao saber distinguir entre o que tem transcendência e o que não tem.

             A capacidade de distinguir entre o mais e o menos importante é condição para o desenvolvimento pessoal e dos demais. Isso porque há valores estáveis, objetivos, que não dependem de estados de ânimo ou da opinião pessoal, pois a verdade é uma adequação da inteligência com a realidade externa.

             Portanto, os valores são guias e critérios de conduta, e à medida que se orientam para bens elevados, realizam e tornam mais feliz a pessoa. Se alguém assume como guia de vida a riqueza, divertimento ou o bem-estar, sua existência se exporá à instabilidade própria desses bens sensíveis e passageiros. Porém, se busca valores estáveis e universais – portanto, não contingentes ou passageiros –, plenifica e eleva de forma duradora sua vida: amizade, solidariedade, amor a Deus, montar uma família, aperfeiçoar as habilidades ou talentos pessoais para melhor servir aos demais…

             Aos pais não basta dizer aos filhos que não use drogas, não acesse pornografia na internet, não namore na adolescência, não malgaste o tempo em redes sociais, limite o tempo para os games, estude, ajude nas tarefas do lar… Só oferecendo razões profundas sobre os porquês de tais ações, os adolescentes terão esclarecida a inteligência e fortalecida a vontade para mover-se em direção ao bem, ao mesmo tempo que saberão dar explicações aos amigos quando foram aliciados a agir de modo contrário.

             Para os pais oferecerem razões profundas aos filhos, necessitam ler para proverem-se de respostas convincentes sobre a formação do comportamento, sentido da família, da sexualidade humana, do namoro… Isso porque a leitura de temas que aprofundam nas diferentes dimensões do comportamento ou da vida humana, oferece luz à inteligência e força ou convicções firmes para a vontade agir com coerência e não ser levada por antivalores. Devem, os pais, compreender que a contemplação da arte, da natureza, da boa música conduz ao assombro, ao silêncio interior e afinam a sensibilidade para buscar o autenticamente bom e belo. A conversa com os filhos sobre os clássicos da literatura e do cinema ajudam a que sejam mais reflexivos e formem o caráter. Sugerimos a leitura dos nossos boletins, que oferecem argumentos interessantes para ajudar os filhos sobre vários temas: https://staging.ariesteves.com.br/boletins-por-temas/

             No caminho da formação é preciso saber conviver com a imperfeição própria e alheia, conscientes de que Deus nos quer pelo que somos e não pelos resultados que obtemos. A caridade, ou carinho aos demais, é o que motiva e dá a forma às demais virtudes, por isso todo o desejo de melhora, toda tarefa formativa leva a crescer em caridade, pois esta virtude dá forma às demais virtudes: por exemplo, a fortaleza sem caridade se transforma em brutalidade; a justiça sem caridade se transforma em arrogância. Parte da formação humana consiste em desenvolver as virtudes sociais que enriquecem o próprio indivíduo, capacita para conviver com todos e respeitar os modos de ser e de fazer diferentes dos próprios, sendo o caminho natural para a fraternidade, amizade e colocar os próprios bens e talentos ao serviço dos demais. Entre as virtudes da convivência estão a solidariedade, magnanimidade, amabilidade, preocupação pelos mais necessitados, atitudes de escuta e atenção, delicadeza no trato, comportamento respeitoso e educado.

             O modo de falar e olhar, o pudor no vestir e mover-se, o sorriso e a discrição no atuar revelam tal riqueza interior que prescinde da necessidade de chamar a atenção dos demais. Não são apenas aspectos externos isolados, nem dependem exclusivamente das circunstâncias, mas comunicam a própria identidade e desvelam de algum modo o interior de quem os possui. Uma interioridade rica se expressa exteriormente de forma harmônica, adequada, e forja a personalidade para ir contra os valores negativos. O aprofundamento na compreensão de quem somos, o cultivo de convicções firmes fortalece a vontade para não se deixar levar pelo que a maioria faz, ao mesmo tempo que oferece as razões para explicar com sabedoria o porquê se age desta ou daquela maneira. Só assim haverá uma transformação positiva no ambiente que nos cerca.

  • Ser uma pessoa de critério

    Ser uma pessoa de critério

             Todos necessitamos ter claras as verdades ou critérios que fundamentam a atuação pessoal. A diversidade de pareceres sobre tantas matérias, as diferentes situações que se apresentam ao longo da vida, as notícias que chegam e que exigem uma tomada de posição, tornam indispensáveis uns valores ou normas de juízo e de atuação acertadas, permanentes, coordenadas, simples. Ter um critério bem formado que enquadre dentro de uma panorâmica mais geral o conhecimento da ciência particular a que nos dedicamos e os conhecimentos que vamos adquirindo com o decorrer dos anos, facilita ordenar retamente as ações pessoais em relação a um fim último.

             O esforço por estudar, trabalhar bem e com retidão de intenção, manter uma relação com o transcendente por meio de uma vida religiosa séria, procurar formar a consciência, são o alicerce para fundamentar os valores perenes da conduta humana. Outro modo de reconhecer e assumir valores ou normas de conduta ocorre por meio do mimetismo ou do exemplo oferecidos nos relatos de pessoas admiráveis que viveram ou vivem uma vida cheia de significado ao deixar de lado uma cômoda tranquilidade e “complicarem” a vida para promover obras de serviço aos demais (pessoas que possivelmente conhecemos na vida familiar, profissional ou social). São também modos de conhecer e assumir valores e obter critérios, a biografia de gente valorosa ou de santos, os bons filmes, o conhecimento das normas antropológicas perenes que fundamentam a conduta humana, as obras literárias que oferecem virtuosos modelos de condutas, o estudo das ações morais explicados admiravelmente no Catecismo da Igreja Católica, que ensinam ser determinadas condutas não fruto de subjetivismos, mas diretrizes objetivas, externas, válidas no mundo inteiro e para todas as pessoas ((por exemplo cada um dos Dez Mandamentos). Tudo isso vai sedimentando na conduta e tornam criteriosa uma pessoa, dando a ela maturidade, firmeza de convicções, delicadeza de espírito, educando a inteligência, vontade e os afetos.

             Para ser uma pessoa de critério não basta ter muitas ideias ou conceitos dispersos, desconexos entre si, mas é necessário formar um conjunto harmônico, um princípio unificador onde cada ideia ocupe seu lugar e se subordine a outra mais importante e de acordo com uma hierarquia que atribua a cada elemento o seu lugar correto, tal como os tijolos, areia, telhas, ferros e madeiras espalhados em diferente grupos sobre um terreno têm como princípio unificador a casa a ser construída para abrigar uma família. Por exemplo, subordinar a atividade profissional a um valor maior que é a família, permite encerrar o expediente no horário certo a fim de retornar ao lar para estar com a esposa e os filhos, por mais que agrade o trabalho que esteja sendo realizando. Um princípio unificador da vida é a religião, que permite considerar os acontecimentos à luz da fé, tendo em vista um fim último que permite responder a cada momento a pergunta: – Para que existo? Qual a finalidade da minha vida?

             A virtude da prudência conduz a um reto agir que permite julgar os fatos não pelas aparências, mas por um juízo reto, equânime, que identifique com nitidez os elementos que estão em jogo em cada situação, distinguindo o certo do opinável, o bom do mau. Tudo isso exige o estudo e a reflexão acerca dos princípios que conduzam à verdade para não se deixar levar pelo imediatismo de comportamentos impensados. Saber discernir o verdadeiro do falso nas correntes de pensamento e comportamentos mais à moda permite construir a vida sobre bases seguras.

             No boletim A escolha de princípios afirmamos que o homem age em vista de finalidades ou valores prévios que guiem suas escolhas, sempre orientadas para a felicidade própria, já que ninguém procura ser infeliz. Porém, a almejada felicidade deve estar na esfera da verdade e do bem não teóricos, mas práticos, alcançáveis. Busca-se o que se considera importante dentro de uma hierarquia de valores que compara um bem em relação a outro: quem procura manter a saúde avalia o grau de colesterol dos alimentos; quem dá valor ao descanso programa um divertimento sadio para o fim de semana, mas substitui esse valor pelo da caridade a fim de visitar o amigo que soube estar internado num hospital. Se não houvesse capacidade de ordenar os desejos, segundo uma hierarquia de valores, predominaria o conflito entre as diversas pretensões pessoais. Guardini disse ser um valor aquilo pelo qual um ser é digno de ser, uma ação é digna de ser cumprida.

             Valor é uma qualidade inerente à realidade; é um aspecto do bem e da verdade que são inseparáveis e emanam do objeto que se conhece, e se torna um bem para a pessoa e para os demais. Um valor não depende da opinião de ninguém e ultrapassa a subjetividade humana, pois está impresso em cada ser criado, fazendo transcender dele a verdade, bondade e beleza, perceptíveis em graus diversos em cada ser criado, o que nos permite compreender que há valores mais elevados em relação a outros (alguém pode prescindir de sua vida para defender uma verdade maior, ou para salvar a vida de uma pessoa em perigo). A capacidade de distinguir entre o mais e o menos importante é condição para o desenvolvimento pessoal e dos demais. Isso porque há valores estáveis, objetivos, que não dependem de estados de ânimo ou da opinião pessoal, pois a verdade é uma adequação da inteligência com a realidade externa. Ou seja, cabe ao homem abrir-se com sua inteligência e vontade para acolher os valores ligados à realidade, sabendo que não são os homens que os estabelecem de modo arbitrário. Mesmo não podendo colher a beleza e a verdade de modo absoluto, porque só Deus é Absoluto, percebemos que cada ser participa do belo e do verdadeiro não por se tratar de produto da mente humana, mas porque a beleza e a verdade são transcendentes e universais: uma flor no alto de uma montanha continuará sendo bela mesmo ninguém a veja, mas porque participa da beleza da criação em grau pequeno em relação à beleza absoluta de Quem a criou.

             Portanto, os valores são guias e critérios de conduta, e à medida que se orientam para bens mais elevados, realizam e tornam mais feliz a pessoa. Se alguém assume como guia de sua vida valores contingentes como dinheiro, divertimento, bem-estar, poder, fama, sua existência se exporá à instabilidade própria desses bens passageiros. Porém, se busca valores estáveis e universais – portanto, não contingentes ou passageiros –, tais como amizade, solidariedade para ajudar a quem precise de amor ou conhecimento, buscar a Deus, montar uma família e educar bem os filhos, aperfeiçoar as habilidades ou talentos profissionais para melhor servir aos demais, terá plenificada e elevada de forma duradora sua vida, pois a verdadeira felicidade está no sair de si para servir aos demais, que é onde reside o verdadeiro amor e felicidade.

             Ninguém deve se considerar plenamente formado, mas melhorar continuamente sua formação. Às vezes pode infiltrar-se pontos de vista poucos exatos na mente, como resultado de uma paulatina condescendência com os erros próprios ou alheios. Então, é preciso saber retificar, esclarecer conceitos, ser humildes para reconhecer-se no erro ou evitar agir mal por fraqueza. Quem tem ideias claras e consciência reta não chama de bom o que é ruim, nem se deixa contagiar por falsos critérios que obscurecem a consciência sobre temas como educação, família, sexualidade, religião, sentido ou finalidade do trabalho, formas retas de descanso ou de lazer…

             O saber moral não é um discurso abstrato, nem uma técnica. A formação da consciência requer o fortalecimento do caráter, que se apoia sobre as virtudes como seus pilares, e estas assentam e estabilizam a personalidade e capacitam a pessoa para fugir do egocentrismo. Carecer de virtudes frustra a realização de grandes ideais e torna a vida vazia e oscilante. Porém, cultivar virtudes pela repetição de atos bons expande a liberdade, faz amar o bem: quem repete um dia e outro a ação de estudar na hora marcada, de trabalhar bem, de ter espírito de serviço no lar, de não mentir, de ser fiel aos compromissos assumidos, cria uma conaturalidade ou força para perseverar no bem e ser verdadeiramente feliz.

             Uma maturidade que ajude a tomar decisões com liberdade interior, ter convicções fortes alicerçadas na verdade e construída por meio de aulas, palestras de formação, leituras, reflexão e, especialmente, por meio do exemplo de pessoas que vivem retamente, combinado com delicadeza de espírito e educação da vontade através das virtudes, torna uma pessoa criteriosa. Enfim, uma «alma de critério» pergunta-se nas diversas circunstâncias se faz o que Deus espera dela. E além de recorrer aos princípios que assimilou, procura o conselho de pessoas retas, prudentes, e atua sempre por decisão própria.

  • Pai e filha: dicas para o relacionamento

    Pai e filha: dicas para o relacionamento

       

             

             Pai de filha adolescente tem que ter muita sensibilidade para lidar com ela. O curto-circuito ocorre se o pai é exigente, rígido e com frequentes rompantes explosivos diante de pequenas faltas de pontualidade, notas baixas… Se o pai for mais disciplinador do que educador, mais dogmático do que afetivo e com dificuldades na comunicação, a filha manifestará problemas de insegurança devido ao medo de errar, incapacitando-a para tomar decisões pequenas ou grandes, terá dificuldades para se abrir ou interagir com os outros, e não saberá ver a Deus como Pai.

             Certa adolescente ouviu o pai dizer que se ela um trouxesse em casa algum garoto, o expulsaria imediatamente. A partir daí, a filha deixou de abordar temas como meninos, namoro, casamento, sexualidade, por considerá-los tabus, dada a agressividade do pai. Por que esse pai agiu com tanta estupidez, se é justamente na família o lugar seguro onde se pode falar de tudo; se é no diálogo entre pai e filha que muitos conceitos são apreendidos e levados à vida! Sendo normal na adolescência questionar sobre muitos valores, os pais devem criar canais abertos de diálogo. Um pai compreensivo e carinhoso possibilita que a filha expresse o que pensa, sem receio de levar bronca ou sermão. Uma adolescente necessita de um pai que a ouça muito, fale menos e ofereça conceitos sólidos que transmitam segurança, pois tais atitudes a estimulará a abordar questões que a inquietam.

            Se o pai dialoga pouco, se não procura a filha para conversar e não se interessa pelo universo dela, cria barreiras e distâncias difíceis de se superar. As adolescentes necessitam falar para demonstrar o que sentem e se queixam muito quando o pai não sabe responder às suas perguntas e inquietações. É imprescindível que o pai se prepare para interagir com a feminilidade de sua filha em desenvolvimento, tendo em conta que sua postura manifestada na presença, diálogo, sorriso, autoridade, saber ouvir, corrigir, valores e afetos darão o tom para que ela se sinta segura e compreenda o que é a verdadeira masculinidade, que também desejará encontrar naquele com quem futuramente pretender formar uma família.

             Pai ausente que compensa a falta de carinho presenteando a filha com objetos materiais, a tornará insegura e afetivamente instável. A carência afetiva nasce quando a filha não se sente amada, admirada, corrigida e guiada pelo seu pai. E assim vulnerável, ela buscará afetos em amigas, moda, imagem corporal, grupos de jovens duvidosos, namorado sem qualificações, etc.

             Um pai que dá pouca autonomia porque não sabe transmitir valores para que a filha os compreenda profundamente e saiba agir bem por conta própria, mas afoga a liberdade, mesmo que atenda a todos os pedidos da filha ao buscá-la em todos os lugares e a qualquer hora que ela determine, dificultará na filha o entendimento da autoridade e não a ensinará a tomar decisões por conta própria.

             Um pai débil que se submete aos caprichos de uma filha, renuncia ao exercício da paternidade, tão necessário e orientativo para ela, que não terá onde se apoiar afetiva e moralmente, permanecendo com dúvidas e sem critérios para a vida. Uma das dificuldades dos pais atuais é exigir que seus filhos se esforcem. As adolescentes crescem em idade corporal, mas são imaturas e psicologicamente frágeis: elas exigem muito dos pais, mas não se autoexigem e constroem uma personalidade fraca, mesmo tendo potencial para mais. Pai que tem “dó” de ver a filha se exigir, poupando-a de esforços e oferecendo recompensas, tornará a filha molengona e a impedirá de desfrutar das verdadeiras vitórias, auferidas com o esforço. A adolescência é a idade do vigor, do gastar energias para ideais que valem a pena. É importante exigir da filha, dentro das possibilidades dela, para que seja mais feliz. Para ganhar o campeonato de vôlei da escola, a filha terá que se exigir nos treinos e renunciar a séries, novelas, perdas de tempo nas redes sociais, etc. A conquista de um bem árduo será para ela a melhor das recompensas. Certa filha ia saindo para uma festa com um vestido recém comprado, e quando seu pai a viu com um vestido muito curto, disse que ela não iria à festa vestida daquela maneira. A filha retrucou, argumentou, mas ao perceber que não alteraria o parecer do pai, trocou de vestido. No dia seguinte, comentou com o pai que compreendeu a atitude dele, pois suas amigas, que não souberam respeitar-se a si mesmas, também não foram respeitadas pelos demais colegas.

             Medidas para o pai construir uma relação saudável e forte com sua filha:

    1. Interessar-se vivamente pelas coisas dela, mesmo que ela aparente apatia ou distância;
    2. Escutar ativa e empaticamente, cuidando o olhar e o tom de voz. Ela necessita manifestar inquietações existenciais (sentido da vida, vocação humana, amizades, Deus…). Se por vezes sua filha se exalta e tem muita flutuação no humor, saiba que isso é normal;
    3. Dar abertura para a filha abordar temas de sexualidade, família, afetos, sentimentos, sonhos, dúvidas, desassossegos;
    4. Filhas adolescentes fazem perguntas sobre temas existenciais e passam bom tempo encerradas em si mesmas, mas quando resolvem falar necessitam de um pai interessado em ouvi-las e que saiba orientar;
    5. Uma adolescente tem pouco conhecimento de si própria, é insegura e não sabe bem por onde seguir, sendo importante ouvir do seu pai os pontos fortes que ela possui, a fim de os conhecê-los e potencializá-los, o que a fará crescer em autoconfiança. Indique também os pontos frágeis para que ela se esforce em lutar contra eles, contando com sua ajuda, paizão;.
    6. Saia com sua filha, e só com ela, para que se sinta valorizada pela companhia do pai;
    7. Nunca diga palavras que firam sua filha, pois deixarão marcas na alma dela e a desencorajarão para enfrentar a vida: tenha sempre presente que meninas são mais sensíveis do que meninos;
    8. Seja para a sua filha um misto de força, coerência e ternura;
    9. Sua filha, embora não o demonstre, tem profunda necessidade de referências, de exemplos de vida, de conhecer pessoas que são felizes por serem coerentes;
    10. Tenha presente que sua filha projetará seu futuro marido com base em você, pai, que representará para ela a verdadeira masculinidade.

             Os pais continuam a ser a principal referência da filha, mesmo que ela seja muito influenciada pelo grupo social ao qual pertence e as amigas ocupem lugar de destaque na vida dela.

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  • O adolescente e a escolha da profissão

    O adolescente e a escolha da profissão

             As milhares de horas que os adolescentes gastam com games e redes sociais, se forem incentivados a empregá-las em assunto mais útil que possam desenvolver com gosto e competência, logo estarão habilitados para melhor servir aos demais e visualizar a futura profissão.

             Por vezes, os adolescentes não percebem as qualidades ou capacidades que possuem. Alguns, por exemplo, com dificuldade em matemática, se sentem inferiorizados diante de colegas aptos nessa disciplina, e não percebem que possuem inteligência para redação, gramática ou outras matérias. O pior é quando seus pais os forçam a estudar horas a fio tal disciplina, contratam professores particulares e cursos extras, mas nada fazem para potencializá-los ainda mais nas suas verdadeiras competências, que certamente os destacarão na futura profissão. Logicamente, trata-se de animá-los a obter pontuação necessária para aprovação, que não precisa ser a máxima, e não se preocupem mais, pois seus filhos não serão futuros matemáticos, já que suas reais aptidões são outras.

             Os pais devem ajudar os filhos a terem autoestima, fazendo-os reconhecer as suas competências “que são aqueles comportamentos observáveis e habituais que facilitam o êxito em alguma atividade ou função, e são o resultado de características inatas, conhecimentos, motivações e habilidades da pessoa”, ensina Pablo Cardona, da Universidade de Navarra (https://www.unav.edu/web/tu-and-co).

             Os pais devem trocar impressões entre si para perceber as capacidades de seus filhos, além de buscar conselhos com professores, ler artigos, assistir no Youtube palestras ou áudios de psicólogos e profissionais de recursos humanos sobre como identificar as aptidões dos adolescentes, e animar os filhos a preencherem testes vocacionais gratuitos na internet. Se um jovem diz que quer ser jogador de futebol, militar ou piloto de avião, é preciso averiguar se se trata de mero desejo ou de um desejo acompanhado de talento. Gosto e aptidão podem seguir caminhos distintos: não basta gostar de piano para ser um bom pianista, mas ter as habilidades que esse instrumento requer. O gosto, que por vezes é inconsciente e não se sabe explicar a sua gênese, deve evoluir para uma deliberação racional-emocional para se transformar em opção vital consciente.

             Certas profissões exigem um tipo de inteligência relacional para entrosar-se com pessoas; outras, supõem inteligência mecânica pronta para destrinchar problemas práticos; há também as que requerem inteligência abstrata e dotada para estudos teóricos… Tais nuances vão se manifestando no dia a dia da vida familiar: saber consertar as coisas; capacidade para ouvir, aconselhar, fazer novas amizades; talento para prever e organizar; liderança, capacidade de manter atenção e aprofundar nos temas, etc.

             Além do conhecimento técnico, cujas habilidades são conhecidas como hard skills, as empresas valorizam hoje em dia os virtuosismos comportamentais, também chamados de soft skills. Estes, mais subjetivos, requerem o desenvolvimento interpessoal como empatia, capacidade de ouvir, habilidades para comunicação, interagir positivamente em equipes, entre outras. A união das habilidades soft com as hard skills qualificam altamente um profissional, que se destacará em sua área de atuação.

             Para o desenvolvimento das habilidades comportamentais (soft skills), os pais devem observar como os filhos cuidam de seus objetos, como reagem às contrariedades, se são responsáveis ou preguiçosos, corajosos ou covardes, indiferentes ou preocupados com os demais, respeitosos ou grosseiros, serviçais ou egoístas… Depois, trata-se de ajudá-los a desenvolver as virtudes que lhes faltam, e que se unirão aos talentos e habilidades técnicas que possuem para melhor servir aos demais. A Universidade de Navarra propõe 12 competências para a avaliação de profissionais, e tenho para mim que é possível adaptá-las e desenvolvê-las paulatinamente em adolescentes e jovens: ver https://www.unav.edu/web/tu-and-co.

             Abordar com os filhos seus temas de interesse e as aptidões que mais se destacam neles, e fazê-los perceber a importância de as colocarem ao serviço dos demais. Para isso, os pais devem fugir de sonhos irreais e imaturos de que seus filhos se tornem engenheiros ou médicos, isso ou aquilo, e auxiliá-los a descobrir suas verdadeiras capacidades, pois nestas encontrarão a profissão onde melhor atuarão. Ao tratar com os filhos temas relacionados à escolha da profissão, afastá-los da perspectiva econômica egoísta e material, e da que visa demonstrar suas capacidades e alimentar vaidades, e incentivá-los a analisar sob ótica do amor, da transcendência para aportar aos demais o melhor de si mesmos: a motivação transcendente os tornará mais felizes, e por atuarem em uma profissão que desempenharão com competência e amor, serão recompensados para viver economicamente dela.

             Sugerimos conhecer o Catálogo Nacional de Cursos Técnicos (CNCT), do Ministério da Educação http://cnct.mec.gov.br/, com centenas de profissões e ofícios de nível médio, e visitar o Portal Monitor de Profissões (MONP), também do Ministério da Educação, https://monp.abdi.com.br/home, com profissões de nível técnico e superior. Em ambas as plataformas encontra-se a descrição de cada atividade, os conhecimentos teóricos e práticos necessários, e as qualidades ou habilidades pessoais necessárias para o desempenho dela.

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  • Educar a vontade: tarefa principal

    Educar a vontade: tarefa principal

             A vontade é quem governa a vida e decide sobre as escolhas. Os pais devem perceber que o segredo da educação não está na inteligência, mas no fortalecimento da vontade dos filhos, a fim de que queiram fazer o que deve ser feito.

             O querer é uma inclinação da vontade ligado à racionalidade: a inteligência compreende algo e a vontade adere com o seu querer ou não querer ao que a inteligência mostrou. Já o gostar ou não gostar não está ligado à razão, mas à sensibilidade ou afetos (sentimentos, emoções, paixões): quem gosta de mousse de limão inclina-se a ele não racionalmente, mas porque agrada ao paladar, o que não significa que o gostar de algo deva ser aceito sem passar pelo crivo da razão: se a pessoa é diabética, a inteligência lhe dirá para não comer o doce. É importante não confundir o querer da vontade, que tem um componente racional (quero aquilo que a inteligência me mostrou ser bom), com o gostar de tal tipo de alimento, desse ou daquele esporte, de certas músicas e não de outras, ligados à sensibilidade e não à racionalidade.

             Se as faculdades reitoras das ações dos filhos não forem a inteligência e a vontade, mas a sensibilidade, então eles só farão aquilo que agrada ou dá prazer e não o que devem fazer. Se a inteligência indicar ao adolescente que deve estudar, só conseguirá essa proeza se a vontade dele superar o mau sentimento da preguiça, pois caso contrário não estudará nem amarrado na cadeira, tendo um livro aberto a palmo e meio do nariz.

             Inteligência e vontade são duas irmãs muito unidas: a Inteligência gosta de pensar, é curiosa, irrequieta e está sempre procurando conhecer as coisas para apresentá-la à maninha vontade, a fim de que esta decida o que fazer, porque nela reside o livre arbítrio ou a capacidade de agir sem que ninguém a obrigue. Por isso, não é suficiente que os filhos compreendam (inteligência) a necessidade de estudar, mas devem querer (vontade) estudar, pois só assim o farão. Por mais que a inteligência indique o que fazer, a ação só surgirá se a vontade não estiver dominada pelos sentimentos, que aliás deveriam apoiar a vontade, se estivessem bem educados por meio das virtudes. A imagem da pessoa governada pela sensibilidade é a do cavaleiro que não tem as rédeas do cavalo firmes nas mãos, e por isso se deixa levar aonde o animal se inclinar.

             As crianças podem controlar seus impulsos e desejos desde muito cedo, quando orientadas a agir assim. Aprendem a realizar não apenas o que gostam, que é sempre o mais fácil e agradável, mas também a cumprir as pequenas tarefas atribuídas a elas, mesmo no primeiro momento as desagradem. Mas para vencer a barreira inicial dos sentimentos contrários, necessitam ganhar bons hábitos que as fazem perder o medo de se esforçarem. Como fortalecer a vontade dos filhos para que possam agir contrariamente ao império do gosto? Essa é uma boa questão. Para fortalecer o querer dos filhos são necessárias duas atitudes dos pais: 1) Oferecer a eles motivos, razões ou valores que fortaleçam a vontade para agir de acordo com a inteligência; 2) Ajudá-los a desenvolver as virtudes humanas.

             Os motivos ou valores de conduta são mais eficazes que o autoritarismo de obrigar à força, porque isso não estimula o querer da vontade para agir livremente, e nada será realizado na ausência dos pais. Ao explicar aos filhos sobre a bondade ou malicia de certas ações, a distinguir entre o verdadeiro e o falso, o certo e o errado, os pais iluminam a inteligência dos filhos com valores que serão assumidos e fortalecerão a vontade deles para agir até contra sentimentos contrários. Por exemplo, ao explicar aos filhos sobre a importância de desenvolverem os dotes e qualidades que Deus lhes deu, a fim de serem colocadas ao serviço dos demais, ao ajudá-los a compreender que o verdadeiro amor é doação de si mesmo e que qualquer ideal valioso exige esforço para ser alcançado, estimulará e fortalecerá a vontade deles para realizar o bem, e cada vez que isso ocorrer, a vontade se fortalecerá ainda mais.

              O outro caminho para fortalecer a vontade dos filhos, a fim de que queiram fazer o que deve ser feito, é o das virtudes humanas, que deve começar pela educação dos afetos desde os primeiros anos de idade da criança. Já a partir dos 2 anos a criança pode ganhar hábitos bons (e não maus hábitos), como o de cumprir suas pequenas obrigações: jogar no lixo a fralda suja, guardar nas respectivas caixas os diferentes brinquedos; limpar o que sujou; vestir-se sozinha; ter horários para dormir, acordar, banhar-se e fazer as refeições; não sair para brincar enquanto não fizer a lição escolar e tirar o pó dos móveis e enxugar o chão do box do chuveiro, etc. Esses pequenos hábitos de autodisciplina se transformarão nas virtudes da fortaleza, laboriosidade, ordem e aproveitamento do tempo, que alavancarão a vontade deles para superar os afetos contrários ao que deve ser feito.

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  • Os pais e as virtudes dos fihos

    Os pais e as virtudes dos fihos

             As escolas não estão preparadas para suprir os pais no desenvolvimento de hábitos operativos bons – também chamados de virtudes humanas –, pois carecem da confiança que os filhos depositam nos pais, não conseguem dar uma educação personalizada a cada criança, estão distantes dos acontecimentos cotidianos da vida familiar que ofertam aos pais inúmeras oportunidades para conhecer profundamente o temperamento e o caráter de cada filho, entre outros motivos. As escolas não são organizações naturais, mas culturais que apoiam os pais na formação acadêmica dos alunos, que devem chegar às instituições de ensino providos de virtudes ou bons hábitos comportamentais adquiridos no lar.

             Ensina David Isaacs, em seu livro “A educação das virtudes humanas”, que em várias instituições, as pessoas são aceitas pela sua funcionalidade: na empresa é pelo que faz ou produz; na escola é pelo aproveitamento do estudo; no time de futebol é pelos gols que marca ou defende. Porém, na família a pessoa é aceita pelo que é.

             Sendo a família a organização natural que mais profundamente se relaciona com cada pessoa, torna-se razão suficiente para que os pais se prepararem com entusiasmo e sentido profissional, a fim de oferecer uma educação integral que envolva não apenas a educação da inteligência, mas também a da vontade e da afetividade.

             Ganha-se um hábito bom ou virtude por meio da repetição de atos próprios de cada virtude: aprende-se a ser ordenado mantendo as coisas pessoais nos devidos lugares, um dia e outro; aprende-se a ter autocontrole e a ser temperado ao não abrir a geladeira fora de hora e ao ter horários para iniciar e terminar cada atividade. Com paciência, carinho e bom-humor, os pais devem exigir que os filhos repitam os atos positivos até que estes façam parte de seus hábitos. Ao ajudá-los a compreender o motivo para agir de determinado modo, os filhos vão interiorizando pouco a pouco os ensinamentos e assumirão como próprias as ações indicadas, sem necessidade de que sejam lembrados disso. O exemplo dos pais também é importante, e como ninguém é perfeito, o que se espera dos pais é que lutem também para superar seus defeitos ou maus hábitos.

             Algumas virtudes a serem desenvolvidas nas diferentes idades, sugeridas por David Isaacs:

             Virtudes até os 7 anos: obediência, sinceridade, ordem. Até essa idade a criança não tem pleno uso da razão, sendo melhor obedecer a seus pais, não por medo, mas por amor e confiança neles. A sinceridade exige coerência entre o que se pensa e o que se diz. A ordem nos objetos materiais e a ordem temporal (ter horário para brincar, cumprir encargos, banho, refeições, dormir), devem ser desenvolvidas o quanto antes… Sábio é o ditado que diz: “pau que nasce torto morre torto”, pois sinaliza a dificuldade de ganhar bons hábitos quem não os desenvolveu desde criança.

             Virtudes dos 8 aos 12 anos: fortaleza, perseverança, laboriosidade, paciência, responsabilidade, justiça, generosidade. Com o advento da puberdade, as crianças passam por mudanças biológicas e psicológicas, sendo necessário fortalecer nelas o caráter, que é fortalecer a vontade para aguentar as dificuldades, cumprir suas responsabilidades e perseverar no esforço das tarefas iniciadas. Nessas idades, os adolescentes começam a tomar decisões pessoais, mas precisam de critérios para conferir se agem adequadamente.

             Virtudes dos 13 aos 15 anos: pudor, sobriedade, simplicidade, sociabilidade, amizade, respeito, patriotismo. As virtudes ligadas à temperança fortalecem a vontade para conduzir as paixões e sentimentos, quando estes se desordenam. A proteção da intimidade do corpo, sentimentos, alma e pensamentos estão unidas à temperança. As virtudes da sociabilidade, amizade, respeito e patriotismo estão ligadas ao bem dos demais.

             Virtudes dos 16 aos 18 anos: prudência, flexibilidade, compreensão, lealdade, audácia, humildade, otimismo. Nessas idades, o jovem possui maior capacidade intelectual e pode desenvolver as virtudes ligadas ao pensamento profundido, em colher informações para decidir melhor, ao ponderar sobre as consequências de suas ações antes de tomar uma decisão, em proteger os valores que julgam importantes para a sua vida. O otimismo é necessário para lutar por adquirir as virtudes com espírito esportivo, que leva a começar e recomeçar cada vez que ocorra uma falha, tal como os atletas que nunca desistem de melhorar suas capacidades.

             Dado que há um princípio de unidade na pessoa humana, quando se melhora em determinada virtude, melhoram-se em todas as demais. Por isso, os pais devem encher-se de esperança e paciência, e nunca desistir de ajudar os filhos a serem melhores. A insistência carinhosa, oportuna e bem-humorada, um dia e outro, fará que um dia os filhos passem a atuar em conformidade com as indicações dos pais, de modo tão natural que nem mesmo eles perceberão a mudança ocorrida.

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  • Apaixonados pela irrelevância

    Apaixonados pela irrelevância

             Conhecer, diferente de pensar, pode se configurar na acumulação de ideias, imagens e informações. Já o pensar exige ir ao fundo das questões, distinguir entre o bom e o ruim, o verdadeiro e o falso, e a manter um diálogo interior que conduz à reflexão crítica. Atualmente, o hábito de pensar vem escasseando devido ao alto consumo de imagens e informações inúteis trazidas pelas novas tecnologias, o que impede a inteligência de fixar-se no que é mais importante, e a faz entrar em colapso e se tornar preguiçosa para o pensamento profundo. O bem mais escasso do nosso dia já não é o tempo, que continua com 24 horas, mas a atenção, comprometida hoje pela baixa capacidade de filtrar as informações e fixar-se no que é mais relevante, e isso não depende da capacidade técnica para operar novas tecnologias, mas da atividade profundamente humana que é o ato de pensar.

             A internet mal utilizada e o excesso de tempo gasto em redes sociais roubam o tempo das experiências vitais e frutuosas, e vem tornando a cabeça de crianças, jovens e adultos numa espécie HD que armazena conteúdos de pouco interesse. Catherine L’Ecuyer, em seu livro “Educar na realidade” (Fons Sapientiae), revela que o fácil e rápido acesso às informações oferecidas pelas novas tecnologias, tem levado à falsa sensação de se conhecer muitas coisas, porém irrelevantes, tal como saber que uma fatia do bolo de casamento de Diana de Gales com Charles, na Inglaterra, foi vendida em leilão por 1.500 euros. Não haverá informações mais úteis para aplicar a mente?  Hipoteca-se, assim, o cérebro com informações desnecessárias. A mera acumulação de informações, diz L’Ecuyer, é como preencher de pontos uma folha em branco, até que fique toda pontilhada de preto, mas sem sentido. O pensamento humano deve relacionar os pontos e formar uma figura que tenha sentido, pois é daí que nasce a criatividade. Steve Jobs afirmava que “A criatividade é ligar pontos”. Ou seja, é necessário refletir para ligar os pontos das nossas experiências e a que captamos com os demais.

            O ato de pensar leva a avaliar, a refletir criticamente e a ser protagonista e não mero observador passivo da realidade. Quem aplica seu tempo com informações selecionadas, torna-se mais virtuoso e passa a contribuir de forma positiva com todas as pessoas. Sem o pensar, o critério de relevância se tornará impossível, e todos – crianças, adolescentes, jovens e adultos – se apaixonarão por banalidades. Charles de Foucaut dizia que “a maior miséria do homem é a sua dispersão. Dispersos, estaremos em muitas partes e em nenhuma. Assim, começamos por não nos encontrarmos e terminamos sem saber quem somos”. Isaac Newton atribuiu suas descobertas “à atenção paciente, mais do que a qualquer talento”.

            As crianças de hoje parecem mais preparadas tecnicamente para operar tecnologias, mas são as menos capazes de dialogar consigo próprias para pensar e se motivar por metas mais relevantes. Com a memória e a imaginação cheia de descartáveis, não lhes sobra espaço para o diálogo interior que as levaria a se comprometer com ideais mais interessantes. Por isso, elas vêm se tornando presas fáceis e manipuláveis da publicidade consumista e dos games que as despersonalizam porque as levam a imitar falsos heróis. O uso passivo das novas tecnologias cria pessoas conformistas que esperam que os outros mudem as coisas para melhor, mas não mexem um dedo a fim de que isso aconteça. É preciso ensinar as crianças e os adolescentes a desenvolverem critérios de relevância para empregar o tempo e as qualidades que possuem na busca informações e atividades com as quais possam melhor servir aos demais. É conhecida a metáfora entre a inteligência e a jarra de vidro a ser preenchida: se se começa pela água (excesso de imagens ou de informações desencontradas) não haverá espaço para o mais nada. Porém, se forem colocadas primeiramente dentro da jarra as pedras grandes (o mais importante), sobrará espaço entre as pedras para colocar areia e, por último, a água que ocupará a jarra até a borda. Já que a inteligência e a memória humana não são infinitas, ao menos albergarão o que é mais útil ou importante.

             Os pais devem encarar a formação própria e a educação dos filhos não como um acúmulo de informações vindas de arsenais tecnológicos, que podem converter as pessoas em apaixonadas pela irrelevância. Cervantes, Dante, Mozart, Picasso, Jerome Legeune, Sabin, Pasteur, Dostoievski, entre muitos outros, se tivessem dissipado o tempo e a inteligência com conhecimentos inúteis, não teriam feito tanto bem à humanidade. Não se trata de que os filhos sejam Prêmios Nobel, mas que empreguem melhor as capacidades que possuem e desenvolvam as habilidades que a natureza lhes dotou, sejam artísticas, técnicas, científicas, culturais ou esportivas. Os pais, se não estiverem com a atenção absorvida pelo que pouco interessa, poderão incentivar os filhos a se concentrarem no que melhor possam oferecer.

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  • Conquistar a confiança dos filhos

    Conquistar a confiança dos filhos

             A confiança nos pais é ingrediente fundamental para que os filhos cresçam em autoestima, sejam obedientes e se deixem educar. Ao confiar nos pais, os filhos tornam próprias, internas, as indicações que deles recebem, pois sabem que estão escolhendo o melhor. Obediência e confiança se exigem mutuamente, e onde não há confiança, a obediência se torna externa, fria, protocolar e para evitar castigos.

             Para que a confiança cresça é preciso um ambiente grato de afeto e bondade de ânimo ou de benevolência com cada filho, a fim de que este se sinta amado, ouvido e valorizado em suas opiniões. Exigir apenas a obediência externa, sem que a vontade da criança se una à de seus pais e a faça própria, é construir um edifício sem alicerces. Sem confiança, a amizade entre pais e filhos esfria, e porque não se sentem acreditados, os filhos são impulsionados a enganar, a perder a transparência e a se distanciarem rapidamente de seus pais.

             Cabe aos pais a responsabilidade de criar um clima de confiança no lar, onde os filhos se sintam livres para perguntar sem medo de que se escandalizem com suas questões; que possam manifestar suas opiniões e serem ouvidos para se sentirem valorizados; quando são estimulados a desenvolver suas habilidades ou qualidades pessoais a serviço dos demais; quando as indicações que recebem são dadas de modo respeitoso (por favor…); quando são tratados como pessoas inteligentes e livres.

             Crianças e adolescentes precisam desenvolver uma vinculação segura com seus pais ou responsáveis ao sentir que podem confiar neles. E isso ocorre quando são atendidos em suas necessidades básicas: fome, frio, sede, dor, medos, dúvidas… Essa vinculação segura levará os filhos a uma alta autoestima, a ter segurança emocional e a manter sintonia com seus pais. Se não forem atendidos, seja porque seus pais são ausentes ou indiferentes, a mensagem que os filhos recebem é a de que são considerados sem importância, o que fomentará neles a baixa autoestima e inseguranças no âmbito pessoal, familiar e social.

             Os pais ou responsáveis devem estar sempre presentes na vida da criança, e nunca transferir essa insubstituível missão a uma professora, pois a solicitude desta não conseguirá ser individualizada, mas dividida entre as muitas crianças de sua sala. Se em casa e na escola a criança percebe que não é atendida, os problemas começam a surgir. A atenção dos pais é chave para a criança desenvolver uma vinculação segura por meio de relações interpessoais profundas: olhos nos olhos, sorrisos que se encontram, afetos que se expandem.

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