Ser uma pessoa de critério

         Todos necessitamos ter claras as verdades ou critérios que fundamentam a atuação pessoal. A diversidade de pareceres sobre tantas matérias, as diferentes situações que se apresentam ao longo da vida, as notícias que chegam e que exigem uma tomada de posição, tornam indispensáveis uns valores ou normas de juízo e de atuação acertadas, permanentes, coordenadas, simples. Ter um critério bem formado que enquadre dentro de uma panorâmica mais geral o conhecimento da ciência particular a que nos dedicamos e os conhecimentos que vamos adquirindo com o decorrer dos anos, facilita ordenar retamente as ações pessoais em relação a um fim último.

         O esforço por estudar, trabalhar bem e com retidão de intenção, manter uma relação com o transcendente por meio de uma vida religiosa séria, procurar formar a consciência, são o alicerce para fundamentar os valores perenes da conduta humana. Outro modo de reconhecer e assumir valores ou normas de conduta ocorre por meio do mimetismo ou do exemplo oferecidos nos relatos de pessoas admiráveis que viveram ou vivem uma vida cheia de significado ao deixar de lado uma cômoda tranquilidade e “complicarem” a vida para promover obras de serviço aos demais (pessoas que possivelmente conhecemos na vida familiar, profissional ou social). São também modos de conhecer e assumir valores e obter critérios, a biografia de gente valorosa ou de santos, os bons filmes, o conhecimento das normas antropológicas perenes que fundamentam a conduta humana, as obras literárias que oferecem virtuosos modelos de condutas, o estudo das ações morais explicados admiravelmente no Catecismo da Igreja Católica, que ensinam ser determinadas condutas não fruto de subjetivismos, mas diretrizes objetivas, externas, válidas no mundo inteiro e para todas as pessoas ((por exemplo cada um dos Dez Mandamentos). Tudo isso vai sedimentando na conduta e tornam criteriosa uma pessoa, dando a ela maturidade, firmeza de convicções, delicadeza de espírito, educando a inteligência, vontade e os afetos.

         Para ser uma pessoa de critério não basta ter muitas ideias ou conceitos dispersos, desconexos entre si, mas é necessário formar um conjunto harmônico, um princípio unificador onde cada ideia ocupe seu lugar e se subordine a outra mais importante e de acordo com uma hierarquia que atribua a cada elemento o seu lugar correto, tal como os tijolos, areia, telhas, ferros e madeiras espalhados em diferente grupos sobre um terreno têm como princípio unificador a casa a ser construída para abrigar uma família. Por exemplo, subordinar a atividade profissional a um valor maior que é a família, permite encerrar o expediente no horário certo a fim de retornar ao lar para estar com a esposa e os filhos, por mais que agrade o trabalho que esteja sendo realizando. Um princípio unificador da vida é a religião, que permite considerar os acontecimentos à luz da fé, tendo em vista um fim último que permite responder a cada momento a pergunta: – Para que existo? Qual a finalidade da minha vida?

         A virtude da prudência conduz a um reto agir que permite julgar os fatos não pelas aparências, mas por um juízo reto, equânime, que identifique com nitidez os elementos que estão em jogo em cada situação, distinguindo o certo do opinável, o bom do mau. Tudo isso exige o estudo e a reflexão acerca dos princípios que conduzam à verdade para não se deixar levar pelo imediatismo de comportamentos impensados. Saber discernir o verdadeiro do falso nas correntes de pensamento e comportamentos mais à moda permite construir a vida sobre bases seguras.

         No boletim A escolha de princípios afirmamos que o homem age em vista de finalidades ou valores prévios que guiem suas escolhas, sempre orientadas para a felicidade própria, já que ninguém procura ser infeliz. Porém, a almejada felicidade deve estar na esfera da verdade e do bem não teóricos, mas práticos, alcançáveis. Busca-se o que se considera importante dentro de uma hierarquia de valores que compara um bem em relação a outro: quem procura manter a saúde avalia o grau de colesterol dos alimentos; quem dá valor ao descanso programa um divertimento sadio para o fim de semana, mas substitui esse valor pelo da caridade a fim de visitar o amigo que soube estar internado num hospital. Se não houvesse capacidade de ordenar os desejos, segundo uma hierarquia de valores, predominaria o conflito entre as diversas pretensões pessoais. Guardini disse ser um valor aquilo pelo qual um ser é digno de ser, uma ação é digna de ser cumprida.

         Valor é uma qualidade inerente à realidade; é um aspecto do bem e da verdade que são inseparáveis e emanam do objeto que se conhece, e se torna um bem para a pessoa e para os demais. Um valor não depende da opinião de ninguém e ultrapassa a subjetividade humana, pois está impresso em cada ser criado, fazendo transcender dele a verdade, bondade e beleza, perceptíveis em graus diversos em cada ser criado, o que nos permite compreender que há valores mais elevados em relação a outros (alguém pode prescindir de sua vida para defender uma verdade maior, ou para salvar a vida de uma pessoa em perigo). A capacidade de distinguir entre o mais e o menos importante é condição para o desenvolvimento pessoal e dos demais. Isso porque há valores estáveis, objetivos, que não dependem de estados de ânimo ou da opinião pessoal, pois a verdade é uma adequação da inteligência com a realidade externa. Ou seja, cabe ao homem abrir-se com sua inteligência e vontade para acolher os valores ligados à realidade, sabendo que não são os homens que os estabelecem de modo arbitrário. Mesmo não podendo colher a beleza e a verdade de modo absoluto, porque só Deus é Absoluto, percebemos que cada ser participa do belo e do verdadeiro não por se tratar de produto da mente humana, mas porque a beleza e a verdade são transcendentes e universais: uma flor no alto de uma montanha continuará sendo bela mesmo ninguém a veja, mas porque participa da beleza da criação em grau pequeno em relação à beleza absoluta de Quem a criou.

         Portanto, os valores são guias e critérios de conduta, e à medida que se orientam para bens mais elevados, realizam e tornam mais feliz a pessoa. Se alguém assume como guia de sua vida valores contingentes como dinheiro, divertimento, bem-estar, poder, fama, sua existência se exporá à instabilidade própria desses bens passageiros. Porém, se busca valores estáveis e universais – portanto, não contingentes ou passageiros –, tais como amizade, solidariedade para ajudar a quem precise de amor ou conhecimento, buscar a Deus, montar uma família e educar bem os filhos, aperfeiçoar as habilidades ou talentos profissionais para melhor servir aos demais, terá plenificada e elevada de forma duradora sua vida, pois a verdadeira felicidade está no sair de si para servir aos demais, que é onde reside o verdadeiro amor e felicidade.

         Ninguém deve se considerar plenamente formado, mas melhorar continuamente sua formação. Às vezes pode infiltrar-se pontos de vista poucos exatos na mente, como resultado de uma paulatina condescendência com os erros próprios ou alheios. Então, é preciso saber retificar, esclarecer conceitos, ser humildes para reconhecer-se no erro ou evitar agir mal por fraqueza. Quem tem ideias claras e consciência reta não chama de bom o que é ruim, nem se deixa contagiar por falsos critérios que obscurecem a consciência sobre temas como educação, família, sexualidade, religião, sentido ou finalidade do trabalho, formas retas de descanso ou de lazer…

         O saber moral não é um discurso abstrato, nem uma técnica. A formação da consciência requer o fortalecimento do caráter, que se apoia sobre as virtudes como seus pilares, e estas assentam e estabilizam a personalidade e capacitam a pessoa para fugir do egocentrismo. Carecer de virtudes frustra a realização de grandes ideais e torna a vida vazia e oscilante. Porém, cultivar virtudes pela repetição de atos bons expande a liberdade, faz amar o bem: quem repete um dia e outro a ação de estudar na hora marcada, de trabalhar bem, de ter espírito de serviço no lar, de não mentir, de ser fiel aos compromissos assumidos, cria uma conaturalidade ou força para perseverar no bem e ser verdadeiramente feliz.

         Uma maturidade que ajude a tomar decisões com liberdade interior, ter convicções fortes alicerçadas na verdade e construída por meio de aulas, palestras de formação, leituras, reflexão e, especialmente, por meio do exemplo de pessoas que vivem retamente, combinado com delicadeza de espírito e educação da vontade através das virtudes, torna uma pessoa criteriosa. Enfim, uma «alma de critério» pergunta-se nas diversas circunstâncias se faz o que Deus espera dela. E além de recorrer aos princípios que assimilou, procura o conselho de pessoas retas, prudentes, e atua sempre por decisão própria.