Categoria: EDUCAÇÃO

  • A autoridade em épocas sentimentais

    A autoridade em épocas sentimentais

             A autoridade não está de moda. Isso não significa que não a necessitemos, mas dizem que não é de bom tom exigi-la para não se parecer autoritário. O que todos gostariam mesmo é de ser obedecido sem precisar mandar.

             ―“Professora, temos que fazer hoje de novo o que quisermos?”, perguntou certa vez uma aluna a uma professora determinada a impor a não-diretividade ou condução da aula, porque era a favor do respeito ao suposto direito da criança de alcançar a felicidade através de sua liberdade e por meios próprios.

             Aqueles que criticam a disciplina de contenção [que procura evitar os erros] e as rotinas impostas, costumam acreditar que existe um princípio que brota espontaneamente da alma em direção à verdade, independente de uma educação a ser oferecida. Estes deveriam olhar um pouco mais de perto para a realidade, porque a contenção pode expressar um autodomínio louvável em uma pessoa adulta, e as rotinas (higiene, alimentação, sono, etc.) contribuem para a estabilidade psicológica e emocional da criança, ao facilitar-lhe a vida e proporcionar a fundamental experiência da virtude da ordem contra o caos ou a desordem.

             O amor é uma moeda de duas faces: uma é a aceitação do ser amado por ser quem ele é; a outra é a exigência de que o ser amado esteja à altura de ser quem ele é. Cada face da moeda corrige os excessos da outra. Não negarei que nem sempre é fácil manter a moeda equilibrada na borda, pois às vezes cai de um lado e às vezes do outro. Mas a aceitação do outro sem exigência degenera facilmente em indulgência, tal como a exigência sem aceitação geralmente degenera em frustração. O amor não se contenta com mensagens de autoajuda. É por isso que admiramos os pais que ajudam os seus filhos a crescerem com competência diante do risco.

             Decidi escrever sobre estas questões depois de receber um presente de uma amiga francesa. Trata-se de seu caderno escolar de quando tinha onze anos, anos letivos de 1959-1960. Na primeira página encontrei o seguinte texto escrito em magnífica caligrafia: “A escola desenvolve a nossa inteligência, forma a nossa consciência e o nosso carácter e nos torna boas pessoas”. Depois, ao virar as páginas, encontrei outras preciosidades: “É preciso fazer cada dia um esforço para ser um pouco melhor que no dia anterior. Coragem“; “Vai-te para onde queiras, que ali encontrarás a tua consciência”; “O bem não tem sempre recompensa. É preciso fazer o bem pelo bem, não pela recompensa” “Tudo na vida está sujeito a deveres: em ser fiel a eles está a honra; em não os respeitar está a vergonha”.

             Podemos pensar que se trata de uma retórica ultrapassada, típica de tempos austeros, mas os testes internacionais confirmam que os melhores resultados escolares são obtidos por crianças que frequentam ao que uma destas provas (PIRLS 2016) chama de “Safe Schools”, escolas seguras, isto é, escolas sem problemas de disciplina. Além disso, os melhores leitores, seja qual for o país que considerarmos, frequentam escolas onde os professores enfatizam o sucesso acadêmico.

             Costumo defender a importância da autoridade familiar com três razões básicas:

             1. A criança precisa de aliados fortes para lutar contra os monstros que estão sempre debaixo da cama.

             2. O que educa a criança é a elevação do seu olhar até os olhos dos pais, e não ao contrário.

             3. A criança possui naturalmente muito mais energia do que bom senso para controlá-la, e quem deve suprir com sentido comum as deficiências de bom senso da criança é o adulto.

             Essas três razões também me servem para defender a autoridade na escola:

             1. O aluno precisa de aliados fortes para combater seus erros e inseguranças.

             2. O aluno necessita para formar-se de alguém que mereça o seu respeito e o ajude a visualizar, de forma crível, o melhor que pode chegar a ser.

             3. O professor necessita de doses enormes de bom senso para suprir as deficiências não de uma criança, mas das muitas crianças que tem na sala de aula.

             A pessoa educada é aquela que dispõe de recursos para – como disse uma de nossas místicas, Irmã María Jesús de Ágreda – elevar-se acima de si mesma. Mas este exercício é impossível se não tiver a luz do olhar de um adulto que ajude a crescer, encorajando a confrontar as expectativas razoáveis com a realidade.

             As épocas em que aquilo que é velho se resiste a morrer e o que é novo se recusa a nascer são propícias para as crises de autoridade. As figuras de autoridade tradicionais parecem ter esgotado a capacidade de ganhar respeito e já não podem atuar como guias, porém ainda não surgiram novas figuras orientadoras. Nestes momentos corre-se o risco de cair em generalizado ceticismo. Possivelmente nos encontramos em um deles, pois até o próprio conceito de adulto parece ter entrado em crise.

             Até há pouco tempo um adulto era um ser humano que, pela sua experiência e bom senso acumulado (que incluía o fato de ter vivido a sua própria infância), tinha respostas para tranquilizar as inquietações da criança. E a criança reconhecia espontaneamente no adulto uma capacidade maior que a sua para diferenciar o grande do pequeno, o bom do mau, o seguro do arriscado, o belo do feio, o conveniente do vergonhoso, etc. Esses adultos possuíam o segredo da autoridade que, em última análise, consiste em não defraudar.

             Para a criança, o adulto era a pessoa a quem ela queria impressionar. É por isso que ela exigia frequentemente a atenção dele: ―“Veja o que consigo fazer!”. O adulto era o homem sábio cuja aprovação sincera confirmava o valor dela.

             Tenho a sensação de que hoje nós, adultos, perdemos a autoridade diante das crianças porque nos cansamos de ser adultos, ou seja, de ser chatos, e preferimos elogiar indiscriminadamente tudo o que as crianças fazem, com esforço ou sem esforço, coisa que, desde logo é certamente menos desagradável. O preço a pagar pela eleição do mais fácil é que as crianças encontram em nós um olhar rotineiramente complacente. Procuramos oferecer-lhes um mundo acolchoado, uma sala de jogos sem arestas, sem dificuldades nas quais possam tropeçar e, portanto, com as quais poderiam medir-se a si mesmas. Em vez de direcionar grandes expectativas para as nossas crianças, direcionamos baixas expectativas para o mundo. Onde as crianças devem buscar respostas importantes para sua autoestima, quando educadas no relativismo?

             A formação do caráter foi substituída pela cultura da emotividade, para não pôr em risco a autoestima da criança e que, pelo contrário, a ajude a sentir-se bem consigo mesma. Para mim, a crescente incontinência emocional me faz desejar a contenção, e considero que mais nobre do que a empatia é o dever de ajudar naquilo que é considerado incompreensível, mas que necessita que se lhe estenda a mão.

             O giro emocional que a educação vive é um giro orbital dos adultos em torno do frágil eu da criança. Por isso custa-me cada vez mais esforço convencer aqueles que me querem ouvir de que o conhecimento rigoroso tem o valor de uma experiência moral. A compreensão de um problema geométrico, por exemplo, me permite descobrir uma verdade eterna, admirável, diante da qual não sou o medidor, mas o medido. Na escola, a razão comum emudece diante das opiniões, das competências, das emoções e, em suma, diante do eu da criança. Mas continuo acreditando que a melhor maneira de cuidar da nossa alma é proporcionando a ela experiências de ordem, começando pelos conhecimentos rigorosos. Continuo acreditando também que no mesmo conceito de razão está implícita a ideia de hierarquia, e que por isso um pensamento rigoroso é mais valioso que uma opinião, por mais que seja minha.

             Donoso Cortés [filósofo espanhol falecido em 1853] dizia que “o segredo dos crescimentos e das decadências das sociedades está no uso que fazem dos pronomes”. Em nossa sociedade o mais usado é o “eu” que, segundo Donoso, é a única palavra que se ouve no inferno.

             Concluo com uma anedota contada por David Brooks, colunista do The New York Times, em seu livro The Path of Character: quando George Bush pai concorria pela presidência dos Estados Unidos, se recusava a falar sobre si mesmo devido aos valores que lhe inculcaram na infância. Se um editor incluía a palavra “eu” em seus discursos, ele automaticamente a riscava. Os seus colaboradores lhe disseram: “Se está competindo pela presidência, tem que falar de você mesmo!”, e o forçaram a fazê-lo. No dia seguinte, Bush recebeu um telefonema de sua mãe, que lhe disse: ―“George, outra vez está falando de ti…”. E Bush voltou ao redil, não mais com “eu” nos discursos.

    Artigo de Gregorio Luri: “La autoridad en tiempos emotivos”, publicado em Aceprensa  https://www.aceprensa.com/firma-invitada/la-autoridad-en-tiempos-emotivos/, traduzido e adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/boletins. Imagem de Monstera Production.

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  • Laboriosidade

    Laboriosidade

    Deve-se procurar que os filhos aproveitem bem o tempo, empregando-o em atividades úteis, formativas, ajudando nas tarefas do lar, descansando de modo criativo… O sentido de responsabilidade deve ser fomentado desde a primeira infância. Ajudar a que sejam laboriosos, independentemente de prêmios ou benesses, pois a virtude está em amar o bem pelo bem. É preciso corrigir a inatividade, as perdas de tempo, as atitudes preguiçosas. Oferecer ideias de acordo com as possibilidades e aptidões de cada filho: descobrir seus pontos fortes e incentivá-los a investir tempo para desenvolver seus talentos, que devem ser empregados como modo de servir aos demais, pois isso é prova de verdadeiro amor.

    Imagem de Matheus Ferrero

  • Sinceridade

    Sinceridade

    O mundo atual, onde qualquer opinião é válida, necessita de pessoas apaixonadas pela verdade. A sinceridade deve ser ensinada desde o primeiro momento na vida da criança: conformar as palavras com o pensamento. A sinceridade de vida é compatível com os erros e os defeitos, porque nos leva a não os esconder e a nos esforçarmos por corrigi-los. «Os homens não poderiam viver juntos se não tivessem confiança recíproca, ou seja, se não manifestarem a verdade», diz Tomás de Aquino.

    Assim, para manter a ordem na vida familiar é indispensável que aqueles que a compõem digam a verdade: de outro modo seria difícil empreender projetos juntos ou confiar em alguém. Esta sinceridade abarca não só os fatos externos (quem quebrou o vaso, o modo de aproveitar o tempo, etc.), mas também a coerência com a própria consciência.

    Os pais devem facilitar que a criança seja sincera e não tema dizer a verdade, pois sabe que será ajudada, pois só assim será possível educá-la.

  • A harmonia da personalidade

    A harmonia da personalidade

    1 – Extensão do sentido de si mesmo. 2 – Relação emocional com outras pessoas. 3 – Segurança emocional. 4 – Percepção realista dos fatos. 5 – Autoconhecimento e senso de humor. 6 – Filosofia unificadora da vida.

             A maturidade é um tema importante, ligado à personalidade, ao modo estável de se relacionar consigo próprio, com os demais, e com o mundo. A maturidade é um processo que vai se desenvolvendo ao longo dos anos, e por isso ninguém pode se considerar totalmente amadurecido, pois a vida traz sempre novas situações e desafios que não se sabe como serão enfrentados.

             Se é difícil definir o que é uma pessoa madura, não o é perceber a maturidade ou imaturidade no comportamento de alguém. Não se trata de uma definição, mas da constatação de que a pessoa madura age de forma harmoniosa e sabe dar a nota adequada a cada situação, sem estridências, tal como um instrumento afinado, que não destoa. Francisco Insa, em seu livro “Formação da afetividade”, oferece os seis critérios para avaliar a maturidade pessoal e a daqueles a quem se deve formar, desenvolvidos pelo psicólogo americano Gordon Allport, professor de Harvard, considerado o pai da psicologia da personalidade.

    1 – Extensão do sentido de si mesmo

             Refere-se à conexão do eu com outra pessoa. Trata-se de sair do limite de si mesmo e alcançar o outro ao perceber que ele tem preferências, sentimentos e necessidades, e que o bem da outra pessoa é tão importante quanto o meu próprio bem, em qualquer âmbito: familiar, profissional, social, na relação com Deus.

             No fundo se trata de sair de si e olhar ao redor para agir com os demais tal como queremos que ajam para conosco. É uma preocupação com o outo, que passa a fazer parte do nosso eu. Um exemplo desse sair de si para se dirigir ao outro oferece Tolstói em Ana Karenina, ao dizer que Levine amava tanto a sua esposa Kitty, que já não sabia o limite que separava a ambos, porque ela já fazia parte da personalidade dele.

             É importante de integrar a pessoa, desde a infância, em diversos grupos – familiar, escolar, esportivo, cultural –, pois sentir-se membro de uma coletividade ajuda a desenvolver a sensibilidade para perceber os interesses e as necessidades dos demais.

             A extensão de si mesmo evita animosidades, apontar as carências nas estruturas sociais e em seus dirigentes. A pessoa madura ao se ver inserida por laços estreitos a uma instituição, procura colaborar na solução dos problemas como parte integrante dela (faz parte do seu eu), e age não como um telespectador que se dedica a criticar, mas em nada ajuda.

             Aos que têm a missão de formar pessoas – pais, professores –, devem perceber se os educandos saem de si para se voltarem aos seus pares. Se o educando vir que o educador sai de si para ajudá-lo com metas exigentes, mas factíveis, passará a confiar mais em seu formador.

    2 – Relação emocional com outras pessoas

             A pessoa madura não cria animosidades com os demais ao seu redor; ao contrário, se interessa por eles, é empática, compreensiva, tira a importância dos defeitos deles, sabe escutar e conviver com os que pensam e são diferentes de si. Essa relação emocional boa constrói autênticas amizades porque faz agir desinteressadamente e fugir das críticas e murmurações. Quem é desprendido de sua imagem não cria panelinhas nem dependências afetivas, porque não pretende dominar o outro para ter um séquito de admiradores.

             O imaturo não tem boa relação emocional com ninguém porque ama apenas a si, e por isso se impõe, deseja que todos pensem a ajam como ele, se intromete em assuntos para chamar a atenção e destila o veneno de queixas, críticas, ciúmes e sarcasmos, quando as coisas não saem como quer. Em Irmãos Karamazov, Zózima afirma que ama a humanidade em geral, mas que não consegue amar e conviver com pessoas em particular, e que subiria ao calvário pela humanidade, mas que não podia conviver dois dias com uma pessoa na mesma casa.

             Na formação das pessoas, diz o Papa Francisco, é preciso estar atento para que os educandos não dominem seus pares, nem se fechem à amizade ou tenham dificuldades de estabelecer relações interpessoais

    3 – Segurança emocional

             Os estados de ânimo devem guardar proporção qualitativa e quantitativa com as circunstâncias que os desencadeiam. Este critério de maturidade mostra a necessidade de saber expressar os sentimentos com proporcionalidade: não exagerar na manifestação deles em situações que merecem poucos sentimentos, nem colocar menos sentimentos em situações que mereceriam mais: depositar demasiado sentimento em pets e pouco em pessoas revela desajuste emocional.

             A pessoa madura possui saudável autocrítica que a leva a buscar soluções e a ter conduta flexível para saber perdoar ou não deixar de cumprir as obrigações quando o estado de ânimo é contrário a elas. A maturidade por não ser imediatista faz perseverar no esforço por alcançar bens mais distante, tolera as frustrações, releva as contrariedades sem chutar o balde. Ver os erros próprios e alheios sem cair na frustração, autocompaixão ou cólera, nem buscar culpados para descarregar a própria culpa, são sinais de segurança emocional.

             Na formação das pessoas é preciso perceber como os educandos vivenciam seus estados de ânimo: friezas, antipatias, rompantes afetivos desproporcionados (torcer pelo time exagerando a conduta, irritar-se porque perdeu um jogo) são condutas que precisam ser corrigidas o quanto antes.

    4 – Percepção realista dos fatos

             Esta característica da maturidade refere-se à relação com o mundo, com a verdade dos fatos e a capacidade de interagir com o entorno sem alterar a realidade. O imaturo distorce os fatos, negando-os, para refugiar-se em fantasias que alteram o modo de ver a realidade: – Não, isso não pode estar acontecendo comigo!

             Já o maduro raciocina sobre fatos reais, sem se deixar levar pelo pensamento mágico ou infantil condicionado por emoções que buscam alterar a realidade para satisfazer critérios egoístas ou covardes. A capacidade de perceber realisticamente os fatos relaciona-se com a responsabilidade, com o trabalhar bem para solucionar os problemas que se apresentam, organizando e cumprindo as tarefas com constância, independente de estados de ânimo.

             O educador deve perceber se o educando está dentro ou fora da realidade: se um colegial pretende fazer engenharia e desconhece as matérias que pesam mais no ENEM ou Fuvest; se não sabe o número de questões dessas provas, nem o tempo a dedicar a cada uma; se possui ou não as qualidades necessárias para esta, deverá posicioná-lo diante dos fatos para não se deixar levar por fantasias ou confiança ingênua de que as coisas irão se ajeitar por si sós, pondo-se à espera de situações idílicas que dificilmente acontecerão. Trata-se de ajudar as pessoas a enxergarem os problemas de forma realista, ensinando-as a buscar soluções compatíveis com suas possibilidades, propondo metas ambiciosas, mas realizáveis, e sem desanimar diante dos obstáculos.

    5 – Autoconhecimento e senso de humor

             Trata-se de conhecer-se tal como realmente se é, com qualidades e defeitos. O ditado que “o melhor negócio do mundo e comprar um homem pelo que vale e vendê-lo pelo que acha que vale”, sustenta-se no desconhecimento pessoal. Revela imaturidade possuir uma ideia pobre de si mesmo (baixa autoestima), ou, ao contrário, ser afetado ao se mostrar como na realidade não se é, tal como o adolescente que anda com um tênis de boa grife, mas falsificado, pois pretende enganar a todos de que sua família é endinheirada.

             É experiência comum entre os psicólogos que as pessoas conscientes de suas carências e defeitos são menos propensas a atribuir defeitos nos demais e não estranham que os demais também tenham defeitos. E por serem mais compreensivas em seus julgamentos, se tornam pessoas mais aceitas. Há quem possui defeitos e não os percebem, e projetam nos demais suas próprias carências: Santo Agostinho dizia “Procurai adquirir as virtudes que credes que faltam em vossos irmãos e já não vereis os defeitos deles, porque não os tereis vós mesmos”.

             O autoconhecimento da pessoa madura conduz ao bom humor, ao sabe rir diante das carências e falhas próprias, que as reconhece, mas não se abala por ser humilde e ter esperança de mudar ao colocar os meios. Esse humor é diferente do riso debochado do cínico, que ri de si e dos demais sem esperança de mudanças positivas.

             Um bom caminho para o real conhecimento de si é perguntar-se: – Como as pessoas me veem? Julgo correta ou falsa essa opinião que os demais têm de mim? O conhecimento de si somado ao juízo correto da realidade (quarto critério) leva a servir aos demais com as aptidões e qualidades pessoais sem falsas humildades, e por não invejar os demais.

             Perceber na formação dos mais jovens a tirania das expectativas, que os leva a pensar que seus pais, professores ou chefes esperam muito deles, o que nem sempre coincide com a realidade, levando-os a tensões e ansiedades ao querer agradar e satisfazer os desejos dos outros, mesmo que não goste do que faz.

             É preciso evitar a distância entre o que eu sou, o que poderia ser, o que gostaria de ser, o que creio que deveria ser e o que os outros me dizem que deveria ser. Estar próximo dessas apreciações é estar na verdade sobre si.

    6 – Filosofia unificadora da vida

             A personalidade madura tem uma filosofia que unifica e dá sentido à vida, formulada em um sistema de valores que orienta as ações em busca do fim que escolheu viver: um cristão busca a unidade de sua vida com Deus; um pacifista, ecologista ou comunista orienta sua vida em busca desses valores que acredita; o teórico procura a verdade, o utilitarista busca o útil; o estético, a forma; o político, o poder… Cada deve examinar sua coerência.

             Cabe a cada indivíduo descobrir seu caminho e aderir livremente a ele. Os formadores ao apresentar um ideal de vida atrativo e atingível, ajudará o formando a descobrir o tipo de pessoa deseja ser, o ideal de serviço aos demais que o atrai, e como se esforçar para tal, sempre contando com a ajuda de Deus, que não abandona ninguém.

    Texto produzido por Ari Esteves com base nos ensinamentos de Francisco Insa, no livro “A formação da afetividade”, Editora Cultor de Livros, São Paulo – SP. Imagem de Ayşenaz Bilgin.

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  • Educação comportamental: crianças de 0 a 12 anos

    Educação comportamental: crianças de 0 a 12 anos

    1 – Fase pré-natal. 2 – De zero aos três anos. 3 – Dos quatro aos sete anos. 4 – Dos oito aos nove anos. 5 – Dos dez aos doze anos

    1 – Fase pré-natal

             Conhecer a realidade das crianças de acordo com cada fase é a melhor forma de oferecer uma excelente educação. A passagem de uma etapa para outra geralmente é manifestada por aspectos notórios. Existe a fase pré-natal (no útero materno), onde já ocorrem aspectos fisiológicos e psicológicos: uma forte tensão emocional ou estresse da mãe liberam hormônios alterados que chegarão ao feto e criarão na futura criança tendência à ansiedade ou angústia; um lar com ruídos fortes provocados pelas múltiplas mídias, discussões, chegam à audição do feto a partir da décima semana, e prejudica a bioquímica do cérebro e do coração. Por isso, um lar sereno, a seleção de boas músicas – melhor se for cantada suavemente pela mãe -, fará a criança captar esses sons agradáveis que influirão no futuro bebê.

    2 – De zero aos três anos

             Com a saída do útero a criança penetra num ambiente muito diferente, que poderá trazer a ela aspectos positivos ou negativos, caso não seja atendida devidamente, tanto nos aspectos fisiológicos, manifestados pelas necessidades básicas naturais (comer, dormir, ouvir sons) e pela hereditariedade, quanto nos psicológicos: sentimento de acolhimento, harmonia, tranquilidade e segurança desde os primeiros meses; ou de medo e insegurança.

             A normalidade sentimental ou afetiva da criança (sentimentos, emoções e paixões) é a primeira e mais importante educação a ser oferecida pelos pais, e não pela escola. As falhas nesse âmbito dificultarão a educação da vontade e da inteligência, consideradas faculdades superiores, pois o bom desenvolvimento destas apoia-se no autocontrole e domínio emocional.

             Toda criança está centrada em si mesma não por egoísmo, mas por necessidade da natureza. Aos poucos o bebê vai percebendo a vida ao seu redor, sendo importante para ele a boa relação com a mãe, pai e irmãos. Nessa fase a criança aprenderá através da imitação, e não por raciocínio: imitará o sorriso, gestos, ritos e atitudes das pessoas a quem ama. O bom relacionamento dos pais entre si é fundamental para a criança nessa fase para se sentir segura, pois do contrário se assustará e somatizará os desentendimentos dos pais. Por isso, o lar deve ser sem limpo, cheiroso (a criança começará a sentir os bons odores do seu lar), e sem estridências, pois os sons da casa serão captados desde o berço. Se os horários do lar estiverem bem determinados, o bebê e a criança até três anos vivenciarão com alegria as rotinas, pois sente segurança ao repetir sempre as mesmas coisas e nos mesmos horários: banhos, refeições, brincadeiras, luzes apagadas à noite e sono… Tudo isso dará a elas sentimentos de segurança, ternura, alegria e autonomia ao vivenciar o ritmo de cada etapa do dia. Mais adiante, a criança de três anos ficará entretida em seus brinquedos e pensará em voz alta, sendo importante não a interromper para resolver os pequenos problemas dela, nem oferecer a ela o celular ou o tablete (atitude dos adultos que merece chibatadas!). Mais adiante essa criança será ordenada e saberá concentrar-se para cumprir suas tarefas, sem que a fiquem cobrando para isso.

    3 – Dos quatro aos sete anos

             Neste período a criança é muito ativa e deseja conhecer o mundo que a circunda, e inicia fase dos “porquês”, ao desejar saber a utilidade prática das coisas (poderá até quebrar objetos para ver o que acontece). O mundo vivo e o inerte são para ela uma coisa só. Começa certo movimento de oposição (dizer não), de impor seu gosto e de certa exibição do eu para se autoafirmar. Inicia a saída do âmbito familiar para adentrar no da escola, festas e outras atividades fora de casa; terá novos amigos e gostará de brincar e jogar com eles, e não mais só. Entre os seis e sete anos começa a raciocinar sobre o concreto e não sobre o conceitual e abstrato. Desperta a consciência moral para a compreensão do que é certo ou errado, mas sendo seu raciocínio muito concreto, a leitura dos contos clássicos terá importante papel ao materializar para a criança o bem e o mal por meios dos personagens das histórias. Nesta fase o exemplo das pessoas com as quais convive é intensamente absorvido e imitado: modos de agir e de falar; hábitos de ordem ou desordem e de aproveitamento ou perdas de tempo; espírito de serviço ou falta de preocupação pelos demais; de ser solidaria e colaborar para com a ordem e limpeza da casa ou viver só para si e suas coisas…

             O prazer que as crianças nessas idades têm de ouvir contos, histórias e narrativas oferece de mão beijada aos pais a melhor oportunidade de fazê-las amar os livros e se verem livres de perder o tempo com celulares, tabletes e excesso de TV. Se no início dessa fase os pais e os irmãos lerem para elas os clássicos contos infantis (ver nossa lista de contos infantis), ficarão felizes e aguardarão ansiosamente esse momento, desejando aprender a ler para viajarem sozinhas pelo mundo das letras. Quem lê para crianças pequenas deve armar-se de paciência, pois elas pedem para repetir incansavelmente as histórias que apreciaram, sem cansar-se de ouvi-las.

             As atividades ao ar livre são maravilhosas para as crianças de quatro a sete anos, acostumando-as a não depender de celulares e tablets para se divertir (crianças viciadas em telas digitais ficam entediadas com o mundo real, pois acostumaram-se a apertar botões para ver apenas o irreal). Jardins botânicos, parques e zoológicos as fazem contemplar ao vivo a maravilhosa ordem estabelecida por Deus na Criação: animais e aves com seus pares, plantas e flores de todas formas e cores revelam a existência de uma ordem ou inteligência na natureza… Passeios pelo campo fazem as crianças conhecerem as plantas e os seus nomes, além dos pequenos animais e insetos que ali vivem. Os pais não devem temer que subam em árvores ou se deitem na grama para olhar as figuras desenhadas pelas nuvens. Em dias de chuvosos, mais do que socar as crianças dentro de uma sala, onde facilmente contraem gripes e resfriados, é melhor vesti-las com roupa impermeável para brincar na chuva e apreciar o ecossistema desses dias, bem diferentes dos ensolarados: o cheiro de terra molhada, o brilho das folhas, as multidões de pequenos insetos que passam a circular nas folhagens úmidas (caracóis, lesmas, entre outros) permitem novas descobertas.

             Aos sete anos inicia a idade escolar com sua carga de horários, provas e tarefas com prazos pré-fixados, que ajudarão a crescer no sentido de responsabilidade, e a não fazer apenas o agradável ou gostoso. Se os pais exigiram desde os três anos de idade a que cumprissem seus pequenos encargos familiares e aos horários estabelecidos, terão adquirido hábitos que agora, na infância, permitirão agir com soltura, determinação e sem manhas, choradeiras ou preguiças.

    4 – Dos oito aos nove anos

             Nesta fase, e até um pouco antes, o sentido de oposição, independência e de opinião são mais veementes (pretendem fazer e decidir sozinhos). Cresce nas crianças a necessidade de socialização e multiplica-se o número de amigos, pois são capazes de cultivar amizades mais conscientemente. O modo de pensar continua a ser concreto, mas a consciência moral desponta, fazendo a criança se sentir incomodada diante de más ações, próprias ou praticadas por outros. Aumenta o sentido de responsabilidade, e passa a compreender melhor as necessidades dos demais, sendo um ótimo momento para ganhar hábitos de solidariedade, de combater egoísmos ou de desejar encerrar-se em suas coisas (meu tempo, meus jogos…): visitar orfanatos junto com o pai para doar brinquedos bons, não mais utilizados; levar bolo aos idosos de um asilo; ajudar irmãos e amigos com dificuldade escolares; visitar amigos doentes…

             Trata-se de um período em que a criança é capaz de contemplar, escutar, assimilar, interiorizar e maravilhar-se. Mas não é capaz de ouvir por muito tempo, e nem de trabalhar isoladamente por longos períodos. Aflora com veemência a criatividade de inventar jogos e regras, de construir objetos e imaginar brincadeiras em equipe, entre outras iniciativas, desde que não tenham adquirido o vício de celulares e telas eletrônicas, que lhes sugam a imaginação e engenhosidade, resumidas em apertar botões e se satisfazer com isso.

             As crianças nesta fase são facilmente introduzidas no mundo da cultura e da arte. Para lhes ampliar o gosto estético, visitar com elas museus e exposições de quadros e esculturas; percorrer feiras de livros ou livrarias; inscrevê-las na biblioteca pública mais próxima da residência; levá-las a salas de contação de história ou de recitação de poesias e de leitura, ir ao teatro infantil… As apresentações musicais ao vivo ou em vídeos, com diferentes gêneros musicai, aguçará o sentido estético para fugir dos pobres gêneros impostos pelas mídias atuais. Muitas crianças nesta fase se interessam por aprender a tocar um instrumento musical ou a desenvolver um hobbie artístico que as fará aproveitar melhor as horas livres.

    5 – Dos dez aos doze anos

             É a idade prática, do gosto pelo jogo, aventura e da vivência em grupo. Desejam possuir e dominar o mundo, julgam-se autossuficientes, mas continuam com dificuldades para captar o abstrato e pouco se conhecem a si mesmos. Aceitam as leis e as regras como parte de um jogo (inclusive as inventam para suas brincadeiras e disputas). Os hábitos bons ou ruins se cristalizam com facilidade nestas idades, e serão levados para fase seguinte (da juventude): terão bons hábitos se os pais exigirem com paciência a que cumpram os encargos e as tarefas que lhes cabem; que tenham horários de dormir e acordar; de jogar e de cumprir suas tarefas e encargos. As rotinas, atividades pré-fixadas e fórmulas prontas lhes facilitam a vida e trazem mais segurança: uniformes, horários estabelecidos para todos na vida familiar, nas atividades escolares e outros compromissos.

             Nestas idades, se não foram educados em valores ou modelos de conduta, facilmente se deixarão influenciar pelos amigos (roupas, modos de agir e de dizer, hábitos…), razão pela qual os pais devem esclarecer bem a inteligência deles para que possam fundamentar uma opinião contrária à dos demais sobre a sexualidade humana, imagens pornográficas, drogas, roupas e materiais esportivos caros…

             Caracterizam também esta fase a boa memória, o aprendizado fácil, o aprofundamento na noção de tempo e de causa. Possuem capacidade para se esforçar, se não adquiriram o vício da preguiça na fase anterior por falta de exigência dos pais. Idealistas, aceitam os desafios para metas que estejam dentro de suas capacidades, mesmo que exijam esforços por alcançá-las. Aprendem com facilidade por meio de exposições ou palestras vivas, concretas e criativas: encenações, gestos, cantos, cartazes e vídeos bem selecionados. O gosto pela ficção científica e pela aventura podem levá-los a ações temerárias. Influenciados pelos amigos podem aceitar certas formas de agressão e crueldade com os animais. Tendem a viver em torno de seus planos e manifestam frieza e indiferença para com as pessoas, se não foram iniciados em casa para a solidariedade, espírito de serviço e preocupação pelos demais. Podem desobedecer com facilidade, seja por preguiça, teimosia ou autoafirmação. Têm capacidade para avaliar moralmente suas ações, possuem senso de justiça e se revoltam diante de injustiças praticadas contra os menos favorecidos. São suscetíveis, magoam-se facilmente e afastam-se dos pais, caso estes não compreendam suas razões.

             Esta fase pode ser bem aproveitada para a transmissão de valores ou modelos de conduta: solidariedade ou preocupação pelos demais, buscar ideais altos com os quais possam servir com suas qualidades pessoais, não mentir e ser honestos e verazes, a não se corromperem por dinheiro ou outras facilidades…

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, inspirado pelo artigo “Educação das crianças”, de Nilva Brugnera, no livro “Como educar hoje” – Reflexões e propostas para uma educação integral”, Editora Mundo e Missão, São Paulo (SP), 2003. Imagens de Pavel Danilyuk.

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  • Comunicação com os filhos

    Comunicação com os filhos

    1 – A verdadeira comunicação é estrada de duas mãos: a de falar e a de ouvir. 2 – Ouvir de forma passiva incentiva a criança a falar. 3 – Ouça ativamente se os filhos buscam respostas. 4 – Não se escandalizar com as perguntas. 5 – Deixar os filhos manifestarem seus sentimentos. 6 – Animar as crianças a resolverem os próprios problemas.

    1 – A verdadeira comunicação é estrada de duas mãos: a de falar e a de ouvir

             É comum ouvir de crianças e adolescentes que os pais não lhes dão atenção quando falam, porque não se interessam pelo que dizem ou sentem, e que só ouvem deles sermões e reclamações. Ter boa comunicação com os filhos é o que todos os pais têm de ansiar, pois se esta porta se fecha não há como educar. A verdadeira comunicação é uma estrada de duas mãos: a de falar e a de ouvir de forma aberta e interessada. Ou seja: falar com o filho (dialogar) e não falar para o filho (monologar).

             Muitos pais falam apenas o que lhes interessa, e recheiam o diálogo com sermões, cobranças, ordens, críticas, sem permitir que os filhos expressem seus sentimentos e pensamentos, e com isso afastam de si os seus rebentos, que preferem ficar na defensiva e evitar novas críticas de pais reclamões, mas vão se abrir com amigos e colegas por vezes mal preparados para ajudar.

    2 – Ouvir de forma passiva incentiva a criança a falar

             Para incentivar o filho a falar, a fim de compreendê-lo, é necessária uma atitude de apreço salpicada de algumas perguntas feitas com delicadeza para incentivar a que continue a exposição. Demonstra receptividade à informação que está sendo passada, a atitude de ouvir de forma passiva, sem emitir juízos ou interromper o que a criança ou adolescente diz. Quando a mãe deixa a criança contar algo, e apenas lança palavras de incentivo, tais como ”entendo”, “que bom”, “puxa, interessante!”, “verdade!”, são comentários que não eliminam na criança o desejo de falar. Poucos pais entendem isso, e logo se põem a corrigir, interpretar, dar lições… Ouvir de forma passiva permite a criança expressar seus sentimentos em atmosfera de aceitação, e isso fomenta a autonomia dela e ajuda a que ela conclua como resolver sozinha o problema que a aflige.

             Os filhos precisam se sentir aceitos pelos pais, com demonstrações práticas de afetos: – Compreendo, filho, o que você está me dizendo; ou por meio de linguagens não verbais que revelam os sentimentos paternos ou maternos pela postura, sem que digam palavra alguma: olhar nos olhos, ouvir com atenção, expressões faciais e tom de voz são mensagens positivas que abrem caminho para uma grata conversação.

             Pais que omitem elogios ou simpatia desapontam os filhos quando estes fazem bem as coisas. Não reconhecer o esforço de crianças e adolescentes é um modo negativo de educar, e ocorre porque os pais julgam que se fizeram o que se esperava deles, nada há que dizer. Trata-se de clamorosa injustiça tal atitude, cujo foco fica apenas naquilo que não sai bem. Pais que não reconhecem o esforço dos filhos por melhorar, promovem nestes o mutismo e o afastamento.

    3 – Ouça ativamente se os filhos buscam respostas

             Ouvir de modo passivo tem seu momento, e não pode ser algo permanente, já que os filhos buscam respostas que determinarão a confiança nos pais. Uma resposta eficaz, dada com bons modos, incentiva o filho a continuar com a fala. Esse tipo de comunicação abre as portas porque não julga ou critica: “-Interessante é essa pergunta”, “- Fico feliz em saber disso”, “- Compreendo o que você está me dizendo”, “- Puxa, explique mais”. Tais frases, ou outras semelhantes, expressam interesse pelos assuntos dos filhos e revela atitude humilde de pais que aprendem com os filhos e apreciam ouvir seus pontos de vistas. Tudo isso contribui para fomentar o diálogo com os filhos, e evita a monopolização da conversa com sermões, instruções e conselhos não procurados. Todos, inclusive as crianças, se sentem gratificados quando são respeitados e suas falas são recebidas com interesse.

             A forma ativa e interessada de ouvir não é técnica para manipular os filhos, mas verdadeira caridade, amor ao próximo. Não se trata de animar um filho a falar para descobrir seus sentimentos ou para tentar corrigi-lo, pois se percebe tal atitude artificial perderá a confiança e se calará. Ouvir o filho é estar disposto a se desprender do próprio tempo, em atitude generosa de abertura à opinião dele, mesmo parece um pouco estranha a forma como ele raciocina ou sente o problema. Porém, se o filho não quiser falar de seus sentimentos não o force nem insista, mas respeite a privacidade dele. Os pais, ao expressarem com as próprias palavras sobre o que compreenderam da explicação dos filhos, fará com que estes se certifiquem de que foram entendidos. Ao ouvir com atenção, os pais podem até mudar de opinião e compreender as razões do filho e como este se sente.

    4 – Não se escandalizar com as perguntas

             O que sempre deve ser evitado na comunicação com qualquer pessoa, principalmente com os filhos é a discussão. Atitudes de ataque e defesa, onde um diz algo e o outro se defende e contra-ataca, faz com que ambos não cheguem a conclusão alguma, pois estarão fechados em atitudes de orgulho, sem se importar com o que o outro diz.

             Os pais precisam estar abertos para ouvir também assuntos desagradáveis, sem nunca se escandalizar com o que os filhos lhes dizem. Crianças, adolescentes e jovens querem ser ouvidos acerca de seus problemas, sem que seus pais se indignem com suas confidências, nem os recriminem. Ao manifestar erros, preocupações, dúvidas, angústias ou temores, os filhos buscam ajuda. Mais do que dizer “- Eu não falei!”, “- Bem que desconfiava”, “- Agora se vire”, é melhor dizer “- Bem, acho que isso tem solução”, “- Nada nos acontece sem que Deus o permita”, “ – Sempre podemos ganhar experiências com nossos erros”…

    5 – Deixar os filhos manifestarem seus sentimentos

             Conhecer os sentimentos dos filhos é importante: se a criança manifesta raiva do irmão, mais do que ser recriminado por isso, que seria negar seus sentimentos, é preciso perguntar o motivo que o fez se sentir assim, e arrazoar com ele o modo de resolver a questão e aliviar seus sofrimentos. As crianças querem dividir seus sentimentos com os pais, e estes não podem de antemão negar os estados de ânimo ou julgá-los sem importâncias. Os sentimentos negativos são uma realidade na vida de todos, e surgem sem que se possa evitá-los: ciúmes, invejas, raivas… Todos, inclusive os pais, precisam saber lidar com seus sentimentos negativos, e ajudar os filhos a lidarem com eles também. O primeiro passo é nunca julgar as intenções das pessoas, privilégio que pertence só a Deus. Pensar o melhor das pessoas ajuda a redirecionar os próprios sentimentos: – Fez tal coisa por fraqueza ou por ignorância.

             Qualquer pessoa abalada por um problema emocional não pensa com clareza. Ao dialogar com o filho sobre o que o incomoda, os pais o ajudam a ver melhor o problema e como resolvê-lo. Por isso, é bom que o filho desabafe seus sentimentos negativos, pois assim não explodirá de forma intemperada, já que ao colocar para fora algo que incomoda elimina as amarguras da alma. Dizer a um adolescente que manifestou um sentimento negativo que isso é algo inaceitável, terrível, o fará esconder seus estados anímicos no futuro, ao julgar que nunca será compreendido, e com isso a repreensão terá efeito contrário. Ouvir com simpatia e atenção ao filho alterado emocionalmente, compreender seus sentimentos e oferecer-lhe argumentos que talvez não tenha pensado, o ajudará avaliar melhor a situação que provocou a irritação, pois às vezes colocamos demasiados sentimentos em realidades que merecem menos sentimentos e, ao contrário, colocamos poucos sentimentos em realidades que mereceriam mais. Isso o fará amadurecer psicologicamente diante das situações difíceis que terá que enfrentar na vida.

             Mais do que responder perguntas, os pais devem perceber o que sentimentos há por trás delas. O Dr. Haim Ginott, em seu livro Between Parent and Child, dá o clássico exemplo da criança que ao visitar pela primeira vez o jardim de infância onde passaria a frequentar, pergunta à mãe sobre quem havia feito os desenhos tão feios pendurados nas paredes, e a mãe pediu para que ele ficasse quieto; depois, ele perguntou sobre quem havia quebrado o carrinho que estava ao lado, e a mãe também obrigou-o a calar-se, já que ele não conhecia nenhuma criança da escola, e achava desnecessária tal preocupação. Porém, a professora intuiu os sentimentos da criança – coisa que a mãe não percebeu –, e respondeu que não era necessário que se fizesse desenhos bonitos, e que o fato de brinquedos se quebrarem era algo fácil de ocorrer. A professora ofereceu respostas que fizeram a criança se sentir segura, caso seus desenhos não agradassem ou se quebrasse algum brinquedo. Ouvir com atenção e de forma ativa abre as portas da comunicação com o filho, e faz perceber não apenas o problema que o aflige, mas o sentimento que se oculta sob suas palavras.

    6 – Animar as crianças a resolverem os próprios problemas

             Quando a criança ou o adolescente expõe uma dificuldade, os pais devem resistir à tentação de resolver o problema para ele dizendo-lhe como fazer, a fim de que aprenda a raciocinar e encontrar a solução, sem esperar que os demais sempre resolvam suas questões. Se a criança vem com os tênis trocados de pés e pergunta se estão corretos, indague sobre o que ela acha. Com certeza o pirralho examinará os pés e chegará sozinho à conclusão de que estão trocados, e começará a resolver as coisas por conta própria. Outras vezes manifestará chateação porque o irmão lhe quebrou o brinquedo, sendo preciso concordar com esse desagradável fato, e compreender sua tristeza sem contestá-la. Mas, pergunte a ele como o assunto poderá ser resolvido: poderá afirmar que o irmão deverá consertar o brinquedo à custa da própria mesada, ou que deverá lhe dar outro brinquedo.

             Outro aspecto de péssima comunicação com o filho é quando este se encontra atento em alguma atividade ou jogo, e o pai ou a mãe o interrompe para oferecer ajuda. Tal atitude sinaliza que os pais não confiam nas habilidades do filho, levando-o a concluir que não vale a pena continuar suas tentativas, pois o julgam incapaz de finalizar o jogo. Demonstre confiança nas habilidades do filho para resolver as próprias questões, sem impor a sua opinião nem o influenciar, para que não os culpem caso a sugestão não dê certo. Os filhos desde pequenos precisam aprender a resolver seus problemas por conta própria, pois não terão os pais sempre presentes nas diferentes situações escolares e sociais. Isso lhes dá confiança em si mesmos.

             Sugerimos a leitura do boletim Como falar com seu filho adolescente

    Texto elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base no artigo “Benefícios da comunicação adequada”, de Nancy Van Pelt, do livro “Como formar filhos vencedores”, Casa Publicadora Brasileira, Tatuí-SP, 2011. Imagem de Anastasia Shuraeva.

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  • Educar primeiro os afetos da criança

    Educar primeiro os afetos da criança

    1 – Buscar a normalidade sentimental dos filhos. 2 – Iniciar a educação pelos hábitos de temperança e de fortaleza. 3 – O desequilíbrio afetivo conduz a comportamentos problemáticos. 4 – Os pais devem ser educados para educar bem.

    1 – Buscar a normalidade sentimental dos filhos

             A normalidade sentimental ou afetiva da criança é a primeira e mais importante educação a ser oferecida pelos pais, e não pela escola. A normalização da afetividade (sentimentos, emoções e paixões) da pessoa humana é básica, e as falhas nesse âmbito tornarão difícil a educação da vontade e da inteligência.

             O equilíbrio dos afetos, paixões e sentimentos da primeira infância até aos dez ou onze anos, é indispensável para que as grandes faculdades espirituais (inteligência e vontade) se desenvolvam em toda potencialidade: a criança dominada pelo mal hábito da preguiça não se disporá a estudar e a cumprir outras tarefas porque a vontade estará enfraquecida para superar os sentimentos de má vontade; se não for educada para vencer-se e a ter autodomínio irá desmoronar diante das frustrações e reagirá de modo desproporcionado ao ser contrariada, defeitos que adentrarão na adolescência, juventude e idade adulta. O desequilíbrio afetivo e emocional trará dificuldades no desenvolvimento não só da aprendizagem, mas também na formação integral da personalidade.

    2 – Iniciar a educação pelos hábitos de temperança e de fortaleza

             A criança move-se inicialmente pelo que é imediato, pelos caprichos de cada momento e impulsos primários, pois quer se sentir bem e deixar de se sentir mal, mesmo à custa de fazer coisas más ou deixar de fazer coisas boas. Por isso, convém iniciar a educação afetiva da criança pelos hábitos de temperança e de fortaleza: pela temperança ao educar para não abrir a geladeira e comer fora de hora ou só o que aprecia; para não passar horas e horas vendo desenhos e deixar de cumprir outras atividades. Quanto à educação para a fortaleza, que pode se desenvolver desde a primeira infância, começa quando a criança é estimulada a ser disciplinada para cumprir horários de banho, refeições, dormir e acordar; quando ajuda nos pequenos encargos do lar, adaptados à sua idade, como guardar brinquedos e roupas no lugar certo, enxugar o banheiro, colocar a fralda suja no lixo, colaborar na colocação de pratos e talheres na mesa, etc…

             O desenvolvimento de bons hábitos na criança deve anteceder a educação nas virtudes, pois estas exigem o querer livre da vontade iluminada pela inteligência, que começa a ocorrer a partir dos seis ou sete anos, quando a criança passa a compreender e a dizer, por exemplo: – Eu quero ter meu quarto, roupas e brinquedos ordenados. Antes disso, como a inteligência e a vontade ainda não estão desenvolvidas, a criança age mais em função de gostos ou caprichos, e necessita ser ajudá-la a criar hábitos bons que depois passarão a ser racionais ou queridos pela própria vontade.

    3 – O desequilíbrio afetivo conduz a comportamentos problemáticos

             Se não há normalização sentimental porque as paixões se desorganizaram e passaram a ser dominantes, será difícil que a criança chegue à adolescência e à juventude com hábitos de estudo e capacidade de resiliência para alcançar ideais que exijam sacrifícios, que tenha autonomia e força de vontade para assumir responsabilidades… O desequilíbrio afetivo e o deixar-se conduzir apenas pelos sentimentos e emoções levará o adolescente ou jovem a ter dificuldades no domínio do temperamento e correrá o risco de buscar formas exageradas de divertimento, que facilmente o conduzirão à pornografia, às drogas ou a desajustes psicológicos.

    4 – Os pais devem ser educados para educar bem

             Os pais devem se esforçar para se respeitarem, amarem-se, terem espírito de serviço, apoiarem-se mutualmente, não se desautorizarem ou se contradizerem: “um pai ou uma mãe mal-educados não podem ser bons educadores”, diz Leonardo Polo. Isso porque a fase mimética ou de imitação da criança é intensa na infância.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado no livro “Ayudar a crecer: cuestiones filosóficas de la educación”, de Leonardo Polo, Ediciones Universidad de Navarra, España, 2006.

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  • A escolha de princípios

    A escolha de princípios

    1 – Toda pessoa busca ser feliz. 2 – Existe uma hierarquia entre os valores. 3 – Coerência entre o que se pensa e a conduta. 4 – Há vidas exemplares que transmitem valores.

    1 – Toda pessoa busca ser feliz

             Que valores ou princípios regem a minha vida? Sendo guia ou referência para o agir humano, enganar-se na escolha de um valor poderá ser fatal, pois construir a vida sobre o erro é caminho para o fracasso. Nada melhor que andar na verdade sobre nós mesmos e sobre as realidades que nos cercam. Uma verdade que se torna critério é um valor para reger a conduta. O homem age em vista de finalidades ou valores prévios que guiam suas escolhas, sempre orientadas para a felicidade própria, já que ninguém procura ser infeliz. Porém, a almejada felicidade está dentro da esfera da verdade e do bem não teóricos, mas práticos, alcançáveis. Busca-se o que se considera importante dentro de uma hierarquia de valores que compara um bem em relação a outro: quem procura manter a saúde avalia o grau de colesterol dos alimentos; quem dá valor ao descanso programa um divertimento sadio para o fim de semana, mas substitui esse valor pelo da caridade a fim de visitar o amigo que soube estar internado num hospital. Se não houvesse capacidade de ordenar os desejos, segundo um pondo de vista objetivo, predominaria o conflito entre as diversas pretensões pessoais.

             Guardini disse que valor é aquilo pelo qual um ser é digno de ser, uma ação é digna de ser cumprida. O valor é uma qualidade inerente à realidade; é um aspecto do bem e da verdade, que são inseparáveis, que emanam do objeto que se conhece, e se torna um bem para a pessoa e para os demais. O fundamento de um valor não está no sujeito que o conhece, mas em cada ser criado, que faz transcender de si valores como verdade, bondade e beleza, perceptíveis ao colher dele sua inteligibilidade, bondade e beleza emanados em grau diversos, o que permite compreender que há valores mais elevados em relação a outro.

             Os valores estão ligados à realidade e não são os homens que os estabelecem de modo arbitrário. Não podemos colher a beleza e a verdade de modo absoluto, porque só Deus Absoluto. Porém, cada ser participa do belo e do verdadeiro não por se tratar de produto da mente humana, mas porque a beleza e a verdade são transcendentes e universais: uma flor no alto de uma montanha continuará sendo bela mesmo ninguém a veja, mas porque participa da beleza da criação em pequeno grau da beleza absoluta de Quem a criou. Analogamente, o fundamento dos valores transcende a subjetividade pessoal, e ao homem cabe se abrir com sua inteligência e vontade para acolhê-los.

             Portanto, os valores são guias e critérios de conduta, e à medida que se orientam para bens mais elevados, realizam e tornam mais feliz a pessoa. Se alguém assume como guia de vida a riqueza, divertimento ou o bem-estar, sua existência se exporá à instabilidade própria desses bens sensíveis e passageiros. Porém, se busca valores estáveis e universais – portanto, não contingentes ou passageiros –, plenifica e eleva de forma duradora sua vida: amizade, solidariedade, amor a Deus, desejo de montar uma família, aperfeiçoar suas habilidades ou talentos pessoais para melhor servir aos demais…

    2 – Existe uma hierarquia entre os valores

             A capacidade de distinguir entre o mais e o menos importante é condição para o desenvolvimento pessoal e dos demais. Isso porque há valores estáveis, objetivos, que não dependem de estados de ânimo ou da opinião pessoal, pois a verdade é uma adequação da inteligência com a realidade externa.

             A dimensão reflexiva é necessária para cultivar convicções pessoais fortes e profundas, ilumina a consciência, permite dar respostas coerentes com as próprias ações, e ajuda a formar as inclinações naturais para desejar, mesmo sensivelmente, o que é verdadeiramente bom para a pessoa.

             Capta-se o grau de um valor ao tornar os interesses objetivos, fugindo de subjetivismos: procurar saber o que define a boa música, a boa literatura, o bom vinho fará crescer o conhecimento desses seres porque se objetivou os próprios interesses, elevando, assim, a capacidade de compreender e distinguir o mais e o menos importante, condição essa para crescer em conhecimento e para ajudar aos demais. Basear o comportamento pessoal apenas em estados de ânimo, e não na ordem objetiva da realidade, faz perder a harmonia consigo e com os demais: a incapacidade de ordenar os próprios desejos, segundo um ponto de vista objetivo, gera permanente conflito entre as diversas pretensões e satisfações pessoais.

             Ao desenvolver a capacidade de intuir a qualidade de um valor autêntico e verdadeiro, cada objetivo pessoal será escalonado na posição superior ou inferior, independente do gosto, da experiência pessoal ou dos estados afetivos. Os valores são objetivos e universais, e não subjetivos, relativizáveis, e se impõem por si mesmos, e não pelo que cada um acha, ou pelo que acham muitas pessoas. Quem se enclausura na sua subjetividade e entroniza o seu eu como fundamento da verdade, deixando de lado a realidade ou a verdade externa de cada ser, se equivoca em seu individualismo e chegará a padecer de muitos problemas psicológicos devidos a essa incoerência com o real.

    3 – Coerência entre o que se pensa e a conduta

             Se houver cisão entre a verdade teórica e a verdade prática, entre o que o indivíduo considera verdadeiro e sua conduta pessoal, ocorrerá a duplicidade de vida que enfraquecerá a personalidade e destruirá o caráter, como ocorre a quem repele teoricamente o suborno, mas aceita propinas indevidas. A Falta de coerência entre o que se tem por verdadeiro e a conduta leva à incapacidade de julgar retamente, reflete a falta de valores, demonstra não se acreditar em valores universais, e indica que as escolhas pessoais dependem apenas do gosto de cada um, que cria seus próprios valores independente de verdades objetivas.

    4 – Há vidas exemplares que transmitem valores

             Os valores que cada um persegue tem muito a ver com as atitudes e comportamentos cotidianos, transmitidos sobretudo pela família. Quando os pais mostram a importância de um bem em relação a outro, cria nos filhos a ressonância necessária para que um valor não caia na indiferença, mas seja assumido: de nada adiantaria, por exemplo, falar da importância da solidariedade ou do estudo, se não houvesse interesse dos filhos em aceitar tais valores, que devem ser reconhecidos e apreciados de acordo com a sua importância, a fim de que por uma adesão livre envolvam a pessoa inteira: cabeça e coração ou vontade e sentimentos.

             Além do aprendizado que devem oferecer os pais ou responsáveis, outro modo de reconhecer e assumir valores ocorre por meio do mimetismo ou do exemplo de vidas admiráveis, oferecidas nos relatos de heróis que vivem ou viveram uma vida cheia de significado, deixando de lado uma cômoda segurança para se arriscarem por algum grande ideal. As biografias de pessoas valorosas ou de santos, que são heróis religiosos, os bons filmes e a boa literatura também são modos de conhecer e assumir valores. Pode-se adotar como modelos pessoas que na vida familiar, profissional ou social são exemplares por suas virtudes.

             A sociedade atual está influenciada por pessoas famosas no campo artístico, esportivo ou profissional, mas contraditórias, inconstantes e superficiais no comportamento pessoal. O pior ocorre quando pelo fenômeno do intrusismo (de intrusos), esses famosos se põem a dar critérios sobre temas que desconhecem: família, amor humano, direito à vida, casamento, sexualidade humana, etc. Ao utilizar o prestígio que o dom artístico ou esportivo lhes oferece – dom que receberam gratuitamente Deus –, põem-se a pontificar sobre temas que desconhecem, e acabam influenciando a muitos com inverdades, principalmente aos jovens.

             Concluímos ao vincar que um valor verdadeiro é universal e busca o bem do homem, e não apenas o de um homem, para não incorrer no risco de esvaziar o conceito de valor ao torná-lo um subjetivo e de clichê.

    Texto adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base no livro “Antropologia Filosófica”, de José Angel Lombo e Francesco Russo, Editora Cultor de Livros, São Paulo, SP, 2020. Imagem de Justina Ražanauskaitė

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  • A educação dos afetos equilibra o comportamento

    A educação dos afetos equilibra o comportamento

    1 – Os sentimentos influenciam a conduta. 2 – Cada afeto busca apenas um bem parcial. 3 – A formação da afetividade faz inclinar-se para o bem maior.

    1 – Os sentimentos influenciam a conduta

             A influência dos sentimentos e emoções sobre a conduta cresce enormemente, principalmente entre os jovens, o que torna necessária a formação da afetividade para se ter um agir equilibrado que facilite tomar decisões acertadas.

             A afetividade é o conjunto de emoções, afetos, sentimentos e paixões que residem em cada ser humano, fazendo-o sentir-se à vontade ou desconfortável nas diferentes situações em que se encontra. O prazer ou o mal-estar gerado pela afetividade pode ser sensitivo (o prazer da comida, de um perfume) ou intelectual (prazer da boa leitura, da boa conversa), e impulsiona de forma imediata o comportamento a ser buscado ou evitado, mas que em seguida deve ser examinado pela razão para acertar na conduta.

    2 – Cada afeto busca apenas um bem parcial

             Cada afeto ou sensação busca o agradável e foge do desagradável, sem levar em conta o que é melhor para a totalidade física ou psicológica da pessoa. Por exemplo, sentir cansaço é uma sensação física de curto prazo, que poderá entrar em choque com a necessidade de estudar as disciplinas para a prova de um concurso que haverá no fim de semana. Ao concluir que o estímulo de descansar vendo TV ou dormindo diminuirá o tempo de aprendizado, colocando em risco o sucesso e o prazer de alcançar boas notas no concurso, poderá fazer a pessoa não levar em consideração o descanso devido a proximidade da prova e a necessidade de rever as matérias.

             No exemplo citado, o bem indicado pela sensibilidade (descansar) é parcial e conflitou com o bem intelectual maior da aprovação no concurso, que para a sensibilidade não importa, já que seu bem é o descanso. Para saber qual estímulo deve ser levado em consideração, deve-se prestar atenção à hierarquia de valores que sinaliza os bens que devem ser sacrificados para se obter bens maiores. O afeto que induz a descansar, apresentado pela sensibilidade, não é mau em si, mas não é função dele – nem de qualquer outro afeto – racionalizar sobre o que é melhor ou pior em relação ao todo e, por isso, tal afeto não pode exigir para si o posto de proeminência, para não colocar em risco o bem mais importante da aprovação no concurso.

    3 – A formação da afetividade faz inclinar-se para o bem maior

             A formação da afetividade facilita que a inteligência e a vontade se inclinem para o bem maior, e conduz a pessoa a manifestar na medida certa os seus sentimentos, ao não colocá-los de forma demasiada em situações que merecem menos sentimentos, nem deixando de manifestá-los mais intensamente em situações que merecem expressá-los.

             No caso de sentimentos que entram em conflito (descansar ou estudar?; comer a torta de limão, reclamada pelo apetite do diabético, ou evitá-la para conservar a saúde?), não se trata de ter uma visão negativa, como a de impor um mero controle ou repressão de uma tendência sobre a outra. Trata-se da atitude positiva de criar na cabeça e no coração uma conaturalidade para com o bem maior, que poderá estar em jogo. Isso permite de forma quase instintiva valorar melhor se o que de imediato parece mais atraente deve ser seguido ou não, a fim de optar pelo que é mais coerente com o sentido que se quer dar à própria vida. Tal atitude permite alegrar-se tanto com o bem alcançado, como da renúncia do bem sacrificado para obter o maior.

             O processo formativo da afetividade, ou o domínio positivo da sensibilidade, afetos e paixões, permite a pessoa avançar na melhor expressão de si mesma, e levar adiante com mais facilidade e alegria a vocação humana e sobrenatural a que está chamada a realizar nesta vida. Quem possui a sensibilidade bem orientada não correrá o risco de gastar horas e horas navegando sem rumo na internet ou em redes sociais, em prejuízo de bens maiores a serem conquistados.

             Complete a leitura sobre este tema com outros boletins que estão em nossa página Boletins por temas, no item EDUCAR OS AFETOS.

    Texto adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base no livro “A formação da Afetividade”, de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2021. Imagem de William Warby.

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  • Crescer para dentro

    Crescer para dentro

    1 – Não basta ao homem seguir os instintos. 2 – Possuir valores que orientam as ações para a verdade. 3 – As várias dimensões do crescer para dentro. 4 – Viver para um ideal grande.

    1 – Não basta ao homem seguir os instintos

             A vida moderna pode tornar a pessoa inquieta, preocupada com o resultado de muitas coisas, nem sempre as mais importantes. Em sua dimensão integral, o homem necessita crescer não apenas biologicamente, mas exercitar suas potencialidades psíquicas – entendimento, vontade e sentimentos –, e desenvolver-se espiritualmente, que é o mais importante, pois aqui reside o seu “eu”, fonte de todas as suas decisões sobre o caminho a seguir. Evidentemente, essas duas últimas dimensões não ocorrem ao animal, pois basta-lhe a primeira, que é seguir seus instintos para assegurar sua melhor forma de viver. Ao deixar-se levar por suas tendências instintivas – comer, beber, dormir, buscar segurança e acasalar –, o animal atua bem, porque seus instintos orientam as suas ações para a conservação da espécie, e nada mais do que isso.

             Ao homem não lhe basta seguir os instintos, pois necessita idealizar projetos mais profundos, além de que seus instintos são inseguros e não lhe garantem a sobrevivência porque cada um procura apenas a sua satisfação, sem se importar com todo o organismo: o desejo de se alimentar pode impelir o diabético a comer os doces que não deveria, o desejo de beber leva alcóolatra a enxarcar-se de álcool, o sensual a alimentar as desordens da sexualidade.

    2 – Possuir valores que orientam as ações para a verdade

             O espírito humano – o eu consciente – é que deve orientar as ações para a verdade. Ao não crescer espiritualmente, a vida estaciona no biológico e numa fraca psicologia que não dará respostas às questões mais profundas da alma humana: amor, liberdade, sentido da vida… Com um eu rebaixado não haverá inquietação ou busca de grandes ideais, mas apenas alegrias pontuais, pequenos momentos de satisfação dos sentidos e nada mais.

             Quem não interioriza grandes valores a perseguir acomoda-se no medíocre e narcotiza a consciência para não se inquietar a participar na construção de uma sociedade melhor, e fecha-se no egoísmo de pensar só em si mesmo, e nas pequenas satisfações que os instintos solicitam. A falta de valores gera uma interioridade estreita, unidimensional, conduzida pelos impulsos recebidos do exterior, pelo que diz a opinião pública em cada momento, e não por sonhos e ideais mais relevantes.

             O homem exterior teme o silêncio, o estar só para refletir e comprometer-se. Então, preenche o seu interior com o ruído em forma de muita música, de mil informações desencontradas, de impressões epidérmicas, curiosidades e opiniões da moda. Com isso, seu pensamento é pouco profundo, alimentado mais com imagens do que com textos escritos que podem conduzir ao fundo das questões.

             Como diz Servais Pinckaers, crescer para dentro não se confunde com a interioridade psicológica do homem ensimesmado em seus sentimentos, num fluxo e refluxo estéril, egoísta; nem na espécie de abrigo íntimo dos tímidos que se assustam com o mundo exterior carregado de lutas e exigências. A verdadeira interioridade é a moral, que é mais profunda e consiste na capacidade de acolher em si verdade e o bem até ficar fecundado por esses valores, gerando com isso ações que transformam a si e o mundo ao redor. Quando essa interioridade se abre a Deus mediante a oração e a consideração da filiação divina, ganha em profundidade nova e insondável, capaz de produzir obras imperecíveis e livres do egoísmo humano: a interioridade humana unida à divina não permanece encerrada em si mesma, mas alarga-se em grande espectro.

             Não se transforma o mundo com um mexer-se superficial, já que este é movido por ideias que nascem dentro de alguém, sejam de consumo ou de ânsias de poder e dinheiro, ou de ideias comprometidas com a verdade e o bem. Sem uma interioridade comprometida com a verdade não há matriz onde se gestam as melhores ações do homem. Todas as grandes obras da humanidade – seja no plano moral, literário ou científico –, foram gestadas no silêncio da vida espiritual de grandes homens: Pasteur, Dante, Cervantes, Camões, Jeronime Legeune, Tomás de Aquino, Dostoiewisky, Shekespeare.

    3 – As várias dimensões do crescer para dentro

             Ensina Pinckaers que a interioridade implica várias dimensões, sendo a primeira a profundidade ou capacidade de refletir e deixar para trás as impressões, sentimentos, ideias e representações superficiais, para penetrar no fundo das realidades humanas e das questões morais. Para fazer crescer dentro de si os grandes valores, é necessário meditar neles. Alfonso Quintás ensina que pensar com rigor é penetrar no núcleo de cada realidade ou acontecimento. Por exemplo, uma moça decidiu se casar e criar um lar com o seu marido. Surgiram problemas no decorrer da união e ela vai pedir ajuda à mãe, que diz: – Você quis se casar, agora agente. A mãe agiu bem ou foi profunda na questão? Aguentar é o termo correto?, pergunta Quintás. Aguentar o peso dos males como uma coluna aguenta o peso de um telhado não é próprio do ser humano. Para suportar uma situação é necessário pensar nos valores que estão em jogo. Ser fiel supõe uma atitude criadora, ativa, responsável, e não um simples e passivo aguentar, ensina Quintás. Em vista de um bem maior, a mãe poderia ter orientado a filha que para ser fiel e levar o lar adiante o lar teria que sacrificar algo, como o bem-estar, para seguir adiante na grande tarefa de cumprir com sua palavra dada a Deus, ao marido e à sociedade, visando a formação dos filhos e reconquistar a alma do marido, levando-o ao céu. Porém, a mãe da moça por não ter uma interioridade rica, alimentada com a verdade sobre a família, foi infeliz no comentário infra-humano que fez: o “agora aguente”, não abriu à filha o caminho certo para a solução do problema.

             A segunda dimensão da interioridade é a altura. Porém, o elevar-se custa esforço e o moralmente baixo, a preguiça, por exemplo, não custa sacrifício algum. Por isso, para subir alto requer-se fortaleza para enfrentar-se consigo, humildade para reconhecer os próprios erros e fé em Deus. Quem não abraça um grande ideal e prefere a vida medíocre porque teme o sacrifício para construí-lo, não tem altura e voa como galinha e não como águia: o crescimento nas virtudes ajudará a conquistar a altura.

             A terceira dimensão da interioridade é a densidade. A superficialidade é leve porque lhe falta substância. O homem interior é de pensamento denso, resultado de paciente acúmulo no espírito e no coração das reflexões, experiências e esforços. É fruto da lenta aquisição das experiências da vida, do pensamento adquirido no estudo e nas leituras de boas obras literárias, na oração. Tudo isso eleva as ideias. Um livro é bom quando se presta à releitura. Quem não desenvolve o gosto por ler obras clássicas da literatura e prefere as notícias ou fofocas do dia a dia ou vídeos divertidos e fáceis, revela sintoma de preguiça mental. Quantos livros eu li neste mês ou no último ano? Não digo livros técnicos exigidos pela profissão, mas aqueles que buscamos com liberdade e fruto de um descanso criativo: A morte de Ivan Ilishit, de Tolstoi; O jogador, de Dostoiéwisk, Hamlet, de Shekspeare; entre tantos outros autores (Cronin, Ernest Emingway, Saint Éxpery).

             A quarta dimensão da interioridade é a amplitude de quem não se contenta com as impressões parciais, e se esforça para fugir do moralmente baixo. A amplitude permite compreender os diferentes pontos de vista e opiniões, às vezes opostas, e extrair delas ideias que enriquecem o espírito, e faz compreender também o pensamento de outras épocas da história para discernir nelas a continuidade viva da tradição espiritual.

    4 – Viver para um ideal grande

             A realização de um ideal de felicidade que dá sentido à vida deve ser maior que toda esperança puramente humana, porque esta é finita e o homem necessita de uma felicidade que ultrapasse os umbrais desta vida: Deus. A questão do sentido e fim último da vida é chave para a felicidade, pois nada é mais difícil do que suportar um vazio na própria existência. O homem moderno perdeu o sentido de finalidade última de sua vida, e substituiu essa carência pelo simples evitar o sofrimento e desfrutar das pequenas e pontuais felicidades que a sociedade de consumo oferece.

             Crescer para dentro é uma dimensão essencial da ordem moral, e meio para escapar da visão unidimensional da vida. Possuir altura de pensamento, ter densidade ou capacidade de acumular na cabeça e no coração as reflexões e as experiências da vida, ganhar amplitude de alma e magnitude ou alargamento do espírito, leva a pessoa à melhor expressão de si mesma, e às ações para melhorar com seu esforço o entorno em que vive. Crescer para dentro, eis a questão. Só a experiência do silêncio e da oração faz amadurecer e desenvolver uma interioridade verdadeira: “Não se viam as plantas cobertas pela neve. E o agricultou, dono do campo, comentou jovialmente: “agora estão crescendo para dentro”. Pensei em ti, na tua forçosa inatividade. E, diz-me uma coisa: também cresces para dentro?” (Caminho, n.294).

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    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base nas obras “Las fuentes de la moral cristiana”, de Servais Pinckaers, Ediciones Universidad de Navarra (Pamplona), 2007; e “Cómo formarse en ética a través de la literatura”, de Alfonso López Quintás, Ediciones Rialp, Madri, 1994. Imagem de Felix Mittermeier.

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