Categoria: EDUCAÇÃO

  • Afinar a sensibilidade

    Afinar a sensibilidade

            1 – Visão. 2 – Audição. 3 – Paladar. 4 – Olfato. 5 – Tato

             Afinar cada um dos cinco sentidos que compõem o sistema sensorial humano é tarefa possível e enriquecedora que permite alcançar realidades antes ignoradas. Os sentidos são os responsáveis por alimentar ou enviar as informações obtidas ao sistema nervoso central, e por isso se diz que nada há no intelecto que não tenha passado pelos sentidos (visão, audição, paladar, olfato e tato). Alimentar os sentidos apenas com o grotesco ou elementar impede a sensibilidade dar voos mais altos, reduzindo, assim, a possibilidade de compreensão mais autêntica das realidades. Ao permitir a captação de imagens, sons, sabores, odores e toques, os sentidos garantem uma percepção mais completa do ambiente.

    1 – Visão

             A vista pode se tornar preguiçosa e não se ater por muito tempo na mesma imagem, porque borboleteia por todo canto. Então, precisa ser afinada para fixar-se em detalhes e deleitar-se, por exemplo, diante de uma obra de arte ou de um livro de literatura… Quem passa muitas horas semanais degustando vídeos de muita ação – esportes, filmes –, costuma ficar incomodado com enredos mais elaborados e reflexivos. Então, é preciso despregar do chão a cabeça e o coração para interesses mais elaborados, a fim de potencializar o próprio mundo interior. Ao ampliar o campo de interesse para atividades que pouco a pouco enriquecem a visão do mundo e das pessoas, seja por meio de filmes com excelentes enredos ou pela boa literatura, tornam a pessoa mais conhecedora da complexa psique humana, e isso permitirá melhor interação consigo ou com as pessoas.

    2 – Audição

             A audição também pode ser educada. A facilidade com que hoje se tem à mão áudios e vídeos dificulta os momentos de silêncio e de reflexão interior, tão necessários para uma compreensão mais profunda das realidades. É frequente encontrar no ônibus ou no metrô pessoas de todas as idades enfrascadas em fones de ouvido, seja com músicas ou podcast. Outros, ao sair de carro, fazer cooper, andar de bicicleta, realizar trabalhos manuais, automaticamente sintonizam algum tipo de som porque temem o silêncio, o encontro consigo mesmo. Músicas de gêneros intensos como o reggae e o rock poluem o cérebro e dificultam a ação de pensar e contemplar. Há os que se queixam da incapacidade de se concentrar no estudo, de se recolher em oração ou dedicar-se a pensar em algo mais profundamente, mas o que esperar se durante o dia estiveram continuamente preenchendo o cérebro com estímulos sonoros?

             Encontrar ilhas de silêncio no dia ao aproveitar deslocamentos, momentos de espera, etc., permite acudir à mente outras ideias, torna a pessoa mais criativa e rica interiormente. Alguém já chamou de contemplar seus pensamentos a ação de deixar vir ao pensamento lembranças, imagens ou reflexões sobre um tema ou assunto. Bento XVI disse que o silêncio é capaz de escavar um espaço interior no nosso mundo íntimo para ali fazer habitar Deus (Audiência geral de 07/03/2012). Não se trata de criar um vácuo mental, mas de abrir a mente à passagem de ideias próprias, e não as que são socadas na mente pelas mídias sociais. Trata-se de permitir-se o diálogo consigo mesmo e, melhor ainda, o diálogo interior com Deus, que transforma os próprios pensamentos em oração. Sobre a necessidade do silêncio interior não é por acaso que o cardeal R. Sarah escreveu uma obra de 300 páginas intitulada “A força do silêncio: contra a ditadura do ruído”. pela Fons Sapientiae.

    3 – Paladar

             O paladar é um sentido que também pode ser afinado. Diante da pergunta sobre o prato favorito, se a resposta for, por exemplo, um hambúrguer com batas fritas, bacon, ovo e muito ketchup, talvez seja o caso de se abrir para apreciar sabores menos marcante e mais sutis. Não se trata de chegar ao requinte de algumas etiquetas de vinho, ironizadas por certo humorista, que dizem para captar “o sabor complexo, cheio de matizes, com notas de sândalo e um final tânico poderoso, que revelam longas notas tostadas”.

             O paladar pode ser reprogramado de forma progressiva, por meio de pequenos esforços como o de não reclamar do prato que se diante, variar a alimentação, carregar menos no sal e açúcar, comer um pouco mais do que se gosta menos e um pouco menos do que se gosta mais, não repetir a comida, comer devagar, saborear uma culinária mais elaborada, que certamente deixará feliz a pessoa que a preparou. O paladar doce pode ser mudado com a inclusão de vegetais amargos ou azedos (rúcula, agrião, jiló, rabanete, alho-poró…); há especiarias que ajudam a camuflar o sabor doce: gengibre, noz-moscada, canela, cravo e, claro, pimenta…

    4 – Olfato

             O olfato está relacionado à higiene corporal: ir bem limpo, barbeado, no caso dos homens, asseado, talvez com um pouco de perfume discreto e não enjoativo, mas que torna a presença mais agradável. A roupa cheirosa, bem passada, com o colarinho não puído e trocada com frequência para não utilizá-las por dois dias seguidos, pois se trata de viver a virtude da economia, já que o esforço para lavar roupa encardida faz desgastar mais o tecido.

             Não se trata de ser produzido, afetado, nem de se vestir da mesma maneira em todas as ocasiões, mas de cultivar o senso estético, a pulcritude, no próprio aspecto externo. O cuidado com esses pormenores torna a alma sensível para captar o perfume das flores e se interessar pelo nome de cada uma, agradecer o aroma da comida bem-preparada que vem da cozinha, o cheiro da casa limpa…

             Um olfato sensível e delicado faz ampliar o interesse por conhecer os nomes das flores, árvores, plantas e pássaros da região em que se vive; ao retornar ao lar, saberá agradecer as mãos que colocaram flores sobe um móvel para embelezar o ambiente.

    5 – Tato

             O tato é conhecido como o sentido mais elementar e primitivo. O tato está presente não somente nas mãos, mas na pele que envolve todo o corpo, da cabeça aos pés. Pode-se relacionar o tato com o cuidado das formas, ao tom humano, à delicadeza no trato com os demais. O modo de se apresentar, de se sentar esparrado ou não, de se postar na mesa, de enfatizar, de torcer pelo time de futebol… A intemperança não só ocorre pela boca, mas em escolher os lugares mais confortáveis para se sentar, seja em casa, no trabalho ou no restaurante (minha cadeira, meu lugar no sofá, minha mesa, meu canto preferido)… Não são meros convencionalismos sociais, mas manifestação de respeito a si e aos demais viver desapegado das coisas materiais. O modo intemperado de assistir uma partida de futebol reflete um mundo interior desajustado, a necessidade de chamar a atenção dos demais, e o descontrole exagerado de manifestar os sentimentos.

             Ser discretos, pedir por favor, agradecer, chamar as pessoas pelo nome e não pelo apelido, saudar delicadamente e não com um tapa nas costas, evitar palavrões, não bocejar ou se espreguiçar em público, são exemplos de delicadeza nas formas que tornam a convivência muito mais agradável.

             Não abordaremos neste boletim os sentidos internos, principalmente a memória e a imaginação, que também devem ser educadas para evitar a algazarra interior ao trazer lembranças e imagens inoportunas que impedem a concentração e a atenção naquilo que se está fazendo. A imaginação, que é tão importante para a criação de todo tipo de instrumentos, e fundamental para as obras de arte, pode se tornar a “louca da casa”, como dizia Teresa de Jesus.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na obra A formação da afetividade – Uma perspectiva cristã, Cap.5 Desenvolver a afetividade a partir das virtudes teologais, de Francisco Insa, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2021. Imagem: a do diapasão é de Thirdman; as palavras introduzidas são de Ari Esteves.

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  • Seu filho e a escolha da profissão

    Seu filho e a escolha da profissão

    1 – Não atrasar a escolha da profissão. 2 – Como ajudar seu filho a escolher uma carreira. 3 – As qualidades pessoais estão para servir aos demais. 4 – Fomentar a autoestima do adolescente indeciso. 5 – Evitar o sentido utilitarista da vida.

    1 – Não atrasar a escolha de uma profissão

             Muitos adolescentes e jovens, já no ensino médio, estão indecisos acerca da carreira universitária que pretendem fazer. Ao buscar a orientação ouvem de alguns pais o ingênuo conselho de que ainda são muitos jovens para decidir. Com isso, franqueiam as vagas não para seus filhos, mas para aqueles que já na primeira série do ensino médio, principalmente das escolas particulares, vêm se preparando para o vestibular do ENEM, Fuvest ou outros, com vários simulados por ano.

             Ao não tomarem providências o quanto antes, muitos jovens do ensino médio das deficientes escolas públicas poucas chances terão de passar no vestibular das concorridas universidades públicas – gratuitas –, pois com a desculpa de que ainda não sabem que carreira seguir, malbarateiam o tempo ao gastar seis horas diárias com games e redes sociais, ao invés de enfrentarem o desafio da escolha de um curso ao pesquisar na internet as diferentes carreiras e disciplinas dos anos de graduação dos cursos aos quais têm dúvidas, a pontuação média exigida para todas as disciplinas do ENEM e a mínima das disciplinas consideradas mais importantes para cada curso, a fim de refletir se terão condições intelectuais e gosto pela carreira. Trata-se de uma tarefa que devem enfrentar o quanto antes, e não na metade do ensino médio, quando já não terão tempo suficiente de se prepararem bem para o vestibular.

    2 – Como ajudar seu filho a escolher uma carreira

             Os pais podem ajudar o filho indeciso a se decidir livremente por uma carreira. Para isso, mais que viajar na maionese, começar por fazê-lo perceber os talentos ou capacidades que possui, pois são essas que permitirão a ele realizar mais facilmente determinado curso. Ao contrário, a escolha de uma carreira para a qual não se tenha talento exigirá um esforço maior, com o risco de não se destacar ao desempenhá-la com imperfeição. A carreira deve quadrar-se com o gosto e as aptidões pessoais, pois só assim seu filho se tornará um profissional competente.

             Refletir sobre as qualidades ou talentos naturais que se possui é necessário. O exercício de autorreflexão, que os pais devem estimular a que cada filho faça, ajudará a que decida por si próprio sobre a carreira que pretende seguir. Analise com o filho os pontos fortes e fracos que ele possui, e ajude-o a centrar-se em suas melhores qualidades, pois nela possivelmente se aloja a profissão dele. Por exemplo, se ele é mediano ou fraco em matemática, mas excelente em português, gosta de escrever contos e redações, deverá ser incentivado a aproveitar essas qualidades, já que a matemática lhe é uma limitação natural, e mesmo que dedique muito tempo a essa ciência, certamente nunca chegará ao desempenho ideal. Porém, poderá ser dar muito bem em carreiras onde o ato de escrever esteja fortemente presente: direito, jornalismo, letras, entre muitas outras… Trata-se, portanto, de desenvolver ou fortalecer aquilo que seu filho faz bem e se destaca em relação às demais pessoas.

             Dedicar-se com gosto a uma atividade que faz a pessoa se energizar e trabalhar nela durante horas seguidas, é indício de algum talento. Valorize até as pequenas coisas que seu filho aprecia, pois atrás de alguma delas estará a profissão dele. Faça-o perceber que tipo de ajuda os parentes e amigos pedem a ele, porque percebem que as realiza com facilidade e melhor que os demais. Há hobbies que não estão distantes de uma opção profissional: gosto por ler livros de literatura ou técnicos, cuidar de plantas e animais, preparar refeições para a família, aconselhar os amigos, destreza manual…

             Como foi dito, os talentos permitem realizar com facilidade e prazer determinadas atividades, que podem direcionar a escolha mais acertada de uma profissão. Toda pessoa nasce com algum talento ou qualidade que irá destacá-la no serviço que poderá prestar aos demais: facilidade para falar diante dos colegas da sala de aula, aptidão para números, jeito com crianças, cuidar de idosos, cozinhar, capacidade de concentração…

             Onde há fumaça há fogo, diz o ditado. Um talento pode se manifestar com naturalidade desde a infância, e continua a se desenvolver na juventude ao dar prazer em realizá-lo: desenhar, pintar, escrever, habilidade ou destreza manual para montagens, liderar no esporte, aconselhar, ter empatia, organizar atividades, falar diante dos colegas da classe, pesquisar com prazer para realizar trabalhos escolares, facilidade para cálculos ou idiomas, consertar objetos… O adolescente que fala em público com desenvoltura pode ser um futuro professor, palestrante ou advogado; se gosta de escrever poderá ser escritor, jornalista, historiador, redator. Há os desinibidos que apreciam o contato com pessoas, gerenciar atividades, planejar, resolver demandas…

             Se a dúvida sobre a escolha de uma carreira profissional persistir, depois de se ter fixado nas percepções mais à mão, surge então a necessidade de fazer testes vocacionais. Na internet há ensaios gratuitos, com perguntas e afirmações que podem identificar habilidades ou indício para determinadas carreiras. Porém, se não forem suficientes, então o ideal será realizar testes em institutos oficiais, conduzidos por profissionais especializados e conhecedores de técnicas para o autoconhecimento.

    3 – As qualidades pessoais estão para servir aos demais

             Não nascemos para viver isolados, e necessitamos uns dos outros. Há infinitos talentos, o que torna a humanidade interessante ao fazer com que uns uns se apoiem em outros: o que seria se cada pessoa tivesse que fazer as próprias roupas, criar ou consertar os aparelhos que utiliza, diagnosticar e tratar suas enfermidades, cozinhar, cortar o próprio cabelo…

             Os talentos ou qualidades devem ser colocadas ao serviço dos demais, e não para satisfazer egoísmos pessoais; devem ser continuamente aprimorados pelo esforço do estudo, da prática e pela ajuda que os demais podem oferecer, pois a formação nunca deve parar. Quem utiliza bem seus talentos pessoais colabora com a melhoria da sociedade, seja através dos serviços que presta para o desenvolvimento social, ou por meio das ideias que aporta no debate cultural, profissional, político, científico ou artístico. Sem perder o entusiasmo de colocar em prática as qualidades próprias, é necessário depois ser constante e paciente para continuar a se desenvolver. Mas se o romantismo da primeira hora diminuir, então, pedir a Deus força emprestada dEle para perseverar, pois o verdadeiro amor está em servir aos demais com as qualidades que Ele deu a cada um.

    4 – Fomentar a autoestima do adolescente

             Há jovens que se subestimam ao conviver com familiares ou pessoas de certas áreas profissionais, às quais percebem não ter as qualidades necessárias para elas. Outros minusvalorizam-se porque não possuem as aptidões que percebem em seus colegas de escola. Os pais devem estar atentos a esses desajustes que a inexperiência da vida pode trazer, e ajudar os filhos a se conscientizarem de suas verdadeiras qualidades, que são diferentes das outras pessoas, mas que devem valorizar porque nasceram para realizar com elas outras atividades, certamente com maior competência que os demais.

             Por vezes, os jovens não percebem que realizam bem determinadas tarefas porque julgam que é algo natural e que todos as realizam também, o que não é verdade! Trata-se, então, de fazê-los perceber que desenhar, falar em público, ser sociável, gostar de ler, saber preparar pratos, entre muitas outras atividades, nem todo mundo faz com facilidade.

    5 – Evitar o sentido utilitarista da vida

             Tratamos neste boletim acerca das capacidades pessoais que podem ser descobertas e desenvolvidas, a fim de colocá-las ao serviço dos outros. Entretanto, para evitar o sentido utilitarista da vida, deve ficar bem claro que a dignidade humana não deriva das qualidades que se possui, mas do fato de que cada pessoa tem sua alma criada diretamente por Deus, e à imagem e semelhança (os pais colaboraram com o corpo), cuja sabedoria é infinita e não mede as pessoas pelo que sabem ou não fazer, mas porque ama infinitamente cada um dos seus filhos, e deseja ser amado por eles. Se um dia alguém vier a perder suas capacidades por acidente, velhice ou doença, jamais deixará de ter a grande dignidade de ser amada por Deus. Pense nisso.

    Texto de Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Kindel Media.

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  • Conhecer-se para se construir

    Conhecer-se para se construir

    1 – Não nascemos prontos. 2 – Ser artífice da própria vida. 3 – Buscar os aspectos a polir. 4 – Acender uma luz dentro de si. 5 – Iniciar com propósitos simples.

    1 – Não nascemos prontos

             “A cada homem se lhe confia a tarefa de ser artífice da própria vida; em certo sentido, deve fazer dela uma obra de arte, uma obra mestra” (João Paulo II, Carta aos Artistas). Ninguém nasce pronto, mas como obra inacabada. Primeiramente cada um é ajudado pelos pais para se desenvolver como pessoa; depois, quando adulto, faz suas escolhas pelo livre arbítrio para alcançar o melhor de si, sendo que essa tarefa há de durar a vida inteira, já que ninguém em sã consciência pode achar-se plenamente formado, pois sempre podemos aprender e melhorar mais.

             Na trajetória para o aperfeiçoamento pessoal quem não melhora retrocede, sendo preciso ser inconformista e não aceitar conviver com o erro dentro da própria alma, tal como não se deseja conviver com vírus ou bactérias no corpo: ao invés de dizer “é que sou assim”, dizer “eu me fiz assim, mas quero melhorar”.

             O conhecimento próprio é fundamental para a reforma pessoal. Para isso, como bons comerciantes que no final do dia fazem um balanço para ver os ganhos e as perdas, é preciso fazer um exame diário de três minutos no final do dia, a fim de verificar os pontos positivos e negativos do caráter e do temperamento, para fomentar uns e corrigir outros. O espírito de exame corresponde a uma necessidade de amor, de sensibilidade. Se por preguiça descuida-se desse exame, não se pode evitar que no terreno da alma e dos afetos cresçam abrolhos e espinhos.

    2 – Ser artífice da própria vida

             Por vezes queremos mudar o mundo, mas em primeiro lugar devemos melhorar a nós próprios. Se não há luta contra os defeitos eles tendem a crescer com o passar do tempo. Há quem não vai ao médico porque teme que lhe seja diagnosticada alguma doença, e prefere viver “feliz” e consciente de sua própria ignorância, e com isso deixa de dar o grande passo para a cura, que é pôr os remédios apropriados. Ser artífice da própria vida começa por não ter medo de se examinar para descobrir aspectos a corrigir, a fim de não andar às cegas e cair num buraco. Quem descobre aspectos a melhorar deve se sentir feliz porque não lutará às cegas ou dará socos no ar, mas poderá travar uma luta alegre e esportista, tal como o atleta que busca melhorar cada dia mais a sua performance, começando e recomeçando seus exercícios (sua luta) uma dia e outro.         

    3 – Buscar os aspectos a polir

             Para fazer da nossa vida uma obra de arte temos que reconhecer que é universal a experiência da fraqueza humana, e que também somos vítimas dela, pois os bens nos atraem e podemos usufruí-los de modo intemperado, sejam eles bens do instinto (comida, bebida, conforto…), ou de inclinação psicológica (trabalho profissional que faz distanciar da família, curiosidades frívolas nas redes sociais, etc..).

             Já se afirmou que o orgulho morre duas horas depois da pessoa. Como filhos de Eva, a primeira vítima da lisonja, também detectamos em nós sintomas de orgulho, vaidade, egoísmos, preguiças…. Outras vezes percebemos defeitos de temperamento, como a indiferença pelas pessoas, ironias, antipatias, suscetibilidades, pouco agradecidos, não saber ouvir, dar demasiada relevância à opinião própria e não entender as razões dos demais, emburramentos, teimosias, espírito crítico, reações destemperadas, não cumprir o prometido, juízos temerários que etiquetam erradamente as pessoas, deixar as coisas para a última hora…

             Eita, a lista acima parece que não deixa de crescer! Não se trata de corrigir tudo de uma vez, mas começar pelo aspecto mais relevante a ser corrigido. Pelo princípio da unidade da pessoa humana, quando melhoramos em um ponto, melhoramos em muitos outros ao mesmo tempo. O importante é começar, como foi dito, por meio de uma luta alegre e esportista.

    4 – Acender uma luz dentro de si

             Quem procura conhecer-se não fará o papel daqueles que Cristo disse que “amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más e não queriam que fossem vistas”, claro, nem por si mesmos! O humilde é consciente das próprias debilidades e pede ajuda a Deus, que vem ligeiro ao seu auxílio, tal como um bom pai que estende o braço para ajudar a sua criança.

             Uma sugestão de leitura é o pequeno livro de bolso “Conhecer-se”, de Joaquim Malvar Fonseca, publicado pela Editora Quadrante, em São Paulo, que faz a seguinte apresentação da obra: “Quem sou eu? Esta pergunta não é banal. Está latente, sob múltiplas formas, mais ou menos complicadas, nas indagações dos filósofos, nas consultas psiquiátricas, na agitação dos jovens e na própria insegurança das instituições sociais. «Conhecer-Te para conhecer-me», responde Santo Agostinho. O destino do homem ultrapassa o homem, e só nos conhecemos verdadeiramente quando nos conhecemos à luz de Deus. Este conhecimento próprio à luz de Deus é, aliás, o único conhecimento eficaz, porque traz consigo a terapia, quebrando os círculos viciosos do eu e abrindo a porta às mudanças”.

    5 – Iniciar com propósitos simples

             Começa a reconstruir-se quem no final de cada dia faz para si a seguinte pergunta: ― Que fiz mal?, que fiz bem?, que poderia ter feito melhor? Em seguida, estabelecer um ou dois propósitos pequenos e concretos para corrigir as falhas detectadas no dia: levantar-se no horário para chegar e sair pontualmente do trabalho; chegar cedo em casa e ajudar a esposa, ouvir a criança com atenção e ajudar nas tarefas domésticas; sorrir quando não se tem vontade para evitar uma cara mal-humorada… Com isso, enxota-se as pequenas ou grandes faltas que afastam de Deus e dos demais.

             A luta contra os defeitos do temperamento é permanente e necessária para sermos aquilo que diz Caminho n.4: “Ser homens de caráter e personalidade: eis a rocha sobre a qual construímos a verdadeira santidade. As virtudes sobrenaturais infusas apoiam‑se na forte estrutura de virtudes humanas que formam o caráter”.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Chinmay Singh.

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  • Aprender a amar. Lar luminoso

    Aprender a amar. Lar luminoso

    1 – Um querer verdadeiro. 2 – Ser paciente com os defeitos dos demais. 3 – O amor se demonstra na convivência diária. 4 – A mulher sabe tornar o lar amável e atraente

    1 – Um querer verdadeiro

             As pessoas de uma família devem aprender a querer-se. Não basta tolerarem-se, que seria muito pouco. O carinho deve ser não apenas humano, mas sobrenatural ao ter Deus de permeio. E para querer-se, não há nada que arraste tanto como o carinho.

             A caridade – também chamada de amor – é ordenada, o que significa que não basta ser simpático com as pessoas do ambiente escolar, profissional ou social, e deixar de sê-lo com os da família, pois tal comportamento revela hipocrisia, falsidade.

             Marido e mulher devem se amar, e depois fazer esse amor transbordar aos filhos, e não ao contrário. Ter o cônjuge em primeiro lugar no amor não diminui o afeto dos filhos pelos pais, ao contrário, lhes dá segurança ao comprovar que os pais ao se amarem verdadeiramente torna estável e permanente o lar, pois permanecerá sempre unido. Infelizmente, quando marido e mulher deixam esfriar o amor mútuo, correm o risco de que a separação bate à porta do casal, que por vezes transferiu o amor unicamente ao filho, e este agora se verá sozinho. A esposa (ou marido) que dedica mais atenção à criança, e esquece do outro cônjuge, se equivoca em sua missão, deseduca o filho, e coloca em risco a estabilidade da família.

    2 – Ser paciente com os defeitos dos demais

             A convivência familiar é possível quando todos tratam de ir corrigindo as suas deficiências, e sabem passar por alto os pequenos defeitos dos demais, sem fazer tempestade em copo de água. Cada pessoa tem seu temperamento, caráter, gostos, gênio ou mau gênio… E não há filho de Adão e Eva que não tenha defeitos a corrigir por meio de uma luta alegre, paciente e positiva, a fim de ganhar as virtudes contrárias aos defeitos que possui; como também será difícil que alguém não tenha em seu temperamento e caráter aspectos agradáveis que facilitam a querê-lo bem.

             Quando há amor entre todos os membros da família, supera-se rapidamente aquilo que poderia ser motivo de divisão ou divergência. Se alguém na família diz que não pode aguentar isso ou aquilo do outro, exagera e busca motivos para justificar sua impaciência e pouca caridade, além de demonstrar possuir um coração mesquinho, não magnânimo.

             Um grande princípio de vida é saber calar-se e esperar para dizer as coisas de modo positivo, em outro momento. Devemos buscar em Deus a fortaleza necessária para dominar os próprios caprichos, ceder em assuntos de livre opinião, colocar-se ao serviço aos demais e saber mudar os planos pessoais para se adaptar ao querer dos demais.

    3 – O amor se demonstra na convivência diária

             No dia a dia da vida familiar encontram-se as ocasiões para sacrificar-se alegre e discretamente para fazer a vida agradável aos demais, e demonstrar na prática que ama os seus familiares: pai, mãe, irmãos…

             Vários são os pormenores que dão sabor agradável à convivência diária de uma família, e que revelam que ali há verdadeiro carinho entre as pessoas:

             – O sorriso habitual, o bom-humor, que são expressão da paz e ordem interiores;

             – Saber pedir desculpas quando se erra;

             – Evitar dizer as coisas quando se está irritado para não correr o risco de proferir palavras cheias de amargura que ferem, e que depois serão motivos de arrependimentos;

             – Decoração simples e acolhedora (a riqueza é desnecessária);

             – O cuidado material da casa: consertar rapidamente o que está com defeito para que dure;

            – Manter a casa limpa, ordenada, com flores, e utensílios domésticos reluzentes;

             – A ordem nos objetos pessoais;

             – Correção nos vestir, andar sem fazer estrépito;

             – Asseio no corpo, nas roupas e na alma;

             – O jantar diário em horário fixo para cada um controlar o tempo de outros afazes e chegar pontualmente;

             – Fazer as refeições na mesa e não no sofá vendo TV;

             – O bate-papo familiar durante as refeições, sem que a TV seja a protagonista, faz crescer o amor mútuo;

             – A limpeza dos pratos, talheres e guardar tudo nos devidos lugares, após as refeições, é dever de todos os comensais, e não apenas de um deles;

             – Se a criança deseja falar algo, parar o que se está fazendo para ouvi-la com atenção, olhando nos olhos dela;

             – Não deixar que as preocupações pessoais isolem dos demais demonstra verdadeira caridade cristã, e sentido sobrenatural que leva a fazer tudo tendo presente a Deus na própria vida;

             – Lar é disciplinado com horário de dormir e acordar, a fim de facilitar a que todos vivam a ordem e descansem as horas necessárias: não mais que oito horas, nem menos que 7h30;

            – Passeios familiar de meio período nos fins de semana (parques, exposições, museus), ou dia inteiro uma vez por mês (contemplar a natureza, parques temáticos, etc);

            – Ocasião maravilhosa para crescer no amor mútuo são as tertúlias ou bate-papo após as refeições, sentados na sala ou na cozinha, onde cada um ouve com atenção ao que o outro diz, e também conta coisas divertidas ocorridas durante o dia (TV e celulares desligados).

    4 – A mulher sabe tornar o lar amável e atraente

             Todos esses detalhes ajudam enormemente que haja no lar um ambiente sereno e aconchegante, onde todos ansiarão por retornar no final do dia. A mãe é a força que reveste de atração a vida familiar; é a quem possui a sabedoria para atribuir tarefas a cada filho – do menor ao maior –, para que todos aprendam a ser generosos e colaborem com o bem-estar de todos, e não vivam uma vida egoísta e reclusa em seu quarto. A mulher tem especial dom para criar um lar acolhedor, onde tudo funciona bem. Certamente o marido ajuda nessa tarefa, e supõe um reforço à autoridade materna, a fim de que as crianças obedeçam e colaborem sempre.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Nataliya Vaitkevich.

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  • A idiotice da frivolidade

    A idiotice da frivolidade

    1 – Memória e imaginação ou lojas de quinquilharias? 2- Aproveitar melhor o tempo: o descanso criativo. 3 – Assumir valores que orientem a vida. 4 – Coerência entre o que se acredita e o que se vive. 5 – O que é frívolo empobrece a alma.

    1 – Memória e imaginação ou lojas de quinquilharias?

             Frívolo significa de pouca importância, inconsistente, inútil, superficial, e quem se ocupa de frivolidades é fútil, leviano. Portanto, idiotice frívola e perigosa nas diferentes idades é permitir que penetre pelos sentidos aquilo que não interessa ou não tem importância. Já abordamos este tema no boletim Inteligência ou depósito de futilidades, mas vale a pena tornar a considerar a necessidade de utilizar bem o tempo para potencializar os talentos pessoais, a fim de melhor servir aos demais. “Nós somos os únicos responsáveis pelas coisas que jogamos dentro de nós. Se não somos totalmente responsáveis, pelo menos temos o controle da grande maioria das coisas que comemos, lemos, assistimos, ouvimos e tocamos. Assim, temos que assumir o controle do que permitimos entrar pelos nossos sentidos. Se não assumirmos esse controle, outras pessoas assumirão, e aí perderemos o domínio de nós próprios”, diz Luiz Marins.

             Os olhos e os ouvidos são os porteiros da alma, e por onde entra o bom ou o vil. Para encontrar o ouro é preciso peneirar o cascalho ou arrancar a ganga. Selecionar os conteúdos na internet leva a priorizar assuntos de maior interesse, seja no campo da orientação familiar, profissional, entretenimento, cultura, artes (literatura, pintura, teatro, escultura, música). Palestras, vídeos, áudios, filmes e artigos estão disponíveis na web, mas é necessário distinguir o brilho falso das lantejoulas, que tornam a vida estéril, para não borboletear nas redes sociais apenas para satisfazer a ânsia de curiosidades, que transforma a memória e a imaginação em loja de bricabraque ou de quinquilharias.

    2- Aproveitar melhor o tempo: o descanso criativo

             O excesso de imagens e informações desencontradas dá a ilusão de se conhecer muitas coisas, mas na realidade fomenta o vazio intelectual porque a inteligência não consegue processar ou encontrar sentido em tantas informações desencontradas. Com isso, a mente se torna preguiçosa, arredia e incapaz de se aprofundar em assuntos que valem a pena, ou manter a atenção em algo que exija esforço.

             Para um descanso criativo, melhor do que gastar seis ou sete horas na semana em redes sociais (cujo efeito é como água que escorre sobre a pedra, sem penetrar), é investir esse tempo, por exemplo, na leitura de um bom livro como “A morte de Ivan Ilyich”, de Tolstói, o “Pequeno Príncipe”, de Saint Exupéry, entre muitos outros, pois são leituras que penetram na alma e a enriquecem, já que os grandes mestres da literatura penetram com profundidade na alma humana, e seus personagens fornecem janelas que permitem a compreensão de si e dos demais. Um verdadeiro leitor não gasta seu tempo limitado rolando telas de celulares e tabletes a procura de frivolidades, nem “lendo mil livros medíocres que embotam seu senso crítico e ferem sua sensibilidade literária” (Nicolás Gómez Dávila).

    3 – Assumir valores que orientem a vida

             Conhecer melhor aquilo que se ama faz parte da natureza humana. Fernando Sarráis, em seu livro Maturidade psicológica, diz que quando se ama algo bom, busca-se conhecer aquilo que é amado, e o amor aumenta mais o desejo desse conhecimento. Assim, podemos afirmar que aquele que perde tempo em curiosidades frívolas não ama senão à própria preguiça ou comodidade, sendo esta a razão pela qual não se interessa por empenhar-se a conhecer algo com maior fundura.

            O ser humano sempre age em vista de valores que assume como importantes, e que passam a orientar suas ações e escolhas. Portanto, os valores agem como critérios ou guias da existência pessoal. Quando esses valores se orientam à verdade e ao bem, enriquecem a personalidade, mas se buscam apenas um entretenimento superficial, a vida não passará de casca que oculta um buraco negro e vazio.

            Ensinam José Angel Lombo e Francesco Russo que cada pessoa se constrói ao buscar valores hierarquicamente estruturados, e de acordo com o que considera importante para sua vida. Os valores não são neutros, nem apenas algo teórico, mas performativo ao envolver a pessoa inteira pela livre adesão a eles. A hierarquia de valores estabelece as preferências pessoais mediante formas de comportamento: por exemplo, se alguém tem como valor a família, o estudo ou a solidariedade, saberá empenhar-se para vivê-los na prática. Um valor que não é assumido vitalmente, fará a pessoa não se interessar por ele, mesmo que o considere de relevo. Os valores assumidos fazem entrar em ressonância não apenas a inteligência, mas também a afetividade (sentimentos, emoções e paixões).

    4 – Coerência entre o que se acredita e o que se vive

             “A autorrealização do homem será plena na medida em que se orienta a valores mais elevados, e não a valores relativos e passageiros: quem assume como valor maior de sua vida a riqueza, o prazer ou o bem-estar, a sua existência será exposta à instabilidade própria desses bens sensíveis. Se, pelo contrário, referir-se a valores estáveis e universais, a sua liberdade se elevará, no sentido de que as potencialidades espirituais se estenderão a objetos que não se exaurem: a amizade, a solidariedade, o amor a Deus, que não têm limite próprios e não são contingentes”, afirmam José Lombo e Francesco Russo.

             Hoje ocorre a perigosa cisão entre a verdade teórica e a verdade prática, entre o que o indivíduo reconhece e considera verdadeiro, e, portanto, um valor, e o reflexo dessa verdade ou valor na conduta pessoal. Se falta essa coerência, essa autenticidade, os valores acabam por parecer indiferentes e sem força para conduzir a ação ou o comportamento pessoal. Ocorre o relativismo dos valores, que deixam de ser universais e passam a ser um joguete pessoal e subjetivo, portanto volátil. E quando não há coerência entre aquilo que se tem por verdadeiro, a conduta humana perde referências e a pessoa deixa de julgar retamente.

    5 – O que é frívolo empobrece a alma

             Cada um é plenamente responsável por selecionar e assumir os valores que considera como verdadeiros, e afastar-se do que é frívolo, faz perder o tempo e empobrece a alma. E como o bem é difusivo, ter o zelo de ajudar os filhos e os amigos a assumirem os valores que enriquecem a alma, e ajudá-los a aproveitar melhor o tempo. Essa responsabilidade inclui a atenção às crianças, que vivem hoje no meio de muitas informações e imagens digitais desnecessárias, e que as tornam passivas, sedentárias, preguiçosas… O que mais necessitam as crianças é da atenção, carinho e do tempo dos pais, além de se aterem às realidade simples ao seu entorno.

    Texto elaborado por Ari Esteves com base nos livros “Antropologia Filosófica”, de José Angel Lombo e Francesco Russo, Editora Cultor de Livros, São Paulo (SP), 2020; “Maturidade Psicológica e Felicidade – A educação da afetividade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros; e “Ética, virtudes, valores”, de Luiz Marins, da Integrare Editora e Livraria Ltda, São Paulo (SP), 2022.

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  • A superproteção dos filhos

    A superproteção dos filhos

    1 – Não substituir os filhos naquilo que eles podem fazer. 2 – Pôr um fim à obsessão protetiva. 3 – O reinado dos filhos superprotegidos. 4 – Não quero que meu filho passe pelo que passei. 5 – A superproteção cerceia a autonomia da criança. 6 – Atribuir encargos às crianças fomenta autonomia

    1 – Não substituir os filhos naquilo que eles podem fazer

             Há pais e mães inseguros em tornar seus filhos independentes, e acabam substituindo-os em tudo o que estes deveriam fazer sozinhos. São genitores muitas vezes conscientes de que a superproteção é um mal que cerceia a liberdade e despersonaliza os filhos, mas não conseguem se libertar dessa ânsia protetiva porque seus sentimentos gritam mais fortemente que a razão e impedem de se verem livres desse exagerado agasalhar.

             Os filhos não são propriedades dos pais, que devem prepará-los para o mundo, e não para se aninharem sob as asas paternais ou maternais. A criança tem que aprender a ser guerreira, e para isso, é preciso ir soltando a linha para ela subir mais alto! Há mães carentes que esticam o período de baby de um garoto de dez anos, e não o preparam nem para ir ao supermercado da esquina, tomar ônibus para ir à escola no bairro vizinho, caminhar até o parque, jogar bola no clube do bairro. A desculpa para tal comportamento é que poderão ser assaltados, e com isso acorrentam os filhos em permanente infância, agarrados às suas saias, mas não livres dos perigos ainda mais cruéis que o uso sem controle da internet via celulares e tabletes vêm acarretando para o psicológico e à educação dos afetos de crianças e adolescentes.

    2 – Pôr um fim à obsessão protetiva

             Para libertar-se da obsessão protetiva os pais necessitam pensar seriamente nas consequências negativas de viver poupando os filhos dos esforços e sacrifícios que deveriam realizar. Alguns dos efeitos negativos da superproteção são os seguintes:

    • Os filhos perdem a autonomia e a capacidade de resolver as coisas por conta própria, e se tornam emocionalmente fracos e dependentes;
    • Ficam egoístas, centrados em si mesmos e cada vez mais exigentes e ciosos de serem cuidados por todos como um direito que lhes pertencem;
    • Acomodam-se passivamente na postura de esperar que os pais sempre decidam por eles;
    • Tornam-se introvertidos, com vergonha de se expor e com medo de arriscar porque não estão habituados a pensar e agir por conta própria;
    • Ficam moles, passivos, chorões e queixosos diante de qualquer incomodidade ou tarefa que lhes custe esforço realizar;
    • Tornam-se inábeis para o convívio social e passam a ser subservientes de amigos mais lançados e decididos;
    • Convertem-se em mal-agradecidos porque em seu emocional julgam normal toda a atenção que se dá a eles, como príncipes em sua corte;
    • Se tornam fortes candidatos ao TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), porque ao fazer apenas o que gostam – se não gostar os pais agem por eles – são vítimas dos estados de ânimo que os faz mudar constantemente de atividade.

    3 – O reinado dos filhos superprotegidos

             Acostumada a fazer a vontade dos filhos em tudo, a mãe fraca tem medo de corrigir e diz: − Ele joga as coisas e bate em mim, mas com o tempo irá melhorar. Ou − Puxa, por que você fez isso pra mamãe? São frases de mães superprotetores que, desconcertadas, pretendem educar na “peninha”, na compaixão pela mamãe (filhos até cinco anos não percebem o que é compaixão). A mãe age assim porque não tem coragem de dizer com firmeza o que deve ser dito, e acredita que se pode educar na “peninha da mamãe”. A criança entende uma argumentação firme, clara, segura e respeitosa: − Você não devia ter feito isso; agora vá pegar a vassoura e limpe o chão. Ou, Filho, não faça mais isso; se ocorrer de novo ficará toda manhã sem sua bicicleta. A criança entende uma indicação do tipo “não suje porque terá que limpar” e não algo sentimental como: − Ah, não faça isso pra mamãe. Mandar é diferente de pedir. A mãe submissa não comanda o filho porque diz: − Arrume sua cama pra mamãe, vai! (evitou dizer o momento em que deveria fazer). A criança precisa de comandos delicados, mas firmes: − Julinho, arrume sua cama agora.

    4 – Não quero que meu filho passe pelo que passei

             Há pais que passaram por dificuldades na infância e não desejam que seus filhos tenham tais experiências, poupando-os de qualquer sofrimento. É uma boa preocupação desejar que os filhos não provem certas situações como separação dos pais, falta de carinho, violências domésticas, autoritarismos ou permissivíssimos, falta de atenção, etc. Porém, há dificuldades necessárias e educativas que fortalecerem o caráter e a vontade: cumprir encargos familiares, resolver sozinhos seus problemas na escola, não ter tudo de bate-pronto, não criar falsas necessidades, andar curto de dinheiro para não acostumar-se com caprichos…

             A tolerância à frustração também é um aspecto relevante a ser desenvolvido na criança, pois a levará a não desmoronar diante dos pequenos e inevitáveis fracassos que terá que suportar, seja na infância ou na adolescência. Aprender a ser resiliente ao tentar uma e outra vez é meta a ser alcançada pelas crianças, com os pais incentivando animadamente a recomeçar, mas retirando-se discretamente e a tempo de que a criança julgue que foi ela mesma quem conseguiu o feito. Um outro aspecto é fazer a criança acostumar-se a receber um “não” diante de pretensões inoportunas, sem achar que o mundo desabe sobre a cabeça dela. Trata-se de uma luta que os pais precisam enfrentar, sem temer o show de um berreiro no shopping ou supermercado, pois será o modo de ensinar a criança a ter capacidade de suportar situações adversas.

             As frustrações são necessárias para que a criança desenvolva tolerância às contrariedades, como acontece com todas as pessoas. Fazê-la crescer entre as almofadas e algodões da superproteção, despersonaliza e a torna frágil frente os inevitáveis reveses que a vida traz, seja na infância ou na adolescência. A frustração começa desde o berço quando o bebê não é atendido naquilo que deve esperar, pois as mães sabem quando um choro é motivado por alguma necessidade (alimentação, asseio, frio ou calor, doença…) ou por um capricho que pode aguardar, como não pegá-lo no colo ou não acender a luz do quarto de madrugada, a fim de que ele perceba que a noite é para dormir (a luz artificial não permite distinguir o dia da noite).

    5 – A superproteção cerceia a autonomia da criança

             A superproteção impede a autonomia da criança, e pode ser praticada até mesmo sem que os pais se deem conta disso. Por exemplo, impacientes e com a desculpa de que não têm tempo para esperar – e porque farão mais rápido e melhor –, os pais por vezes se adiantam a realizar o que a criança poderia fazer sozinha, porém em menor velocidade ou destreza, que virá com o tempo, para se vestir sozinha, preparar seu lanche e arrumar seus apetrechos escolares ou fazer a cama ao acordar. Crianças de pais impacientes não sabem cortar o próprio bife no refeitório da escola, nem amarrar o tênis na aula de educação física…

    A autonomia deve ser fomentada ainda quando os filhos são crianças: se o garoto trocou os sapatos de pés e indaga se estão corretos, não responda, mas pergunte sobre o que ele acha. Se houver um desentendimento com um amigo da escola, dialogue sobre que meios ele deverá ele empregar para resolver a situação.

    6 – Atribuir encargos às crianças fomenta autonomia

             Responsabilizar os filhos para realizar tarefas no lar fortalece a vontade deles para cumprir outras obrigações, torna-se um treino para que enfrentem ideais mais custosos, além de os fazer pensar nos demais e não apenas em si próprios. Para evitar a superproteção e fomentar a autonomia das crianças, é importante que os filhos − do menor ao maior − tenham encargos no lar, adaptados à idade e à capacidades de cada um. Mas, seja por impaciência ou para evitar desconfortos ao filho, ou até porque não confia na capacidade dele, a mãe superprotetora não atribui encargos e vive dizendo: − Aí, vai quebrar o copo e se cortar; deixa que eu guardo. Ou – Eu levo a mochila pra você não cair. – Tadinho, a professora passou muita lição de casa! Ou – Cadeira malvada, por que você machucou o pé do meu filhinho?, e a mãe dá palmadas na cadeira como se o móvel fosse culpado pela imprudência da criança.

             As crianças colaboraram com alegria nas tarefas apropriadas à sua idade, e apreciam contribuir para a boa organização do lar. Sem esses encargos elas se tornam egoístas e interessadas apenas em suas coisas. Por isso, não se deve impedir nem substituir a criança pequena de cumprir qualquer tarefa que tenha capacidade de fazê-la, mesmo que no começo não faça com perfeição e exija paciente e bem-humorado treinamento. Com isso, ela ganhará autodomínio, independência, espírito de serviço e preocupação pelos demais. Crescer em autonomia é crescer em liberdade, e isso acontece quando os pais só intervêm quando é realmente necessário. É preciso confiar na capacidade dos filhos resolverem seus problemas, e perguntar sempre a opinião deles sobre o que pretendem fazer − se acham certo ou errado −, e dar chances para que reflitam sobre suas ações. Esse é o caminho para o amadurecimento de uma personalidade sadia. Veja neste link diversos vídeos onde mães oferecem dicas preciosas de tarefas que podem ser atribuídas aos filhos desde criança.

             Ao fomentar o sentido de responsabilidade e educar os filhos para que sejam movidos pelo amor e pelo espírito de serviço aos demais, os filhos cresçam em autonomia, ganham virtudes e amadureçam humana e espiritualmente.

    Texto escrito por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Oleksandr Pidvalnyi

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  • Para os filhos serem maravilhosos

    Para os filhos serem maravilhosos

       

             Os pais sempre sonham que seus filhos cheguem a ser adultos maravilhosos. Para isso acontecer é necessário que eles sejam antes crianças, adolescentes e jovens maravilhosos, e não plastificados pela cultura de massa que os transforma em produção em série, sem espírito crítico, indolentes, preguiçosos e que vão aonde todos vão: mesmos shoppings, mesmas comidas industrializadas e games da moda, mesmas redes sociais e roupas, mesmos planos de diversão…

             Seguem dicas de pais e mães que tornaram seus filhos maravilhosos:

    • Assumam os valores que acreditam. Os filhos devem ouvir e testemunhar com frequência os valores que seus pais adotam na vida, aos quais não abrem mão: não falam mal de ninguém, são honestos e não tiram sequer uma uva do supermercado ou um clip da empresa onde trabalham, nunca mentem ou falseiam a realidade, quando erram sabem pedir perdão ao filho, são laboriosos e aproveitam bem o tempo nos fins de semana;
    • Não temam dizer “não”. Não se importem que o filho se chateie, nem temam perder a estima dele ao dizer, por exemplo, para não ir a determinadas festas ou programas com a turma, pois mais adiante compreenderá os motivos e agradecerá a vocês. Não temam corrigi-lo ao notar algum comportamento errado, a fim de não ser cúmplices dos desvios de conduta. A autoridade e a estima não se perdem quando se está na verdade e se busca um bem maior aos filhos, que assim também compreenderão que quem manda no lar são os pais, que devem ser objeto de respeito e obediência;
    • Não dar tudo o que pede. Evitar dar à criança todos os brinquedos que pedir, a fim de que aprenda a esperar por uma ocasião especial, e para que compreenda que dinheiro não dá em árvores. Dar tudo com facilidade à criança (dinheiro, viagens, passeios, aparelhos eletrônicos, roupas de grife) a fará acostumar-se a satisfazer seus sentimentos e caprichos e nunca saberá suportar as contrariedades, nem enfrentará o que custa, como por exemplo, o estudo, fazer esforços pelo bem dos demais. O filho não deve o reizinho paparicado que impera e julga que todos devem servi-lo;
    • Não temer o esforço. Animar o filho a não temer o esforço para conquistar algo que vale a pena, pois só assim crescerá em virtudes humanas: só deslumbra um belo panorama quem se esforçou para subir ao topo da montanha;
    • Fugir da superproteção. Ensinem a criança a ser autônoma e não ficar dependente de que os demais façam as coisas por ela. A superproteção deforma o caráter da criança porque a substitui em tudo aquilo que ela poderia fazer: ensine-a a que sozinha amarre os próprios sapatos, vista-se, deixe a mesa posta para as refeições, ordene o próprio quarto… Fazer tudo por ela facilitará que seja egoísta ao se preocupar apenas com suas coisas, e será escrava do que agrada ou afaga seus sentimentos;
    • Saber exigir. Se a criança bagunçou ou sujou, ensine-a a ordenar ou limpar; que aprenda a guardar suas roupas nas gavetas, os brinquedos nas caixas e que ajude a manter a casa em ordem atribuindo a ela algumas tarefas diárias;
    • Ouvir a criança com paciência. Cessem tudo o que estejam fazendo e ouçam as pequenas queixas e explicações da criança, a fim de que ela se sinta valorizada e compreendida, e sempre venha contar as coisas aos pais, pois sabe que será ouvida atenção e carinho;
    • Estimule a imaginação da criança. Não deixe a poderosa imaginação e a curiosidade natural de seu filho ser sufocada por tantas imagens digitais e informações inúteis obtidas nas redes sociais; anime-o a não ficar dependente de imagens digitais ao habituá-lo a ler livros de literatura, praticar jogos de inteligência e de memória (xadrez, dominó, quebra-cabeça, caça-palavras, paciência, sudoku, jogo das diferenças…), fazer esporte, visitar museus e exposições científicas e de arte, selecionar filmes e vídeos com bons conteúdos, entre outras iniciativas;
    • Introduza a criança no mundo real. Insira aos poucos a criança no mundo real: quando for a um velório, leve-a para saber que a vida tem princípio e fim; visite com ela algum orfanato ou asilo para fazer felizes as pessoas que sofrem (levem um doce ou algum brinquedo em bom estado, mas que seu filho já não utiliza);
    • Transmitir a fé. Ensine a criança a rezar e a ter fé em Deus, pois uma esperança somente humana não tem sentido, já que tudo nesta vida tem um fim. A fé é o maior bem que os pais deixam para os filhos;
    • Ser agradecido. Um bem que transforma o coração é o agradecimento. O filho precisa aprender a agradecer tudo que fazem por ele, pois a ingratidão é irmã da soberba. Não sabe agradecer aquele que não reconhece o esforço dos demais e porque julga que todos devem servi-lo;
    • A virtude do desprendimento. Tem mais aquele que precisa de menos. Os invejosos e os gananciosos sempre querem mais e por isso nunca estão felizes. A virtude do desprendimento ou da pobreza é um bem espiritual que ajuda que afastar-se de tantas frivolidades, apegos e bombardeio da publicidade para que se adquira mais e mais produtos. Ensine o seu filho não ser vítima ou escravo das modas;
    • Sejam pacientes. Fujam das explosões raivosas com as crianças, pois fazem dizer coisas que magoam e são difíceis de se esquecer, prejudicando a confiança: não gritem nem deem palmadas nos filhos como resultado de descontrole e impulsividade;
    • Pais alegres e bem-humorados. Os pais que estão sempre alegres e de bom humor, apesar das dificuldades do dia a dia, transformam o lar em ambiente luminoso, onde todos anseiam por regressar no final do dia. Ao ter presente que tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, e que os problemas são de ordinária administração, é mais fácil enfrentar as dificuldades com um sorriso;
    • Pais não reclamões. Reclamar a todo instante do frio ou calor, do cansaço, de algo que deu errado, de uma pequena enxaqueca ou dor, blá, blá, blá…. revela que os pais são fracos e pouco resilientes e sem capacidade para suportar contrariedades: tudo isso passara como osmose para o filho;
    • Um filho não pode esfriar o amor entre o casal. Não deixar que a criança esfrie o amor entre marido e mulher, pois se isso acontecer, além do casal, a criança também será prejudicada: certo adolescente perguntou à mãe, se ela gostava mais dele ou do pai, e a resposta foi: primeiro do seu pai, e depois de você. Ao fazer a mesma pergunta ao pai, obteve a mesma resposta: primeiro de sua mãe e depois de você. A criança ficou um pouco desconcertada com tais respostas. Porém, ao entrar na adolescência viu com tristeza que seus pais deixaram esfriar o amor mútuo e se separaram. Então, o garoto, agora sozinho, compreendeu como era importante que eles continuassem a se amar primeiramente. Erra a mãe que substitui o marido pelo filho ou filha, e erra o marido que substitui a esposa pelo filho ou filha. A segurança de uma família está no amor entre marido e esposa.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de August de Richelieu.

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  • Trabalho e família: como conciliar?

    Trabalho e família: como conciliar?

    1 – Vida familiar e profissional. 2 – O remorso por trocar a família pelo trabalho. 3 – A família é o “melhor negócio. 4 – Hierarquizar as tarefas profissionais e familiares. 5 – Para aproveitar melhor o tempo. 6 – Destinar um tempo para a oração.

    1 – Vida familiar e profissional

        O trabalho está presente em todas as esferas da vida humana, pois o homem foi criado para trabalhar a fim de sustentar a si e aos seus e contribuir para com o progresso e o bem-estar da sociedade humana. Conciliar vida laboral e familiar surge como um fenômeno novo e complexo ocasionado, afirma-se, pela incorporação da mulher ao mercado de trabalho, fazendo mudar a dinâmica tranquila onde imperava uma clara divisão de tarefas: o âmbito doméstico era mais próprio da mulher e o do trabalho externo pertencia ao homem.

        Se a mulher conquistou espaço para se realizar humana e profissionalmente, não significa que perdeu suas qualidades femininas e a forte inclinação natural para a família e a maternidade, que as realiza imensamente. João Paulo II diz “Por um lado, de fato, existe uma consciência mais viva da liberdade pessoal e uma maior atenção à qualidade das relações interpessoais no matrimonio, à promoção da dignidade da mulher, à procriação responsável, à educação dos filhos; há, além disso, a consciência da necessidade de que se desenvolvam relações entre as famílias por uma ajuda recíproca espiritual e material, a descoberta de novo da missão eclesial própria da família e da sua responsabilidade na construção de uma sociedade mais justa” (Exortação Apostólica Familiaris Consortio, n. 6,)

    2 – O remorso por trocar a família pelo trabalho

        Muitos casais que se ausentam do lar para provê-lo afirmam que a tarefa profissional impede dar atenção ao outro cônjuge, filhos e aos cuidados da casa. Entretanto, hoje já não tem sentido manter a oposição entre trabalho e família, pois os atuais recursos tecnológicos multiplicaram exponencialmente as opções profissionais e as condições de trabalho, permitindo encontrar um ofício ou profissão de acordo com as aptidões pessoais, de modo que se possa trabalhar mais próximo da família.

        Porém, pode-se introduzir no trabalho profissional o orgulho ou a vaidade que levam a locupletar-se dos dons recebidos gratuitamente de Deus para melhor servir aos demais, a fim de se ter como um deus e rejeitar as tarefas que não têm brilho, como as de levar adiante a família. Trata-se de um erro desprezar as tarefas simples e sem brilho externo – mas não sem importância – como são as que pertencem à esfera familiar, para deixar-se enganar pelas que oferecem o falso brilho dos holofotes sociais. É vasto o testemunho de homens e mulheres que falharam como pais e esposos porque trocaram a família pelo trabalho, afirmando que “trabalhavam para a família”, mas na verdade buscavam a si próprios: a honra vaidosa, o status pelo status, dinheiro e poder. O sucesso que alcançaram na carreira profissional não os livrou do remorso de verem destruídas a vida familiar e o descaminho dos filhos: ficou-lhes o inapagável ressaibo de tristeza e ausência da verdadeira felicidade ao traírem as pessoas que mais dependiam deles.

        O Papa Francisco afirmou que “A família é um grande teste. Quando a organização do trabalho a mantém refém, ou até lhe impede o caminho, então estamos certos de que a sociedade humana começou a agir contra si mesma. É preciso dar unidade a essas esferas, fixar objetivos mais altos, como realizá-las por amor a Deus, em primeiro lugar, pois derivam da condição de ser pais, cônjuges, amigos, companheiros, etc.” (Audiência geral de 19-08-2015).

    3 – A família é o “melhor negócio”

        Se “a família é o melhor “negócio” de cada pessoa, como afirmam muitos estudos e pensadores, não há razão para permitir que colidam as esferas profissional e doméstica, mas devem ser integradas: o âmbito familiar necessita da atividade profissional para sobreviver com dignidade, e a vida profissional encontra seu sentido e finalidade na perspectiva de servir a família. Assim, se pode aplicar à gestão do lar o método de trabalho das empresas: fixar metas de disciplina familiar, utilizar estratégias para que a esfera profissional não invada a familiar, distribuir as tarefas para que os trabalhos domésticos sejam realizados também pelos filhos e não apenas pelos pais (todos devem contribuir para com a ordem e harmonia da casa), participar de cursos de orientação familiar para melhor integrar os âmbitos profissional e familiar. As empresas inteligentes colaboram com muitas iniciativas para que seus funcionários tenham uma sadia vida familiar, pois assim trabalham melhor.

        Cada família tem seu próprio projeto existencial, mas sempre destacando a importância da mulher na vida familiar. Se uma mulher decide dedicar-se ao cuidado do lar sua opção é legítima, e de fato muitas mães optam pelo cuidado exclusivo do lar, conduzindo essa atividade com mentalidade profissional. Já as mulheres que decidem conciliar a vida familiar com o trabalho profissional devem ter presente que o mais importante para elas é a família, pois na empresa é facilmente substituída, mas no lar nunca será.

    4 – Hierarquizar as tarefas profissionais e familiares

        Para conciliar vida familiar e profissional é necessário a virtude da ordem para que as tarefas de cada esfera não invadam o espaço da outra. Os múltiplos afazeres de cada esfera (familiar e profissional) devem ser hierarquizados de acordo com o seu valor. Não errará no estabelecimento das prioridades diárias quem hierarquizar suas obrigações da seguinte forma: Deus, os outros e eu. Se considerarmos cada esfera como uma caixa que possa ser introduzida harmoniosamente dentro da outra, teremos a seguinte ordem com seus respectivos deveres: a primeira e grande caixa é a de Deu; depois, introduzida (ou encaixada!) nessa primeira vem a caixa da família, seguida pela do trabalho profissional, e por último pela caixa das demais relações. Hierarquizar essas esferas é colocar em primeiro lugar os deveres para com Deus, depois os deveres para com a família, seguido depois pelos deveres da caixa do trabalho profissional e pelas obrigações das demais relações. Se, ao contrário, alguém prioriza a caixa do trabalho, ficam de fora a de Deus e a da família; se prioriza a caixa das relações sociais, por exemplo, ao ir todos os fins de semana jogar futebol com os amigos, poderão ficar de fora todas as demais caixas, rompendo a harmonia das engrenagens e causando distúrbios e dramas na vida de todos os envolvidos. Manter as esferas dentro de uma ordem dá paz e segurança para agir corretamente, sabendo o que se deve fazer em cada momento.

    5 – Para aproveitar melhor o tempo

        O equilíbrio adequado entre trabalho profissional e vida familiar exige aproveitar bem o tempo e colocar os cinco sentidos naquilo que se está fazendo – “Faz o que deves e está no que fazes” (Caminho, n. 815) –, a fim de dedicar a cada tarefa o prazo exato, nem mais nem menos, para não correr o risco de atrasar-se e invadir atribuições da outra esfera (familiar ou profissional). Fixar a hora de iniciar e concluir o trabalho profissional a cada dia, para retornar ao lar na hora certa, tendo sagrada a convivência com a esposa e filhos, exige que se trabalhe na empresa com intensidade para não atrasar as tarefas, evitando-se para isso paradas para cafezinhos, conversas desnecessárias, consulta às redes sociais… Ao especificar o dia e a hora de cada tarefa, na sua correspondente esfera, não haverá atropelos, pois não será necessário se deixar levar pela improvisação, já que o mais importante de cada esfera terá sido atendido, mesmo que para o dia seguinte fiquem algumas tarefas para serem realizadas, que certamente não serão as mais importantes.

        Uma vida familiar saudável requer que o uso do tempo seja feito com qualidade. Em casa, evitar atividades isoladas, como pôr-se diante da TV e ficar procurando algo para assistir, pois isso indica falta de organização pessoal e acomodar-se ao mais fácil e não ao mais importante. Ter presente que o curto tempo que se passa com a família deve ser bem aproveitado para dialogar com a esposa e filhos. Fazer atividades conjuntamente para descansar e os pequenos encargos do lar enriquecem e reforçam os vínculos familiares.

    6 – Destinar um tempo para a oração

        Dor e cansaço estarão sempre presentes no trabalho bem realizado, seja ele profissional ou familiar, e isso é o que adorna a pessoa de muitas virtudes e forja o caráter e a personalidade. Consegue enfrentar com alegria e otimismo o trabalho profissional e o cuidado da família quem fixa um tempo diário de 10 a 15 minutos, antes de sair para o trabalho, para falar com Deus, tal como um filho ou filha conversa descontraidamente com seu pai. Quanto mais complicado de tempo e mais responsabilidades possui uma pessoa, mais necessita ela dessa conversa filial com Deus para obter luzes e forças e não se sentir sozinha na luta diária para conciliar família e trabalho.

    Texto produzido por Ari Esteves, e inspirado no artigo “Trabalho e família: diretrizes para conciliar” de Rosalía Baena em www.opusdei.org/pt-br. Imagem de Ketut Subiyanto 

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  • Para evitar o consumismo infantil

    Para evitar o consumismo infantil

        Fomente na criança desde as primeiras idades o gosto por bens que não sejam exclusivamente materiais. Mantenha-se firme diante da insistência dela ao pedir brinquedos fora de datas especiais (Natal, aniversário ou outra ocasião importante), a fim de não acostumá-la a ter regalos fora de época, que a levarão a não valorizar o esforço dos pais.

         Sugestões para a criança desenvolver o gosto por bens não materiais, além de afastá-la do vício dos celulares ou tabletes:

    • Contar histórias: todos gostamos de ouvir histórias! Leia para a criança os clássicos infantis: elas ficarão encantadas ao ver se materializar em personagens, de forma criativa, o bem a praticar e o mal a evitar. No site staging.ariesteves.com.br/, página Literatura Infanto-Juvenilhá uma lista com títulos de excelentes obras e seus autores. No conhecido site www.estantevirtual.com.br é possível adquirir livros seminovos a baixo custo;
    • Tertúlias ou bate-papos familiares: convide parentes ou amigos para uma tertúlia ou bate-papo, a fim de que conte alguma experiência interessante: viagem, alpinismo, excursões, fotos, colecionismo, esporte que pratica, música, pintura…;
    • Museus e Exposições: visite com a criança museus e exposições de quadros ou esculturas. Transforme essa atividade em jogo de encontrar. Para isso, visite antes o site da instituição e imprima as imagens das obras que ela mais gostou. Depois, ao chegar no local, peça à criança para localizar as escolhas feitas, sem fazer juízo de valor para não inibi-la, caso você não aprecie a obra, e pergunte: – Se você fosse a autora desse quadro, que mais colocaria nele? (a criança fixará mais a atenção na obra e dará sua criativa sugestão);
    • Música: desenvolva o gosto da criança pela boa música, popular ou clássica, a fim de que ela não ouça apenas as canções de consumo veiculadas pelas mídias ou pelos paredões de sons em veículos que infernizam os bairros populares com péssimas músicas. Leve a criança a locais onde possa ouvir músicos tocarem ao vivo e anime-a aprender um instrumento musical. Convide parentes e amigos que tocam algum instrumento musical para se apresentar em sua casa;
    • Teatro infantil: leve a criança ao teatro infantil, mas informe-se antes e não vá se a peça apresenta contravalores. Incentive-a a montar pequenas peças teatrais em casa, junto com outras crianças (as Fábulas de La Fontaine, e muitas outras, são facilmente representáveis);
    • Livrarias e exposições: vá com a criança a livrarias, feiras de livros e exposição de flores ou plantas para ela se encantar-se com muitas formas de beleza;
    • Programar desenhos: assista desenhos que tornem fácil para a criança perceber valores ou contravalores, e depois troque impressões com ela. Sobre a verdade e a mentira veja Pinóquio, de Carlo Collodi; A verdade segundo Arthur, de Tim Hopgood; Pig, o Travesso, de Aaron Blabey…
    • Vídeos culturais: a criança desconhece muitas coisas interessantes. Descubra aquelas que possam se interessar mais: animais, aviões, foguetes, montanhismo, mágicas, circo…;
    • Desenvolver habilidades: se a criança tem algum dom especial (esportivo, desenho, canto, dança, gosto por barcos ou mar, astronomia, matemática…), assista com ela vídeos que a incentivem a se aprofundar nos temas de interesse. Com isso, os pais estarão preparando um futuro jovem que poderá participar mais ativamente do mundo da cultura, ciência ou arte;
    • Saraus em casa: promova em casa encontros para contação de histórias, recitação de poesias e leituras de livros. Convide parentes ou amigos para ajudar nas narrativas;
    • Contemplar a natureza: é muito importante para a criança desenvolver a sensibilidade para o belo. Programe com a família um passeio mensal e passe o dia no campo, parques arborizados, jardim botânico, zoológico;
    • Crie brinquedos simples: se a criança insiste em ter brinquedos caros, construa brinquedos com embalagens vazias de produtos caseiros, pois ela terá carinho especial pelos que foram feitos pelos seus pais. Junte potes e embalagens plásticas para ela organizar e colecionar;
    • Aprender a poupar: para a criança compreender que dinheiro não nasce em árvores, e que os pais o adquirem com grandes esforços, antes de ir ao supermercado combine com a criança quais produtos irão comprar, e quanto poderão gastar. À medida que um produto vai para o carrinho, faça a conta de subtração junto com ela, e peça a ajuda dela para pesquisar nas prateleiras produtos mais em conta.

        Para compreender melhor os efeitos negativos do consumismo infantil, sugerimos a leitura de outro boletim com o título “Consumismo infantil”, em nosso site.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Ryutaro Tsukata

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  • Diga não ao palavrão

    Diga não ao palavrão

     1 – Não se acostumar com os palavrões. 2 – As palavras revelam a interioridade da pessoa. 3 – Palavrões ditos por crianças. 4 – Como reagir diante de quem fala muitos palavrões

    1 – Não se acostumar com os palavrões

        Qualquer pessoa que reflita um instante acerca do palavrão que ouviu ou proferiu, chegará à conclusão de que foi uma grosseira que deve ser evitada por todos, sejam adultos, adolescentes ou crianças. É desgastante e incômodo conviver com pessoas que falam palavrões a torto e a direito, porque revelam pobreza interior e embrutecimento do espírito.

        Parece que praguejar e dizer palavrões alivia as dores de quem se machucou, irritou-se ou não soube expressar com exatidão sua admiração. Os palavrões mais utilizados têm conotação provenientes de desordens sexuais, e há pessoas acostumadas a pronunciá-los, mesmo sem intenção de ofender alguém, e que mal percebem a estranheza que causam, tal como aquele cuja sudorese cheira mal e não capta que desagrada aos demais.

        Se nos policiamos para evitar o “né” enquanto falamos, com mais razão devemos nos resguardar dos palavrões, que podem revelar o que trazemos por dentro, e que determinam o modo como pretendemos ser tratados nos ambientes em que frequentamos. Palavrões são formas pouco eloquentes de expressar emoções, e revelam um vocabulário limitado e atrofia da capacidade de expor com precisão os próprios sentimentos. Tal vazio verbal provém da fuga dos livros de literatura, cuja leitura estimula a atenção que se deve dar às palavras, e sua falta empobrece o rol de expressões e conceitos, e induz empregar palavrões como tentativa de realçar o que se quer dizer. Quem leu Dom Quixote, de Miguel Cervantes, poderá constatar o modo rico e criativo com o qual o Cavaleiro Andante, que reproduzia a fala do homem de sua época, maldizia algumas ações de seu escudeiro; Jesus Cristo não utilizou palavrões, mas serviu-se de expressões fortes para enquadrar algumas pessoas ou situações: “sepulcros caiados”, “raça de víboras”, “tardos de inteligência”, “hipócritas”. Ou seja, há maneiras mais ricas e criativas para expressar desacordo ou admiração.

    2 – As palavras revelam a interioridade da pessoa

        O bom emprego da palavra é manifestação de justiça e promoção do bem comum material e espiritual, ao que todos devem contribuir. A cortesia e a delicadeza no trato com os demais temperam os diálogos. Não se trata de medir ou calibrar milímetro a milímetro o sentido preciso e o alcance de nossos gestos e palavras, mas tampouco devemos dar rédeas soltas a tudo que nos vem à boca, sem discernir bem sobre o que estamos nos referindo. A falta de educação e as incorreções verbais revelam ausência de fineza espiritual e pouco domínio do próprio temperamento e dos estados de ânimo.

        O emprego do palavrão pode estar na maledicência, na crítica destrutiva, no ridicularizar, no bancar o engraçado ao utilizar-se de imagens sexuais como fazem os maus humoristas, na admiração ou estupefação diante de algo que assombrou. Todo indivíduo deve acomodar seus atos e palavras à lei moral, pois se trata de uma exigência fundamental da verdade e do respeito à dignidade das pessoas. Como afirma Matheus (XII,16), os palavrões não deixam de ser expressões ociosas que cada um deverá dar conta no dia do juízo. Tomás de Aquino ensina que a ordem das palavras e das ações exige que estas sejam conformes à realidade que expressam, tal como o sinal se adequa à coisa significada, sendo isso exigência da virtude da veracidade. A verdade enquanto conhecida pertence ao entendimento, e as palavras devem ser utilizadas para expressar a verdade. Se é próprio da virtude da veracidade a adequação entre o que se fala e o que se pensa (a interioridade se extravasa para a exterioridade), parece lógico que os palavrões tendem a se opor à verdade, pois sua malícia está na mentira ou no modo irrefletido de enunciar algo que é falso, e se não for falso, trata-se, então, de não difamar ninguém.

        Ouvir palavrões pela boca de mulheres é experiência que dói aos ouvidos dos homens, porque a delicadeza e os sentimentos femininos, tão necessários para humanizar e tirar as asperezas deste mundo, se estilhaçam como uma peça de cristal lançada ao chão; ouvir palavrões de crianças causa estranheza, perplexidade, porque faz desmoronar a ingenuidade e simplicidade próprias da idade, tão necessárias para desarmar o coração dos adultos de sua autossuficiência. Entre os adolescentes os palavrões parecem ser um modo de autoafirmação, de querer se integrar a um grupo ao tentar reproduzir as falas deste, mas se o adolescente é respeitado e ouvido pela família, não necessitará de palavrões para se fazer querido e objeto de atenções.

    3 – Palavrões ditos por crianças

        A criança pequena não entende o que diz, e repete o palavrão porque percebe a reação de choque ou, infelizmente, de riso dos adultos, o que a fará repetir o dito para receber a atenção que lhe falta; ou porque reproduz palavras que ouviu em casa ou na escola. Não achar divertido os palavrões pronunciados por elas, a fim de não as incentivar a repeti-los em outras ocasiões, muitas vezes embaraçosas. É importante explicar às crianças que há palavras que não devem ser ditas nem casa, nem na escola ou na rua, monitorando-as diante do que é sofrível. O ambiente familiar representa muito na educação das crianças: se a família é educada e as pessoas se tratam com respeito e carinho, o palavrão será naturalmente desestimulado, pois surgirá como nota estridente na harmonia de uma sinfonia; se há indelicadezas e desrespeitos, os palavrões serão reproduzidos de forma espontânea.

        Não exagere em suas reações diante de um palavrão pronunciado por uma criança, pois melodramas reforçam o comportamento com o qual ela quis chamar a atenção; também não ria, como já dissemos, a fim de não incentivá-la a repeti-lo: considere que a criança é uma aprendiz da fala, e não percebe a gravidade do que possa dizer; porém, alerte-a de que tal palavra é feia e não deve ser dita porque machuca e desagrada a todos. O vício dos palavrões vem sendo incentivado por filmes, videogames, novelas ou músicas cujo falso naturalismo faz os personagens dizerem palavras inadequadas. Na escola, os adolescentes costumam seguir o exemplo de amigos, sendo este mais um motivo para os professores enriquecerem o vocabulário dos alunos.

    4 – Como reagir diante de quem fala muitos palavrões

         Devemos nos empenhar para respeitar a pessoa e sua liberdade, e tratar a todos com extrema delicadeza. Se quem diz palavrões for um adulto, de modo simpático e respeitoso podemos lembrá-lo de não dizer tais palavras, até que aos poucos a indicação penetre na consciência dele. Se excepcionalmente for necessário corrigir um adulto com mais energia, nunca deixar-se arrastar por apaixonamentos a fim de que as palavras não o venham a ferir ou magoar; após a correção, lançar o balsamo da simpatia para curar, e afirmar que naquele momento foi necessário proceder daquele modo. Se a correão deve ser feita em uma criança, como já foi dito acima, explicar com calma e simplicidade que certas palavras não devem ser pronunciadas porque são feias e ofensivas. Já com os adolescentes, explicar as vantagens e importância de se comunicar de maneira limpa, saudável e criativa.

    Texto elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Sara Shimazaki.

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