1 – Tornar a criança responsável. 2 – A criança deve perceber a importância de sua ajuda. 3 – A superproteção deseduca. 4 – A desobediência infantil: conflito entre a alma e o corpo. 5 – A autonomia faz a criança lidar com suas frustrações e ser persistente. 6 – A criança deve resolver seus próprios problemas. 7 – Tarefas por idade ou a bolha de egoísmo.
1 – Tornar a criança responsável
Para que um lar seja alegre e agradável não basta a convivência pacífica, nem a falta de exigência onde cada um se mete no quarto com seu tablete para viver uma vida egoísta. A criança necessita ser educada para se tornar responsável na vida familiar, cujo ambiente dependerá desse protagonismo livre e ativo, onde cada membro aprende a servir e a doar-se aos demais, desde a primeira infância.
Construída com pequenas tarefas apropriadas a cada idade − que a criança cumprirá divertindo-se −, autonomia não significa deixá-la fazer o que quiser, mas guiar para escolhas que a enriquecem verdadeiramente, a fim de que se arrisque, desenvolva a autoconfiança e o espírito de serviço e de ajuda aos outros.
2 – A criança deve perceber a importância de sua ajuda
A criança cresce em autonomia ao perceber que seus pais só intervêm quando é realmente necessário. Responsabilizar é tornar a criança ativa, fazendo-a perceber que sua ajuda faz falta no lar. Até a idade de cinco anos, ela cumprirá seus pequenos deveres para agradar os pais; a partir dos seis anos deverá agir para prestar um serviço de amor, com alegria não pelo sorvete que ganhará (fluxo centrípeto), mas pela ajuda que tornará mais agradável a vida dos pais e irmãos, pois isso a fará sair de si mesma (fluxo que centrífugo) ou motivação transcendente.
3 – A superproteção deseduca
Há pais inseguros em tornar seus filhos independentes, e acabam substituindo-os naquilo que eles poderiam fazer sozinhos. Essa superproteção leva a criança ao acomodamento, à introversão, à falta de segurança ou medo de agir por conta própria, à vergonha de se expor ou arriscar, à inabilidade no convívio social (não saberá cortar seu bife no refeitório da escola ou servir-se numa festa, nem amarrará o próprio tênis na aula de educação física). Os mesmos aspectos negativos da superproteção ocorrem quando os pais, impacientes e inconstantes, com a desculpa de que “não têm tempo” ou que “farão melhor”, e se adiantam a fazer o que a criança poderia conseguir.
Pais que reclamam ser o filho passivo e desinteressado, que nunca agradece a sobremesa ou os pratos feitos para ele, além de não ajudar nas tarefas do lar, devem saber que a culpa de tais atitudes é dos próprios pais que, superprotetores, pouco exigiram dele na infância e pré-adolescência, e com isso o tornaram egoísta e só metido em seus interesses e credor de todas as atenções. Julga ele que nada tem a ver com os encargos domésticos, pois isso é apenas dever dos pais, já que ele se sente um rei em sua corte e que está para ser servido por todos.
4 – A desobediência infantil: conflito entre a alma e o corpo
Hoje vemos mães que padecem a desobediência do filho de quatro anos porque não foi trabalhada a afetividade da criança por meio de uma disciplina familiar desde os dois anos. A conta agora se tornou cara, pois mudar as disposições de uma criança de cinco, seis ou sete anos para algo que não foi capacitada será jogo duro. O conflito entre o espírito (consciência) do adolescente e seus sentimentos (manifestações corporais), revela que ele nunca foi exigido para contrariar sua afetividade ou sentimentos a fim de cumprir seus deveres. Nessa terceira camada da pessoa humana, que é o espírito (corpo, alma e espírito), reside a consciência do eu, o amor e o sentido de liberdade e responsabilidade pessoais.
5 – A autonomia faz a criança lidar com suas frustrações e ser persistente
Aprendemos com tentativas que nos fazem acertar ou errar, e amadurecemos afetivamente ao aceitar situações contrárias ao nosso gosto. Alguns pais temem que seus filhos sofram frustrações e com isso não permitem que eles amadureçam. Se a criança escolheu ir ao parque e não ao shopping, e ao chegar no local da opção se arrepende e pede para irem ao shopping, dizer que ficará para outro dia e que ela procure aproveitar o momento; se o adolescente disse ao amigo da escola que iria no aniversário dele no sábado, e ao chegar esse dia prefere ir jogar futebol com outros colegas, é preciso ajudá-lo a tomar consciência de que deve cumprir a palavra dada.
Ao explicar à criança que não irá ao passeio que ela deseja, mas àquele que o irmão aprecia, a fará compreender que os demais também têm seus gostos que devem ser respeitados. Ao não comprar o doce que a criança pede fora de hora, está sendo ensinada a ser paciente e saber esperar para desfrutar da guloseima na hora certa. Animar o filho a não desistir de montar o lego ou o quebra-cabeça o faz ser resiliente e perseverante diante das dificuldades.
6 – A criança deve resolver seus próprios problemas
Confie na capacidade da criança resolver seus problemas. Pergunte sempre a opinião dela sobre o que pretende fazer − se acha certo ou errado −, e dê chances para que reflita sobre suas ações. Se a criança trocou os tênis de pés e indaga se está correto, não responda, mas pergunte sobre o que ela acha. Se houve um desentendimento com um amigo da escola, dialogue para ela conclua sobre a importância de reconhecer seus erros, saber pedir desculpas e buscar a reconciliação da amizade ou aprender a perdoar.
7 – Tarefas por idade ou a bolha de egoísmo
A criança acostumada a não ter tarefas familiares mete-se dentro de si, vai para seu canto com o tablete e não consegue mais furar a bolha do egoísmo para se interessar pelos outros. Ao chegar à adolescência, irá se distanciar ainda mais da família e nunca entenderá que a felicidade está no amor, que é entrega aos demais. Filhos incomodados dentro do lar e que não gostam de sair com os pais, revela que algo está errado em sua educação.
A grande educadora italiana, Maria Montessori, sempre estimulou a autonomia infantil, e isso pode ser feito no dia a dia do lar ao delegar responsabilidades. Quando uma mãe ensina a criança que começou a andar para que leve a fralda suja até a lixeira, age não movida por uma eficácia organizativa, mas pelo aspecto espiritual que tornará a criança ativa no amor e no espírito de serviço aos demais.
Para dar responsabilidades é preciso saber adequar a tarefa à idade, a fim de não ser injusto ao atribuir tarefas que estão além ou aquém da capacidade da criança. As tarefas vão sendo cumulativas e distribuídas entre os vários filhos:
De 2 a 3 anos: colocar os sapatos (de preferência sem cadarço), acomodar-se na mesa e comer sozinha, ordenar os brinquedos por caixas, colocar água no copo (deixar ao seu alcance), jogar a fralda suja no lixo.
De 3 a 4 anos: varrer pequenas áreas com uma mini vassoura, ir ao banheiro sozinha, arrumar a mochila para a escola, separar as roupas sujas das limpas, jogar o lixo na lata, regar plantas em vasos, colocar a mesa e tirá-la após as refeições, trocar a toalha da mesa, deixar em ordem os sapatos no armário, vestir-se sozinha.
De 4 a 5 anos: fazer a sua higiene pessoal, passar geleia no pão com uma faca sem corte, distribuir os talheres na mesa e retirá-los, guardar as compras, utilizar o aspirador de pó, dobrar suas roupas e panos de prato, pôr comida para os animais domésticos e limpar a sujeira deles, separar o lixo reciclável, enxugar o banheiro após o banho.
De 6 a 7 anos: ajudar a cozinhar pratos fáceis, varrer o chão com vassoura de adulto, tirar a mesa após as refeições e lavar a louça, descascar frutas, lavar verduras, limpar gavetas e armários, organizar seu próprio guarda-roupa.
De 8 a 9 anos: levar o lixo para rua, limpar e organizar a geladeira, fazer compras com uma lista, preparar seu lanche.
De 10 a 11 anos: cozinhar pratos básicos para a família, ajudar a escolher o cardápio do dia, limpar o micro-ondas e o chão da cozinha, tirar o pó dos móveis.
Acima de 12 anos: preparar refeições e sobremesas para a família; ir a pé para a escola, se fica no bairro.
Texto produzido por Ari Esteves









