Cuidar-nos: o egocentrismo leva à solidão

   

         Isabel Sánchez, em seu livro “Cuidarnos” (Cuidar-nos, em português), nos convida a quebrar a polarização conosco próprios e ter a sincera preocupação de pensar nos demais, começando pelos mais próximos. Diz ela que estamos nos desumanizando, desconectando-nos uns dos outros, e acabaremos na solidão, fechados atrás de uma porta. Neste boletim, traduziremos e adaptaremos a entrevista que ela concedeu a Álvaro Sánchez León, em www.acepresa.org.

         Contra o crescimento do individualismo, cuidar uns dos outros pode ser a nossa “marca pessoal como humanos”. O homem é o único ser no mundo que recebe cuidados longos e contínuos, precisa dos cuidados dos outros para se estabelecer e encontra o significado mais profundo de sua existência amando e cuidando dos outros. Porém, o homem é o único ser capaz de criar instrumentos que o aniquilam completamente, pelo mau uso que faz de sua liberdade ao ver com indiferença os demais.

         Álvaro afirma que enfrentamos um autonomismo desenfreado e uma má guarda ou mau paternalismo. Isabel responde que tal guarda não consiste numa atitude “paternalista”, mas em desenvolver a vida da outra pessoa ao fazer florescer nela seus talentos e capacidades, ao curar suas feridas e aliviar suas tristezas para permitir que siga adiante. A autonomia não tem fim em si mesma: cuidamos de nós mesmos e permitimos que outros nos cuidem para nos tornarmos autônomos e, então, passarmos a cuidar dos outros. Este é o ciclo da interdependência: somente reconhecendo-nos como interdependentes poderemos nos tornar independentes saudáveis.

Que significa ser vulneráveis? Significa ser realista e honesto ao reconhecer os nossos limites, aceitá-los e saber demonstrá-los com cautela. Esta honestidade leva-nos a não fazer autoexigências de perfeição inatingível, mas também a não acomodar-se em aspectos que podem ser melhorados para facilitar a convivência com outras pessoas. Ser vulnerável e transcender o politicamente correto significa aprender também a lidar com as imperfeições dos outros, adaptando-se muitas vezes aos demais com suas formas de ser e de conceber a vida. Aprender a arte de pedir ajuda quando necessário e deixar-se cuidar com simplicidade.

         — Como fazer coexistir a nossa vulnerabilidade com a agressividade do mundo, que parece não ser feito para pessoas frágeis? Querer construir um mundo exclusivo “para os fortes” só acentua as nossas fragilidades. Ao ver os números de suicídios e de doenças mentais que afligem os países considerados desenvolvidos, compreende-se a magnitude do problema. Os homens e mulheres atuais devem construir um mundo onde a autonomia e a vulnerabilidade constituem a marca da nossa humanidade, o que exige prestarmos melhor atenção à sociedade que projetamos e às leis que aprovamos.

         — Como fazer do mundo um lar, sem esconder que vivemos “num mundo ferido?”. Todos os humanos são chamados a fazer do mundo um lar. Todos podemos e devemos ser lar, abrigo e reparação para os nossos iguais. Nesta tarefa particular, a família desempenha um papel fundamental como comunidade regida pela lei da gratuidade e do amor, onde a vida humana é concebida como inegociável, formando redes com outras famílias e sendo interlocutores válidos perante o Estado.

         — …300 milhões de pessoas sofrem depressão em nosso século, imersas num contexto de “utopia de felicidade”. Por que cuidar é mais real e mais curativo do que se desintessar pelos demais; e por que cuidar pode nos tornar mais felizes do que buscar uma felicidade isoladamente? O egocentrismo pode ter alguma recompensa imediata – evita “complicar” a vida para servir aos demais – mas isso leva à solidão. A solidão, alerta a comunidade científica, faz crescer o risco de mortalidade em até 30%; aumenta a possibilidade de sofrer de doenças cardiovasculares e vasculares cerebrais, traz problemas de saúde mental. Por outro lado, estudos sobre a felicidade, como o de Robert Waldinger, professor de Psiquiatria na Harvard Medical School, sustentam que bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis. Pelo menos através de provas científicas, deveríamos convencer-nos da necessidade de aprender a abrir-nos aos outros, a viver juntos, a construir juntos e a ajudar-nos uns aos outros a carregar os fardos que a vida impõe.

         — Queremos ser amados e bem cuidados a nível pessoal, mas amar e cuidar parece não ser aceito a nível social. Não deveria ser esta a atitude de verdadeira responsabilidade social? Concordo plenamente com essa tese. Cuidar das pessoas é o investimento mais valioso e lucrativo que podemos fazer. Há empresas familiares cujo objetivo é gerar empregos no setor de cuidados. Os seus fundadores estão convencidos de que cuidar é uma das principais tarefas realizadas na sociedade e essa tarefa diz respeito a todos nós. As pessoas que fazem desta ocupação a sua profissão são membros fundamentais da nossa sociedade e devem ser cuidadas, reconhecidas e remuneradas como tal. É possível, necessário e acessível ter um modelo de cuidados mais inclusivo, menos intrusivo, mais flexível, com maior confiança e mais humanidade. Cuidados de qualidade devem estar disponíveis para todos.

         — Pode o olhar feminino ser uma revolução construtiva para humanizar o nosso século? O olhar que pode levar a uma revolução que humanize o nosso século e os futuros é um olhar atento, empático, calmo, próximo, compassivo, terno e determinado ao mesmo tempo. É um olhar que procura assumir as oportunidades e necessidades dos outros para contribuir para o desenvolvimento das primeiras e para a correção das últimas. Universalizar essa perspectiva pode ser um poderoso meio de humanização.

         — Se diz que o cuidado às vezes é vivenciado como “o motor mais gratificante de nossas vidas”. Vemos isso na história de muitos que auxiliam os pais idosos ou dependentes. Ou no entusiasmo profissional, por exemplo, de muitos enfermeiros. Cuidar e servir deveriam ser emblemas brilhantes nos perfis do LinkedIn? Em um mundo complexo e em mudança constante, investir nas pessoa que contribuem com talento e criatividade para servir, torna-se um objetivo prioritário para as organizações e empresas. Quem tem capacidade para liderar, gerir e unir equipes, descobrir e desenvolver talentos e promover o crescimento integral das pessoas dentro de uma organização, deve estar na mira de muitos “caçadores de talentos”. Na minha opinião, sim: saber cuidar e servir são qualidades em ascensão, exigidas de todo líder.

         — Você comenta que a alegria espiritual de fazer o bem é a melhor e a mais agradável das experiências. Se cuidar é um valor positivo, negligenciar é um vício tóxico? Cuidar compromete a cultivar a vida e aceitar o cansaço que isso acarreta. O descarte faz se livrar do que é inútil e permite que algumas vidas humanas sejam categorizadas como tal. Sem dúvida, negligenciar é um vício tóxico, porque facilmente leva ao rebaixamento, ao descarte, à solidão e à morte.

         — Cuidar, saber cuidar de si e se deixar cuidar: o que a fez amadurecer neste aspecto enquanto preparava seu livro? A preocupação constante em cuidar das pessoas subiu no ranking da minha hierarquia de valores. A necessidade de investir tempo para saber cuidar é uma lição aprendida. Deixar-me cuidar tem sido motivo de enorme gratidão, e lição para continuar a pôr em prática. Aprendi a navegar pela vida com um novo conjunto de pedais, que às vezes tem que ser totalmente pressionado no da autonomia e outras vezes no da vulnerabilidade.

         Isabel afirmou que escreveu o livro “Cuidarnos” (Editora Espasa, Espanha) como expressão da responsabilidade que sente como cidadã para moldar a sociedade da forma que entende ser a melhor, e como a resposta de uma mulher cristã ao apelo do Papa Francisco para difundir a cultura do cuidado: Deus aparece como o melhor cuidador. Viver sem nos reconhecermos filhos do mesmo Pai – Deus – conduz a um desapego que leva à indiferença.

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