Apostar na família

         Ortega y Gasset recorda a história do explorador do Polo que aponta sua bússola para o norte, a fim de encaminhar para lá o seu trenó. Porém, se afasta do ponto ao não perceber que se encontra sobre um grande iceberg à deriva no oceano. Hoje, há quem navega sobre um iceberg que vai em direção oposta à felicidade que busca em sua atividade profissional, quando esta é contrária à família que constituiu.

         Família e trabalho sempre se apoiaram. Porém, atualmente há ideologias que incompatibilizam essas duas esferas ao apresentar a família como obstáculo para o sucesso profissional, ou vice-versa. Ser mãe converteu-se para muitas mulheres em desvantagem: trabalho ou filhos? Trabalhar ou cuidar da casa parecem atividades impossíveis de reconciliar, pois perdeu-se o sentido da família e do trabalho. Se não se concebe o trabalho como um serviço à família, mas como um fim em si mesmo, malogra-se também o sentido do amor, pois ninguém é feliz amando coisas, mas pessoas. Certa pesquisadora que dedicou sua vida às atividades acadêmicas, confessava aos colegas que agora com idade avançada se sentia sozinha e sem pessoas que verdadeiramente a amavam.

         Para recuperar o original significado da família e do trabalho é fundamental que marido e mulher estejam de acordo ser a família o ideal de suas vidas, e não um mero trampolim para a carreira profissional. O trabalho profissional é um dom que torna possível colocar ao serviço dos demais as capacidades pessoais, sendo a família a primeira beneficiária desse dom. Algumas mães mantém atividade profissional fora de casa, sem que o trabalho se transforme em finalidade de suas vidas: têm filhos que ajudam a manter um lar harmonioso onde todos anseiam retornar para casa após um dia de trabalho. E seus maridos as apoiam trabalhando com intensidade para encerrar o expediente no horário a fim de chegar pontualmente em casa, conscientes de que aqui ninguém poderá substituí-los.

         Um lar harmonioso, onde pais e filhos se apoiam mutualmente, é o primeiro passo para superar as crises pelas quais atravessa a sociedade e transformar o mundo. Para isso, o lar não deve ser apenas o abrigo para descansar após um dia de trabalho, mas o lugar do amor sacrificado, escola de virtudes, transmissão de valores e de entrega. O verdadeiro ambiente de um lar não se alcança através de cotas paritárias ou uma espécie de divisão de trabalho.

         Os ataques mais perversos à família são produzidos pelo hedonismo e pela ideologia de gênero, que separam os aspectos unitivo e procriativo do ato conjugal. Depois, vem a desintegração fomentada pelas telas digitais que isolam cada membro da família em seus interesses egoístas, deixando de ser a mesa um ponto de encontro, porque cada um faz as refeições no seu canto e na hora que bem entende. É importante dedicar um tempo diário à mesa: se não é possível tomar o café da manhã ou almoçar juntos, ao menos convém reservar o jantar para promover esse espaço de diálogo e de convivência. Isso se consegue com renúncia e sacrifício de cada membro da família, que deixa outras atividades para estar pontualmente em casa para o jantar e a convivência. A conversa ao redor da mesa, primeiramente agradecendo a Deus a possibilidade de trabalhar para ter o alimento, é ocasião de ouro para os pais educarem não com discursos, mas com gestos pequenos e detalhes aparentemente insignificantes. Para os irmãos, a mesa é ocasião de conviver, ouvir, colaborar e renunciar a planos pessoais para estar juntos.

         Apostar na família supõe sair do iceberg de ideologias. Assim, esse perímetro tão modesto como as quatro paredes do lar se tornam um contorno paradoxal porque é “maior por dentro do que por fora”, como descrevia Chesterton. Um caminho simples e acessível para resgatar a comunicação e o amor entre esposos e filhos é a participação na mesa, que sempre terá um personagem a mais, disposto a compartilhar desse momento: Deus, que certamente virá para o jantar.

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