A fraqueza humana e sua superação

1 – A fraqueza humana. 2 – A preguiça ou fuga do esforço. 3 – A pressão social como causa da fraqueza. 4 – O esforço da superação: luta esportiva. 5 – Virtude da temperança. 6 – Virtude da fortaleza.

1 – A fraqueza humana

    A fraqueza é companheira da vida humana. Muitas vezes nos propomos a fazer ou deixar de fazer algo e não conseguimos: deixar de fumar, seguir um regime alimentar, fazer exercícios físicos… Não é que tenhamos mudado de opinião, mas simplesmente não fazemos. Se existisse um tratamento fácil contra a fraqueza todos o seguiríamos. O amor desordenado aos bens que nos atraem e a preguiça diante do esforço que o dever exige são as causas interiores da fraqueza; e a causa exterior é a pressão social que nos coage a fazer o que não queríamos ou a não fazer o que queríamos.

    Os bens nos atraem porque nos aperfeiçoam, desde que essa atração não passe dos limites racionais. Os instintos podem arrastar com paixão desregrada para os bens primários: comida, bebida, sexo, conforto, esporte; como também a inclinação pelos bens intelectuais pode ser desproporcionada e fazer com que nos centremos demasiadamente ao trabalho, ao dinheiro, à posição social, à música, ao poder, esquecendo dos bens e deveres maiores, como são o amor a Deus e aos demais.

    Cada concessão à desordem aumenta a fraqueza pessoal e realimenta a inclinação àquilo que deixou de ser um bem, dado o uso desmedido dele. Se tais concessões se tornam hegemônicas afogam a razão e enfraquecem a vontade, fazendo a pessoa perder a liberdade ao se entregar a vícios como drogas, álcool, pornografia, jogos de azar… Quem se afeiçoa de modo exagerado à cerveja sabe que diante de uma garrafa dessa bebida não tem forças para evitá-la; e se a imagem dela se incrustar na sua imaginação não será capaz de pensar em outra coisa, calando as demais vozes interiores: a consciência fica obscurecida e a vontade debilita-se e a pessoa cede. É assim que a paixão se apodera de um homem.

2 – A preguiça ou fuga do esforço

    Outra fraqueza interna é a preguiça, que é o desgosto diante do esforço para cumprir uma obrigação, e sua fuga. A eficácia da vida de um homem tem muito a ver com a capacidade de vencer a preguiça, porque as coisas importantes custam, e as muito importantes custam mais: não existe nada de grande valia que não custe esforço; e só quem é capaz de vencer-se realiza algo que vale a pena. Os pais devem ensinar a criança desde pequenas a não fugir de suas tarefas e a cumprir seus horários, a fim de que cresça disciplinada e com força de vontade.

    Não se dá à preguiça a devida importância pelo seu aparente aspecto inofensivo: não fazer algo bom é menos grave do que fazer algo mau. Mas esse vício ocasiona males na vida das pessoas e das sociedades, sendo causa de muitas injustiças: por preguiça a autoridade não intervém ou não presta o serviço devido; os pais não corrigem os filhos; o professor não ensina como deveria; as administrações dos estados e das comunidades eternizam os trâmites burocráticos e reduzem a produtividade das pessoas e empresas.

3 – A pressão social como causa da fraqueza

    A pressão social, também chamada de respeito humano ou medo do ridículo, é a causa exterior da fraqueza humana, porque nos pode levar a comportarmo-nos de acordo com o modo dos outros pensarem, por medo de “cair mal“ ou de que nos zombem. Tememos ser apontados com o dedo e marcados com algum apodo. Sendo filhos do tempo em que vivemos tendemos a sustentar a opinião da maioria: pensamos e vestimo-nos da mesma maneira; gostamos das mesmas coisas; curtimos as mesmas modas, os mesmos ídolos e odiamos os mesmos demônios. Para não sermos malvistos tendemos a pensar que é bom ou mal o que dizem ser bom ou mau; rimos de uma piada que ofende as nossas convicções; calamo-nos envergonhados diante dos nossos princípios morais ou religiosos, ou talvez da nossa origem, profissão, amigos; condescendemos com o capricho de um superior hierárquico, mesmo que isso nos pareça imoral. Importa descobrir em nós os efeitos da pressão social e lutar contra eles.

    Essa pressão social é benéfica ao reprimir comportamentos excêntricos ou antissociais; mas é maléfica ao violentar a nossa consciência a ponto de agirmos contra ela. Não se trata de resistir ao ambiente pelo gosto de ser diferente, porque isso se chama esnobismo: se todos se inclinam em uma direção é provável que haja fortes razões para isso, e seria uma estupidez ser do contra por princípio. Se tais razões não existem temos de proteger a liberdade da nossa consciência ao não permitir que o irracional nos condicione a agir contra ela.

4 – O esforço da superação: luta esportiva

    Cada pessoa necessita de treinos para vencer suas fraquezas, tal como o esportista se exercita a fim de suportar a dor e a vontade de desistir ao correr uma maratona, prova dura e longa. Para vencer as três dimensões da fraqueza é necessário um clima de luta esportiva e treinos para melhorar as marcas pessoais. Como os bens podem arrastar com força desproporcionada, é preciso enquadrá-los na medida certa: quem faz um regime alimentar deve evitar pensar em comida e fugir das ocasiões; quem se afeiçoou à cerveja de forma exagerada tem que fugir das ocasiões e não acariciar essa bebida com a imaginação. Quem tem o coração comprometido com alguém − tal como no casamento − deve resistir aos afetos de enamoramento que o inclinam a aproximar-se de outra pessoa e fugir das ocasiões. Trata-se de não alimentar uma paixão que será difícil dominar e que causará dores e injustiças. Pensar de outro modo é desconhecer os mecanismos da fraqueza humana.

    A luta contra a fraqueza tem um princípio único: tratar a si mesmo com dureza! Não com a dureza irracional de um louco ou de um masoquista, mas com a estudada do esportista vencedor, que se propõe pequenas metas para ir ganhando um centímetro após outro em altura ou distância; metas que estejam sempre um pouco além do possível. É assim que se vencem as paixões desordenadas.

    A paixão por um bem não será uma rede arrastão se, além de inteligência, a pessoa crescer em força de vontade e utilizar truques para não permitir que a memória e a imaginação se polarizem. Diante de uma derrota é necessário recuperar com rapidez o terreno ao não satisfazer todos os gostos, mesmo que seja algo bom, a fim de servir de treino para o fortalecimento da vontade: não beber sempre que apetece; comer um pouco menos do que se gosta mais e mais do que se gosta menos; dominar a curiosidade; negar-se a satisfazer pequenas comodidades; abster-se de caprichos; respeitar os horários fixados; fazer primeiro o que é mais importante, mesmo que seja desagradável, etc. Não se trata de negar-se em tudo e sempre, mas treinar para buscar uma medida justa em tudo.

5 – Virtude da temperança

    As virtudes são hábitos racionais estáveis com os quais se podem vencer os três aspectos da fraqueza. A que leva a moderar a excessiva atração pelos bens é a virtude da temperança, que vem de temperar, dar têmpera, textura, equilíbrio e ordem ao mundo das paixões e desejos. Dentro da temperança, chama-se sobriedade a moderação na comida e na bebida; e castidade ao controle do desejo do prazer sexual. É preciso pôr limites ao desejo desregrado pelo trabalho profissional, à ambição de subir, aos Hobbies, ao esporte, ao perder futilmente o tempo com telas digitais, etc. Tudo precisa ter a medida da razão para ser verdadeiramente humano: se passar da medida deixará de ser um bem.

6 – Virtude da fortaleza

    A virtude que leva a vencer a preguiça e a pressão que o ambiente exerce chama-se Fortaleza, que é a capacidade de enfrentar ou suportar com firmeza as dificuldades. Chama-se força de vontade a que vence a preguiça e valentia a que vence a pressão social e a timidez. A fortaleza é necessária para sair da cama no horário, para perseverar no trabalho que se tornou cansativo… O verdadeiro corretivo da preguiça é o espírito de serviço ou a firme decisão de orientar a atividade pessoal para servir aos demais. Viver nesse nível de exigência pode parecer incômodo, mas se trata de valiosa maneira de viver; aliás, é o único estilo coerente com o que é próprio da vida: lutar!

Texto de Juan Luís Lorda, adaptado por Ari Esteves com base no livro “Moral: a arte de viver”, de J. L. Lorda, Editora Quadrante, São Paulo, 2001.