1 – Os bens e os deveres. 2 – Tipos de deveres. 3 – Estabelecer prioridades ou ordem nos bens e deveres. 4 – A atuação da consciência. 5 – Formar a consciência para decidir bem. 6 – Não obrigar a agir contra a consciência. 7 – A criança tende a viver dominada pelo instinto.
1 – Os bens e os deveres
A conduta humana está condicionada por duas forças que se completam: a dos bens que nos atraem e a dos deveres que nos obrigam. Como estabelecer uma ordem ou hierarquia quando essas forças entram em conflito é o que veremos.
Bens ligados aos instintos: os instintos são predisposições que a natureza impõe aos animais e aos homens para garantir a sobrevivência: comer, beber, abrigar-se, defender-se, procriar. São bens primários e importantes, mas não é digno do homem manter sua vida centrada neles, pois tendo inteligência e vontade, o ser humano é livre e pode aspirar a bens mais altos. No homem, os bens ligados aos instintos não são totalmente seguros e a pessoa precisa orientá-los, servindo-se de sua inteligência, a fim de que não se desviem: comer demais, beber demais, usar o instinto sexual para ver pornografia na internet…
Bens ligados ao espírito: a pessoa humana tem inteligência para buscar outros bens, além dos associados aos instintos: ter uma profissão ou ofício; apreciar música, pintura, literatura; estudar línguas, organizar uma coleção interessante, fabricar instrumentos… Mas corre-se o risco de centrar a vida em algum desses bens de forma exagerada, o que torna necessário que a pessoa, por meio de sua consciência, faça um juízo prático para ter segurança sobre o que deve fazer em cada momento.
2 – Tipos de deveres
Os deveres nos chegam desde fora como chamadas que nos dirigem Deus, as pessoas e os seres que estão ao nosso redor: animais, plantas, meio ambiente, os instrumentos que utilizamos e que devem ser bem cuidados. O animal não tem inteligência e só sente a voz do instinto, que busca a conservação de sua vida. Porém, os seres humanos ouvem a voz dos outros seres: um homem não pode comer sossegado se tiver ao lado outro homem faminto, pois percebe que este tem necessidade de sua ajuda e se sente obrigado a isso. O leão não se importa se outro leão ao seu lado morre de fome e come toda a presa.
Existem três tipos de deveres: 1) Para com Deus, que sendo quem é deve ocupar o primeiro lugar na nossa vida: “Amar a Deus com todo o teu coração, com toda a tua mente, com toda a tua força”. 2) Para com os homens: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. No amor aos homens é colocada uma medida: “amar o próximo como a ti mesmo”. Essa pedagogia divina é muito inteligente, pois não conseguiríamos amar desse modo os bilhões de homens do mundo, mas devemos amar aqueles que estão ao nosso lado pelos laços de sangue, de amizade, de trabalho. 3) Para com a natureza ou meio ambiente, que devemos dominá-la, mas respeitá-la e preservá-la para todas as gerações de homens que ainda virão.
Tais deveres devem ser cumpridos mesmo a contragosto, não vendo neles apenas obrigações, mas bens a realizar. Ao colocar amor ou sentimento na realização de um dever, ganha-se gosto em cumpri-lo: um homem apaixonado pela sua família sente-se feliz em sacrificar-se por ela; uma mãe não atende seus filhos a contragosto, mas sorrindo; o professor e o artesão apaixonados pelo que fazem realizam suas funções com extraordinária energia.
3 – Estabelecer prioridades ou ordem nos bens e deveres
Sendo limitados tanto em nossas forças quanto no tempo que dispomos, não conseguimos estudar e ver futebol ao mesmo tempo. Por isso, temos que estabelecer prioridades, tendo presente que os bens nos atraem e os deveres, por vezes, fugimos deles por covardia ou preguiça. É necessário avaliar, pois os bens só são bens se desfrutados com medida, sejam eles primários ou da inteligência. Apenas os bens mais altos não exigem medida: não podemos ter medida no Amor a Deus, nem em relação às pessoas (um marido não pode ter medida no amor à sua esposa).
No início de cada dia é preciso fazer um exame de três minutos para identificar as prioridades. Essa avaliação se faz com a consciência, que é a capacidade da inteligência prática de avaliar qual o dever ou o bem a ser atendido em primeiro lugar. A consciência não decide, mas apenas avalia a situação e faz perceber o que deve ser feito. A decisão de fazer ou não o que a voz da consciência indica cabe à pessoa por meio de sua vontade.
4 – A atuação da consciência
Para avaliar os prós e os contras, a pessoa se serve da sua consciência, que trabalha com os dados da inteligência, e não deve permitir que seus sentimentos ou gostos interfiram na avaliação objetiva da realidade. Com a inteligência percebe-se determinada situação, a ser avaliada pela pessoa por meio de sua consciência, a fim de saber como agir. Por exemplo, é sábado e uma mãe se prepara para arrumar a casa. Seu filho, adolescente de onze anos, se apronta para jogar videogame, mas percebe que a mãe está cansada, pois trabalhou fora a semana inteira. Então, o filho avaliará a situação por meio de sua consciência, e chegará ao seguinte juízo: − Devo deixar o videogame de lado e ajudar a minha mãe. Por isso se costuma dizer “a voz da consciência” para indicar algo que ouvimos interiormente.
A consciência disse ao jovem o bem concreto que deveria fazer, mas a decisão de ajudar ou não a mãe caberá a ele, por meio de sua vontade. Esse juízo da consciência é o ato mais próprio do homem, que deve ser realizado e amado. O valor da vida de uma pessoa depende desse seguir a sua consciência. O juízo prático da consciência é realizado antes da ação e voltará depois para conferir se foi realizado ou não: se o jovem agiu em conformidade com sua consciência, a felicidade do dever cumprido o invadirá; se por egoísmo agiu em desacordo, terá ido contra a parte mais íntima e delicada do seu ser. Quando a ordem interior se destrói por uma ação contrária à consciência, fica um rastro de mal-estar chamado remorso. Quem habitualmente atua contra a própria consciência corrompe e apaga a luz que orienta as ações, e deixa de ser uma pessoa livre para se tornar escrava de seus vícios, que no caso do jovem seria o da preguiça. A maturidade de uma pessoa está em ouvir a voz dos deveres e cumpri-los.
5 – Formar a consciência para decidir bem
A formação da consciência é necessária para a pessoa decidir sem erro. Para isso, ela necessita que a inteligência forneça os dados corretos sobre a realidade. Um exemplo: certo pai cruzou a sala de estar e viu seu filho com uma bola nas mãos. Ao retornar, notou quebrado o vaso e pensou que fora o garoto o autor da façanha. Sentindo-se cobrado pela sua consciência, penalizou o filho ao determinar que ficaria sem a bola a semana toda. Depois soube pela esposa que foi o gato quem quebrou o vaso. Por isso, devemos ler, estudar os assuntos, ouvir as pessoas para decidir bem (o pai agiu imprudentemente ao não perguntar nada à esposa).
E necessário formar a consciência em valores perenes para dar a ela segurança em seus juízos: saber que o suborno é ação ruim, e que a justiça, ao dar a cada um o que lhe pertence, é ato bom, facilita os juízos da consciência. Quem foge de saber o que é certo ou errado para não se sentir obrigado pela sua consciência a mudar de atitude, age com imprudência e com graves consequências para si e para os demais.
6 – Não obrigar a agir contra a consciência
Cada um deve descobrir o modo correto de agir em cada caso. Desde fora se pode ajudar a perceber, mas não obrigar a fazer de modo diferente do que julgou: um pai não pode obrigar o filho a estudar, se este não o desejar. Mesmo que amarre o garoto na cadeira e coloque um livro diante dele, o filho não estudará se não quiser. Ou seja, ninguém pode decidir pelo outro, pois o querer é algo muito íntimo, pessoal; é uma força que deve vir de dentro. Mas o pai pode ensinar o filho a conhecer o certo e o errado, e como o correto deve ser querido e o errado rejeitado, a fim de ajudá-lo com razões profundas a decidir bem.
Quando a decisão de alguém o faz quebrar a ordem da realidade (ordem externa), então se pode intervir: se a pessoa decide suicidar-se ou roubar de quem possui, porque acha que isso é justo, podemos impedi-la de fazer tais besteiras, porque estará agindo contra a ordem objetiva da realidade e os valores que a permeiam.
É tarefa de cada pessoa avaliar o seu comportamento para se construir. Estamos a cada momento tomando decisões, e estas nos constroem ou destroem. Uma pessoa que não enfrenta seus deveres se torna imatura e caminha pela vida em bases falsas. Com o passar do tempo concluirá ter sido medíocre e enterrado muitos ideais porque se deixou levar pela preguiça ou outros vícios.
7 – A criança tende a viver dominada pelo instinto
O ser humano, por ser inteligente e livre, rompe o cerco limitado dos instintos (que busca apenas a sua satisfação) e respeita os seres não por interesse próprio, mas porque eles existem e têm as suas necessidades. A criança até aos cinco anos só pensa nela e não partilha, nem percebe a necessidade dos outros. Enquanto a inteligência dela não se desenvolve, vive dominada pelos instintos primários e cabe aos pais ajudá-la a vencer esse individualismo, animando-a a partilhar. Se é inevitável e desculpável o egoísmo da criança, já o de um adolescente ou jovem é sinal de imaturidade ao revelar desajuste de personalidade: um corpo crescido, mas uma inteligência com síndrome de infantilidade.
Texto produzido por Ari Esteves, com base no livro “Moral: a arte de viver”, de Juan Luís Lorda, Editora Quadrante, São Paulo, 2001. Fotografia de Osama B. Aamir.jpg
