Ser ou ter: a educação da personalidade

1 – Ser ou ter: a educação da personalidade. 2 – Identidade pessoal não se confunde com objetos que se possui. 3 – Não somos as nossas aptidões. 4 – Os dons que possuímos recebemos gratuitamente. 5 – A visão utilitarista reduz o conceito de pessoa. 6 – A dignidade humana está em nosso eu. 7 – A criança compreende sua própria dimensão espiritual. 8 – Enriquecer o eu

1 – Ser ou ter: a educação da personalidade

    Todos necessitamos formar a nossa personalidade, sem confundir o que somos com o que temos. Uma das necessidades mais profundas do homem é a de identidade: carecemos saber quem somos diante dos próprios olhos. No plano mais superficial, essa necessidade de ser, de identidade, tenta ser suprida pela necessidade de ter, pela posse de bens para mostrar uma imagem externa.

2 – Identidade pessoal não se confunde com objetos que se possui

    A tentativa de suprir a necessidade de ser pela de ter algo, traz decepções, pois sendo a felicidade humana de ordem espiritual, só nos plenificamos no amor. A mera posse de objetos buscada como um fim último instala o desconcerto e o vazio na alma, porque objetos não preenchem a ânsia de felicidade que todos trazemos no coração. Para preencher o vazio que uma posse deixa depois de usufruída, costuma-se ir atrás de outra até que uma pessoa percebe que é querida não pelo que é, mas pelo que possui. Surge, assim, a pior das solidões, como a de “Timon de Atenas”, conto de Shakespeare, ou “A morte de Ivan Ilitch”, de Tolstói, obras que vale a pena ler, pois transmitem valores a serem assumidos na vida.

3 – Não somos as nossas aptidões

    Outras vezes se confunde o ser com o ter determinadas capacidades intelectuais, competências ou aptidões. E quando se perde essas qualificações por velhice, acidente ou doença, a pessoa julga erradamente que perdeu o seu valor, porque confunde novamente o ser com o ter. É bom que percebamos isso para não instalar uma crise existencial diante de um fracasso ou incapacidade física ou mental.

    Não se pode identificar a pessoa pela soma de suas aptidões, pois a dignidade humana está acima de visões utilitaristas: somos pessoas cuja alma foi criada à imagem de Deus, e Ele nos ama por isso e não por nossas habilidades, que aliás Ele mesmo nos deu. A autoidentificação com o bem que podemos produzir conduz ao orgulho de julgar que as qualidades possuídas não as recebemos de dEle. Sentir-se capaz de fazer isso ou aquilo é bom, se a intenção é servir aos demais por amor, seja como alfaiate, cozinheiro, médico, sapateiro, advogado…

4 – Os dons que possuímos recebemos gratuitamente

    Para fugir da autossuficiência ou orgulho produzido por aquilo que somos capazes de realizar, é bom ter presente que recebemos gratuitamente de Deus as capacidades que pudemos desenvolver. Apropriar-se delas para a vangloria − glória vã − é um roubo sacrílego. Todos dependemos um do outro, já que não somos autossuficientes (nem os países o são): se tivéssemos que cozinhar ou produzir nossas roupas, muitos morreríamos de fome ou andaríamos andrajosos. Mas necessitamos dos demais não por aquilo que podem produzir, e que carecemos, mas porque temos um coração para amar e ver em cada pessoa um outro eu.

5 – A visão utilitarista reduz o conceito de pessoa

    A visão estreita e utilitarista que valoriza o ser humano pelas posses ou qualidades pessoais, coloca muitas barreiras aos pobres, aos indefesos e àqueles que têm alguma necessidade especial. Isso é péssimo porque leva a sociedade a valorizar apenas aos que são economicamente ativos, ou pelos bens que se possuem, mesmo que tenham sido adquiridos de forma imoral. 

6 – A dignidade humana está em nosso eu

    A dignidade do ser humano está acima do que cada possui ou sabe fazer. Nossa alma nos faz ter a consciência de que existe um eu que não se confunde com o pé, mãos, inteligência ou vontade. Esse eu espiritualizado nos torna imortais, livres e capazes de amar, dando unidade à nossa personalidade.

    A grande educadora Helena Lubienska, discípula de Maria Montessori, afirmava que a finalidade da educação é o estabelecimento, na nossa vida, da primazia do espírito. Ela consagrou todo o seu trabalho para definir às crianças o termo espírito. Diz Lubienska que se deve explicar às crianças que é o espírito quem comanda o nosso corpo, e que a alma é aquilo que pensa e aquilo que sente: o corpo é o que você vê, e o espírito é o que diz eu.

7 – A criança compreende sua própria dimensão espiritual

    Lubienska afirma ela ser primordial que a criança em pé sobre as próprias pernas não se identifique com o seu corpo, mas que tome consciência de que ao dizer eu, estará designando aquilo que governa o seu corpo e a sua alma, seus músculos e pensamentos. A vida da criança é uma conquista e a consciência de si é o seu triunfo: − “Professora, eu disse para as minhas pernas caminharem, e elas caminharam!”, afirmou uma criança à professora Lubienska, que a ouviu com grande emoção, pois era a confirmação de que as crianças são capazes de compreender a sua dimensão espiritual, e desenvolver uma personalidade consciente e responsável.

    É fundamental que a criança desde o começo considere a conquista do seu corpo como um trabalho pessoal, fruto dos esforços de sua alma racional comandada pelo seu eu. Agindo assim fará de seu corpo e de sua mente instrumentos dóceis ao seu espirito ou eu espiritualizado.

8 – Enriquecer o eu

    O nosso eu precisa ser enriquecido com o conhecimento profundo da fé (alicerce), com a instrução profissional, com a ilustração da cultura, com o estudo dos problemas que afetam a sociedade atual para colaborar nos assuntos relacionados à família, ao casamento, ao conceito de pessoa (o que é ser homem e ser mulher), à sexualidade, entre outros temas. E isso tem uma razão de ser: não podemos dar o que não somos e não podemos ensinar o que não sabemos.

    Como diz Maria Betânia na música Tocando em frente, de Almir Satter, “Cada um carrega o dom de ser capaz e de ser feliz”. A consciência de que Aquele que nos deu poucas ou muitas capacidades nos ama não por isso, mas porque somos seus filhos, feitos à Sua imagem e semelhança, nos dá o dom de ser capaz de amar e de viver e ser feliz.

Texto produzido por Ari Esteves, com base nas obras “A liberdade interior”, de Jacques Philippe, Edições Shalon, e “A educação do homem consciente”, de Helena Lubienska de Lenval”, Editora Kirion, Campinas, 2018.