1 – Níveis de motivações. 2 – Motivações Extrínsecas. 3 – Motivações Intrínsecas. 4 – Motivações transcendentes. 5 – Influência das motivações sobre os juízos. 6 – Dois níveis de motivações transcendentes. 7 – Quanto maior a entrega aos demais, maior a felicidade. 8 – Reforçar na família as motivações transcendentes
1 – Níveis de motivações
Podemos situar os motivos que levam as pessoas a tomar decisões em três níveis:
Motivações extrínsecas: materialistas = Ter (comer, vestir, possuir objetos)
Motivações intrínsecas: subjetivas = Saber (cultura, ciência, arte)
Motivações transcendentes: os outros = Dar (amizade, lealdade, amor, Deus)
2 – Motivações Extrínsecas
Ocorrem quando a decisão traz consigo o esforço para fazer frente às necessidades materiais justas e necessárias para a vida. Mas quando focadas na busca do supérfluo desviam-se do caminho reto. A estimulação que emprega o sistema de prêmios e castigos reforça as motivações extrínsecas ao valorizar as coisas materiais. O consumismo e o materialismo fomentam a ânsia de dar rédeas soltas ao prazer dos sentidos pelo mero fato de satisfazê-los, e se tornam o limite negativo desta motivação, que ao valorizar demasiadamente os aspectos materiais, faz a pessoa circunscrever sua vida e recursos na busca de bens ligados aos instintos: comer, beber, divertir-se… Quem vive nesse nível de vida tão primário desconhece as riquezas ligadas ao intelecto, e pouco tempo e ânimo terá para os bens do espírito e a ajuda aos demais.
3 – Motivações Intrínsecas
Acontecem essas motivações quando a satisfação está na própria realização de uma ação, sem necessidade de receber nada de fora: estudar porque há satisfação em aprender; provar para si que pode ser o melhor profissional em determinada área ou conhecedor profundo de um assunto; praticar um esporte ou hobby pelo agrado em realizá-lo. São ações que apoiam a boa autoestima. O limite negativo dessas motivações ocorre quando os interesses pessoais se posicionam acima das necessidades dos que estão ao redor, que deixam de ser atendidos seja no plano familiar, profissional ou social. O egoísmo e o orgulho são dois perigos que rondam as motivações intrínsecas.
4 – Motivações transcendentes
São as mais próprias dos seres humanos, e as que mais felicidade trazem, pois se assentam no amor. São motivações que se sobrepõem às inclinações instintivas ou sentimentais. Diretamente ligadas à vontade guiada pela razão ou inteligência, quando esta não age por interesses pessoais, conduzem a pessoa a atuar não por vantagens, mas para servir aos demais em suas carências. Realiza-se com elas o sentido religioso ou finalístico da própria vida ao colocar em prática os dons recebido de Deus para o bem dos outros.
São motivações transcendentes as ações que se praticam por amizade, lealdade, amor a Deus e às pessoas. A referência a Deus, fim último de todos os homens, torna essa motivação plenamente transcendente ao hierarquizar todos os motivos de atuação em função de agradar a vontade divina, que é a ação mais acertada da vida humana. O limite negativo da motivação transcendente ocorre ao se retirar Deus como fim último das ações, a fim de praticar atos de solidariedade para buscar o aplauso e o reconhecimento dos homens, em nítida atitude farisaica ou de falta de retidão de intenção.
5 – Influência das motivações sobre os juízos
O juízo sobre as ações dos outros pode ser influenciado pelo nível motivacional próprio. É importante ter em conta essa realidade na hora de educar as pessoas. Quem submerge ao forte influxo das motivações extrínsecas terá grande propensão para avaliar tudo em função do valor material ao qual reduz a sua vida: pensará que as pessoas sempre agem por esses motivos, e se alguém afirma que aprecia mais a sabedoria que o dinheiro, julgará que no fundo quer o conhecimento para ganhar mais dinheiro. Ao ver alguém doar seu tempo ou recursos a outro, pensará que o faz para receber algo em troca. Quem circunscreve sua vida ao nível materialista é incapaz de perceber que os outros podem agir movidos pela necessidade dos demais.
Só a pessoa equilibrada em cada um dos três níveis de motivação está em condição de julgar e entender as atividades dos outros.
6 – Dois níveis de motivações transcendentes
A motivação transcendente tem dois níveis: o primeiro é agir por amor aos outros; o segundo é agir por amor a Deus. Esses dois níveis não se excluem, mas se integram: amar aos demais aproxima de Deus; amar a Deus garante e protege o amor aos outros das imposições do egoísmo pessoal. Agir para agradar a Deus como motivação última é a melhor maneira de vencer as inclinações egoístas do próprio eu.
O comportamento moral se insere nas motivações transcendentes, porque a vontade procura realizar o bem de modo desinteressado. Neste terceiro nível motivacional estão as ações que na família e nas demais instituições reforçam o amor entre os seus membros: a ajuda mútua, a compreensão, o espírito de equipe, a confiança, a colaboração.
7 – Quanto maior a entrega aos demais, maior a felicidade
Não existe limite negativo nas ações retas que tenham por fim acudir às necessidades das outras pessoas. Quanto maior for a entrega aos demais, maior será a satisfação ou a felicidade pessoal. O limite dessa entrega se encontra em nós mesmos: não podemos oferecer o que não temos; não podemos ensinar o que não sabemos; não podemos dar o que não somos. Portanto, potencializa-se a entrega aos demais quando se cresce como pessoa livre e responsável, aproveitando bem o tempo para desenvolver as qualidades pessoais. Aquele que perde demasiado tempo consigo, seja curtindo demasiadamente músicas, games ou outros hobbies, nunca saberá como se é feliz ao dedicar tempo aos demais.
8 – Reforçar na família as motivações transcendentes
Hoje, para efeitos educativos, e uma vez que o ambiente e os meios de comunicação fundamentam suas intervenções nos níveis 1 e 2, se faz mais necessário reforçar na família as motivações transcendentes, não unicamente porque são as mais próprias dos seres racionais, mas porque com elas se combatem as influências dos modismos consumistas e o afã de gastar demasiado tempo consigo.
Os pais devem transmitir uma educação equilibrada ao auxiliar os filhos a identificarem suas motivações nos três níveis, e ajudá-los a compreender que a decisão deles será tanto mais humana quanto mais souberem agir por motivações que os levem a servir com suas qualidades ou dotes pessoais. Para educar na transcendência o exemplo dos pais é fundamental. Se na família há atitudes de solidariedade para com os mais carentes; se a aspiração magnânima de realizar grandes ideais de serviço aos demais está presente, os filhos se moverão dentro dessas motivações.
Texto adaptado por Ari Esteves com base na obra “Educar hoje, de Fernando Corominas, Editora Quadrante, São Paulo, 2017.
