Educar para a temperança

1 – Temperança é afirmação. É senhorio da conduta. 2 – Os frutos a temperança. 3 – As marcas e as modas valorizam o ter e não o ser. 4 – A temperança é iniciada na vida familiar. 5 – Sobriedade nos hobbies e divertimentos. 6 – Os pais não devem projetar-se nos filhos.

1 – Temperança é afirmação. É senhorio da conduta

     Utilizar os bens que possuímos ou o tempo que dispomos é facilitado pela virtude da temperança que, após a avaliação entre o razoável e o caprichoso, feito pela inteligência, dá forças para agir com medida em tudo: trabalho, descanso, música, esportes, refeições… O verdadeiro sentido dessa virtude não está na negação do que atrai ou é gostoso, mas na beleza ou afirmação que torna a pessoa dona de si mesma ao colocar ordem e equilíbrio na sua afetividade (sentimentos, emoções, paixões), afim de que esta não assuma o papel reitor das ações que cabe à inteligência.

     Há pessoas atadas aos seus objetos e rotinas, e quando não podem dispor de sua cadeira favorita, ouvir as notícias antes de sair de casa, ou porque não puderam fazer o plano esportivo para atender a família, se revelam mal-humoradas e egoístas. Quem diz “não” a si para vencer na luta interior contra paixões descentradas, afirma o “eu” e se torna livre dos laços sutis que tolhem a liberdade. Dizer “sim” a tudo que agrada relativiza a vida e transforma a pessoa em marionete de gostos e sentimentos. Quem vive de sensações pontuais ao julgar que isso é a felicidade, será um eterno insatisfeito que irá de um lado para outro em contínua fuga de si mesmo, pois os sentimentos, sendo mutantes, impedem de perseguir ideais valiosos, que normalmente custam esforço. Isso não significa que os sentimentos e os apetites sensitivos sejam maus, pois seria negar a própria natureza humana que se vale deles para realizar com garra e ânimo o bem que se tem em vista.

2 – Os frutos a temperança

     Quando os pais negam aos filhos algum capricho para educá-los no autodomínio ou na temperança, é comum que estes perguntem “por que não podem fazer tudo o que desejam”, “por que devem comer algo que não gostam”, ou “qual o motivo para não passar horas na internet”. De bate-pronto, e para sair do sufoco, a primeira resposta poderia ser “porque não podemos permitir essa perda de tempo”, ou “porque você ainda tem outros deveres a cumprir”, ou “para que você não se torne um garoto caprichoso que só faz o que gosta e não o que deve”. Porém, a verdadeira resposta seria mostrar que a temperança ou sobriedade é senhorio e afirmação − não negação − que facilitará o império da inteligência sobre as próprias ações, impedindo que o comando seja das paixões e instintos.

     A temperança deve ser proposta como um estilo de vida que exige a valentia de não reclamar do frio ou do calor, dos trabalhos ou incomodidades materiais, dos achaques ou indisposições da saúde, que devem ser resolvidas sem manhas ou choradeiras. A paz e a serenidade são frutos dessa virtude, pois ao colocar ordem no mundo das inclinações apetitivas, vive-se a alegria do dever cumprido, e não a posterior tristeza que traz a comodidade e a preguiça àquele que descumpriu suas obrigações.

     A temperança ou sobriedade não é um fardo, mas galhardia, elegância e soltura. Quem não se serve de todos canapés, acepipes e bebidas que os garçons servem continuamente nas festas, revela-se como alguém atraente e desprendido, não subjugado pelo instinto ou paixão de comer e beber.

3 – As marcas e as modas valorizam o ter e não o ser

     Há marcas e modas que propõem um estilo de vida para identificar umas pessoas e diferenciar outras. Fazem crer que possuir determinada marca assegura a inserção social e a aceitação em algum grupo: ou seja, não valorizam a pessoa pelo que é, mas pelo que tem. Tal estilo de vida atinge também os adolescentes, pois o consumo entre eles não está determinado pelo desejo de ter, como ocorre com as crianças, mas como maneira de expressar a personalidade ou manifestar a sua posição entre os colegas.

     O consumismo incita as pessoas a não se conformarem com o que possuem, instigando-as a adquirir o último lançamento do mercado; a trocar o computador, o carro e o celular a cada ano; afirma que a pessoa se torna especial se utilizar determinada marca de roupa esportiva ou social. Essas falsas apreciações são facilitadas pela ausência de senso crítico e pelo errado entendimento de que autoestima significa não negar-se nada, nem suportar o menor tipo de privação. Com tudo isso, a paixão de consumir ganha campo aberto para deitar e rolar.

4 – A temperança é iniciada na vida familiar

     A vida familiar é o grande campo de treinamento para a temperança ou sobriedade; é onde adultos e crianças aprendem a não fazer cara azeda para praticar essa virtude, pois associam-na à alegria de viver sem falsas ataduras e ao serviço aos demais. A família é também o âmbito onde crianças e adolescentes aprendem a economizar e a dispor de pouco dinheiro para gastar, pois só assim compreendem o esforço dos pais para obtê-lo. 

     Os filhos começam a viver a temperança ao verem os pais renunciarem com elegância ao que consideram caprichos. E como não basta o bom exemplo para educar, explicam aos filhos os motivos para não comer ou beber demais; para determinar os tempos de divertimentos; para ter moderação nas relações sociais, esporte e passeios; informam o quanto custam as coisas para que as crianças valorizem o que possuem, e  porque seus pais e avós não tiveram a oportunidade de tê-las; não dão várias camisas de times de futebol para evitar o supérfluo; fomentam a alegria de doar os brinquedos que não utilizam para crianças de creches, orfanatos ou comunidades pobres; fazem perceber que coleções de pares de tênis, roupas, brinquedos e objetos de esporte revelam falta de justiça diante dos mais necessitados. 

     As refeições são o primeiro campo para educar os filhos na virtude da temperança, pois o controle do apetite é caminho para o autodomínio e a edificação de uma personalidade sadia: utilizar os talheres com elegância, aguardar todos se servirem antes de comer, não abarrotar o prato com comida, comer sem reclamar do que não gostou, não deixar no prato algo que se serviu, sair da mesa não saturado e com um pouquinho de fome, não comer fora de hora…

5 – Sobriedade nos hobbies e divertimentos

     É essencial à sobriedade o uso harmonioso do tempo para atender a tudo: família, trabalho, deveres de cidadãos, amizades, trato com Deus. As crianças precisam ser ensinadas a distribuir o tempo entre as diversas atividades para não adquirirem vícios (ou hábitos ruins) que deformam o caráter: dormir fora de hora; dedicar tempo demais à televisão, videogames e computador; praticar hobbies em excesso; gastar demasiadas horas com trabalhos escolares em prejuízo da caridade ou amor aos demais (por exemplo, desatendendo os pais e os irmãos). 

     Educa-se na temperança em clima de liberdade, porque não se vive essa virtude como algo imposto pelos outros, mas como conduta desejada e amada. Também não se educa com uma atitude protetora que toma o lugar da vontade da criança, ou com modos autoritários que suprimem o crescimento da personalidade e impedem de assumir como próprios os valores das virtudes.

6 – Os pais não devem projetar-se nos filhos

     Quando os pais impõem a sua personalidade e impedem que os filhos se manifestem como são, transformam estes em pessoas sem caráter. Devem criar oportunidades para os filhos tomarem decisões de acordo com a idade, tendo presente as consequências dos seus atos: se escolheram ir ao shopping e lá chegando se arrependem e pedem para ir ao parque, não se vai e explica-se que essa foi a escolha deles).

     Certo garoto, caprichoso e enjoado, não quis comer o que lhe foi oferecido; e ao perceber que sua mãe não lhe faria um prato diferente, lançou a comida contra a parede, que ficou suja por vários meses a fim de que ele tivesse sempre presente as consequências da sua ação. Com isso, os pais uniram o respeito à liberdade do garoto com a necessária fortaleza para não transigir com o que era um simples capricho: queriam o melhor para o filho e tinham ideias claras sobre o que poderia ser um mal para ele. Substituir as crianças nas ações que elas conseguiriam fazer (vestir-se sozinha, servir-se na mesa, amarrar os sapatos, guardar suas roupas e brinquedos, ter encargos familiares, etc) é outro modo de impedir a autonomia delas.

Texto adaptado por Ari Esteves com base em lições de J. De la Veja, J.M. Martín e David Isaac.