1 – A função educativa da família. 2 – Ver a família como o principal negócio. 3 – Os defeitos progridem com a passagem do tempo. 4 – Por que exigir? 5 – Conquistar virtudes. 6 – Educação da vontade é o mais importante. 7 – Educação assertiva é a melhor. 8 – Mais algumas dicas para exigir com eficácia
1 – A função educativa da família
A família é a influência mais profunda e duradoura na vida de qualquer pessoa. Esse influxo será positivo ou negativo, dependendo da maior ou menor preparação dos pais como educadores. Não basta conviver com os filhos; é preciso ter a intenção de educar e estabelecer um projeto educativo que desenvolva as potencialidades de cada um e corrija seus defeitos.
A Pedagogia Familiar é a nova área de estudos acadêmicos (teóricos e práticos) que se insere na pedagogia diferencial, e que considera a educação da criança em função das diferenças de idade, sexo, temperamento, caráter, ambiente. Sendo a família “o melhor negócio dos pais”, existem hoje escolas de pais como há escolas para dirigentes empresariais.
A preocupação educativa deve dominar a vida dos pais, sem regatear esforços para isso. Hoje não basta educar meramente com o sentido comum, improvisações ou com a experiência pessoal, mas é necessário um preparo científico que leve a dar as respostas que os filhos necessitam. Atualmente as crianças crescem e são socializadas em ambiente muito distinto daquele em que foram educados seus pais, quando tinham a mesma idade. Dada a grande quantidade de informação e desinformação que atualmente recebem as crianças, o comportamento delas é diferente, e por isso necessitam de uma orientação mais assertiva.
Mesmo que não sejam profissionais da educação, os pais necessitam atuar com mentalidade profissional ao procurar instruir-se continuamente sobre temas de orientação familiar e educação dos filhos, seja por meio de palestras, lives, leitura diária (10 minutos) de artigos e livros, formação de grupos de estudo com casais amigos, entre outras iniciativas.
2 – Ver a família como o principal negócio
Preparar os filhos para a vida é o maior investimento que os genitores podem fazer, e a tarefa mais importante a abraçar. Assim, se adiantarão em detectar os problemas para aplicar as soluções pedagógicas mais acertadas.
Para que a hipertrofia do trabalho profissional não roube o tempo dedicado à preparação para educar bem os filhos, os pais devem ver a família como o seu melhor negócio e principal âmbito de realização pessoal. É triste o testemunho de homens e mulheres que se realizaram profissionalmente, mas arrependidos viram seus filhos se desencaminharem na vida devido à insuficiente educação do temperamento e caráter que proporcionaram a eles.
3 – Os defeitos progridem com a passagem do tempo
É falso o raciocínio de que os filhos aprenderão com o tempo, pois a lei do menor esforço afeta adultos e crianças, sendo um grave erro antropológico não ter presente esse princípio inato de desordem que todos carregamos dentro. Os defeitos progridem com a passagem do tempo, se não há esforço por erradicá-los. Ações reiteradas geram pré-disposições boas ou más (virtudes ou vícios). Se a criança de um ano e oito meses não é exigida para jogar no lixo sua fralda suja, terá para si que é tarefa exclusiva da mãe, que a estará educando erradamente ao não atribuir a ela esse encargo. Ao crescer mais alguns meses, a criança deverá ser estimulada com carinho, insistência e paciência, para guardar seus brinquedos, arrumar suas roupas, dormir e comer no horário. Logo, a partir dos dois anos, deverá ajudar nas tarefas do lar de acordo com suas capacidades. Se isso não acontecer, será um adolescente desordenado, preguiçoso e egoísta ao não partilhar seu t
4 – Por que exigir?
Não há educação sem autoridade, sem a diferença clara de papeis: educador e educando. As crianças necessitam de pais no papel de pais, não de cúmplices que cedem a tudo. Ao gerar, os pais contraem uma profunda confiança dos filhos, tão necessária para educá-los. Não ter medo de exigir porque é direito e dever dos pais e não mero capricho; e os filhos não fazem um favor ao obedecer, já que a obediência é condição para deixar-se educar.
O adulto busca instruir-se por iniciativa própria. Porém, a criança não sabe o que é necessário conhecer, nem o que é certo ou errado, e só busca o que agrada aos seus sentidos: ela não compreende por que não pode ver televisão o dia todo; por que tem que tomar banho, cumprir horários, ordenar seus brinquedos e roupas, agradecer e respeitar aos demais… Essa sabedoria pertence aos pais, que a transmite inicialmente exigindo, até que a criança interiorize o aprendizado e passa a agir por vontade própria.
Erro comum é exigir que os filhos sejam apenas bons estudantes. A formação acadêmica ou profissional é só um aspecto da educação integral da pessoa humana, que carece também da formação da vontade e dos sentimentos. Há alunos excelentes do ponto de vista escolar, mas não têm autodomínio e são vítimas de seus instintos, sentimentos, paixões e portadores de temperamento e caráter de difícil convivência, seja na vida familiar, profissional ou social.
As crianças não devem ser vistas apenas como necessitadas de ajuda e portadoras unicamente de direitos, mas possuidoras também de deveres filiais, fraternais e sociais. Devem contribuir para o bem-estar de todos na casa: enxugar banheiro, colocar pratos e talheres na mesa, ordenar seu quarto e objetos pessoais, varrer, ajudar os irmãos, ser educadas com os que não são da família…
Não esperar que a criança se torne ingovernável para iniciar o processo educativo: há muita sabedoria no dito “é melhor prevenir do que remediar”. Adolescentes que não estudam, não cumprem os encargos familiares, são desordenados, comilões e desobedientes, revelam que seus pais não souberam exigir deles na primeira infância. Erradicar defeitos cristalizados exige luta maior do que preveni-los.
Permitir que os filhos adiem as tarefas é autorizá-los a que sejam preguiçosos e irresponsáveis. Devem primeiro cumprir o que os pais pedem, e só depois ser autorizados a fazer o que querem: − Não poderá ir brincar enquanto não recolher os pratos e arrumar a mesa do jantar.
5 – Conquistar virtudes
Faz parte de um projeto educativo ajudar os filhos a conquistarem as virtudes contrárias aos defeitos que possuem. Para isso, os pais devem distinguir em sua educação o que é mais importante e o que não é: se a menina insistir em ir à festa com o vestido vermelho, não se desgastar para que vá com o verde, pois tanto faz! Porém, não é “tanto faz” que ela deixe de cumprir as tarefas que lhe foram atribuídas no lar, que seja mal-educada, que minta ou que ceda a caprichos (não comer salada).
Não ficar na periferia de cada filho, mas atentar às reações temperamentais: explosões de raivas nos jogos, preguiças e rebeldias para não cumprir as tarefas, desobediências, malcriações… Não achar engraçada a carinha enfezada, as birras, as teimosias e o jogar as coisas, pois isso incentiva a criança a repetir tais ações. Perceber que o filho sanguíneo é alegre, sociável e comunicativo, mas tende a prometer e não cumprir e ser indisciplinado. O filho melancólico é cauteloso, leal, idealista, sensível, mas seus defeitos podem orbitar no egoísmo, na suscetibilidade e no pessimismo. O filho colérico é enérgico, independente, otimista, líder, e seus defeitos costumam campear na impaciência, na insensibilidade e na agressividade com os demais. O fleumático é um filho calmo, cumpridor dos deveres, diplomata, mas pode ser desmotivado, indeciso e sem autoconfiança.
6 – Educação da vontade é o mais importante
Apenas saber o que deve ser feito é insuficiente, se a vontade não se determinar a realizar. Com a vontade fraca a criança deixará de cumprir suas obrigações. Para fortalecer a vontade não há outro tratamento senão exigir o cumprimento do horário de dormir e acordar, estar pontualmente nas refeições, servir-se sozinha e comer de tudo, não ir à geladeira fora de hora; ter horário para brincar, estudar, banhar-se e vestir-se por conta própria; ordenar os brinquedos e guardar as próprias roupas. Essas ações criam hábitos estáveis que fortalecem a vontade. O filho que se vê substituído nos esforços que deve realizar tem não somente a vontade enfraquecida, mas também o caráter. O paternalismo ou a superproteção ao evitar os esforços que a criança necessita empreender, impede-a de crescer em autonomia, e a habitua a que os outros sempre façam as coisas por ela.
Há pais que veem seus pequenos como eternas crianças, não preparando-os para a vida fora do lar, o que é uma atitude egoísta e injusta. Presenciei um menino de sete anos pedir ao professor de educação física para lhe amarrar os tênis, porque não sabia fazê-lo; e outro, com a mesma idade, aguardou no refeitório da escola que a mãe lhe cortasse o bife, colocasse o arroz e o feijão no prato − pasmem! −, misturando-os, enquanto ele com os braços estirados junto ao corpo fitava o ritual. Bem diz o ditado que “com churros não se faz alavanca”.
7 – Educação assertiva é a melhor
Ser assertivo é ser firme e direto sem constranger. É a capacidade de dizer de maneira clara e objetiva, sem delongas, o que deve ser dito. Assertividade é uma postura decidida, mas não agressiva, que harmoniza firmeza carinhosa com carinho firme (bigorna almofadada). Mensagens assertivas não deixam dúvidas: indicam o que fazer, quando fazer e as consequências se não o fizer. O tom de voz é firme, claro, porém calmo.
Frase errada, vaga: − “Venha para a mesa”. Frase assertiva: − “Você tem cinco minutos para guardar isso e vir para a mesa”. Frase errada: − “Quantas vezes tenho que pedir pra você arrumar o seu quarto?”. Frase assertiva: − “Arrume o seu quarto agora mesmo!” ou “Só sairá para brincar depois que tiver feito a lição de casa”.
8 – Mais algumas dicas para exigir com eficácia
Utilizar mensagens sem palavras
O modo de se expressar é tão importante quanto o de falar. A criança não dá importância a uma indicação da mãe feita de costas para ela enquanto lava um prato, como se falasse sozinha. Emoldurar as palavras com expressões corporais: olhar nos olhos da criança ao falar com ela transmite que os pais falam a sério; colocar suavemente as mãos sobre o ombro ou a cabeça dela também.
Não perca a calma diante de uma falta de respeito
Se um filho, irritado, diz: − “Não quero escutar você!”. O pai, calma e firmemente, deve dizer: − “Já havia dito que não permito que fale assim comigo. Escolheu ficar em seu quarto até que resolva a me falar com boas maneiras. Vá e fique lá até a hora do jantar!”.
O que fazer diante de uma mentira?
Dizer uma mentira não significa ter personalidade mentirosa ou falsa, mas apenas que houve uma falha, como tantas outras. Afirmar “Você é um mentiroso” não ajudará em nada, e fará a criança se sentir etiquetada com a pecha de falsa devido a sua falha e, humilhada, corre-se o risco que assuma a etiqueta. Se os pais se deixarem enganar e olhar nos olhos da criança para transmitir que confiam nela, fará com que o remorso lhe venha à tona ao trair a confiança daqueles que tanto a amam e acreditam nela.
Perguntas inseguras transmitem fraqueza dos pais
− “Quantas vezes tenho que dizer para terminar seus deveres antes de sair?”. Não esperar que o filho responda: − “Tem que dizer 10 vezes”. A reação assertiva seria: − “Você não sairá enquanto não terminar a lição”.
A criança quebrou o vidro da janela com a bola e o pai, irritado, disse: − “Você sabe quanto custa um vidro novo?”. Não aguardar que o filho diga: − “Pera aí que vou consultar o Google!”. A pergunta foi insegura ao não transmitir a verdadeira mensagem, que poderia ser: − “Seu comportamento irresponsável causou um prejuízo econômico à família. Por favor, recolha a sujeira e tire as medidas para o vidro novo, que você e eu compraremos com a sua mesada (ou com o dinheiro daquele game que você queria e já não ganhará).
Para aprofundar-se no tema “Carinho e firmeza cos os filhos – II”, leia os seguintes boletins em staging.ariesteves.com.br/, página Boletins: “Carinho e Firmeza com os filhos – I”, “Medidas disciplinares”, “Cinco Técnicas para manejar discussão com crianças” e “Reconhecer as boas condutas dos filhos”.
Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na obra “Carinho e firmeza com os filhos”, de Alexander Lyfor-Pike, Editora Quadrande, 2ª edição, 2015, São Paulo e “La realización personal en el ámbito familiar”, Gerardo Castillo, EUNSA, 2009, Navarra (Espanha).
