Como falar com seu filho adolescente

1 – Alguns adolescentes se recusam a dialogar. 2 – Saber escutar e ter sensibilidade. 3 – Eles questionam tudo. 4 – Dar respostas que esclareçam. 5 – Pais, descanse com a família e não isoladamente. 6 – Dicas práticas ao interagirem com o filho

1 – Alguns adolescentes se recusam a dialogar

     Há pais que veem a adolescência de seu filho como uma época complicada: resiste à autoridade, não consulta sobre questões que têm consequências reais (escola, amigos, festas, relação com pessoas de outro sexo…), tem dificuldades para controlar suas emoções e decide de modo impulsivo… Porém, o que mais reclamam os pais é que o filho, antes comunicativo, passou a ser silencioso, expressando-se por monossílabos e frases entrecortadas. O motivo desse mutismo pode ter muitas causas, sendo a que mais se justificam os adolescentes para agir assim é que ao desejar falar com seus pais, estes já começam com sermões, não prestam atenção no que eles dizem e os tratam como crianças.

     A conversa com o adolescente perde força se os pais falam incessantemente, fazem afirmações dogmáticas, não deixam falar, dão respostas que revelam não estar escutando, se contradizem, fazem generalizações sem sentido, utilizam um tom de voz e trejeitos julgadores e incriminatórios, traem a confiança dele ao expor uma confidência que fez.

     Pais interessados em saber o que ocorre na vida de seu filho − isso é justo e razoável − não devem utilizar perguntas diretas, que podem não ser tão eficazes quanto apenas se sentar e prosear descontraidamente, sem segundas intenções. Embora o filho seja um livro aberto com os amigos, pode ficar em silêncio quando a amizade com os pais está fria porque estes agem de modo pouco natural. Ele se abrirá com os pais quando não se sentir coagido a compartilhar sua intimidade. O adolescente é muito sensível ao modo como é tratado pelos pais: um tom de voz paternalista ou autoritário, mesmo sem intenção, lança por terra qualquer tentativa de manter uma conversa tranquila e fluida, pois ele aprecia ser tratado como um adulto, e não como criança.

2 – Saber escutar e ter sensibilidade

     Saber escutar exige o sacrifício de não começar de imediato a contradizer, discutir, julgar. Primeiro deixe seu filho falar sem interrompê-lo. Nunca o desqualifique e nem grite. Pense que haverá tempo para deixar as coisas mais claras e acertar os ponteiros.

     Tratar de assuntos que costumam terminar em discussões exige maior sensibilidade dos pais. Ao perceber que o filho está de mal humor, evitem abordar um tema cujo diálogo será estrepitoso, pois não chegarão a conclusão alguma e facilmente escaparão palavras que depois ambos se arrependerão. Se por vezes os filhos são rudes e os pais, ressentidos, respondem com a mesma moeda, estão apenas reagindo e não agindo. A falta de controle dos adolescentes exige que os pais saibam dominar a si próprios: lembrem-se que os adultos são os pais, e que o filho ainda não tem pleno governo sobre suas emoções, e não pensa com lógica ao estar nervoso. Contem até dez, respirem fundo antes de responder, e digam-lhe serenamente que deve respeitar a autoridade dos pais, e que a conversa ficará para outro momento. No dia seguinte, quando o filho estiver contente e de bom humor, será o momento de abordar aquele tema conflitivo para estabelecer as normas familiares: horário de estudo, saídas para festas, diminuir o uso de celulares e redes sociais, ajudar nos encargos familiares, dormir no horário, ou outro. Ele obedecerá mais facilmente diante de bons argumentos ditos de forma respeitosa.

     Os diálogos com os adolescentes não podem se restringir a ordens, a tratar de questões polêmicas como as oportunidades de saídas, uso de celulares, notas escolares. Os pais devem dar o primeiro passo para iniciar uma conversação grata. E o motivo pode ser um tema que interesse ao filho: o jogo de futebol que participou, o game preferido, as músicas que gosta, o ídolo que admira, o instrumento musical que tenta aprender… Esses temas concretos ajudarão a se aprofundar com naturalidade em outros mais abstratos, como os ideais que pretende alcançar − sua vocação profissional −, tendo por base suas qualidades ou habilidades pessoais. O objeto final de uma conversa com um adolescente não são fatos concretos, mas ideias.

     A conversação diária normalmente gira em torno de temas simples e de pouca importância: computador, televisão, esporte, festas… Falar de tudo um pouco já é alguma coisa, pois o diálogo fomenta a amizade entre pais e filhos. Porém, deixar de abordar temas mais profundos indica que o clima familiar é carente de objetivos ou valores mais altos. Então, é preciso provocar tais temas.

     Deem poucos conselhos – só os mais importantes – para não os aborrecer com muitas indicações, e indispô-los a não ouvi-los quando realmente necessitarem de uma orientação importante. Evitem criticar diretamente um amigo dele, mas abordem o tema do que é a verdadeira amizade utilizando uma boa história literária, e deixe-o concluir sozinho.

     Os pais precisam compreender o idioma do filho, e isso não significa que têm que utilizar o mesmo vocabulário, mas entender o que ele diz. Mais do que dar sermões ou aconselhar desde uma cátedra e em tom professoral, é preciso ouvir. Há pais que parecem estar em outro planeta e não sintonizam com seu filho, e assim desperdiçam momentos chaves para conhecer seu caráter e temperamento, suas preferências estéticas e culturais (músicas, livros, filmes, pinturas), os temas científicos que aprecia… Aproveitem os instantes juntos no carro e coloquem muita atenção ao que ele diz, pois comentários descontraídos revelam o que há no coração e abrem horizontes educativos.

     Os pais não podem ouvir apenas o que lhes interessa. Ainda que estejam cansados e o que filho diz não seja de grande importância, é preciso escutá-lo porque o tema tem relevância para ele, e porque essa é maneira de ir conhecendo o que ele pensa ou valoriza. Assim, o filho perceberá que os pais se interessam por tudo o que diz respeito a ele, e não apenas que tire boas notas, seja ordenado e obediente. Reparem que ele está aberto ao futuro e se sente cheio de possibilidades, mesmo que não saiba explicar como isso se efetivará. Valorizem seus sentimentos e não tentem minimizar suas decepções ao tirar importância daquilo que ele julga ser significativo, pois demonstraria desdém pelo que ele sente ou valoriza: perder uma partida de futebol, ter uma decepção com o melhor amigo, um fracasso escolar, um fora que recebeu da turma… Que ele perceba que vocês compreendem seus sentimentos, mas digam-lhe que precisa saber perdoar ou que será capaz de superar suas deficiências escolares porque é determinado e forte… Estejam atentos, pois um comentário inesperado sobre algo que ocorreu durante o dia é a maneira que ele tem de se comunicar. Ouçam e permanecerem abertos e interessados.

3 – Eles questionam tudo

     O adolescente julga as pessoas, inclusive seus pais, questiona tudo e por vezes interioriza seus sentimentos e os mantém só para si. Não é de se admirar que às vezes age como se fosse o centro do universo. Mas não se enganem: ele tem dificuldade de conhecer a si mesmo – autocrítica –, de desenvolver pensamentos abstratos e diagnosticar acertadamente o mundo que o rodeia. É preciso ajudá-lo a desenvolver a capacidade de raciocinar e pensar soluções, aproveitando as notícias, narrativas literárias, o tema de um filme. Trata-se de ir do fato concreto ao pensamento abstrato, sempre dentro de uma conversa serena que o leve a concluir por si. Ponham casos hipotéticos em que parece que o fim justifica os meios: alguém que “cola” para tirar boas notas; ou que para ser o melhor na profissão não ensina um colega para que este não o ultrapasse nela, e deixe-o falar.

     Considerem seu filho digno de confiança, pois demonstra que vocês acreditam na eficácia dele. Encontrem maneiras de mostrar que vocês confiam nele, pedindo favores e dando-lhe privilégios: ler para o irmão menor, cuidar de certas gestões familiares, ir ao banco, pagar contas… Façam-no saber que vocês têm fé nele, pois isso aumentará sua autoestima. Tratem-no como adulto ao participar dos projetos familiares e valorizem a opinião dele ao perguntar o ponto de vista que tem sobre determinado assunto, e de que forma enfrentaria tal situação. Saber que os pais confiam nele dará grande força moral. Levem-no a sério. Os pais tendem a elogiar os filhos mais novos, mas os adolescentes também precisam de alento para se sentirem considerados. Para o bom relacionamento com ele, sejam positivos e motivadores.

4 – Dar respostas que esclareçam

     Embora os pais definam as regras, devem estar preparados para explicá-las: ouvir a razão esclarecedora de que festas em vésperas de aulas não serão permitidas, tornará mais fácil aceitar a determinação. Pela falta de experiência, os adolescentes necessitam conhecer a razão pela qual uma ação é boa ou má: não basta dizer “porque não pode”. Saibam também que eles percebem as incoerências dos pais quando exigem que respeitem os mais velhos, mas eles não se sentem respeitados em suas opiniões; ou se em casa dizem que devem ser solidários, e depois são dissuadidos a não “perderem” tempo em ajudar um amigo fraco nas disciplinas escolares, ou porque não o deixam participar de alguma ONG que atende pessoas necessitadas, e porque percebem que os pais não são solidários, já que não dão esmolas nem ajudam famílias carentes. 

5 – Pais, descansem com a família e não isoladamente

          Faça seu filho conhecer os valores que a família herdou de seus antepassados, pois está ávido por conhecer a história de seus pais, avós, tios: seus juízos e convicções, seus erros e acertos, lutas e esperanças. Isso é mais importante que qualquer bem material, e ajudará na formação da personalidade dele. Narrar as atitudes de parentes que demonstraram retidão de caráter, honestidade, fé, fidelidade, incorruptibilidade, entre tantos outros valores, o encherá de um bom orgulho – emulação – que o levará a dar continuidade a essa tradição familiar.

     Muitos adolescentes afirmam que os pais ao chegarem do trabalho descansam de modo isolado. É preciso descansar em família e não cada em seu canto. Para isso, fomentar momentos de desconcentração onde todos estejam juntos, seja em torno da mesa durante uma refeição ou na sala de estar para bater um bom papo sobre os acontecimentos do dia, e não para tratar das notas escolares. Consigam que ao menos numa das refeições diárias estejam todos, pois ali se pode de conviver com naturalidade e ouvir os filhos falarem dos jogos que participaram, darem notícias de amigos, planos de descanso que gostariam de fazer com a família, etc. As crianças que se habituam a conversar com os pais sobre os acontecimentos triviais, também se abrirão quando surgirem assuntos mais difíceis. Importante: impeçam nesses momentos de intimidade familiar, a intromissão de celulares, redes sociais, televisão…

     Tendo por base um clima de confiança, busquem um momento na semana para estar a sós com cada filho, sem que isso pareça algo postiço ou fabricado propositadamente. Para que as conversas íntimas surjam naturalmente, coloquem-se no lugar dele e façam uma lista de temas que possam interessá-lo. Peçam a opinião dele sobre assuntos sérios e prestem atenção na resposta para que perceba que os pais confiam nele. Respeitem a intimidade dele; não tentem tirar confidências à base de interrogatórios. Não o force abrir o coração, talvez como se abra com um amigo íntimo, e conquistem vocês a posição desse amigo à base de carinho e confiança, e tratando-o como adulto, respeitando suas opiniões, valorizando seus pontos de vista. Não imponham nada, nem deem opiniões determinantes, cortantes: é melhor que a discreta ajuda de vocês o faça tirar conclusões.

     Falar não é a única maneira de se comunicar. Façam coisas juntos: consertos materiais na casa, colocar em ordem a garagem, limpar o quintal, cuidar do jardim, pintar paredes… O importante é que o adolescente saiba que pode estar perto do pai ou da mãe e compartilhar experiências positivas, sem ter que ouvir cobranças, perguntas intrusivas ou chamadas de atenção.

     O jantar de sábado deve ser aguardado com alegria por ser gostoso! Um plano divertido para se estar junto com o pai é combinar com o filho ou filha que o jantar de cada sábado será feito por ambos, e que a mãe descansará e terá uma surpresa: um sábado será cachorro-quente com seus acessórios, outro será de pizzas, outro de hamburguês e demais itens, outro de frios e diferentes pães, outro de queijos e vinho, etc. Ao pensar juntos, pai e filho ou filha, a amizade dos dois se fortalecerá.

6 – Dicas práticas ao interagirem com o filho

  • Reservem um tempo durante o dia ou ao anoitecer para ouvir seu filho (ou filha) falar sobre suas atividades, seus gostos. Tenham certeza de que ele ou ela perceberá se vocês escutam com interesse.
  • Lembrem-se de falar com seu filho (dialogar) e não falar para o seu filho (monologar).
  • Façam-lhe perguntas que não sejam respondidas apenas com “sim” ou “não”, a fim de favorecer a conversação.
  • Aproveitem os momentos juntos no carro para falar e ouvir seu filho (o noticiário do rádio não é o mais importante).
  • Estejam nas celebrações escolares ou esportivas em que ele participa; pratiquem um jogo com ele; façam-no saber que vocês estão sempre disponíveis para ele.
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Texto de Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base no artigo “Cómo hablar con un adolescente”, Revista Hacer Familia – octubre 1999; artigo “Consejos para comunicarse con su adolescente”, de Rachel Ehmke, do Child Mind Institute; e artigo “La comunicación y su hijo de 13 a 18 anõs”, de www.kidshealth.org. Imagem de Kindel Media.

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