1 – Fé, legado mais importantes para se transmitir aos filhos. 2 – A fé deve ser vivida no dia a dia. 3 – Dificuldade dos jovens para viver a fé. 4 – Sem virtudes os filhos não vivem a fé. 5 – Piedade sem doutrina não basta. 6 – Abrir horizontes ao mostrar a beleza da fé.
1 – Fé, legado mais importantes para se transmitir aos filhos
A fé é o legado mais importante que os pais podem transmitir aos filhos, porque uma esperança humana, puramente humana, carece de sentido já que tudo passa com a morte, e nem riquezas e nem as honrarias nos acompanharão ao sepulcro. A Esperança que alegra o coração é a que eleva-se até Deus porque apenas a fé e o Amor a Deus dão significado à existência humana. A transmissão da fé não é uma questão acessória, da qual depende só um pouco mais de felicidade, mas trata-se de algo radical que afeta o resultado de toda a vida, à qual passa a iluminar.
Nenhuma comunidade humana está tão bem-dotada como a família para facilitar que a fé enraíze nos corações das crianças, a fim de que elas coloquem seus primeiros afetos em Deus, em Jesus Cristo e em Nossa Senhora, à imitação de seus pais, se estes forem sinceramente piedosos. É na própria família que se forja o caráter, a personalidade, criam-se os bons costumes, e onde se aprende a conviver com Deus
A família cristã transmite a beleza da fé e do amor a Cristo ao viver em harmonia, ao saber sorrir e esquecer as próprias preocupações para atender aos demais, “a não dar importância a pequenos atritos que o egoísmo poderia converter em montanhas; a depositar um amor grande nos pequenos serviços de que se compõe a convivência diária” (É Cristo que passa, n. 23).
Transmitir a vida de Jesus Cristo aos filhos é o melhor alimento que se pode dar a eles, que desde pequenos têm necessidade de Deus e capacidade de perceber a sua grandeza. As crianças sabem apreciar o valor da oração e do que é sagrado, e percebem a diferença entre o bem e o mal. Fomentar nos filhos a unidade entre o que se crê e o que se vive é a meta a ser conseguida, pois uma mensagem de salvação afeta toda a pessoa, ao enraizar no entendimento e no coração. Para isso, está em jogo a amizade dos filhos com Jesus Cristo, tarefa que merece os melhores esforços dos pais para tornar acessível a doutrina cristã aos filhos.
2 – A fé deve ser vivida no dia a dia
Para transmitir a fé é importante que a família tenha vida de piedade, que é de trato simples e filial com Deus: abençoar as refeições, rezar com os filhos pequenos as orações da manhã e da noite, ensinar-lhes a recorrer aos Anjos da Guarda, a ter carinho com Nossa Senhora, a dar importância à participação na Santa Missa, mesmo durante as viagens, ensinar de forma natural a defender e a transmitir a fé e o amor a Jesus. Esses são modos concretos de favorecer a virtude da piedade (trato filial com Deus) nas crianças.
O “Elemento fundamental e insubstituível da educação para a oração é o exemplo concreto, o testemunho vivo dos pais: só rezando em conjunto com os filhos, o pai e a mãe […] entram na profundidade do coração dos filhos, deixando marcas que os acontecimentos futuros da vida não conseguirão fazer desaparecer”. (Exhort. Apost. Familiaris consortio, n.60).
Se os pais pretendem mostrar como a vida de Cristo muda a existência do homem, é lógico que os filhos notem que, em primeiro lugar, tenha mudado a vida de seus próprios pais. Ser bons transmissores da fé em Jesus Cristo implica manifestar com a própria vida a adesão a Ele, e lutar cada dia por ser melhores, pois os filhos, ao verem esse esforço, procurarão imitar os pais.
A educação da fé não é um mero ensinamento, mas a transmissão de uma mensagem de vida. Ainda que a palavra de Deus seja eficaz em si mesma, é mais convincente quando se vê encarnada na vida dos pais, e isso é importante para as crianças. Os pais têm tudo a seu favor para comunicar a fé aos filhos. Além da palavra, devem ser piedosos, coerentes, e dar testemunho pessoal a todo o momento, com naturalidade, sem procurar dar lições constantemente. As crianças são perspicazes, mesmo que pareçam ingênuas, e percebem como seus pais vivem a fé. É preciso pensar no modo mais pedagógico de transmitir a fé a elas, e preparar-se para ser bons educadores. Porém, o decisivo é o empenho com que os pais colocam em prática em suas vidas os princípios da fé.
3 – Dificuldade dos jovens para viver a fé
Muitos jovens afrouxam na fé que receberam ao sofrer algum tipo de prova: a pressão de um ambiente paganizado, amigos que ridicularizam as convicções religiosas, um professor que dá as “lições” numa perspectiva ateia ou que põe Deus entre parêntesis. Há jovens que foram educados na piedade, mas sucumbiram diante de um ambiente para o qual não estavam preparados, porque careciam de profundidade doutrinal e educação nas virtudes. É preciso conhecer os diferentes ambientes que influenciam na educação dos filhos para ajudá-los a superar as dificuldades.
As crises de fé ganham força quando os filhos deixam de comentar suas dificuldades com os pais. É importante criar um clima de confiança e estar sempre disponíveis a eles, pois, por mais indóceis que pareçam, desejam sempre essa aproximação. Falar com os filhos é o que há de mais grato aos pais, sendo também a via mais direta para estabelecer uma profunda amizade: quando há confiança, eles falam de suas inquietações e sentimentos. Embora haja idades mais difíceis do que outras para conseguir essa proximidade, os pais não devem afrouxar no entusiasmo por “chegarem a ser amigos dos filhos; amigos a quem se confiam as inquietações, a quem se consulta sobre os problemas, de quem se espera uma ajuda eficaz e amável” (Cristo que passa, n. 27).
Nesse ambiente de amizade que deve ser a família, os filhos devem ouvir falar de Deus de um modo agradável e atrativo. Mas isso requer que os pais encontrem um tempo de qualidade para estar com os filhos, e estes devem perceber que suas coisas interessam aos pais mais do que outras ocupações. Nenhuma circunstância pode levar a omitir ou atrasar esse diálogo: desligar a TV ou o computador quando a menina ou o garoto pretende dizer algo; reduzir a duração do trabalho profissional para chegar cedo em casa, e facilitar a conversa com os filhos; encontrar formas de entretenimento que tornem agradável a vida familiar, etc.
Os filhos, embora vivam no mesmo lar, possuem interesses e sensibilidades diferentes, e essas variedades ao invés de serem obstáculos, ampliam o horizonte educativo. Conhecer o temperamento e o caráter de cada filho leva a educá-lo de forma personalizada, sem estereótipos. Mesmo sendo o caminho da fé muito pessoal − pois faz referência ao mais íntimo da pessoa (sua relação com Deus) −, o papel da instrução é ajudar a percorrê-lo. Transmitir a fé não é questão de estratégia, mas de facilitar que cada um queira melhorar ao descobrir o desígnio de Deus para a sua vida.
4 – Sem virtudes os filhos não vivem a fé
Na transmissão da fé não basta a piedade, mas é relevante a educação nas virtudes para que os filhos não cedam diante do mais fácil, e deixem de seguir a razão iluminada pela fé. Formar nas virtudes requer salientar a importância da exigência pessoal, do empenho no trabalho e estudo, no espírito de serviço aos demais, na temperança, pois esses bens estão acima dos desejos materiais e facilitam a compreensão das realidades do espírito.
Educar os filhos com pouca exigência, nunca lhes dizer “não” e procurar satisfazer todos os seus desejos, é caminho que lhes fechará as portas para a elevação do espírito. Essa condescendência nasce de um falso carinho, ou do querer livrar-se do esforço de pôr limites aos apetites e ensiná-los a obedecer e a esperar. E como a dinâmica do consumismo é insaciável, cair nesse erro leva os filhos a ter um estilo de vida caprichoso e volúvel, introduzindo-os numa espiral negativa de busca de comodidades, de falta de virtudes humanas e desinteresse pelos outros. Saciar todos os caprichos é colocar sobre a vida espiritual uma carga pesada, incapacitando a pessoa para a doação e o compromisso com Deus e aos demais.
5 – Piedade sem doutrina não basta
A transmissão da fé aos filhos é uma tarefa que exige empenho. Quando se busca educar na fé, “não se deve separar a semente da doutrina da semente da piedade” (Forja, n. 918). É preciso unir o conhecimento com a virtude, a inteligência com os afetos. Não bastam algumas práticas de piedade com um mero verniz de doutrina: é necessário que a doutrina se faça vida ao se transformar em determinações no dia a dia, em compromisso que leve amar a Cristo e aos demais.
Piedade sem doutrina torna os filhos vulneráveis diante do combate intelectual que sofrerão ao longo da vida. Por isso, necessitam de uma formação apologética profunda e ao mesmo tempo prática, e que respeite as peculiaridades próprias de cada idade. Ao tratar de um livro ou de atualidades poderá ser boa ocasião para ilustrar o tema com a doutrina da fé. Ler o Catecismo ou o Compêndio da Doutrina Cristã com as crianças ajudará a que compreendam a importância do estudo da doutrina.
6 – Abrir horizontes ao mostrar a beleza da fé
Conseguir que os filhos interiorizem a fé requer aproveitar as diferentes situações para aconselhá-los com razões humanas e sobrenaturais. Abrir horizontes é mostrar aos filhos a beleza da vida cristã e das virtudes, sem limitar-se a dizer o que é proibido ou obrigatório, pois isso daria a falsa imagem de que a fé é uma normativa que limita, e não que liberta o coração de liames que o escravizam e eleva a alma até as verdadeiras alegrias. Na educação da fé deve-se ter muito presente que os Mandamentos de Deus conduzem a pessoa à melhor expressão de si mesma, tal como seguir o manual de instruções do carro o faz render melhor, os Mandamentos são o manual para melhor utilização dessa união de alma e corpo que são os seres humanos.
Seria um erro associar “motivos sobrenaturais” ao cumprimento de encargos, tarefas ou “obrigações” que sejam custosas para as crianças. Não é bom abusar do recurso de pedir à criança que tome a sopa ou coma salada como um sacrifício a Deus: dependendo de sua vida de piedade e de sua idade pode ser conveniente, mas é melhor procurar outros motivos que a estimule. Isso porque Deus não pode ser o “antagonista”, mas um Pai que ama cada um de seus filhos acima de todas as coisas, e que Cristo é o bom Mestre, o Amigo que nunca engana.
Relacionar a fé com razões que os filhos compreendam e valorizam revela que a mensagem cristã é racional e bela: amar a Deus em primeiro lugar coloca ordem nos demais amores, faz dirigir a vida ao esquecimento próprio (ideal que atrai aos jovens), e permite compreender as razões pelas quais se deve viver a castidade, a temperança na comida e uso dos games, a laboriosidade, o desprendimento dos bens, a prudência no uso da internet.
Educar na fé é pôr os meios para que os filhos convertam sua existência inteira em um ato de adoração a Deus: “a criatura sem o Criador desaparece” (Const. past.Gaudium et spes, n. 36). Na adoração encontra-se o verdadeiro fundamento da maturidade pessoal: se não se adora a Deus, adora-se a sim mesmo por meio de desejos de poder, prazer, riquezas, ciência, beleza…
Para adorar, as crianças devem descobrir a figura de Jesus Cristo ao serem estimuladas desde pequenas a falar pessoalmente com Ele (isso se chama oração). Aproveitar fatos cotidianos para contar a elas sobre Cristo e seus amigos e penetrar com elas nas cenas do Evangelho. Estimular a piedade nas crianças significa facilitar que elas ponham o coração em Jesus Cristo. Explicar a elas sobre os acontecimentos bons ou maus, e que escutem a voz da própria consciência, na qual o próprio Deus revela sua vontade, e procurar pôr em prática o que ouviu. As crianças adquirem tais hábitos quase por osmose, vendo como seus pais se relacionam com o Senhor, e como O têm presente em seu dia a dia. A fé, mais que a transmissão de um conteúdo, é seguir uma Pessoa que aceitamos sem reservas e a quem nos confiamos.
Os bons pais desejam que seus filhos alcancem a plenitude humana e espiritual, sendo felizes em todos os aspectos da existência: profissional, cultural, afetivo e espiritual. O melhor serviço que se pode prestar a uma pessoa – a um filho de modo especial – é apoiá-la para que responda plenamente à sua vocação cristã, e descubra o que Deus espera dela. Porque não se trata de uma questão acessória, da qual depende só um pouco mais de felicidade, mas de algo radical que afeta o resultado de toda a vida.
Sugestão de leitura: “A fé explicada”, de Léo J. Trese, www.quadrante.com.br
Texto extraído e adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base nos artigos "Transmitir la fé", de Alfonso Aguiló, em www.almudi.org. Imagem de Cottonbro Studio.
