Maturidade psicológica

1 – Harmonia entre a cabeça e o coração. 2 – Os fenômenos psíquicos podem alterar o funcionamento do corpo. 3 – O desconhecimento da interioridade pessoal. 4 – A importância exagerada do êxito social. 5 – Aperfeiçoar as capacidades superiores. 6 – Para dominar a afetividade. 7 – As crianças e a manifestação dos sentimentos.

1 – Harmonia entre a cabeça e o coração

     A maturidade psicológica revela-se no comportamento harmonioso entre cabeça (razão e vontade) e coração (afetividade). Esse equilíbrio é hierárquico porque uma das partes (inteligência e vontade) está acima da outra (afetividade) ao ter capacidade para analisar, decidir e executar. Essa superioridade é a que distingue o homem dos demais animais. O fracasso em obter esse equilíbrio hierárquico é a base da imaturidade psicológica.
     No ser humano se integram elementos biológicos, psicológicos e espirituais, que precisam de tempo para alcançar a plenitude. No desenvolvimento fisiológico ou corporal, as forças mais importantes são determinadas pela genética (aspectos primários), enquanto as influências do ambiente são secundárias (aspectos secundários). Porém, no desenvolvimento psicológico o aspecto secundário é o temperamento, de base genética, e o aspecto primário, que são as forças do ambiente e da educação, é que atua fortemente na formação da personalidade.

2 – Os fenômenos psíquicos podem alterar o funcionamento do corpo

     Cada órgão do corpo humano se integra a um sistema (digestivo, cardiovascular, respiratório…). No plano psicológico, a mente, que se comunica com o corpo por meio do sistema nervoso, é formada por várias faculdades (vontade, inteligência, memória, imaginação, percepção e afetividade) que se inter-relacionam. Os estados psíquicos podem alterar o funcionamento do corpo, e o funcionamento do corpo também pode alterar os estados psíquicos. Os fenômenos psíquicos ativam o sistema nervoso e estes produzem modificações no funcionamento do corpo (sudorese, taquicardia, palidez, enrubescimento, tremor…); e as funções fisiológicas que alteram as substâncias químicas do corpo podem modificar o funcionamento do sistema psíquico (depressão, desânimo…).

     Atualmente, devido ao predomínio de correntes hedonistas e materialistas, há forte influência dos aspectos corporais sobre o psicológico, o que explica a importância que se dá à forma física e às sensações corporais para o bem-estar psicológico (inclusive ao vício das drogas). Supõe-se que a felicidade humana consiste em sentir-se bem fisicamente e experimentar prazer. Ao se considerar o corpo como protagonista principal da felicidade, valoriza-se a beleza externa, a saúde corporal, a plenitude física obtida com o esporte. Porém, a hipertrofia ou aumento de um sistema atrofia outro. A valorização ou agigantamento do corporal fez descuidar o saudável desenvolvimento psicológico, e isso se nota no aumento de pessoas imaturas, propensas a enfermidades mentais e a ter mais conflitos sociais que dificultam a convivência pacífica no âmbito familiar, laboral e social.

3 – O desconhecimento da interioridade pessoal

     À medida em que cresce o número de indivíduos obcecados pela perfeição corporal, descuida-se o desenvolvimento da interioridade pessoal, e esse desequilíbrio faz aumentar o número dos que carecem de dois elementos importantes da felicidade: 1) a capacidade de entrar em si mesmo (introspecção) para autoconhecer-se e avaliar o equilíbrio e desequilíbrio interiores; 2) a capacidade de dominar as funções psíquicas (percepção, imaginação, memória, pensamento e afetividade), cuja inabilidade leva à busca de estímulos externos para os sentidos, sensações e afetos.
     Há pessoas que sabem definir o quer vestir, comer, como se divertir, que esporte praticar… Porém, não sabem refletir sobre as características psicológicas que possui ou que gostaria de desenvolver, a fim de fomentar uma personalidade rica, sadia. Sabem avaliar a beleza corporal externa, que é facilmente modificável com uma boa roupa, penteado e perfume, mas não têm a mesma clareza sobre em que consiste a beleza interior e o que significa ser uma pessoa de caráter, autêntica (não falsa), com autodomínio, reta (não subornável), entre outras qualidades, pois tais aspectos ao valerem muito mais também exigem maior esforço para se conseguir.

     Nota-se hoje um empenho maior em ensinar conhecimentos úteis para triunfar na vida social, e pouco se faz na transmissão de aprendizados necessários para crescer nos aspectos interiores para ser feliz. Parece não haver consciência de que o êxito social tem relação direta com a maturidade psicológica, e que esta não é mero fruto da passagem do tempo ou da recepção passiva das influências do ambiente, mas é consequência do esforço, da luta pessoal em forjar o próprio caráter. Chegar à maturidade psicológica é tarefa que se inicia nos anos de infância e juventude; e será mais hercúlea e até impossível de se conseguir na idade adulta, tal como ocorre com certos aprendizados que se não forem alcançados na infância tornam-se difíceis ou até impossíveis de se atingir na idade adulta (andar de bicicleta ou patins, aprender matemática…).

4 – A importância exagerada do êxito social

     A sociedade atual exagera a importância do êxito exterior e subestima a do êxito nas qualidades interiores como caminho para a felicidade. Por falta de profundidade interior, há quem necessite da aprovação externa para ser feliz porque se convenceu de que só o será quando for socialmente reconhecido seja pela fama, poder ou dinheiro. Essa atitude se reflete também na educação das crianças ao se dar especial importância a que tirem boas notas, saibam vários idiomas e tenham professores particulares para reforço escolar. Com isso, se convive pouco com os filhos e não se percebe suas carências caracterológicas e temperamentais para serem corrigidas, mas não deixam de ser animados a escolher determinada profissão porque se pensa que serão felizes se ganharem muito dinheiro. Trata-se de uma visão estreita, já que no futuro eles poderão ter uma gorda conta bancária, mas se não tiverem qualidades interiores (maturidade psicológica), não serão estáveis e profundos nas relações familiares, profissionais e sociais, e essas dificuldades de convivência os tornarão infelizes.

     Os programas educativos atuais não transmitem às criança e aos jovens atitudes positivas frente às situações normais da vida, com o fim de solucionar os problemas e não fugir deles: ou seja, para que saibam superar o medo ao sacrifício por alcançar um ideal, para vencer os estados de timidez e insegurança, para que não sejam egoístas, hipersensíveis e fracos de caráter. Por isso, muitos adolescentes são emocionalmente instáveis, influenciáveis (manipuláveis), dependentes de que façam as coisas por eles, impulsivos, inconstantes, características da imaturidade que atuam sobre o comportamento e desencadeiam modos superficiais de ser: imaturos, acomodados, frívolos…

5 – Aperfeiçoar as capacidades superiores

     Saber como funcionamos por dentro é necessário, pois temos que conviver conosco a vida inteira. Além disso, para se acertar no modo de tratar os outros (esposa, filhos, amigos, colegas de trabalho) é necessário primeiramente saber como lidar consigo, a fim de limar as arestas e potencializar as qualidades para melhor servir aos demais.

     Cada ação humana livre produz efeito no mundo exterior e deixa marca no mundo interior do agente, formando o caráter: se a ação é boa faz melhorar o mundo e quem a pratica; se é má prejudica a ambos. Obter o máximo aperfeiçoamento das capacidades superiores e harmonizá-las com a afetividade equivale a obter maturidade psicológica pessoal. É importante ter uma educação que mostre, por um lado, o que é bom e o que mal; e por outro, a necessidade de pensar sobre qual é a melhor atitude a adotar e a melhor maneira de agir.

     O pensamento é a função pela qual a inteligência humana chega à verdade, o que faz do homem um ser racional, que é a primeira e essencial qualidade da natureza humana. A vontade deve estar estreitamente unida à inteligência, pois a força da vontade ao querer o bem impulsiona o pensamento para realizar retamente seus julgamentos: a vontade é a capacidade humana que faz o homem ser livre, o que é outra de suas qualidades essenciais.

6 – Para dominar a afetividade

     A educação da maturidade psicológica também foi chamada de educação da afetividade, porque desenvolve o hábito de controlar os sentimentos, emoções e paixões por meio da vontade. A afetividade descontrolada impede a maturidade psicológica ao afetar a razão e a vontade. Motivada pelos estímulos biológicos e do ambiente, a afetividade move o sujeito a agir de imediato para se sentir fisicamente bem e evitar sentir-se mal, mesmo que seu comportamento não seja racional, e os meios para alcançá-lo sejam julgados pela razão como nocivos à pessoa e rejeitados pela vontade. A pessoa madura é a que conseguiu harmonia entre cabeça e coração, e faz da afetividade a melhor aliada da razão e da vontade ao levá-la na mesma direção destas.

     Educar a afetividade não supõe anular essa é importante faculdade psicológica, pois sem ela a vida perderia seu atrativo, como ocorre com as pessoas deprimidas, nas quais a afetividade está muito encolhida ou é negativa. Tampouco significa diminuir a sua importância ao fomentar uma visão desfavorável sobre ela. A afetividade é um motor potente do homem, e muitas vezes mais pujante que a vontade. O perigo ocorre quando a afetividade e a vontade buscam objetivos distintos, e o conflito entre ambas faz gerar o sentimento de angústia que leva a enfermidades psíquicas. Outro perigo é permitir que a afetividade exerça habitualmente o comando sobre a razão e a vontade, como ocorre nas crianças e nas pessoas imaturas. Quando se consegue que os dois motores do funcionamento humano (razão e afetos) atuem em uníssono, a capacidade de realizar tarefas importantes se multiplica e a situação interna da pessoa é de segurança e alegria, evidenciando-se nisso sua maturidade psicológica.

     A tarefa de harmonizar a cabeça (inteligência e vontade) e o coração (sentimentos, emoções, paixões) é uma obra de arte psicológica que se parece com a de dominar um instrumento musical, pois ambas requerem horas de prática durante toda a vida. No âmbito musical surgem dois elementos: o instrumento e o artista que deve conhecer e dominar sua técnica. No caso do funcionamento psicológico, um dos elementos é a afetividade com sua multiforme variedade de afetos, e o outro é a razão e a vontade, que funcionam unidas e que devem conhecer e dominar a afetividade.

     Para ter domínio afetivo é preciso que cada indivíduo aprenda a entrar em si (introspecção) a fim de analisar se o sentimento, positivo ou negativo, está de acordo com a razão. Essa tarefa requer tempo e prática, como é exigido para se conhecer bem uma pessoa. A razão é encarregada de avaliar a proporção e a adequação do sentimento em relação ao estímulo que o desencadeou, ou a influência que ele exerce sobre as demais funções psíquicas, em especial a memória, imaginação, a percepção de si e do mundo, e a influência desse afeto sobre a fisiologia corporal (conduta externa verbal, gestual e motora).

     Depois de fazer esses julgamentos, e em função do seu resultado, a pessoa, por meio do querer da vontade, atua para dirigir os afetos e conseguir que sejam proporcionais e adequados aos estímulos que os desencadearam, e para permitir ou impedir sua influência sobre as demais funções psíquicas, ou sobre o funcionamento corporal e o da conduta externa. Conseguir controlar a afetividade, tal como qualquer aprendizagem, requer tempo, prática e paciência.

7 – As crianças e a manifestação dos sentimentos

     Os pais devem ajudar a criança a realizar juízos sobre seus afetos, animando-a a perceber se o que sente está em proporção com a realidade: perder uma partida de futebol não é o fim do mundo, ou se o seu sentimento de medo está adequado ou não (há medos bobos), ou para que não seja indiferente aos sofrimentos dos demais. Com a ajuda dos pais e educadores a criança começa a ter harmonia hierárquica entre razão e coração como sinal de maturidade psicológica proporcional à idade que possui. No próximo boletim abordaremos a educação para a maturidade psicológica.

Texto adaptado por Ari Esteves da obra “Maturidade psicológica e felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009. Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).