- Maturidade psicológica. 2 – Para conhecer-se melhor. 3 – Ajudar as crianças no amadurecimento psicológico. 4 – Motivar a vontade. 5 – Educar a afetividade. 6 – Quem educa deve ter maturidade psicológica.
1 – Maturidade psicológica
A maturidade psicológica está, em primeiro lugar, em obter o máximo desenvolvimento das faculdades psíquicas (inteligência, vontade, afetividade, tendências, imaginação, memória, percepção). Em segundo lugar, consiste em obter ordem ou equilíbrio entre todas essas faculdades (harmonia da alma). Essa harmonia se parece com a da orquestra, onde os músicos tocam em sintonia com as ordens do regente. No caso do ser humano, o regente é a mente (inteligência e vontade): a inteligência procura a verdade de cada ação, e a vontade decide executar e controlar as forças sensíveis (a afetividade) para que se movam na mesma direção determinada pela inteligência e querida pela vontade.
As ações internas são os atos do pensamento, da imaginação, da memória, da percepção e da afetividade que, juntamente com a vontade, constituem as funções psíquicas humanas que se desenvolvem com o uso, e quanto mais desenvolvidas, mais a pessoa se torna dona de si ao deixar-se dirigir pela razão e pela vontade. Em contrapartida, quando são pessoas dirigidas principalmente pela afetividade passam a produzir alterações psicológicas ou conflitos sociais, pois os sentimentos são instáveis e cambiantes.
As faculdades psíquicas buscam o que as satisfaz (comer, beber, dormir, descansar, desfrutar, amar, sentir, entender). Para haver harmonia a busca deve ser hierárquica, onde as faculdades superiores (inteligência e vontade) controlam as inferiores (sentimentos, emoções, paixões), e os objetos superiores (amar, entender, querer) têm prioridade sobre as inferiores (comer, beber, dormir, sentir, descansar, imaginar, relembrar…). Todas são necessárias, mas as superiores têm uma relação maior com a felicidade, que é o objetivo último de cada homem: não basta a cada pessoa comer, beber, dormir, pois há ideais a concretizar ao serviço dos demais, dentro das capacidades que cada um recebeu de Deus.
A educação da maturidade psicológica prioriza a educação da razão e da vontade. A educação da razão está em desenvolver o hábito de refletir antes de agir para buscar a verdade em cada ação; e corresponde à vontade a decisão de aderir ou não ao que a inteligência mostrou. O hábito de reflexão oferta mais opções para agir racionalmente, sempre em busca da melhor opção que corresponda ao bem e à verdade: agir racionalmente é a qualidade mais elevada e própria do ser humano (conduzir-se pelos instintos ou paixões até os animais o fazem).
2 – Para conhecer-se melhor
É preciso analisar as causas que levam a agir bem ou mal, para ter um conhecimento mais profundo da própria maneira de ser e dos hábitos adquiridos (bons ou maus). Essa reflexão faz a pessoa descobrir a causa de sua felicidade ou infelicidade, a fim de incentivar uns ou colocar os meios necessários para corrigir outros. Agir assim permite tomar decisões acertadas para perseverar no bem ou mudar em vista de se alcançar a excelência pessoal. A consciência moral, graças à formação recebida e o conhecimento das ações acertadas e das que foram corrigidas, e a análise dos sentimentos associados a essas ações, faz a pessoa acumular experiência de vida.
Como ocorre com todo aprendizado, quanto antes se adquirir o hábito de reflexão, mais firme e permanente será a disposição para decidir bem e agir. Por isso, convém incentivar as crianças desde muito pequenas a refletir, ao perguntar a elas com frequência “Interessante! Por que fez assim?”, para que reflitam no motivo que as levou a agir bem. E quando se comportam mal, ao se deixarem levar pelas tendências ou afetos, é bom animá-las a que da próxima vez, antes de fazer algo, pensem na maneira mais correta de agir, e tentem levar à prática.
Para estimular o processo reflexivo nas crianças, convém explicar as razões pelas quais devem agir bem. Essas razões devem ser de curto prazo, pois as crianças vivem o presente e o futuro imediato com intensidade. As razões de longo prazo, ou de futuro, também devem ser conhecidas por elas, a fim de que as aprendam para um futuro remoto (por exemplo, não fumar quando crescer, não ver pornografia, saber escolher as amizades…), porque se sentirão felizes e seguras no presente ao saber como contornar um problema que terão que enfrentar, e até para ajudar as pessoas que se iniciam naquilo que elas entendem ser um mal ou anti-valor.
3 – Ajudar as crianças no amadurecimento psicológico
Em geral, custa às crianças fazer o que é correto porque o incorreto costuma ser mais fácil: deixar as roupas largadas em qualquer lugar custa menos esforço do que colocá-las em cada gaveta; abrir a geladeira ao sentir fome é mais fácil do que esperar pela hora da refeição; ver desenhos é mais prazeroso que estudar ou ajudar a limpar a casa. Convém animá-las a pensar que agir corretamente poderá ser desagradável no imediato, mas será mais gratificante ao fortalecer, também no imediato, a vontade delas, porque não se deixaram levar por caprichos ou tendências desordenadas, e a médio e longo prazo as farão ganhar para a vida inteira os bons hábitos da ordem e do domínio próprio.
A imaturidade psicológica, ou a falta de amadurecimento para a idade que possui, torna as crianças dependentes, afetivas de modo desordenado (hipersensíveis), impacientes ou sem capacidade para saber esperar e suportar até as pequenas contrariedades; também as conduz pelo imediatismo dos sentimentos, que as impulsiona apenas a buscar sensações agradáveis e fugir das desagradáveis, mesmo que estas sejam deveres a cumprir.
4 – Motivar a vontade
Educar a vontade a fim de que esta tenha força para dominar a afetividade, se consegue ao motivar-se para a realizar aquilo que a razão considerou como um bem, ainda que custoso de fazer. O que dificulta esse aprendizado é a afetividade, que por vezes tem mais força do que a vontade, principalmente na infância e juventude.
O empenho para ajudar as pessoas a fazer algo que custa esforço chama-se motivar, e isso pode parecer quase impossível durante a infância. Porém, basta pensar nos sacrifícios que as crianças e jovens fazem para se destacar em algum esporte, concurso ou jogos competitivos, para perceber que estão aptas também para assumirem responsabilidades apropriadas à idade que possuem.
A motivação para a vontade realizar sacrifícios ou esforços com o objetivo conseguir algo, mesmo que seja passageiro e com pouca repercussão no desenvolvimento da maturidade psicológica (decorar a letra de uma música, fazer com paciência uma dobradura, aprender um jogo de mesa), será sempre útil como treinamento para desenvolver a força de vontade, que depois será utilizada para o aperfeiçoamento psicológico na superação de inseguranças (preparar-se para um concurso), certos temores (falar em público), vencer traços negativos do caráter (vergonha, timidez, etc.) e outras emoções que bloqueiam ou paralisam o funcionamento racional e próprio de uma pessoa madura.
Quanto maior for a força da vontade, maior é a facilidade para agir racional e livremente. Alguém com a vontade débil passa a ser impulsionada pelo motor afetivo (sentimentos, emoções, estados de ânimo), deixando de ser racional e, portanto, torna-se menos livre. As crianças pequenas são psicológica e biologicamente imaturas e funcionam impulsionadas por seus afetos. Por isso, quando um adolescente ou um adulto age a partir de suas vivências afetivas, costuma-se dizer que é infantil ou imaturo.
5 – Educar a afetividade
O desenvolvimento da vontade para alcançar o autodomínio supõe vencer as tendências afetivas ao aceitar passar mal a curto prazo e fazer o que custa esforço. Quem age assim sentirá a alegria do dever cumprido, sempre mais profunda e duradoura que a afetiva, que é momentânea e deixa em seguida o sabor amargo da infidelidade e da comodidade, quando não da covardia.
Já foi dito que a afetividade tende a agir para se sentir bem ou não se sentir mal, de modo imediato. Assim, educar a afetividade consiste em conseguir que ela seja uma aliada da inteligência e da vontade, ao segui-las para realizar o bem, não porque seja o mais agradável de se fazer. Com o tempo, a afetividade quando se une à razão e à vontade, também consegue se sentir bem de modo imediato e mais profundo.
Influentes psicólogos chamam de neuroticismo ao traço dominante nas pessoas imaturas e propensas a se mover por emoções e sentimentos de caráter negativo, que nelas são mais habituais e intensos que os positivos. Por isso, tais pessoas são reativas aos estímulos do ambiente em que vivem, tal como marionetes emocionais movidas pelos fios comandados por uma mão externa que são as circunstâncias variáveis, tornando-as impulsivas, dependentes, emocionalmente instáveis, ilógicas e pouco senhoras de si mesmas, e necessitadas de uma educação que fortaleça a vontade para controlar e dominar a afetividade, a fim de que possam agir pela razão, pois cabe a esta a ação de julgar sobre o bem e o mal das ações externas e as funções psíquicas ou internas.
Ultimamente, o mundo esportivo monopoliza a atenção dos meios de comunicação, e alguns educadores passaram a dar mais importância ao desenvolvimento das habilidades físicas dos jovens, e pouca atenção ao desenvolvimento psicológico deles. O que vemos muitas vezes é que bons esportistas logo se perdem porque sua formação psicológica é fraca e se deixam arrastar por algum vício que rapidamente destrói a sua carreira. O esporte é um grande meio para fortalecer a vontade, pois exige grandes e contínuos esforços. Porém, não se deve limitar o esforço da vontade apenas para a realização de desafios físicos, mas também para exercitar a coordenação das ações psicológicas, que é característica da maturidade.
6 – Quem educa deve ter maturidade psicológica
A tarefa de coordenar as funções psíquicas pela continua educação da inteligência e o fortalecimento da vontade, deve ser permanente, positiva e alegre. Não se pode desanimar, mas começar e recomeçar a luta diariamente. Na época atual, uma dificuldade adicional para a educação da maturidade psicológica é a escassez de pessoas que saibam formar a personalidade dos jovens. O bom formador deve ser uma pessoa madura para saber ensinar, com exemplos práticos, o caminho da maturidade e de como superar os obstáculos mais frequentes para progredir nessa estrada, pois já o percorreu: diz o refrão “ninguém ensina o que não sabe”, ou seja, ninguém é bom guia em território que não o tenha percorrido muitas vezes. Por outro lado, um bom formador da personalidade deve ter a motivação suficiente para essa tarefa, e estar convencido da importância da formação interior para alcançar uma vida verdadeiramente feliz, de serviço aos demais, e não de egoísmos.
Texto adaptado por Ari Esteves da obra “Maturidade psicológica e felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009. Imagem de Yan Krukau.
