1 – Educar hoje: a presença ativa dos pais. 2 – Educar o coração, a vontade e a inteligência. 3 – Autodomínio e autonomia. 4 – A criança necessita de normas para se autodeterminar. 5 – Crianças caprichosas e tirânicas. 6 – A indisciplina torna a criança agressiva. 7 – O perigo das etiquetas negativas na criança.
1 – Educar hoje: a presença ativa dos pais
Atualmente é um desafio para a criança organizar ou harmonizar a quantidade de informações e estímulos sensoriais que recebe como matéria com a qual deve construir suas experiências. Por isso, hoje é mais urgente a presença ativa dos pais como árbitros insubstituíveis no complicado tráfico do mundo da imagem, que influencia a estrutura da personalidade nascente dos filhos.
É impensável para pais que queiram educar hoje, deixar que os múltiplos produtos da tecnologia atuem ao acaso e sejam os protagonistas da educação de seus filhos, com tudo o que isto significa. Deixar as crianças em mãos de tabletes e celulares é abandoná-las a uma vida complexa, dispersiva, que as tornará incapazes de governar-se pela própria cabeça, desde a adolescência.
Dar a cada filho a oportunidade de ser protagonista de sua própria história é favorecer um processo educativo consciente e responsável. Os pais precisam enfrentar a tarefa educativa com mentalidade profissional ao estabelecer um projeto com objetivos ordenados, coerentes e de acordo com as reais necessidades da natureza humana. É necessário oferecer aos filhos a oportunidade de estruturar harmoniosamente sua personalidade, e isso significa que os pais têm que dar oportunidade para que suas crianças cresçam em liberdade e na aceitação gradual de suas responsabilidades.
A estrutura da personalidade se organiza mediante um processo crescente de responsabilização, no qual cada período é base para o seguinte. Educar a criança primeiramente em seus apetites vitais (comer, dormir, brincar, banhar-se, guardar seus objetos…), ajudando-a a autodominar-se ao criar situações ordenadas que deem oportunidades de crescer em autonomia, com o fim de adquirir hábitos de ordem e disciplina que permitam atuar bem com certa facilidade.
2 – Educar o coração, a vontade e a inteligência
Desde a primeira adolescência é preciso educar o coração da criança, que é ensinar a querer. Para isso, é necessário oferecer um ambiente de exigência e carinho, de sobriedade e fortaleza, cujo resultado será a aquisição de atitudes de solidariedade, de compreensão e misericórdia para com os que padecem necessidades espirituais ou físicas, tendo iniciativas para mitigar suas dores.
Em seguida, é necessário educar a vontade, cujo objetivo é ensinar a servir, dando motivos valiosos que impulsionem a vontade a realizar o bem devido em justiça. O resultado será a compreensão de que além de diretos, temos obrigação de servir, que é a verdadeira forma de amar e de participar no bem comum da família e do ambiente social em que se participa.
Por último, educar a inteligência, ensinando a pensar. Para isso, criar um ambiente que permita a criança conviver com a verdade, cujo resultado será adquirir postura definida perante a vida por meio de valores que norteiem a conduta. Educar o coração, a vontade e a inteligência já foi objeto de boletins anteriores (ver lista) e ainda serão temas para ouros.
A vida da criança desde seu nascimento é um desafio que vai crescendo como oportunidade para o desenvolvimento dela. Desde o momento de seu nascimento, a criança estabelece uma relação vital com o meio que a rodeia. Isso quer dizer que toda sua percepção está relacionada com a sua própria vida, e não com o artificialismo das telas digitais. A criança recém-nascida responde somente aos estímulos referentes à luz, ruído, frio, umidade, calor corporal, dor física e alimento. Quando a criança durante os primeiros meses de vida se sente segura, acolhida e alimentada de forma ordenada e em ambiente sem estridências (sem a distração e o barulho da tv), estão se estabelecendo os alicerces de uma vida emocionalmente sadia.
3 – Autodomínio e autonomia
É uma necessidade para a criança fazer aquilo que consegue realizar, ultrapassar uma dificuldade que possa ser superada; e por fim, fazer aquilo que é um dever. O autodomínio na etapa vital da criança está relacionado diretamente com o que ela é capaz de realizar. Por esse motivo a maturidade da psicomotricidade e da linguagem desempenham um papel muito importante. A etapa vital da criança, durante os primeiros três anos de sua vida, supõe desenvolver uma série de habilidades e destrezas que requerem oportunidades disciplinadas, ordenadas no tempo, repetidas, projetadas dentro de um processo, integradas em sequência de dificuldade sempre crescente e possível de realizar:
1a sequência: caminhar de mãos dadas; caminhar só, vacilantemente; caminhar só, com firmeza; caminhar e chutar uma bola de modo desequilibrado; caminhar e chutar uma bola de forma dirigida; correr; correr e chutar a bola; etc.
2a sequência: mover a cabeça ao ritmo de uma canção; mover a cabeça e bater palmas no ritmo; mover a cabeça, bater palmas e mover o tronco ao ritmo; mover a cabeça, palmas, tronco e pés ao ritmo; mover a cabeça, palmas, tronco e pés ao ritmo de uma canção e mudando de lugar; etc…
Estes exemplos, desenvolvidos na vida ordinária da criança, devem ser aplicados à linguagem, visão, movimento, equilíbrio, coordenação no tempo e no espaço, etc., em sequências de crescente dificuldade: comer, vestir-se, despir-se, limpar-se, classificar, ordenar, manipular, expressar, etc. Tais ações representam para as crianças uma oportunidade natural de desenvolvimento, sempre e quando se apresentem como atividades de forma ordenada e habitual; hábitos espontâneos na infância.
A oportunidade natural que tem a criança de obter segurança em si própria, e ampliar sua autonomia, é por meio do domínio e da perícia que vai adquirindo sobre os objetos que a rodeiam. Com muita sabedoria afirmou a este respeito o professor Víctor García Hoz: “Toda substituição inecessária provoca uma limitação no desenvolvimento de quem a recebe”. Se a criança pode dormir sozinha, por que fazer depender de uma cadeira de balanço? Se pode segurar sozinha a mamadeira, por que alguém haverá que segurá-la? Se pode subir sozinha na cadeira ou no banco do automóvel, por que fazê-lo por ela? Deixar que a criança faça o que consegue é permitir que ela desenvolva sua autonomia.
O autodomínio é a primeira manifestação da liberdade humana e o fundamento para crescer em responsabilidade. Ao não se ter aproveitado o período sensitivo de 0 a 6 anos, que permitiria à criança conseguir mais facilmente conquistar determinado hábitos bons, tornará mais árdua a tarefa no período seguinte. Os pais que falharam precisam reconhecer ante a criança o seu engano e, com carinho e exigência, restabelecer a ordem fora de seu período sensitivo para chegar a formar os bons hábitos correspondentes, que darão facilidade e satisfação para agir bem.
4 – A criança necessita de normas para se autodeterminar
A criança experimenta em seu interior uma imperiosa necessidade de normas, e deixá-la na falsa liberdade de viver conforme seus caprichos é como abandoná-la em uma imensa planície sem sinalização alguma que permita a encontrar o caminho certo. A criança necessita de um norte; necessita saber para onde seguir e quais são os pontos de referências que confirmam estar na rota certa. Disse Otto Durr em seu livro Educação na liberdade (Rialp, Madri 1971, p. 36): “A criança pequena exercita suas potências em uma viva e amorosa co-realização. A imitação e a habituação vão atadas à regra e à ordem, sem as quais a vontade infantil fica sem direção nem meta, limitando o processo de independência do ser humano”.
Quando a criança apresenta patente resistência à obediência, por volta dos três anos, já se faz necessária a primeira argumentação dos bons motivos que devem orientá-la para se autodeterminar. A nascente vontade infantil deve ser sabiamente respeitada, mas não abandonada, e isso equivale ajudar a criança a descobrir os valores que servirão de motor de sua conduta.
A criança deseja ser boa, ainda que às vezes afirme ou aja ao contrário. Fracassar na tentativa de ser bom, sobretudo no período da infância, produz na criança um sentimento de profunda insatisfação e sofrimento. Mesmo a criança com quem se estabeleceu uma relação consequente, apresenta o fenômeno chamado “da primeira idade da obstinação”: a criança que até então se mostrava submissa é agora capaz de resistir usando toda sua força, desafia a autoridade e se torna rebelde. “O eu próprio começa a ser descoberto ante o eu alheio”. Jaspers distingue quatro formas conscientes de descobrir o eu: 1) “Eu faço”, sensação de atividade; 2) “Eu sou”, consciência de simplicidade; 3) “Eu me identifico com minha história”; 4) “Eu sou diferente dos demais”. Nesse período de autoafirmação da personalidade é fundamental que os pais demonstrem claramente a aceitação da criança, sem deixar de rechaçar as condutas inadequadas: “Eu o amo, por isso desejo que você seja melhor”; “Se você for bom vai se sentir muito contente, e eu desejo que você seja bom porque quero que seja feliz”.
A criança se sente bem quando se porta bem, e se sente mal quando se porta mal: essa vivência é universal porque a consciência do bem e do mal está impressa na natureza humana. A criança vai construindo sua própria história, e sua própria aceitação procederá de que seja boa ou que tenha esperança profunda de vir a sê-lo. Adquirir o hábito de realizar com perfeição o que deve ser feito em cada momento traz satisfação e faz adquirir virtudes.
Com naturalidade a criança capta os valores mais transcendentes. Disse André Pietre em seu livro Carta aos Revolucionários bem pensantes (Rialp, Madri 1977, p. 15): “Quando uma mãe diz a seu filho: Não faça isto, é feio”, disse em cinco palavras o que o autor quis expressar em seu livro de cem páginas. O bem, a verdade, a beleza, a vida, a morte, o feio e o mau, se inserem na realidade da criança desde o incipiente descobrimento que ela vai fazendo de si. O contato com a realidade moral e o apreço por si, dependerá em grande parte da aprovação de sua própria consciência.
Há pais que pretendem simplificar a consciência de seus filhos ao afirmar que não há nada de mau no comportamento deles, e esquecem que esse piloto interior, chamado “consciência”, se apresenta nesta etapa vital com uma pureza e autenticidade que, se não se cuida, deteriora-se para sempre, e deixa na alma da criança uma obscura perplexidade que a impedirá mais adiante de saber quem ela é, colocando em perigo o equilíbrio de sua vida psíquica.
5 – Crianças caprichosas e tirânicas
Em toda existência humana se apresenta uma “angústia vital” que faz crescer e amadurecer. Retirar da criança a oportunidade de ultrapassar por si mesma os pequenos apuros que surgem diante dela, é enfraquecer sua natureza. Quando uma criança é substituída de modo desordenado pelos pais e avós, que não permitem que ela passe nenhum tipo de desconforto, que coma no momento que desejar, que faça o que quiser, que não tenha regras nem horários, que vai dormir só quando está exausta e acorda na hora que quiser, essa criança converteu seu reinado em perfeita tirania, mesmo que apenas engatinhe. Os pais apenas dizem que é uma criança difícil, e os avós afirmam que nasceu para mandar porque sabe impor seus caprichos com atitudes de agressividade: chuta, morde, joga o que tem nas mãos e com seus berros vai tornando a vida de sua mãe muito difícil; e quando lhe oferecem algo para comer, não aceita, e depois a qualquer hora pede comida. Os pais, erradamente, se esmeram em deixá-la contente, entendendo por isso que se trata de deixar o filho fazer o que quiser, como quiser e quando quiser. Uma criança com esse comportamento ao entrar no jardim da infância, sua professora logo se dará conta de que com ela já não há muito o que fazer.
Orientar a vida dos filhos para sua plena realização é ajudá-los a ser eles mesmos, não substituindo-os sem necessidade e mediante um processo de responsabilização gradual e crescente. Por isso, as crianças caprichosas reclamam em seu interior que necessitam ser exigidas; se não o forem, carregarão esse fracasso nas costas sem saber o motivo que as tornou profundamente insatisfeitas. Porém, não deixarão de intuir que seus pais são cumplices dessa situação, e se voltarão contra eles como pequenos tiranos. Este fracasso é uma moeda de duas caras: em uma há o grito da própria consciência que não consegue declarar sua reprovação porque se acomodou; em outra, a incapacidade de poder agir bem por falta de hábitos, frustrando o desenvolvimento natural do autodomínio.
6 – A indisciplina torna a criança agressiva
Quem viveu em uma situação de dispersão e indisciplina, manifesta sua frustração em atitudes de agressividade e ressentimento. Esse estado interior, ao não poder ser assumido e entendido a partir da própria consciência, conduz a uma atitude de fuga que pode ser resumida na seguinte frase: faço apenas o que gosto. Os pais não compreendem o que acontece no interior da criança quando a deixam agir conforme seus caprichos, e costumam dar mais importância a um problema de linguagem ou de motricidade do que ajudá-la a aprender a autodominar-se. Com isso, reforçam a conduta irreverente da criança, não permitindo que ela comece a distinguir entre o bem e o mal.
A criança desde os três anos, ou antes, busca o olhar de aprovação ou reprovação de seus pais antes de jogar o prato no chão ou riscar a parede; se o fez, se mostra na defensiva e experimenta em seu interior algo que a incomoda, e necessita que seja reafirmado pelos pais o que para ela se apresenta com uma mera intuição (que agiu erradamente). O que está mal incomoda, o que está bem gratifica: isto é, fazer o bem constrói e realiza o homem, e o mal o descontrói.
Cada pessoa é um projeto de vida único, irrepetível, que se abre pela liberdade à grandeza. Mas também pode fracassar na realização de seu projeto, seja porque não foi informado sobre a verdade e o bem, ou por não ter fortalecido a sua vontade na prática habitual de seus deveres ordinários, ou por ter sido abandonado nas mãos do capricho e da inconstância.
7 – O perigo das etiquetas negativas na criança
O outro extremo, igualmente prejudicial é o da criança rechaçada e etiquetada como “terrível”, “insuportável”, “teimosa”, “má”, etc. É dramático pensar que, apenas descobertas as primeiras luzes de sua consciência, a criança passa a se resignar com a ideia de não ser boa, e experimenta a realidade de seu fracasso. Dar a oportunidade de melhorar é propor como identidade o bem e a felicidade, é lançar-se com a criança numa aventura cheia de carinho, onde o terreno estará semeado de otimismo para que ela possa descobrir que a vida é como um esporte no qual às vezes se perde uma jogada, mas ainda restam muitas possibilidades de ganhar o jogo. Com ânimo esportivo se recomeça sempre que necessário, e a luta aponta sempre para o triunfo. Devemos ter muito em conta que a riqueza da vida da criança não se satisfaz de qualquer maneira: o que para muitos pais parece ser uma etapa intranscendente, sem valor, é o alicerce de uma vida que deve alcançar a plenitude.
Somente quando a criança se descobre e se aceita, com a responsabilidade de terminar de se construir, então se pode dizer que ela estreia a sua liberdade. Quando um pai e uma mãe dizem à filha ou ao filho que ele é um tesouro, que não poderiam viver sem ele, que ele é mais luminoso que o sol, isso que parece tão pouco plenifica a alma infantil e a desperta para a profunda consciência de ser amada, mesmo em sua fragilidade (sente-se amada pelo que é e não pelo que possui).
O mais natural e imediato ao homem é a família como âmbito onde vem a nascer, crescer e desenvolver bons hábitos e valores. Na família, em palavras de Oliveros F. Otero, “se descobre como pessoa e aprende a ser pessoa”. Isso somente se torna realidade se a criança é tratada como pessoa, se é descoberta em seu mistério individual de ser única e irrepetível. Quando a criança é aceita e amada, está sendo ajudada a descobrir a grandeza de sua alma, então ela se aceita a si própria. Há temas que só se aprendem na família, porque somente nela o que parece ter pouca importância revela a transcendência do amor. Mas o amor sempre está precedido da contemplação, do olhar penetrante do coração, como uma espécie de intuição que descobre o mistério.
Texto de Maria Teresa Aldetre de Ramos, adaptado por Ari Esteves com base no livro Para Educar Mejor, coleção Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha. Desenho de Aguida Medeiros (@medeiro).
