1. Descobrir a verdade. 2. Ensinar o adolescente a pensar. 3. Estimular as crianças a pensar. 4. Explicar as razões para agir bem. 5. Os livros oferecem muito mais. 6. Aprender a tomar decisões. Aproveitar melhor o tempo
A compreensão da realidade, ensina Aldrete Ramos, nunca como atualmente esteve tão repleta de relativismos. A conduta humana se desvinculou de seu fim último e o impulso dos atos humanos é hoje, para a grande maioria, a busca de prazer e de bens utilitários. Os sentidos humanos, saturados pelo bombardeamento de imagens, faz a pessoa se distrair e afastar-se de seu núcleo vital ou de si própria. Com isso, naufraga no vazio existencial e na busca do supérfluo ao não procurar repostas às interrogações humanas que dão sentido à própria existência: quem sou, para onde devo apontar, a que perfeição humana e espiritual devo aspirar? Tais questionamentos, que passam a ocorrer a partir dos quinze anos, necessitam do silêncio interior e do hábito de pensar, que deve ser estimulado desde criança.
1 – Descobrir a verdade
A formação de um hábito intelectual não pode ser alcançada nem muito cedo, nem muito tarde, nem de maneira inconsistente (sem sequência em seu grau de dificuldade). O cérebro, conforme vai amadurecendo, precisa de estimulação para organizar-se gradualmente. Se não for estimulado desde cedo, a recuperação dessa função, que não se desenvolveu suficientemente nos momentos oportunos, exigirá depois uma atividade terapêutica. Por isso, o ótimo desenvolvimento de uma faculdade deve estar sempre contemplado dentro do projeto de desenvolvimento integral da pessoa.
Aldrete Ramos afirma que a descoberta da verdade sobre o próprio ser de cada pessoa e a busca da felicidade não é uma questão de sorte, saúde ou riqueza. Conhecer a verdade sobre as questões que nos envolvem e sobre o que ocorre em nosso meio é necessário para pensar e agir bem; é encontrar o caminho que conduz à plenitude humana, e isto não é fruto nem da erudição nem da ciência, mas do hábito de querer o bem e fugir do mal, e isso exige o pensar. A razão e a vontade nos distinguem dos animais, mas entre ser racional, que é característica humana, e saber raciocinar é coisa distinta e que deve ser desenvolvida.
Ajudar a descobrir a verdade para viver em harmonia com ela, é ajudar a adquirir o hábito de uma autêntica atitude contemplativa, que ao mesmo tempo desenvolve no homem uma sábia compreensão da realidade, e o dirige a questionar-se sobre as questões mais transcendentes.
A genuína alegria só se extrai da Fonte perene onde tem sua origem a contemplação da verdade que se esconde nos mistérios do divino e do humano; verdade elevada pouco a pouco e saboreada no profundo gozo espiritual da razão, quando esta se desprende dos apetites sensíveis que se desvinculam da racionalidade. O prazer que a verdade oferece à inteligência humana é capaz de elevar a sensibilidade a um deleite ou agrado maior que o desfrute pontual desvinculado da razão e da verdade acerca da natureza humana.
2 – Ensinar o adolescente a pensar
Pais e professores precisam criar em torno dos adolescentes um ambiente de coerência, onde o estudo e o aprofundamento permanentemente das questões vitais devem estar presentes. Evadir-se disso é fugir de dar respostas e deixar os jovens ao acaso das diferentes ideologias, privando-os do direito à verdade:
- Ajudar o adolescente a formar critérios por meio de uma doutrina sadia que permita viver de acordo a autêntica dignidade humana, e que dê unidade ao conjunto de verdades de diferentes níveis: técnicos, científico, artístico, moral, social e religioso;
- Fomentar a capacidade de julgar os problemas políticos, econômicos e sociais desde uma perspectiva moral que permita distinguir erros e verdades, para livrar-se de manipulações ideológicas;
- Ensinar a analisar com profundidade e a argumentar com razões morais, religiosas ou naturais, sobre questões vitais às quais se baseiam a felicidade natural e definitiva do ser humano;
- Ter unidade de vida de modo a que não ocorra um divórcio entre princípios e vida prática, diária. Trata-se de aplicar critérios verdadeiros às situações reais e vivê-los, a fim de fugir da duplicidade de caráter que leva a pensar de um modo e agir de outro;
- Transformar os desejos em ações que influam positivamente no próprio ambiente, com o fim de melhorá-lo: quem possui uma verdade para o bem de todos, deve comunicá-la.
3 – Estimular as crianças a pensar
Como ocorre em todo aprendizado, quanto antes for adquirido o hábito de reflexão, mais firme e permanente será a disposição para decidir e agir bem. Por isso, convém incentivar a criança desde muito pequena a refletir, ao perguntar a ela com frequência: − “Interessante! Por que fez dessa forma?”, para que reflita sobre o motivo que a levou a agir bem e o fixe de modo permanente. E quando se comporta mal, ao se deixar conduzir pelas tendências instintivas ou afetos, é bom animá-la a que da próxima vez, antes de fazer algo, pense na maneira mais correta de agir e tente levá-la à prática.
Estimular a criança a utilizar mais a inteligência começa por incentivá-la a aprender a descansar criativamente com leituras, quebra-cabeças, xadrez, dama, lego, vídeos culturais previamente programados. Viciar as crianças a descansarem diante de telas digitais é o caminho mais rápido para tornar preguiçosa a mente delas.
4 – Explicar as razões para agir bem
Para despertar o processo reflexivo em crianças, convém explicar as razões pelas quais devem agir bem. Essas razões devem ser de curto prazo, pois as crianças vivem o presente e o futuro imediato com intensidade. As razões de longo prazo também devem ser explicadas a elas, a fim de que as aprendam para um futuro remoto (por exemplo, não fumar quando crescer, não ver pornografia, saber escolher as amizades…), e assim se sentirão felizes e seguras no presente ao saber como contornar um problema que terão que enfrentar; e poderão informar àqueles que convivem com elas, para não se iniciarem naquilo que elas compreenderam ser um mal.
5 – Os livros oferecem muito mais
O tempo dedicado à leitura de um bom livro fixa-se na inteligência e educa a sensibilidade, mais do que as longas horas vendo discorrer diante dos olhos sucessivas imagens, tal como água sobre pedra, que nada deixa. Jogos eletrônicos, horas e horas de desenhos, fotos e vídeos em redes sociais fazem parte da cultura da imagem, que se dirige apenas ao desenvolvimento de sensações e impressões superficiais e passageiras, e que logo serão esquecidas, diminuindo a capacidade reflexiva.
A experiência que habitualmente realizo em sala de aula é a de ler uma poesia (por exemplo, O diálogo das rosas, de José Gilberto Gaspar), ou o trecho de um livro (por exemplo, o diálogo entre o príncipe e a raposa, no livro O pequeno Príncipe, de Saint Exupéry). Após uma ou duas semanas pergunto aos alunos se têm lembranças dessas leituras. A resposta é unânime: todos se recordam e são capazes de repeti-las. Então, pergunto se eles se lembram das imagens que no dia anterior viram no celular. A resposta também é unânime: não se recordam de nada. Então explico que aquelas leituras fixaram-se porque penetraram na inteligência deles, e servirão de experiências vitais; já as imagens digitais apenas deslizaram diante do olhos deles, sem tempo para racionalizá-las ou interpretá-las, e nada acrescentaram.
A leitura de bons livros leva a raciocinar e a criar as próprias experiências com base nos relatos, a formar imagens ao remover a imaginação e a memória, a construir ideias sobre a vida e as pessoas, o que leva ao autoconhecimento, além de transmitir critérios que orientam a conduta para o bem.
6 – Aprender a tomar decisões
A família é a escola de virtudes, e onde as crianças aprendem as primeiras noções acerca do bem e do mal, e os valores sobre os quais podem alicerçar uma vida reta e sã. A meta é que cada filho aprenda a tomar decisões de forma adequada à sua idade e saiba administrar a sua liberdade, porque está movido por hábitos que lhe facilitam o autodomínio, a temperança no comer e beber e a ter horários para brincar, estudar e ajudar nas tarefas da casa. Também deve dominar a curiosidade e não entrar em sites que destroem a vida moral e criam vícios difíceis de arrancar.
7 – Aproveitar melhor o tempo
Explicar às crianças sobre a importância de valorizar e utilizar melhor o tempo, não gastando-o em redes sociais, videogames, jogos online, que nada acrescentam. Os filhos necessitam de conselhos para desprenderem-se do ambiente digital, que pouco oferecem à inteligência, quando mal utilizados.
Os mesmos conselhos que orientam o comportamento dos filhos em espaços como o da família, rua, escola, festas, etc. (boas maneiras, recato ou pudor, respeito a si e ao próximo, controlar a curiosidade, evitar a ociosidade, etc.), devem ser utilizados nos espaços digitais.
Evidentemente desenvolver a inteligência dos filhos é um objetivo fundamental. Porém, não aguardar que eles cheguem aos quinze anos para ensiná-los a pensar. O que se pretende é coroar um empenho que foi se desenvolvendo desde que ele nasceu. O pensamento como atividade contemplativa e reflexiva é a culminação do processo educativo.
Texto adaptado por Ari Esteves com base nas obras “Para Educar Mejor”, de Maria Teresa Aldetre de Ramos, Colección Hacer Familia, Editorial Palabra, Espanha; e “Maturidade psicológica e felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009.
