Investir em virtudes

1 – O bem como aspiração da vontade e dos sentimentos. 2 – As tendências instintivas devem ser avaliadas pela inteligência. 3 – As virtudes regulam as tendências naturais. 4 – Ganha-se uma virtude repetindo pequenos atos. 5 – A influência das paixões sobre a inteligência e vontade. 6 – Luta esportiva para conseguir uma virtude

1 – O bem como aspiração da vontade e dos sentimentos

    A pessoa virtuosa pensa e age bem: sua inteligência procura conhecer a verdade, e sua vontade quer essa verdade como um bem. O bem é objeto de aspiração não apenas da vontade, mas também dos sentimentos e paixões, que possuem tendências que se dirigem àquilo que sentem como um bem. Se a vontade tende ao bem conhecido pela razão (bem racional), e cada paixão ou instinto tende ao bem que o atrai (comida, descanso, música, leitura, etc), é bom ter presente que cada tendência instintiva pode não ser boa para a pessoa como um todo, e por isso os bens instintivos devem ser analisados pela inteligência. A inteligência tem várias concepções de bem, e cada instinto apenas uma.

2 – As tendências instintivas devem ser avaliadas pela inteligência

    O bem das paixões ou afetividade não é racional, mas uma tendência que antes mesmo da pessoa pensar ou analisar se convém ou não tal afeto, já se sente inclinado a ele. Por exemplo, as tendências de descansar, comer ou beber podem desviar a pessoa de fazer algo que seria necessário realizar antes mesmo de aceitar a sugestão desses sentimentos.

   Portanto, os sentimentos ocorrem antes mesmo de serem analisemos. Por isso, imediatamente após um sentimento ou tendência, é necessário avaliar com a inteligência para saber se o bem instintivo proposto é conveniente ou não, porque podem afastar de compromissos mais importantes.

   A tendência instintiva de gostar de doces deve ser analisada pela inteligência ou juízo prático. Por quê? Porque a inteligência tem diversas concepções de bens, e cada paixão tem apenas uma concepção do que é melhor: para a tendência de comer só interessa esse bem; porém, a razão que analisa integralmente as necessidades da pessoa, examinará outros bens e concluirá que a saúde é um bem maior do que o gosto por doces, e assinalará ao diabético que não coma doces.

3 – As virtudes regulam as tendências naturais

    As virtudes são assumidas como critérios racionais de regulação das tendências naturais, já que estas não devem ser satisfeitas de qualquer modo, pois poderiam deixar de ser um bem verdadeiro: comer é uma boa tendência, mas será necessário saber o que comer e quando comer, e quem possui a virtude da temperança conseguirá regular tal tendência.

    A boa eleição tem três atos: pensar bem, decidir e agir, porque é um hábito que depende de uma escolha ou eleição feita pela vontade, que deve seguir os juízos da inteligência prática (consciência), e não apenas ao que agrada aos sentidos. As virtudes ajudam a pessoa a pensar e fazer a boa escolha, e quando se ganha o hábito virtuoso, essa eleição é imediata, pois a pessoa quer e percebe imediatamente o que é bom, quase sem necessitar passar por todo processo de pensar, escolher e agir. A virtude não é um automatismo, mas uma decisão ou escolha.

4 – Ganha-se uma virtude repetindo pequenos atos

    A boa eleição é um ato da vontade ajudada pela virtude. Toda eleição é motivada por uma intenção e eleição dos meios para alcançar o bem escolhido: quem tem a intenção de não engordar deve eleger os meios: não comer o terceiro pastel, não repetir o prato, não comer fora de hora… Não basta saber a teoria sobre determinada virtude, mas é preciso realizar pequenas e constantes ações em direção a ela. Um ato isolado como o de acordar no horário, mesmo que seja bom, não torna a pessoal pontual e laboriosa; o que a faz ganhar a virtude é acordar todos os dias no horário.

   Para se ganhar o hábito virtuoso de ser pontual, responsável, torna-se necessário acordar todos os dias no horário pré-estabelecido, e essa repetição de acordar no horário, sem conceder nenhum minuto a mais à preguiça, chama-se “minuto heroico”, e faz a pessoa ganhar também a virtude da fortaleza para vencer a preguiça.

   Cada pessoa necessita exercitar-se habitualmente nas virtudes que carece, com os atos correspondentes: atos de sinceridade, de paciência, de fortaleza, de bom humor… Obras é que são amores, e não apenas a boa vontade que não se concretiza em ações.

5 – A influência das paixões sobre a inteligência e vontade

    Se faltam virtudes, a razão ou inteligência pode se deixar influenciar por sentimentos e paixões e não os avaliar bem, e a vontade, enfraquecida por uma inteligência que pensou de forma errada, não terá forças para corrigir tais desvios. Quando se está fortemente influenciado por algum gosto ou prazer sensível, a inteligência vê-se abafada, anulada, e a vontade se torna fraca para superar tal tendência. Daí vem a importância de adquirir virtudes, que fortalecem o hábito de pensar (inteligência) e de querer atuar bem por meio da vontade.

    Quando se diz que a virtude é um termo médio entre dois extremos, quer significar que ela não está nem na ausência, nem no excesso. Por exemplo, a fortaleza encontra-se no ponto médio entre a covardia (ausência de fortaleza) e o excesso (temeridade), que também é um defeito da fortaleza: atravessar uma pista de velocidade e com intenso tráfico de veículos não é fortaleza, mas temeridade, imprudência, desprezo por um bem maior que é a vida: se não há prudência não há virtude.

    Todas as virtudes estão conectadas. As quatro principais virtudes são: prudência, justiça, fortaleza e temperança, e em torno de cada uma delas giram todas as demais virtudes: sensatez, bom conselho, entre outras, são virtudes anexas à prudência; piedade, gratidão, veracidade, obediência e amizade são anexas da justiça; sobriedade, castidade, modéstia, humildade, entre outras, são anexas da temperança; paciência, magnanimidade, longanimidade, entre outras, são anexas da fortaleza. Sem a virtude da fortaleza, por exemplo, é difícil ser justo: Pilatos queria ser justo e não condenar Jesus Cristo, pois não via nele culpa alguma, mas por não ser forte e temer o povo, foi injusto ao entregar Cristo para ser flagelado e morto.

6 – Luta esportiva para conseguir uma virtude

    Se cada um lutar para conseguir a virtude oposta ao vício ou defeito que o domina − e animar a outros a fazer o mesmo, seja um filho ou amigo −, se tornará uma pessoa melhor e melhorará também seu ambiente familiar, profissional e social.

    A luta por conquistar uma virtude não é triste, mas alegre, tal como a do esportista que procura a cada dia melhorar um pouco mais seus índices. O esportista nunca pensa em abandonar a luta, jogar a toalha: um dia perde e no outro vence, e assim vai melhorando.

   Mas é bom ter presente para si − e dizer a cada um −, que não se alcança uma virtude em duas semanas, mas em três meses, e à base de repetir pacientemente pequenos atos contrários ao defeito que pretende erradicar. Assim, se alguém falhar na luta um dia ou outro, não desanimará, pois terá presente que a conquista de uma virtude levará algum tempo. E assim, com paciência, se conquista a alma.

Texto produzido por Ari Esteves para o Boletim Pedagogia do Comportamento (staging.ariesteves.com.br/). Imagem de Pixabay.