A fortaleza transforma os obstáculos em oportunidades

1 – Somos colocados à prova. 2 – A fortaleza robustece as convicções. 3 – O forte é paciente. 4- Dar um motivo maior aos nossos esforços. 5 – Ter um modelo de fortaleza.

1 – Somos colocados à prova

    Em nosso dia a dia há momentos de descontração e de contrariedades, e estes sempre nos põem à prova. É preciso aprender a encaixar tanto esses momentos difíceis, quanto aqueles dias em nada saiu como o planejado. A virtude da fortaleza tem a ver com isso, porque transforma os obstáculos em oportunidades e experiências vividas. Com isso, tornamos a orientar nossas ações uma e outra vez na direção correta, e sem sofrer rachaduras irreparáveis, pois tudo na vida passa e as circunstâncias externas sempre podem mudar.

    Há coisas não necessárias para ser felizes, e que às vezes se apresentam como imprescindíveis. Isso pode suceder com certas comodidades que hoje são quase moeda corrente, mas também com outras necessidades que podemos criar, sem nos darmos conta. Desejamos ser suficientemente livres para que as circunstâncias externas não tomem decisões por nós: um incomodo não deve nos roubar o sorriso, o cansaço não deve nos vencer tão rapidamente a ponto, por exemplo, de chegar cansado do trabalho e não dar atenção à criança que deseja contar algo, não renunciar um gosto pessoal em favor de outra pessoa… A fortaleza nos faz menos dependentes de tudo que não seja o amor de Deus, de modo que estejamos contentes entre todo tipo de pessoas, em qualquer lugar, e dedicando-nos a qualquer tarefa.

    Basta um olhar realista ao mundo para reconhecer a necessidade da fortaleza. Notamos que as circunstâncias, positivas ou adversas, nos influenciam. Damo-nos conta da necessidade de sobrelevar certos períodos difíceis sem abater-nos, nem perder a serenidade. Além disso, sabemos por experiência própria que as coisas valiosas requerem esforço e paciência: desde levar adiante uns estudos ou vencer um defeito do próprio caráter, até cultivar relações profundas com outras pessoas ou crescer na amizade com Deus.

2 – A fortaleza robustece as convicções

    Não devemos ficar com uma visão estreita da fortaleza, como se ela fosse apenas um fatigoso esforço que nos leva a ir contra a corrente. A fortaleza não consiste num exercício acinzentado da vontade por superar-se, não se queixar, resistir diante do que não queremos ou não entendemos. Ver a fortaleza dessa maneira esgota qualquer pessoa. Ser forte consiste mais em robustecer nossas convicções, em renovar sempre o amor que nos move, em fazer brilhar com maior força em nós os bens autênticos. Então iremos eleger cada vez com mais facilidade e gosto aquilo que verdadeiramente queremos.

    Quem carece de fortaleza talvez não seja capaz de evitar um comentário brusco, nem consiga sorrir quando se encontra cansado. Nessas situações, a fadiga é o motivo que pesa mais nas reações ou decisões, e que faz a pessoa perder de vista outras razões pelas quais vale a pena se esforçar.

    “O que se necessita para conseguir a felicidade, não é uma vida cômoda, mas um coração enamorado” (Sulco 79). O caminho de qualquer homem é exigente porque requer um amor cada vez mais profundo, e como diz uma tradicional canção “coração que não quer sofrer dores, passa a vida inteira livre de amores”.

3 – O forte é paciente

    O forte não se desespera porque sabe esperar. Não perder a serenidade diante de um fracasso, nem se intranquilizar quando os frutos dos esforços tardam a chegar, é obra da paciência, que é virtude anexa da fortaleza. Ser paciente não é consequência de um otimismo simplório, nem resignação, mas fortaleza pura, pois quem sabe suportar uma contradição permanente, tal como uma doença incurável, é mais forte do que aquele que pode enfrentar uma situação que tenha esperança de vencer. A fortaleza é a atitude do homem livre que ama não só por momentos ou temporadas, mas luta com os olhos postos no fim último que o aguarda.

4- Dar um motivo maior aos nossos esforços

    Quem faz crescer em si a virtude da fortaleza não só é capaz de se sobrepor ao cansaço, como o faz porque percebe que isso causa um bem a si e aos demais. Terá mais facilidade para sobrepor-se e enfrentar suas fraquezas, quem descobre um valor transcendente ou caminho para amar mais a Deu: ao dar um fim mais alto à ação de levantar-se na hora fixa, ou de evitar uma queixa, ou dedicar tempo a alguém quando espontaneamente não o faria, será mais fácil de realizar ao se ter em vista um bem mais alto.

    Cada sacrifico livremente assumido, cada contradição acolhida sem rebeldia, cada vencimento feito por amor, reafirma na pessoa a convicção de que a felicidade se encontra em Deus, mais que em qualquer outra realidade. A luta cotidiana se converte, então, em conquista progressiva do bem verdadeiro, em caminho de esperança. Nas decisões pessoais, buscar habitualmente o bem autêntico dá ânimo para não se conformar com o imediato ou com o efêmero.

    Ser forte é a atitude própria de quem percebe o valor real das coisas. Ver no processo de vencer-se em pequenas coisas não apenas o desafio de sobrepor-se a si mesmo, mas um modo de ser mais livres ao vencer sentimentos (não racionais) que impedem o livre-arbítrio de fazer o bem que custa realizar, mas que a consciência pede para realizar.

    A alegria e a paz dependem mais do que verdadeiramente é querido pela vontade, do que pelas circunstâncias de cada momento, sejam elas externas ou internas. A luta por crescer na virtude da fortaleza leva a enfrentar o medo ao esforço a ser empregado na realização de um bem. O forte sabe perseverar no bem, mesmo que isso não seja o “mais gostoso”.

5 – Ter um modelo de fortaleza

    Podemos adotar como modelo de fortaleza uma pessoa que conhecemos e que soube exigir-se, seja o pai, a mãe, avós, um amigo, ou algum personagem cuja biografia nos encantou. Porém, quem mais encarnou essa virtude foi Jesus Cristo, que vem sendo modelo de fortaleza para cristãos ou não, pois ele soube relacionar-se com a adversidade e a dor sem construir muros ao seu redor, nem se cobriu com uma armadura para evitar as feridas. Isso é interessante, pois o recurso a muros e armaduras impede o contato e o diálogo com a realidade, e cria uma rigidez que impossibilita mover-se com soltura. Amar o mundo significa ter a capacidade de poder relacionar-se com ele, seja em sua riqueza ou em seus imperfeitos, causados pelas ações humanas. Pedir emprestada a fortaleza de Cristo nos torna mais sensíveis, profundos e metidos em cheio na realidade, sem temores.

Texto traduzido e adaptado por Ari Esteves, com base no artigo “Te seguiré adonde vayas”, em https://opusdei.org/es/article/muy-humanos-muy-divinos-x-te-seguire-adonde-vayas/. Imagem de Ahha Pbkkoba.