Os defeitos das crianças – Parte 1

1 – Ninguém é perfeito, nem os filhos. 2 – O orgulho e o egoísmo. 3 – A preguiça. 4 – Pequenos furtos. 5 – A mentira

1 – Ninguém é perfeito, nem os filhos

    Os pais se lamentam muito quando descobrem os defeitos dos filhos. Deveriam alegrar-se, pois com isso terão um norte para conduzir sua educação. Além disso, como ninguém é perfeito, isso inclui também as crianças, que padecem dos mesmos defeitos de todos os filhos de Eva. Quais os defeitos que aborrecem mais os pais? Bem, a lista pode ser grande: a criança não fica quieta, não cede e enfrenta os pais; é egoísta, impulsiva e foge das tarefas? Então, se poderia concluir que debaixo dessas atitudes – que certamente devem ser corrigidas − se esconde um temperamento forte, uma personalidade muito vincada que pode chegar a fazer maravilhas, quando bem orientada. A criança é fechada, não diz nada e não se sabe o que pensar dela? Talvez seja uma criança excessivamente sentimental, pouco segura de si mesma. É tímida e não sabe dizer tudo o que tem no coração? Talvez tenha baixa autoestima porque não consegue fazer as coisas que sonha realizar.

    A mentira e os pequenos furtos são os defeitos que mais torturam os pais, a ponto de afirmarem que estariam dispostos a aceitar tudo, menos algum desses defeitos. Sofre-se menos ao pensar que essas fazes, caso ocorram, são sempre curtas, e não possuem a mesma intenção de um adulto que age da mesma maneira. Entretanto, é preciso ter a coragem e a paciência para ajudar a criança a superar qualquer desses comportamentos, identificando o motivo que a leva agir assim.

2 – O orgulho e o egoísmo

    Na realidade, os piores e mais preocupantes defeitos, tanto nos pirralhos como nos adultos, são o orgulho e o egoísmo, que podem existir em crianças que nunca mentiram, nem surrupiaram trocados para o doce. O egoísmo natural da criança, que a leva a só pensar em si, em suas coisas, em seus pequenos planos, e não presta atenção e nem ajuda os outros, não é o mesmo egoísmo de um adulto, e ocorre porque elas têm dificuldades de compreender a alteridade, de interpretar os sentimentos alheios, e necessitam ser estimuladas a isso, como também devem ser estimuladas a serem solidárias e a doarem os brinquedos em bom estado que já não utilizam mais. Quando os pais as fazem compreender a dor dos demais, elas aprendem a ter coração e a compartilhar com os que sofrem.

    O orgulho se mostra na criança que faz tudo para ser mais notada, que está sempre pronta para diminuir o que os outros fazem melhor do que ela, ou quando se engana e não reconhece o próprio erro, que atribui como causa os outros. A primeira virtude não é a honestidade, nem a veracidade em crianças que não mentem, nem a sensatez das que estão sempre quietas: a primeira virtude é a caridade, o amor, a capacidade de se dar a Deus e aos demais. Se estes pensamentos estiverem mais presentes, os pais poderão olhar de maneira diferente para os defeitos dos filhos.

3 – A preguiça

    É preciso aprender a olhar para os filhos como Deus nos olha: primeiro, pensar que os filhos necessitam dos pais para aprender a ser melhor. Um filho preguiçoso irrita seus pais, mas a preguiça da criança é facilmente superada por meio de pequenas tarefas atribuídas a ela no lar, com as quais, ao cumpri-las, irá fortalecendo a vontade para ir contra os sentimentos, que tendem a dominar e levar as crianças apenas ao prazenteiro. O que não pode ser é que os pais transformem o defeito do filho em tendência ao criarem apodos que repetem com frequência à criança: “você é preguiçoso”, “não tem jeito de melhorar”, “onde já se viu tal coisa”… A mãe que todas as manhãs repete a mesma lengalenga ao dizer à filha que é uma molengona, porque leva uma hora para se aprontar, cataloga a criança e a faz se fixar no defeito a ponto de vê-lo como impossível de desarraigar.

    Se os pais olharem para as qualidades da criança, para aquilo que ela realiza melhor, e não apenas para a preguiça dela, a partir dessa visão positiva poderá ajudá-la a se esforçar porque transmitem à criança confiança em si mesma. Há crianças que com pertinácia e paciência se põem a fazer um modelo reduzido, que montam ou desmontam peças com habilidade e atenção, revelam qualidades que os pais devem elogiar. Em vez de repetir a todo momento que a criança molengona − pior é quando dizem isso diante de pessoas estranhas −, deveriam afirmar o que ela realiza bem. Caso seja difícil para a criança fazer um esforço grande contra a preguiça, pode-se “comer o pudim quente pelas beiradas” ao ajudá-la a começar a colocar em ordem seus brinquedos, jogos ou cadernos. Com isso, ela fortalecerá a vontade para realizar ações mais custosas, como estudar, dormir e levantar no horário, ser disciplinada…

    Comparar uma criança com outras da sua idade, seja um irmão, parente ou amigos, só serve para paralisá-la e fazê-la fechar-se em si mesma. Ao invés disso, dar a ela responsabilidades de acordo com a capacidade que possui, e deixe-a ter iniciativas para realizá-las, pois assim irá vencendo indiretamente a preguiça. Certa família deu à criança um espaço para cultivar verduras em garras pets, e a criança reagiu muito positivamente e fez um verdadeiro canteiro, e se sentia feliz quando serviam suas verduras na mesa. Inclusive a criança, que era tida como passiva e preguiçosa, foi buscar informações com o vendedor de sementes, conseguiu revistas sobre jardinagem, entre outras iniciativas. É preciso ver os filhos como Deus os olha: com um olhar de amizade, carregado de compreensão e de confiança; um olhar que implica em progresso na alegria e no amor.

4 – Pequenos furtos

    Uma criança que faz pequenos furtos está muito longe de ter as mesmas intenções de um adulto que faz o mesmo, pois são dois mundos muito diferentes. Mas isso não significa que não se deve repreender seriamente a criança, e até colocar alguma medida corretiva. Mas é necessário proceder de maneira diferente da que seria com um adulto. Surrupiar bolos ou doces é puro caso de gulodice, e não um verdadeiro furto. Mas, mesmo não sendo algo grave, é preciso intervir imediatamente, com decisão, desde a primeira vez, ao dizer para não repetir mais isso, que os bolos são para todos, e que se quiser terá que pedir para receber ou não. Se a criança reincidir se pode privá-la, por exemplo, da sobremesa. Ou pode-se dar a ela um saquinho de bombons e ensiná-la a controlar-se para não comer tudo de uma vez, além de oferecer o doce aos outros.

    É preciso compreender e agir com paciência quando ocorre furto no porta-moedas, ou porque tirou um pacote de bombons da mercearia, ou uma caneta do amigo. É raro que a criança furte por ser ladra, ou desonesta porque sofre de alguma deformação que a leve a esse vício. Em vez de pensar no pior, procure encarar outras hipóteses. A maior parte das vezes, a criança não tem noção de propriedade e apanha o que vê pela frente para ter uma satisfação que não conseguiria tê-la de outra maneira, ou porque não dispõe de dinheiro algum no bolso. Por estar convencida de que os pais gostam menos dela do que do irmãozinho, ou porque se sente uma inútil na escola ou em casa, e que ninguém deposita confiança nela, então surge a necessidade de ter o seu mundo com suas coisas um pouco secretas. Assim, o furto é uma compensação para obter uma satisfação. É preciso procurar compreender o que não anda bem por trás do surrupio e encontrar o remédio. Amar essa criança, falar com ela, depositar confiança nela, atribuir responsabilidades, arranjar as coisas de maneira que ela se apaixone por trabalhos manuais e encargos domésticos; que faça a coleção de selos ou de figurinhas, que pratique esportes, passeie na praça. Claro que isso levará algum tempo e precisará que os pais atravessem maus momentos e procurarem a causa para atacar o mal pela raiz.

    Não encarar a situação pelo lado trágico. Pequenos furtos não significam que tudo esteja perdido. O que mais importa é não dizer à criança que irá para prisão, que é a vergonha da família, que é uma ladra… Não desanimar, pois é menos grave que ser egoísta, que revelar falta de bondade de coração. Falar abertamente e com muita calma com o filho, e mostrar que agiu mal. Não colocar na criança a ideia de que é desonesta, mas vincar que cada um tem direito ao que possui porque trabalhou para consegui-lo; e que ela, a criança, deve aprender a obter o que deseja pelas vias normais: porque ganhou, porque comprou. Dependendo do objeto, animar a fazer seus próprios brinquedos, ou saber prescindir das coisas sem invejar ninguém (tem mais quem precisa de menos). Indicar a maneira correta de se comportar no futuro, dar um pouco dinheiro e perceber como o gasta, e dizer que tem confiança nela. Não fechar os armários à chave, mas evitar deixar o dinheiro à vista. Não se pode dizer essas coisas a pessoas de fora, a não ser ao outro cônjuge para que ambos trabalharem em conjunto, pois a criança tem direito a uma boa reputação.

    Como aplicar uma medida corretiva? Também não se deve ser excessivamente indulgente e desculpar tudo. Deve-se castigar rapidamente e não voltar a falar mais no assunto: é caso encerrado. O melhor castigo, e o mais natural, é a reparação: entregar ao dono da mercearia o preço de um saco de bombons furtado, e melhor ainda é que a criança pague com as economias tiradas do cofrinho dela. Em geral, se for muito humilhante obrigar a ir ter pessoalmente com o dono da mercearia, então se poderá indicar a ela para dar o dinheiro a uma família necessitada, ou comprar uns doces e levar para essa família. O essencial é que os pais dominem o desgosto, depois de aplicar com calma a medida corretiva. Em seguida, pôr-se a pensar em outras medidas, tal como ensinar a criança a se compadecer pelos que sofrem, a ser solidária e ir com ela a um orfanato para que doe algum brinquedo que esteja em boas condições e que não utiliza mais, ou visitar um asilo ou casa de repouso de idosos, animando-a a levar alguns doces que comprou com o dinheiro da mesada e, se necessário, completado com a contribuição dos pais.

5 – A mentira

    Meu filho mente! Para a criança, sonho e a realidade se confundem porque querem se gabar um pouco para ficar bem diante dos outros. Certos pais achavam que o filho exagerava em tudo. Então, resolveram estabelecer um jogo com a criança, que facilmente saia da realidade ao narrar seus feitos na escola. O jogo consistia no seguinte: propuseram à criança que à noite, durante o jantar, cada um diria uma verdade que ocorreu durante o dia, e também contaria uma história inventada. Assim, na tertúlia após o jantar, o pai contava como foi o seu dia de trabalho, e depois narrava uma história inventada; e o mesmo fazia a mãe. Ao chegar a vez da criança, ela misturava a história real com a inventada. Quando isso ocorria, os pais a interrogavam: − “Espere, isso que você está dizendo não pertence à história inventada?”. A criança refletia um pouco e se corrigia. Com isso, os pais, sem mencionar a palavra “mentira”, foram corrigindo a criança ao ensiná-la a separar os fatos reais daqueles que eram fruto da imaginação.

    No próximo boletim (Os defeitos das crianças – Parte 2) abordaremos os seguintes temas: “A mentira e a criança”, “A criança colérica” e a “Criança orgulhosa”.

Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Os defeitos das crianças”, de J. Vimort, Editorial Aster, Lisboa, Portugal.