Criança necessita de limites

1 – A criança troféu se torna tirânica. 2 – Como conseguir que a criança obedeça? 3 – A criança deve aprender a conviver com a frustração. 4 – Não dar tudo o que a criança pede.

1 – A criança troféu se torna tirânica

    Quando se deixa de considerar a criança como um presente, e se passa a considerá-la um troféu para ser exibido, logo ela se torna tirânica, ensina a educadora Catherine L’Ecuyer*. A criança troféu parece tão perfeita que não precisa ser corrigida para que continue sendo fofa, exibida e caprichosa. E para que ela não dê shows em público, seus pais, que possuem pouca autoridade, cedem a tudo.

    Cada vez é mais comum ver nas ruas crianças que pedem aos gritos, pois nunca lhes foi dito um “não” gordo e rotundo. Por conhecer bem as regras para manipular os pais, essas crianças se tornam mal-agradecidas, batem, gritam, quebram tudo, exigem determinadas roupas, só comem o que gostam, engolem saquinhos de guloseimas em segundos, abrem a geladeira quando querem, respondem mal aos adultos e não os olham nos olhos, e quando o fazem é com viés desafiador.

    Como consertar tudo isso? Pode-se começar por substituir os produtos de luxo por outros mais simples que incentivem a criatividade, menos celulares e mais tempo com a família, horas a menos de videogames e mais bicicleta ou brincadeiras com outras crianças, substituir as recompensas materiais pelo carinho, transformar as horas de televisão em passeios pelas praças arborizadas ou parques, trocar o barulho dos aparelhos pelo silêncio e a observação. Mas, acima de tudo, saber dizer “não” ao que se considera inconveniente à criança.

2 – Como conseguir que a criança obedeça?

    Sim, é preciso respeitar a liberdade da criança, mas dentro de certos limites. Como conseguir que uma criança não tire o boné que foi colocado para protegê-la do sol? Colocando-o de novo. E se tirá-lo outra vez? Coloque-o novamente até que não o tire mais. Porém, se a criança já tiver idade para intuir as consequências de suas ações, dizer para ela: – Que pena, querido, não podemos ir ao parque porque você não quer usar o boné e faz muito sol. Como não queremos que você se queime, deixaremos para ir ao parque outro dia, se não fizer sol. Como conseguir que uma criança de três anos coma salada? Colocando salada na refeição dela. E se não come? Coloque-a nas seguintes refeições até que coma.

– Filha, comece a limpar a sujeira que você fez! Havia dito que se tornasse a fazer isso, ficaria sem ver desenhos por dois dias.

    Antes de dois anos, aproximadamente, a criança ainda não tem capacidade de obedecer, sendo necessário tirar do alcance dela objetos perigosos e chamar a atenção cada vez que os toque. Ter presente que bebê não zomba, e afirmar ao contrário é fomentar a desconfiança entre ele e seus pais, o que intensificará a desatenção e fará surgir nele a necessidade de chamar a atenção. Os bebês quando choram ou se queixam, pedem a atenção dos pais para resolver suas necessidades básicas e afetivas. É necessário ajudá-los a regular seus hábitos de sono e de comida, por exemplo, mas sem que isso prejudique a necessidade que eles têm de serem cuidados, e sem cair no condutismo, que reduziria a relação com eles a meros sujeitos passivos programáveis por estímulos externos (prêmios e castigos), condicionando, assim, a forma deles agirem.

    A partir de dois anos, aproximadamente, a criança tem o vínculo de confiança consolidado com seus pais, quando estes atenderam suas naturais necessidades. A partir desse momento, a criança começa a ter capacidade de obedecer, sendo a ocasião de fazê-la compreender as consequências naturais de suas ações (como a de não querer utilizar o boné para brincar no sol). Assim, a criança começa entender uma das leis principais do mundo em que vive: somos livres para fazer o que queremos, mas não livres das consequências naturais que nossos atos provocam.

3 – A criança deve aprender a conviver com a frustração

    O mundo não age necessariamente como queremos. A birra da criança de dois anos, por exemplo, nada mais é que uma consequência da frustração que causa a ela saborear a realidade de que “se o mundo não age como eu quero, então me aborreço para que seja como eu quero”. Se os pais cedem, reforçam a falsa esperança da criança de que o mundo transigirá sempre que ela quiser. Porém, ao não ceder os pais deixam claro que as ações têm consequências naturais, e que as pessoas não se comportam de acordo com os desejos da criança, ajudando-a, assim, a descobrir o que é a realidade. Quanto antes as crianças compreenderem isso, menos birras lançarão sobre seus pais.

    O mundo tem suas leis: o sol queima e, se não nos protegermos dele, nos queimamos, mesmo que não queiramos tal desconforto. Cada família vai encontrando seu jeito mais eficiente de funcionar, e pode valer-se das leis da natureza ou do comportamento correto: se para ir ao parque em dia ensolarado, a mãe diz que é para usar o boné, e a criança não o faz, simplesmente não se vai ao parque. Não é necessário guerrear nem chantagear ao oferecer prêmios de consolo. A consequência natural é não ir ao parque, a fim de que a criança entenda e assuma as consequências de seus atos. Se os pais fizerem isso sem dramatizar, mas com bom humor e de comum acordo, a criança os verá seguros e não irá manipulá-los com birras. Os pais possuem pouco tempo, mas devem saber que controlar a birra requer paciência, porque educar é um processo lento.

4 – Não dar tudo o que a criança pede

    Na criança se encontra as sementes do conhecimento, o que a predispõe para pesquisar, comparar, saborear e manipular para conhece; Aristóteles dizia que elas também estão predispostas para adquirir virtudes. Mas, se estão saturadas de objetos de consumo, logo perdem a curiosidade e a capacidade de esforçar-se para chegar à excelência. O consumismo satura os sentidos e as potências da alma, e faz desaparecer o interesse por aprender e ser criativo; e quando a isso se soma a ausência de limites, é sufocada também a predisposição para as virtudes e a capacidade de se esforçar.

    Aristóteles, na Ética a Nicômaco, diz que a educação certa consiste em saber alegrar-se e sofrer pelas coisas que valem a pena, e que devemos ser educados para isso desde a infância. A invenção ou descoberta, que é a forma mais elevada de conhecer, surge de maneira natural nas crianças, porque elas possuem a tendência natural para a verdade, bondade e beleza. Mas essas capacidades não brotam no caos, no barulho contínuo, na saturação dos sentidos com imagens e na falta de limites e na indisciplina.  

    O que é bom demanda esforço. Miguel Cervantes dizia que “o caminho da virtude é muito estreito e o caminho do vício, amplo e espaçoso”. A criança mimada, paparicada, a quem não se coloca limites, terá a vontade fraca por lhe faltar as asas do esforço e da sobriedade. Ao contrário, a criança que conhece seus limites, será verdadeiramente livre, rica (tem mais quem precisa de menos) e imensamente feliz. Maria Montessori dizia que deixar a criança que ainda não desenvolveu sua vontade fazer o que quiser, é atraiçoar seu sentido da liberdade. Podemos entender essas palavras da genial educadora no sentido de que a criança a quem não se impõe limites, desenvolverá maus hábitos e se tornará escrava deles, já que a liberdade pressupõe o desenvolvimento das virtudes da temperança e do autocontrole, conseguidas mediante o esforço e o desenvolvimento de bons hábitos.

*Texto adaptado por Ari Esteves, com base no capítulo “Ter tudo? Estabelecer e fazer respeitar os limites”, de Catherine L’Ecuyer, em seu livro “Educar na realidade”, Editora Fons Sapientiae, 3ª edição, São Paulo, 2016. Desenho de Michel Pereira (Instagram @michelvp.oficial); imagem de Anastasia Shuraeva

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