1 – Dimensão afetiva e racional da pessoa humana. 2 – Afetividade domina a criança até os seis anos. 3 – A importância da criança ser ordenada desde a primeira infância. 4 – Hábitos racionais ou virtudes. 5 – Educação da vontade nas diferentes idades. 6 – Ter sempre presente na educação da criança.
1 – Dimensão afetiva e racional da pessoa humana
Para ajudar a criança a ganhar bons hábitos ou virtudes é necessário compreender que existe na pessoa humana uma dimensão afetiva (os animais também possuem afetividade ligada aos instintos) e uma dimensão racional. Nos afetos residem os sentimentos, as emoções e paixões, além dos instintos de preservação (alimentação), segurança (abrigo) e procriação. Como dimensão propriamente humana está a racionalidade, que envolve a inteligência e a vontade: os afetos se adestram, a inteligência se instrui, a vontade se educa!
2 – Afetividade domina a criança até os seis anos
Não se pode falar em racionalidade na criança até aos seis anos, porque ainda não estruturou seu pensamento. Nesse período ela pode adquirir bons hábitos, que se transformarão em virtudes ao serem racionalizados, a partir dos seis anos (Fundamental 1). Antes disso, falaremos apenas de hábitos, cujo mecanismo é a repetição. Tornar uma criança virtuosa é muito rápido, se ela desde as primeiras idades começar a fazer sua cama, manter organizados seus brinquedos e roupas, acostumar-se com os horários estabelecidos. Se a criança não ganhou bons hábitos até aos seis anos, será mais difícil adquirir virtudes na adolescência. Os hábitos são uma preparação ou trampolim para as virtudes, que por estarem na esfera racional ou volitiva, exigem que a criança faça escolhas livres e conscientes: − “Eu quero comer verduras porque não quero ser um moleque enjoado e cheio de manhas!”, tal afirmação baseia-se em conhecimento intelectual e na decisão livre da vontade.
3 – A importância da criança ser ordenada desde a primeira infância
Mas antes da fase racional, a criança pode acostumar-se a agir bem ao viver aspectos de ordem em seus brinquedos, ao ajudar nos pequenos encargos do lar, ao comer e dormir na hora certa, ao vestir-se sozinha, ao arrumar sua cama. É interessante o que conseguiu uma mãe com o filho que começava a andar em pé: após trocar a fralda dele, ensinou-o a levar a suja até o cesto de lixo. Mesmo que não compreendesse o motivo para agir assim, a criança cumpria prazerosamente a tarefa pela segurança da rotina e por agradar a mãe. Investir muito na afetividade dos filhos, principalmente nos aspectos de ordem, é missão importante dos pais: se uma criança bate, joga o sapato, atira no chão os talheres é porque não está educada na afetividade, e pouco se exige dela.
A criança deve ganhar autonomia disciplinar ao cumprir as tarefas que lhe são ensinadas, não devido à presença da mãe, mas porque tornou-se independente. Para isso, é importante exigir que desde as primeiras idades seja ordenada. O hábito da ordem, que só se adquire com exercícios diários, tem quatro aspectos: ordem material, ordem temporal, ordem afetiva e ordem mental:
Ordem material: a partir de um ano de idade a criança já pode começar a viver a ordem material ao guardar seus brinquedos e roupas nos locais que lhe foram indicados. A mãe não deve fazer isso por ela, mas precisa ensiná-la a fazê-lo, repetindo várias vezes a ação junto com a criança, até que esta passe a agir sozinha. Cada passo nesse sentido é uma conquista. Se os pais não vencerem a batalha dos aspectos materiais, os filhos sempre desejarão que os outros façam as coisas por eles, tornando-se pequenos imperadores cercados de servos. A criança que não desenvolveu bons hábitos porque se acostumou a não arrumar seus brinquedos e roupas, a ficar na cama ou comer fora de hora, a assistir desenhos o dia todo, etc., não terá forças para viver as virtudes aos seis anos, pois sua vontade estará escravizada por uma afetividade débil e desordenada.
Ordem temporal: a criança se sente segura nas rotinas. Para isso, ela precisa começar a cumprir horários. A afetividade começa a entrar nos trilhos com a ordem material e temporal: ter horário de brincar e parar; ter horário para tomar banho, jantar e dormir. O hábito do sono exige um ritual, sendo importante que a criança vista o pijama e não vá para a cama com outra roupa. Quando a criança é desordenada e agitada na hora de dormir, significa que está indisciplinada na ordem temporal do sono, pois assiste TV ou faz atividades que já não convém nesse horário, e que a impedem de conciliar o sono.
Ordem afetiva: É preciso dizer “não” à criança, sem medo de contrariá-la, a fim de que saiba esperar pelas coisas e controle seus afetos. A criança não deve assistir desenhos sempre que quiser; ao divertir-se, deve apanhar um brinquedo de cada vez e pacientemente esgotar suas possibilidades e não pegar outro a cada instante, a fim de dominar a tendência à inconstância. Se a mãe cede a todos os caprichos da criança, é porque teme que ela fique triste. Agindo assim, a mãe logo perderá autoridade, além de tornar caprichosa e pouco criativa a criança. A educação afetiva inclui a alimentação: comer de tudo e no horário, sem permitir dengos (apresentar a comida de várias formas).
Ordem mental: mesmo que não tenha a racionalidade desenvolvida, a criança com quatro anos já deve perguntar se pode ou não fazer tal coisa. A boa explicação começará a desenvolver a racionalidade dela. A ordem mental também pode ser desenvolvida com jogos. Para isso, diminuir o tempo de desenhos animados, que torna a criança passiva e preguiçosa para pensar e imaginar brincadeiras, além de criar dificuldades com aritmética e disciplinas que exigirão atenção no Fundamental 1. Substitua os desenhos por jogos de memória, de discorrer, dominó, damas, xadrez, lego, cubos, quebra-cabeça, etc. A criança que sabe jogar saberá estudar e cumprir seus deveres. Tanto os jogos como o esporte fomentam muitas virtudes e habilidades sociais, pois exigem seguir regras e respeitar os “adversários”. Além disso, a criança precisa aprender a brincar sozinha (parear cartas de figuras iguais, lego, montar quebra-cabeça, entre outras), pois o silêncio exigido por essas brincadeiras ajuda fixar a atenção − prejudicada hoje pela velocidade das imagens midiáticas −, e despertará a interioridade da criança, ensinando-a a resolver sozinha seus pequenos problemas e a fará ganhar autonomia e independência para agir. Após brincar, a criança deve guardar seus objetos. Pais, não interrompam o silêncio e a atenção das crianças!
4 – Hábitos racionais ou virtudes
Aos seis anos (Fundamental 1) a criança entra no mundo racional e tem necessidade de conhecer a verdade sobre as coisas que a cercam: é a fase das perguntas incessantes que irão ilustrar a sua inteligência. Enquanto não praticar racionalmente suas ações, a criança pode adquirir bons hábitos de forma, digamos, mecânica, pois estes são bases para as virtudes. Passar do hábito à virtude significa que a criança começou a agir com inteligência e vontade próprias: − “Quero tomar banho frio de manhã para ficar forte”. – “Quero comer salada para aprender a comer de tudo”. – “Quero ajudar minha mãe nas tarefas da casa”. – “Quero ter um horário diário para estudar”. Quando a criança compreende que deve fazer algum sacrifício, então alcançou o nível da virtude, que exige querer (inclinação da vontade) algo pensado pela inteligência, mesmo que afetivamente no início não agrada realizar.
Se a afetividade da criança estiver ajustada, ela terá prazer em ser corajosa, constante e laboriosa, que são escolhas racionais, e saberá enfrentar os sentimentos contrários ou a falta de gosto para estudar ou arrumar suas coisas. A virtude logo dará à criança grande alegria ao ser colocada em prática. Muitos pais perdem essa batalha ao não exigir que os filhos cumpram as tarefas, quando estes manifestam falta de gosto em fazê-las: se não forem exigidos, nunca aprenderão a cumprir e amar seus deveres.
5 – Educação da vontade nas diferentes idades
O terceiro momento da educação é o da vontade, onde reside a inclinação para o amor e o exercício da liberdade e das escolhas livres. A inteligência ao revelar uma verdade inclina a vontade, que é o apetite da inteligência, para aderir a essa verdade, e os afetos, quando ordenados, apoiam a decisão da vontade. Uma afetividade desajustada – preguiçosa ou indolente – domina a vontade e pode impedir a pessoa decidir bem.
Ao ter adquirido até seis anos o bom hábito de ficar quinze minutos diários numa mesinha para fazer desenhos, folhear revistas com historinhas em imagens, além de jogos que exigiam concentração, será fácil a criança dedicar mais tempo diário ao estudo no Fundamental 1. Mas, se nunca estudou, como fará isso na adolescência?
Dos seis aos dez anos a criança deve aprender a ser generosa: compartilhar coisas, convidar os amigos para brincar em casa com seus brinquedos, doar às crianças de um orfanato os brinquedos que já não utiliza, deixar que as pessoas escolham os melhores lugares, desprender-se do tempo e ajudar a mãe a colocar a mesa para as refeições, dar lugar no jogo para outros brincarem, participar de jogos ou atividades que não a atraem tanto a fim de conviver com os demais, compartilhar o lanche, emprestar a bola, ajudar os amigos com dificuldades em alguma matéria escolar. Se gosta de xadrez, poderá organizar um campeonato na escola; se aprecia a leitura de contos, poderá ler para a avó.
Se a mãe foi possessiva e protegeu demais a criança até os seis anos, ao evitar que fizesse sacrifícios, terá transformado o filho numa maria-mole. Dos seis aos dez anos a criança deverá desenvolver a rijeza de pular da cama no horário previsto, não reclamar da comida ou da temperatura, não dormir à tarde, ir à padaria com chuva, sair de casa e enfrentar a fila do ônibus: são atividades de embate que favorecem a capacidade de enfrentar dificuldades. Neste período é importante a atuação do pai, que deverá fazer excursões mais exigentes: subir morros, andar vinte quilometro de bicicleta, incentivar o filho a desenvolver-se bem em algum esporte, ir ao campo em dia de chuva.
Dos onze aos quatorze anos (Fundamental 2), fase da puberdade, entrará mais fortemente o tema da sexualidade (assistir a live 43 de João Malheiro – Youtube jebmalheiro). A fortaleza é a grande virtude do Fundamental 2 (no Fundamental 1 foi a temperança ou autodomínio).
As virtudes do ensino médio são temperança (compreender profundamente a sexualidade humana, que é diferente à do animal); prudência para julgar e atuar bem; ter ideais e saber utilizar a liberdade para se comprometer com algo que vale à pena, e a serviço dos demais; ser responsáveis pelas próprias ações (os pais já não interferem muito, mas podem ajudar o jovem a que tenha iniciativas e as assuma responsavelmente). É o momento da descoberta da própria identidade, se foram desenvolvidas as virtudes dos períodos anteriores. O jovem deve conhecer suas qualidades e virtudes para potenciá-las ainda mais, e reconhecer seus defeitos de temperamento e caráter para corrigi-los, a fim de saber conviver com as pessoas e escolher com acerto uma profissão. Ao ter ajustada a sua afetividade, inteligência e vontade, saberá conduzir-se e responder com segurança à indagação “para que existo e qual a minha função neste mundo?”.
6 – Ter sempre presente na educação da criança
1) Crescer em virtudes é necessário para educar bem; 2) Não se deixar levar pelo falso raciocínio – fruto do comodismo – de que o tempo resolverá os problemas comportamentais das crianças; 3) Ter um plano educativo para cada filho; 3) Ser persistentes ao começar e recomeçar cada dia a tarefa de educar; 5) Manter um tempo diário de leitura sobre a educação dos filhos, mesmo que sejam dez ou quinze minutos (esse investimento de tempo evitará dores de cabeça em futuro próximo).
Texto produzido por Ari Esteves para o Boletim Pedagogia do Comportamento, baseado na live 61, de João Malheiro, com o título “A virtude da ordem e a disciplina e equilíbrio emocional da criança”, disponível no canal do Youtube de Jebmalheiro.