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  • Ser ou ter: a educação da personalidade

    Ser ou ter: a educação da personalidade

    1 – Ser ou ter: a educação da personalidade. 2 – Identidade pessoal não se confunde com objetos que se possui. 3 – Não somos as nossas aptidões. 4 – Os dons que possuímos recebemos gratuitamente. 5 – A visão utilitarista reduz o conceito de pessoa. 6 – A dignidade humana está em nosso eu. 7 – A criança compreende sua própria dimensão espiritual. 8 – Enriquecer o eu

    1 – Ser ou ter: a educação da personalidade

        Todos necessitamos formar a nossa personalidade, sem confundir o que somos com o que temos. Uma das necessidades mais profundas do homem é a de identidade: carecemos saber quem somos diante dos próprios olhos. No plano mais superficial, essa necessidade de ser, de identidade, tenta ser suprida pela necessidade de ter, pela posse de bens para mostrar uma imagem externa.

    2 – Identidade pessoal não se confunde com objetos que se possui

        A tentativa de suprir a necessidade de ser pela de ter algo, traz decepções, pois sendo a felicidade humana de ordem espiritual, só nos plenificamos no amor. A mera posse de objetos buscada como um fim último instala o desconcerto e o vazio na alma, porque objetos não preenchem a ânsia de felicidade que todos trazemos no coração. Para preencher o vazio que uma posse deixa depois de usufruída, costuma-se ir atrás de outra até que uma pessoa percebe que é querida não pelo que é, mas pelo que possui. Surge, assim, a pior das solidões, como a de “Timon de Atenas”, conto de Shakespeare, ou “A morte de Ivan Ilitch”, de Tolstói, obras que vale a pena ler, pois transmitem valores a serem assumidos na vida.

    3 – Não somos as nossas aptidões

        Outras vezes se confunde o ser com o ter determinadas capacidades intelectuais, competências ou aptidões. E quando se perde essas qualificações por velhice, acidente ou doença, a pessoa julga erradamente que perdeu o seu valor, porque confunde novamente o ser com o ter. É bom que percebamos isso para não instalar uma crise existencial diante de um fracasso ou incapacidade física ou mental.

        Não se pode identificar a pessoa pela soma de suas aptidões, pois a dignidade humana está acima de visões utilitaristas: somos pessoas cuja alma foi criada à imagem de Deus, e Ele nos ama por isso e não por nossas habilidades, que aliás Ele mesmo nos deu. A autoidentificação com o bem que podemos produzir conduz ao orgulho de julgar que as qualidades possuídas não as recebemos de dEle. Sentir-se capaz de fazer isso ou aquilo é bom, se a intenção é servir aos demais por amor, seja como alfaiate, cozinheiro, médico, sapateiro, advogado…

    4 – Os dons que possuímos recebemos gratuitamente

        Para fugir da autossuficiência ou orgulho produzido por aquilo que somos capazes de realizar, é bom ter presente que recebemos gratuitamente de Deus as capacidades que pudemos desenvolver. Apropriar-se delas para a vangloria − glória vã − é um roubo sacrílego. Todos dependemos um do outro, já que não somos autossuficientes (nem os países o são): se tivéssemos que cozinhar ou produzir nossas roupas, muitos morreríamos de fome ou andaríamos andrajosos. Mas necessitamos dos demais não por aquilo que podem produzir, e que carecemos, mas porque temos um coração para amar e ver em cada pessoa um outro eu.

    5 – A visão utilitarista reduz o conceito de pessoa

        A visão estreita e utilitarista que valoriza o ser humano pelas posses ou qualidades pessoais, coloca muitas barreiras aos pobres, aos indefesos e àqueles que têm alguma necessidade especial. Isso é péssimo porque leva a sociedade a valorizar apenas aos que são economicamente ativos, ou pelos bens que se possuem, mesmo que tenham sido adquiridos de forma imoral. 

    6 – A dignidade humana está em nosso eu

        A dignidade do ser humano está acima do que cada possui ou sabe fazer. Nossa alma nos faz ter a consciência de que existe um eu que não se confunde com o pé, mãos, inteligência ou vontade. Esse eu espiritualizado nos torna imortais, livres e capazes de amar, dando unidade à nossa personalidade.

        A grande educadora Helena Lubienska, discípula de Maria Montessori, afirmava que a finalidade da educação é o estabelecimento, na nossa vida, da primazia do espírito. Ela consagrou todo o seu trabalho para definir às crianças o termo espírito. Diz Lubienska que se deve explicar às crianças que é o espírito quem comanda o nosso corpo, e que a alma é aquilo que pensa e aquilo que sente: o corpo é o que você vê, e o espírito é o que diz eu.

    7 – A criança compreende sua própria dimensão espiritual

        Lubienska afirma ela ser primordial que a criança em pé sobre as próprias pernas não se identifique com o seu corpo, mas que tome consciência de que ao dizer eu, estará designando aquilo que governa o seu corpo e a sua alma, seus músculos e pensamentos. A vida da criança é uma conquista e a consciência de si é o seu triunfo: − “Professora, eu disse para as minhas pernas caminharem, e elas caminharam!”, afirmou uma criança à professora Lubienska, que a ouviu com grande emoção, pois era a confirmação de que as crianças são capazes de compreender a sua dimensão espiritual, e desenvolver uma personalidade consciente e responsável.

        É fundamental que a criança desde o começo considere a conquista do seu corpo como um trabalho pessoal, fruto dos esforços de sua alma racional comandada pelo seu eu. Agindo assim fará de seu corpo e de sua mente instrumentos dóceis ao seu espirito ou eu espiritualizado.

    8 – Enriquecer o eu

        O nosso eu precisa ser enriquecido com o conhecimento profundo da fé (alicerce), com a instrução profissional, com a ilustração da cultura, com o estudo dos problemas que afetam a sociedade atual para colaborar nos assuntos relacionados à família, ao casamento, ao conceito de pessoa (o que é ser homem e ser mulher), à sexualidade, entre outros temas. E isso tem uma razão de ser: não podemos dar o que não somos e não podemos ensinar o que não sabemos.

        Como diz Maria Betânia na música Tocando em frente, de Almir Satter, “Cada um carrega o dom de ser capaz e de ser feliz”. A consciência de que Aquele que nos deu poucas ou muitas capacidades nos ama não por isso, mas porque somos seus filhos, feitos à Sua imagem e semelhança, nos dá o dom de ser capaz de amar e de viver e ser feliz.

    Texto produzido por Ari Esteves, com base nas obras “A liberdade interior”, de Jacques Philippe, Edições Shalon, e “A educação do homem consciente”, de Helena Lubienska de Lenval”, Editora Kirion, Campinas, 2018.

  • As motivações humanas: o que o leva a agir?

    As motivações humanas: o que o leva a agir?

    1 – Níveis de motivações. 2 – Motivações Extrínsecas. 3 – Motivações Intrínsecas. 4 – Motivações transcendentes. 5 – Influência das motivações sobre os juízos. 6 – Dois níveis de motivações transcendentes. 7 – Quanto maior a entrega aos demais, maior a felicidade. 8 – Reforçar na família as motivações transcendentes

    1 – Níveis de motivações

        Podemos situar os motivos que levam as pessoas a tomar decisões em três níveis:

    Motivações extrínsecas: materialistas = Ter (comer, vestir, possuir objetos)
    Motivações intrínsecas: subjetivas = Saber (cultura, ciência, arte)
    Motivações transcendentes: os outros = Dar (amizade, lealdade, amor, Deus)

    2 – Motivações Extrínsecas

        Ocorrem quando a decisão traz consigo o esforço para fazer frente às necessidades materiais justas e necessárias para a vida. Mas quando focadas na busca do supérfluo desviam-se do caminho reto. A estimulação que emprega o sistema de prêmios e castigos reforça as motivações extrínsecas ao valorizar as coisas materiais. O consumismo e o materialismo fomentam a ânsia de dar rédeas soltas ao prazer dos sentidos pelo mero fato de satisfazê-los, e se tornam o limite negativo desta motivação, que ao valorizar demasiadamente os aspectos materiais, faz a pessoa circunscrever sua vida e recursos na busca de bens ligados aos instintos: comer, beber, divertir-se… Quem vive nesse nível de vida tão primário desconhece as riquezas ligadas ao intelecto, e pouco tempo e ânimo terá para os bens do espírito e a ajuda aos demais.     

    3 – Motivações Intrínsecas

        Acontecem essas motivações quando a satisfação está na própria realização de uma ação, sem necessidade de receber nada de fora: estudar porque há satisfação em aprender; provar para si que pode ser o melhor profissional em determinada área ou conhecedor profundo de um assunto; praticar um esporte ou hobby pelo agrado em realizá-lo. São ações que apoiam a boa autoestima. O limite negativo dessas motivações ocorre quando os interesses pessoais se posicionam acima das necessidades dos que estão ao redor, que deixam de ser atendidos seja no plano familiar, profissional ou social. O egoísmo e o orgulho são dois perigos que rondam as motivações intrínsecas.

    4 – Motivações transcendentes

        São as mais próprias dos seres humanos, e as que mais felicidade trazem, pois se assentam no amor. São motivações que se sobrepõem às inclinações instintivas ou sentimentais. Diretamente ligadas à vontade guiada pela razão ou inteligência, quando esta não age por interesses pessoais, conduzem a pessoa a atuar não por vantagens, mas para servir aos demais em suas carências. Realiza-se com elas o sentido religioso ou finalístico da própria vida ao colocar em prática os dons recebido de Deus para o bem dos outros.

        São motivações transcendentes as ações que se praticam por amizade, lealdade, amor a Deus e às pessoas. A referência a Deus, fim último de todos os homens, torna essa motivação plenamente transcendente ao hierarquizar todos os motivos de atuação em função de agradar a vontade divina, que é a ação mais acertada da vida humana. O limite negativo da motivação transcendente ocorre ao se retirar Deus como fim último das ações, a fim de praticar atos de solidariedade para buscar o aplauso e o reconhecimento dos homens, em nítida atitude farisaica ou de falta de retidão de intenção.

    5 – Influência das motivações sobre os juízos

        O juízo sobre as ações dos outros pode ser influenciado pelo nível motivacional próprio. É importante ter em conta essa realidade na hora de educar as pessoas. Quem submerge ao forte influxo das motivações extrínsecas terá grande propensão para avaliar tudo em função do valor material ao qual reduz a sua vida: pensará que as pessoas sempre agem por esses motivos, e se alguém afirma que aprecia mais a sabedoria que o dinheiro, julgará que no fundo quer o conhecimento para ganhar mais dinheiro. Ao ver alguém doar seu tempo ou recursos a outro, pensará que o faz para receber algo em troca. Quem circunscreve sua vida ao nível materialista é incapaz de perceber que os outros podem agir movidos pela necessidade dos demais.

        Só a pessoa equilibrada em cada um dos três níveis de motivação está em condição de julgar e entender as atividades dos outros.

    6 – Dois níveis de motivações transcendentes

        A motivação transcendente tem dois níveis: o primeiro é agir por amor aos outros; o segundo é agir por amor a Deus. Esses dois níveis não se excluem, mas se integram: amar aos demais aproxima de Deus; amar a Deus garante e protege o amor aos outros das imposições do egoísmo pessoal. Agir para agradar a Deus como motivação última é a melhor maneira de vencer as inclinações egoístas do próprio eu.

        O comportamento moral se insere nas motivações transcendentes, porque a vontade procura realizar o bem de modo desinteressado. Neste terceiro nível motivacional estão as ações que na família e nas demais instituições reforçam o amor entre os seus membros: a ajuda mútua, a compreensão, o espírito de equipe, a confiança, a colaboração.

    7 – Quanto maior a entrega aos demais, maior a felicidade

        Não existe limite negativo nas ações retas que tenham por fim acudir às necessidades das outras pessoas. Quanto maior for a entrega aos demais, maior será a satisfação ou a felicidade pessoal. O limite dessa entrega se encontra em nós mesmos: não podemos oferecer o que não temos; não podemos ensinar o que não sabemos; não podemos dar o que não somos. Portanto, potencializa-se a entrega aos demais quando se cresce como pessoa livre e responsável, aproveitando bem o tempo para desenvolver as qualidades pessoais. Aquele que perde demasiado tempo consigo, seja curtindo demasiadamente músicas, games ou outros hobbies, nunca saberá como se é feliz ao dedicar tempo aos demais.

    8 – Reforçar na família as motivações transcendentes

        Hoje, para efeitos educativos, e uma vez que o ambiente e os meios de comunicação fundamentam suas intervenções nos níveis 1 e 2, se faz mais necessário reforçar na família as motivações transcendentes, não unicamente porque são as mais próprias dos seres racionais, mas porque com elas se combatem as influências dos modismos consumistas e o afã de gastar demasiado tempo consigo.     

        Os pais devem transmitir uma educação equilibrada ao auxiliar os filhos a identificarem suas motivações nos três níveis, e ajudá-los a compreender que a decisão deles será tanto mais humana quanto mais souberem agir por motivações que os levem a servir com suas qualidades ou dotes pessoais. Para educar na transcendência o exemplo dos pais é fundamental. Se na família há atitudes de solidariedade para com os mais carentes; se a aspiração magnânima de realizar grandes ideais de serviço aos demais está presente, os filhos se moverão dentro dessas motivações.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base na obra “Educar hoje, de Fernando Corominas, Editora Quadrante, São Paulo, 2017.

  • Educar para a temperança

    Educar para a temperança

    1 – Temperança é afirmação. É senhorio da conduta. 2 – Os frutos a temperança. 3 – As marcas e as modas valorizam o ter e não o ser. 4 – A temperança é iniciada na vida familiar. 5 – Sobriedade nos hobbies e divertimentos. 6 – Os pais não devem projetar-se nos filhos.

    1 – Temperança é afirmação. É senhorio da conduta

         Utilizar os bens que possuímos ou o tempo que dispomos é facilitado pela virtude da temperança que, após a avaliação entre o razoável e o caprichoso, feito pela inteligência, dá forças para agir com medida em tudo: trabalho, descanso, música, esportes, refeições… O verdadeiro sentido dessa virtude não está na negação do que atrai ou é gostoso, mas na beleza ou afirmação que torna a pessoa dona de si mesma ao colocar ordem e equilíbrio na sua afetividade (sentimentos, emoções, paixões), afim de que esta não assuma o papel reitor das ações que cabe à inteligência.

         Há pessoas atadas aos seus objetos e rotinas, e quando não podem dispor de sua cadeira favorita, ouvir as notícias antes de sair de casa, ou porque não puderam fazer o plano esportivo para atender a família, se revelam mal-humoradas e egoístas. Quem diz “não” a si para vencer na luta interior contra paixões descentradas, afirma o “eu” e se torna livre dos laços sutis que tolhem a liberdade. Dizer “sim” a tudo que agrada relativiza a vida e transforma a pessoa em marionete de gostos e sentimentos. Quem vive de sensações pontuais ao julgar que isso é a felicidade, será um eterno insatisfeito que irá de um lado para outro em contínua fuga de si mesmo, pois os sentimentos, sendo mutantes, impedem de perseguir ideais valiosos, que normalmente custam esforço. Isso não significa que os sentimentos e os apetites sensitivos sejam maus, pois seria negar a própria natureza humana que se vale deles para realizar com garra e ânimo o bem que se tem em vista.

    2 – Os frutos a temperança

         Quando os pais negam aos filhos algum capricho para educá-los no autodomínio ou na temperança, é comum que estes perguntem “por que não podem fazer tudo o que desejam”, “por que devem comer algo que não gostam”, ou “qual o motivo para não passar horas na internet”. De bate-pronto, e para sair do sufoco, a primeira resposta poderia ser “porque não podemos permitir essa perda de tempo”, ou “porque você ainda tem outros deveres a cumprir”, ou “para que você não se torne um garoto caprichoso que só faz o que gosta e não o que deve”. Porém, a verdadeira resposta seria mostrar que a temperança ou sobriedade é senhorio e afirmação − não negação − que facilitará o império da inteligência sobre as próprias ações, impedindo que o comando seja das paixões e instintos.

         A temperança deve ser proposta como um estilo de vida que exige a valentia de não reclamar do frio ou do calor, dos trabalhos ou incomodidades materiais, dos achaques ou indisposições da saúde, que devem ser resolvidas sem manhas ou choradeiras. A paz e a serenidade são frutos dessa virtude, pois ao colocar ordem no mundo das inclinações apetitivas, vive-se a alegria do dever cumprido, e não a posterior tristeza que traz a comodidade e a preguiça àquele que descumpriu suas obrigações.

         A temperança ou sobriedade não é um fardo, mas galhardia, elegância e soltura. Quem não se serve de todos canapés, acepipes e bebidas que os garçons servem continuamente nas festas, revela-se como alguém atraente e desprendido, não subjugado pelo instinto ou paixão de comer e beber.

    3 – As marcas e as modas valorizam o ter e não o ser

         Há marcas e modas que propõem um estilo de vida para identificar umas pessoas e diferenciar outras. Fazem crer que possuir determinada marca assegura a inserção social e a aceitação em algum grupo: ou seja, não valorizam a pessoa pelo que é, mas pelo que tem. Tal estilo de vida atinge também os adolescentes, pois o consumo entre eles não está determinado pelo desejo de ter, como ocorre com as crianças, mas como maneira de expressar a personalidade ou manifestar a sua posição entre os colegas.

         O consumismo incita as pessoas a não se conformarem com o que possuem, instigando-as a adquirir o último lançamento do mercado; a trocar o computador, o carro e o celular a cada ano; afirma que a pessoa se torna especial se utilizar determinada marca de roupa esportiva ou social. Essas falsas apreciações são facilitadas pela ausência de senso crítico e pelo errado entendimento de que autoestima significa não negar-se nada, nem suportar o menor tipo de privação. Com tudo isso, a paixão de consumir ganha campo aberto para deitar e rolar.

    4 – A temperança é iniciada na vida familiar

         A vida familiar é o grande campo de treinamento para a temperança ou sobriedade; é onde adultos e crianças aprendem a não fazer cara azeda para praticar essa virtude, pois associam-na à alegria de viver sem falsas ataduras e ao serviço aos demais. A família é também o âmbito onde crianças e adolescentes aprendem a economizar e a dispor de pouco dinheiro para gastar, pois só assim compreendem o esforço dos pais para obtê-lo. 

         Os filhos começam a viver a temperança ao verem os pais renunciarem com elegância ao que consideram caprichos. E como não basta o bom exemplo para educar, explicam aos filhos os motivos para não comer ou beber demais; para determinar os tempos de divertimentos; para ter moderação nas relações sociais, esporte e passeios; informam o quanto custam as coisas para que as crianças valorizem o que possuem, e  porque seus pais e avós não tiveram a oportunidade de tê-las; não dão várias camisas de times de futebol para evitar o supérfluo; fomentam a alegria de doar os brinquedos que não utilizam para crianças de creches, orfanatos ou comunidades pobres; fazem perceber que coleções de pares de tênis, roupas, brinquedos e objetos de esporte revelam falta de justiça diante dos mais necessitados. 

         As refeições são o primeiro campo para educar os filhos na virtude da temperança, pois o controle do apetite é caminho para o autodomínio e a edificação de uma personalidade sadia: utilizar os talheres com elegância, aguardar todos se servirem antes de comer, não abarrotar o prato com comida, comer sem reclamar do que não gostou, não deixar no prato algo que se serviu, sair da mesa não saturado e com um pouquinho de fome, não comer fora de hora…

    5 – Sobriedade nos hobbies e divertimentos

         É essencial à sobriedade o uso harmonioso do tempo para atender a tudo: família, trabalho, deveres de cidadãos, amizades, trato com Deus. As crianças precisam ser ensinadas a distribuir o tempo entre as diversas atividades para não adquirirem vícios (ou hábitos ruins) que deformam o caráter: dormir fora de hora; dedicar tempo demais à televisão, videogames e computador; praticar hobbies em excesso; gastar demasiadas horas com trabalhos escolares em prejuízo da caridade ou amor aos demais (por exemplo, desatendendo os pais e os irmãos). 

         Educa-se na temperança em clima de liberdade, porque não se vive essa virtude como algo imposto pelos outros, mas como conduta desejada e amada. Também não se educa com uma atitude protetora que toma o lugar da vontade da criança, ou com modos autoritários que suprimem o crescimento da personalidade e impedem de assumir como próprios os valores das virtudes.

    6 – Os pais não devem projetar-se nos filhos

         Quando os pais impõem a sua personalidade e impedem que os filhos se manifestem como são, transformam estes em pessoas sem caráter. Devem criar oportunidades para os filhos tomarem decisões de acordo com a idade, tendo presente as consequências dos seus atos: se escolheram ir ao shopping e lá chegando se arrependem e pedem para ir ao parque, não se vai e explica-se que essa foi a escolha deles).

         Certo garoto, caprichoso e enjoado, não quis comer o que lhe foi oferecido; e ao perceber que sua mãe não lhe faria um prato diferente, lançou a comida contra a parede, que ficou suja por vários meses a fim de que ele tivesse sempre presente as consequências da sua ação. Com isso, os pais uniram o respeito à liberdade do garoto com a necessária fortaleza para não transigir com o que era um simples capricho: queriam o melhor para o filho e tinham ideias claras sobre o que poderia ser um mal para ele. Substituir as crianças nas ações que elas conseguiriam fazer (vestir-se sozinha, servir-se na mesa, amarrar os sapatos, guardar suas roupas e brinquedos, ter encargos familiares, etc) é outro modo de impedir a autonomia delas.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base em lições de J. De la Veja, J.M. Martín e David Isaac.

  • O papel das virtudes

    O papel das virtudes

    1 – Os sentimentos e paixões podem impedir de agir corretamente. 2 – Juízo de eleição e juízo de consciência podem entrar em conflito. 3 – Onde entram as virtudes? 4 – Só a inteligência é capaz de ver todos os aspectos da realidade. 5 – A pessoa virtuosa não se deixa enganar pelas tendências interiores. 6 – A afetividade da pessoa bem formada deseja o que convém.

    1 – Os sentimentos e paixões podem impedir de agir corretamente

         Dizer que uma vontade é débil ou fraca significa afirmar que débil ou fraca é a pessoa que por meio de sua inteligência e vontade atuou de modo errado e não de acordo com um juízo de valor correto, pois se deixou influenciar por sentimentos ou paixões contrárias à verdade que deveria seguir.

         Quando há reta intenção, o juízo de eleição tende a ser bem realizado, mas pode haver falha se a razão sofrer a influência de tendências sensíveis que dificultem distinguir o valor das coisas, tornando equivocada a eleição: por exemplo, ao invés de dizer a verdade alguém decide mentir para ficar bem diante dos amigos ou para obter vantagem econômica.

    2 – Juízo de eleição e juízo de consciência podem entrar em conflito

         Sentir atração pela verdade é tendência natural de todos os homens, pois ninguém gosta de errar ou ser enganado. Porém, a pessoa pode sentir atração pelo prestígio de modo a conflitar o juízo de eleição com o juízo de consciência, que são diferentes, mesmo que pertençam à razão prática. O mal ocorre quando o juízo de consciência diz que algo está errado, mas a pessoa decide praticá-lo (juízo de eleição).

         Se há discordância entre esses dois juízos, não convém seguir o de eleição, mesmo que este ofereça algum tipo de vantagem, que sempre será parcial e enganadora. Chama-se razão fraca ou débil aquela cujo juízo não concluiu bem. A pessoa pode ser muito inteligente, mas se o juízo de eleição estiver influenciado negativamente pela afetividade (sentimentos, emoções, paixões), será uma inteligência fraca ou débil.

    3 – Onde entram as virtudes?

         Juízo de consciência é o do conhecimento da realidade e juízo de eleição é o conhecimento aplicado sobre a afetividade: a pessoa sabe que não deve mentir, mas a atração sentimental de ficar bem diante dos amigos a faz falsear os fatos, o que revela um problema afetivo de se sentir apreciada ou valorizada pelos demais, ou pela cupidez de ganhar dinheiro fácil em prejuízo da verdade (a voz do prestígio ou a da cupidez “gritou” mais forte que a voz da consciência).

         As virtudes ajudam a resolver o conflito entre juízo de eleição e juízo de consciência ao impedir a influência da afetividade, se esta tende a desviar a pessoa da decisão correta. Ao facilitar a identificação do que é bom, as virtudes tornam-se um vestígio de racionalidade na afetividade. A pessoa virtuosa deixa de apreciar o que é mau, porque dentro de seu mundo interior isso soa como nota musical destoante, desarmônica. Ao contrário, a falta virtudes dificulta não só a realização do ato bom, mas também dificulta saber o que é bom.

    4 – Só a inteligência é capaz de ver todos os aspectos da realidade

         Comer, beber, descansar, buscar segurança ou prestígio são tendências humanas. Cada tendência instintiva busca apenas a satisfação de sua inclinação porque só alcança esse aspecto da realidade. Porém, para decidir bem necessitamos de uma apreciação que abarque todos os ângulos de uma questão. A inteligência é a única faculdade que tem visão global e pode apreciar todos os aspectos da realidade, a fim de saber se algo convém ou não à pessoa como um todo, e não apenas ao que é bom à tendência em si. Se vejo um delicioso pastel o meu instinto de alimentação me inclinará a comê-lo o quanto antes, pois isso é o apreciável a essa função. Só a inteligência observará que não me convém comê-lo, caso tenha problema de colesterol ou porque o delicioso acepipe pertence a outra pessoa. 

         As virtudes oferecem dois atos fundamentais que se relacionam ao realizar qualquer ação moral: a intenção, que se refere ao fim que se busca, e a eleição dos meios para alcançar esse fim. A virtude assegura a reta intenção e facilita a pessoa selecionar os meios honestos para alcançar esse fim.

         Querer um fim é a primeira premissa do raciocínio prático: eu quero tal coisa; depois determino quais os meios adequados para alcançá-la. As intenções virtuosas são universais e iguais para todas as pessoas, mas os meios com o qual será realizada essa intenção não é o mesmo para todos, dadas as circunstâncias de cada pessoa. Alguém quer alcançar a virtude da temperança para não engordar, e todos entendem da mesma forma o que significa essa ação temperada. Porém, o modo de realizar essa intenção não será o mesmo para todas as pessoas: um estivador ou trabalhador braçal passará a comer menos para não engordar, mas dado o seu gasto diário de energias, a quantidade de comida poderá ser maior do que a de um trabalhador sedentário, sendo que este poderá comer menos que o outro e não ser temperado. Esse discernimento é feito pela razão, ajudada pelo equilíbrio que a virtude oferece à afetividade.

    5 – A pessoa virtuosa não se deixa enganar pelas tendências interiores

         A pessoa virtuosa é realista porque sabe dar o real valor às coisas, sem se deixar enganar por outros fatores que possam afetar um juízo correto. Isso é o que se chama dimensão cognocitiva da virtude, que ao facilitar a apreciação dos fatos segundo a moral, é ponto chave para distinguir a atitude voluntarista que age de bate-pronto movida apenas pelos sentimentos e vontade, sem avaliar todos os aspectos da realidade. Como foi dito antes, a dimensão cognocitiva da virtude facilita a realização do ato bom, e contribui para distinguir e amar o que é bom; e a falta de virtudes não só dificulta a prática do ato bom como impede de dar-se conta do que é bom.

         A dimensão cognitiva ou facilitadora do conhecimento que tem a virtude se mostra no caráter antecipador da afetividade: a atração pelas coisas surge antes de que haja um julgamento se convém ou não, mas a pessoa virtuosa já sente que aquilo não é bom, mesmo antes do julgamento. O exemplo do pastel torna clara essa ação facilitadora da virtude: antes de que eu julgue se me convém ou não comer o pastel, o instinto de alimentação me faz sentir atraído por ele, porque essa é a função dessa tendência. Mas a virtude, que acaba sendo um ponto de racionalidade na afetividade, irá me propor afetivamente algo razoável porque isso está configurado com o que sempre julguei ser o correto: o pastel faz mal a você devido ao colesterol. Isso ocorre porque depois de ouvir uma e outra vez todas as vozes da realidade, e decidir bem, cria-se como que uma conaturalidade afetiva com o bem.

    6 – A afetividade da pessoa bem formada deseja o que convém

         A afetividade continua sendo afetividade, e não razão ou inteligência, mas, pela influência das virtudes, a afetividade terá pegadas ou sinais de racionalidade, o que faz a pessoa virtuosa desgostar do que é mau, porque isso lhe soa como nota musical destoante, desarmônica.

         As tendências informadas pelas virtudes se tornam o melhor apoio para a razão decidir bem. Quem forma seu gosto de acordo com as virtudes, que é formar-se de acordo com a verdade, equilibra as vozes das tendências, que em seu conjunto apontarão para a verdade. Uma pessoa virtuosa nunca levará ocultamente, e sem pagar, algo do supermercado, porque tal ação, que não é bem-vista pela sua razão, desagrada-a profundamente, o que revela que sua paixão de possuir está sob seu controle.

         Seria muito pouco para a pessoa virtuosa apenas evitar olhar o objeto a fim de não se sentir atraído a furtá-lo, porque isso teria um aspecto repressivo ou negativo e não atitude amada ou querida pela vontade. Se há virtude, aquilo que não concorda com o mundo interior rico e belo da pessoa já não interessa porque não é querido pela vontade (não quero olhar, me desgosta olhar, não necessito olhar). A pessoa bem formada tem a sua afetividade configurada para apreciar o que verdadeiramente convém e afasta-se do que a degrada ou causa mal (isso se chama dimensão cognoscitiva da virtude).

         O equilíbrio afetivo, no caso da virtude da temperança, faz que interiormente a pessoa esteja bem constituída, de modo que as coisas prazenteiras não a atraiam contra o bem e a verdade, que seria ir contra a sua própria pessoa. Esse raciocínio prático é facilitado pela virtude.

     Texto elaborado por Ari Esteves, com base em aula não publicada do professor espanhol Julio Diégues.

  • Perfil de um lar educador

    Perfil de um lar educador

    1 – Ter bom berço. 2 – Lares disciplinados. 3 – Carinho e firmeza. 4 A mãe não exclui o pai na educação do bebê. 5Pais que dão exemplo. 6 – Pais não dominados pelos filhos. 7 – As telas digitais são substituídas por leituras e jogos de inteligência. 8 – Ensinam os filhos a serem fortes. 9 – Não delegam a educação do comportamento dos filhos a outros. 10 – Sabem onde querem chegar. 11 – Pais bem-preparados. 12 – Fomentam a educação integral. 13 – Incentivam a autonomia e responsabilidade dos filhos. 14 – Educam na fé. 15 – Sabem pedir desculpas. 16 – Não poupam os filhos dos esforços. 17 – Ensinam as crianças a serem agradecidas. 18 – Fomentam a solidariedade. 19 – Educam os filhos para serem discretos. 20 – Educam na sociabilidade. 21 – Os pais não são secretários dos filhos. 22 – Pais fortes e exemplares. 23 – O futuro dos filhos é trabalhado no presente

    1 – TER BOM BERÇO – “Teve bom berço” é o que se pensa ao ver jovens com caráter, alegres, educados, com autodomínio e responsáveis. Ao analisar o perfil de um “bom berço”, ou lares que educam, descobre-se os seguintes traços comuns: mãe e pai nunca discutem diante dos filhos, mas conversam serenamente e a sós em outro momento.

    2 – LARES DISCIPLINADOS – Os lares que educam não são luxuosos, mas alegres, limpos, acolhedores e decorados de modo simples e com bom gosto, e todos anseiam por retornar a eles. São lares disciplinados, com horários exatos para as refeições (feita na mesa e com a tv desligada), dormir e acordar. Com isso, todos aproveitam melhor o tempo com leituras e entretenimento sadio.

    3 – CARINHO E FIRMEZA – Sabem os pais que a criança pode se irritar com determinada indicação a cumprir, mas não deixam de dá-la com carinho e firmeza: as lágrimas logo secam, a mágoa desaparece e fica o respeito à autoridade e firmeza carinhosa dos pais. Ao corrigir ou exigir dos filhos, têm presente que constroem a personalidade e a felicidade deles para o resto da vida.

    4 A MÃE NÃO EXCLUI O PAI NA EDUCAÇÃO DO BEBÊ – Quando o filho é bebê, a mãe não exclui o pai da educação dele, e com isso não comete, em nome do instinto materno, a tolice de não contar com a opinião do marido. Assim, não se torna mãe possessiva que despersonaliza o filho pelo excesso de proteção ao substituir a criança nos esforços que deve fazer; além disso, permite o constante contato da criança com o pai, dando a ela segurança e sentimento de ser amada por todos, e não somente pela mãe.

    5PAIS QUE DÃO EXEMPLO – São pais coerentes e de uma só cara: se dizem aos filhos para não assistirem um filme desqualificado moralmente, não o assistem às escondidas.

    6 – PAIS NÃO DOMINADOS PELOS FILHOS – Paternidade e maternidade não são cargos eletivos. Portanto, os pais não buscam ganhar popularidade diante dos filhos − como muitos que se tornam servos deles −, e não duvidam da autoridade e do direito que lhes cabe de educar e exigir, e com isso conquistam o respeito e o afeto dos filhos.

    7 – AS TELAS DIGITAIS SÃO SUBSTITUÍDAS POR LEITURAS E JOGOS DE INTELIGÊNCIA – Percebem, pai e mãe, que os videogames e o excesso de desenhos na TV são fontes de escape e ocasião para ceder ao mais fácil, além de tornar a mente preguiçosa. Assim, investem tempo em pesquisar formas mais enriquecedoras de lazer: trocam as telas digitais pela leitura, jogos que desenvolvem a inteligência, vídeos educativos e artísticos, filmes com enredos que transmitem valores morais para fomentar o diálogo na tertúlia ou bate-papo após o jantar.

    8 – ENSINAM OS FILHOS A SEREM FORTES – Sabem esses pais que as crianças revelam um nível baixo de resistência às contrariedades e incomodidades, e se queixam continuamente de situações que não podem evitar, seja um tempo chuvoso, um passeio que não deu certo, uma comida que não gostam; e que também possuem autêntico pavor da menor dor física, utilizada para fugir das obrigações desagradáveis. Então, repetem frequentemente aos filhos que, para não se transformarem em marias-moles, devem crescer na virtude da fortaleza para serem fortes como uma viga de aço. Divertidamente também afirmam que “com churros não se faz alavanca” e que “cada mastro aguente a sua vela”.

    9 – NÃO DELEGAM A EDUCAÇÃO DO COMPORTAMENTO DOS FILHOS- Os pais não pensam que a escola é a responsável para educar o caráter de seus filhos, mas que isso é tarefa deles.

    10 – SABEM ONDE QUEREM CHEGAR – É comum entre pai e mãe a troca de ideias sobre o tipo de adolescentes que querem ver os filhos se tornarem, pois isso determinará o tipo de homem ou mulher que virão a ser, por isso trabalham desde cedo a formação integral dos filhos (que inclui a educação da vontade, afeto e sentimentos).

    11 – PAIS BEM-PREPARADOS – Livros de orientação familiar e de educação nas virtudes sempre estão no rol de leituras dos pais; também buscam conselhos com pessoas de critério para decidir bem. Sugestão de livros de orientação familiar

    12 – FOMENTAM A EDUCAÇÃO INTEGRAL – Pai e mãe sabem que não basta alimentar, dar abrigo, segurança e educação escolar para os filhos darem certo na vida. Por isso, investem muito na educação da vontade e dos afetos (sentimentos, emoções e paixões) deles.

    13 – INCENTIVAM A AUTONOMIA E A RESPONSABILIDADE DOS FILHOS – Orientam cada filho para agir livre e responsavelmente, pois têm presente que um controle ad hoc da conduta só funciona enquanto se é criança e a inteligência ainda não está desenvolvida, e que na adolescência esse tipo de comando já não tem o menor efeito.

    14 – EDUCAM NA FÉ – A profunda convicção religiosa dos pais é transmitida como a herança mais preciosa que deixam para cada filho, pois é o que verdadeiramente o sustentará nos revezes que a vida trará.

    15 – SABEM PEDIR DESCULPAS – Tendo defeitos como todos os pais, corrigem-se ao errar e pedem perdão aos filhos.

    16 – NÃO POUPAM OS FILHOS DOS ESFORÇOS – Não querem que os filhos sejam eternas crianças que fogem dos deveres para fazer apenas o que gostam; por isso, e para que tenham fortalecidos o caráter e a vontade, não os poupam desde pequenos do esforço por manter em ordem seus brinquedos e roupas, além de ajudar nas tarefas do lar.

    17 – ENSINAM AS CRIANÇAS A SEREM AGRADECIDAS – Ao saber que palavras de cortesia e de agradecimento não fazem parte do vocabulário infantil, os pais educam cada criança para ser agradecida e saber ceder para o bem e harmonia da família.

    18 – FOMENTAM A SOLIDARIEDADE – A fim de que sejam solidários e se compadeçam da dor dos demais, fomentam nos filhos o desejo de doar os brinquedos que não usam mais, indo com eles visitar crianças em comunidades pobres, orfanatos ou hospitais; e também os levam a asilos para presentear doces e bolos aos idosos.

    19 – EDUCAM OS FILHOS PARA SEREM DISCRETOS – Dado que as crianças não cultivam o sentido de honra familiar e não se preocupam em evitar situações de embaraço aos pais, educam-nas para que sejam sóbrias e elegantes no vestir e discretas ao comentar com estranhos sobre o que pertence à intimidade da família.

    20 – EDUCAM NA SOCIABILIDADE – Visto que as crianças tendem a mostrar pouco ou nenhum respeito às pessoas estranhas à família, ensinam-nas desde pequenas a serem educadas, atenciosas e agradecidas com as visitas, amigos dos pais, professores, vendedores de lojas ou supermercados, porteiros, zeladores, pessoal da limpeza do prédio, funcionária da casa.

    21 – OS PAIS NÃO SÃO SECRETÁRIOS DOS FILHOS – Não secretariam os filhos para lhes evitar negligências ou esquecimentos. Porém, a fim de que sejam ordenados, atentos aos compromissos escolares, encargos da casa e datas de aniversários dos amigos, exigem que tenham uma agenda pessoal para anotar e consultar com frequência.

    22 – PAIS FORTES E EXEMPLARES – Os filhos ao verem a constante fortaleza dos pais, que não reclamam e enfrentam com confiança e bom humor os desafios para levar adiante o lar, crescem com desejos de imitá-los.

    23 – O FUTURO DOS FILHOS É TRABALHO NO PRESENTE – O futuro dos filhos não é algo aleatório – vamos torcer para que deem certo na vida! -, mas já está determinado no presente pela ação educativa dos pais.

    Texto produzido por Ari Esteves com base nas seguintes obras: “Filhos, quando educá-los”, de James Stenson; e “Conheça o seu filho”, de Anna Maria Costa. Ambos são da Editora Quadrante, São Paulo

  • Menos telas digitais e mais livros

    Menos telas digitais e mais livros

    1 – O excesso de imagens empobrece a inteligência. 2 – Quem lê pouco, pouco tem a transmitir. 3 – Os pais devem ler e incentivar a leitura de seus filhos. 4 – Argumentos para incentivar a leitura. 5 – Expressar o pensamento pela escrita

    1 – O excesso de imagens empobrece a inteligência

        Com a leitura aumentamos a preparação intelectual, porque ela incide diretamente sobre a inteligência e faz aumentar o nível e o alcance do pensamento. Quando esclarecida pelos bons livros, a inteligência extasia-se com o bem e a verdade. A leitura, além de excelente modo de descansar e de aproveitar o tempo, aumenta a cultura humanística, melhora a forma de expressar o pensamento escrito e oral, enriquece o vocabulário e nos faz ganhar com a experiência do outro (“escarmentar em cabeça alheia”, diz o ditado).

         Hoje, muitos afogam a inteligência com imagens, notícias, videogames, programas fúteis de televisão, etc. As milhares de imagens e informações dão a ilusão de que se conhece tudo, mas a mente não processa nem relaciona tanta informação desencontrada, e tão pouco os sentimentos reagem diante do que veem, e o resultado é um mundo interior pobre, com a espessura da tela que, ao ser apagada, apaga também a mente de seu espectador, que  perde a capacidade de reflexão e de sentir. Não se trata de demonizar as telas porque são muito úteis, desde que utilizadas para uma cultura programada.

    2 – Quem lê pouco, pouco tem a transmitir

         Quem não lê biografias, artigos, ensaios, história, livros sobre família e educação dos filhos, romances, contos, não saberá dar respostas a si e a quem necessita (filhos, parentes, amigos, colegas) sobre questões como namoro, arte e sua importância para o espírito humano, sexualidade, família, casamento, amizade, religião, atitudes éticas, drogas… Certa mãe, encharcada de TV e com pouca leitura, respondeu à filha que foi buscar orientação para um problema com o marido: − “Você quis casar, agora aguente!”. Se essa mãe aproveitasse seu tempo com boas leituras saberia de sua missão e diria algo como: – “Filha, compreendo a situação, mas é necessário o seu sacrifício para reconquistar seu marido e ser fiel à palavra dada a Deus, e para o bem dos seus filhos”.

         Os grandes gênios da arte literária aprofundam a nossa formação, pois acertaram no modo de contar os dramas do coração do homem de todos os tempos: o amor e o ódio, a alegria e a dor, a covardia e a coragem, a fidelidade e a traição… Os valores retratados na Odisseia de Homero (VIII a.C.) são perenes na conduta humana: fidelidade, coragem, prudência…

    3 – Os pais devem ler e incentivar a leitura de seus filhos

         Muitos pais não sabem como motivar seus filhos adolescentes a lerem os bons livros de literatura, e reclamam do tempo que seus rebentos perdem nas telas digitais. Razões não faltam para que se entristeçam com tal situação, mas o culpado são eles mesmos, pais, porque não incentivaram a leitura dos filhos quando estes ainda eram pequenos, já que esse hábito é iniciado com contos e histórias lidas para as crianças. Agora, para entusiasmar os adolescentes a descobrirem o prazer e a importância da leitura, será necessário que os pais meditem em argumentos convincentes (a seguir daremos alguns) para transmitir a eles. Outra dica é aguardar até o dia em que a garota ou o garoto esteja bem-humorado e predisposto para um bom papo, pois esta será a melhor ocasião de abordar o tema do hábito da leitura (o local para o esse diálogo é importante: uma agradável caminhada no parque ou tomando um gelado na sorveteria). Nesse momento trate a filha ou o filho como uma pessoa madura, a fim de que ele se sinta valorizado. Aproveite e seja sincero ao dizer que você − pai ou mãe – também está procurando dedicar mais tempo à leitura e menos às telas digitais.

    4 – Argumentos para incentivar a leitura

         Seguem alguns argumentos que podem motivar o hábito de leitura:

    • “Sem a arte narrativa – e aí se enquadra o cinema – o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote, teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).
    • Ao sair do plano cotidiano e imergir na trama de outras vidas, os enredos literários provocam o imaginário do leitor e permitem discernir o caráter benéfico ou maléfico de certas atitudes, transformando a experiência da leitura em vivência pessoal.
    • As grandes obras da literatura universal proporcionam um profundo conhecimento da alma humana. Já foi dito que a literatura é como um espelho que o homem levanta diante de si para ajudá-lo a conhecer-se melhor.
    • Aprender a ler é aprender a viver, porque na leitura encontramos respostas para os grandes interrogantes do homem e da sociedade, sem nos conformarmos com uma visão superficial da vida. A boa leitura nos livra de preconceitos infundados que se valem da nossa ignorância ou desconhecimento da realidade.
    • As leituras condicionam o modo de pensar, e este determina a forma de viver. Eleger bons livros não é ato moralmente indiferente. A pessoa prudente busca informações sobre o que ler.
    • Sendo curto o tempo que a vida moderna dispõe para a leitura, não vale a pena gastá-lo com obras que desfiguram a verdade e que influenciarão o modo de agir. Há excelentes livros ou textos que convém ler: biografias, ensaios, artigos, contos, amor conjugal, educação comportamental dos filhos, romances, história, etc. Revistas de novelas ou gibis podem servir para descansar em momentos particulares da vida, mas restringir as leituras apenas a isso revelaria superficialidade, frivolidade e triste perda de tempo.
    • Um bom livro não atua sozinho: o leitor dialoga com o autor e os personagens e cria com eles certa forma de amizade.
    • A leitura por vezes pode não causar prazer ao exigir esforço e fadiga, que devem ser enfrentados como quem busca metas altas sem ceder à comodidade ou preguiça.
    • Ler e reler os autores favoritos é um grande modo de penetrar mais a fundo no argumento das histórias, pois os bons autores sempre têm uma mensagem profunda a transmitir (ajudar as crianças a descobrir esse argumento).
    • Trazer sempre consigo um livro é o modo de aproveitar uns minutos aqui e outros ali para folheá-lo, seja no metrô, ônibus, fila ou sala de espera, mesmo que sejam poucas páginas por vez. Quem não tem um livro à mão nunca encontra tempo para ler. Para muitas famílias ler após o jantar é um ritual maravilhoso.
    • A leitura prende-se no espírito e desperta a atenção que se deve dar às palavras, e estas instigam a imaginação com boas ideias; o mesmo não ocorre a quem se põe passivamente diante da sucessão de imagens desencontradas das telas, pois o cérebro abandona o esforço por dar sentido a elas, e a pessoa esquece tudo o que viu nos dias sucessivos. Quem não lê não se renova e tende a ser repetitivo em suas falas.

    5 – Expressar o pensamento pela escrita

         A vida moderna obriga a expressar o pensamento por meio da escrita, seja no trabalho, na escola ou na vida social. O hábito de ler  desperta o espírito de quem escreve para as armadilhas que por vezes as palavras conduzem: patético não é pateta, mas comovente, pois vem de pathos ou sentimentos em latim. Ao expressar um sentimento, saiba com exatidão o significado de angústia. Acintoso é termo por vezes mal empregado. Ou seja: não “chutar” o sentido de uma palavra, mas ganhar o hábito de consultar o dicionário sempre que necessário (essa tarefa hoje é facilitada pela internet). Tenha sempre presente que as palavras não devem ser utilizadas para impressionar, porque isso se chama pedantismo.

    Texto produzido por Ari Esteves (staging.ariesteves.com.br/). Fotografia de Anastasia Shuraeva.

  • O hábito da ordem em crianças de 1 a 3 anos

    O hábito da ordem em crianças de 1 a 3 anos

    1 – A criança não nasce ordenada por natureza. 2 – Viver a ordem para a criança é mais um jogo ou brincadeira. 3 – Os pais devem criar uma disciplina familiar. 4 – A ordem deve ser vivida o quanto antes para se tornar um hábito.

    1 – A criança não nasce ordenada por natureza

        A criança não nasce ordenada ou desordenada por natureza, pois não se trata de algo genético, mas porque no momento oportuno teve ou não a ajuda necessária para tal. Entretanto, há no interior dela a pré-disposição natural para a ordem, pois o período sensitivo (não voluntário) em que o organismo tende intuitivamente a realizar ações ordenadas, é entre um e três anos de idade. Por meio do instinto-guia ou conhecimento primário, tem a criança a capacidade de realizar várias ações apenas por observação e imitação, tal como caminhar ou ordenar coisas; e a ânsia de repetir essas mesmas ações faz parte do chamado período sensitivo da criança. Porém, com a mesma facilidade de imitar a ordem, imitará a desordem se não for orientada ou porque vê os mais velhos não darem bom exemplo.

    2 – Viver a ordem para a criança é mais um jogo ou brincadeira

        Entre um e três anos de idade a criança gosta de guardar e retirar seus brinquedos, roupas e sapatos sempre no mesmo lugar. Para isso, basta indicar uma gaveta e prateleira; ela também aprecia ter um canto fixo com uma mesinha e cadeira baixa para sentar e fazer recortes, desenhos e folhear livros com imagens (esse hábito facilitará o gosto pelo estudo no Fundamental 1).

        Para ser ordenada será necessário que no início os pais brinquem com a criança repetidas vezes de “pôr as coisas no mesmo lugar”. Aliás, ela mesma gosta de se colocar no seu lugar habitual: ao brincar de esconder-se irá sempre para o mesmo canto, como também dormirá na mesma cama e ocupará a mesma cadeira durante as refeições, pois necessita de estabilidade em seu ambiente.

    3 – Os pais devem criar uma disciplina familiar

        Ser metódica e ordenada é um processo que a criança aprende com grande facilidade, sempre que for ensinada e tenha em seus pais um modelo a seguir. A ordem vivida de forma rítmica nos horários de refeições, sono, brincadeiras, asseio, saídas para passeios, ajudará no desenvolvimento físico, psíquico e espiritual da criança, além de facilitar a aquisição de muitas outras virtudes. Daí, a importância de se ter uma disciplinar familiar, também para os pais. Respeitar a ordem e os horários da criança é atitude fundamental para os pais não as desnortearem ou deseducarem.

    4 – A ordem deve ser vivida o quanto antes para se tornar um hábito

        Enquanto a criança não atingir a idade da razão (até os cinco anos), viverá a ordem ou desordem como hábito adquirido − bom ou mau − que se converterá em virtude ou vício a partir dos seis ou sete anos de idade, quando, então, começa a idade razão e ela passa a atuar livremente ou por vontade própria.

    Texto produzido por Ari Esteves com base no livro “Educar hoje”, de Fernando Corominas, Editora Quadrante, São Paulo, 2017.

  • A fraqueza humana e sua superação

    A fraqueza humana e sua superação

    1 – A fraqueza humana. 2 – A preguiça ou fuga do esforço. 3 – A pressão social como causa da fraqueza. 4 – O esforço da superação: luta esportiva. 5 – Virtude da temperança. 6 – Virtude da fortaleza.

    1 – A fraqueza humana

        A fraqueza é companheira da vida humana. Muitas vezes nos propomos a fazer ou deixar de fazer algo e não conseguimos: deixar de fumar, seguir um regime alimentar, fazer exercícios físicos… Não é que tenhamos mudado de opinião, mas simplesmente não fazemos. Se existisse um tratamento fácil contra a fraqueza todos o seguiríamos. O amor desordenado aos bens que nos atraem e a preguiça diante do esforço que o dever exige são as causas interiores da fraqueza; e a causa exterior é a pressão social que nos coage a fazer o que não queríamos ou a não fazer o que queríamos.

        Os bens nos atraem porque nos aperfeiçoam, desde que essa atração não passe dos limites racionais. Os instintos podem arrastar com paixão desregrada para os bens primários: comida, bebida, sexo, conforto, esporte; como também a inclinação pelos bens intelectuais pode ser desproporcionada e fazer com que nos centremos demasiadamente ao trabalho, ao dinheiro, à posição social, à música, ao poder, esquecendo dos bens e deveres maiores, como são o amor a Deus e aos demais.

        Cada concessão à desordem aumenta a fraqueza pessoal e realimenta a inclinação àquilo que deixou de ser um bem, dado o uso desmedido dele. Se tais concessões se tornam hegemônicas afogam a razão e enfraquecem a vontade, fazendo a pessoa perder a liberdade ao se entregar a vícios como drogas, álcool, pornografia, jogos de azar… Quem se afeiçoa de modo exagerado à cerveja sabe que diante de uma garrafa dessa bebida não tem forças para evitá-la; e se a imagem dela se incrustar na sua imaginação não será capaz de pensar em outra coisa, calando as demais vozes interiores: a consciência fica obscurecida e a vontade debilita-se e a pessoa cede. É assim que a paixão se apodera de um homem.

    2 – A preguiça ou fuga do esforço

        Outra fraqueza interna é a preguiça, que é o desgosto diante do esforço para cumprir uma obrigação, e sua fuga. A eficácia da vida de um homem tem muito a ver com a capacidade de vencer a preguiça, porque as coisas importantes custam, e as muito importantes custam mais: não existe nada de grande valia que não custe esforço; e só quem é capaz de vencer-se realiza algo que vale a pena. Os pais devem ensinar a criança desde pequenas a não fugir de suas tarefas e a cumprir seus horários, a fim de que cresça disciplinada e com força de vontade.

        Não se dá à preguiça a devida importância pelo seu aparente aspecto inofensivo: não fazer algo bom é menos grave do que fazer algo mau. Mas esse vício ocasiona males na vida das pessoas e das sociedades, sendo causa de muitas injustiças: por preguiça a autoridade não intervém ou não presta o serviço devido; os pais não corrigem os filhos; o professor não ensina como deveria; as administrações dos estados e das comunidades eternizam os trâmites burocráticos e reduzem a produtividade das pessoas e empresas.

    3 – A pressão social como causa da fraqueza

        A pressão social, também chamada de respeito humano ou medo do ridículo, é a causa exterior da fraqueza humana, porque nos pode levar a comportarmo-nos de acordo com o modo dos outros pensarem, por medo de “cair mal“ ou de que nos zombem. Tememos ser apontados com o dedo e marcados com algum apodo. Sendo filhos do tempo em que vivemos tendemos a sustentar a opinião da maioria: pensamos e vestimo-nos da mesma maneira; gostamos das mesmas coisas; curtimos as mesmas modas, os mesmos ídolos e odiamos os mesmos demônios. Para não sermos malvistos tendemos a pensar que é bom ou mal o que dizem ser bom ou mau; rimos de uma piada que ofende as nossas convicções; calamo-nos envergonhados diante dos nossos princípios morais ou religiosos, ou talvez da nossa origem, profissão, amigos; condescendemos com o capricho de um superior hierárquico, mesmo que isso nos pareça imoral. Importa descobrir em nós os efeitos da pressão social e lutar contra eles.

        Essa pressão social é benéfica ao reprimir comportamentos excêntricos ou antissociais; mas é maléfica ao violentar a nossa consciência a ponto de agirmos contra ela. Não se trata de resistir ao ambiente pelo gosto de ser diferente, porque isso se chama esnobismo: se todos se inclinam em uma direção é provável que haja fortes razões para isso, e seria uma estupidez ser do contra por princípio. Se tais razões não existem temos de proteger a liberdade da nossa consciência ao não permitir que o irracional nos condicione a agir contra ela.

    4 – O esforço da superação: luta esportiva

        Cada pessoa necessita de treinos para vencer suas fraquezas, tal como o esportista se exercita a fim de suportar a dor e a vontade de desistir ao correr uma maratona, prova dura e longa. Para vencer as três dimensões da fraqueza é necessário um clima de luta esportiva e treinos para melhorar as marcas pessoais. Como os bens podem arrastar com força desproporcionada, é preciso enquadrá-los na medida certa: quem faz um regime alimentar deve evitar pensar em comida e fugir das ocasiões; quem se afeiçoou à cerveja de forma exagerada tem que fugir das ocasiões e não acariciar essa bebida com a imaginação. Quem tem o coração comprometido com alguém − tal como no casamento − deve resistir aos afetos de enamoramento que o inclinam a aproximar-se de outra pessoa e fugir das ocasiões. Trata-se de não alimentar uma paixão que será difícil dominar e que causará dores e injustiças. Pensar de outro modo é desconhecer os mecanismos da fraqueza humana.

        A luta contra a fraqueza tem um princípio único: tratar a si mesmo com dureza! Não com a dureza irracional de um louco ou de um masoquista, mas com a estudada do esportista vencedor, que se propõe pequenas metas para ir ganhando um centímetro após outro em altura ou distância; metas que estejam sempre um pouco além do possível. É assim que se vencem as paixões desordenadas.

        A paixão por um bem não será uma rede arrastão se, além de inteligência, a pessoa crescer em força de vontade e utilizar truques para não permitir que a memória e a imaginação se polarizem. Diante de uma derrota é necessário recuperar com rapidez o terreno ao não satisfazer todos os gostos, mesmo que seja algo bom, a fim de servir de treino para o fortalecimento da vontade: não beber sempre que apetece; comer um pouco menos do que se gosta mais e mais do que se gosta menos; dominar a curiosidade; negar-se a satisfazer pequenas comodidades; abster-se de caprichos; respeitar os horários fixados; fazer primeiro o que é mais importante, mesmo que seja desagradável, etc. Não se trata de negar-se em tudo e sempre, mas treinar para buscar uma medida justa em tudo.

    5 – Virtude da temperança

        As virtudes são hábitos racionais estáveis com os quais se podem vencer os três aspectos da fraqueza. A que leva a moderar a excessiva atração pelos bens é a virtude da temperança, que vem de temperar, dar têmpera, textura, equilíbrio e ordem ao mundo das paixões e desejos. Dentro da temperança, chama-se sobriedade a moderação na comida e na bebida; e castidade ao controle do desejo do prazer sexual. É preciso pôr limites ao desejo desregrado pelo trabalho profissional, à ambição de subir, aos Hobbies, ao esporte, ao perder futilmente o tempo com telas digitais, etc. Tudo precisa ter a medida da razão para ser verdadeiramente humano: se passar da medida deixará de ser um bem.

    6 – Virtude da fortaleza

        A virtude que leva a vencer a preguiça e a pressão que o ambiente exerce chama-se Fortaleza, que é a capacidade de enfrentar ou suportar com firmeza as dificuldades. Chama-se força de vontade a que vence a preguiça e valentia a que vence a pressão social e a timidez. A fortaleza é necessária para sair da cama no horário, para perseverar no trabalho que se tornou cansativo… O verdadeiro corretivo da preguiça é o espírito de serviço ou a firme decisão de orientar a atividade pessoal para servir aos demais. Viver nesse nível de exigência pode parecer incômodo, mas se trata de valiosa maneira de viver; aliás, é o único estilo coerente com o que é próprio da vida: lutar!

    Texto de Juan Luís Lorda, adaptado por Ari Esteves com base no livro “Moral: a arte de viver”, de J. L. Lorda, Editora Quadrante, São Paulo, 2001.

  • Para decidir bem: a formação da consciência

    Para decidir bem: a formação da consciência

    1 – Os bens e os deveres. 2 – Tipos de deveres. 3 – Estabelecer prioridades ou ordem nos bens e deveres. 4 – A atuação da consciência. 5 – Formar a consciência para decidir bem. 6 – Não obrigar a agir contra a consciência. 7 – A criança tende a viver dominada pelo instinto.

    1 – Os bens e os deveres

        A conduta humana está condicionada por duas forças que se completam: a dos bens que nos atraem e a dos deveres que nos obrigam. Como estabelecer uma ordem ou hierarquia quando essas forças entram em conflito é o que veremos.

        Bens ligados aos instintos: os instintos são predisposições que a natureza impõe aos animais e aos homens para garantir a sobrevivência: comer, beber, abrigar-se, defender-se, procriar. São bens primários e importantes, mas não é digno do homem manter sua vida centrada neles, pois tendo inteligência e vontade, o ser humano é livre e pode aspirar a bens mais altos. No homem, os bens ligados aos instintos não são totalmente seguros e a pessoa precisa orientá-los, servindo-se de sua inteligência, a fim de que não se desviem: comer demais, beber demais, usar o instinto sexual para ver pornografia na internet…

        Bens ligados ao espírito: a pessoa humana tem inteligência para buscar outros bens, além dos associados aos instintos: ter uma profissão ou ofício; apreciar música, pintura, literatura; estudar línguas, organizar uma coleção interessante, fabricar instrumentos… Mas corre-se o risco de centrar a vida em algum desses bens de forma exagerada, o que torna necessário que a pessoa, por meio de sua consciência, faça um juízo prático para ter segurança sobre o que deve fazer em cada momento.

    2 – Tipos de deveres

        Os deveres nos chegam desde fora como chamadas que nos dirigem Deus, as pessoas e os seres que estão ao nosso redor: animais, plantas, meio ambiente, os instrumentos que utilizamos e que devem ser bem cuidados. O animal não tem inteligência e só sente a voz do instinto, que busca a conservação de sua vida. Porém, os seres humanos ouvem a voz dos outros seres: um homem não pode comer sossegado se tiver ao lado outro homem faminto, pois percebe que este tem necessidade de sua ajuda e se sente obrigado a isso. O leão não se importa se outro leão ao seu lado morre de fome e come toda a presa.

        Existem três tipos de deveres: 1) Para com Deus, que sendo quem é deve ocupar o primeiro lugar na nossa vida: “Amar a Deus com todo o teu coração, com toda a tua mente, com toda a tua força”. 2) Para com os homens: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. No amor aos homens é colocada uma medida: “amar o próximo como a ti mesmo”. Essa pedagogia divina é muito inteligente, pois não conseguiríamos amar desse modo os bilhões de homens do mundo, mas devemos amar aqueles que estão ao nosso lado pelos laços de sangue, de amizade, de trabalho. 3) Para com a natureza ou meio ambiente, que devemos dominá-la, mas respeitá-la e preservá-la para todas as gerações de homens que ainda virão.

        Tais deveres devem ser cumpridos mesmo a contragosto, não vendo neles apenas obrigações, mas bens a realizar. Ao colocar amor ou sentimento na realização de um dever, ganha-se gosto em cumpri-lo: um homem apaixonado pela sua família sente-se feliz em sacrificar-se por ela; uma mãe não atende seus filhos a contragosto, mas sorrindo; o professor e o artesão apaixonados pelo que fazem realizam suas funções com extraordinária energia.

    3 – Estabelecer prioridades ou ordem nos bens e deveres

        Sendo limitados tanto em nossas forças quanto no tempo que dispomos, não conseguimos estudar e ver futebol ao mesmo tempo. Por isso, temos que estabelecer prioridades, tendo presente que os bens nos atraem e os deveres, por vezes, fugimos deles por covardia ou preguiça. É necessário avaliar, pois os bens só são bens se desfrutados com medida, sejam eles primários ou da inteligência. Apenas os bens mais altos não exigem medida: não podemos ter medida no Amor a Deus, nem em relação às pessoas (um marido não pode ter medida no amor à sua esposa).

        No início de cada dia é preciso fazer um exame de três minutos para identificar as prioridades. Essa avaliação se faz com a consciência, que é a capacidade da inteligência prática de avaliar qual o dever ou o bem a ser atendido em primeiro lugar. A consciência não decide, mas apenas avalia a situação e faz perceber o que deve ser feito. A decisão de fazer ou não o que a voz da consciência indica cabe à pessoa por meio de sua vontade.

    4 – A atuação da consciência

        Para avaliar os prós e os contras, a pessoa se serve da sua consciência, que trabalha com os dados da inteligência, e não deve permitir que seus sentimentos ou gostos interfiram na avaliação objetiva da realidade. Com a inteligência percebe-se determinada situação, a ser avaliada pela pessoa por meio de sua consciência, a fim de saber como agir. Por exemplo, é sábado e uma mãe se prepara para arrumar a casa. Seu filho, adolescente de onze anos, se apronta para jogar videogame, mas percebe que a mãe está cansada, pois trabalhou fora a semana inteira. Então, o filho avaliará a situação por meio de sua consciência, e chegará ao seguinte juízo: − Devo deixar o videogame de lado e ajudar a minha mãe. Por isso se costuma dizer “a voz da consciência” para indicar algo que ouvimos interiormente.

        A consciência disse ao jovem o bem concreto que deveria fazer, mas a decisão de ajudar ou não a mãe caberá a ele, por meio de sua vontade. Esse juízo da consciência é o ato mais próprio do homem, que deve ser realizado e amado. O valor da vida de uma pessoa depende desse seguir a sua consciência. O juízo prático da consciência é realizado antes da ação e voltará depois para conferir se foi realizado ou não: se o jovem agiu em conformidade com sua consciência, a felicidade do dever cumprido o invadirá; se por egoísmo agiu em desacordo, terá ido contra a parte mais íntima e delicada do seu ser. Quando a ordem interior se destrói por uma ação contrária à consciência, fica um rastro de mal-estar chamado remorso. Quem habitualmente atua contra a própria consciência corrompe e apaga a luz que orienta as ações, e deixa de ser uma pessoa livre para se tornar escrava de seus vícios, que no caso do jovem seria o da preguiça. A maturidade de uma pessoa está em ouvir a voz dos deveres e cumpri-los.

    5 – Formar a consciência para decidir bem

        A formação da consciência é necessária para a pessoa decidir sem erro. Para isso, ela necessita que a inteligência forneça os dados corretos sobre a realidade. Um exemplo: certo pai cruzou a sala de estar e viu seu filho com uma bola nas mãos. Ao retornar, notou quebrado o vaso e pensou que fora o garoto o autor da façanha. Sentindo-se cobrado pela sua consciência, penalizou o filho ao determinar que ficaria sem a bola a semana toda. Depois soube pela esposa que foi o gato quem quebrou o vaso. Por isso, devemos ler, estudar os assuntos, ouvir as pessoas para decidir bem (o pai agiu imprudentemente ao não perguntar nada à esposa).

        E necessário formar a consciência em valores perenes para dar a ela segurança em seus juízos: saber que o suborno é ação ruim, e que a justiça, ao dar a cada um o que lhe pertence, é ato bom, facilita os juízos da consciência. Quem foge de saber o que é certo ou errado para não se sentir obrigado pela sua consciência a mudar de atitude, age com imprudência e com graves consequências para si e para os demais.

    6 – Não obrigar a agir contra a consciência

        Cada um deve descobrir o modo correto de agir em cada caso. Desde fora se pode ajudar a perceber, mas não obrigar a fazer de modo diferente do que julgou: um pai não pode obrigar o filho a estudar, se este não o desejar. Mesmo que amarre o garoto na cadeira e coloque um livro diante dele, o filho não estudará se não quiser. Ou seja, ninguém pode decidir pelo outro, pois o querer é algo muito íntimo, pessoal; é uma força que deve vir de dentro. Mas o pai pode ensinar o filho a conhecer o certo e o errado, e como o correto deve ser querido e o errado rejeitado, a fim de ajudá-lo com razões profundas a decidir bem.

        Quando a decisão de alguém o faz quebrar a ordem da realidade (ordem externa), então se pode intervir: se a pessoa decide suicidar-se ou roubar de quem possui, porque acha que isso é justo, podemos impedi-la de fazer tais besteiras, porque estará agindo contra a ordem objetiva da realidade e os valores que a permeiam.

        É tarefa de cada pessoa avaliar o seu comportamento para se construir. Estamos a cada momento tomando decisões, e estas nos constroem ou destroem. Uma pessoa que não enfrenta seus deveres se torna imatura e caminha pela vida em bases falsas. Com o passar do tempo concluirá ter sido medíocre e enterrado muitos ideais porque se deixou levar pela preguiça ou outros vícios.

    7 – A criança tende a viver dominada pelo instinto

        O ser humano, por ser inteligente e livre, rompe o cerco limitado dos instintos (que busca apenas a sua satisfação) e respeita os seres não por interesse próprio, mas porque eles existem e têm as suas necessidades. A criança até aos cinco anos só pensa nela e não partilha, nem percebe a necessidade dos outros. Enquanto a inteligência dela não se desenvolve, vive dominada pelos instintos primários e cabe aos pais ajudá-la a vencer esse individualismo, animando-a a partilhar. Se é inevitável e desculpável o egoísmo da criança, já o de um adolescente ou jovem é sinal de imaturidade ao revelar desajuste de personalidade: um corpo crescido, mas uma inteligência com síndrome de infantilidade.

    Texto produzido por Ari Esteves, com base no livro “Moral: a arte de viver”, de Juan Luís Lorda, Editora Quadrante, São Paulo, 2001. Fotografia de Osama B. Aamir.jpg

  • Pais frouxos, violentos e assertivos

    Pais frouxos, violentos e assertivos

        1 – Pais com crise de autoridade, crise de tradição, crise de maturidade. 2 – Crianças de 0 a 2 anos: pais permissivos, violentos e assertivos. 3 – Crianças de 3 a 7 anos: pais permissivos, violentos e assertivos. 4 – Crianças de 8 a 11 anos: pais permissivos, violentos e assertivos. 5 – Adolescentes de 12 a 16 anos: pais permissivos, violentos e assertivos

    1 – Pais com crise de autoridade, crise de tradição, crise de maturidade

        Há pais que se encontram confusos e com crise de autoridade provocada pelo relativismo, que prega não haver verdades objetivas também na educação dos filhos, e estão como quem dirige à noite em estrada sem iluminação, faixas e sinalizações. Outra é a crise de tradição, porque foram esquecidos os valores perenes (liberdade, amor, verdade, beleza, família) que vinham sendo construídos desde os gregos (portanto há vinte e seis séculos), com consequências diárias na vida das famílias, a ponto de uma mãe se arrepender tarde demais por ter liberado o celular para o filho de dez anos, ou ter permitido que a filha adolescente começasse a participar de certas festas. Há também a crise de maturidade, com pais que educam pela emoção: permitem ou não com base no que sentem (são emotivistas), e não por terem estudados os temas importantes para esclarecer os filhos. Tais desequilíbrios geraram a crise da pessoa humana, porque se perdeu o conceito de pessoa e o que é ser homem ou mulher.

        Segue abaixo a descrição de alguns comportamentos adotados pelos pais, nas diferentes idades dos filhos. Pode-se errar ou pelo excesso de carinho mal-entendido (pais permissivos) ou por excesso de firmeza (pais autoritários). A atitude correta dos pais se chama “assertividade”, que vem do substantivo “asserto”, de origem latina, que significa “proposição afirmativa”, agir com assertividade, positivamente, pois são pais que se mostram seguros, firmes, mas com flexibilidade quando não estão em jogo valores que acreditam ser os melhores para os filhos: agem com carinho e firmeza, tal como uma bigorna almofadada.

    2 – Crianças de 0 a 2 anos: pais permissivos, violentos e assertivos

        Pais permissivos, fracos ou submissos não dominam a própria afetividade e se mostram imaturos na relação com os filhos nessa faixa etária. Diante de choros ou birras cedem facilmente sem perceber o que realmente o bebê necessita: falta-lhes inteligência emocional para compreender isso, já que pensam demasiadamente em si próprios e não no filho. Se a criança de dois anos não quer comer, ficam desconcertados e mudam o alimento. Ou seja, ficam à mercê do filho, que logo percebe que pode colocar os pais no bolso ou na rodinha (gíria futebolista). Não sabem criar e exigir rotinas de sono, ordem, alimentação e higiene.

        Pais autoritários, violentos ou agressivos são dominadores. O filho tem medo da voz e do olhar de um pai assim, e se põe assustado na presença dele, já que não transmite carinho e acolhimento. Geralmente são pais que não aceitam algo da criança, e por não estudarem nada sobre a educação do bebê, gritam, dão respostas hostis do tipo “Esse meu filho é uma praga”, “Você me deixa louco”. É possível um filho amar e ter confiança em pai com esse perfil?

        Pais assertivos são seguros porque sabem o que fazer em cada etapa da vida do bebê, seja ele de um mês, três meses ou dois anos: o alimento a ser dado, como deve ser o sono ou o comportamento da criança nesse período… Estão tranquilos, seguros e não negociam nada com o bebê, pois sabem como agir em cada situação (comer, dormir ou banhar). Aliás, o pai procura dar banho no bebê para que a criança sinta seu afeto e aproximação com ele. A comunicação desses pais é ativa, firme, clara; a criança ao não perceber insegurança neles, não faz manha: − Filho, está na hora do banho; e em seguida a da mamadeira. O filho sabe que não tem a opção de fazer ou não. Uma mãe com muito mi mi mi diz “− Ai você não quer tomar banho! Que faço agora?”, e será explorada pela criança a ponto de logo dizer para as amigas: − Meu filho joga o sapato e bate em mim! É preciso encarar a criança “olho no olho”, apoiar a mão no ombro dela e repreendê-la com firmeza ao agir mal. Esse contato físico – olho no olho e mão no ombro − é importante para a criança de 0 a 2 anos. A assertividade pede essa firmeza.

    3 – Crianças de 3 a 7 anos: pais permissivos, violentos e assertivos

        Pais permissivos nestas idades já perderam a batalha do banho, comida e sono. Para se livrar do problema terceirizam a criança para a babá ou escola. Quando a mãe começa a ter medo de enfrentar o banho da criança algo não está bem, porque não sente alegria em estar com o filho. Não deixa também de ser uma fraqueza a atitude da mãe superprotetora que, por medo de exigir, faz tudo o que a criança deveria fazer: − Aí, vai quebrar o copo; deixa que eu guardo. Ou – Eu levo a mochila pra você não cair. – Tadinho, a professora passou muita lição de casa? Ou – Cadeira malvada, por que você machucou o pé do meu filhinho? (e a mãe bate na cadeira como se o móvel fosse culpado pela imprudência da criança). O filho percebe que a mãe é insegura e submissa porque não confia na capacidade dele. Outra atitude da mãe fraca nesta faixa etária é a que, por medo de corrigir, diz para si que o filho vai melhorar com o tempo: − Ele joga as coisas e bate em mim; mas não faz por mal e vai melhorar. Ou − Puxa, por que você fez isso pra mamãe? Isso é querer educar na “peninha”, na compaixão pela mamãe (filhos até cinco anos não percebem o que é compaixão). A mãe age assim porque não tem coragem de dizer com firmeza as coisas. Não se educa na “peninha da mamãe”, mas na argumentação firme: − Você não devia ter feito isso. Vá pegar e limpe o chão. Se ocorrer de novo ficará toda manhã sem sua bicicleta. A criança entende o argumento do tipo “não suje porque terei que levar” e não um argumento sentimental. Mandar é diferente de pedir. Mãe submissa não comanda o filho, mas apenas diz: − Arrume sua cama pra mamãe, vai (quando?). A criança precisa de comandos firmes: − Julinho, arrume agora a sua cama.

        Pais autoritários são grossos e violentos na comunicação: batem, xingam, empurram. Humilham a criança com palavrões porque desconhecem o respeito à dignidade do outro. O filho tem pavor de estar com o pai e vai se afastando dele. Sendo pais imaturos, falta-lhes serenidade, autocontrole, fortaleza e paciência para superar aos poucos as dificuldades da criança. A ausência de equilíbrio interior e o pouco conhecimento sobre educação dos filhos, torna-os autoritários: − Você vai ver o que vai acontecer se não fizer a lição de casa. São exagerados nas punições ao não pensar nelas antecipadamente com o outro cônjuge: − Ficará um mês sem ver televisão. Ou – Nos próximos dois meses só sairá de casa para ir à escola e nada mais.

        Pais assertivos gostam de estar com os filhos, de fazê-los protagonistas e de envolvê-los em tarefas. Animam as crianças a sugerirem passeios e criam um clima de felicidade ao deixar algo para a decisão delas: − Onde vocês gostariam de ir almoçar hoje? Fomentam a autonomia da criança para ela agir sem medo: − Você faz as coisas com capricho. Pinte essa parede da garagem que ficará muito boa. Filhos de pais assertivos gostam de retornar ao lar, porque ali há céu, um ambiente gostoso onde no jantar os filhos falam de suas coisas e os pais contam como foi o seu dia de trabalho. Na sala de estar fazem uma tertúlia ou bate papo sem que a TV se intrometa: a filha lê uma poesia, o menino mostra o desenho que fez na escola; e depois, pai e filho se deitam no chão para montar o quebra-cabeça. Esse ambiente de lar é um dos grandes legados da família que os filhos jamais esquecerão. São pais que perceberam o valor entranhável do lar, e procuram chegar cedo do trabalho. Mas se em alguma ocasião o filho briga com o irmão ou trata mal a mãe, o pai têm uma conversa exigente com ele.

    4 – Crianças de 8 a 11 anos: pais permissivos, violentos e assertivos

        Pais permissivos não percebem que nessa faixa a puberdade começa a falar mais forte. A mãe acha que o filho é maravilhoso e que não vai se envolver com nada referente à sexualidade, e libera as telas, os vídeos, os filmes. Por vezes são mães que querem esticar um pouco o período de baby de um garoto de sete ou oito anos, e não o deixa ir à rua fazer compras, passear sozinho no parque, pagar uma conta. Têm medo que o filho vai ser assaltado ou se machucar. São mães carentes e com certo egoísmo ao querer manter o filho na infância e preso à sua saia. A criança tem que tornar guerreira! É preciso ir soltando a linha para a pipa subir alto! Consequências de pais fracos: o filho será cada vez mais exigente e cioso com os cuidados que devem ter para com ele; será queixoso e chorão diante de qualquer incomodidade ou tarefa que lhe custe esforço realizar; por falta de exigência e por fazer apenas o que gosta, terá forte tendência ao TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade); tornar-se-á emocionalmente fraco, pouco resistente à frustração e facilmente influenciável pelos amigos.

        Pais autoritários nessa faixa etária não têm a autoridade do conhecimento, mas apenas a da força bruta. Não percebem que o filho está terminando o Fundamental 1 e entrando no 2, e que já está maduro para ouvir argumentos sólidos, explicados em diálogo amigável, sobre o motivo para não ir a determinadas festas, não beber álcool, não ver certos filmes ou fazer excursão com a turma da escola para Porto Seguro; por que não ter televisão no quarto?; e questões sobre a sexualidade humana. Ao não ter argumentos por falta de leitura e estudo, berram e dizem que vai ser assim porque “quem manda nesta casa sou eu; aqui se faz o que eu digo”. E estabelecem um monte de regras rígidas e castigam em excesso. Geralmente são pais focados no trabalho e quando chegam em casa estão desanimados para as questões dos filhos. Pais autoritários costumam ter filhos com vontade fraca, ansiosos, desconfiados e com tendência a esconder tudo deles. São filhos que não interiorizaram as virtudes porque não aprenderam a querer as coisas livremente, mas foram obrigados a aceitar tudo goela abaixo, sem explicações convincentes. Medrosos, inseguros e com baixa autoestima porque foram castigados e injustiçados com frequência, não suportarão mais essas atitudes no final da adolescência e enfrentarão fortemente os pais.

        Pais assertivos sabem que nessas idades a pressão do ambiente é negativamente forte, e estudam muito para compreender os problemas e dar aos filhos critérios para que saibam filtrar as opiniões distorcidas dos meios de comunicação, escola ou dadas por colegas mal informados. Sabem que precisam ir soltando os filhos para que assumam riscos e sejam responsáveis, por isso não os secretariam lembrando a todo instante o que devem fazer. Porém, exigem que tenham uma agenda e anotem os compromissos. São pais que, se erram, será por excesso, não por omissão; porém, os filhos sabem que a falha foi por querer dar o melhor a eles. São firmes e não deixam os filhos assistirem qualquer coisa na TV, mas organizam culturalmente o lar com programas selecionados, bons livros e visitas culturais. Não são coniventes com escolas fracas que não fazem provas após os feriados para não incomodar os alunos com estudos nessas folgas, porque têm presente que para passar no vestibular de uma excelente universidade pública, os filhos terão que se exigir muito. Mostram ideais elevados para os filhos assumirem sem medo, preparando-os para atuarem no mundo e não para ficarem agarrados à saia da mãe ou à calça do pai.

    5 – Adolescentes de 12 a 16 anos: pais permissivos, violentos e assertivos

        A adolescência tem quatro fases: 1) Fase regressiva, ou tentativa de voltar à infância, sendo muito ruim se a mãe se torna conivente com isso. 2) Fase agressiva, de enfrentamento com os pais, porque querem sair para o mundo e compreender a vida, mas se sentem tolhidos quando os pais não vão soltando as rédeas aos poucos. 3) Fase transgressiva, perigosa se não houve educação da afetividade e a aquisição de virtudes. Haverá um caldeirão de sentimentos entrechocando-se, e então pode acontecer de tudo: drogas, pornografia, festas perigosas, gravidez precoce, bebidas. É a fase onde ocorrem suicídios entre os jovens, quando não houve educação em valores, porque se encontram insatisfeitos, vazios por dentro, e veem a vida sem sentido. O pai, percebe que está perdendo o filho e passa a impor regras duras e sem explicação, mas apenas no enfrentamento, que ocorrerá de modo explosivo. 4) Fase construtiva se dá em adolescentes educados em sua sensibilidade, inteligência e vontade desde crianças; então desejam mudar o mundo para melhor, e aceitam com agrado os desafios dos grandes ideais. A adolescência é a fase propícia para iniciar a inteligência na contemplação do bem, da verdade e da beleza.

        Pais permissivos nessa fase acham que os filhos já estão grandinhos e podem ser liberados para tudo: festas, viajar com a turma, chegar tarde em casa, fazer programas de fim de semana sem saber para onde foram. Não se preocupam em conhecer os amigos dos filhos e suas famílias; deixam os adolescentes horas e horas enfiados no celular, sem interessar-se pelo que veem. Pensam que os filhos saberão enfrentar os temas polêmicos, e temem conversar com eles sobre questões como aborto, homossexualidade, sexo fora do casamento, drogas. São pais que vão se afastando dos filhos e, para evitar os temas complicados, lotam a agenda dos jovens com cursos e atividades extracurriculares, e perdem a oportunidade de terem os filhos juntos de si para diálogos profundos em clima de amizade.

        Pais autoritários ao perceber que estão perdendo o filho desta faixa etária, porque anda com novos amigos e frequenta festas e ambientes onde há o risco de drogas e promiscuidades, e por não estarem preparados para dialogar, baixam excessivas regras em casa. O filho, que não foi educado porque o pai, além de não ser amigo, nunca se preparou para dar explicações convincentes, facilmente partirá para o enfrentamento e o resultado será a perda desse filho.

        Pais assertivos com filhos nessa fase investem tempo ao estudo para fundamentar e antecipar suas respostas sobre drogas, pornografia, sexo fora do casamento, gravidez precoce, aborto, homossexualidade, etc. Dialogam e ajudam os filhos na escolha na carreira universitária. Ao ser consultado pelo filho ou filha que quer ir a uma festa, procuram saber onde é, com quem irá, o que irá rolar e os que estarão presentes. Então, darão ou não a permissão, mas com argumentos sólidos e convincentes, que vacinam os filhos ao fazer ver as opiniões torcidas de veículos de comunicação, amigos e, por vezes, professores. Ao negar a permissão, não temem que os filhos fiquem chateados por alguns dias, pois sabem que isso logo passará.

        Pais equilibrados têm filhos responsáveis, confiantes em si mesmos, com capacidade de liderança e prontos para resolver seus problemas. São filhos felizes que seguem o caminho do bem porque seus pais são bons guias.

    Importante sugestão de leitura: livro “Carinho e firmeza com os filhos”, de Alexander Lyford-Pike, Editora Quadrante, São Paulo

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na live do Youtube no 68 de Jeb Malheiro.

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