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  • Aproveitar o tempo sem vídeo game

    Aproveitar o tempo sem vídeo game

             Você já parou para pensar no número de horas que seu filho passa na frente da tela? Talvez tenha ouvido muitas vezes desculpas do tipo “Só mais um pouquinho”, e lá se foi mais uma tarde. Como ajudar um adolescente a aproveitar melhor o tempo?

             Primeiramente, convide seu filho para tomar um chocolate quente na lanchonete da esquina. Depois, tenha com ele um papo legal, descontraído, mas sincero e revelando sua preocupação de que ele não tem um projeto sério de vida, pois passa muitas horas do dia com games, quando muitos jovens neste momento desenvolvem suas habilidades pessoais aproveitando melhor o tempo.

             Essa conversa visa alertá-lo para que fortaleça a vontade – e queira – para mudar de atitude e deixar de ser dominado pelo sentimento ou gosto de ficar jogando o tempo todo, gastando suas preciosas horas ao invés de construir-se. Ajude-o a descobrir seus potenciais, que bem desenvolvidos darão a ele imensa alegria ao colocar seus dotes pessoais ao serviço dos demais:

             – Veja, filho, você gastou nesta semana mais de 10 horas em games. Imagine se essas horas fossem utilizadas para ler, assistir vídeos ou ouvir podcasts para se aprofundar num tema que você aprecia e se sente preparado para desenvolver, seja no campo da literatura, arte, esporte, humanidades, ciência ou tecnologia… Certamente, em um ano você seria uma fera nesse tema e poderia ensinar muita gente e se preparar para a sua futura profissão. Não pense que o tempo é elástico e que não há problema jogá-lo pelo bueiro. Todos percebem que você adquiriu um vício que está configurando a sua personalidade como a de alguém sem responsabilidade, que vive de frivolidades, tem a vontade enfraquecida para enfrentar qualquer projeto mais sério…

             Respire um pouco, faça silêncio, tome mais um gole de chocolate e volte a falar calmamente:

             – Seu tempo, filho, é preenchido principalmente com estímulos digitais (games, vídeos, redes), e isso não é indiferente, mas causa feridas na alma: isola-o, pois você só tem amigos digitais e não reais; deixa você ansioso ao desejar tudo na hora e sem paciência para esperar por um bem maior que leva mais tempo para ser conquistado; seu sedentarismo logo acabará com sua saúde; sua ânsia de ficar jogando o tempo todo deixa você entediado com a vida normal e já nem sabe apreciar as belezas simples da vida… O mais grave de tudo é que você já não consegue trabalhar com esforço, nem amar o silêncio para pensar e refletir. Os games são produzidos para ativar a dopamina ou hormônio do prazer por meio da recompensa imediata que os jogos produzem… Troque seu vício por uma missão, um desafio, um projeto sério. Eu acredito em você e sei que será capaz de construir algo grande, desafiador! Como sei que você que gosta tanto de novas tecnologias, antes dessa nossa conversa consultei uma revista que afirmou estar o mercado de trabalho necessitado com urgência de especialista em IA, big data, cloud computing, analista ou cientista de dados, especialista em máquinas e em segurança cibernética, transformação digital, business inteligence, sustentabilidade, meio ambiente, governança… Não entendo muito dessas coisas, mas sei que você saberá fazer uma pesquisa na internet para saber escolher uma dessas áreas e investir seu tempo para dominá-la, caso se sinta preparado e aprecie alguma delas.

             Bem, seu filho poderá ficar sem saber como iniciar um processo de desintoxicação dos games. Então, sugira a ele começar por ter uma disciplina diária: horário de acordar e dormir e não utilizar celular após às 21 horas; ter um horário diário para estudar durante 40 minutos, outro para descansar com bons livros de literatura… Depois, pedir a ele que assuma alguns encargos diários para deixar o lar limpo e harmonioso, pois deve compreender que a família forma uma equipe onde todos colaboram. Dizer também que vocês, pais, irão estabelecer um horário fixo para almoçar e jantar, e procurar estar na mesa sem celular e tv desligada, a fim de que possam conversar entre todos… Durante o período da tarde, diga que manterão na casa um clima de estudo e leitura, ou seja, de silêncio, sem rádio ou tv ligados; e que para o descanso familiar programarão filmes e documentários que trarão experiências de vida, valores a imitar, cultura; que farão caminhadas ao ar livre no parque ou na praça para fugir dos males do sedentarismo; que adotarão jogos de sala para se divertirem juntos, tipo de memória, raciocínio ou estratégia; jogos de linguagem…; aprender a tocar um instrumento musical…

             Espero que essas dicas oferecidas por muitos pais, em diferentes atividades que participei, ajudem a construir um lar harmonioso onde a personalidade de cada membro da família é continuamente enriquecida.

  • Hábitos de ordem e disciplina em crianças de 2 a 6 anos

    Hábitos de ordem e disciplina em crianças de 2 a 6 anos

              Entre 2 e 6 anos as crianças estão descobrindo o mundo, e testando seus próprios limites. Nessa fase elas estão dispostas a aprender, colaborar e agradar os pais em tudo. Por isso essa fase é chamada de período áureo da educação, e os pais devem aproveitar para orientá-las com paciência, a fim de que desenvolvam hábitos que logo se transformarão em virtudes que as acompanharão por toda a vida.

              A criança não nasce ordenada ou desordenada por natureza, pois não se trata de algo genético, mas porque no momento oportuno teve ou não a ajuda necessária para tal. Entretanto, há no interior dela a pré-disposição natural para a ordem, pois o período sensitivo (não voluntário) em que o organismo tende intuitivamente a realizar ações ordenadas, é entre um e três anos de idade. Por meio do instinto-guia ou conhecimento primário, tem a criança a capacidade de realizar ações apenas por observação e imitação, tal como caminhar ou ordenar coisas; também realizam ações quando são orientadas a fazer algo. A ânsia de repetir as mesmas ações faz parte do chamado período sensitivo da criança. Porém, com a mesma facilidade de ser ordenada, poderá ser desordenada se não for orientada ou porque vê os mais velhos não darem bom exemplo.

              Ser metódica e ordenada é um processo que a criança aprende com grande facilidade, sempre que for ensinada e tenha em seus pais um modelo a seguir. A ordem vivida de forma rítmica nos horários de refeições, sono, brincadeiras, asseio, saídas para passeios, ajudará no desenvolvimento físico, psíquico e espiritual da criança, além de facilitar a aquisição de muitas outras virtudes. Daí, a importância de se ter uma disciplinar familiar, também para os pais. Respeitar a ordem e os horários da criança é atitude fundamental para os pais não as desnortearem ou deseducarem.

              Ser pessoa ordenada não é tarefa mecânica, mas modo de crescer em diversas virtudes: ordem, constância, resiliência, domínio dos sentimentos ao parar uma atividade para atender outra e não permanecer apenas naquilo que se gosta de fazer; é atender as responsabilidades que fazem parte do dia a dia de qualquer pessoa, inclusive das crianças, tais como arrumar a cama, guardar as próprias roupas e brinquedos, ajudar a colocar os pratos sobre a mesa e tirá-los depois das refeições, enxugar o banheiro após o banho… Essas tarefas, entre outras, quando assumidas desde a infância ajuda a criança a não se fechar apenas em suas coisas e crescer em espírito de serviço e solidariedade. Além disso, é uma questão de justiça, pois todos na casa – também as crianças –, devem se sentir parte de uma equipe e colaborar na ordem, limpeza e harmonia da casa e da vida familiar.

              Como se pode concluir, disciplina não significa castigo. A criança necessita de orientações, rotinas claras, limites firmes e respeitosos. Dizer “não” quando necessário é um ato de amor: pais que só dizem “sim” para evitar trabalhos e confrontos com a criança, logo se arrependem por não ter estabelecido limites às ações do filho, que se transforma em adolescente egoísta, desrespeitoso, insensível para as necessidades dos demais, preguiçoso e fraco para enfrentar seus próprios problemas.

              Dicas práticas: dar aos pequenos tarefas simples para que aos poucos cresçam em autoconfiança e autonomia, e insista com paciência: “– Antes de brincar arrume a sua cama e guarde suas roupas”. A criança aprende com a repetição das mensagens e com o exemplo dos pais, que também devem ser organizados. E lembrem-se: cada vitória, por menor que pareça, deve ser celebrada, pois o elogio sincero anima a ser constante e disciplinado: “– Você guardou tudo sozinho! Muito bom!”.

  • O vício das apostas online

    O vício das apostas online

             O vício das apostas online vem revelando fragilidade comportamental entre adolescentes e jovens, facilmente aliciados pela falsa promessa de dinheiro sem esforço, levando a maioria a prejuízos financeiros e sofrimentos emocionais. Adolescentes, cujo autocontrole ainda está em formação, tornam-se especialmente vulneráveis ao vício das apostas. Pais e responsáveis precisam estar atentos e se preparar para conversar sobre esses riscos.

    Como surge o vício

             O jogo das apostas ativa sistemas de busca de recompensa no cérebro que podem levar à compulsão. As plataformas de apostas online exploram mecanismos de reforçamento intermitente, um dos mais potentes na manutenção de comportamentos. O reforçamento intermitente é um conceito da análise do comportamento que descreve a situação em que uma resposta ou comportamento não é reforçada todas as vezes que ocorre, mas sim de forma ocasional ou imprevisível. Por exemplo, uma máquina caça-níquel, onde a pessoa puxa a alavanca várias vezes sem saber nunca quando vai ganhar, reforça um tipo de comportamento mais resistente à extinção, ou seja, a pessoa continua insistindo mesmo quando não está recebendo nenhum reforço ou ganho.

             No caso das apostas online, o reforçamento intermitente é um dos grandes responsáveis por manter o comportamento de apostar, porque o jogador experimenta vitórias esporádicas, o que aumenta a expectativa e a persistência, mesmo com prejuízos. O comportamento de apostar é reforçado de forma imprevisível (às vezes há um ganho e muitas vezes não). Isso mantém o indivíduo engajado por mais tempo, mesmo diante de perdas sucessivas, pois o cérebro passa a esperar a próxima “recompensa”. A promessa de ganhos rápidos mascara um padrão de perdas progressivas e respostas compulsivas.

    Prejuízos Econômicos do Vício em Apostas Online

             As apostas online têm impactado significativamente o orçamento das famílias das classes C e D no Brasil. Entre 2018 e 2023, os gastos com apostas nessas classes aumentaram 419%, passando de 0,27% para 1,98% do orçamento familiar. Esse aumento tem levado à redução de despesas em áreas como lazer e cultura, que caíram de 1,7% para 1,5% no mesmo período.

             Uma pesquisa do Instituto Locomotiva revelou que 50% dos brasileiros das classes C, D e E utilizam dinheiro de poupança e economias em restaurantes para financiar apostas esportivas. Essa realocação de recursos vem comprometendo a estabilidade financeira dessas famílias ao aumentar o risco de endividamento.

    Consequências do vício das apostas:

    • Endividamento: Pessoas viciadas tendem a gastar além do que podem, recorrendo a empréstimos, cartões de crédito e até penhorando bens.
    • Perda de renda familiar: O dinheiro que seria usado para despesas básicas (como alimentação, aluguel e contas) é direcionado para apostas.
    • Ruptura de relações: Conflitos familiares aumentam, levando a separações, perda de confiança e até abandono de responsabilidades.
    • Desemprego e baixa produtividade: O vício pode afetar o desempenho no trabalho ou nos estudos, levando à perda de oportunidades profissionais.
    • Impacto psicológico e financeiro combinado: A ansiedade e depressão causadas pelas perdas agravam o ciclo do vício, gerando mais prejuízo.

    Legislação brasileira

    • Antes de 2018: as apostas esportivas eram proibidas no Brasil, mas muitos brasileiros apostavam em sites estrangeiros, o que não era regulamentado.
    • Lei 13.756/2018: autorizou as apostas esportivas de quota fixa (onde o apostador sabe quanto pode ganhar). A regulamentação, no entanto, ainda não tinha sido finalizada.
    • Avanço em 2023-2024: o governo federal avançou na regulamentação, criando regras para a operação, tributação e fiscalização das casas de apostas (conhecidas como bets).
    • 2024 em diante: empresas passaram a poder operar legalmente no Brasil mediante licença do Ministério da Fazenda, pagando impostos e seguindo regras de proteção ao consumidor e combate ao jogo ilegal.

    Medidas para corrigir o vício das apostas online

             A atuação preventiva de pais e responsáveis é essencial para promover a conscientização sobre os riscos associados às apostas online e implementar políticas públicas que protejam os consumidores mais vulneráveis.

             Para combater o vício das apostas online é importante adotar medidas em várias frentes: familiar, educacional, psicológica, legislativa e tecnológica. Mas, antes de tudo, é necessário reconhecer o problema e aceitar que se possui o vício, e que ele está afetando a vida pessoal, emocional e/ou financeira. Perguntar a si mesmo: “Já tentei parar e não consegui?” ou “Estou escondendo isso das pessoas?”.

    Formas eficazes de proteção:

             1. Fale com alguém de confiança: conte a um amigo ou familiar, pois ter alguém que saiba da situação ajuda no processo. O apoio emocional pode ser essencial para fazer frente ao vício.

             2. Apoio familiar: envolver a família no processo de recuperação. Criar um ambiente de diálogo aberto. Conversar sobre os riscos, supervisionar o uso de tela e estabelecer limites, estimular o pensamento crítico. É importante apresentar formas seguras de obter ganhos com o trabalho, buscar outras formas de entretenimento, ensinar a lidar com a frustração e ter paciência para obter verdadeiras conquistas.

             3. Tecnologia de proteção: instale softwares de bloqueio de sites e apps de apostas como Gamban e BetBlocker, pois ajudam a restringir o acesso a sites de apostas; alertas automáticos com mensagens dentro dos apps/sites mostrando quanto o usuário já perdeu ou passou do limite. Solicite autoexclusão nas plataformas onde se possui conta e evite guardar senhas e dados de cartões em dispositivos.

             4. Reorganize as finanças: cancele ou limite o uso de cartões de crédito. Entregue o controle financeiro temporariamente a alguém de confiança, se necessário. Construa um orçamento realista e acompanhe seus gastos semanalmente.

             5. Preencha o tempo com novas rotinas; substitua o tempo dedicado às apostas por hobbies, exercícios, leituras, voluntariados: quanto mais ocupado estiver, menor a chance de recaída.

             6. Trabalhe o emocional: ansiedade, frustração e solidão costumam alimentar o vício. Práticas como meditação, journaling (diário emocional), esporte e terapia são grandes aliadas.

             7. Tenha paciência com o processo de recuperação: recaídas podem acontecer, e isso não significa fracasso. O importante é voltar ao plano e seguir em frente. Celebre cada semana ou mês sem apostas. Controle os impulsos por meio de virtudes como fortaleza, temperança, ordem e aproveitamento do tempo.

             8. Educação e prevenção: participe de campanhas públicas de conscientização sobre os riscos do jogo e incentive a educação financeira em escolas. Exija das autoridades regulação mais rígida para sites e proibição de publicidade em horários de grande audiência; tornar obrigatória a ferramentas de autoexclusão nas plataformas.

             9. Busque ajuda profissional: apoio psicológico e tratamento terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma abordagem eficaz para tratar o vício dos jogos. Grupos de apoio como Jogadores Anônimos (JA) oferecem suporte emocional e troca de experiências. O SUS (Sistema Único de Saúde), através dos CAPS-AD (Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas), oferece serviço público especializado em dependência química ou vícios comportamentais, como o de apostas, por meio de oficinas terapêuticas, grupos de apoio, prescrição de medicamentos (se necessário), acompanhamento, apoio à família, visitas domiciliares e ações comunitárias. Vá a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima e peça encaminhamento, ou vá direto ao CAPS-AD de sua cidade (alguns funcionam por demanda espontânea, sem agendamento).

    Jogo do Tigrinho:

             É um tipo de jogo de cassino online, geralmente apresentado como uma máquina caça-níquel (slot machine). O jogo é baseado na sorte, e a maioria dos jogadores perde dinheiro. Popularizou-se no Brasil por ser simples, visualmente colorido e por prometer ganhos rápidos — o que o torna atrativo, especialmente para públicos mais vulneráveis. É divulgado nas redes sociais por influenciadores que mostram supostos ganhos altos para atrair mais jogadores.

             Características principais: funciona como um jogo caça-níquel onde o jogador gira os rolos com o objetivo de combinar símbolos. Possui uma estética infantilizada, com personagens como tigres fofinhos e sons chamativos.

             Problemas e riscos: vicia em jogos (ludopatia) por envolver dinheiro e prometer lucros fáceis, pode causar dependência, perdas financeiras, pois a grande maioria dos usuários perde mais do que ganha.

             Propaganda enganosa: muitos dos “ganhos” mostrados por influenciadores são falsos ou manipulados.

             Legalidade duvidosa: muitos desses jogos são hospedados em plataformas não regulamentadas no Brasil, o que pode envolver lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros.

    Como são divulgados: as estratégias são usadas para atrair jogadores, principalmente crianças e adolescentes, que é um público vulnerável. Influenciadores nas redes sociais utilizam vídeos curtos no TikTok, Instagram e Kwai mostram pessoas “ganhando” muito dinheiro em poucos segundos. Os vídeos têm frases como: “Joguei 50 reais e ganhei 5 mil!”, “Esse jogo mudou minha vida!”, “É só jogar nesse horário que você ganha!”. Muitas vezes são montagens ou contas fake pagas para divulgar. Alguns vídeos mostram o jogo editado para parecer que a pessoa ganhou.

             Promessas de vida fácil: a ideia de sair da pobreza rapidamente apela diretamente para quem está em situação difícil. Os anúncios dizem que você pode “ganhar sem sair de casa”, “fugir do patrão”, ou “ficar rico do nada”.

             Estética infantil e apelativa: o jogo utiliza personagens fofinhos como tigres, pandas, ou animais sorridentes. As cores são vibrantes, cheias de luzes e sons que lembram jogos infantis, o que atrai crianças e adolescentes. Parece inofensivo, mas envolve apostas com dinheiro real.

             Bônus falsos e manipulação: sites e apps oferecem “bônus de boas-vindas”, mas muitos são armadilhas: você precisa apostar muito mais antes de poder sacar qualquer valor.

             Links com “comissão”: influenciadores ganham dinheiro se alguém entra no jogo por um link de afiliado. Quanto mais pessoas apostam, mais o divulgador recebe, mesmo que os outros estejam perdendo dinheiro.

  • Educar a masculinidade e a feminilidade

    Educar a masculinidade e a feminilidade

             A partir da filosofia de García Hoz, a educação personalizada parte do princípio da singularidade: cada pessoa é única em seu modo de aprender, crescer e se relacionar. Quando falamos em diferenças entre meninos e meninas, não estamos nos referindo apenas a aspectos físicos ou hormonais, mas a tendências gerais no ritmo de maturação neurológica, expressão emocional, interesses e formas de interação com o conhecimento.

             Estudos como os de Park et al. (2016) e Riordan (2015) mostram que, em média:

    • Meninos tendem a maior impulsividade, resposta motora e interesse por desafios físicos e mecânicos.
    • Meninas, por sua vez, tendem a melhor desempenho inicial em linguagem, maior sensibilidade social e foco em tarefas estruturadas.

             Essas tendências não determinam o destino de ninguém, mas oferecem pistas para práticas pedagógicas mais eficazes, pois permitem aplicar metodologias específicas que respeitam as diferenças sem fomentar competição precoce entre os gêneros. Como ressalta Jennifer Wimer (2011), isso favorece o desenvolvimento moral em um ritmo mais adequado à maturação de cada grupo.

             Alfonso Aguiló diz que meninos e meninas apresentam diferenças no ritmo de desenvolvimento, na forma de aprender, no processamento de emoções, nas motivações e interesses. O ensino ao se adaptar à forma de aprender peculiar de cada sexo, torna a igualdade de oportunidades uma possibilidade mais real.

             A seguir, relacionamos sete dicas para a educação de meninos e de meninas, oferecidas por Gabriel Sestrem, jornalista da Gazeta do Povo:

    7 dicas para incentivar a masculinidade nos meninos

    1. Desenvolva a responsabilidade desde cedo: dê pequenas tarefas físicas em casa, como carregar sacolas, ajudar em reparos simples e cuidar do jardim. Lembre-se de fazer com que ele se sinta realmente útil com frases como “Que bom que você me ajudou nisso”, ou “Se eu fizesse sozinho, demoraria muito mais”. Isso faz com que ele desenvolva o senso de proteção e serviço.

    2. Incentive atividades físicas e desafios: praticar esportes, aprender a se defender (se possível, matricule-o em uma boa academia para aprender uma arte marcial) e testar os próprios limites, o que ajuda a desenvolver coragem, disciplina e força.

    3.  Ensine respeito, liderança e hierarquia: aproveite situações do dia a dia para ensiná-lo a proteger os mais fracos, respeitar mulheres e idosos, tomar iniciativa e liderar em situações cotidianas. Homens valorizam muito a hierarquia; ensine-o a entender o seu lugar em cada ambiente.

    4. Valorize a firmeza emocional: ensine que é normal sentir emoções como medo ou angústia, mas que a masculinidade envolve autocontrole e resolução racional dos problemas. Incentive-o a enfrentar os medos e a resolver problemas, e comemore toda pequena conquista.

    5. Ensine sobre honra e palavra: o “fio do bigode” é algo que se perdeu com o tempo. Seu filho precisa saber que um homem deve ser confiável e que a palavra tem valor.

    6. Cultive um espírito aventureiro: brincadeiras físicas, exploração ao ar livre, superação de desafios físicos e participação em competições são muito úteis para fortalecer a identidade masculina.

    7.  Reforce sempre o papel de provedor e protetor: mostre, pelo exemplo e ensino, que homens devem cuidar da família, proteger aqueles que amam e ser trabalhadores responsáveis.

    7 dicas para incentivar a feminilidade nas meninas

    1. Incentive a delicadeza e a gentileza: ensine boas maneiras, tom de voz agradável (evitando gritos e palavrões), a importância do sorriso e da postura cuidadosa. Pequenos gestos, como ajudar um irmão menor a se vestir, ajudam a desenvolver um comportamento acolhedor e atencioso.

    2. Valorize o cuidado com a aparência: ensine sobre roupas femininas, higiene pessoal, cabelo bem cuidado e elegância natural. Isso fortalece a autoestima e reforça o valor da feminilidade como algo belo e natural.

    3. Desenvolva habilidades domésticas e de organização: ensine a cozinhar, cuidar de casa, organizar o espaço e receber bem as pessoas. Desde cedo, as meninas podem aprender que manter um ambiente bonito e organizado é uma forma de carinho pela família.

    4. Encoraje a valorização da maternidade: mostre como a maternidade é bela e significativa. O clássico brincar de boneca deve ser estimulado, já que ajuda a desenvolver o senso de cuidado e proteção. Ter contato com bebês também é muito positivo.

    5. Ensine sobre a importância do casamento e da família: converse sobre a construção de um lar, a parceria com o marido e o papel da mulher na estabilidade familiar. Isso a ajudará a ver o casamento não como um fardo, mas como uma missão honrosa e gratificante.

    6. Fomente interesses como artes, decoração, moda, literatura clássica, música, culinária e hospitalidade, pois são áreas que ajudam a enriquecer a feminilidade.

    7. Incentive-a a aprender defesa pessoal: esse item pode parecer estranho, pois não tem a ver diretamente com feminilidade. Mas feminilidade não significa fragilidade. Se para um homem é importante ter noções de defesa pessoal, para uma mulher isso é mais do que essencial. Se possível, matricule-a em uma arte marcial – de preferência, jiu-jitsu.

             Por fim, diz Sestrem, o mais importante é que os pais sejam exemplos vivos do que ensinam. O menino precisa ver o pai como um homem forte e confiável, e a menina precisa enxergar a mãe como uma mulher graciosa e segura. O ambiente familiar molda a identidade das crianças muito mais do que palavras. Faça sua parte!

             Sugerimos assistir o vídeo da Dra. María Calvo, que resume bem as ideias apresentadas por diferentes autores sobre o tema deste boletim:  Claves de la Educación Diferenciada – María Calvo (15min44s). Explica como meninos e meninas aprendem de forma diferente e como o modelo single-sex potencializa isso com intencionalidade formativa.

      Indicação bibliográfica: “Educação single-sex”, de Alfonso Aguiló, Editora Quadrante, São Paulo, 2015.

  • O poder da literatura no cérebro

    O poder da literatura no cérebro

    Este texto resume o vídeo “Esto Es Lo Que Pasa en Tu Cerebro con la Lectura”, de Marian Rojas, psiquiatra espanhola (link para o vídeo no final).

             A leitura é um universo inexplorado que sem fazer ruído se converte em chave-mestra que abre a mente para novas dimensões e nos conecta com emoções e pensamentos que talvez nunca os teríamos vivenciados. Mais do que simples entretenimento, oferece nova forma de ver o mundo. Ler é tempo de qualidade dedicado a si mesmo; é autocuidado e modo de vincular-se à própria essência. Ler enriquece profundamente a vida pessoal ao nos afastar do ruído exterior para voltarmos ao mais profundo do nosso ser. Desde a infância, os contos penetram na nossa vida com força silenciosa: quem nunca se impactou com uma história ou sentiu suas emoções saltarem das páginas?

             CADA HISTÓRIA ABRE NOVOS HORIZONTES. Ao submergir na leitura abrimos uma porta em direção ao vasto universo de conhecimentos e experiências compartilhadas. Mais que hobby, a leitura é conexão profunda com o nosso próprio ser e com o mundo. Cada livro permite explorar contextos culturais, sociais e históricos diferentes, ampliando a perspectiva sobre a diversidade humana. Palavras carregadas de emoções, ideias e significados e são veículos de transformação e convite para entrar no mundo de outros e explorar suas percepções, vivenciar suas emoções e pensamentos que talvez nunca os teríamos, permitindo olhar pelos olhos de outros, sentir o que sentem, pensar desde a perspectiva deles e enriquece a nossa compreensão de mundo. Uma história bem contada ressoa por dentro e transforma maneira de ver a realidade.

             AUTOCONHECIMENTO. Com a leitura nos observamos sob outras perspectivas e descobrimos novas nuances do nosso ser. Na viagem de uma história reconhecemos nossas próprias lutas, carências e anseios; sendo porta aberta para outras realidades que ao ser atravessada encontramos um pedaço de nós mesmos, antes desconhecido. A leitura é processo contínuo de autodescoberta, permitindo explorar temas universais como amor, perda, dor, esperança.

             A leitura é forma de construir a identidade pessoal e de compreender quem somos e o que queremos ser; é ação transformadora que conduz às profundezas do nosso ser. Cada livro mantém um silencioso diálogo conosco e modo de frear o bulício do quotidiano. Mais do que atitude passiva, a leitura leva a sentir, imaginar e refletir. Pode-se passar anos à procura de respostas externas para compreender os nossos sentimentos, mas ao abrir um livro e mergulhar em suas palavras penetramos em um universo que desafia nossa percepção e permite explorar ideias insuspeitadas, experiências alheias e visões da realidade que nunca teríamos considerado.

             TER COMO PRÓPRIAS AS EXPERIÊNCIAS ALHEIAS. Sem o perceber imediatamente, a leitura impacta nosso cérebro ao afetar profundamente nossas emoções, fortalece as conexões neurais e melhora a capacidade de empatia, autorreflexão e autorregulação emocional. Ao ler, são ativadas áreas cerebrais relacionadas à compreensão, emoção e empatia, e cada história permite assimilar experiências de outros como se fossem próprias, desencadeando mudanças internas que contribuem para formar a identidade pessoal, aportar valores e redefinir perspectivas de vida.

             A neurociência revela que ao ler o cérebro sincroniza as áreas responsáveis pelo processamento da linguagem, emoções e percepção sensorial, permitindo viver uma experiência narrativa sem que o cérebro distinga entre ler sobre essa experiência ou vivê-la na realidade. Nas páginas de um livro não lemos apenas uma história, mas absorvemos vivências, exploramos sentimentos desconhecidos e expandimos nossa visão de mundo. Com a leitura vemos através dos olhos de outros, aprendemos com seus erros e acertos, refletimos sobre nossas vivências com base nas experiências alheias.

             Ao ler sobre alguém que sente medo, alegria ou tristeza, os neurônios espelho, que são células cerebrais ativadas quando observamos ou executamos uma ação por imitação, nos fazem sentir as emoções alheias como se fossem próprias. Este fenômeno faz da leitura poderosa ferramenta para desenvolver a empatia, a compreensão emocional e multiplica as perspectivas por observação. Ao ler, somos influenciados por nossas experiências e emoções pessoais, de modo que o mesmo livro impacta diferentemente duas pessoas. A leitura se conecta não apenas com o autor, mas também com o mundo interior do leitor, faz participar de uma cadeia interminável de aprendizagem, do conhecimento coletivo e dos pensamentos e experiências de pessoas de tempos anteriores e contextos diferentes. Esse intercâmbio faz a humanidade aprender do passado para avançar.

             A LEITURA AMPLIA O HORIZONTE EMOCIONAL. Ler permite viver muitas vidas, ser testemunha de aspectos da humanidade, simular vivências e emoções intensas sem riscos. Com a leitura enfrentamos dilemas éticos, compreendemos melhor a grandeza e a fragilidade da natureza humana, exploramos novos pontos de vista e aumentamos a sensibilidade sobre as experiências alheias. O impacto positivo da leitura na saúde emocional e mental é inegável: pode ser bálsamo em momentos de dor, companhia na solidão e bússola nas incertezas; permite deter-se para refletir e encontrar nas palavras dos outros consolo ou resposta às preocupações pessoais em momentos difíceis. Um bom livro oferece perspectiva e serenidade necessárias para enfrentar as circunstâncias pessoais, trazendo alívio e clareza sem que seja um livro de autoajuda.

             Estudos revelam que a leitura reduz o estresse e melhora o funcionamento do humor, sendo ferramenta para o tratamento da ansiedade e da depressão. Ler uma história ajuda a ver as dificuldades desde uma perspectiva diferente e oferece descanso mental em um mundo saturado de estímulos. No campo da saúde emocional experimenta-se uma catarse, liberta emoções reprimidas e desconstrói conflitos internos. Uma história faz chorar, rir ou sentir medo, e permite que as emoções fluam de forma natural e libertadora. Tal processo ajuda a compreender que emoções intensas ou dolorosas podem ter lugar na nossa vida, e nos prepara para as enfrentar no futuro.

             É AJUDA NA BUSCA DA VERDADE. Outra consequência da leitura é tornar a mente crítica e reflexiva ao incorporar diferentes pontos de vista; ensina a analisar, questionar e não aceitar os fatos como se apresentam, mas aprofundar na verdade por conta própria e não por pressões externas; ilumina a mente para pensar por si mesma, a questionar e a sonhar sem limites, oferecendo a oportunidade de explorar conhecimentos que tornam a vida mais rica, sendo convite para se abrir a um mundo de infinitas possibilidades.

             Neste mundo saturado de informações e opiniões, a leitura torna-se ferramenta de resistência, espaço de liberdade para pensar e sentir sem interferências externas; cultiva a autonomia do pensamento, defende as próprias ideias e mantem a integridade mental em meio à sobrecarga informativa.

             CONVIDA A SONHAR. Os textos literários ajudam a encarar os desafios da vida com esperança, pois neles encontramos pessoas que enfrentaram obstáculos, sofreram e lutaram, inspirando-nos a travar nossas batalhas com mais coragem; revelam caminhos que mesmo não sendo fáceis aportam saídas e fazem acreditar na capacidade pessoal de superação para não desistir dos sonhos.

             DESCANSA E TORNA A IMAGINAÇÃO CRIATIVA. A leitura oferece mais satisfação que muitas outras atividades. Desconectar do ruído exterior e mergulhar num mundo que é só nosso, em ato de intimidade e silêncio, transmite paz e refúgio em meio ao caos. Esse isolar-se do mundo exterior é um dos maiores benefícios da leitura, que permite ver a vida serena e profundamente. Com as histórias viajamos a lugares distantes e nos tornamos heróis, exploradores e testemunhas de mundos que existem apenas na mente de quem os criou e na de quem os lê. A imaginação cultivada pela leitura é fundamental para a saúde mental, pois permite sair da rotina e viver experiências que enriquecem a percepção da vida para ver além do evidente, e desenvolve visão ampla e criativa para enfrentar os problemas.

             FORTALECE A MEMÓRIA E A CAPACIDADE DE COMPREENSÃO. A leitura reforça a capacidade de concentração num mundo cheio de distrações, pois implica em esforço consciente de atenção e retenção. Esse exercício melhora as funções cognitivas e mantem o cérebro em forma, pois o ritmo lento da leitura permite assimilar informações e construir estruturas mentais que potencializam a compreensão.

             REFORÇA OS VALORES. Os enredos literários oferecem personagens de todas as épocas que viveram valores universais e imutáveis como fortaleza, fidelidade, solidariedade, honestidade, entre outros. Também mostram a riqueza das diferenças de gostos, capacidades, temperamentos, favorecendo a tolerância e a empatia.

             O poder da leitura transforma e inspira a mente, sendo fonte de crescimento pessoal; é promessa para que oferece um universo a ser descoberto. Cada história deixa marcas na mente, aporta ideias e sentimentos que se integram à nossa experiência de vida. A leitura cria lições que nos acompanharão pela vida. Na juventude buscamos aventuras; na maturidade, reflexões profundas. Em qualquer estágio, a leitura se adapta às nossas necessidades e oferece inspiração, consolo ou simplesmente um respiro.

             Em conclusão, o poder da leitura é imenso e transformador: conecta-nos com o profundo de nós mesmos, explora as complexas experiências humanas e oferece inspiração e paz. A leitura permite viver múltiplas vidas em uma só; brinda a oportunidade de ver o mundo através de inúmeras perspectivas e de nos enriquece em cada página. A leitura é poderosa ferramenta para construir uma vida plena de sentido, pois cada história oferece um potencial de mudança, um despertar para novas formas de se viver.

    Marian Rojas: vídeo “Esto Es Lo Que Pasa en Tu Cerebro con la Lectura”, link https://www.youtube.com/watch?v=5qpCeGKiemM

  • O perigo oculto das telas digitais

    O perigo oculto das telas digitais

             Marian Rojas, psiquiatra espanhola, orienta sobre os muitos perigos provenientes das telas digitais, pois muitos dos conteúdos são projetados para captarem a atenção e serem altamente viciantes. Vivemos uma época onde os estímulos das telas estão presentes em todos os espaços da nossa vida, tornando a tarefa de educar um desafio imenso. As crianças são as mais afetadas: hipnotizadas e incapazes de se desconectar, quando privadas das telas a reação não é apenas de birra, mas de um comportamento revelador de que algo mais profundo ocorre em seu cérebro. A afirmação de Steve Jobs, cofundador da Apple, de que nunca houve um iPad em sua casa e que não permitia que seus filhos o usassem, deveria alertar aos pais: se um criador de tecnologia não a quer para seus próprios filhos, é porque sabe como funcionam e o impacto que tem sobre cérebros em desenvolvimento.

             O uso excessivo de telas não se trata de uma distração momentânea para distrai os filhos, já que lhes vem alterando profundamente o desenvolvimento cerebral. Desde o nascimento, o cérebro das crianças absorve tudo o que está ao seu redor, e por ser um órgão plástico, molda-se em função dos estímulos que recebe. Aqui reside o perigo: os estímulos artificiais como cores, sons, movimentos rápidos e infinidade de imagens em tempo reduzido, viciam o cérebro e criam desinteresse pela realidade do entorno. A superestimulação artificial das telas afeta o córtex pré-frontal do cérebro, responsável pela atenção, concentração, controle de impulsos e tomada de decisões, que passa a não se desenvolver adequadamente. Essa área cerebral é imatura em crianças, pois não possuem capacidade de controlar seus impulsos porque isso requer tempo. Ativar artificialmente o cérebro faz as crianças dependerem desses estímulos para se manterem atentas.

             Acostumado a receber impulsos em nível exagerado – seja com games ou desenhos –, o cérebro libera dopamina, o hormônio do prazer, gerando um ciclo de gratificação imediata que ao desaparecer faz o faz reclamar por mais estímulos, já que ficou dependente deles para se sentir bem. Tal processo afeta a capacidade da criança para administrar frustrações, manter o esforço da concentração, controlar dos seus impulsos ou gerir suas emoções. Ou seja, será impossível que ela se concentre em tarefas que não ofereçam prazer imediato (aulas, atividades domésticas, por exemplo), pois seu cérebro aguarda a próxima recompensa das telas. Esses problemas não desaparecerão com o tempo. Se os pais não intervierem o quando antes, terão um adolescente, jovem ou adulto carregando esses transtornos.

             Atualmente vemos uma geração que não sabe lidar com as dificuldades da vida real porque cresceu em um mundo onde tudo está a um clique de distância. Para evitar isso, seguem cinco estratégias acerca do gerenciamento sadio das telas. Não se trata de proibir a tecnologia, mas de ensinar as crianças a utilizá-la de forma consciente e equilibrada. Estas ações ajudarão a limitar o tempo das telas e fomentarão um saudável desenvolvimento emocional e cognitivo.

    1. Definir horários para o uso das telas: por exemplo, estabelecer que durante a semana não sejam utilizadas depois das 19h, e que não será permitido o uso delas durante as refeições. O segredo está na persistente dessas orientações, pois as crianças respondem melhor quando os limites são claros e repetidos. Isso as ensinará a aproveitar melhor o tempo e organizar o dia sem telas. As balizas ajudam a saber por onde seguir, fazem compreender que não se pode ficar conectado o tempo todo e ensinam a valorizar os momentos de vida em família ou dedicar-se a atividades sem tecnologias. Importante: que vejam a ausência de telas não como punição, mas como oportunidades para desfrutar de experiências reais como conversa à mesa, ida ao parque, ser paciente e apreciar recompensas não imediatas…
    2. Estabelecer horários em casa para que todos, inclusive os adultos, desliguem os aparelhos talvez por uma ou duas horas por dia, a fim de que a família se desconecte e se dedique a atividades reais como brincar, conversar, cozinhar, organizar, limpar, passear, jogos de mesa… Essas ações revelam às crianças o valor da convivência sem a interferência das telas. Reduzir a dependência dos eletrônicos é saudável não só para as crianças, mas também para os adultos, que devem dar exemplo, porque torna grato o ambiente familiar, com interações face a face que fortalecem os laços mútuos.
    3. O cérebro de uma criança precisa de estímulos diversos para se desenvolver corretamente e as telas não devem ser sua única fonte de entretenimento. O desenvolvimento integral necessita de interesses e habilidades fora do mundo digital. Ao limitar o tempo das telas abre-se espaço para que as crianças descubram a satisfação das atividades manuais conquistadas pelo esforço e criatividade: pintar e construir com blocos desenvolvem a capacidade de concentração e de resolução de problemas. A variedade de opções faz o cérebro desenvolver-se de forma equilibrada, reforçando competências.
    4. Ensinar as crianças a usar as telas de forma consciente e não automática ou por impulso. Em vez de passar horas navegando sem propósito, convidá-las a decidir sobre o que pretendem ver ou fazer antes de se conectar ao aparelho. Assim se promove o uso racional e controlado da tecnologia, em vez de ser atividade sem metas. Essa autorregulação torna as crianças mais críticas e seletivas sobre os conteúdos que consomem: se sabem que o tempo de uso das telas será limitado, selecionarão melhor os conteúdos ao invés de navegar sem rumo. Essa prática desenvolverá uma relação saudável com a tecnologia, tornando-a ferramenta útil e não um meio instantâneo de gratificação.
    5. Por não entender que o uso das telas afeta o cérebro (comportamento, desenvolvimento, humor, capacidade de concentração), é essencial explicar isso às crianças em linguagem acessível. Quanto mais conscientes estiverem sobre os efeitos das telas, mais fácil será para elas aceitarem as conversas sobre os limites para o seu uso.

             Os pais devem reconhecer os momentos em que eles próprios utilizam excessivamente as telas, e enfrentar o desafio de mudar a atitude. Muitas vezes recorrem à tecnologia como fuga rápida para um momento de tranquilidade ou para manter as crianças entretidas. Parece compreensível essa fuga diante das responsabilidades e exigências constantes. Embora a curto prazo possa parecer uma ajuda, é preciso ter a consciência de que a médio prazo o uso da tecnologia gera um impacto negativo no desenvolvimento emocional e mental das crianças. É fácil cair na armadilha de pensar que um pouco mais de tempo de tela não fará dano algum. Porém, sem perceber, os pais tornam os filhos dependentes desses estímulos para encontrar satisfação, ao invés de desenvolver neles habilidades internas como paciência, tolerância à frustração, a capacidade de concentração em tarefas que não oferecem gratificação imediata… Em momentos de cansaço, pensar que as telas não são a solução, e que para construir algo maior, os filhos precisam aprender a administrar suas emoções e entender que nem tudo na vida surge rapidamente e sem esforço. Os limites são saudáveis e ensinam a usar as telas de forma consciente e responsável, sem que se tornem ferramenta de fuga ou dependência.

             O mais valioso que os pais podem ofertar aos filhos não é a tecnologia mais recente ou o acesso ilimitado às telas, mas dar-lhes o próprio tempo, atenção, orientação e amor. Propor atividades alternativas revelam às crianças que podem se divertir sem necessidade de telas, e que o relacionamento cara a cara é mais importante que os digitais para o crescimento humano e intelectual e para gerir as próprias emoções e se tornarem mais resilientes para as boas conquistas, que exigem tempo e paciência.

             Em um mundo que busca soluções rápidas e gratificações imediatas, pensar que cada pequeno esforço para se desconectar das telas e permanecer no mundo real é passo seguro em direção a uma vida saudável e equilibrada para si e para os filhos, porque fomenta a capacidade de enfrentar os desafios da vida, administrar emoções e se relacionar de forma profunda e autêntica. Embora nem sempre seja fácil tal conquista, cada limite estabelecido, cada atividade fora das telas, cada conversa com as crianças sobre o uso das tecnologias, contribuirão para o seu bem-estar emocional e espiritual e se refletirão no adolescente e no jovem equilibrado e resiliente de amanhã. Esses são os atos de amor que os filhos necessitam.

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  • O olhar superficial e o olhar profundo

    O olhar superficial e o olhar profundo

            

             Há formas superficiais e profundas de olhar para as realidades do entorno, e isso tem a ver com o modo pessoal de pensar e se relacionar com o mundo. Há quem permanece apenas nos fragmentos das coisas ao se deixar absorver pela curiosidade que leva a gastar centenas de horas mensais nas redes sociais e internet, malbaratando o tempo que poderia ser utilizado para se aprofundar em algum tema cultural, artístico ou técnico, a fim de compreender o mundo em que vive e assim melhor servir aos demais.

             Desenvolver uma atitude pensante e contemplativa predispõe para chegar ao núcleo dos assuntos e ganhar densidade interior. Aristóteles dizia que pensar é a maior forma de vida, e quem não exerce essa faculdade tem sua humanidade enfraquecida. Muitas ideologias, sistemas políticos, propagandas midiáticas e programas de TV que exploram a vida dos outros, impedem o hábito de pensar porque assim é mais mais fácil influenciar, controlar e manipular as pessoas.

             Existe uma forma intemperada de olhar que se comporta como a borboleta que pula de flor em flor, detendo-se em algo o tempo mínimo para satisfazer a curiosidade e captar apenas o superficial: esse olhar não busca a profundidade, mas apenas o prazer fugaz de novas e superficiais informações. Tomás de Aquino chamava essa atitude de curiositas, oposta à studiositas ou conhecimento profundo, buscado com o esforço que todo processo sério de aprendizagem traz.

             Ceder à curiosidade de navegar habitualmente sem rumo nas redes sociais e internet desenraiza jovens e adultos de habitar em si mesmos, e lhes torna o espírito errante e inquieto que se manifesta em palavras insensatas, insuficiência na abordagem dos assuntos, perdas do sentido de hierarquia dos afazeres, enfraquecimento da vontade para assumir projetos que exigem esforço, e para fugir desse vazio interior, se valem do mundo da distração das telas. Paradoxalmente ao abandonar a própria interioridade, que é o único lugar onde podem encontrar Aquele que sacia a sede de felicidade que todos temos, tornam realidade em sua vida o que dizia Agostinho de Hipona: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem”.

             Para o olhar chegar ao núcleo de cada realidade é necessário desenvolver um sereno e detido processo de discernimento para refletir e fugir da pressa do borboleteio: antes de clicar o play a um vídeo ou série, julgar se é verdadeiramente isso que deve ser feito no momento. É certo que todos necessitam de descanso, de se distrair e distender em atividades prazerosas que não exigem esforço, pois o fio de um arco muito esticado pode romper-se. Mas há momentos para descansar a fim de retornar renovados aos trabalhos e responsabilidades. O que não pode ocorrer é refugiar-se no entretenimento do celular quando se deveria trabalhar, pois tal atitude enfraquece a vontade e debilita o caráter. Um olhar que não vive a virtude da temperança é funesto e causa de muitos vícios: torna o caráter superficial e conduz a erros por vezes irreparáveis na apreciação das realidades e nas decisões pessoais. Tal cegueira do espírito impede perceber o que necessitam aqueles que estão ao seu redor, e a singularidade ou o encanto que cada personalidade oferece.

             O olhar que conduz ao pensar profundo é fruto da temperança. As renúncias são decisivas para concentrar as potências internas e externas em projetos que valem a pena. Tal olhar desenvolve a interioridade e descarta o superficial que leva à perda de tempo e ao mau uso da liberdade, e faz descobrir maravilhas inesperadas ao pôr ordem no espírito. Purificar o coração das mil imagens fugazes evita o deixar-se levar pelas aparências e primeiras impressões ou juízos superficiais. Os artistas, poetas, filósofos e as pessoas observadoras descobrem a beleza nas coisas miúdas da vida, sem necessitar de ir em busca do estrondoso ou da insaciável volúpia por novas notícias.

             Viver a temperança no olhar é o que mais capacita cada um para descobrir a beleza da Criação e o aprofundamento na verdade das coisas. É da responsabilidade pessoal fomentar buscar uma formação que enriqueça continuamente a interioridade pessoal e a abertura do espírito aos demais, sacrificando-se por eles. Desenvolver hábitos de reflexão, de escuta, de empatia e de interesse pelo que sucede nos tempos atuais contribui positivamente à solução dos problemas que hoje afetam a tantos. Pais e responsáveis por crianças devem ajudá-las a não se viciarem em telas digitais, que as tornam passivas, preguiçosas e entediadas com a realidade ao seu redor, preferindo viver na irrealidade das imagens. Ajudá-las a ganhar o hábito de ouvir ou ler histórias, brincar com quebra-cabeça, lego, jogos de sala e atividades ao ar livre com outras crianças; partilhar das tarefas do lar para que aprenderem a ser generosas com o seu tempo e se preocupem com os demais.

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  • As boas e más inclinações

    As boas e más inclinações

             Ao homem não lhe basta conduzir-se simplesmente pelo natural e espontâneo de suas tendências, tal como os animais que lhes é suficiente seguir os instintos para que deem certo. Todos os homens carregam dentro de si a inclinação para o bem ou para o mal, inclusive as crianças. Ensina a Encíclica Veritatis Splendor, que o homem está entregue às suas próprias decisões, ao seu próprio cuidado e responsabilidade para chegar livremente à perfeição humana para a qual foi criado. Os atos humanos são morais porque exprimem e decidem a bondade ou malícia da pessoa que os realiza, pois representam escolhas deliberadas que produzem não apenas mudanças externas, mas configuram profundamente a fisionomia espiritual de quem os realiza.  

             Age-se moralmente bem quando se escolhe livremente o bem supremo ao qual o homem encontra sua perfeição e felicidade plena, que é o próprio Deus. Por isso, o agir humano não deve ser considerado bom só porque atingiu determinado objetivo, mas apenas quando se dirige livre e conscientemente a essa verdade.

             Todos trazemos impresso em nosso coração a chamada lei natural de fazer o bem e evitar o mal, e isso é perceptível pela razão natural. Essa lei não é formulada pela opinião pessoal, e não cabe a cada um alterá-la sem que ocorram graves consequências para si e para os demais: ela lei existe para constituir a moralidade dos atos humanos e ordenar racional e voluntariamente as ações em direção ao bem conhecido pela razão e necessário à natureza humana.

             Por meio de sua inteligência, o homem não possui o arbítrio ou autonomia de chamar bom o que é mau. Nunca serão atos moralmente bons roubar, matar, maltratar os pais, adulterar, caluniar, descuidar da família, etc. A dignidade humana exige que se distinga o bem do mal através da luz da consciência ou razão prática, a fim de agir não por impulsos cegos, opiniões falsas ou por coação externa. Nossas tendências ou inclinações não nos obrigam a agir mal, e se alguma vez nos inclinam a isso, é preciso ter a responsabilidade pessoal de dizer “não”. Somos livres para resistir ao mal, sendo isso facilitado pela aquisição de virtudes ou forças que incidem em nossa inteligência, vontade e afetos.

             Quem luta moralmente para não frustrar conscientemente o bem que deve escolher, a fim de não causar lesões ou fissuras em sua alma, saberá ensinar os filhos a não desfearem a perfeição a que estão chamados a ser. Sâmia Marsilli em seu artigo “Inclinados para o mal”, diz que se os pais pensam que os filhos devem agir sempre de maneira “natural”, sem necessidade de serem corrigidos, cometem o grave erro de acreditar que com o tempo essas tendências ou inclinações negativas desaparecerão sozinhas, e os filhos reconhecerão a necessidade de mudar para melhor, o que é um erro, pois criarão o mal hábito de ir ao mais fácil e prazenteiro, e descuidarão suas obrigações mais exigentes. As más inclinações têm um impacto forte, e ignorar o funcionamento delas dificulta a tarefa de educar os filhos nas virtudes.

             Todos nascem com boas e más inclinações, independente da inteligência ou capacidades, e não há bondade genuína sem luta para erradicar o que é mau na conduta. Deixar-se guiar pelas inclinações naturais desordenadas petrifica procedimentos inconvenientes, caso não sejam corrigidas com esforço. A correção começa com a aceitação e o reconhecimento de que são más e devem ser extirpadas da conduta. Ou seja: devem ser identificadas pelos seus verdadeiros nomes, e não justificadas: preguiça, inveja, soberba, desordens da sensualidade, gula, egoísmos… A sinceridade em reconhecê-las é o primeiro passo para modificá-las. Caso contrário, as más inclinações continuarão a prejudicar tanto a quem as pratica quanto aos demais com quem se convive no ambiente familiar, profissional ou social.

            Deixar-se guiar – a si ou aos filhos – pelas inclinações naturais desordenadas petrifica procedimentos inconvenientes, caso não sejam corrigidos com esforço. A correção começa com o reconhecimento sincero de que há comportamentos que devem ser extirpados, e não justificados com falsas desculpas ou razões sem razão, e chamados pelos seus verdadeiros nomes: preguiça, inveja, soberba, desordens da sensualidade, gula… A sinceridade em reconhecê-los é o primeiro passo para a melhora pessoal. Caso contrário, as más inclinações continuarão a prejudicar tanto a quem as pratica e quanto aos demais no ambiente familiar, profissional ou social.

             A responsabilidade de buscar a melhora pessoal cabe a cada pessoa. Identificar as más inclinações pessoais e lutar para não ser dominados por elas, é atuar com sabedoria e prudência. Os sete pecados capitais – soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça – são defeitos chaves e cabeças de muitos outros vícios, e estão dentro de nós como vírus que esperam a baixa imunidade do corpo para atuarem.

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  • Educar o pudor desde a infância

    Educar o pudor desde a infância

             O pudor é uma virtude de valor inestimável que leva a pessoa a não manifestar publicamente sua própria intimidade. Uma personalidade rica em valores para se autoafirmar não necessita revelar a todos a sua intimidade, pois a verdadeira autoestima conduz ao justo amor ao próprio eu. O sentimento de pudor se manifesta não somente na proteção corporal frente aos olhares alheios, mas também resguarda a pessoa de expor sua interioridade aos curiosos. Torna-se supérfluo o pudor onde se carece de personalidade ou de valores interiores, tal como ocorre com os animais. A falta de pudor manifesta que a intimidade própria é considerada de pouco valor e de tal modo irrelevante que é desnecessário preservá-la.

             Um profundo valor antropológico possui o pudor ao defender a intimidade do homem ou da mulher, revelando-a de modo correto, na medida adequada, no momento conveniente e no contexto propício. Agir contrariamente expõe a pessoa ao ridículo de não ser levada a sério, e a não ser considerada com o devido respeito nem por si mesma, nem pelos outros.

             O mistério da pessoa é resguardado pelo pudor, seja na salvaguarda do corpo ou na manifestação de seus sentimentos e pensamentos, orientando aos demais a respeitarem e reconhecerem o que se possui de mais pessoal e íntimo. No referente ao corpo revela-se no rosto, nas mãos, no olhar, nos gestos e no vestuário, que expressa a imagem e o respeito que se pretende que os demais tenham de si. A elegância, o bom gosto, o asseio e o arranjo pessoal surgem como manifestação primeira do pudor. O despudor, ao contrário, leva à grosseria, ao descuido pessoal, ao desrespeito por si, além de manifesta desordem e pobreza interior. O respeito à intimidade própria e alheia permite dar-se a conhecer na justa medida e nos diversos contextos em que a pessoa se move, tornando mais atrativa a personalidade e as relações interpessoais, na medida em que se vão compartilhando as esferas de intimidade.

             O clima geral de falta de pudor em muitos ambientes torna necessário ter personalidade para manter o tom de modéstia e sobriedade. O bom exemplo é essencial na educação para o pudor. Pai, mãe e os demais adultos da casa, ao se comportarem com recato e modéstia diante das crianças pequenas, revelam dignidade e elegância sem afetação. Os pais podem e devem manifestar o carinho mútuo, mas reservando certas efusões do amor aos momentos de intimidade do casal. O clima de descontração familiar não autoriza um relaxamento nas posturas ou no modo de se vestir: andar seminu ou trocar de roupa diante dos filhos rebaixa o tom humano do lar e convida ao crescente descuido pessoal e ao mau costume de devassar o que é íntimo. Especial atenção se deve ter nas temporadas de calor, pois o clima, os tecidos mais leves e o facto de se estar em férias podem abrir a porta ao descuido. Cada momento e lugar requer um modo de vestir, mas sempre mantendo o decoro.

             O pudor ao abarcar também o campo dos pensamentos e ideias, e se relacionar com a manifestação da intimidade própria, proíbe manifestar o que pertence à intimidade alheia. É pouco nobre e educativo, além de faltar à justiça e à caridade, alimentar as conversas familiares de fofocas, bisbilhotices e confidências sobre a vida dos outro, pois isso faria os filhos se considerem com direito a intrometer-se e falar da intimidade de outros. É importante zelar para que não penetre no lar pela televisão ou por outros veículos de comunicação, programas que fazem revelam a vida das pessoas para satisfazer a curiosidades frívolas e mórbidas de seu público, a fim de ganhar dinheiro com isso. Os pais devem explicar aos filhos que esse “tráfico da intimidade” não deve entrar no lar. Explicar também às crianças que não sejam indiscretas ao revelar aos de fora, sejam parentes ou amigos, aquilo que pertence à intimidade do lar.

             Nas questões de educação cada detalhe é importante. A fim de se acostumar a valorizar a esfera privada dos demais, e a descobrir a própria, desde a primeira infância uma das tarefas formativas é consolidar hábitos que mais adiante facilitarão o desenvolvimento da virtude da castidade e do pudor, que vão se despertando na criança à medida que gradativamente descobre a sua própria intimidade. Pequenos detalhes colaboram para construir uma intimidade rica: vestir as filhas adequadamente, e não com poucas roupas ao sair à rua; não achar graça se a criança correr pela casa à modo de Adão ou Eva no Paraíso, a fim de desincentivá-la a repetir tal comportamento: sem dramatizar, corrigir com carinho e esclarecer que não se comportou bem. Ensinar a criança a se lavar sozinha e não à vista dos irmãos; ao trocar de roupa por si mesma, fechar a porta do quarto; trancar a porta do banheiro ao entrar para utilizá-lo; bater à porta do quarto dos pais e irmãos e esperar a resposta para entrar; não bisbilhotar nas gavetas e armários dos outros. Esses bons hábitos vividos desde a infância facilitarão a entrada na adolescência e juventude com sensibilidade, respeito pelo próprio corpo e comportamentos virtuosos.

             Educadas com tal sabedoria, as crianças aprendem a respeitar a intimidade própria e a dos demais, e crescem com sensibilidade para os assuntos profundos da alma e de intimidade com seu Pai Deus. Pouco a pouco abandonam o natural egocentrismo e descobrem que os outros merecem ser tratados como elas gostam de ser tratadas.

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  • Apostar na família

    Apostar na família

             Ortega y Gasset recorda a história do explorador do Polo que aponta sua bússola para o norte, a fim de encaminhar para lá o seu trenó. Porém, se afasta do ponto ao não perceber que se encontra sobre um grande iceberg à deriva no oceano. Hoje, há quem navega sobre um iceberg que vai em direção oposta à felicidade que busca em sua atividade profissional, quando esta é contrária à família que constituiu.

             Família e trabalho sempre se apoiaram. Porém, atualmente há ideologias que incompatibilizam essas duas esferas ao apresentar a família como obstáculo para o sucesso profissional, ou vice-versa. Ser mãe converteu-se para muitas mulheres em desvantagem: trabalho ou filhos? Trabalhar ou cuidar da casa parecem atividades impossíveis de reconciliar, pois perdeu-se o sentido da família e do trabalho. Se não se concebe o trabalho como um serviço à família, mas como um fim em si mesmo, malogra-se também o sentido do amor, pois ninguém é feliz amando coisas, mas pessoas. Certa pesquisadora que dedicou sua vida às atividades acadêmicas, confessava aos colegas que agora com idade avançada se sentia sozinha e sem pessoas que verdadeiramente a amavam.

             Para recuperar o original significado da família e do trabalho é fundamental que marido e mulher estejam de acordo ser a família o ideal de suas vidas, e não um mero trampolim para a carreira profissional. O trabalho profissional é um dom que torna possível colocar ao serviço dos demais as capacidades pessoais, sendo a família a primeira beneficiária desse dom. Algumas mães mantém atividade profissional fora de casa, sem que o trabalho se transforme em finalidade de suas vidas: têm filhos que ajudam a manter um lar harmonioso onde todos anseiam retornar para casa após um dia de trabalho. E seus maridos as apoiam trabalhando com intensidade para encerrar o expediente no horário a fim de chegar pontualmente em casa, conscientes de que aqui ninguém poderá substituí-los.

             Um lar harmonioso, onde pais e filhos se apoiam mutualmente, é o primeiro passo para superar as crises pelas quais atravessa a sociedade e transformar o mundo. Para isso, o lar não deve ser apenas o abrigo para descansar após um dia de trabalho, mas o lugar do amor sacrificado, escola de virtudes, transmissão de valores e de entrega. O verdadeiro ambiente de um lar não se alcança através de cotas paritárias ou uma espécie de divisão de trabalho.

             Os ataques mais perversos à família são produzidos pelo hedonismo e pela ideologia de gênero, que separam os aspectos unitivo e procriativo do ato conjugal. Depois, vem a desintegração fomentada pelas telas digitais que isolam cada membro da família em seus interesses egoístas, deixando de ser a mesa um ponto de encontro, porque cada um faz as refeições no seu canto e na hora que bem entende. É importante dedicar um tempo diário à mesa: se não é possível tomar o café da manhã ou almoçar juntos, ao menos convém reservar o jantar para promover esse espaço de diálogo e de convivência. Isso se consegue com renúncia e sacrifício de cada membro da família, que deixa outras atividades para estar pontualmente em casa para o jantar e a convivência. A conversa ao redor da mesa, primeiramente agradecendo a Deus a possibilidade de trabalhar para ter o alimento, é ocasião de ouro para os pais educarem não com discursos, mas com gestos pequenos e detalhes aparentemente insignificantes. Para os irmãos, a mesa é ocasião de conviver, ouvir, colaborar e renunciar a planos pessoais para estar juntos.

             Apostar na família supõe sair do iceberg de ideologias. Assim, esse perímetro tão modesto como as quatro paredes do lar se tornam um contorno paradoxal porque é “maior por dentro do que por fora”, como descrevia Chesterton. Um caminho simples e acessível para resgatar a comunicação e o amor entre esposos e filhos é a participação na mesa, que sempre terá um personagem a mais, disposto a compartilhar desse momento: Deus, que certamente virá para o jantar.

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