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  • Educação preventiva

    Educação preventiva

             Educar preventivamente é agir antes de que surjam problemas em cada fase evolutiva dos filhos, preparando-os para evitar dificuldades ou municiá-los com as competências necessárias para superá-las. A verdadeira educação não se limita a ser corretiva ou reparadora, mas oferece respostas antecipadas aos inconvenientes que a descarga desinformativa faz chegar aos filhos pelos diferentes meios de comunicação, ambiente escolar, amizades, relações sociais.

             Já não basta apenas o bom senso para educar bem: é necessário que os pais se preparem com leituras adequadas para atuar na prevenção, pois esta tem caráter proativo ao possibilitar a identificação antecipada dos fatores de riscos ou condutas impróprias: falta de comunicação com os pais, fracasso escolar, tabagismo, alcoolismo, preguiça e acomodamento, drogas, sedentarismo, bullyng escolar, desrespeito à autoridade, vício em telas digitais, namoro precoce, etc.

             Todos presenciamos apenados situações tristes de jovens mergulhados em adições difíceis de extirpar, e nos perguntamos por que isso aconteceu. Não basta deixar correr o tempo da infância, adolescência e juventude para os filhos darem certo na vida. É necessário que cada etapa da vida deles seja um aprendizado para o período seguinte. Pais criativos atuam preventivamente para evitar comportamentos inadequados. Por exemplo, para contornar o vício das telas digitais incentivam os filhos desde a primeira infância a fugir do sedentarismo com brincadeiras ao ar livre, leem contos para eles se divertirem e se interessarem pela leitura, fomentam jogos de mesa e quebra-cabeças para esquivá-los da passividade e preguiça mental fomentada pelas telas digitais, atribuem encargos no lar para que se sintam membros da equipe que deixa a casa limpa e harmoniosa…

             Nas diferentes fases da infância e da adolescência ocorrem alterações psicofísicas que exigem modos adequados de aproximação, evitando sempre a superproteção. A primeira infância é o melhor período para o fomento de bons hábitos, que logo se transformam em virtudes (ver o boletim “Hábitos de ordem nas crianças de 1 a 3 anos). Autodomínio, temperança, estudo e laboriosidade, gosto pela leitura, disciplina, entre outros, devem ser fomentados o quanto antes, e à medida que a criança passe a ter mais compreensão. Na adolescência ocorre o desejo de independência para a autoafirmação, atração pelo sexo oposto, abandono dos hábitos infantis e abertura para novos interesses… Os pais necessitam ler sobre os temas imprescindíveis para ajudar nessas etapas: educação da sexualidade, formação do caráter e temperamento, transmitir valores ou modelos de conduta que iluminam a inteligência para grandes ideais, fortalecimento da vontade, educação dos afetos, a importância da literatura na formação humanística, virtudes humanas, entre outros. Todos esses temas estão abordados em nossa Boletins por temas.

             Quanto à educação da sexualidade, deve ser oferecida desde as primeiras idades, logicamente atendendo à capacidade de compreensão da criança. O boletim “Filhos: informação sexual” oferece modos de abordagens para cada idade, evitando que os pais cheguem atrasados e os filhos recebem má orientação de professores, amigos ou mídias digitais. O que dizer à filha de 13 anos que pretende namorar? Nossos boletins oferecem alguns argumentos para explicar a ela que a partir da puberdade, ou mesmo antes, as adolescentes sentem forte atração pelos meninos e surge nelas a vontade de agradá-los. A mãe poderá dizer à filha que ela é ainda muito jovem para namorar, e que a força do amor que sente agora a preparam para que se torne em breve uma mulher segura e equilibrada. Porém, neste momento seus sentimentos ainda não estão amadurecidos, e não bastam os vigores instintivos ou sentimentais para acertar no amor e ser feliz, sendo necessário atuar com inteligência para avaliar todos os aspectos que estão em jogo:

             − Filha, Deus fez surgir em você forças de afeto e carinho para que aprenda a dominá-las e não seja subjugada por elas, pois os sentimentos são muito flutuantes, indo e voltando o todo tempo. Você mais adiante utilizará essas forças para um projeto mais sério, e não para um mero passatempo com um garoto que mal sabe o que quer da vida, com o risco de ter com ele tristes experiências que roubarão o melhor de você. O namoro não está feito para passar o tempo, mas para conhecer a outra pessoa (caráter, temperamento, ideais, virtudes), e ter certeza de que os dois poderão unir suas vidas em função de um projeto comum, que é o grande ideal de montar uma família e ter filhos. Porém, agora, você deve se preparar para crescer em muitos aspectos, estudar, ler livros de literatura para aprofundar com os bons autores no conhecimento da alma humana, crescer no amor a Deus para respeitá-Lo e respeitar-se. Antes de pensar em namoro, estude e prepare-se para uma profissão, que será um serviço aos demais pela aplicação de suas qualidades pessoais, que você deve descobrir e desenvolver. Você agora está em tempo de amadurecimento, como que preparando a boa terra para dar bons frutos na época certa. Além disso, a experiência revela que os adolescentes não são muito fiéis aos seus compromissos, e logo abandonam suas namoradas ao encontrar outra mais bonitinha. Sei que não é isso que você quer. A amizade é uma coisa boa e bela e você talvez me pergunte se pode ter como amigo um rapaz. Não há mal nisso, mas quando você notar que sente por ele − e ele por você − algo mais do que amizade, será bom reavaliar o trato com ele. Quando ele se aproximar de você e disser que é bonita e tentar beijá-la, isso já é mais do que uma simples amizade, então deve se afastar desse relacionamento.

             Para facilitar aos pais o conhecimento desses temas, a fim de atuarem preventivamente e oferecer respostas esclarecedoras aos filhos, reiteramos a sugestão de ler os textos curtos e de fácil leitura em: https://staging.ariesteves.com.br/boletins-por-temas/

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  • Maturidade e Imaturidade: características

    Maturidade e Imaturidade: características

             A maturidade é um dos traços da personalidade harmoniosa que se relaciona bem consigo própria, com os demais e com o mundo: dá a nota adequada a cada situação, sem estridências, tal como um instrumento musical afinado. Esse processo se desenvolve ao longo dos anos, e ninguém pode se considerar totalmente amadurecido, pois a vida traz novos desafios que não se sabe como serão enfrentados. Definir o que é uma pessoa madura não é fácil, mas o é perceber a falta de maturidade no comportamento de alguém. O psicólogo americano Gordon Allport, professor de Harvard, considerado o pai da psicologia da personalidade, oferece seis critérios para a avaliação da própria maturidade, e a daqueles a quem se deve ajudar em sua formação:

    1. Extensão do sentido de si mesmo: refere-se à conexão do eu pessoal com o de outra pessoa. Sair do limite pessoal e perceber os desejos, sentimentos e necessidades do outro é tão importante quanto ao bem próprio, seja na família, no trabalho, na escola ou na vida social. A extensão de si mesmo evita apontar as carências que se percebem numa instituição ou em seus dirigentes, porque ao fazer a pessoa se sentir inserida nesse contexto, procura ajudar a resolver os problemas, não agindo como telespectador que se dedica a criticar.
    2. Relação emocional com outras pessoas. É característica da pessoa madura relacionar-se emocionalmente bem com todos: é empática, compreensiva, tira importância dos defeitos dos demais, ouve com atenção e convive com os que pensam diferente. Com isso, faz autênticas amizades porque age desinteressadamente, foge das críticas e murmurações, não cria panelinhas. O imaturo quer que todos pensem a ajam como ele, e quando as coisas não são como deseja, lança o veneno das queixas, críticas, ciúmes e sarcasmos.
    3. Segurança emocional. Trata-se da pessoa que expressa seus sentimentos com proporcionalidade, não exagerando neles em situações que merecem poucos sentimentos, nem coloca menos sentimentos em situações que mereceriam mais. Por exemplo, seria uma desordem colocar mais sentimentos nos animais que em pessoas; ter tal preocupação pela comodidade pessoal que leva à indiferença ou falta de espírito de serviço aos demais. O maduro sentimentalmente tem saudável autocrítica, que o torna flexível às circunstâncias: sabe perdoar, cumpre suas obrigações quando seu estado de ânimo é contrário, não é imediatista e persevera no esforço por alcançar um bem maior, mas distante; tolera as frustrações e contrariedades sem chutar o balde; não cai na raiva ou na autocompaixão diante dos seus erros, não busca um culpado para descarregar a própria culpa. Estar atento na formação das pessoas sobre o modo como vivenciam, desde pequenas, seus estados de ânimo: friezas ou rompantes afetivos que destoem da realidade de cada situação.
    4. Percepção realista diante dos fatos. A capacidade de interagir com a realidade, vendo-a sem distorcê-la sentimental ou emocionalmente, é sinal de maturidade. Essa capacidade é muito importante para trabalhar em equipe, pois apresenta soluções reais e factíveis. O pensamento imaturo é mágico e infantil, distorcendo ou negando a realidade: “– Não, isso não pode acontecer comigo!”, é altera os fatos para acomodá-los às suas emoções ou critérios egoístas, porque afetam seus interesses próprios.
    5. Autoconhecimento e senso de humor. Conhecer-se bem e admitir as próprias qualidades e defeitos é sinal de maturidade. Quem é consciente de suas limitações é menos propenso a atribuir defeitos nos demais, e por isso é mais aceito nos diferentes grupos a que pertence; e, caso deva fazer algum julgamento, é compreensivo. O ditado que diz: “o melhor negócio do mundo é comprar um homem pelo que vale e vendê-lo pelo que acha que vale”, revela o desconhecimento de si que possuem os imaturos. Um bom caminho para o real conhecimento de si é perguntar-se: “–Como as pessoas me veem?”, “É correta ou falsa a opinião que têm de mim?”. Não pode haver distância entre o que sou, o que poderia ser, o que gostaria de ser, o que creio que deveria ser e o que os outros me dizem que poderia ser.
    6. Filosofia unificadora da vida. A personalidade madura tem uma filosofia que orienta suas ações em busca do fim que escolheu alcançar. Avalia a coerência de suas ações em busca de seus objetivos vitais. Allport diz que o teórico procura a verdade, o utilitarista busca o útil, o estético busca a forma, o político busca o poder, o religioso busca a unidade de sua vida com Deus. Cada pessoa deve descobrir seu caminho e aderir livremente a ele. Pais e educadores devem apresentar um ideal de vida atrativo e atingível àqueles a quem ajudam a formar: que se perguntem sobre o tipo de pessoa que desejam ser, que ideal as atrai, o que podem oferecer como o melhor de si para servir e ser úteis aos demais, contando para isso com a ajuda de Deus.

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  • Faça-os ler! Para não criar cretinos digitais

    Faça-os ler! Para não criar cretinos digitais

             Em sua obra “A fábrica de cretinos digitais”, Michel Desmurget traz muitas pesquisas sobre o perigo das telas para as nossas crianças. Em seu livro seguinte, “Faça-os ler! Para não criar cretinos digitais”, o autor apresenta soluções para afastar o público infantil da chupeta eletrônica, sendo uma delas a leitura compartilhada, que ocorre quando os pais, irmãos ou avós leem para os pequenos. Afirma Desmurget que as crianças entram em contato com os livros muito antes de saber ler, seja pela leitura compartilhada ou quando fingem que estão lendo e no manuseio de livros ou álbuns com figuras, etc. Tais encontros com os textos, se incentivados, têm um impacto duradouro e profundo no desenvolvimento da criança: inserem o livro e a leitura nos hábitos cotidianos, preparam o cérebro para o pensamento profundo e para as exigências das futuras aprendizagens formais, familiariza os neurônios para as complexidades e singularidades dos textos.

             Crianças, e mesmo os pré-adolescentes, gostam de que leiam histórias para elas. Para a criança se tornar leitora é imperativo que seja exposta precocemente aos livros, e tudo se inicia pela leitura compartilhada, que tem duas raízes: uma emocional, onde a criança sente que é um momento especial, mágico, alegre, de calor humano; a segunda é o desenvolvimento da linguagem, o enriquecimento da imaginação, a melhora dos resultados escolares.

             Até os 6 anos de idade concordam os pais que a leitura compartilhada é essencial. Porém, quando as crianças aprendem a ler, por volta dos 6 ou 7 anos, deixam de ler para elas porque creem que estão com idade para fazerem isso sozinhas, e porque pensam que a interrupção da leitura compartilhada irá favorecer a “leitura autônoma”, e com tais pensamentos deixam de supervisionar e incentivar as atividades literárias dos filhos. Em pesquisa citada por Desmurget, muitos adolescentes afirmaram que teriam gostado que seus pais continuassem com a leitura compartilhada. Na verdade, longe de se excluírem, os hábitos de leitura individual e compartilhada se fortalecem quando se somam.

             Quanto mais uma criança é exposta à leitura compartilhada, mais ela tende a ler sozinha, independentemente da idade. Os pais que cessaram de ler histórias para os filhos, ao pensar que com isso promoveriam a autonomia e a prática da leitura individual, logo constataram que isso não ocorreu. Na fase pré-escolar é muito importante a leitura compartilha, e poucos são os pais que leem todos os dias para seus filhos, nem incentivam os irmãos mais velhos a fazerem isso para os menores.

             As telas digitais vêm roubando não apenas os momentos de leituras, mas também as interações familiares. Para crianças de 0 a 5 anos, um estudo estabeleceu que a cada hora diária de televisão, que é a principal tela nessa faixa etária, elimina 40 a 50 minutos de interações humanas. Da mesma forma foi demonstrado que entre crianças em idade pré-escolar (3-5 anos), a leitura compartilhada é um terço menor que o consumo diário de telas (essa pesquisa envolveu por três anos milhares de crianças nos EUA). Desses dados surgiram duas conclusões: quanto mais as crianças consumem telas aos 24 meses, menos elas são expostas à leitura compartilhada aos 36 meses; quanto menos as crianças são expostas à leitura compartilhada aos 36 meses, mais elas consumem telas aos 60 meses. Ou seja, a primazia do digital sobre a leitura se revela no tempo diário dedicado às telas digitais: entre 0 e 5 anos, as telas recreativas consomem quatro vezes mais tempo do que os livros.

             Ao chegar no primeiro ano do ensino fundamental, o afastamento da leitura familiar traz sérias dificuldades ao aprendizado dos filhos. A mensagem é clara: o uso recreativo de dispositivos digitais reduz significativamente o tempo da leitura compartilhada. Certa pesquisa recente, citada por Desmurget, concluiu que “o lugar ocupado pela leitura na infância tem um peso [leia-se consequência] significativo na vida adulta”. Apesar dos pais reconhecerem a contribuição fundamental de lerem para as crianças, poucos o fazem. A maioria dos lares ao invés de livros estão infestados de telas recreativas, que monopolizam o tempo livre dos filhos e causam inúmeros vícios e travamentos no desenvolvimento comportamental, psicológico e intelectual.

             O esforço dos pais para se tornarem leitores habituais incentivarão os filhos a imitá-los. Sugerimos consultar em nosso site as listas de livros por gênero (romances, contos, biografias, suspense, romance, divertidos, etc.) e por idades (infantis, juvenis, adultos) : https://staging.ariesteves.com.br/livros/

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  • A família está acima dos êxitos profissionais

    A família está acima dos êxitos profissionais

             Apostar fortemente na educação familiar e, para isso, encontrar tempo mesmo quando parece não haver. Ter espírito de abnegação e sacrifício, mesmo que em alguns casos afete a posição econômica familiar. O prestígio profissional que um pai ou uma mãe buscam não pode ter como consequência o abandono dos filhos, pois isso traz frustrações, já que o bem da família está acima dos êxitos profissionais. Dilemas às vezes aparentes que possam ocorrer nesse campo devem ser resolvidos com fé e oração, procurando a vontade de Deus.

             Ter presente que é limitado e preciosíssimo o tempo que os filhos permanecem no ambiente familiar. Nesse período pode ocorrer que o tempo que os pais dedicam aos filhos é pouco, tornando difícil exigir deles devido aos escassos momentos de convivência, passando-se, assim, a ignorar o que fazem e como agem, fazendo que essa ausência seja a porta aberta para muitos vícios e individualismos que carregarão por toda a vida.

             A virtude da esperança é muito necessária aos pais. Educar os filhos produz muitas satisfações, mesmo que algumas vezes produza dissabores ou preocupações. Não se deixar levar por sentimentos de fracasso, aconteça o que acontecer! Pelo contrário, recomeçar sempre com otimismo, fé e esperança. Nenhum esforço será desperdiçado, ainda que de imediato não se percebam os seus frutos.

  • Evitar que os caprichos dos filhos governem a casa

    Evitar que os caprichos dos filhos governem a casa

             Há comodismo e irresponsabilidade na atitude de pais que fogem do esforço por corrigir, com a desculpa de evitar o sofrimento aos filhos, deixando que os caprichos deles governem a casa.

             A autoridade dos pais diante dos filhos não provém de um caráter rígido e autoritário, mas baseia-se no bom exemplo, no amor entre os esposos, na unidade de critério que os filhos veem nos pais, na generosidade e no tempo que dedicam aos filhos, no carinho exigente que lhes revelam um tom de vida reto, na lealdade e confiança com que tratam os filhos.

             A boa autoridade depende do carinho que os filhos sentem pelos pais, e isso se conquista quando os filhos se sentem queridos, ouvidos e com tempo dedicado a eles para conhecer suas alegrias, tristezas, preocupações, dificuldades no estudo ou com os amigos; quando se partilham suas vitórias e derrotas; quando se conhece os ambientes que frequentam e o modo como empregam o tempo livre.

             Exercita-se a autoridade com bom-humor e fortaleza ao exigir dos filhos o que é razoável em cada idade, sem se deixar vencer pelo carinho mal-entendido, como o de evitar desgostar os filhos, pois isso a longo prazo provocará atitudes passivas e caprichosas.

             Muitas vezes o adolescente não compreende o sentido de suas obrigações dada a falta de experiência e os vícios adquiridos na infância. Por isso, necessitam do apoio de pessoas a quem confiam e aconselhem com autoridade. Ou seja: necessitam apoiar-se na autoridade dos pais, cujo papel é ensinar os filhos a desenvolverem-se com liberdade e responsabilidade.

             O afã de desculpar os filhos de tudo o que não fazem bem impede-os de se sentirem responsáveis pelos próprios erros, privando-os de um exame profundo sobre seus atos, e impedindo-os de ganharem experiências. Devem se sentir responsáveis pelos seus fracassos, e não os atribuir aos outros, alimentando neles atitudes habituais de queixas contra o sistema e companheiros, ou porque buscam a autocompaixão e compensações que levam à imaturidade. Diante de um baixo rendimento escolar, não culpar os professores ou a escola, mas a eles mesmos, a fim de que assumam a tarefa de estudar por conta própria.

    Texto adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base no capítulo “Educar para a vida”, de A. Villar, no livro “A educação em família”. Artigo disponível em https://odnmedia.s3.amazonaws.com/docs/educacacao_em_familia-pt.pdf

  • O protecionismo causa mal aos filhos

    O protecionismo causa mal aos filhos

             Por que temer que os filhos se sintam frustrados ao lhes faltar algum meio material? Precisam aprender que ganhar a vida é custoso e terão de aceitar que há pessoas com maior inteligência, fortuna ou prestígio social; deverão enfrentar suas carências e limitações materiais ou humanas e assumir riscos, caso queiram empreender o que vale a pena e lidar com o fracasso sem que isso provoque um colapso na personalidade. O desejo de aplainar o caminho dos filhos para evitar o mínimo tropeço ou esforço debilita e os incapacita para enfrentar as dificuldades que encontrarão na universidade, no trabalho e nas relações com os demais. Só aprenderão a superar os obstáculos enfrentando-os.

             Não é necessário que os filhos tenham de tudo prontamente, nem se deve ceder aos seus caprichos. Na vida há muitas coisas que podem esperar e outras que devem esperar; é preciso aprender a renunciar e a ser austeros, sóbrios. A atitude protecionista desvirtua a verdadeira educação, pois poupar os filhos de qualquer contrariedade os torna fracos diante do ambiente.

             Ao invés da atitude protecionista, convém proporcionar aos filhos oportunidades para tomar decisões e assumir suas consequências, incentivando-os a resolver os seus pequenos problemas com fortaleza. É objetivo de qualquer tarefa educativa promover situações que favoreçam a autonomia pessoal do educando, tendo em conta que essa autonomia deve ser proporcional à capacidade para exercê-la. Não tem sentido dotar os filhos de meios econômicos ou materiais que não necessitam nem saibam como empregá-los com prudência, por exemplo, ao oferecer telas digitais como modos principais de entretenimento ou ignorar os conteúdos dos videogames que possuem.

             Os pais não devem confundir felicidade com bem-estar, nem colocar seus esforços para que os filhos tenham muitas comodidades, ou que não sofram nenhuma contradição, pois não é um bem para eles encontrar tudo feito, sem ter que lutar para conseguir. O esforço é imprescindível para crescer, amadurecer e conduzir a vida com verdadeira liberdade, sem sucumbir diante das dificuldades.

             A criança ou adolescente largado em seus gostos e inclinações desce ladeira abaixo e termina por transformar a liberdade em libertinagem, criando sérias dificuldades para realizar um projeto de vida que valha a pena. Amar os filhos é pô-los em condição de alcançar domínio sobre si mesmos; é fazer deles pessoas livres e responsáveis. Para isso, é necessário fixar limites e impor regras a serem cumpridas pelos filhos e pelos pais.

             É necessário fomentar a autoexigência como meio para aprender a atuar retamente com independência dos pais. Educar é também propor virtudes como abnegação, laboriosidade, lealdade, sinceridade, ordem, apresentando-as de forma atrativa, mas sem diminuir suas exigências. Motivar os filhos para que façam tudo com perfeição, e sem exagerar ou dramatizar diante dos fracassos, mas ensinando a retirar deles experiências. Animar cada filho a ambicionar metas nobres sem temer o esforço.

             Com paciência mostrar aos filhos quando agiram mal, não deixando passar a oportunidade de ensinar de distinguir o bem do mal e o que devem fazer ou evitar. Com raciocínios adequados à idade dos filhos, ajudá-los a se darem conta do que agrada a Deus e aos outros, e os motivos, para que formem uma consciência reta. A criança por natureza vive centrada em si e vai amadurecendo à medida em que compreende que ela não é o centro do universo, e quando começa a se abrir à realidade e aos outros. Assim, aprende a sacrificar-se pelos seus irmãos, a servir e a cumprir suas obrigações no lar, na escola e com Deus. Ensiná-las a obedecer e a renunciar seus caprichos. A missão dos pais é ajudar os filhos a dar o melhor de si, ainda que isso doa um pouco.

             Com carinho, imaginação e fortaleza os pais devem ajudar os filhos a ganhar uma personalidade sólida e equilibrada. Com o tempo, os filhos compreenderão com mais profundidade o sentido das exigências dos pais, e os agradecerão por fazê-los sofrer um pouco, a fim de aprenderem a agir retamente. Os pais que procuram sinceramente o bem dos seus filhos, depois dar os conselhos oportunos, devem se retirar discretamente para que estes exercitem a sua liberdade.

    Texto adaptado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/, com base no capítulo “Educar para a vida”, de A. Villar, no livro “A educação em família”. Artigo disponível em https://odnmedia.s3.amazonaws.com/docs/educacacao_em_familia-pt.pdf. Imagem de All Murat Üral.

  • Educar para a vida

    Educar para a vida

             O termo educar deriva das palavras latinas e-ducere e e-ducare. A primeira etimologia se relaciona à ação de oferecer valores que conduzam ao pleno desenvolvimento da pessoa; a segunda, indica a ação de extrair da pessoa o que de melhor pode dar, tal como o artista que extrai do bloco de mármore uma bela escultura. Em qualquer das duas acessões, a liberdade do educando tem um papel decisivo.

             Formar os jovens é uma tarefa entusiasmante que cabe fundamentalmente ao protagonismo dos pais, mesmo que contem com a ajuda de preceptores ou professores. Trabalho delicado, forte, paciente e alegre, não isento de perplexidades, que se torna necessário pedir luzes a Deus. Educar é obra de artista que leva à plenitude as potencialidades que residem em cada filho, ajudando-o a descobrir a importância de se preocupar com os outros, ensinando a criar relações autenticamente humanas e a vencer o medo de comprometer-se… Ou seja, é capacitar cada filho para que responder ao projeto de Deus sobre a sua vida.

             Não há educação perfeita e sempre será possível melhorar ao aprender com os erros e dedicar tempo para atualizar a formação pessoal. Educar é preparar para a vida, e isso exige o mesmo esforço que qualquer meta no âmbito profissional, humano ou espiritual. Educar enfrenta dificuldades vindas do ambiente e exige que educador e educando melhorem em vários aspectos. Escrivá de Balaguer animava os pais a terem o coração jovem para vivenciar as aspirações nobres ou extravagâncias dos filhos, sabendo lidar com situações novas que possam não agradar, mas que por vezes são modos diferentes de viver até melhores que os de antigamente. Há ocasiões em que as dificuldades surgem de assuntos sem importância, mas que devem ser superados com bom-humor.

             Os pais não só educam sempre, mas educam para sempre, porque suas atuações nunca são neutras ou indiferentes. Os filhos necessitam de orientações, além de que desde pequenas impõem a lei dos seus caprichos. De pouco serviria uma educação que se limitasse a resolver situações momentâneas e sem projeção futura, deixando os filhos à mercê de dependências relacionadas ao consumismo, intemperanças, vícios, ideologias da moda, egoísmo de pensar apenas em si…

             O segredo de uma boa educação está na confiança. Crianças, adolescentes e jovens necessitam falar sem medo com os pais, e crescer na confiança por meio do diálogo aberto, amigável. Escrivá de Balaguer aconselhava aos pais para serem amigos dos filhos e se colocarem ao nível deles para os entenderem e facilitar a autoridade paterna, exigida pela própria educação. Os jovens, mesmo os mais indóceis e independentes, querem essa aproximação com os pais.

             Educar em clima de familiaridade e nunca dar a impressão de desconfiança, mas de liberdade com responsabilidade: é preferível que os pais se deixem enganar alguma vez, do que desconfiar sempre. Os filhos se sentem envergonhados, caso alguma vez os filhos traiam a confiança dos pais. Mas, se percebem que os pais não confiam neles, se sentirão propensos a enganar sempre. Alimentar constantemente o ambiente de confiança ao acreditar sempre no que digam, sem duvidar e sem criar distâncias.

  • A alegria de servir aos demais

    A alegria de servir aos demais

             Não nascemos para viver isolados e preocupados apenas com o nosso umbigo. Ao lavar os pés dos apóstolos, Cristo nos ensinou a servir aos demais. Muitas vezes procuramos a felicidade buscando ser servidos pelos outros, mas ninguém pode ser feliz sendo egoísta. O espírito de rivalidade, inveja, ciúmes, suscetibilidades e rixa cura-se com a virtude do amor, também chamada de caridade. Um modo de crescer no amor é atentar-se às necessidades dos demais, que é próprio de quem possui espírito de serviço.

             É preciso aprender a fazer o bem. A liberdade humana degrada-se quando se cede demasiadamente às facilidades da vida e se tapa os olhos às carências materiais e espirituais dos que estão ao nosso redor. Quem se assusta ao ouvir falar em servir pode estar dominado pelo egoísmo de pensar apenas em si, em seus próprios interesses.

             O que mais custa ao homem moderno é desprender-se do seu tempo para dá-lo aos outros. Doar-se quando se espera conquistar algo é mais fácil, e na vida social muitas ações estão embasadas não em obras de amor, mas no tome lá, dá cá ou network. Ao visitar uma pessoa doente, ao adiantar-se para ajudar nas tarefas domésticas, ao colaborar em uma ONG que cuida de idosos, crianças ou jovens, ao organizar atividades de formação humana e cultural para aproximar conhecimentos a quem os necessita, entre tantas outras obras, são iniciativas que tornam feliz a quem as pratica, pois se livra dos tentáculos do egoísmo, sempre causa de tristezas.

             “Ser o último em tudo, mas o primeiro no Amor” (Caminho 430) é a receita para ser feliz e evitar os caminhos de egoísmo: –“Puxa, só eu recolho os pratos da mesa!”. Bento XVI escreveu em Deus caritas est, n. 18: “Só a minha disponibilidade para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe amor é que me torna sensível também diante de Deus. Só o serviço ao próximo é que abre os meus olhos para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama”.

             Todos temos a experiência de que não é fácil fazer da vida um serviço. Porém, quem se aventura nesse caminho descobrirá a fonte de alegria que talvez falte em sua vida. O espírito de serviço é expressão do amor fraterno, e “O amor fraterno só pode ser gratuito, nunca pode ser um pagamento a outrem pelo que realizou, nem um adiantamento pelo que esperamos que venha a fazer” (Encíclica Laudato si).

             O espírito de serviço nos aperfeiçoa moralmente, porque nos faz exercer o ato mais sublime da vontade, que é amar, e o amor aperfeiçoa as demais virtudes: a fortaleza sem caridade leva à prepotência ou à vilania; a justiça sem caridade conduz à arrogância. Quem perde a oportunidade de servir por egoísmo até pode crescer em outro aspecto da sua vida (por exemplo, o profissional), mas haverá regressão moral em seu comportamento.

             Platão e Aristóteles viam maior perfeição na inteligência do que na vontade, porque acreditavam que a inteligência mais assemelhava o homem à divindade ao permitir a contemplação das verdades eternas e imutáveis. Porém, o cristianismo, ao contrário, vê que o homem mais assemelha-se ao divino porque pode doar-se totalmente, como Cristo. Uma das categorias fundamentais da visão cristã é a noção do outro, necessária para a doação desinteressada e crescimento no amor. E o que torna possível a doação ao outro é a vontade, núcleo onde reside o mais íntimo da pessoa: não basta apenas a boa vontade ou o desejo de ajudar, nem somente perceber com a inteligência as necessidades do próximo, pois “obras é que são amores, não boas razões”. Ou seja, é necessária a decisão e a ação de doar-se, atitudes que cabe à vontade.

             Quem ama verdadeiramente sempre está atento à vulnerabilidade e às necessidades dos demais. Todos somos indigentes e não subsistimos sozinhos. A dor, a doença, o cansaço, a ignorância, a pobreza, a falta de uma profissão, etc, são mais fáceis de ultrapassar com a ajuda dos outros, pois ninguém é autossuficiente. Quem ajuda a suprir tais necessidades são os verdadeiros construtores da paz e “serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

             A educação para a generosidade deve ser ensinada às crianças desde as primeiras idades, prosseguindo na adolescência e na juventude. Os pais devem atribuir aos filhos encargos no lar adaptados à idade e capacidade de cada um; sugerir que doem às crianças carentes os brinquedos ou jogos em bom estado que já não utilizam; visitar com eles orfanatos ou asilos e levar alguns doces. Os filhos sentirão a alegria de servir e crescerão em generosidade ao ver que seus pais são exemplares e caminham na frente nesses aspectos.

  • Cultivar convicções firmes

    Cultivar convicções firmes

             A formação pessoal deve fortalecer as virtudes e contribuir para a configuração do caráter. Em primeiro lugar, é preciso fomentar o hábito de reflexão pessoal, pensar sobre as próprias ideias, aspirações, desejos e sentimentos, tendo sempre presente que o fim último da vida não é acumular dinheiro ou poder, porque não temos por aqui cidade permanente, mas nos encaminhamos para a futura. A dimensão reflexiva é necessária para cultivar convicções pessoais fortes e profundas que movam a vontade em direção à verdade, ao bem e à beleza, dando, assim, firmeza e coerência ao agir.

             O conhecimento dos valores que regem a conduta humana favorece a resposta livre, de amor, à ação, e não um simples cumprimento de obrigações ou regras que espartilham. Distinguir entre valores essenciais e os que não o são é uma das características da personalidade madura e que dá passos seguros ao saber distinguir entre o que tem transcendência e o que não tem.

             A capacidade de distinguir entre o mais e o menos importante é condição para o desenvolvimento pessoal e dos demais. Isso porque há valores estáveis, objetivos, que não dependem de estados de ânimo ou da opinião pessoal, pois a verdade é uma adequação da inteligência com a realidade externa.

             Portanto, os valores são guias e critérios de conduta, e à medida que se orientam para bens elevados, realizam e tornam mais feliz a pessoa. Se alguém assume como guia de vida a riqueza, divertimento ou o bem-estar, sua existência se exporá à instabilidade própria desses bens sensíveis e passageiros. Porém, se busca valores estáveis e universais – portanto, não contingentes ou passageiros –, plenifica e eleva de forma duradora sua vida: amizade, solidariedade, amor a Deus, montar uma família, aperfeiçoar as habilidades ou talentos pessoais para melhor servir aos demais…

             Aos pais não basta dizer aos filhos que não use drogas, não acesse pornografia na internet, não namore na adolescência, não malgaste o tempo em redes sociais, limite o tempo para os games, estude, ajude nas tarefas do lar… Só oferecendo razões profundas sobre os porquês de tais ações, os adolescentes terão esclarecida a inteligência e fortalecida a vontade para mover-se em direção ao bem, ao mesmo tempo que saberão dar explicações aos amigos quando foram aliciados a agir de modo contrário.

             Para os pais oferecerem razões profundas aos filhos, necessitam ler para proverem-se de respostas convincentes sobre a formação do comportamento, sentido da família, da sexualidade humana, do namoro… Isso porque a leitura de temas que aprofundam nas diferentes dimensões do comportamento ou da vida humana, oferece luz à inteligência e força ou convicções firmes para a vontade agir com coerência e não ser levada por antivalores. Devem, os pais, compreender que a contemplação da arte, da natureza, da boa música conduz ao assombro, ao silêncio interior e afinam a sensibilidade para buscar o autenticamente bom e belo. A conversa com os filhos sobre os clássicos da literatura e do cinema ajudam a que sejam mais reflexivos e formem o caráter. Sugerimos a leitura dos nossos boletins, que oferecem argumentos interessantes para ajudar os filhos sobre vários temas: https://staging.ariesteves.com.br/boletins-por-temas/

             No caminho da formação é preciso saber conviver com a imperfeição própria e alheia, conscientes de que Deus nos quer pelo que somos e não pelos resultados que obtemos. A caridade, ou carinho aos demais, é o que motiva e dá a forma às demais virtudes, por isso todo o desejo de melhora, toda tarefa formativa leva a crescer em caridade, pois esta virtude dá forma às demais virtudes: por exemplo, a fortaleza sem caridade se transforma em brutalidade; a justiça sem caridade se transforma em arrogância. Parte da formação humana consiste em desenvolver as virtudes sociais que enriquecem o próprio indivíduo, capacita para conviver com todos e respeitar os modos de ser e de fazer diferentes dos próprios, sendo o caminho natural para a fraternidade, amizade e colocar os próprios bens e talentos ao serviço dos demais. Entre as virtudes da convivência estão a solidariedade, magnanimidade, amabilidade, preocupação pelos mais necessitados, atitudes de escuta e atenção, delicadeza no trato, comportamento respeitoso e educado.

             O modo de falar e olhar, o pudor no vestir e mover-se, o sorriso e a discrição no atuar revelam tal riqueza interior que prescinde da necessidade de chamar a atenção dos demais. Não são apenas aspectos externos isolados, nem dependem exclusivamente das circunstâncias, mas comunicam a própria identidade e desvelam de algum modo o interior de quem os possui. Uma interioridade rica se expressa exteriormente de forma harmônica, adequada, e forja a personalidade para ir contra os valores negativos. O aprofundamento na compreensão de quem somos, o cultivo de convicções firmes fortalece a vontade para não se deixar levar pelo que a maioria faz, ao mesmo tempo que oferece as razões para explicar com sabedoria o porquê se age desta ou daquela maneira. Só assim haverá uma transformação positiva no ambiente que nos cerca.

  • Ser uma pessoa de critério

    Ser uma pessoa de critério

             Todos necessitamos ter claras as verdades ou critérios que fundamentam a atuação pessoal. A diversidade de pareceres sobre tantas matérias, as diferentes situações que se apresentam ao longo da vida, as notícias que chegam e que exigem uma tomada de posição, tornam indispensáveis uns valores ou normas de juízo e de atuação acertadas, permanentes, coordenadas, simples. Ter um critério bem formado que enquadre dentro de uma panorâmica mais geral o conhecimento da ciência particular a que nos dedicamos e os conhecimentos que vamos adquirindo com o decorrer dos anos, facilita ordenar retamente as ações pessoais em relação a um fim último.

             O esforço por estudar, trabalhar bem e com retidão de intenção, manter uma relação com o transcendente por meio de uma vida religiosa séria, procurar formar a consciência, são o alicerce para fundamentar os valores perenes da conduta humana. Outro modo de reconhecer e assumir valores ou normas de conduta ocorre por meio do mimetismo ou do exemplo oferecidos nos relatos de pessoas admiráveis que viveram ou vivem uma vida cheia de significado ao deixar de lado uma cômoda tranquilidade e “complicarem” a vida para promover obras de serviço aos demais (pessoas que possivelmente conhecemos na vida familiar, profissional ou social). São também modos de conhecer e assumir valores e obter critérios, a biografia de gente valorosa ou de santos, os bons filmes, o conhecimento das normas antropológicas perenes que fundamentam a conduta humana, as obras literárias que oferecem virtuosos modelos de condutas, o estudo das ações morais explicados admiravelmente no Catecismo da Igreja Católica, que ensinam ser determinadas condutas não fruto de subjetivismos, mas diretrizes objetivas, externas, válidas no mundo inteiro e para todas as pessoas ((por exemplo cada um dos Dez Mandamentos). Tudo isso vai sedimentando na conduta e tornam criteriosa uma pessoa, dando a ela maturidade, firmeza de convicções, delicadeza de espírito, educando a inteligência, vontade e os afetos.

             Para ser uma pessoa de critério não basta ter muitas ideias ou conceitos dispersos, desconexos entre si, mas é necessário formar um conjunto harmônico, um princípio unificador onde cada ideia ocupe seu lugar e se subordine a outra mais importante e de acordo com uma hierarquia que atribua a cada elemento o seu lugar correto, tal como os tijolos, areia, telhas, ferros e madeiras espalhados em diferente grupos sobre um terreno têm como princípio unificador a casa a ser construída para abrigar uma família. Por exemplo, subordinar a atividade profissional a um valor maior que é a família, permite encerrar o expediente no horário certo a fim de retornar ao lar para estar com a esposa e os filhos, por mais que agrade o trabalho que esteja sendo realizando. Um princípio unificador da vida é a religião, que permite considerar os acontecimentos à luz da fé, tendo em vista um fim último que permite responder a cada momento a pergunta: – Para que existo? Qual a finalidade da minha vida?

             A virtude da prudência conduz a um reto agir que permite julgar os fatos não pelas aparências, mas por um juízo reto, equânime, que identifique com nitidez os elementos que estão em jogo em cada situação, distinguindo o certo do opinável, o bom do mau. Tudo isso exige o estudo e a reflexão acerca dos princípios que conduzam à verdade para não se deixar levar pelo imediatismo de comportamentos impensados. Saber discernir o verdadeiro do falso nas correntes de pensamento e comportamentos mais à moda permite construir a vida sobre bases seguras.

             No boletim A escolha de princípios afirmamos que o homem age em vista de finalidades ou valores prévios que guiem suas escolhas, sempre orientadas para a felicidade própria, já que ninguém procura ser infeliz. Porém, a almejada felicidade deve estar na esfera da verdade e do bem não teóricos, mas práticos, alcançáveis. Busca-se o que se considera importante dentro de uma hierarquia de valores que compara um bem em relação a outro: quem procura manter a saúde avalia o grau de colesterol dos alimentos; quem dá valor ao descanso programa um divertimento sadio para o fim de semana, mas substitui esse valor pelo da caridade a fim de visitar o amigo que soube estar internado num hospital. Se não houvesse capacidade de ordenar os desejos, segundo uma hierarquia de valores, predominaria o conflito entre as diversas pretensões pessoais. Guardini disse ser um valor aquilo pelo qual um ser é digno de ser, uma ação é digna de ser cumprida.

             Valor é uma qualidade inerente à realidade; é um aspecto do bem e da verdade que são inseparáveis e emanam do objeto que se conhece, e se torna um bem para a pessoa e para os demais. Um valor não depende da opinião de ninguém e ultrapassa a subjetividade humana, pois está impresso em cada ser criado, fazendo transcender dele a verdade, bondade e beleza, perceptíveis em graus diversos em cada ser criado, o que nos permite compreender que há valores mais elevados em relação a outros (alguém pode prescindir de sua vida para defender uma verdade maior, ou para salvar a vida de uma pessoa em perigo). A capacidade de distinguir entre o mais e o menos importante é condição para o desenvolvimento pessoal e dos demais. Isso porque há valores estáveis, objetivos, que não dependem de estados de ânimo ou da opinião pessoal, pois a verdade é uma adequação da inteligência com a realidade externa. Ou seja, cabe ao homem abrir-se com sua inteligência e vontade para acolher os valores ligados à realidade, sabendo que não são os homens que os estabelecem de modo arbitrário. Mesmo não podendo colher a beleza e a verdade de modo absoluto, porque só Deus é Absoluto, percebemos que cada ser participa do belo e do verdadeiro não por se tratar de produto da mente humana, mas porque a beleza e a verdade são transcendentes e universais: uma flor no alto de uma montanha continuará sendo bela mesmo ninguém a veja, mas porque participa da beleza da criação em grau pequeno em relação à beleza absoluta de Quem a criou.

             Portanto, os valores são guias e critérios de conduta, e à medida que se orientam para bens mais elevados, realizam e tornam mais feliz a pessoa. Se alguém assume como guia de sua vida valores contingentes como dinheiro, divertimento, bem-estar, poder, fama, sua existência se exporá à instabilidade própria desses bens passageiros. Porém, se busca valores estáveis e universais – portanto, não contingentes ou passageiros –, tais como amizade, solidariedade para ajudar a quem precise de amor ou conhecimento, buscar a Deus, montar uma família e educar bem os filhos, aperfeiçoar as habilidades ou talentos profissionais para melhor servir aos demais, terá plenificada e elevada de forma duradora sua vida, pois a verdadeira felicidade está no sair de si para servir aos demais, que é onde reside o verdadeiro amor e felicidade.

             Ninguém deve se considerar plenamente formado, mas melhorar continuamente sua formação. Às vezes pode infiltrar-se pontos de vista poucos exatos na mente, como resultado de uma paulatina condescendência com os erros próprios ou alheios. Então, é preciso saber retificar, esclarecer conceitos, ser humildes para reconhecer-se no erro ou evitar agir mal por fraqueza. Quem tem ideias claras e consciência reta não chama de bom o que é ruim, nem se deixa contagiar por falsos critérios que obscurecem a consciência sobre temas como educação, família, sexualidade, religião, sentido ou finalidade do trabalho, formas retas de descanso ou de lazer…

             O saber moral não é um discurso abstrato, nem uma técnica. A formação da consciência requer o fortalecimento do caráter, que se apoia sobre as virtudes como seus pilares, e estas assentam e estabilizam a personalidade e capacitam a pessoa para fugir do egocentrismo. Carecer de virtudes frustra a realização de grandes ideais e torna a vida vazia e oscilante. Porém, cultivar virtudes pela repetição de atos bons expande a liberdade, faz amar o bem: quem repete um dia e outro a ação de estudar na hora marcada, de trabalhar bem, de ter espírito de serviço no lar, de não mentir, de ser fiel aos compromissos assumidos, cria uma conaturalidade ou força para perseverar no bem e ser verdadeiramente feliz.

             Uma maturidade que ajude a tomar decisões com liberdade interior, ter convicções fortes alicerçadas na verdade e construída por meio de aulas, palestras de formação, leituras, reflexão e, especialmente, por meio do exemplo de pessoas que vivem retamente, combinado com delicadeza de espírito e educação da vontade através das virtudes, torna uma pessoa criteriosa. Enfim, uma «alma de critério» pergunta-se nas diversas circunstâncias se faz o que Deus espera dela. E além de recorrer aos princípios que assimilou, procura o conselho de pessoas retas, prudentes, e atua sempre por decisão própria.