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  • Para evitar o consumismo infantil

    Para evitar o consumismo infantil

        Fomente na criança desde as primeiras idades o gosto por bens que não sejam exclusivamente materiais. Mantenha-se firme diante da insistência dela ao pedir brinquedos fora de datas especiais (Natal, aniversário ou outra ocasião importante), a fim de não acostumá-la a ter regalos fora de época, que a levarão a não valorizar o esforço dos pais.

         Sugestões para a criança desenvolver o gosto por bens não materiais, além de afastá-la do vício dos celulares ou tabletes:

    • Contar histórias: todos gostamos de ouvir histórias! Leia para a criança os clássicos infantis: elas ficarão encantadas ao ver se materializar em personagens, de forma criativa, o bem a praticar e o mal a evitar. No site staging.ariesteves.com.br/, página Literatura Infanto-Juvenilhá uma lista com títulos de excelentes obras e seus autores. No conhecido site www.estantevirtual.com.br é possível adquirir livros seminovos a baixo custo;
    • Tertúlias ou bate-papos familiares: convide parentes ou amigos para uma tertúlia ou bate-papo, a fim de que conte alguma experiência interessante: viagem, alpinismo, excursões, fotos, colecionismo, esporte que pratica, música, pintura…;
    • Museus e Exposições: visite com a criança museus e exposições de quadros ou esculturas. Transforme essa atividade em jogo de encontrar. Para isso, visite antes o site da instituição e imprima as imagens das obras que ela mais gostou. Depois, ao chegar no local, peça à criança para localizar as escolhas feitas, sem fazer juízo de valor para não inibi-la, caso você não aprecie a obra, e pergunte: – Se você fosse a autora desse quadro, que mais colocaria nele? (a criança fixará mais a atenção na obra e dará sua criativa sugestão);
    • Música: desenvolva o gosto da criança pela boa música, popular ou clássica, a fim de que ela não ouça apenas as canções de consumo veiculadas pelas mídias ou pelos paredões de sons em veículos que infernizam os bairros populares com péssimas músicas. Leve a criança a locais onde possa ouvir músicos tocarem ao vivo e anime-a aprender um instrumento musical. Convide parentes e amigos que tocam algum instrumento musical para se apresentar em sua casa;
    • Teatro infantil: leve a criança ao teatro infantil, mas informe-se antes e não vá se a peça apresenta contravalores. Incentive-a a montar pequenas peças teatrais em casa, junto com outras crianças (as Fábulas de La Fontaine, e muitas outras, são facilmente representáveis);
    • Livrarias e exposições: vá com a criança a livrarias, feiras de livros e exposição de flores ou plantas para ela se encantar-se com muitas formas de beleza;
    • Programar desenhos: assista desenhos que tornem fácil para a criança perceber valores ou contravalores, e depois troque impressões com ela. Sobre a verdade e a mentira veja Pinóquio, de Carlo Collodi; A verdade segundo Arthur, de Tim Hopgood; Pig, o Travesso, de Aaron Blabey…
    • Vídeos culturais: a criança desconhece muitas coisas interessantes. Descubra aquelas que possam se interessar mais: animais, aviões, foguetes, montanhismo, mágicas, circo…;
    • Desenvolver habilidades: se a criança tem algum dom especial (esportivo, desenho, canto, dança, gosto por barcos ou mar, astronomia, matemática…), assista com ela vídeos que a incentivem a se aprofundar nos temas de interesse. Com isso, os pais estarão preparando um futuro jovem que poderá participar mais ativamente do mundo da cultura, ciência ou arte;
    • Saraus em casa: promova em casa encontros para contação de histórias, recitação de poesias e leituras de livros. Convide parentes ou amigos para ajudar nas narrativas;
    • Contemplar a natureza: é muito importante para a criança desenvolver a sensibilidade para o belo. Programe com a família um passeio mensal e passe o dia no campo, parques arborizados, jardim botânico, zoológico;
    • Crie brinquedos simples: se a criança insiste em ter brinquedos caros, construa brinquedos com embalagens vazias de produtos caseiros, pois ela terá carinho especial pelos que foram feitos pelos seus pais. Junte potes e embalagens plásticas para ela organizar e colecionar;
    • Aprender a poupar: para a criança compreender que dinheiro não nasce em árvores, e que os pais o adquirem com grandes esforços, antes de ir ao supermercado combine com a criança quais produtos irão comprar, e quanto poderão gastar. À medida que um produto vai para o carrinho, faça a conta de subtração junto com ela, e peça a ajuda dela para pesquisar nas prateleiras produtos mais em conta.

        Para compreender melhor os efeitos negativos do consumismo infantil, sugerimos a leitura de outro boletim com o título “Consumismo infantil”, em nosso site.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Ryutaro Tsukata

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  • A missão da família

    A missão da família

    1 – Terreno inculto só produz espinhos. 2 – A família deve oferecer uma formação integral. 3 – Fé: legado mais importante que os pais transmitem aos filhos. 4 – A família e a educação da vontade

    1 – Terreno inculto só produz espinhos

        Como disse João Crisóstomo, no século IV, “uma juventude abandonada é como um terreno inculto, que não produz senão espinhos”. Todos nascemos carentes de uma educação que nos transforme de espírito bruto, inculto, a espírito rico em qualidades humanas e espirituais. Como metáfora atual se pode imaginar um computador que aguarda a introdução de diferentes programas e aplicativos para operar com eficiência, mas se nada recebe fica inútil e deixa de cumprir sua verdadeira finalidade.

        Para o ser humano não se transformar em terra não cultivada necessita de uma educação que o encaminhe para sua plenitude, ao desenvolver todos os aspectos de sua existência: físico, intelectual e espiritual. E para essa missão, ninguém melhor do que a família, que é a organização natural mais apta para ajudar cada filho a produzir frutos bons e abundantes durante toda a sua existência, já que a educação oferecida pelos pais chega ao mais profundo da pessoa: inteligência, vontade e afetividade (sentimentos, emoções e paixões).

    2 – A família deve oferecer uma formação integral

        O tratamento que a família dá a cada membro difere das demais organizações sociais: no clube esportivo prepara-se o atleta para cumprir uma função na equipe, na empresa o funcionário é qualificado para dar conta da tarefa para a qual foi contratado, na escola o aluno é preparado para cumprir sua função de estudante e tirar boas notas, pois a instituição educacional, que não é natural como a família, foi criada para transmitir cultura, como por exemplo a profissional, que é apenas um aspecto da formação humana. Porém, a família, por meio do desenvolvimento de virtudes, oferece uma educação integral e personalizada que chega ao mais profundo da pessoa: caráter, temperamento, personalidade.

    3 – Fé: legado mais importante que os pais transmitem aos filhos

        Se no aspecto humano a formação familiar desenvolve em cada filho ou filha um grande sentido de responsabilidade, ajudando a que compreenda a grave obrigação de estudar, trabalhar, conviver em paz com todos e ser solidário ao servir aos demais com suas qualidades pessoais, na formação espiritual, onde reside o “eu” consciente de cada indivíduo, a família é o meio ordinário com que Deus conta para o enraizamento de uma consciência reta, que ama e busca a verdade, e para que a fé se enraíze nos corações dos filhos, a fim de que estes coloquem seus afetos em Deus e cultivem o relacionamento com Ele, à imitação de seus pais, se estes forem sinceramente piedosos.

        A fé é o legado mais importante que os pais podem transmitir aos filhos, pois uma esperança humana, puramente humana, carece de sentido porque tudo passa com a morte, e nem as riquezas nem as honrarias nos acompanharão ao sepulcro. A Esperança que anima o coração é a que eleva-se até Deus, sendo apenas a fé e o Amor a Deus que dão o significado à existência humana. A transmissão da fé não é uma questão acessória, da qual depende só um pouco mais de felicidade, mas trata-se de algo radical que afeta o resultado de toda a vida, à qual passa a iluminar.

    4 – A família e a educação da vontade

        Outro aspecto importante da formação que os pais oferecem é a educação da vontade, ao colocar os meios para que os filhos sejam pessoas livres e responsáveis, com caráter e energia interior, capazes de estabelecer um projeto e levá-lo a cabo, apesar dos obstáculos e dificuldades que encontrem em sua execução. Uma vontade motivada é capaz de se esforçar para estudar, aproveitar bem o tempo e ter espírito de serviço, metas que se alcançam por meio da exigência no cumprimento dos deveres diários e pela correção das pequenas faltas, que vão criando hábitos estáveis que fortalecem a vontade para não se deixar levar apenas pelo prazenteiro, pois passam a conhecer as consequências de um mau comportamento ou desvios de conduta na personalidade.

        Para adquirir um hábito bom ou virtude – ser laborioso ou ordenado, por exemplo – é preciso repetir muitas vezes esses atos nas miúdas ocasiões que surgem no dia a dia: estudar, cumprir os encargos para deixar a casa em ordem, guardar as próprias roupas, etc. As crianças gostam de ajudar, de fazer parte do time que deixa a casa ordenada, limpa, aconchegante. Atribuir tarefas às crianças, nas diferentes idades, para que possam fazê-las com facilidade, criará nelas hábitos ou virtudes que levarão pelo resto da vida: ordem, constância, fortaleza para fazer o que devem, domínio próprio, espírito solidário para ajudar aos demais…

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Tatiana Syrikova 

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  • Diga não ao palavrão

    Diga não ao palavrão

     1 – Não se acostumar com os palavrões. 2 – As palavras revelam a interioridade da pessoa. 3 – Palavrões ditos por crianças. 4 – Como reagir diante de quem fala muitos palavrões

    1 – Não se acostumar com os palavrões

        Qualquer pessoa que reflita um instante acerca do palavrão que ouviu ou proferiu, chegará à conclusão de que foi uma grosseira que deve ser evitada por todos, sejam adultos, adolescentes ou crianças. É desgastante e incômodo conviver com pessoas que falam palavrões a torto e a direito, porque revelam pobreza interior e embrutecimento do espírito.

        Parece que praguejar e dizer palavrões alivia as dores de quem se machucou, irritou-se ou não soube expressar com exatidão sua admiração. Os palavrões mais utilizados têm conotação provenientes de desordens sexuais, e há pessoas acostumadas a pronunciá-los, mesmo sem intenção de ofender alguém, e que mal percebem a estranheza que causam, tal como aquele cuja sudorese cheira mal e não capta que desagrada aos demais.

        Se nos policiamos para evitar o “né” enquanto falamos, com mais razão devemos nos resguardar dos palavrões, que podem revelar o que trazemos por dentro, e que determinam o modo como pretendemos ser tratados nos ambientes em que frequentamos. Palavrões são formas pouco eloquentes de expressar emoções, e revelam um vocabulário limitado e atrofia da capacidade de expor com precisão os próprios sentimentos. Tal vazio verbal provém da fuga dos livros de literatura, cuja leitura estimula a atenção que se deve dar às palavras, e sua falta empobrece o rol de expressões e conceitos, e induz empregar palavrões como tentativa de realçar o que se quer dizer. Quem leu Dom Quixote, de Miguel Cervantes, poderá constatar o modo rico e criativo com o qual o Cavaleiro Andante, que reproduzia a fala do homem de sua época, maldizia algumas ações de seu escudeiro; Jesus Cristo não utilizou palavrões, mas serviu-se de expressões fortes para enquadrar algumas pessoas ou situações: “sepulcros caiados”, “raça de víboras”, “tardos de inteligência”, “hipócritas”. Ou seja, há maneiras mais ricas e criativas para expressar desacordo ou admiração.

    2 – As palavras revelam a interioridade da pessoa

        O bom emprego da palavra é manifestação de justiça e promoção do bem comum material e espiritual, ao que todos devem contribuir. A cortesia e a delicadeza no trato com os demais temperam os diálogos. Não se trata de medir ou calibrar milímetro a milímetro o sentido preciso e o alcance de nossos gestos e palavras, mas tampouco devemos dar rédeas soltas a tudo que nos vem à boca, sem discernir bem sobre o que estamos nos referindo. A falta de educação e as incorreções verbais revelam ausência de fineza espiritual e pouco domínio do próprio temperamento e dos estados de ânimo.

        O emprego do palavrão pode estar na maledicência, na crítica destrutiva, no ridicularizar, no bancar o engraçado ao utilizar-se de imagens sexuais como fazem os maus humoristas, na admiração ou estupefação diante de algo que assombrou. Todo indivíduo deve acomodar seus atos e palavras à lei moral, pois se trata de uma exigência fundamental da verdade e do respeito à dignidade das pessoas. Como afirma Matheus (XII,16), os palavrões não deixam de ser expressões ociosas que cada um deverá dar conta no dia do juízo. Tomás de Aquino ensina que a ordem das palavras e das ações exige que estas sejam conformes à realidade que expressam, tal como o sinal se adequa à coisa significada, sendo isso exigência da virtude da veracidade. A verdade enquanto conhecida pertence ao entendimento, e as palavras devem ser utilizadas para expressar a verdade. Se é próprio da virtude da veracidade a adequação entre o que se fala e o que se pensa (a interioridade se extravasa para a exterioridade), parece lógico que os palavrões tendem a se opor à verdade, pois sua malícia está na mentira ou no modo irrefletido de enunciar algo que é falso, e se não for falso, trata-se, então, de não difamar ninguém.

        Ouvir palavrões pela boca de mulheres é experiência que dói aos ouvidos dos homens, porque a delicadeza e os sentimentos femininos, tão necessários para humanizar e tirar as asperezas deste mundo, se estilhaçam como uma peça de cristal lançada ao chão; ouvir palavrões de crianças causa estranheza, perplexidade, porque faz desmoronar a ingenuidade e simplicidade próprias da idade, tão necessárias para desarmar o coração dos adultos de sua autossuficiência. Entre os adolescentes os palavrões parecem ser um modo de autoafirmação, de querer se integrar a um grupo ao tentar reproduzir as falas deste, mas se o adolescente é respeitado e ouvido pela família, não necessitará de palavrões para se fazer querido e objeto de atenções.

    3 – Palavrões ditos por crianças

        A criança pequena não entende o que diz, e repete o palavrão porque percebe a reação de choque ou, infelizmente, de riso dos adultos, o que a fará repetir o dito para receber a atenção que lhe falta; ou porque reproduz palavras que ouviu em casa ou na escola. Não achar divertido os palavrões pronunciados por elas, a fim de não as incentivar a repeti-los em outras ocasiões, muitas vezes embaraçosas. É importante explicar às crianças que há palavras que não devem ser ditas nem casa, nem na escola ou na rua, monitorando-as diante do que é sofrível. O ambiente familiar representa muito na educação das crianças: se a família é educada e as pessoas se tratam com respeito e carinho, o palavrão será naturalmente desestimulado, pois surgirá como nota estridente na harmonia de uma sinfonia; se há indelicadezas e desrespeitos, os palavrões serão reproduzidos de forma espontânea.

        Não exagere em suas reações diante de um palavrão pronunciado por uma criança, pois melodramas reforçam o comportamento com o qual ela quis chamar a atenção; também não ria, como já dissemos, a fim de não incentivá-la a repeti-lo: considere que a criança é uma aprendiz da fala, e não percebe a gravidade do que possa dizer; porém, alerte-a de que tal palavra é feia e não deve ser dita porque machuca e desagrada a todos. O vício dos palavrões vem sendo incentivado por filmes, videogames, novelas ou músicas cujo falso naturalismo faz os personagens dizerem palavras inadequadas. Na escola, os adolescentes costumam seguir o exemplo de amigos, sendo este mais um motivo para os professores enriquecerem o vocabulário dos alunos.

    4 – Como reagir diante de quem fala muitos palavrões

         Devemos nos empenhar para respeitar a pessoa e sua liberdade, e tratar a todos com extrema delicadeza. Se quem diz palavrões for um adulto, de modo simpático e respeitoso podemos lembrá-lo de não dizer tais palavras, até que aos poucos a indicação penetre na consciência dele. Se excepcionalmente for necessário corrigir um adulto com mais energia, nunca deixar-se arrastar por apaixonamentos a fim de que as palavras não o venham a ferir ou magoar; após a correção, lançar o balsamo da simpatia para curar, e afirmar que naquele momento foi necessário proceder daquele modo. Se a correão deve ser feita em uma criança, como já foi dito acima, explicar com calma e simplicidade que certas palavras não devem ser pronunciadas porque são feias e ofensivas. Já com os adolescentes, explicar as vantagens e importância de se comunicar de maneira limpa, saudável e criativa.

    Texto elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Sara Shimazaki.

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  • A criança e a mentira

    A criança e a mentira

    1 – O que é a mentira? 2 – A mentira nas crianças pequenas. 3 – A mentira na adolescência. 4 – O clima de confiança incentiva dizer a verdade. 5 – Não dramatizar se seu filho mentiu. 6 – Evitar punições ou castigos diante de uma mentira. 7 – Iniciativas que ajudam abordar o tema da mentira com as crianças

    1 – O que é a mentira?

        Verdade é a adequação entre a mente e a realidade, diz a definição clássica. Portanto, a mentira consiste em pensar uma coisa diferente da realidade, com a intenção de enganar. Parece mais fácil ocultar a verdade do que enfrentar suas consequências. A mentira surge como atrativo para mudar a realidade e buscar benefício próprio. A gravidade da mentira é medida pelas consequências que produz. O poder da mentira faz com que existam mitômanos ou pessoas que mentem compulsivamente para construir um mundo irreal com suas próprias falsidades, o que pode trazer até consequências psicóticas porque faz perder a referência da verdade. Distorcer, aumentar ou diminuir a realidade; dissimular uma situação, não fazer o que se diz, prometer o que não irá cumprir, utilizar-se de ambiguidades para confundir, ocorrem como meios para fugir de responsabilidades, evitar punições, ficar bem com os demais, auferir ganhos, entre outras motivações.

        A veritas é a virtude baseada na tendência de manifestar-se como se é, ou manifestar-se sobre a realidade tal como ela é. Essa virtude faz parte da autenticidade que deve iluminar qualquer pessoa; autenticidade que é contraposta ao artificialismo da mentira, pois reflete coerência própria da luz da verdade, e está ligada à autorrealização humana, que só ocorre quando a ação é moralmente boa. Os pais devem educar as crianças desde pequenas para que sejam autênticas, verazes, pois seus filhos, quando forem adultos, saberão dizer um não bem grande à corrupção e ao ganho fácil e desonesto.

    2 – A mentira nas crianças pequenas

        Assim como os adultos, as crianças podem mentir por diversas razões: não desapontar os pais, conquistar algo que desejam, fugir das responsabilidades, chamar a atenção para impressionar, evitar castigos. Também podem mentir para demonstrar desejos ou algo que as incomodam. Observar se a mentira da criança é intencional ou não. Depois, procure compreender se os motivos que a levaram a distorcer os fatos foram a angústia, frustração ou medo. Isso não significa que você é conivente com a mentira, mas que pretende conversar de maneira franca sobre as consequências da mentira, porque isso é fundamental para o desenvolvimento da personalidade da criança, que precisa aprender desde cedo que a mentira é indesejada, seja qual for o motivo, e para que esse defeito não se torne recorrente. Mesmo que, por vezes, a situação pareça cômica, deixar claro que mentir é errado, que prejudica a quem conta e aos demais, além de abalar a confiança e afetar o relacionamento.

        Até a idade de 5 ou 6 anos, a mentira da criança pode representar uma certa confusão entre realidade e imaginação (ou fantasia), e a imaginação se torna tão viva que a criança chega a falar consigo mesma ou manter diálogos com amigos imaginários: tudo isso faz parte do desenvolvimento do pensamento. Após os 6 anos as fantasias começam a rarear. Aos 7 anos a criança já tem consciência do que é verdade ou mentira, sendo esta, portanto, intencional. Então, precisa ser relembrada que a mentira prejudica os outros e trai a confiança que depositam nela. Entre 7 e 8 anos, a criança vive um período de ostentação e autoafirmação, e ao desejar ser a melhor em casa e na escola pode mentir em algo. A partir dos 10 anos, a mentira surge comumente para fugir de responsabilidades.

    3 – A mentira na adolescência

        Mentiras na adolescência preocupam mais porque nesta idade a consciência e o querer da vontade estão mais desenvolvidos. Mas isso não significa que o adolescente seja um mentiroso compulsivo: apenas vive intensamente e tem dificuldade para lidar com as frustrações, e porque não quer decepcionar. Por vezes, quer guardar algum segredo para preservar a própria intimidade ou conquistar independência: pode não contar que foi à casa de um amigo que os pais não consideram boa amizade, a fim de afirmar sua autonomia.

        Mesmo que compreenda a diferença entre verdade e mentira, isso não é suficiente para impedir que o adolescente não diga alguma inverdade para impressionar. Se ele planeja algo que parece ousado demais, dizer simplesmente um “não” é pouco razoável: reflita com ele sobre as razões que tornam seu plano inconveniente.

    4 – O clima de confiança incentiva dizer a verdade

        O modo como os adultos dizem as coisas podem influenciar a imagem e a estima que a criança tem de si, e isso pode afetar-lhe o caráter e a personalidade de forma positiva ou negativa. Há forte conexão entre o modo como a criança se sente e como se comporta: se a chamam de mentirosa, poderá sentir que não há outro remédio senão seguir por essa via; se é admirada e respeitada, agirá tendo presente esses valores. Fomentar a autoestima do filho torna-o seguro de si, e sem necessidade de mentir para se autoafirmar: ressaltar à criança que as pessoas verazes são mais estimadas.

        Nunca rotule de mentiroso seu filho, porque este não é seu modo habitual de ser. Demonstre confiança nele, que não é um mitômano, e considere a mentira como um incidente passageiro ou gafe que ele deve retificar. Se o filho reconheceu que mentiu, valorize esse fato.

        Os adultos têm um papel importante para educar a criança na verdade e honestidade, ao deixar claro desde muito cedo que falsidades e pequenos furtos nunca serão aceitos. A criança pode mentir porque observa o comportamento dos adultos, que são modelos ou espelhos para elas. Mentiras leves também são um mau exemplo: dizer para a esposa que você não está em casa, a fim de não atender o telefone, é mentira; se você riscou o móvel da casa e pediu para a criança não contar isso à mãe, é outra falsidade. Pais que mentem terão filhos mentirosos.

        A verdade nem sempre é boa de se ouvir, mas não há outro remédio. Esteja preparado para entender o que de fato aconteceu, tendo presente que todos somos capazes de cometer desatinos, se não contarmos com a ajuda de Deus e dos demais, pois assim seremos compreensíveis com os erros dos outros. Entenda por que a criança mentiu: medo, frustração, fantasia, chamar atenção. Depois, acolher a criança com respeito e explicar a ela que não agiu corretamente.

        O clima de confiança faz a criança se sentir confortável e sem medo de contar a verdade. Conversar muito com os filhos e criar momentos lúdicos em família, como brincar com eles, assistir juntos desenhos ou filmes infantis e ler antes de dormir, ajudam a criar um clima de confiança e de empatia que evitam mentiras para impressionar os pais.

        Não minta para as crianças! Para construir uma relação de confiança, os pais devem ser verazes: se não pretendem comprar algo que a criança pede, não diga que “na volta farão isso”, a fim de que ela esqueça o pedido, e sabendo que não comprarão. É melhor informar que a compra não é necessária, e que deverá aprender a esperar por outra ocasião: Natal, aniversário ou outra festa.

        Não invada a intimidade da criança quando ela não se sente à vontade para tratar determinados assuntos. Por vezes, é melhor mostrar-se acolhedor e deixar-se enganar uma ou outra vez a fim de demonstrar confiança para com a criança que, se mentiu, ficará dolorida por ter traído a confiança que os pais depositam nela.

    5 – Não dramatizar se seu filho mentiu

        Se você flagrou seu filho contando uma mentira, tente manter a calma. Embora o adolescente não seja mais uma criança, ainda é um ser humano em formação. Portanto, cuidado com suas reações ao ouvir uma mentira. A criança poderá se sentir insegura e amedrontada se os adultos ficarem nervosos ou agitados, e terá mais dificuldade para assumir a mentira. Não é preciso aceitar as mentiras dos filhos, mas reajam com calma. Se os nervos estiverem à flor da pele, dê um tempo e fale mais tarde ou no dia seguinte que foi errado o comportamento do dia interior, e que se tivesse dito a verdade não precisaria temer nenhuma reação ruim.

        Conversar sobre o motivo que levou a mentir torna-se ocasião para dialogar. Fuja de frases do tipo “você falhou comigo” ou “não vou confiar mais em você”, muito próprias para o teatro de melodramas. Faça a criança ver que se tivesse dito a verdade seria ajudada a consertar o erro.

        Não crie armadilhas para contradizer a criança: ao perceber que ela está mentindo, fale abertamente sobre o assunto. Se os pais sabem que o filho não fez a tarefa da escola, em vez de perguntar se fez a lição, perguntar sobre o motivo de não ter feito. Se a criança de 4 a 5 anos traz da escola um objeto diferente e afirma que ganhou ou achou, confirmar a realidade do fato e, se retirou da carteira escolar de alguém, dizer que aquilo não pertence a ela, e que deve devolver no mesmo lugar. Se tiver dúvida sobre a história da criança, peça para contar de novo horas mais tarde e compare as versões.

        Os pais conhecem bem os filhos e logo percebem se estão mentindo: não finja que não percebeu, mas faça um comentário enaltecendo a imaginação fértil da criança, que perceberá ter inventado a história. Um garoto ao retornar da escola contava fatos irreais que afirmava ter realizado. Os pais, que não queriam chamá-lo de mentiroso, combinaram entre si e com o filho que diariamente, durante o jantar, cada um – pai, mãe e filho – contaria um fato ocorrido durante o dia, e uma história inventada. E assim faziam todas as noites. E quando a criança retornava da escola e contava algo fantasioso, perguntavam se a narrativa fazia parte das inventadas. O garoto pensava em silêncio e respondia que era das inventadas, e assim foi se corrigindo sem nunca receber a pecha de mentiroso.

    6 – Evitar punições ou castigos diante de uma mentira

        Muitas crianças acham que a mentira vale a pena porque pode evitar um castigo ou repreensão. O clima de medo é prejudicial. Caso os pais descubram a verdade, não usem de violência, não gritem, não percam a cabeça. Conversem sobre as consequências da mentira; expliquem que a pessoa mentirosa quebra a confiança que nela se deposita, que magoa as pessoas. Dar à criança a oportunidade de corrigir o erro, de reparar a injustiça que fez, é mais eficiente do que aplicar um castigo, além de contribuir de maneira positiva para o amadurecimento emocional da criança.

        Não seja um fiscal rígido que impossibilite o diálogo com os filhos. Talvez ele tenha mentido para não envergonhar-se ou envergonhar os pais. Quanto mais punitivo forem os pais, maior é a chance da criança ou adolescente mentir para não ser punido, e não aprenderá com os próprios erros. Ao invés de punir, escute-o, compreenda o motivo da mentira e explique com exemplos as consequências das inverdades, que sempre têm pernas curtas. Ressalte os benefícios da sinceridade e os prejuízos da insinceridade na formação do caráter e da personalidade.

    7 – Iniciativas que ajudam abordar o tema da mentira com as crianças

        Assistir com os filhos filmes que revelam como a mentira é destrutiva. Muitos roteiros são construídos a partir de uma inverdade que enreda e afunda os personagens em espiral negativa, sendo que o remédio teria sido dizer a verdade. Livros também ajudam abordar o tema da mentira, e são uma ótima ferramenta para ensinar valores e modelos de conduta de uma forma lúdica. A leitura auxilia na introdução de temas espinhosos quando não se sabe por onde começar. Leiam para as crianças pequenas, e depois conversem sobre como agiu a mentira na história. Se a criança souber ler, proponha uma leitura individual e depois reflita com ela sobre o livro.

        Sugestões de leituras: “A verdade segundo Arthur”, de Tim Hopgood. Arthur resolveu fazer o que sua mãe havia proibido: dar uma volta na bicicleta de seu irmão mais velho, e acabou riscando um carro estacionado na frente da casa. Para fugir da responsabilidade inventou uma série de histórias fantásticas que não convenceu ninguém.

        “Pig, o Travesso”, de Aaron Blabey. Trata-se de uma fábula onde o cachorrinho egoísta,  malcriado e ganancioso conta mentiras e vive culpando Tobias, um cão da raça salsicha, fiel e paciente amigo que não desiste de buscar algo de bom no Pig.

        “Pinóquio”, de Carlo Collodi. É clássica a história do boneco de madeira que queria ser um menino de verdade. Suas mentiras fazem o nariz crescer, o que demonstra o poder deformante da mentira. A história é para crianças de todas as idades.

        “O menino e o lobo”, de Esopo, é fábula onde um menino cuidador de um rebanho de ovelhas, que se divertia ao alarmar os moradores da vila ao mentir que seu rebanho estava sendo atacado por um lobo, a fim de que viessem acudi-lo. Certo dia, porém, o rebanho realmente foi atacado, e o menino gritou por ajuda, mas ninguém veio, pois julgavam que se tratava novamente de uma mentira.

    Texto elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/

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  • Os pais e o rendimento escolar dos filhos

    Os pais e o rendimento escolar dos filhos

    1 – O estudo é o trabalho profissional do estudante. 2 – Algumas características do bom aluno. 3 – O ambiente familiar influi nos estudos dos filhos. 4 – Atitudes recomendadas aos pais. 5 – Relações dos pais com os preceptores dos seus filhos.

    1 – O estudo é o trabalho profissional do estudante

         Sendo o estudo o trabalho profissional que o estudante deve realizar, e porque espera-se que todo profissional faça com perfeição o seu trabalho, não se pode desejar menos do estudante, pois será por meio desta tarefa que ele crescerá em virtudes humanas como fortaleza, constância, autodomínio, sentido de responsabilidade e espírito de solidariedade ao contribuir com seus esforços para o bem de todos. Portanto, os pais devem alentar os filhos a dar verdadeiro valor ao estudo: 1) Ter um motivo transcendente para estudar (ajudar aos demais); 2) Desenvolver as capacidades e virtudes pessoais que o estudo requer; 3) Adotar procedimentos ou métodos que façam render o estudo; 4) Ter bom clima ou ambiente familiar que fomente o estudo.

       Fazer os filhos estudarem não é fácil, pois alguns não têm vontade de fazê-lo porque são inconscientes da importância do estudo, e se deixam vencer pela preguiça e comodidade; outros encontram dificuldades porque não aprenderam como estudar e não possuem um plano ou método de estudo.

    2 – Algumas características do bom aluno

        Pais e educadores devem estimular os adolescentes e jovens não apenas tirar boas notas escolares, mas a crescerem como pessoa ao dar ao estudo um motivo transcendente, que é ajudar aos demais com as próprias qualidades desenvolvidas com esforço. Estudar não consiste em acumular informações ou receber passivamente algo elaborado, pois tal comportamento esconde preguiça mental, ausência de profundidade e desconhecimento dos verdadeiros motivos para estudar. Aprender não se limita a repetir conceitos de modo mecânico, mas em expressar com as próprias palavras o real significado do aprendizado, pois o estudo não deve ser passivo e sem o esforço da reflexão e da crítica pessoal. As disciplinas oferecidas pelos professores são necessárias, mas o aluno deve aprender a trabalhar os conteúdos para elaborar um saber com ideias próprias. Esta postura, que filtra as informações recebidas, desenvolve o raciocínio e facilita o espírito crítico para distinguir a verdade do erro.

        A experiência mostra que o bom aluno não é o que tem boas notas, mas possui péssimo caráter e um temperamento que torna difícil a vida dos pais, professores e colegas: memorizar livros e apostilas bastam para tirar boas notas, mas não para formar uma pessoa íntegra. É verdadeiramente bom aluno aquele que ao interiorizar o aprendizado cresce em virtudes humanas para melhor servir aos demais (motivação transcendente).

    3 – O ambiente familiar influi nos estudos dos filhos

         Qualquer aluno necessita encontrar em sua família um ambiente acolhedor, otimista, harmonioso, disciplinado e que respeita o silencio para o estudo. Para isso, é necessário criar um ambiente propício ao estudo ao manter a televisão desligada; determinar horários fixos para as refeições, bate-papos familiares e momentos de descanso, a fim de não criar ocasiões de distração e indisciplina que prejudica a continuidade dos estudos fora da escola.

         O estudo dos filhos é influenciado positivamente por: 1) Fatores pessoais: capacidade mental que pode ser aumentada pelo esforço, vontade forte para não se deixar levar pelo mais cômodo (responsabilidade), adquirir a virtude ou hábito de estudo, possuir um método de aprendizado; 2) Fatores ambientais: fomentar um clima familiar propício ao estudo e à cultura familiar (ler o boletim Promover a cultura na família), combinar os horários para as atividades de descanso e lazer.

         Nas lições do grande pedagogo espanhol Victor Garcia Hoz, a família é determinante para o comportamento das pessoas, e isso se comprova por meio de pesquisas que revelam como a deterioração da vida familiar e a delinquência juvenil estão fortemente ligadas. O ambiente familiar afeta consideravelmente a pessoa, tanto para o bem quanto para o mal. A falta de afeto, carinho e diálogo repercutem de forma negativa no comportamento dos filhos, e no rendimento escolar destes. Enganam-se os pais que não distinguem entre quantidade e qualidade de tempo que dedicam aos filhos: estar na mesma sala com os filhos, mas com a atenção voltada o tempo todo para a TV, não significa estarem juntos. Os pais devem ser os melhores amigos dos filhos, e isso se consegue com o diálogo e o interessar-se pelas coisas deles.

        A relação paternal-filial quando não é boa faz surgir comportamentos ruins nos filhos. Quando um aluno começa a se apresentar deprimido, incapaz de se concentrar ou fixar a atenção nas aulas; quando se torna revoltado, desanimado, quieto e isolado, é quase certo que há desavenças no ambiente familiar. Os atritos constantes entre os pais ocasiona consideráveis prejuízos à educação dos filhos: afetam sua segurança, causam ansiedade, falta do estímulo para o estudo e o baixo rendimento escolar, trazem problemas psicológicos, complexos e revoltas. Por vezes, o mau comportamento de não estudar pode ser uma arma ou recado do filho: “Não estou satisfeito com as brigas de vocês, que devem se entender melhor para se amarem mais”. Só um clima do diálogo soluciona os diversos problemas do dia a dia de uma família. É importante que os pais detectem o motivo que tornou difícil a convivência no lar: problemas financeiros se contornam com o tempo e iniciativas entre todos; já os problemas de relacionamento exigem a humildade de não permitir atitudes de soberba e orgulho que conduzem à falta de perdão e ao distanciamento que envenenam a vida familiar.

        Os pais devem se esforçar para melhorar a si próprios continuamente, e isso se consegue por meio de propósitos simples e diários, praticados com bom humor e espírito esportivo (começar e recomeçar). O clima familiar depende em grande parte das atitudes dos pais, que possuem o desafio de dar exemplo ao buscar a melhora pessoal e não apenas a de seus filhos: Sêneca afirmou que “longo é o caminho com preceitos, mas breve e eficaz com exemplos”. Portanto, antes de exigirem que os filhos sejam melhores como pessoas ou como alunos, os pais devem dar-lhes exemplo ao procurar melhorar a si próprios, pois o bom educador vive primeiramente aquilo que ensina.

    4 – Atitudes recomendadas aos pais

            Os filhos valorizam muito o esforço e a dedicação dos pais à família. Esse bom exemplo é decisivo para que os filhos sejam melhores. Para formar bem os filhos, os pais devem primeiro formar bem a si próprios ao dedicar um tempo diário à formação pessoal: ler livros, assistir vídeos, participar de cursos e palestras sobre orientação familiar e educação do comportamento dos filhos. Depois, devem ter as seguintes atitudes positivas: 1) Valorizar não apenas as notas escolares dos filhos, mas também as virtudes ou bons hábitos deles; 2) Elogiar o esforço que fazem para melhorar como pessoas; 3) Assumir como pais a responsabilidade de serem os principais responsáveis pela formação dos filhos, e não deixar esse encargo à escola; 4) Estar atentos ao uso que os filhos fazem de celulares, tabletes e internet, dada as influências negativas de certos programas; 5) Interessar-se pelos vídeos e jogos que os filhos assistem, das amizades que possuem, dos ambientes que frequentam; 6) Ter como primeira preocupação a formação integral dos filhos, que inclui não apenas a educação da inteligência, mas a dos afetos e sentimentos para que melhorem como pessoas.

    5 – Relações dos pais com os orientadores dos seus filhos

        Os pais não devem limitar-se a pedir informações sobre as notas escolares do filho, mas também em fornecer dados concretos que venham facilitar o trabalho dos preceptores: como e quanto estuda o filho em casa, se aproveita ou não o tempo, as dificuldades mais frequentes que possui (tempo gasto em telas digitais para se divertir), como se comporta em casa com os pais e irmãos, que ambientes frequenta, quais as preocupações atuais do filho, que dúvidas apresentou aos pais e estes não souberam esclarecer, a que vídeos dedica tempo, se está namorando, se ajuda nos encargos familiares…

        A parceria com a escola será prejudicada se não comparecem às reuniões de formação dos pais, oferecidas pela como ocasião de aproximar conteúdos de orientação familiar para facilitar a missão de educar integralmente os filhos. Dentre os inúmeros afazeres que os pais possuem, devem ter presente que “No Colégio há três coisas importantes: primeiro, os pais; segundo o professorado; terceiro os alunos. Os nossos filhos – não vos ofendais – estão em terceiro lugar. Dessa forma andarão multo bem” (São Josemaria).

    Texto escrito por Ari Esteves com base em artigo impresso “Os pais e o rendimento escolar dos filhos”, de autor desconhecido. Imagem de Leeloo Thefirst

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  • O esforço na vida da criança

    O esforço na vida da criança

    1 – Não há fórmulas mágicas para substituir o esforço. 2 – A necessidade é mãe de todas as invenções. 3 – É ilógico ofertar às crianças o desnecessário

    1 – Não há fórmulas mágicas para substituir o esforço

        Com base no esforço e na exigência pessoal foram gestadas as grandes obras artísticas e científicas. Ao ler a biografia de Michelangelo, Gaudi, Pasteur, Jérôme Lejeune, Thomás Edison, entre muitos outros, se descobre que, com dor e sofrimento, dedicaram milhares de horas de intensos trabalhos às suas criações.

        Saber esforçar-se não vem de bate-pronto, mas de uma educação serena e persistente. É preciso que pais e educadores ensinem às crianças e adolescentes que não há fórmulas mágicas para o aprendizado sério. Para isso, evitar frases do tipo “aprenda divertindo-se”, “Não vai custar nada”, “Vai ser facinho…”. É bom critério educacional revelar às crianças que seus professores, músicos e esportistas que admiram gastaram muitas horas de aprendizado para dominar a matéria, instrumento musical ou técnica esportiva.

        Pais que reclamam da escola porque passa muita lição de casa transmitem aos filhos a mensagem de que não precisam se esforçar. Os filhos em casa devem substituir as horas gastas em mídias sociais por horas de estudo e de leitura de obras literárias, jogos de inteligência (xadrez, quebra-cabeça…), encargos ou tarefas para o bom funcionamento do lar, vídeos selecionados… A família que possui horários fixos para as refeições, dormir e acordar – os pais devem dar exemplo ao cumprir esses horários – criará uma disciplina que favorecerá o aproveitamento do tempo e o consequente crescimento humano e cultural de todos.

    2 – A necessidade é mãe de todas as invenções

        As crianças nascem com um desejo inato de conhecer, investigar e entender o mecanismo das coisas ao seu redor. Se o ambiente que as cerca é favorável ao aprendizado, elas desenvolverão seus talentos e habilidades. Porém, se o estilo de vida familiar oferta tudo à criança ou ao adolescente, antes mesmo de necessitar, satura-o de estímulos artificiais e torna-o passivo e consumista. Então, a criança passa de pequena empreendedora para grande consumidora, pois se afasta do desejo de investigar e de inventar. Um carrinho elétrico já vem pronto, e basta apertar o botão para que funcione; porém, criar um ônibus com a caixinha vazia de leite e transformar tampinhas de pet em rodinhas desse veículo, exigirá que o botão da criatividade esteja dentro da criança, e não fora dela. Já foi dito que “A necessidade é mãe de todas as invenções”. A criança começa a ser criatividade ao se esforçar para ter o que não possui, mas se já possui antes mesmo de necessitar, não fará falta ser criativa.

    3 – É ilógico ofertar às crianças o desnecessário

        É na escassez de recursos onde a inteligência, vontade, imaginação e memória são estimuladas a suprir as carências. Isso de ter o que todo mundo tem é ir a reboque de modismos e deixar o essencial de lado. As estatísticas da moda não devem decidir pelos pais, nem criar hábitos de consumo, se desejam educar bem. Introduzir o celular na vida da criança é fazer o que muitos pais infelizmente fazem, e desatendem com isso valiosos critérios educacionais. A lógica de ofertar à criança o que não é necessário tem que ser quebrada desde a infância, a fim de não formar adolescentes que justificarão todo tipo de necessidades porque querem imitar seus colegas. Um garoto de uma escola da periferia da Capital de São Paulo perguntou ao professor se era correto comprar um tênis de grife, porém falsificado. A necessidade de aparentar certa opulência surgiu nesse adolescente porque não foi educado para outros valores, como desprendimento dos bens materiais, autenticidade para apresentar-se modesta e sobriamente entre seus iguais, não se deixar influenciar pelas falsas necessidades criadas pela propaganda comercial… As crianças precisam de poucas coisas, sendo mais saudável que aprendam também a viver desprendidas daquilo que possuem, a fim de serem mais livres.

        O esforço é educativo e as crianças devem prová-lo desde cedo porque fortalece a vontade, faz descobrir as próprias limitações, torna-as pacientes e constantes, desenvolve nelas as capacidades e talentos naturais para melhor servir aos demais.

    O texto acima foi adaptado por Ari Esteves com base no capítulo “O esforço, a austeridade e a simplicidade”, do livro “Educar na realidade”, de Catherine L’Ecuyer, Editora Fons Sapientiae, 2019. A imagem do menino é de Paola Roxanna Nemek.

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  • Telas digitais X crianças

    Telas digitais X crianças

    1 – As telas produzem mais efeitos negativos do que positivos. 2 – Crianças pequenas aprendem interagindo com pessoas e não com telas. 3 – O excesso de telas torna a mente preguiçosa.

    1 – As telas produzem mais efeitos negativos do que positivos

        Catherine L’Ecuyer cita diversas pesquisas de cientistas e institutos americanos e europeus que revelam os problemas que as telas digitais vêm causando às crianças e adolescentes*. Diz que a Academia Americana de Pediatria recomenda que se evite telas até os 2 anos, por considerar que vários estudos indicam que elas produzem mais efeitos negativos do que positivos. Para crianças acima de 2 anos, a Academia recomenda limitar o tempo de exposição às telas a menos de duas horas por dia, tendo o máximo de cuidados com os conteúdos que assistem. Porém, esses critérios sanitários são colocados como regras mínimas e não de excelência educacional.

    2 – Crianças pequenas aprendem interagindo com pessoas e não com telas

        Para o bom desenvolvimento da personalidade, as crianças precisam, desde seus primeiros anos, de relações interpessoais com seu principal cuidador. O tempo passado no mundo virtual rouba das crianças as experiências humanas que deveriam ter. A tela se converte em obstáculo inclusive para a criação de laços afetivos. A criança que substitui as atividades reais pelas virtuais terá diminuído o seu bom desenvolvimento como pessoa em muitos aspectos: motor, cognitivo, comportamental e de relações com outras pessoas…

        As crianças necessitam vivenciar realidades concretas, e quando pequenas aprendem por meio de interações com humanos, e não com telas: precisam do olhar dos pais e dos professores para calibrarem a realidade. Imaginemos, por exemplo, que em uma sala de educação infantil entra um funcionário para substituir a lâmpada queimada, e ao subir na escada para trocá-la deixa cair a ferramenta e solta um palavrão. As crianças não olharão nem para a ferramenta e nem para o operário, mas para a professora. Se a professora não der importância, elas também não darão; se a professora franzir a testa, indicando que aquilo não se deve dizer, elas chegarão à mesma conclusão; se a mestra rir, elas farão o mesmo. E à noite, irão contar aos pais o episódio ocorrido na sala de aula, e adotarão as mesmas reações da professora, que neste caso foi a intermediária entre a criança e a realidade, dando sentido à aprendizagem. Uma tela não pode substituir o papel do cuidador, porque não faz a calibragem viva, real, da informação à criança. O déficit de realidade ou de aprendizagem ao vivo vem trazendo diminuição até no vocabulário dos bebês e no desenvolvimento motor e cognitivo destes. Há forte relação entre o acesso às telas durante os três primeiros anos da criança e os problemas de atenção aos sete anos.

    3 – O excesso de telas torna a mente preguiçosa

        Um estudo realizado ao longo de dez anos, estabeleceu relação entre o consumo de televisão por crianças de 29 e de 53 meses, com redução da motivação para aprender na escola, diminuição nos resultados de matemática, aumento das vítimas de assédio escolar e da massa corporal em crianças de até 10 anos. Outro estudo estabeleceu a relação entre o consumo de televisão por crianças de 5 anos com problemas de atenção e concentração aos 11 anos. Esses estudos indicam que os efeitos da televisão prejudicam não apenas crianças abaixo de 2 anos, mas perduram no tempo. As telas não vêm contribuindo para o bom desenvolvimento das crianças pequenas, pois as afasta do aprendizado vivencial que as realidades oferecem.

    *O texto acima foi adaptado por Ari Esteves com base no capítulo “Telas na primeira infância”, do livro “Educar na realidade”, de Catherine L’Ecuyer, editora Fons Sapientiae, 2019. Nessa obra, a autora indica dezenas de links e menciona vários artigos com as experiências científicas que lastreiam suas afirmações. O Autor do primeiro desenho (Crianças versus telas digitais) é David Plat.

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  • Criança necessita de limites

    Criança necessita de limites

    1 – A criança troféu se torna tirânica. 2 – Como conseguir que a criança obedeça? 3 – A criança deve aprender a conviver com a frustração. 4 – Não dar tudo o que a criança pede.

    1 – A criança troféu se torna tirânica

        Quando se deixa de considerar a criança como um presente, e se passa a considerá-la um troféu para ser exibido, logo ela se torna tirânica, ensina a educadora Catherine L’Ecuyer*. A criança troféu parece tão perfeita que não precisa ser corrigida para que continue sendo fofa, exibida e caprichosa. E para que ela não dê shows em público, seus pais, que possuem pouca autoridade, cedem a tudo.

        Cada vez é mais comum ver nas ruas crianças que pedem aos gritos, pois nunca lhes foi dito um “não” gordo e rotundo. Por conhecer bem as regras para manipular os pais, essas crianças se tornam mal-agradecidas, batem, gritam, quebram tudo, exigem determinadas roupas, só comem o que gostam, engolem saquinhos de guloseimas em segundos, abrem a geladeira quando querem, respondem mal aos adultos e não os olham nos olhos, e quando o fazem é com viés desafiador.

        Como consertar tudo isso? Pode-se começar por substituir os produtos de luxo por outros mais simples que incentivem a criatividade, menos celulares e mais tempo com a família, horas a menos de videogames e mais bicicleta ou brincadeiras com outras crianças, substituir as recompensas materiais pelo carinho, transformar as horas de televisão em passeios pelas praças arborizadas ou parques, trocar o barulho dos aparelhos pelo silêncio e a observação. Mas, acima de tudo, saber dizer “não” ao que se considera inconveniente à criança.

    2 – Como conseguir que a criança obedeça?

        Sim, é preciso respeitar a liberdade da criança, mas dentro de certos limites. Como conseguir que uma criança não tire o boné que foi colocado para protegê-la do sol? Colocando-o de novo. E se tirá-lo outra vez? Coloque-o novamente até que não o tire mais. Porém, se a criança já tiver idade para intuir as consequências de suas ações, dizer para ela: – Que pena, querido, não podemos ir ao parque porque você não quer usar o boné e faz muito sol. Como não queremos que você se queime, deixaremos para ir ao parque outro dia, se não fizer sol. Como conseguir que uma criança de três anos coma salada? Colocando salada na refeição dela. E se não come? Coloque-a nas seguintes refeições até que coma.

    – Filha, comece a limpar a sujeira que você fez! Havia dito que se tornasse a fazer isso, ficaria sem ver desenhos por dois dias.

        Antes de dois anos, aproximadamente, a criança ainda não tem capacidade de obedecer, sendo necessário tirar do alcance dela objetos perigosos e chamar a atenção cada vez que os toque. Ter presente que bebê não zomba, e afirmar ao contrário é fomentar a desconfiança entre ele e seus pais, o que intensificará a desatenção e fará surgir nele a necessidade de chamar a atenção. Os bebês quando choram ou se queixam, pedem a atenção dos pais para resolver suas necessidades básicas e afetivas. É necessário ajudá-los a regular seus hábitos de sono e de comida, por exemplo, mas sem que isso prejudique a necessidade que eles têm de serem cuidados, e sem cair no condutismo, que reduziria a relação com eles a meros sujeitos passivos programáveis por estímulos externos (prêmios e castigos), condicionando, assim, a forma deles agirem.

        A partir de dois anos, aproximadamente, a criança tem o vínculo de confiança consolidado com seus pais, quando estes atenderam suas naturais necessidades. A partir desse momento, a criança começa a ter capacidade de obedecer, sendo a ocasião de fazê-la compreender as consequências naturais de suas ações (como a de não querer utilizar o boné para brincar no sol). Assim, a criança começa entender uma das leis principais do mundo em que vive: somos livres para fazer o que queremos, mas não livres das consequências naturais que nossos atos provocam.

    3 – A criança deve aprender a conviver com a frustração

        O mundo não age necessariamente como queremos. A birra da criança de dois anos, por exemplo, nada mais é que uma consequência da frustração que causa a ela saborear a realidade de que “se o mundo não age como eu quero, então me aborreço para que seja como eu quero”. Se os pais cedem, reforçam a falsa esperança da criança de que o mundo transigirá sempre que ela quiser. Porém, ao não ceder os pais deixam claro que as ações têm consequências naturais, e que as pessoas não se comportam de acordo com os desejos da criança, ajudando-a, assim, a descobrir o que é a realidade. Quanto antes as crianças compreenderem isso, menos birras lançarão sobre seus pais.

        O mundo tem suas leis: o sol queima e, se não nos protegermos dele, nos queimamos, mesmo que não queiramos tal desconforto. Cada família vai encontrando seu jeito mais eficiente de funcionar, e pode valer-se das leis da natureza ou do comportamento correto: se para ir ao parque em dia ensolarado, a mãe diz que é para usar o boné, e a criança não o faz, simplesmente não se vai ao parque. Não é necessário guerrear nem chantagear ao oferecer prêmios de consolo. A consequência natural é não ir ao parque, a fim de que a criança entenda e assuma as consequências de seus atos. Se os pais fizerem isso sem dramatizar, mas com bom humor e de comum acordo, a criança os verá seguros e não irá manipulá-los com birras. Os pais possuem pouco tempo, mas devem saber que controlar a birra requer paciência, porque educar é um processo lento.

    4 – Não dar tudo o que a criança pede

        Na criança se encontra as sementes do conhecimento, o que a predispõe para pesquisar, comparar, saborear e manipular para conhece; Aristóteles dizia que elas também estão predispostas para adquirir virtudes. Mas, se estão saturadas de objetos de consumo, logo perdem a curiosidade e a capacidade de esforçar-se para chegar à excelência. O consumismo satura os sentidos e as potências da alma, e faz desaparecer o interesse por aprender e ser criativo; e quando a isso se soma a ausência de limites, é sufocada também a predisposição para as virtudes e a capacidade de se esforçar.

        Aristóteles, na Ética a Nicômaco, diz que a educação certa consiste em saber alegrar-se e sofrer pelas coisas que valem a pena, e que devemos ser educados para isso desde a infância. A invenção ou descoberta, que é a forma mais elevada de conhecer, surge de maneira natural nas crianças, porque elas possuem a tendência natural para a verdade, bondade e beleza. Mas essas capacidades não brotam no caos, no barulho contínuo, na saturação dos sentidos com imagens e na falta de limites e na indisciplina.  

        O que é bom demanda esforço. Miguel Cervantes dizia que “o caminho da virtude é muito estreito e o caminho do vício, amplo e espaçoso”. A criança mimada, paparicada, a quem não se coloca limites, terá a vontade fraca por lhe faltar as asas do esforço e da sobriedade. Ao contrário, a criança que conhece seus limites, será verdadeiramente livre, rica (tem mais quem precisa de menos) e imensamente feliz. Maria Montessori dizia que deixar a criança que ainda não desenvolveu sua vontade fazer o que quiser, é atraiçoar seu sentido da liberdade. Podemos entender essas palavras da genial educadora no sentido de que a criança a quem não se impõe limites, desenvolverá maus hábitos e se tornará escrava deles, já que a liberdade pressupõe o desenvolvimento das virtudes da temperança e do autocontrole, conseguidas mediante o esforço e o desenvolvimento de bons hábitos.

    *Texto adaptado por Ari Esteves, com base no capítulo “Ter tudo? Estabelecer e fazer respeitar os limites”, de Catherine L’Ecuyer, em seu livro “Educar na realidade”, Editora Fons Sapientiae, 3ª edição, São Paulo, 2016. Desenho de Michel Pereira (Instagram @michelvp.oficial); imagem de Anastasia Shuraeva

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  • Educar hoje é diferente

    Educar hoje é diferente

    1 – Despertar a curiosidade e a imaginação da criança 2 – Oferecer à criança materiais simples para que inventem suas brincadeiras 3 – Os pais devem educar com sentido profissional

    1 – Despertar a curiosidade e a imaginação da criança

        “As crianças de hoje, sobretudo as mais novas, não são como as crianças de gerações anteriores: elas são hiperativas, dispersas, têm dificuldades para estabelecer vínculos, demonstrar afeto e aceitar a autoridade, quer de pais, professores ou cuidadores. Falta-lhes despertar a curiosidade (el assombro), a imaginação e a motivação intrínseca, que as mobilizem para a descoberta do novo em busca de respostas às próprias indagações, até porque quase tudo lhes é dado pronto para evitar questionamentos e poupá-las de dissabores”, diz Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida (PUC/SP)”, na introdução do livro Educar na curiosidade, de Catherine L´Ecuyer.

        A educação familiar e a escolar são desafiadas hoje a repensar o modelo mecanicista da nossa época, que marca ritos padronizados a que todas as crianças são submetidas por meio de métodos iguais impostos a elas, sem avalizar as condições e as necessidades de aprendizagem de cada uma. Cada vez mais as crianças deixam de aprender por descoberta e aprendizagem, que aguçam a imaginação e a inteligência. Ao dar a elas brinquedos ou aparelhos em que basta apertar o botão para ter tudo pronto, deixa-se de oferecer circunstâncias minimamente estruturadas para que elas possam ser criativas, conheçam os limites pessoais e aprendam a ter paciência ao não ter tudo o que querem atrás de um botão (importa que o botão esteja dentro de criança, e não fora dela).

        Outro erro educativo atual é a chamada hipereducação, que procura antecipar as etapas de desenvolvimento cognitivo, social e afetivo das crianças, a fim de criar “supercrianças” ou “Baby Einstein”. Com isso, o que fazem é retirar as crianças do entorno familiar, do contato prolongado com os pais, que são os únicos e mais eficientes educadores do temperamento, caráter e educação dos sentimentos dos filhos. A criança necessita estar em sintonia com o seu entorno, e não se prender a telas digitais horas a fio. Os pais devem fomentar jogos de inteligência (lego, xadrez, quebra-cabeça), colecionismo, entre outros; devem ensinar a criança a participar nas tarefas ou encargos para o bom andamento do lar, a ter horário para brincar, fazer as refeições, banhar-se, pois a disciplina familiar ajudará no desenvolvimento do autocontrole ao não se deixar levar apenas pelos caprichos de cada momento.

    2 – Oferecer à criança materiais simples para que inventem suas brincadeiras

        Ao receber materiais simples, a criança não viciada em telas digitais passa a desenvolver seus próprios brinquedos e diverte-se e aprende as normas de convivência ao brincar com outras crianças. O silêncio e a reflexão da criança ao ter nas mãos objetos simples – talvez embalagens vazias –, com os quais pensa no modo de interagir com eles, passa a desenvolver naturalmente suas capacidades motoras e cognitivas. Ao contrário, ao clicar botões de telas digitais, a quantidade de informações e de imagens que passam diante dos olhos da criança (há desenhos que mudam oito vezes de cena por minuto) impedem que que o cérebro as assimile e coordene, sendo o resultado o mesmo que a água sobre pedra, que não deixa rastro. Ao perguntar a um adolescente se recorda o que viu nas quatro horas que passou no celular dois dias atrás, não saberá responder. Ao contrário, se ele leu um conto, fábula ou aventura certamente recordará o conteúdo da narrativa e terá aprendido novas palavras, formas de expressão e colheu experiência para a sua própria vida, pois a leitura calma e serena das boas obras literárias penetra na alma.

    3 – Os pais devem educar com sentido profissional

        Os pais devem educar seus filhos com sentido profissional, e não como amadores. A pedagogia familiar é hoje uma ciência rica em conteúdo para a educação comportamental de crianças e adolescentes, pois baseia-se na experiência que aporta o método do caso. Para isso, sugerimos a leitura de obras mencionadas, por exemplo, em https://staging.ariesteves.com.br/livros/ e nos boletins à disposição nesse site, como também em lives de João Malheiros (jebmalheiros) e Samia Marsili, no Youtube, a fim de assumirem com eficiência a tarefa mais importante de suas vidas e o melhor negócio que possuem: a família.

    Texto produzido por Ari Esteves, com base no livro “Educar na curiosidade”, de Catherine L’Ecuyer, Editora Fons Sapientiae, São Paulo, 2016. Imagem de Andrea Piacquadio.

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  • Educar o coração

    Educar o coração

    1 – O emotivismo. 2 – Os sentimentos devem aliar-se à realização do bem. 3 – Educam-se os sentimentos desde a infância. 4 – Sentir alegria ao agir corretamente. 5 – Reconhecer os próprios sentimentos e recusar a vulgaridade. 6 – Educar o coração

    1 – O emotivismo

        A afetividade humana é essencial, pois sem ela seríamos incompletos. Quando se põe o coração – sinônimo de pôr os sentimentos – naquilo que se faz, como por exemplo na atividade profissional que se exerce, tende-se a fazer melhor. Pôr o coração não significa deixar-se arrastar pelos afetos, já que a razão ou inteligência é quem deve dirigir a pessoa; apenas se pretende afirmar que os sentimentos dão cordialidade à razão e torna agradável, e não fria, a realização do bem.

        Chama-se emotivismo a característica de dar primazia aos sentimentos. A afetividade (sentimentos, emoções, paixões) deve ter como ponto de referência a razão, que permite discernir se os afetos são autenticamente humanos ou não (os animais também possuem afetividade). A intensidade sentimental sem inteligência pode levar a desvios de conduta: diante da morosidade do trânsito pode-se ficar nervoso, enfadar-se, xingar, esbravejar, mas ao colocar racionalidade nesse sentimento – já que não há alternativa para escapar do engarrafamento –, pode-se colocar uma boa música para relaxar ou ouvir um podcast sobre educação comportamental dos filhos, etc., e com isso evita-se a absolutização dos sentimentos em detrimento de opções mais razoáveis.

    2 – Os sentimentos devem aliar-se à realização do bem

        A afetividade facilita a ação voluntária: uma jovem que por gostar de animais decide estudar veterinária, fará com determinação e entusiasmo esse curso. Portanto, mais do que eliminar as paixões ou dificultá-las, se trata de encaminhá-las à realização do bem, que é aproveitar-se não apenas da força de vontade, mas também do apetite sensível para agir: “O meu coração e a minha carne gritam de alegria para o Deus vivo”, diz o Salmo 84,3. Não se deve suprimir ou as paixões como se fossem algo mau ou recusável. Claro, se as paixões ou sentimentos se desordenarem e levarem a não cumprir o que é certo, será preciso corrigi-los porque nem tudo o que sentimos será bom ou reto. Isso significa que é preciso orientar ou dirigir a emotividade para os bens verdadeiros: o amor a Deus e ao próximo, por exemplo.

        É um engano fazer equivaler autenticidade com espontaneidade, ao julgar ser autêntica a pessoa que, sem pensar, segue espontaneamente seus sentimentos. Por exemplo, alguém com forte temperamento (colérico) poderá ser espontaneamente bruto com quem, sem querer, venha a empurrá-lo no metrô; ou será autenticamente humano se souber perdoar ao conscientizar-se da situação em que ambos se encontram. A espontaneidade irracional é própria dos animais, e a autenticidade humana é fruto do discernimento em seguir aquilo que se percebe como correto. O conceito errado de “espontaneidade” e “naturalidade” com frequência fere o decoro, rebaixa a própria sensibilidade e animaliza as reações afetivas. Por isso, os pais devem transmitir aos filhos uma atitude de recusa à vulgaridade, não apenas em questões de cunho sensual, mas na escolha de formas de divertimento ou entretenimento, no modo de portar-se ou vestir-se em casa… O mesmo acontece com a liberdade que, sem ética ou sem critérios de discernimento entre o bem e o mal, deixa de ser autêntica para se tornar libertinagem ou puro individualismo (a liberdade é autêntica quando se conforma com a verdade). A educação da afetividade não se identifica com a educação da sexualidade, pois esta é apenas uma parte do campo emocional, que certamente deve ser educada em ambiente familiar de confiança e por meio da educação dos sentimentos e crescimento em virtudes.

    3 – Os sentimentos se educam desde a infância

        Cabe aos pais normalizar os afetos dos filhos ao ensiná-los a manifestar seus sentimentos de modo proporcional à realidade que os despertou: se perdeu um jogo ou não teve a refeição que esperava, deverá ser ajudado a controlar o sentimento de raiva e compreender que a causa dessa ira é má por ser egoísta, injusta, desproporcionada e mal-agradecida. A morte de uma pessoa querida ou a notícia de uma doença inesperada torna-se ocasião para ensinar a ser forte e controlar os sentimentos ao aceitar os acontecimentos, pois se Deus o permitiu será para um bem maior, mesmo que no momento não se compreenda isso. Diante de uma reação de medo, antipatia ou indiferença pelos que sofrem, os pais devem abordar o tema com o filho para ajudá-lo a pôr os afetos em seu lugar: não admitir medos bobos, saber que desprezar uma pessoa porque os sentimentos (que são irracionais) não se simpatizaram com ela é uma injustiça, não ter misericórdia nem se condoer diante do sofrimento de alguém é inumano… A educação sentimental permite que na adolescência e juventude os filhos superem com facilidade qualquer crise sentimental, pois o equilíbrio emocional adquirido favorece a harmonia dos sentimentos, o crescimento de hábitos bons e o fortalecimento da vontade.

    4 – Sentir alegria em agir corretamente

        Os pais devem procurar que os filhos desfrutem ao fazer o bem, e isso se consegue com a educação dos sentimentos, especialmente durante a infância, que é o período em que se formam os hábitos bons ou ruins. Os afetos são um poderoso motor para a ação, pois tendem ao que mais agrada e fogem do que desagrada. Educar os sentimentos é fazer com que as tendências naturais coincidam com o bem da pessoa: se dedicar um tempo ao estudo ou à leitura fora do horário escolar é um bem a ser alcançado, o quanto antes é necessário ser criativo para estimular a criança a que aprenda a ter gosto em cumprir esse horário, mesmo que tenha que superar um sentimento inicial de desagrado. Fazer a criança e o adolescente perceber, com calma e insistente paciência, a fealdade da ação de esparramar-se por horas no sofá para ver televisão, será para que não pratique essa ação e aproveite melhor o tempo. Se os afetos conduzem a criança a fugir do dever de ordenar seus brinquedos, roupas ou enxugar o box após o banho, deverá ser esclarecida de que não deve se deixar levar pela preguiça ou comodismo, mesmo que no início seja necessário aplicar alguma medida corretiva. Os pais podem ter a certeza de que, se insistirem com carinhosa paciência, chegará um momento em que a criança passará a fazer espontaneamente o que deve ser feito, sem necessidade de grandes raciocínios ou súplicas, e o fará com gosto e sentirá desagrado em agir erradamente.

    5 – Reconhecer os próprios sentimentos e recusar a vulgaridade

        A criança e o adolescente precisam reconhecer seus próprios sentimentos. Para isso, os pais podem valer-se das histórias oferecidas pela literatura ou pelo cinema, pois atuam fortemente sobre os sentimentos e tornam mais fácil aprender a dar respostas sentimentais ou afetivas de modo proporcionado ao fato que as desencadeou. As narrativas lidas ou ouvidas movem os sentimentos em determinada direção, sendo grande a influência delas nas crianças (daí a importância de ler para elas os clássicos contos infantis, pois materializam o bem ou o mal em seus diferentes personagens). As cenas de uma história de aventura, suspense ou romântica contribuem para reforçar os sentimentos adequados a cada situação: indignação frente à injustiça, compaixão e solidariedade pelos sofrimentos de alguém, admiração diante de atos de fortaleza, encantamento pelo que é belo, o perdão como compreensão da debilidade humana, aprender o que é amar frente a uma cena fidelidade ao cônjuge… As boas histórias educam o gosto estético, previnem contra a falta de tom humano que por vezes degenera em vulgaridades, aumenta o senso crítico ou a capacidade de avaliar a qualidade das narrativas.

    6 – Educar o coração

        A educação das emoções fomenta nos filhos um coração magnânimo, capaz de amar verdadeiramente a Deus e as pessoas, e torna possível perceber as necessidades e preocupações dos demais. Um ambiente sereno e de exigência contribui para dar confiança e estabilidade ao complexo mundo dos sentimentos. Se os filhos se sentem queridos incondicionalmente, se comprovam que agir bem é motivo de alegria para seus pais, que seus erros não levam à perda da confiança neles e são corrigidos com carinho, terão facilitada a sinceridade, crescerão em clima interior de ordem e sadia manifestação afetiva. E certamente saberão desenvolver sentimentos positivos de compreensão, alegria e confiança para superar as zangas, birras, invejas, egoísmos e preguiças, atitudes que por tirarem a paz e a harmonia da alma serão entendidas como convite para ações concretas como pedir desculpa, perdoar, dedicar tempo aos demais…

        A vida de oração e de trato filial com Deus é condição importante para ordenar os afetos do coração e assegurar a capacidade de amar verdadeiramente e de ser generosos. Tem enobrecido o coração, que se converte em depósito de imensas riquezas, aquele que luta contra os sentimentos de egoísmo e de vaidade, quem controla a imaginação e a memória para colocar os cinco sentidos naquilo que faz, quem tem autodomínio para moderar seu apetite nas refeições, quem fomenta convivência amável com os desagradáveis, quem solidariza-se diante das necessidades dos demais…

        O coração é um motor que deve ser educado, cuidado e afinado para orientar toda a sua força na direção do bem. Como vimos, isso se consegue ao lutar diariamente em pequenas coisas para vencer o apego à comodidade, ao egoísmo de pensar só em si, a tendência à exaltação pessoal… Assim, pouco a pouco o coração vai se tornando magnânimo e capaz de dedicar os seus melhores esforços à execução de grandes ideais ao serviço do próximo.

    Texto produzido e adaptado por Ari Esteves com base em aulas de Luis Romera Oñate, da Pontificia Università della Santa Croce (Roma); e do artigo “Educar o coração”, de J.M. Martín e J. Verdiá, em https://opusdei.org/pt-br/article/educar-o-coracao/

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