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  • Para dar certo na vida

    Para dar certo na vida

    1 – É tarefa de cada um construir-se. 2 – As virtudes são essenciais para a construção pessoal. 3 – O crescimento humano exige respostas de amor. 4 – A importância das virtudes sociais. 5 – Alguns caminhos para motivar-se

    1 – É tarefa de cada um construir-se

        Para dar certo na vida não bastam os conhecimentos técnicos, científicos e culturais, pois há quem os possui e são infelizes, inclusive há os que não lutam contra seus defeitos e acabam sendo pessoas de difícil convivência no âmbito familiar, profissional ou social. Isso ocorre normalmente porque seus afetos (ou o conjunto de suas emoções, sentimentos e paixões) não estão sob o domínio da inteligência e da vontade que, por meio das virtudes humanas, ordenam a afetividade.

        É experiência comum que ninguém nasce pronto, sendo necessário construir-se ao buscar a perfeição humana ao longo da vida, principalmente fortalecendo as qualidades pessoais e eliminando os defeitos, a fim de chegar à expressão ideal de si mesmo para ser feliz e tornar felizes as pessoas com as quais se convive.

        A formação humana não se cinge apenas ao aspecto profissional, mas deve abarcar a pessoa por completo − inteligência, vontade e afetos –, e isso se consegue por meio de virtudes que contribuam para a configuração do caráter e o aperfeiçoamento do temperamento. O hábito de refletir sobre o que está certo ou de errado nas próprias ações, ideias, aspirações, desejos e sentimentos, é tarefa diária que pode feita durante alguns minutos no final de cada dia, com o intuito de tirar alguns propósitos – três ou quatro – simples e concretos para levá-los à prática no dia seguinte. Por meio desse exame vai ocorrendo uma conaturalidade com o bem, de modo que cabeça (inteligência e vontade) e coração (sentimentos, emoções e paixões) quase que de forma instintiva contribuam para orientar as inclinações e sentimentos de acordo com a verdade, a fim de que a pessoa passe a querer e a desejar até sensivelmente o que é bom.

    2 – As virtudes são essenciais para a construção pessoal

        Para conquistar as virtudes é preciso estar motivado por valores ou convicções que fortaleçam a vontade em direção ao bem. Nascem as virtudes de um querer livre, racional e pela prática habitual de atos contrários aos defeitos (não basta apenas um ato virtuoso para se criar um hábito estável). Por isso, se diz que as virtudes são racionais e conduzem progressivamente a uma maturidade maior, expressada por meio de uma afetividade equilibrada, relações humanas profundas e justas, um agir que busca sempre o moralmente bom… A pessoa virtuosa deseja agir bem, e se sente mal se não se comporta dessa maneira.

    3 – O crescimento humano exige respostas de amor

        “O que nos pode tornar felizes, senão a experiência do amor dado e recebido?”, disse Francisco, na audiência de 14-07-17. O crescimento humano acontece quando há respostas livres de amor e não pelo simples cumprimento de obrigações ou regras, pois estas engessam a pessoa. O amor dá forma de ser a cada virtude porque leva a lutar contra as imperfeições próprias e compreender os defeitos alheios, amando as pessoas não pelos resultados que se possam obter delas, mas pela dignidade que possuem por serem pessoas, e ajudando-as a serem melhores. Pode-se afirmar que todo desejo de melhora e toda tarefa formativa deve conduzir a um crescimento no amor e no serviço aos outros.

        Aprofundar na compreensão de quem somos, cultivar convicções firmes, ter a valentia de não se deixar levar pelo que faz a maioria, e saber explicar o motivo pelo qual se atua de um determinado modo, indica que não se vive de maneira frívola e negligente. Esse comportamento exerce um grande atrativo desde fora, principalmente se está unido ao modo de falar, à discrição ou pudor na maneira de se vestir e mover-se, no jeito de sorrir e de olhar… Todos esses aspectos externos denotam um rico mundo interior e a personalidade de quem os possui.

    4 – A importância das virtudes sociais

        As atividades solidárias ajudam a crescer no amor e sair do egoísta círculo do eu para dirigir o pensamento e as ações aos demais. Pode-se afirmar que parte da formação humana consiste em desenvolver as virtudes sociais, que são caminho para a fraternidade e a amizade. A magnanimidade, a preocupação pelos mais necessitados, o espírito de serviço, a dedicação de tempo aos outros e a escuta atenta são virtudes que fazem respeitar os modos de ser e de fazer diferente dos próprios, ensinam a proteger a liberdade das pessoas, tornam delicado o trato mútuo e fazem mais justas e humanas as relações entre os homens. Tais virtudes, unidas ao esforço pessoal por melhorar, transformam o ambiente familiar em remanso de paz e trazem solidariedade às relações profissionais e sociais.

        “Esse ambiente de amizade, que cada um está chamado a levar consigo, é o fruto da soma de muitos esforços por tornar a vida agradável para os outros. Ganhar mais afabilidade, alegria, paciência, otimismo, delicadeza e todas as virtudes que tornam a convivência amável é importante para que as pessoas possam se sentir acolhidas e felizes: uma palavra amena multiplica os amigos e acalma os inimigos, uma língua afável profere saudações (Eclo 6,5). A luta para melhorar o próprio caráter é condição necessária para que surjam mais facilmente relações de amizade. Por outro lado, certas maneiras de se expressar podem atrapalhar ou dificultar a criação de um ambiente de amizade. Por exemplo, ser categórico demais ao expressar a própria opinião, dando a impressão de que achamos que nossas colocações são as definitivas, ou não se interessar ativamente pelo que os outros dizem, são maneiras de agir que nos fecham em nós mesmos. Em algumas ocasiões, esses comportamentos manifestam uma incapacidade de distinguir o que é opinável daquilo que não é, ou a dificuldade para relativizar questões em que as soluções não são necessariamente únicas” Carta de Mons. Fernando Ocariz, de 01-11-2019

        As virtudes sociais ajudam a distinguir entre o essencial e o transitório ou passível de mudança nas relações entre as pessoas. Essas qualidades são necessárias para a paz social, pois tornam madura e solidária a personalidade de cada um, que passa a atuar com flexibilidade ao distinguir em cada momento entre o que não é essencial e o que o é, e neste último caso, sabendo manter uma delicada e respeitosa firmeza diante do que entende ser um valor permanente.

    5 – Alguns caminhos para motivar-se

        Há caminhos que ajudam a compreender a importância do aperfeiçoamento humano e a ajuda aos demais: a contemplação e o encantamento que oferece a arte e a beleza da natureza; o refletir sobre os clássicos da literatura e considerar a mensagem de fundo dos bons filmes; a vida de oração que leva a meditar no silêncio sobre si próprio e no bem que se pode fazer aos que mais necessitam; o estudo e aprofundamento acerca do comportamento humano que oferecem os bons manuais de antropologia… Esses aspectos, necessários para elevar a sensibilidade humana até o autenticamente bom e belo, são meios que fazem o espírito descobrir dimensões mais profundas da realidade, modelam a personalidade, iluminam a consciência e permitem dar respostas coerentes com as próprias convicções.

    Texto produzido por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Imagem de Anna Shvets.

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  • Vida boa ou boa vida?

    Vida boa ou boa vida?

    1 – O que é viver bem? 2 – Um projeto de serviço aos demais dá sentido à vida. 3 – Quais são os valores que regem a minha vida? 4 – Necessitamos de valores imitáveis. 5 – Contos e romances podem apresentar modelos de conduta.

    1 – O que é viver bem?

        Viver bem não se esgota na satisfação das necessidades básicas ou primárias, a que costumam chamar de “boa vida”: comer, beber, dormir, vestir-se, fazer compras… Contentar-se apenas com usufruir de pequenos prazeres pontuais como academias, passeios, vídeos, comidas, muito esporte, baladas, games, viagens, é transformar em finalidades o que deve ser apenas um meio para descansar a fim de retornar ao projeto maior com ânimo renovado. Aquietadas essas necessidades, se a vida de um homem não se dirige a um ideal maior – a uma vida boa –, ela se converte em algo sem sentido.

        A incapacidade de ultrapassar o puramente primário ou material faz com que haja forte crise de projetos vitais. Muitas pessoas não sabem por onde seguir porque faltam verdades ou valores a que se inspirar. A ausência de uma razão maior para viver retrai a ação, desmotiva e empequenece os projetos, que se tornam exíguos a ponto de não valer a pena se sacrificar por eles. Que sentido tem a vida para quem se vê apenas como uma realidade corporal a ser satisfeita biologicamente, e não espiritualmente? Os afetos e a sensibilidade corporal necessitam integrar-se ao espiritual para serem enriquecidos por uma interpretação superior, ofertada pela razão. Quem reduz a vida em agradar apenas a sua sensibilidade corporal, defrauda o seu corpo porque não o une ao seu espírito: a natureza humana integra corpo e alma em unidade inseparável. Quando a realidade espiritual não é alimentada, a pessoa ressente-se e pode acusar diversas formas de insatisfação interior ou psicológica.

    2 – Um projeto de serviço aos demais dá sentido à vida

        Ter projetos mais elevados impede reduzir a vida à busca de bens primários, pois estes uma vez satisfeitos reclamam por novos consumos, já que não preenchem a alma de felicidade. É preciso ter a capacidade de acolher a verdade até ficar fecundado por ela, gerando ações que podem transformar o mundo. Todos os grandes projetos ou realizações em prol da humanidade, seja no plano moral, artístico e científico, foram gestados na vida espiritual e na reflexão de grandes homens como Pasteur, Dante, Cervantes, Jérôme Legeune, Dostoievski, Shakespeare, Ampére, Thomas Edison…

        A experiência do silêncio e da reflexão criam o ambiente adequado para amadurecer o pensamento e desenvolver um projeto para o qual vale a pena gastar-se. Quem é profundo e não fica apenas nas impressões superficiais das mil imagens e notícias das telas digitais, acaba por penetrar nas questões que podem orientar a vida. Por exemplo, quando não se é indiferente aos que sofrem, quando não se trabalha apenas para si, mas também para diminuir as necessidades materiais e espirituais dos que sofrem, começa-se então a ter mais sentido a vida e os projetos se engrandecem. − Qual é a missão que me cabe, sem a qual a minha história perde sentido? Quando um grande ideal se apodera de alguém, vem a ser o motor de suas ações, pois a ele se voltam a inteligência, vontade e os afetos.

    3 – Quais são os valores que regem a minha vida?

        Antes de agir necessitamos aplicar alguns critérios prévios chamados valores ou referências para pautar a ação em direção à verdade e ao bem, fim natural da pessoa. A educação em boa parte consiste em transmitir modelos e valores de conduta, a fim de que cada um saiba por si mesmo fazer boas escolhas. Examinar sobre os valores que regem a própria vida é medida de prudência para não construir sobre o erro, que seria fatal e origem de fracassos. As mídias mostram exemplos não edificantes de alguns que se deixaram corromper porque adotaram como valores a fama, poder ou dinheiro… Muitos adolescentes, carentes de algo a oferecer, pretendem ser youtubers a qualquer preço porque julgam que a fama é sinal de felicidade. A pergunta sobre quais os valores ou modelos a adotar tem sentido porque determinam o caminho bom ou mau que se dá à própria vida.

         A reflexão sobre valores e modelos de conduta, a preocupação pelos mais necessitados; a contemplação da arte, da natureza, da boa música; o incentivo que a leitura das obras literárias clássicas oferece, ajudam a crescer no serviço aos demais porque elevam o espírito até dimensões mais profundas da realidade, e tecem um mundo interior rico e capaz de projetos que irradiem com intensidade a verdade e a beleza a tantos que carecem desses bens.

    4 – Necessitamos de valores imitáveis

        Os valores não podem ser teóricos, inexequíveis, mas representados por modelos a serem imitados, e com os quais podemos nos identificar e eleger, seja porque viveu ou vive uma vida cheia de significados pelos quais vale a pena se arriscar. Em tempos de crise de valores é possível encontrar pessoas que personifiquem um ideal de excelência humana, seja na própria família, na profissão ou nas relações sociais, porque a história delas está lastreada por fatos – virtudes! – edificantes.

    5 – Contos e romances podem apresentar modelos de conduta

        As narrativas – contos, romances, novelas, teatro, biografias… – têm influência enorme na vida humana porque geram condutas. Contar histórias sempre teve alcance maior do que discursos teóricos na configuração da vida de pessoas ou de um povo. A transmissão oral de contos feita pelos pais às crianças, a leitura de romances épicos, dramas e mesmo os bons filmes, são veículos de transmissão de valores e modelos de condutas. Porém, é necessário estar atento porque em nossos dias os grandes narradores são a TV, as redes sociais e a publicidade, que podem manipular por meio de histórias que apresentam modelos que não condizem com a verdade acerca da natureza humana, seja na conduta familiar, profissional, social ou de lazer.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado nos ensinamentos de Ricardo Yepes e Javier Aranguren Echevarria, no livro “Fundamentos de Antropologia – Um ideal de excelência humana”, editado pela Livraria e Instituto Raimundo Lúlio, São Paulo. Imagem de Asad Photo Maldíves

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  • Elegância e bom gosto

    Elegância e bom gosto

    1 – A beleza salvará o mundo. 2 – Bom gosto não é questão de dinheiro. 3 – Casa simples, limpa e ordenada. 4 – Elegância no vestir-se. 5 – O modo de se vestir reflete a personalidade. 6 – As roupas devem adequar-se a cada situação. 7 – A moda é para vestir e não despir

    1 – A beleza salvará o mundo

         Dostoievski disse que a beleza salvará o mundo, mas para os utilitaristas buscar o belo não parece ser útil, pois o importante para eles é a funcionalidade das coisas. Como prova de que a beleza anda de mãos dadas com o bem e a verdade, vale a pena assistir o vídeo “Por que a beleza importa?”, de Roger Scruton, no Youtube, onde o narrador mostra vários edifícios europeus abandonados devido à feiura deles, apesar de terem sido pensados para serem funcionais. O mal não é belo, mas incoerente. A natureza humana necessita do belo, que é um valor que traz harmonia e dignidade à pessoa e ao seu entorno.

    2 – Bom gosto não é questão de dinheiro

         Bom gosto e elegância não são qualidades arbitrárias ou de ostentação, mas de simplicidade e humildade ao admitir que em tudo deve haver harmonia, equilíbrio e proporção. Elegância e bom gosto não dependem de ser rico ou pobre, mas de saber escolher, pois há ambientes luxuosos e decorados com péssimo gosto, onde vários estilos se misturam e se chocam; e há ambientes simples, mas decorados com objetos bem escolhidos em brechós, e que imprimem um toque de harmonia e elegância ao local.

    3 – Casa simples, limpa e ordenada

         O bom gosto está nos pequenos detalhes que tornam amável a vida de família; está no cuidado com as pequenas coisas, está no afã de servir aos demais. Se cada membro da família − dos adultos às crianças − colabora para que o lar esteja limpo, ordenado e decorado com simplicidade e bom gosto, torna-se uma maravilha retornar para casa no final de cada dia. Faz parte do bom gosto cuidar dos pormenores da casa: consertar o quanto antes a fiação elétrica exposta, a torneira pingando, as tomadas soltas; trocar a vidraça quebrada; recuperar ou substituir os móveis com defeitos, manter nos armários os objetos que se usam no dia a dia; decorar o ambiente com vasos, flores e quadros… Na periferia das grandes cidades é possível ver desde fora casas simples com paredes externas rebocadas, sem umidade e pintadas; janelas com seus caixilhos de madeira também pintados, vasos de flores que ornamentam a entrada e demonstram que naquele lar há bom gosto e respeito pelos seus moradores… Aliás, tal visual incentiva a que os vizinhos façam o mesmo, pois a beleza é contagiante, difusiva.

    4 – Elegância no vestir-se

         Elegância e bom gosto devem estar presentes também no vestir-se, e para isso não é preciso gastar mais dinheiro, mas saber combinar as cores e os padrões dos tecidos (listrado, estampado ou liso). Revela elegância e harmonia utilizar uma das peças de cor escura (a calça, por exemplo), com outra (a camisa) de cor clara (ou vice e versa), sendo que ambas devem combinar os tons. Se a camisa é listrada ou com estampas, não utilizar uma jaqueta ou blazer também listrado, pois o visual com tantos riscos chega a embaralhar a vista e causará tontura ou labirintite a quem vê (o ideal será que uma das peças seja de estampa lisa). Uma roupa de tom azul dificilmente combinará com a de tom marrom; nem a de tom cinza combinará com o amarelo ou cenoura… A mesma roupa não deve ser utilizada por dois dias seguidos. Em geral, camisas, meias e peças de baixo devem ser usadas apenas uma vez por dia, e ser deixadas para lavar: utilizar por dias seguidos a mesma camisa encarde o colarinho e obriga a lavar com mais intensidade, desgastando rapidamente o tecido.

        Para aprender a combinar as cores, uma sugestão é observar as vitrines das lojas de roupas dos shoppings, onde o bom gosto de muitos vitrinistas sabe adequar os tons das indumentárias de seus manequins (bem, nem sempre…). Outra sugestão é pesquisar na internet sites como o www.vivadecora.com.br/pro/mistura-de-cores/, ou outros, que ajudam a combinar as cores não apenas das roupas, mas para qualquer ambiente da casa ou oficina.

    5 – O modo de se vestir reflete a personalidade

         A roupa revela aos demais o que somos e como somos; transmite o que queremos comunicar. Embora afirme-se que as aparências enganam, em muitas ocasiões elas transmitem verdades: podem revelar a profissão, idade, pulcritude, bom gosto, sensibilidade… Pode-se até fazer uma sutil alteração no conhecido refrão “Dize-me com quem andas, e te direi quem és”, para “Dize-me como andas e te direi quem és”. Há um equilíbrio profundo entre as roupas que se utiliza e a personalidade, pois a imagem externa de uma pessoa espelha a riqueza ou pobreza de seu interior: a mulher que deseja ser fatal procura mostrar “as armas da mulher”, e não se vestirá como a que quer ser apreciada pelo seu recato, elegância, distinção, cultura ou competência profissional. A anciã não se vestirá como uma jovem.

        Cada pessoa veste-se de acordo com seus ideais e aspirações. Um guarda-roupa revela se a pessoa sabe combinar as cores, se é dominada pela tendência do momento, ou se busca o equilíbrio entre beleza e funcionalidade. Para enfrentar o mercado de trabalho, as mulheres não necessitam masculinizar-se, pois o mundo laboral necessita de sua feminilidade, de sua atenção aos detalhes, dos modos empáticos e delicados de agir.

    6 – As roupas devem adequar-se a cada situação

         A roupa apropriada para cada ocasião torna atraente a pessoa, que se apresenta como alguém que respeita a si e aos demais, o que dá mais peso e credibilidade à sua personalidade, e ao que faz. A roupa tem uma dimensão social, e deve respeitar os valores que cada situação exige: ir ao casamento do amigo com agasalho esportivo ou com calça Jean revela que não se dá à ocasião a importância que ela tem, seja para o amigo ou para os demais convidados que se vestem elegantemente.

        Saber qual é a roupa apropriada para cada ocasião − passeio, trabalho, cerimônia social ou religiosa, esporte – demonstra sensibilidade. No lar, o estilo casual simples e elegante repercute na pessoa e no ambiente familiar (evitar andar de calção e sem camisa); no esporte, ao não usar roupas extravagantes para chamar a atenção e mostrar os detalhes anatômicos do corpo, indica que a pessoa é rica interiormente e não necessita evidenciar-se (ler o boletim Educar para o pudor). Na atividade profissional, a roupa revela bom gosto, respeito a si, ao ambiente, aos colegas de trabalho e aos clientes: trabalhar de jeans na área de apoio às redes de computadores está bem, mas não seria o ideal atender de jeans os clientes de uma agência bancária.

    7 – A moda é para vestir e não despir

         A moda não pode ser frívola, feita apenas para ser vista, porque trata-se de uma realidade cultural, moral e artística que reflete a história do momento e a personalidade dos que a criam e a dos que a adotam. A moda deve embelezar o corpo, mas sendo capaz de expressar a grandeza da alma: a dimensão e finalidade da moda pode ser lida em “La moda. ¿La conoces en toda su dimensión? (A moda: conhece-a em toda sua dimensão?), de Encarnita Ortega.

         Diz Sofia Carluccio, conhecida desenhista de moda no Uruguai, que alguns procuram conceber ou utilizar modelos chamativos, buscando atrair a atenção ao apelar para o recurso fácil do provocante. “Uma coisa que vejo muito claramente é que a moda é para vestir e não para despir: isso é como um “leit motiv”. Diz ela que na hora de desenhar não procura simplesmente que as pessoas estejam na moda, mas que combinem modéstia com elegância através de pequenos detalhes e acessórios. Cada peça de roupa é pensada até os mínimos detalhes.

    Texto elaborado por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Sugestão de leitura: “La moda: entre a ética y la estética”, de Ana Sanches de la Nieta Hernández, traduzido por Manuel Alves de Sá, Diel Editora, Lisboa, Portugal. Imagem de hissetmehurriyeti.

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  • Atribuir tarefas aos filhos

    Atribuir tarefas aos filhos

    1 – Os filhos não possuem só direitos, mas também obrigações. 2 – Tarefas e encargos fortalecem a vontade dos filhos. 3 – Não substituir os filhos naquilo que devem fazer

    1 – Os filhos não possuem só direitos, mas também obrigações

        Erro comum é exigir que os filhos sejam apenas bons estudantes. A formação acadêmica ou profissional é só um aspecto da educação integral da pessoa humana, que carece também da educação da vontade e dos sentimentos. Há jovens excelentes do ponto de vista escolar, mas não têm autodomínio e são vítimas de seus instintos, sentimentos, paixões e portadores de um temperamento e caráter de difícil convivência, seja na vida familiar, escolar ou social. Isso ocorre muitas vezes porque pouco foram exigidos a contrariar a vontade e os sentimentos para cumprir seus deveres. Os pais não devem ter medo de exigir dos filhos desde que são crianças, pois os hábitos (bons ou ruins) se conquistam nas primeiras idades. 

        Só o bom vinho melhora com o passar do tempo: se não há esforço por evoluir cada dia, piora-se. Os defeitos não combatidos crescem na proporção geométrica à passagem do tempo. É triste constatar que os anos discorrem e muitas crianças chegaram à adolescência ou juventude e continuam sendo preguiçosas, desordenadas, birrentas, comilonas, malcriadas e egoístas. Isso aconteceu porque os pais não souberam trabalhar os aspectos negativos do caráter e do temperamento delas, e enganaram-se com o falso o raciocínio de que melhorariam com o decorrer tempo.

        Por que os filhos não são exigidos? Talvez por alguma das seguintes condutas: medo de perder o carinho deles (comum em pais que passam o dia fora); por admitir modelos liberais de comportamento impostos pelos meios de comunicação; por influência de correntes psicológicas que insistem em não contrariar as crianças para não provocar traumas; e por desconhecer que todos trazemos dentro um princípio inato de desordem ou lei de menor esforço. Evitar trabalhos aos filhos porque não pediram para nascer é profundo erro de apreciação antropológica, já que ninguém pediu para nascer, pois é Deus quem infunde a alma espiritual, racional e livre; além disso todos agradecemos o dom da vida, que sendo assumido traz responsabilidades.

    2 – Tarefas e encargos fortalecem a vontade dos filhos

        Trata-se de um direito e um dever dos pais exigir, porque as crianças não têm critérios nem experiência de vida e necessitam de orientação para agir bem, pois caso contrário serão capazes de passar um dia inteiro diante de uma TV ou deixando bagunçada a sala onde brincaram, além de não estabelecer para si horários a cumprir. Condoer-se e não exigir a que cumpram as tarefas ou − o que é pior − fazer as coisas por elas, transforma-as em pessoas acomodadas, fracas de vontade e acostumadas a que os outros cumpram as suas obrigações. Sábio é o provérbio sobre esse tipo de comportamento: “Com churros não se faz alavanca!”, pois logo serão adolescentes e jovens egoístas e metidos exclusivamente em seus interesses pessoais, e pouco importando-se em ajudar aos demais.  

        Os filhos não são portadores unicamente de direitos, mas possuidores também de deveres filiais, fraternais e sociais (amigos, vizinhos, professores…). Devem contribuir para o bem-estar de todos na casa. Os encargos, que podem ser muito variados, são as tarefas atribuídas a cada membro da família e aceitos livremente como contribuição ao bem-estar de todos. Cada tarefa é parte de um trabalho maior que deve ser alcançado em conjunto com os demais membros da família, e que dependerá dos costumes de cada lar, da idade, caráter e capacidade de cada um. Há pais que se reúnem com os filhos, desde o maior até o menor, e de modo alegre e descontraído fazem juntos uma lista com sugestões para deixar a casa ordenada e com horários estabelecidos: enxugar o banheiro, colocar os pratos e talheres na mesa, varrer e lavar pratos e talheres, levar o lixo para o portão; ordenar os quartos, sala e objetos pessoais; alimentar o cachorro e limpar a sujeira que faz; ir à padaria ou supermercado, fazer os consertos materiais na casa… Após concluir a lista de encargos, pais e filhos escolhem as tarefas que julgam desempenhar melhor. E estabelecem horários para as refeições, ligar e desligar a TV, ler, estudar, dormir, acordar… Permitir que os filhos adiem as tarefas e que passem o tempo em redes sociais, jogos e vídeos, é autorizá-los a que sejam preguiçosos e irresponsáveis. Devem primeiro cumprir o que os pais pedem, e só depois serem autorizados a fazer o que querem: − Não poderá ir jogar futebol enquanto não recolher os pratos e arrumar a mesa do jantar.

        Ter encargos no lar desde criança fortalece a vontade, faz crescer o sentido de responsabilidade, aumenta o espírito de solidariedade e a preocupação pelos demais. E para fortalecer a vontade não há outro tratamento senão o de exigir o cumprimento das tarefas e dos horários: estar pontualmente nas refeições e demais compromissos; ter horário para dormir, acordar, banhar-se, vestir-se por conta própria, guardar as roupas, brincar, estudar, não ir à geladeira fora de hora, ordenar os brinquedos após usá-los… Essas ações criam hábitos estáveis que fortalecem a vontade e o caráter, além de ajudar a dominar o temperamento.   

    3 – Não substituir os filhos naquilo que devem fazer

        O filho que se vê substituído nos esforços que deve realizar tem a vontade e o caráter enfraquecidos, não cresce em autonomia e na capacidade de resolver as coisas por conta própria. O paternalismo ou a superproteção evita os esforços que os filhos, desde criança, necessitam empreender, e os habitua a que os outros sempre façam as coisas por eles. É importante que os filhos − do menor ao maior − tenham encargos no lar, adaptados à idade e à capacidades de cada um. Não esperar que se tornem ingovernáveis para iniciar o processo educativo e exigir que sejam solidários e se preocupem com os demais. Adolescentes que não estudam, não cumprem os encargos familiares; que são desordenados, passivos e desobedientes, revelam que seus pais não souberam exigir desde a primeira infância; agora, na adolescência, erradicar defeitos cristalizados exigirá luta maior.

        Não se deve impedir nem substituir a criança pequena de cumprir qualquer tarefa que tenha capacidade de fazê-la, mesmo que no começo não a faça com perfeição e exija paciente e bem-humorado treinamento. Ao realizar a tarefa incumbida, a criança a executará com a alegria de estar praticando um jogo, ganhará autodomínio, independência, espírito de serviço e preocupação pelos demais.

        No âmbito familiar, o mais conveniente – e a meta a ser atingida – é que a ajuda prestada por cada membro seja ditada pelo amor e sentido de responsabilidade, e não porque será cobrada a execução da tarefa. Veja no link a seguir diversos vídeos onde mães oferecem dicas preciosas de tarefas que podem ser atribuídas aos filhos desde criança: https://staging.ariesteves.com.br/tarefas-para-criancas/

    Produzido por Ari Esteves (staging.ariesteves.com.br/)

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  • Trabalhar bem

    Trabalhar bem

    1 – O trabalho é educativo. 2 – Condições para o trabalho ser bem realizado. 3 – Trabalho e virtudes. 4 – Ambição profissional. 5 – Ensinar os filhos a trabalharem bem. 6 – Para quem trabalha em casa (home office).

    1 – O trabalho é educativo

         O trabalho é a nossa vinculação com o mundo: “O que você faz?” é pergunta que já nos fizeram e que fizemos a outras pessoas. Todos esperam uma resposta para esse enigma, e após elucidado, vem o sorriso e a expressão: “Ah, que bom”. Seja qual for o trabalho, sempre haverá um “Ah, que bom”, como compreensão de que é por meio dele que cada pessoa se autorrealiza, cresce em virtudes e colabora para com o bem-comum. O trabalho, como escola de virtudes, é um meio educativo por excelência. Aprende-se a trabalhar desde criança ao cumprir os pequenos deveres de cada dia na vida familiar, escolar e social. Um erro de muitos pais é realizar as tarefas que cabem aos filhos executá-las, o que torna fraca a vontade destes, que devem ser exigidos em muitos aspectos: levantar e deitar-se na hora, estudar o tempo previsto, cumprir encargos no lar… Mais do que nunca é preciso ajudar as crianças, adolescente e jovens a crescer em energia interior por meio do cumprimento das obrigações que lhes cabem, pois será o exercício para enfrentar as dificuldades e os desafios que a vida lhes trará.

    2 – Condições para o trabalho ser bem realizado

         “Faz o que deves e está no que fazes” (livro Caminho, n. 815) é o primeiro passo para um trabalho bem realizado, pois leva a cumprir o dever de cada momento. “Faz o que deves” significa que não se trata apenas de ocupar o tempo ao fazer qualquer tarefa, mas executar o que deve ser feito em cada momento: fugir disso é ser irresponsável e deixar-se levar pela preguiça ou comodismo. A todos convém fazer um rápido exame sobre o que é mais importante realizar em cada momento, para não se deixar levar pelo capricho. “Faz o que deves” exige o exercício da virtude da prudência para avaliar o que deve ser feito, e da virtude da fortaleza para fazê-lo sem atrasos. “Está no que fazes” é a segunda exigência do trabalho bem-feito: trata-se de colocar os cinco sentidos na tarefa que se tem entre mãos, sem permitir as distrações ou fugas da imaginação e da memória.

         Há quem pensa trabalhar bem porque é perfeccionista. Porém, isso é um vício ou defeito de buscar como finalidade a perfeição pela perfeição, a complacência vã naquilo que faz, ou só o resultado externo do trabalho (sua intenção muitas vezes é a vangloria). Este defeito revela que se perdeu a visão de conjunto e o sentido de prudência, que ensina ser “o ótimo inimigo do bom”, pois não se pode dedicar a uma tarefa maior tempo do que o necessário, a fim de não deixar de atender prioridades mais importantes.

    3 – Trabalho e virtudes

         Um ato e outro formam um hábito, uma inclinação, uma facilidade, e com isso se ganha a virtude correspondente e se fortalece a vontade. Todos os homens necessitam lutar para adquirir hábitos operativos que facilitem viver de acordo com critérios éticos de conduta. Para alcançar o hábito ou a virtude da laboriosidade é preciso realizar bem as pequenas tarefas de cada dia, e ajudar os filhos a fazê-lo também: fechar uma porta sem bater, guardar os objetos que foram utilizados para realizar determinada tarefa, deixar em ordem as coisas pessoais, cuidar dos pormenores de ordem e pontualidade para começar e terminar as coisas no tempo previsto, planejar as tarefas com antecedência e não deixá-las para o último momento (a afobação costuma ser motivo de marretagens).

         Trabalhar bem não é questão de temperamento, mas de esforço pessoal, de aquisição de virtudes. Qualquer atividade profissional honesta é campo para o exercício de todas as virtudes humanas, que crescem com o desenvolver das tarefas: prudência para avaliar todas as questões envolvidas e iniciar pelo mais importante, ordem para aproveitar bem o tempo, fortaleza para perseverar e concluir o trabalho iniciado, temperança ao vencer o comodismo de fazer paradas inecessárias para curiosear na internet, paciência quando as coisas não saem como planejadas…. A laboriosidade e a diligência são duas virtudes que se unem para trabalhar bem: o laborioso aproveita o tempo, faz o que deve e está naquilo que faz; o diligente, do verbo latino diligo, que significa amar, trabalha com amor, com cuidado.

    4 – Ambição profissional

         Ambição é o desejo de conquistar algo, movido mais pela emoção ou coração do que pela razão. Quem não tem ambição deixa de assumir os riscos de uma conquista e acomoda-se na zona de conforto. Há quem julga ser os ambiciosos pessoas gananciosas que buscam objetivos egoístas (geralmente dinheiro, poder…), e podem até pisar nos outros para alcançar o que querem, o que não deixa de ser distorção da reta ambição. Podemos entender o termo ambição como o desejo de dar mais de si, de desenvolver as capacidades inatas para melhor servir aos demais, de conhecer bem o trabalho que lhe cabe realizar. Para dar um exemplo, se um oftalmologista ou um alfaiate não ambicionasse novos conhecimentos, ficariam acomodados no tempo, com técnicas ultrapassadas e sem capacidade para oferecer um bom serviço: quem iria a um oftalmologista que desconhecesse as novas técnicas, e cujos aparelhos fossem ultrapassados? Quem voltaria a um alfaiate que não soubesse as novas tendências ou estilos, e forçasse o cliente a fazer um terno fora de moda? Uma pessoa sem entusiasmo pelo que faz não ambiciona chegar a mais longe e faz o mínimo indispensável: “É preciso adquirir toda a ciência humana que sua capacidade lhe permita adquirir… e tereis retratado o caráter dos apóstolos de hoje, tais como indubitavelmente Deus os quer” (Caminho 857). Há certas coisas que as pessoas nos irão cobrar, e com justiça, porque fazem parte da profissão ou ofício que abraçamos.

         Distinguir o tempo dedicado à informação em noticiários e blogues, daquele dedicado à formação por meio de livros, artigos, vídeos… Quem tem o cuidado de traçar planos de formação para os próximos meses e anos, evitará que o tempo se esvaia em curiosidades que levarão à mediocridade profissional. Para se aperfeiçoar continuamente pode-se dedicar alguns minutos diários, aproveitar os fins de semana e os tempos de transportes públicos ou de salas de espera para estudar os temas relacionados à profissão. O relativismo e a busca pela vida cômoda, que avassalam a sociedade atual, afetam o desejo e a alegria de servir aos demais com as qualidades pessoais: a falta de convicções ocorre porque já não há verdades ou grandes valores a se inspirar.

    5 – Ensinar os filhos a trabalharem bem

         Para que os filhos desenvolvam uma personalidade rica e resistam às influências negativas do ambiente, e a tendência natural de perder o tempo em redes sociais, é necessário estimulá-los a esforçar-se diariamente para cumprir as obrigações que lhes cabem. Ao atribuir encargos, e exigir de forma cordial e amável para que os cumpram, os pais fortalecem a vontade dos filhos para abraçar os grandes ideais da vida, que sempre custam esforço.

         Muitos adolescentes e jovens crescem em ambientes permissivos, de pouca exigência, e acomodam-se a ponto de sempre esperar que outros resolvam seus encargos. Toda pessoa necessita esforçar-se seriamente, se deseja construir algo valioso. Desde as primeiras idades da vida vai se configurando o caráter e a capacidade de aprender a esforçar-se. Pais que privam os filhos da oportunidade de se sacrificarem, de renunciar caprichos, para evitar que sofram como eles, pais, sofreram, estão transformando seus rebentos em molengões e fracos de caráter: diz o provérbio que “com churros não se faz alavanca”. Mais do que proteger os filhos para que não sofram, trata-se de sofrer junto com eles, de acompanhá-los e de ajudar a que superem a má vontade diante de uma renúncia a realizar. O melhor período para que os filhos aprendam a se superar vai do zero aos doze anos de idade, por meio do cumprimento de encargos familiares adequados à idade de cada um, de ter horário para estudar e realizar as tarefas escolares, de se sacrificar e ser solidário para ajudar os amigos…

         O exemplo dos pais é importante: os filhos admiram o pai ou a mãe a quem nunca viram reclamar dos sofrimentos que suportou, e passam a imitá-lo. Já um pai ou uma mãe que se queixa dos trabalhos e esforços que faz, cria filhos ansiosos, fracos e inseguros. Por isso, é preciso valorizar as pequenas vitórias de cada filho com um sorriso ou elogio, seja porque soube esperar e não comeu fora de hora, porque aguentou sem reclamar a sede durante um passeio, porque dobrou e guardou as próprias roupas ou colocou os jogos e brinquedos nas caixas e prateleiras correspondentes…

         A vida cotidiana oferece muitas oportunidades para que cada filho se exercite na fortaleza: resistir ao impulso de realizar um capricho, saber suportar uma dor ou enxaqueca sem reclamar, superar o desgosto porque algo saiu não como o esperado, dominar o cansaço com um sorriso, terminar as tarefas da escola e cumprir o tempo de estudo previsto antes de sair para jogar ou brincar, realizar os deveres domésticos que estão ao seu encargo… O filho que desde pequeno aprendeu a fazer as coisas sem se queixar será valente, decidido e sem medos bobos e infundados (medo do escuro e de dormir sozinhos, por exemplo). Ao crescer com personalidade, não se envergonhará por não possuir tênis caros ou a mochila da moda; terá peito para dizer aos amigos que combinou chegar cedo em casa; não receará fracassar em algo porque aprendeu a transformar as derrotas em experiências para sair fortalecido. Não se trata de empurrar os filhos para que sejam temerários ou imprudentes, mas de ajudá-los a se arriscar sem receio de errar ou fazer feio. Os filhos devem ser capazes de empreender ações que levem consigo um esforço prolongado: é melhor ter encargos diários do que reservar um único dia para cumprir muitas tarefas de uma só vez. Só assim serão capazes de comprometer-se com ideais valiosos. Certo pai, que conheci, disse aos seus onze filhos que não poderia pagar uma faculdade particular para cada um, e que teriam de se preparar para entrar em universidades públicas: todos entraram!

    6 – Para quem trabalha em casa (home office)

         Para trabalhar bem no ambiente doméstico (home office) é necessário estabelecer um horário para iniciar e terminar as atividades, combinando com o outro cônjuge esses horários em função das refeições: começar cedo para acabar antes, tal como se estivesse na empresa, a fim de ter tempo para se dedicar à família. Vestir-se de acordo faz parte da personalidade e do estilo de um bom profissional: a elegância tem a ver com saber eleger o mais adequado para cada ocasião. Ter organizado o espaço de trabalho com móveis adequados e boa iluminação. Silenciar as notificações das redes sociais, se não forem imprescindíveis para o trabalho, fará render o tempo. Avisar com antecedência a família para fazer mais silêncio, quando for necessário realizar uma chamada de videoconferência, e esforçar-se em aprender a utilizar um novo aplicativo que facilitará a realização das tarefas. Aproveitar as pausas naturais do trabalho para estar com as crianças, e não se esquecer de oferecer a Deus cada tarefa, a fim de transformá-la em oração e oferenda grata a Ele: com isso, uma hora de trabalho se transformará em uma hora de oração!

    Produzido por Ari Esteves. Imagem de Katerina Holmes

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  • O cinema e seu valor formativo

    O cinema e seu valor formativo

    1 – O cinema como meio educativo. 2 – Pais em sintonia com o mundo subjetivo dos filhos. 3 – Contar com as emoções no processo educativo. 4 – As cenas de um filme podem motivar um jovem.

    1 – O cinema como meio educativo

         Em nossa época, onde impera a cultura da emoção e da imagem, o cinema é um grande recurso para a educação dos sentimentos. Suas cenas, que muitas vezes tocam os afetos ao abordar aspectos essenciais da vida humana, ajudam a refletir como cada um conduz a própria vida. A afetividade, onde residem sentimentos, emoções e paixões, não deve ser ignorada no processo educativo de adolescentes e jovens. Cabe aos pais e educadores contemplá-la e utilizá-la como porta de entrada para a compreensão da alma juvenil e seu universo atual, valendo-se do cinema como metodologia simples e acessível.

         Os sentimentos estabelecem uma ponte entre o que se conhece intelectualmente e o que a vontade decide executar. Por vezes, não basta concluir que algo deva ser executado para que a vontade queira fazê-lo ou colocar a mão na massa. Para essa realização cumpre papel importante a motivação dos sentimentos. Isso não significa que devemos fazer as coisas apenas quando os sentimentos nos motivam, pois às vezes é necessário agir contra eles. Por exemplo, quando Madre Tereza de Calcutá recolhia da sarjeta um moribundo cheio de pústulas e malcheiroso, talvez seus sentimentos fossem de repelência, mas ela o acolhia e levava-o para tratá-lo em sua casa de caridade. Porém, os sentimentos cumprem um papel muito importante, principalmente na vida dos jovens: imaginemos um rapaz que se emociona ao ver deslizar pelos céus um avião, e decide ser aviador. Tendo as condições físicas e intelectuais para essa profissão, porá os meios para continuar seus estudos no ensino médio, encontrará um trabalho durante o período da tarde para pagar a escola de aviador, que cursará à noite, a fim de tirar o brevê de piloto. O sacrifício desse jovem faz é grande, e haverá dias em que sua vontade será a de não ir à escola de pilotagem. Porém, seu forte sentimento, que se reacende cada vez que se imagina pilotando um avião, o faz superar a má vontade e ir à escola.

         Não seríamos humanos se desprezássemos o papel facilitador dos sentimentos para que o querer da vontade execute algo. Como diz Pablo Blasco, no artigo abaixo citado, “os sentimentos revestem o conhecimento [intelectual, por suposto] com uma roupagem pessoal que facilita o querer – a execução –, porque são bases da motivação. Uma coisa são as ideias e os conceitos, outra é como as ideias me atingem, e qual é o sabor que elas têm para o meu paladar afetivo. É no âmbito afetivo onde o personalismo se impõe como condição eficaz de aprendizado e de assimilação de atitudes”. Um mesmo fato atinge de modo diferente a cada pessoa, e isso é motivado pelos sentimentos.

         Os sentimentos não podem modificar os conceitos matemáticos, mas podem promover atitudes, estimular alguém a estudar essa ciência pela paixão que sente por ela; também podem encorajar condutas éticas não motivadas pela leitura de livros de moral, mas ao ver a cena de um filme em que a personagem não aceita, por exemplo, ser subornada para trair alguém. Nesse sentido, ensina Pablo Blasco, os sentimentos são como o tempero que facilita a ingestão do alimento, conferindo a ele um toque especial e personalíssimo que faz do comer algo que vai muito além da simples nutrição.

    2 – Pais em sintonia com o mundo subjetivo dos filhos

         A educação da afetividade requer um toque de arte por parte do educador, que deve entrar em sintonia com o mundo subjetivo do educando, e adaptar-se às necessidades e ao paladar deste, como um tempero que conquiste e estimule a vontade para realizar algo. Nesse sentido o cinema, ao provocar a afetividade, dará um toque especial ou sabor aos conhecimentos e conceitos, tornando mais acessível a sua busca (ou até repelindo-os). As cenas levam à reflexão quando são verdadeiramente questionadoras. Pablo Blasco comenta que no filme “O resgate do soldado Ryan”, com Tom Hanks, vê-se a passagem em que o capitão está morrendo e o soldado Ryan inclina-se sobre ele, e ouve do oficial estas palavras: “James, faça por merecer”. Quarenta anos depois, James Ryan visita o cemitério onde está enterrado o capitão, e acompanhado da esposa, filhos e netos, olha para o túmulo e diz: “Todos os dias penso no que você me disse naquele dia, na ponte. Procurei viver a minha vida do melhor modo possível. Espero que, pelo menos diante dos seus olhos, eu tenha ganhado o que todos vocês fizeram por mim”, e em seguida, dirige o olhar à esposa e indaga: “Diga que a minha vida prestou para algo, que tive uma vida digna”. Esse é o currículo de James Ryan: ter formado uma família, educado seus filhos e levado uma vida honesta e sacrificada. O capitão, que na vida civil era professor, educou Ryan com o exemplo de sua vida e com a frase “faça por merecer”. Quem assiste essa cena é levado a se perguntar se o sentido que está dando à sua vida é magnânimo ou mesquinho.

         Nem tudo se aprende por argumentação e raciocínio lógico, mas também pela percepção dos sentimentos, que alavancam o processo de educar. Afirma Pablo Blasco que nas culturas antigas o meio principal para a educação moral era contar histórias por meio de artes como teatro, literatura e ópera, que possuem o papel de suprir as experiências que nem todos podem vivenciar durante a vida. Ao fornecer essas experiências – “escarmentar em cabeça alheia”, diz o ditado popular –, por meio de cenas, o cinema permite penetrar até o nível moral e pessoal. Ao ter por trás um excelente roteiro, os bons filmes se distanciam infinitamente das epidérmicas e velozes imagens que se consomem diariamente nas redes sociais, e que só trazem a dissipação do espírito e impedem a reflexão sobre si mesmo para agir como um sujeito moral.

         Um bom filme pode oferecer a quem o assiste a experiência fecunda de eleger para suas ações o ato virtuoso. Tanto o cinema como a literatura podem unir imaginação, sentimentos e ideias à realidade de uma experiência como se fosse vivida pessoalmente, que é modo excelente para a compreensão profunda da qualidade do agir virtuoso. “Sem a arte narrativa –e aí se enquadra o cinema– o ser humano teria que contar tão só com suas próprias experiências, o que significa que se veria obrigado a aprender tudo desde o princípio. Sem conhecer a Odisseia, o homem não saberia nada da fidelidade de Penélope; sem Shakespeare ignoraria as dúvidas de Hamlet, o amor de Romeu por Julieta. Sem Dom Quixote, teríamos que descobrir por conta própria a diferença entre ver o mundo como é e vê-lo como deveria ser” (Krzysztof Zanussi, filósofo e cineasta polonês).

         Assistir a um filme bem selecionado deixa de ser apenas um simples passatempo ou divertimento, porque as cenas vitais provocam sentimentos – alegria, entusiasmo, aprovação, rechaço, condenação –, que podem configurar condutas. Pablo Blasco afirma que “a tragédia grega provocava a catarse, entendida em duplo sentido: primeiro, imediato, como a liberação dos sentimentos, como uma limpeza orgânica, como um purgante; o segundo, muito importante, é que mediante a catarse colocam-se no seu lugar todos esses sentimentos acumulados – emoções – que não poucas vezes se armazenam de modo desordenado”.

    3 – Contar com as emoções no processo educativo

         As emoções podem ser contempladas no processo educativo. Não basta vê-las passivamente, mas é preciso dar vazão e permitir que as emoções possam cumprir o seu papel no desejo de aprender e de motivar o estudante. Assim, será mais fácil envolver a racionalidade e fundamentar conceitos. O educador que permite, no espaço formativo, o fluir das emoções através da discussão, da partilha de sentimentos, abre caminho para uma verdadeira reconstrução da afetividade. Esse processo requer tato, habilidade; requer evitar precipitações para promover um aprendizado que respeite o ritmo quase fisiológico da emotividade. Não se pode obrigar ninguém a sentir o que não sente. Pode-se simplesmente mostrar. O tempo e a reflexão sobre as emoções se encarregarão de aprimorar o paladar afetivo.

         A educação através da estética não é superficial. Ao atingir as emoções e a sensibilidade, não se deseja ancorar na emotividade os valores e modelos de conduta, mas suscitar uma reflexão sobre esses mesmos valores e atitudes. Ensina Pablo Blasco que se pode conquistar uma habilidade técnica sem nada sentir e sem refletir muito sobre ela. Porém, é mais difícil adquirir valores, progredir nas virtudes e incorporar condutas sem um processo prévio de reflexão. O desencadear da reflexão é facilitado pela estética, pela arte do cinema – “a beleza salvará o mundo”, disse Dostoievski –, que sensibiliza e incentiva para aprendizados racionais de modo personalizado e por meio de cenas que ofertem uma representação do mundo concreta, dinâmica, sensitiva e emotiva. Tais cenas conduzirão à fundamentação racional, buscada com entusiasmo e emoção, e como porta de entrada para que o jovem faça posteriores construções.

         Pablo diz que as respostas racionais representadas pelo “estou de acordo” ou “discordo” serão substituídas por respostas emotivas suscitadas pela imagem: “gosto” ou “não gosto”, onde existe uma aceitação ou rejeição visceral, de impacto, sem participação do racional. Com isto não se pretende, em absoluto, dispensar a necessidade do raciocínio e conceitos para a construção do aprendizado. Apenas afirma-se que dificilmente um jovem aceitará raciocínios lógicos se a emoção não lhe facilita o caminho. Ao passar antes pelas emoções, porque é assim que hoje os jovens estão habituados a proceder, abre-se a porta de entrada para posteriores construções lógicas. Santo Agostinho diz que “Naquilo que se ama, ou não se sente a dificuldade ou se ama a própria dificuldade”. Ou seja, quando se põe o coração – leia-se sentimentos – os trabalhos nunca serão tão penosos, e torna-se mais fácil suportar a carga e manter a alegria durante o esforço.

         Diz Pablo Blasco, que “o cinema pode exprimir o que a racionalidade levaria muito tempo para explicitar e acabaria resultando até enfadonho. Um comentário de uma conhecida professora e mãe de família, a respeito do filme King Kong: – Esse é o homem que toda mulher gostaria de ter ao lado!Mas como um homem?! – exclamo eu – estamos falando de um gorila! E ela continua sorrindo: – Engano seu, meu caro: ele luta por ela, defende-a, se bate, e se deixa ferir… E aprende dela a delicadeza, os modos, a poesia. E quer somente a ela. As outras mulheres que lhe apresentam ele as descarta. Surpreso pelo comentário, lembrei-me do pensamento de um filósofo que diz: Nada imuniza tanto o homem [que pertence] do universo das mulheres, como o amor apaixonado por uma delas. E, em outra ocasião, quando comenta a mulher muda o ambiente e o homem tal como o clima trabalha os vegetais sem fazer aparentemente nada, formando-o à sua imagem e semelhança”.

    4 – As cenas de um filme podem motivar um jovem

         A educação pelo cinema arranca desejos profundos do jovem, e motiva-o para grandes sonhos e novos desafios. No filme “O Último Samurai”, durante um congresso, Pablo Blasco teve a experiência, após apresentar as cenas em que homens medievais valentes, e em atitude de serviço (servir parece ser a missão deles), enfrentavam as modernas metralhadoras com coragem e espada. Sim, caiam mortos, mas arrancando do inimigo o reconhecimento, a veneração e até a vitória moral. Diz Pablo que “Esse é o modo de promover novos Samurais, mesmo com tecnologia moderna, entre os jovens soldados que ficam atônitos vendo a valentia daqueles no combate”. Quando acabou a conferência, um jovem veio à frente, segurou o braço do conferencista e disse com os olhos brilhando: “Professor, eu quero ser um Samurai!”.

          A um pai ou educador que pergunta “E se o jovem não concluir o que eu gostaria que ele concluísse?”, cabe afirmar que devem levantar a lebre. “Não adianta – diz Pablo – colocar rolha num vulcão, porque antes ou depois explodirá. O que melhor se pode fazer é promover a reflexão para que o jovem se vá construindo. Algo muito próximo ao que o macaco Rafiki fez com Simba, no filme O Rei Leão, onde Simba, na boa vida, não queria assumir a realidade de que se tornara um leão adulto. O macaco interroga-o e pergunta: – Quem é você? Tal pergunta faz virar ao avesso o confortável Hakuna Matata, em que Simba vivia, para trazê-lo à realidade” E conclui, Pablo: “Não são as respostas as que devem vir prontas, fabricadas, mas sim as perguntas, a modo de provocações que o professor, o pai, ou formador devem continuar, e serenamente dirigir ao seu interlocutor. A ficha tem de cair por si só – para utilizar uma linguagem corrente. E, nesta empreitada de provocar reflexões, o cinema é um prato cheio, uma oportunidade excelente”.

    Sugerimos visitar o site https://pablogonzalezblasco.com.br/category/filmes/, onde há comentários de vários filmes que poderão ser assistidos e comentados em família.

    Texto de Ari Esteves, adaptado da entrevista do médico e humanista Pablo González Blasco, à Revista “Ser família”, edição 3, 2007.

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  • Educar na liberdade

    Educar na liberdade

    1 – Cada pessoa deve escolher seu próprio caminho. 2 – O bom uso da liberdade. 3 – Correr o risco da liberdade dos filhos. 4 – A virtude faz utilizar bem a liberdade. 5 – Confiança no educador. 6 – Autonomia e liberdade versus superproteção e autoritarismos.

    1 – Cada pessoa deve escolher seu próprio caminho

        A liberdade é uma das marcas que definem a pessoa humana, e que permite ao homem alcançar sua máxima grandeza, ou degradação quando é mal utilizada. A realização da liberdade consiste no conjunto de decisões que vão delineando a própria vida e configurando a biografia e identidade pessoais. Cada pessoa escolhe o seu caminho a trilhar, e isso se chama projeto vital. Instalado no tempo presente, o homem olha para o futuro, a fim de ver aonde quer chegar, e mediante decisões tomadas no seu hoje escolhe a carreira profissional com a qual pretende servir melhor aos outros, prepara-se para ingressar no curso ou faculdade que pretende fazer, procura um posto de trabalho, decide-se casar e montar uma família, opta por alguma atividades social para ajudar pessoas necessitadas, seleciona os livros culturais com o qual enriquecerá sua inteligência e seu coração… São escolhas que precisam ser colocadas em prática no presente, pois não basta a espontaneidade e o ir tocando a vida para que a liberdade seja bem empregada e tudo dê certo: viver é idealizar projetos e levá-los a termo; é ter uma meta, uma direção, pois sem isso a liberdade se torna irrelevante e a vida tenderá a ser mesquinha (qualquer projeto magnânimo exige a tomada de decisões).

        O ser humano pode aspirar a realizações para as quais se vê dotado, mesmo que isso suponha sacrifícios ou riscos, que estão presentes em todos os projetos que valem a pena. Caso contrário, a liberdade ficará restrita à escolha da roupa para ir à festa, o esporte a praticar no fim de semana, o game com o qual matará o tempo… Se não há um fim alto e atraente, um projeto para o qual vale a pena sacrificar-se, a vida se reduzirá ao trivial e a pessoa se empobrecerá vitalmente. A meta alta a que uma pessoa se propõe se chama ideal.

    2 – O bom uso da liberdade

        Toda forma de crescimento humano e espiritual apela para a liberdade, pois sem ela não há educação, mas adestramento, domesticação ou imposição, que é para animais. A liberdade exige um querer pessoal, não manipulado pelos outros, pois se apoia sobretudo no exercício da vontade. A tarefa formativa consiste em oferecer os conhecimentos intelectuais e morais para que cada pessoa possa querer e agir por vontade própria: não se obriga um filho a estudar, mas se oferece os elementos para que ele decida livremente e com entusiasmo a fazê-lo. Ou seja, é necessário ajudar a pessoa a desejar receber educação, para processá-la intelectualmente e assumir o aprendizado como algo próprio, pois ninguém pode ser forçado a empreender um caminho que não quer: quem chegasse ao absurdo de amarrar o filho em uma cadeira, e o obrigasse a ler um livro colocado diante dele, não conseguiria fazê-lo estudar, se não o quisesse, pois se a vontade do garoto não é estudar, sua mente e imaginação irão para outros lugares.

        Muitos jovens consomem suas horas com músicas, games e vídeos, e não percebem que estão utilizando muito mal o tempo que dispõem e a própria liberdade. Fogem de fazer para si perguntas vitais sobre qual profissão escolher, que escola pretende cursar, quais as disciplinas que deve estudar para se preparar o ENEM, FUVEST ou outras provas… Adiam pensar nesses temas e tapam os ouvidos e a consciência com os fones de ouvidos e imagens de celular. Quando chegar o vestibular não terão tempo de estudar o suficiente, serão reprovados e irão reclamar da sorte e dos professores que tiveram. Educar para a liberdade é ajudar a que os filhos se perguntem sobre o que é uma vida sensata, e caso não saibam responder a isso, é sinal que estão deixando que o acaso resolva suas vidas, ou que outras pessoas decidam por eles.

        Para evitar o mau uso da liberdade, é importante iluminar a inteligência de cada filho, inflamar a vontade dele e fortalecer o seu coração com conselhos e orientações devidos, para que tome a decisão de assumir o que deve ser feito. Fomentar o protagonismo de cada filho começa desde as primeiras idades ao deixar que faça suas escolhas: ir ao parque ou ao shopping? Se decidiu pelo parque, e estando ali pretende mudar de plano e ir para o shopping, os pais devem fazê-lo compreender que deve assumir as consequências da escolha, e que o shopping ficará para a próxima semana. Se o garoto diz que pretende ser jogador de futebol, mais do que lhe dizer um não gordo e rotundo, deve ser ajudado a ponderar nas consequências dessa escolha, e já no presente fazer uma avaliação séria dos talentos e qualidades que possui para essa prática esportiva (não basta gostar de jogar futebol); dedicar horas diárias não apenas a jogar futebol, mas a treinamentos físicos para preparar o corpo para essa prática esportiva; frequentar escola de futebol; assistir a vídeos e entrevistas com preparadores físicos; saber como conjugará o tempo do ensino regular com um trabalho para ajudar nas despesas da casa e pagar a escola de futebol… Com isso, o jovem irá ponderar melhor acerca de suas escolhas, pois as coisas não caem prontas do céu.

    3 – Correr o risco da liberdade dos filhos

        A educação deve levar a que o educando aperfeiçoe a capacidade de dirigir a própria existência e torne efetiva sua liberdade em vista de um projeto pessoal de vida. Amar os filhos é amar a sua liberdade, e isso implica correr o risco de expor-se à liberdade deles. Aos jovens, depois de dar os oportunos conselhos, e de fazer as considerações necessárias, os pais devem se retirar delicadamente para não abafar o grande dom da liberdade a que têm direito. Não se trata de uma despreocupada indiferença por parte dos pais, mas de construir a autonomia dos filhos. Não é possível desejar a liberdade deles sem aceitar as suas consequências. Para haver amadurecimento psicológico, junto com o respeito à liberdade deve-se oferecer as razões e exigências morais que ajudem a pessoa a escolher o bem e a verdade. Se um filho pede autorização para determinado plano, surge a ocasião de ajudá-lo a ponderar todas as circunstâncias que estarão em jogo, se é um capricho ou uma necessidade, para depois tomar uma decisão.

        Os pais devem pretender que os filhos, de acordo as idades deles, respeitem certos limites. Se são crianças ou adolescentes, algumas vezes poderá tornar-se necessário aplicar medidas corretivas com prudência e moderação, dando as razões oportunas e, claro, sem violência. Se um filho jovem opta por uma decisão errada, é preciso compreender e permanecer ao seu lado para ajudá-lo a superar as dificuldades e extrair daquela má experiência todo bem que for possível. É evidente que, ao tratar-se de crianças, por não possuírem ainda a inteligência e a capacidade de juízo desenvolvidas, os pais fazem esse papel ao direcioná-las para um agir correto, pois sabem que isso é o melhor para elas. Na infância, convém estimular o uso da sua liberdade ao pedir tarefas que os filhos possam realizá-las, e também dar-lhes explicações sobre o porquê certas coisas são boas e outras más.

    4 – A virtude faz utilizar bem a liberdade

        Respeitar a pessoa e a sua liberdade não significa aceitar como válido qualquer escolha. Os pais devem dialogar com os filhos sobre o que é bom e reto e, em alguma circunstância, deverão ter a valentia de corrigir com a energia necessária, tal como fez certo pai que disse à filha de 15 anos que não permitiria que ela fosse à festa com a roupa tão curta que utilizava, e que deveria trocar de vestido. A filha tentou driblar a indicação, mas vendo a firmeza do pai, mudou de roupa. Na festa, percebeu que suas colegas não se respeitavam a si mesmas, e que por isso não eram respeitadas e nem podiam exigir que o fossem, e compreendeu os motivos do pai. O amor busca o bem da pessoa, e que esta dê o melhor de si, a fim de alcançar uma felicidade verdadeira, que preenche a alma. Quem ama pretende que a outra pessoa lute contra as suas deficiências, ajudando-a nessa tarefa. Uma conduta correta costuma ser o resultado de muitas correções.

        O ambiente hedonista e consumista que hoje respiram muitas famílias, não permite compreender o valor da virtude ou a importância de atrasar uma satisfação para obter um bem maior: ser livre e não escravo de suas paixões ou instintos. Os bens que valem a pena conquistar exigem empenho e força de vontade para serem atingidos. A virtude da fortaleza fornece a energia moral para não se conformar com o já alcançado, e quem possui essa energia é mais livre do que aquele que não a possui. Constitui um desafio para os educadores, em particular aos pais, mostrar de modo convincente que o uso autenticamente humano da liberdade não consiste tanto em fazer o que agrada, mas em fazer o que é certo, bom e verdadeiro. Não há maior escravidão ou perda de liberdade do que se deixar levar pelas paixões: quem apenas faz o que lhe agrada é menos livre e feliz do que aquele que cumpre com o seu dever.

    5 – Confiança no educador

        Para os pais ganharem a confiança dos filhos precisam primeiramente confiar neles, a fim de que estes possam abrir a sua intimidade. Sem confiança é difícil propor metas que contribuam para o crescimento pessoal dos filhos. A confiança se consegue, mas não se pode impô-la ou exigir. Adolescentes e jovens necessitam confiar no educador, e o fazem quando veem nele um comportamento moral justo, quando ele é íntegro e coerente ao viver o que ensina, e que é portador de verdades de que carecem. Assim se adquire a autoridade moral necessária para educar, pois caso contrário paralisa-se esse processo.

        Cada idade tem seu aspecto positivo, sendo que o da juventude é confiar e responder positivamente ao estímulo feito de modo amável para assumir tarefas. Se os pais nada pedem, não ajudam o amadurecimento psicológico dos filhos, que passam a satisfazer apenas seus caprichos. Quem é pouco exigido desde a infância, se acomoda e passa a julgar que tudo deve ser resolvido pelos outros. Essa falta de esforço e de virtudes torna os filhos imaturos e resistentes a qualquer sacrifício, mesmo o de estudar seriamente.

    6 – Autonomia e liberdade versus superproteção e autoritarismos

        Crescer em autonomia é crescer em liberdade. Os filhos crescem em autonomia ao perceber que seus pais só intervêm quando é realmente necessário. É preciso confiar na capacidade dos filhos resolverem seus problemas, e perguntar sempre a opinião deles sobre o que pretendem fazer − se acham certo ou errado −, e dar chances para que reflitam sobre suas ações. Esse é o caminho para o amadurecimento de uma personalidade sadia.

        Há duas atitudes de pais inseguros em tornar seus filhos independentes: o autoritarismo e a superproteção. Tanto o autoritarismo quanto à superproteção, cerceiam a liberdade dos filhos, e leva-os à introversão, à falta de segurança ou medo de agir por conta própria, à vergonha de se expor ou se arriscar, à inabilidade no convívio social. O autoritarismo obriga à força, goela abaixo, porque são pais que não sabem dialogar e dar os motivos que possam esclarecer a inteligência e fortalecer a vontade dos filhos para que queiram fazer o que deve ser feito, então empregam a força bruta. Já a superproteção elimina a iniciativa dos filhos, que acabam sendo substituídos naquilo que poderiam fazer sozinhos, levando-os ao acomodamento e ao egoísmo de pensarem só em si. Mimar e poupar de fazer sacrifícios ao não lhes atribuir tarefas no lar torna-os egoístas e interessados apenas em suas coisas. Por medo de exigir, a mãe superprotetora vive dizendo: “Aí, vai quebrar o copo e se cortar, deixa que eu guardo”; “Eu levo a mochila pra você não cair”; “Tadinho, a professora passou muita lição de casa!”; “Cadeira malvada, por que você machucou o pé do meu filhinho?”, e a mãe bate na cadeira como se o móvel fosse culpado pela imprudência da criança. Tais filhos logo percebem que a mãe não confia em sua capacidade de ser livre e agir por conta própria. Também não se educa em autonomia quando os pais, impacientes e inconstantes, e com a desculpa de que “não têm tempo” ou que “farão melhor”, se adiantam a fazer o que a criança poderia realizar.

        A autonomia deve ser fomentada ainda quando os filhos são crianças: se o garoto trocou os tênis de pés e indaga se estão corretos, não responda, mas pergunte sobre o que ele acha. Se houver um desentendimento com um amigo da escola, dialogue sobre que meios deverá ele empregar para resolver a situação. Responsabilizar os filhos para realizar tarefas no lar fortalece a vontade deles para cumprir suas obrigações, e os faz pensar nos demais e não apenas em si próprios, e com isso se preparam para sacrificar-se por ideais mais custosos de levar adiante.

    Texto produzido por Ari Esteves com base no livro “Fundamentos de Antropologia”, capítulo 6 (A liberdade), de Ricardo Yepes e Javier Aranguren, Instituto Brasileiro Raimundo Lúlio, São Paulo, 2005;  artigo “Educar na liberdade”, de J.M. Barrio, em www.opudei.org.br; artigos que estão no site staging.ariesteves.com.br/, página Boletins por Temas, verbete “Educar a vontade”. Desenho de Ron Lach.

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  • Família.   Valores.   Virtudes.

    Família. Valores. Virtudes.

    1 – Direcionamos a vida pelos valores que assumimos. 2 – A família é a primeira escola de valores. 3 – A boa literatura transmite valores. 4 – Há pessoas que são modelos a seguir.

    1 – Direcionamos a vida pelos valores que assumimos

        Os pais devem viver e ensinar os valores que acreditam. Valores são modelos de conduta adotados para orientar a vida; são como raios de luz que fazem parte de uma Verdade maior, disse Gustavo Villapalos, em sua obra “El libro de los valores”. Há quem identifique valores com virtudes, pois quando interiorizados se tornam bússolas que apontam o caminho para orientar a vontade até o bem. As virtudes estão relacionadas à excelência da conduta, ao exercício de bons atos que geram hábitos racionais queridos pela vontade. Os valores se assentam em verdades que acreditamos e pelas quais direcionamos a vida. Quem possui valores sabe por onde se conduzir, e o faz ajudado pelas virtudes que possui. Quem se afasta de seus valores e virtudes, talvez por aceitar um movimento passional desordenado, logo sente o desagrado pela ação praticada e retorna o quanto antes para o que tem como correto. As virtudes e os valores cultivados não desaparecem por causa de um ato irrazoável: o tropeço produz um descontentamento que servirá como lição.

        Ao pensar na importância da transmissão de valores, percebe-se que não basta preocupar-se com o alimento, vestuário, descanso e abrigo. No caso das crianças, ao lhes transmitir a vida, os pais se tornam os protagonistas da educação delas, e se obrigam a instrui-las em valores e virtudes para colocá-las em condições de enfrentar a vida. As catástrofes sociais veiculadas pela mídia, onde empresários, políticos, funcionários públicos e de empresas privadas se corrompem pelo dinheiro, ou adolescentes que enveredam para o crime como forma de enriquecer-se rapidamente, o fazem porque não assumiram valores, mas apenas antivalores.

        Cultivados inicialmente no lar, os valores se fixam de forma inapagável, forjam caráter e ajudam a discernir entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso. Há quem age por valores primários: comer, beber, divertir-se; outros, pela beleza física, fama, poder, dinheiro, cultura, família, religião, etc. A pergunta sobre valores ou modelos que adotamos tem sentido, pois tendemos a direcionar a vida por eles: sem valores uma pessoa fica como um barco sem leme que segue qualquer vento. Examinar sobre os valores que regem a própria vida, e os que se desejam para os filhos, é necessário para não edificar sobre bases que conduzem ao fracasso da personalidade.

    2 – A família é a primeira escola de valores

        A família é a primeira escola de valores porque sua influência, sendo a mais profunda, marca a pessoa por toda a vida, tanto para o bem quanto para o mal, dependendo da qualidade educativa oferecida. O que se faz ou se deixa de fazer na infância influirá no modo de como os filhos agirão vida afora. Na convivência familiar encontram-se as melhores oportunidades de promoção dos valores considerados mais importantes e decisivos para os filhos orientarem-se na vida.

        O clima de informalidade da vida familiar é o mais adequado para tratar de questões profundas por meio de conversas descontraídas e oportunas, onde os pais revelam aos filhos os valores que acreditam, e alertam com explicações convincentes sobre o perigo dos antivalores como as drogas, a sexualidade fora do casamento, a pornografia na internet, a perda de tempo em redes sociais ou games. Ao dar exemplo e corrigirem os pequenos desvios de rota das crianças, os pais ensinam valores e virtudes. Ensinar às crianças o sentido de responsabilidade implica que vivam virtudes como a ordem (autodisciplina) para cumprir horários de refeição, dormir e acordar; de chegar pontualmente à escola, de fazer as lições e os encargos familiares… O valor da honestidade, da incorruptibilidade, tem início ao ensinar o filho a não retirar escondido uns trocados da bolsa da mãe para comprar doces, ou ao fazer que devolva o brinquedo que surrupiou do amigo. Ter como valor a leveza e a soltura do desprendimento dos bens materiais, e para não ser vítima da publicidade, exige crescer na virtude da temperança ou sobriedade… Para dar valor à palavra dada é necessário fortaleza para assumir as próprias responsabilidades…

        Muitos pais se contentam em exigir do filho que tire boas notas na escola. Será que é esse o papel dos pais? A vida acadêmica é só um aspecto da formação humana, sendo necessário oferecer uma formação integral, que envolva o crescimento em valores e virtudes… Quem não foi educado para ser fiel, desprendido, para dar valor à honra, a ser honesto, facilmente se corromperá pelo dinheiro ou por outras desordens passionais. Se apenas foi exigido que tirasse boas notas para entrar na sonhada faculdade, resta torcer para que o tempo e a sorte ofereçam uma boa oportunidade profissional ao filho, e este corresponda com as qualidades humanas que terá que desenvolver sozinho, a fim de ser não apenas um profissional, mas uma pessoa de caráter bem formado, amigo, solidário, que sabe trabalhar em equipe (virtudes fundamentais para um bom profissional).

    3 – A boa literatura transmite valores

        Um outro modo de transmitir valores aos filhos são as narrativas: romances, novelas, contos, biografias. Por isso, é importante que os pais selecionem boas obras, pois elas materializam modelos de condutas: para compreender o que é o valor da palavra dada, da fidelidade entre marido e mulher, basta ler aos filhos a “Odisseia”, de Homero, onde Ulisses e Penélope protagonizam esse valor; ou “Romeu e Julieta”, de Shakespeare; ou “Os noivos”, de Manzoni. Em “Pinóquio”, de Carlo Collodi, vemos como a mentira desfigura não só o corpo do garoto, ao fazer crescer seu nariz, mas também sua alma, pois deixou de amar aqueles que o amavam (o Gepeto, a fada madrinha), a fim de seguir os conselhos do bando de falsos amigos da rua; fugiu da escola e dos livros… Contar histórias é melhor que discursos teóricos, seja para configuração moral da vida de uma pessoa ou de um povo. Selecionar, assistir e comentar filmes baseados em bons roteiros também é modo de transmitir valores aos filhos.

        Hoje, os grandes narradores são o cinema, a televisão, as mídias, os videogames, a publicidade, que podem manipular por meio de narrativas que apresentam falsos valores como o sucesso, o poder, o dinheiro à custa de valores maiores. Nada disso certamente é o tipo de comportamento que os pais querem para os seus filhos. Atualmente, muitos adolescentes buscam os valores veiculados pelas mídias, e mesmo sem ter nada a oferecer, e desconhecendo suas reais capacidades ou qualidades, com as quais poderia servir melhor aos demais, desejam o quanto antes se lançar como youtubers ou sonham em ser estrelas do futebol, atrizes ou atores de novelas, pois julgam ser a fama sinônimo de vida feliz. Escolher modelos de sucesso a qualquer preço é deixar-se massificar e permitir que outros decidam por si.

    4 – Há pessoas que são modelos a seguir

        Os valores mais apreciados não são os teóricos, mas os reais, imitáveis e assumidos por pessoas que se tem como modelos. É algo muito humano ter modelos, mas é preciso acertar e não errar na escolha. Mesmo em tempo de crise de valores, como atualmente, encontramos na família, nas relações profissionais e sociais indivíduos que personificam um ideal de excelência humana porque na história deles há fatos edificantes: um casal que completa 30, 40 ou 50 anos de casamento transmite valores que devem ser imitado: sobre o significado do verdadeiro amor, e de que o casamento é para sempre, sendo que para alcançar esses valores faz-se necessário crescer em virtudes como fidelidade, perseverança, generosidade, esquecimento próprio, entre outras. Exemplos de outros valores vemos em colegas de trabalho que não aceitam suborno; casais que levam adiante um lar com vários filhos, pois veem a família como valor fundamental… Modelo maior de valores assumidos e de virtudes praticadas é Jesus Cristo: basta ler sua biografia, que são os quatro Evangelhos, para admirar e se sentir convidado a imitá-Lo.

    Texto produzido por Ari Esteves. Imagem de Victoria Borodinova.

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  • Defeitos dos pais

    Defeitos dos pais

    1 – Trair a confiança. 2 – Pais ausentes. 3 – Pais frouxos. 4 – Pais autoritários. 5 – A superproteção. 6 – Pais que não gostam de ler. 7 – Antídoto contra os defeitos.

    1 – Trair a confiança

        Quem não tem defeitos atire a primeira pedra! Todos colecionamos pencas deles, mas o importante é reconhecê-los com humildade e lutar contra eles, principalmente se forem pais, pois como diz André Bergè, pedagogo francês, “os defeitos dos pais são os defeitos dos filhos”, que na linguagem popular seria o mesmo que dizer “filho de peixe peixinho é”.

        A sabedoria não penetra por osmose, mas sim pelo estudo e a reflexão. Porém, os defeitos penetram pela simples convivência. Pais, professores, tutores, preceptores e demais educadores têm obrigação moral de corrigir-se para não transmitir às crianças suas falhas habituais. Os pais, por deterem a mais plena confiança dos filhos, não podem trai-los ao passar a eles seus enguiços por meio do mal exemplo. Porém, não devemos desanimar diante da lista de defeitos que todos os filhos de Eva portamos, pois graças ao princípio da unidade da pessoa humana, quando se melhorara em um aspecto, melhoram-se em muitos outros. Pessimismos, inseguranças, espírito fofoqueiro, preguiças, indiferença pela leitura, fuga dos deveres, desordens nos objetos pessoais, apegos a seus planos… tudo isso, infelizmente, impregna nos filhos. Se, ao contrário, os pais decidirem a lutar por meio de pequenos atos contrários a cada defeito, também florescerão nos filhos as virtudes que procurarão imitar.

    2 – Pais ausentes

        Todos tivemos um pai e uma mãe e podemos afirmar que a ausência deles não educa, porque cada filho carece sentir-se amado, valorizado ao notar que seus pais o admiram e elogiam seus pontos positivos. Os pais ganham a confiança do filho quando se esforçam por ouvi-lo e compreendê-lo, mesmo em coisas insignificantes, e quando dizem “te amo”, e conversam muito com ele. Nos finais de semana e feriados, os pais nota 10 levam o filho ou a filha para passear, tomar sorvete, soltar pipas, brincar no parque, andar de bicicleta; à noite, se distraem com ele em jogos de mesa ou lendo-lhe contos. Os pais não conquistam o filho dando-lhe presentes, mas estando presentes e oferecendo-se eles mesmos, seja através do abraço, do sorriso amigo e fiel, do olhar compassivo ou indicativo. Ao gastarem tempo com a criança, revelam que apreciam mais estar com ela do que com outras pessoas, ou em outras atividades, e isso o filho percebe e fixará na memória tantos momentos que se tornarão pétreos, inesquecíveis. É assim que um filho se sente amado, seguro, forte.

        Quanto à figura masculina, muitos adultos reclamam que não tiveram um pai forte, amigo, companheiro. Sem o convívio com o pai, a criança se prende à saia da mãe, e terá pouca iniciativa para enfrentar situações novas, e se tornará mais fechada e medrosa na adolescência e na vida adulta. É comum identificar traços de introspecção e dependência materna em crianças que não tiveram um modelo masculino. A ausência do pai na educação de um filho ou de uma filha é nefasta e cientificamente comprovada porque atinge o núcleo da formação da identidade da criança. James Stenson cita várias organizações americanas que confirmam estatisticamente que crianças crescidas sem a figura paterna têm seis vezes mais chances de crescerem na pobreza e duas vezes mais riscos de abandonarem os estudos, quando comparadas com crianças de lares com pais sempre presentes. A falta do pai faz aumentar a violência – inclusive a doméstica – porque os filhos se rebelam mais facilmente quando não há alguém que imponha limites. Em famílias de pai ausente há dados que revelam o decréscimo de casamentos, aumento das uniões de fato, baixa fecundidade, multiplicação de divórcios, maior abandono dos estudos dos filhos, filhas com gravidez precoce, maior número de lares monoparentais. Pela falta de um pai amigo, muitos jovens se deixam levar facilmente pelas gangues de rua, tornando-se indisciplinados e violentos. O governo britânico procurou dificultar o recurso à fecundação artificial para mulheres que vivem só, porque percebeu que um filho precisa de um pai.

    3 – Pais frouxos

        Pais frouxos, permissivos ou submissos temem dizer não, o que é um falso amor. Com isso, mostram-se imaturos na relação com os filhos nas diferentes faixas etárias. Diante de choros e birras cedem facilmente porque lhes falta inteligência emocional para compreender e sobrepor-se a cada situação. Se a criança de dois anos não quer comer, ficam desconcertados e mudam o cardápio, e com isso põem-se à mercê das manhas do filho, que passa a manipulá-los. Não sabem exigir rotinas e perdem a batalha do horário de dormir, de fazer as refeições e banhar-se, de exigir ordem nos brinquedos e roupas.

        Na adolescência, quando a puberdade começa a falar mais forte, os pais frouxos liberam as telas para assistir o que desejam, sem esclarecer com profundidade o que representa a pornografia e o vício da ociosidade ou preguiça pela perda de tempo em games. Permitem ao filho ou filha ir a festas onde rola de tudo, viajar com a turma, chegar tarde em casa, fazer programas de fim de semana sem saber para onde foram. Não se preocupam em conhecer os amigos dos filhos e suas famílias; permitem que os filhos passem horas enfiados no celular, sem interessar-se pelo que veem. Temem abordar temas como drogas, homossexualidade, sexo fora do casamento, e dão como desculpa que mais adiante os filhos saberão resolver tais assuntos sozinhos. São pais que vão se afastando do filho ao lotá-lo de atividades extracurriculares, a fim de evitar o enfrentamento com os problemas, e perdem a oportunidade de ter o filho junto de si para dialogar com profundidade e em clima de amizade.

        Certa filha estava para ir ao baile da escola e vestia uma saia curta, que comprara recentemente. O pai a viu, deu um pulo e disse que não sairia assim, dando os motivos! A garota chorou e suplicou, mas ele não cedeu e ela teve que mudar de roupa. Na semana seguinte, a filha retornou à loja e trocou o tal vestido por outro, e depois agradeceu ao pai porque compreendera que as demais colegas não respeitavam a si mesmas na festa. Ou aquele garoto que entrou rindo em casa porque, junto com os amigos, esvaziara os pneus de um carro da vizinhança. O pai levou-o até o proprietário do veículo e o fez contar o que fizera. Ao se tornar adulto, o filho lembrava-se agradecido dessa atitude paterna. São esses os pais que no entardecer da vida têm a alegria de ver como seus filhos se transformaram em mulheres e homens justos, responsáveis e empenhados em viver e transmitir a educação recebida. Ler o boletim Carinho e firmeza com os filhos.

    4 – Pais autoritários

        Geralmente focados em seu trabalho, pais autoritários são dominadores e o filho (ou filha) tem medo de sua voz e de seu olhar, e vai se afastando de sua presença pelo pavor que esta emana. Por vezes são pais que não aceitam algum comportamento da criança, e pela falta de leitura sobre como saber lidar com determinadas situações, tornam-se autoritários, violentos e grossos: batem, empurram, humilham com palavrões e dão respostas hostis do tipo “Você é uma praga e me deixa louco”; “Vai ver o que acontecerá se tirar notas baixas”… São exagerados nas punições porque não dialogam com a esposa para saber o melhor modo de corrigir o filho: − Ficará duas semanas sem ver televisão, ou – Durante um mês só sairá de casa para ir à escola e nada mais. Ou seja, desconhecem o que é o respeito à dignidade da pessoa humana, e como deve ser aplicada uma medida corretiva para educar e não humilhar. Pais autoritários são imaturos ao mostrar-se desequilibrados, sem autocontrole e impacientes para superar aos poucos as dificuldades de um filho.

        Ao não ter a autoridade do conhecimento, mas apenas a da força bruta, esses pais desconhecem a capacidade humana de ouvir e compreender os argumentos sólidos oferecidos em diálogo amigável, por exemplo, sobre o motivo de não ir a determinadas festas, não beber álcool, o perigo das drogas, não ver certos filmes ou fazer excursão com a turma da escola a praias e hotéis badalados, não ter televisão no quarto… Ao desconhecerem essas respostas ficam sem argumentos e para manter a autoridade agem com brutalidade: − “Quem manda nesta casa sou eu; e vai fazer o que eu digo”, além de estabelecerem um monte de regras rígidas e castigos em excesso.

        Pais autoritários costumam ter filhos com vontade fraca, ansiosos e com tendência a esconder tudo deles. Os filhos não interiorizaram as virtudes porque não aprenderam a agir livremente e motivados por explicações convincentes, mas na marra ou goela abaixo. Castigados e injustiçados com frequência, tornam-se medrosos, inseguros e com baixa autoestima. Ao chegarem à juventude, esses filhos não mais suportarão essas atitudes e enfrentarão os pais. Ao perceber que estão perdendo o filho, porque anda com novos amigos e frequenta ambientes onde há risco de drogas e promiscuidades, e por não estarem preparados para dialogar, reincidem nas excessivas regras. Porém o filho, que nunca foi educado por um pai amigo, partirá para o enfrentamento, e o resultado será a perda desse filho.

    5 – A superproteção

        Há mães inseguras em tornar o filho (ou filha) independente, e acabam substituindo-o em tudo que este pode fazer. Mimam e poupam de fazer sacrifícios, e com isso não percebem que a criança passa a ficar centrada em si mesma. Ao não atribuir tarefas no lar para o conforto de todos, a criança passa a ser egoísta e interessada apenas em suas coisas. Essa superproteção leva o pequeno ao acomodamento, à introversão, à falta de segurança, ao medo de agir por conta própria, à vergonha de se expor ou arriscar, à inabilidade no convívio social, porque a mãe sempre faz tudo que ele deve fazer: não saberá cortar seu bife no refeitório da escola, nem amarrar o próprio tênis na aula de educação física… Por medo de exigir, a mãe superprotetora vive dizendo: − Aí, vai quebrar o copo e se cortar; deixa que eu guardo. Ou – Eu levo a mochila pra você não cair. – Tadinho, a professora passou muita lição de casa! Ou – Cadeira malvada, por que você machucou o pé do meu filhinho?, e a mãe bate na cadeira como se o móvel fosse culpado pela imprudência da criança. O filho percebe que a mãe não confia em sua capacidade.

        Pais que reclamam ser o filho (ou filha) passivo, desinteressado e que nunca agradece a comida feita ao gosto dele, porque julgar ser normal fazer o que ele gosta, devem saber que a culpa de tal comportamento é dos próprios pais que, superprotetores, tornaram o filho egoísta, exclusivista e dependente de que todos façam as coisas por ele, pois sente em seu emocional que deve ser assistido e favorecido como um príncipe em sua corte. A superproteção ocorre também quando os pais, impacientes e com a desculpa de que não têm tempo para esperar, ou que farão mais rápido e melhor, se adiantam a fazer o que a criança poderia realizar sozinha, mesmo que durante algum tempo não tivesse a destreza de se vestir rapidamente ou preparar seu lanche e arrumar seus apetrechos escolares, ou fazer a cama ao acordar. Ler o boletim Construir a autonomia da criança.

        Por medo de corrigir, a mãe fraca diz: − Ele joga as coisas e bate em mim, mas irá melhorar com o tempo. Ou − Puxa, por que você fez isso pra mamãe? Isso é querer educar na “peninha”, na compaixão pela mamãe (filhos até cinco anos não percebem o que é compaixão). A mãe age assim porque não tem coragem de dizer com firmeza as coisas, e julga que se educa na “peninha da mamãe”. A criança entende uma argumentação firme, segura e respeitosa: − Você não devia ter feito isso; agora vá pegar a vassoura e limpe o chão. Ou, Filho, não faça mais isso; se ocorrer de novo ficará toda manhã sem sua bicicleta. A criança entende o argumento do tipo “não suje porque terá que limpar” e não um argumento sentimental do tipo − Ah, não faça isso pra mamãe. Mandar é diferente de pedir. A mãe submissa não comanda o filho, mas apenas diz: − Arrume sua cama pra mamãe, vai (evitou dize o momento em que deve ser feito). A criança precisa de comandos delicados, mas firmes: − Julinho, arrume agora a sua cama. Há mães que querem esticar o período de baby de um garoto de dez anos, e não o deixa ir à rua fazer compras, tomar ônibus sozinho para ir à escola, ir ao parque e jogar bola… Com a desculpa de que serão assaltados, as mães carentes mantém o filho na infância e preso à sua saia.

        A criança tem que aprender a ser guerreira! É preciso ir soltando a linha para ela subir mais alto! Outras consequências da superproteção: o filho será cada vez mais exigente e cioso de cuidados que devem ter para com ele; será queixoso e chorão diante de qualquer incomodidade ou tarefa que lhe custe esforço realizar; e por falta de exigência e fazer apenas o que gosta, terá forte tendência ao TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), porque não foi exigido a ser constante e persistente quando algo passava a custar ou contrariá-lo. E assim, o filho se tornou emocionalmente fraco, pouco resistente à frustração e facilmente influenciável pelos amigos.

    6 – Pais que não gostam de ler

        Há pais que não gostam de ler. Dizem que no fim do dia chegam cansados em casa, e não têm coragem de abrir um livro. Afirmam isso porque não sabem que há leituras para descansar. O grande escritor irlandês e crítico literário C.S. Lewis disse, na introdução aos Contos de Narnia, que sempre gostou de ler contos infantis e, mesmo sendo adulto e professor das Universidades de Oxford e de Cambridge, na Inglaterra, continuava a gostar de lê-los. Reis, rainhas, duendes, bruxos, bruxas, mágicos e animais que falam são leituras que prendem, descansam e arrebatam. Adultos que não gostam de ler podem começar a fazê-lo pelos famosos contos infantis, pois a leitura é contagiosa e logo estarão com outros livros em mãos. Não é necessário ter horas e horas livres para iniciar o hábito da leitura, mas apenas alguns minutos diários para que o “vício das letras” faça ansiar por alguns minutos mais de leitura, a fim de continuar a se deliciar com as histórias. Aliás, um pai que não gosta de ler poderá “matar dois coelhos com uma cajadada só” ao ler para os filhos pequenos, mesmo que seja um conto por dia, no mesmo horário. Com isso, pai e filho deixaram de ser escravos da televisão e dos algoritmos digitais, que sempre enviam imagens dos temas que costumam acessar, o que lhes rouba os minutos de leitura. Veja a nossa sugestão de literatura infanto-juvenil para iniciar-se no hábito de ler, independentemente da idade.

    7 – Antídoto contra os defeitos

        O melhor antídoto contra um defeito é conquistar a virtude que lhe é contrária, por meio de pequenos e constantes atos que se opõem a esse defeito. Por exemplo, quem é desordenado ganhará a virtude da ordem ao criar o hábito de deixar cada coisa que utilizou em seu lugar, chegar pontualmente aos compromissos, não mudar o plano de tarefas previsto sem um motivo razoável, não curiosear nas redes sociais, etc. Trata-se de uma luta constante, alegre e esportiva.

        E como o amor é industrioso, além dos pais lutarem contra as próprias falhas, precisam ajudar os filhos a lutarem contra suas próprias imperfeições. Pais assertivos unem carinho com firmeza, que é o segredo da boa educação das crianças, para ajudá-las a ganharem hábitos que depois se transformarão em virtudes. Os pais não devem temer ser exigentes e cobrar o que é certo: ser firmes como uma bigorna, porém almofadada, e não omitir-se quando a criança faz uma malcriação ou bagunça, a fim de não permitir que crie maus hábitos. Se necessário for, aplica-se uma medida corretiva ou castigo justo, equilibrado (estudado antes com a esposa), sem suprimi-lo diante da insistência do filho, para não demonstrar fraqueza, insegurança ou ser manipulado por ele: explicar as razões da correção, antecipadamente informada de que seria aplicada, e dizer ao filho que agem assim − pai e mãe − por amor a ele.

        É certo que se deve respeitar a liberdade das crianças e adolescentes, e deixar que discordem em assuntos de livre opinião: o que irão jogar, que passeios fazer, qual a cor da roupa para ir à festa… Porém, há temas que pela falta de juízo e de experiência de vida das crianças, os pais não devem ceder para não se arrependerem depois. Vale a pena agir o quanto antes, pois a formação de um hábito intelectual, como é ocaso das virtudes, não pode ser alcançado muito tarde ou de maneira inconsistente, e sem grau de exigência.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado na obra “Como ser um bom pai”, de James B. Stenson, Editora Quadrante, São Paulo, 2017, e no boletim “Pais frouxos, violentos ou assertivos”, disponível no site staging.ariesteves.com.br/.

  • Namoro precoce

    Namoro precoce

    1 – O que é o namoro. 2 – A formação pessoal para o namoro. 3 – Caminhos errados durante o namoro. 4 – A escolha da pessoa certa. 5 – Namoro das filhas na adolescência. 6 – Na adolescência as energias sentimentais são imaturas.

    1 – O que é o namoro

         Antes de abordar o tema da precocidade do relacionamento sentimental entre adolescentes, procuremos compreender que o namoro não é um passatempo, mas uma fase necessária para que haja um tempo de discernimento e conhecimento mútuo entre aqueles que tenham como projeto de vida o casamento; é tempo para confirmar se se poderá conviver com a outra pessoa até o final da vida, se ambos concordam no que é fundamental para uma vida em comum…

         O namoro bem vivido é o caminho mais adequado para um bom casamento. Por isso, não será estranho ao longo do namoro perceber que o outro não é a pessoa adequada para empreender a aventura do casamento, pois “Viver juntos é uma arte, um caminho paciente, bonito e fascinante. Ele não termina quando vos conquistastes um ao outro… Pelo contrário, é precisamente neste momento que ele tem início! Este caminho de cada dia possui regras que podem ser resumidas naquelas três palavras…: com licença, ou seja, «posso», obrigado e perdão. (Mensagem Papa Francisco aos noivos, 12-06-2021).

    2 – A formação pessoal para o namoro

         O amor é um tripé que se apoia no sentimento que há entre um homem e uma mulher, na compreensão da inteligência sobre o que é um verdadeiro amor, e no fortalecimento da vontade para que se formem convicções que farão crescer esse amor cada vez mais, mesmo em circunstâncias contrárias. Quando se apoia apenas na volubilidade dos sentimentos, com o passar do tempo a relação pode sofrer desgastes ao surgirem as inevitáveis dores, privações e sacrifícios.

         Os namorados devem alimentar o amor com a leitura de boas obras que tratam do afeto humano, do que é o casamento e o que diz a Sagrada Escritura acerca dele; devem alimentar a inteligência com boa doutrina para não se apoiar em argumentos sentimentais, que podem se alterar ao longo do tempo; necessitam aprender a admirar a beleza contida nas diferentes artes, a fim de desenvolverem a sensibilidade estética para tornar mais delicado o trato mútuo: o gosto pela literatura, música, pintura e bons filmes eleva o espírito e promove planos descanso que enriquecem o espírito. Mais do que ir ao cinema por falta de opção, une e enriquece mais o espírito dos namorados irem a uma exposição ou museu de arte, um passeio descontraído pelo parque e uma boa conversa.

         Há várias virtudes que devem crescer durante o namoro, pois elas serão a base sobre a qual se sustentará o casamento: generosidade para saber renunciar os planos pessoais e fazer o gosto do outro; delicadeza no trato; bom humor para rir do que saiu errado; sobriedade para desfrutar das coisas com justa medidas, e evitar planos onerosos porque se compreendeu que há mais amor em um pequeno presente, por conhecimento do gosto da outra pessoa, do que um gasto excessivo em algo que agradaria a qualquer um; o bom uso do tempo livre para planejar e enriquecer as horas que passarão juntos: para onde ir, com quem estarão, o que farão?

    3 – Caminhos errados durante o namoro

         O amor cresce com o respeito mútuo, que é tratar o outro como uma pessoa, e não como objeto para a satisfação pessoal. Alcança-se o amor verdadeiro quando se respeita a dignidade da outra parte, evitando manifestações afetivas impróprias do namoro, pois isso destrói a personalidade. Se realmente se ama uma pessoa, se faz todo o possível para respeitá-la. O namoro supõe um compromisso que inclui a ajuda ao outro para ser melhor.

         O período do namoro é um tempo para ser vivido na castidade dos gestos e das palavras, na solicitude e domínio de si para respeitar a outra pessoa, a fim de que ambos se possam olhar-se nos olhos sem constrangimentos ou vergonha. O verdadeiro amor não busca a própria satisfação, pois a dignidade humana não comporta solicitar da outra pessoa o que ela não deve dar, como são as manifestações afetivas de índole sexual próprias da vida matrimonial, e não do namoro.

         Sendo o namoro um período em que aqueles que se amam ainda não decidiram entregar-se um ao outro e para sempre no casamento, devem conduzir-se com delicadeza e respeito no trato mútuo, e apagar as primeiras faíscas da paixão que podem surgir e colocar a outra parte em circunstâncias limites. Ao perceber que uma manifestação afetiva poderá ultrapassar a fronteira de um comportamento correto, deve-se cortar para não entrar na esfera de um sentimentalismo egoísta. A virtude da temperança impregna de inteligência as paixões e os apetites da sensibilidade humana: o namoro como toda a escola de amor, deve estar inspirado não pela ânsia da posse, mas pelo espírito de entrega, de compreensão, de respeito, de delicadeza(Josemaria Escrivá, Questões atuais do cristianismo, n. 105).

    4 – A escolha da pessoa certa

         Para os que foram chamados por Deus à vida conjugal, a felicidade humana depende, em grande parte, da escolha da pessoa com quem irá viver o resto da vida. O namoro é tempo para esse conhecimento, a fim de que ambos cheguem bem-preparados ao casamento. Quanto mais conhecer a outra pessoa durante o namoro, menor o risco de um casamento que venha desfazer-se por incompreensão mútua. O sentimentalismo não deve ser fundamento do namoro ou do casamento, pois impede perceber atitudes mais profundas que poderão conduzir a autoenganos sobre a outra pessoa, que revelará mais adiante comportamentos desagradáveis que poderão se converter em rupturas de relacionamento.

         A personalidade vai se formando ao longo do tempo, e espera-se da outra pessoa um nível de maturidade adequado à idade. Há parâmetros para distinguir os traços de imaturidade de uma pessoa: se toma decisões em função do estado de ânimo; se possui humor volúvel, sendo muito suscetível; se costuma submeter-se à opinião dos outros porque não tem uma própria; se não tolera frustrações e reage de forma passional; se tende a culpar os outros pelos seus fracassos; se tem reações caprichosas que não correspondem à idade; se é impaciente e não consegue renunciar aos seus desejos imediatos; se busca ser o centro das atenções; se sabe conversar sem inflamar-se quando as opiniões são opostas; se é capaz de distinguir o importante do secundário e ceder em detalhes sem importância; se reconhece os próprios erros quando é advertido; se sabe tolerar os defeitos dos outros e os ajuda a melhorar; se sabe pedir desculpas…

         Todos temos momentos de mau caráter, que se podem atenuar ao contar com a graça de Deus e a luta pessoal para vencer-se e fazer a vida mais agradável aos outros. No entanto, para garantir a convivência com o modo de ser de outra pessoa, é necessário que no namoro se chegue ao verdadeiro conhecimento da outra parte: seu caráter, crenças e convicções; seus sonhos e valores familiares que possui; opinião sobre o número de filhos e a educação que pretende dar; o que representará o seu trabalho profissional em relação à vida familiar…

         Convém distinguir o que na outra pessoa é uma opinião e o que é uma crença ou convicção, pois uma opinião é passível de mudança e uma crença ou convicção tem princípios mais arraigados e transformadores em consequência da tradição, da cultura e educação recebidas, dos valores que se nutriu ao longo do tempo. Por exemplo, diante da afirmação “penso que o casamento é para sempre”, é preciso saber se se trata de uma opinião ou de uma convicção, pois se for apenas uma opinião poderá sofrer alteração com o tempo. Seria ingênuo pensar que a outra pessoa mudará suas convicções ou crenças, sempre mais profundas, para se adaptar ao que a outra parte pensa, por exemplo, sobre a fidelidade matrimonial, número de filhos que deseja ter, se julga sua atividade profissional mais relevante que o dia a dia da vida familiar, como entende a sexualidade humana, entre outros parâmetros. Poderá ser prudente finalizar o namoro quando há discordância sobre temas importantes, a fim de que a ruptura não ocorra durante o casamento. Com frequência um dos cônjuges percebe que não conversou sobre questões vitais com o outro durante o namoro.

    5 – Namoro das filhas na adolescência

         Como se pode perceber com o que foi dito até aqui, não há maturidade suficiente na adolescência para analisar a outra parte, tendo em vista que o namoro não está feito para passar o tempo, mas para conhecer o caráter, temperamento, ideais, virtudes e defeitos da outra parte, com a finalidade de constatar se será a pessoa certa para unir a vida em função de um projeto comum, que é o grande ideal de montar uma família e educar os filhos.

         A partir da puberdade, ou mesmo antes, as adolescentes se sentem fortemente atraídas pelos rapazes e surge nelas a vontade de agradá-los e de namorar. Essa é, então, a ocasião da mãe dizer à filha que ela é ainda muito jovem, e que as grandes forças do amor que ela sente estão para prepará-la para se tornar uma mulher mais adiante; e que Deus permite surgir nela forças de afeto, carinho e desvelo para que aprenda a dominá-las a fim de não ser subjugada por tais forças como uma boneca que passa de mão em mão. Liberar essas forças na adolescência, fará a jovem chegar ao casamento desgastada, cheia de vícios pelas tristes experiências acumuladas, e sentindo que lhe foi roubado o tempo mais propício para seu crescimento humano e espiritual.

    6 – Na adolescência as energias sentimentais são imaturas

         Ficar uma adolescente empatada com um rapaz muito jovem, que ainda não sabe o quer da vida e pouco conhecimento tem de si mesmo, somado à volubilidade própria dessas idades (ele poderá facilmente trocar uma jovem por outra), impedirá que a adolescente siga adiante com projetos mais importantes nessa fase. Além disso, o risco de um namoro prolongado facilmente conduzirá a intimidades próprias de marido e esposa, com todas as consequências que decorrem de atos que não devem acontecer e para os quais ambos não estarão preparados.

         Não bastam os vigores instintivos ou sentimentais para acertar no amor. Só com o amadurecimento psicológico, onde a inteligência bem formada por meio do estudo e pela virtude da prudência, que avalia todos os aspectos da realidade e não apenas os de ordem sentimental, a vontade se verá fortalecida para seguir pelo caminho do amor verdadeiro e na busca de projetos valiosos.

         A mãe deve estimular a adolescente a se preparar não para o namoro, mas para crescer nas virtudes que irão direcionar seus sentimentos para apoiar o que é mais importante nessa fase da vida: descobrir suas qualidades e potencialidades com o fim de acertar na escolha da profissão com a qual melhor servirá aos demais; aproveitar bem o tempo para se preparar com afinco e enfrentar as duas fases do ENEM, que incluem várias disciplinas e uma concorrida prova de redação, e alcançar notas classificatórias que permitam entrar com folga em uma universidade pública. Se a adolescente for estimulada a ganhar o hábito de ler boa literatura, saberá conhecer melhor a si e aos demais, pois os bons escritores penetram com profundidade na alma humana e seus personagens fazem distinguir entre o bem e o mal; a leitura faz aprofundar o raciocínio e melhorar a força de expressão escrita e oral. A mãe precisa ajudar a sua filha adolescente crescer no amor a Deus, e se sentir sempre acompanhada por um Pai que nunca a abandonará.

         Não é preciso antecipar o tempo de namoro. A adolescente deve preparar-se e esperar que seu corpo e sua mente a transformem numa mulher adulta para, então, avaliar o que é um verdadeiro amor: um homem maduro e de princípios que a compreenderá e a respeitará, sendo capaz de abraçar os filhos que Deus lhes enviar, e de amá-la na saúde e na doença, e ser capaz de assumir financeiramente a família com sua profissão, principalmente nos períodos em que o casal tiver um novo filho, porque certamente a mulher terá que diminuir suas atividades profissionais, dada a dependência que o bebê tem de sua mãe.

         A eficácia de uma conversa entre mãe e filha está na amizade entre ambas, que deve ir crescendo ao lado da autoridade materna. Se a filha se acostumou desde criança a expor para a mãe tudo o que sente ou a preocupa, certamente a procurará confiadamente para saber como lidar com as novas circunstâncias da puberdade, e para conferir aquilo que ouve das colegas ou, pior, aquilo que as vê praticar. Se o diálogo é aberto e frequente, a filha compreenderá as desvantagens de um namoro precoce.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Filhos: educação sexual”, de Francisco Sequeira, Editora Quadrante, São Paulo (SP), e artigos “O sentido do namoro”, de José María Contreras; “Namoro e casamento: como encontrar a pessoa certa?”, Juan Ignacio Bañares; “Namoro e vida cristã”, de Aníbal Cuevas, todos em www.opusdei.org/pt-br. Imagem de Ron Lach, adaptada.