Blog

  • A vida como tarefa a realizar

    A vida como tarefa a realizar

    1 – Ser feliz é anseio de toda pessoa. 2 – Perda do sentido da vida. 3 – Ter um ideal é motor para as ações. 4 – Para gestar um ideal de serviço ao próximo. 5 – Cada um é ator de sua própria história

    1 – Ser feliz é anseio de toda pessoa

        Ser feliz é o anseio de toda pessoa. O que torna uma vida feliz? A felicidade não é um bem solitário, mas tem em vista o bem de outras pessoas. Yepes, em seu livro Fundamentos de Antropologia, diz que a vida humana não se constrói solitariamente: se não há um alguém, um destinatário a quem oferecer os esforços, a vida fica aborrecida, sem sentido. O esforço pessoal deve ser um dom ou benefício aos demais. Quem não tem alguém para compartilhar, sente-se só. Entregar-se aos demais é o modo mais intenso de amar, e ajuda a encarar com mais fortaleza as dificuldades, já que o bem almejado não é somente para si, mas tem um beneficiário. A felicidade está em saber amar, em tornar feliz a pessoa amada: ser feliz é destinar-se à pessoa amada. Se ficar truncada a capacidade de amar, a vida humana perde sentido. O engano da vida fácil ou a falta de capacidade para o sacrifício torna ausente qualquer motivação e faz perder o sentido da existência pessoal: se não há um projeto de serviço aos demais não se pode ser feliz, pois a trilha do egoísmo conduz à tristeza.

        “O que se necessita para conseguir a felicidade não é uma vida cômoda, mas um coração apaixonado”, disse Escrivá de Balaguer. O que preenche o coração humano não são coisas, mas o amor às pessoas, sendo a primeira delas Deus e, por Ele, as demais, iniciando pelas mais próximas. O grau de felicidade de alguém está na sua capacidade de amar: trabalhar na enfermaria de um hospital, montar redes de internet para facilitar a vida dos demais, administrar uma empresa, estudar medicina ou preparar aulas são tarefas em benefício dos demais, e os esforços não teriam sentido se não houvesse a quem dedicá-los. Por isso, se diz que o mais profundo e elevado do homem está em seu interior, e que a felicidade afeta a pessoa em seu espírito, sem confundir-se com sentimentos que passam, nem com o prazer pontual que acaba ou com a posse de objetos que se estragam ou se tornam obsoletos. Há pessoas que não encontram sentido na vida e se enganam enchendo-a de prazeres que rapidamente necessitam ser substituídos.

    2 – Perda do sentido da vida

        Há uma forte crise de projetos vitais, e muitos não sabem por onde seguir por falta convicções ou verdades e valores a que se inspirar. Quem não encontra razão para viver não se lança e fica desmotivado, e o coração se empequenece por falta de ideais, ou porque os projetos são exíguos e não vale a pena se arriscar por eles, ou porque se teme o esforço de de realizar algo que vale a pena. A falta de um projeto de serviço aos demais, o engano da vida fácil, torna insípida a existência. Há pessoas que por falta de um projeto se enganam e passam a trabalhar e a viver apenas para usufruir de pequenos prazeres pontuais: academia, passeios, vídeos, comidas, muito esporte, baladas, novo aparelho eletrônico, viagens… Com isso, transformam em finalidades de sua existência o que deveria ser apenas um meio para descansar e retornar ao projeto maior com ânimo renovado. Outros, ainda, trabalham apenas para si e sua família, e fecham os olhos às necessidades materiais, espirituais, culturais e profissionais que carecem tantas pessoas ao seu redor. É preciso motivar com palavras, exemplo e ações propositivas aqueles que se tornaram indiferentes aos que sofrem.

    3 – Ter um ideal é motor para as ações

        Qual é a missão que me cabe, sem a qual a minha história perde sentido? É conhecida a história de um homem que perguntou a vários operários sobre o que faziam: um deles disse que carregava tijolos, outro que levantava uma parede e o terceiro afirmou que construía uma catedral que atravessaria os séculos e onde as pessoas poderiam encontrar a Deus. Essa ideia finalística é importante: não dou apenas aulas de física, ou faço a limpeza do prédio, cozinho ou opero computadores: com a minha atividade facilito a vida das pessoas para que estas possam, por sua vez, colaborar com sua atuação para tornar melhor a vida das pessoas deste nosso mundo. A minha motivação, o meu esforço, as minhas qualidades são um dom, um benefício para os colocar ao serviço dos demais.

        Quando um ideal se apodera de alguém, vem a ser o motor de suas ações, pois a ele se voltam a inteligência, a vontade e os sentimentos. Para isso, é necessária a experiência do silêncio e da reflexão, que criam o ambiente adequado para amadurecer o pensamento e desenvolver um projeto para o qual vale a pena gastar-se. Quem é profundo e não fica apenas nas impressões superficiais das mil imagens e notícias das telas digitais, quem penetra no fundo das questões sabe por onde orientar sua vida. É preciso ter a capacidade de acolher a verdade até ficar fecundado por ela, gerando, assim, ações que podem transformar o mundo. Todos os grandes projetos ou realizações em prol da humanidade, seja no plano moral, artístico e científico, foram gestados na vida espiritual e na solidão de grandes homens: Pasteur, Dante, Cervantes, Jérôme Legeune, Dostoievski, Shakespeare, Ampére, Thomas Edison…

    4 – Para gestar um ideal de serviço ao próximo

        A palavra maturidade significa estar no ponto, sazonado, e por extensão faz referência à plenitude do ser. Costuma-se distinguir três campos fundamentais da maturidade: maturidade intelectual, que não estaciona nas curiosidades superficiais, mas aprofunda-se nas questões importantes por meio da leitura e da reflexão, a fim de atuar de modo correto sobre a realidade; maturidade sentimental para canalizar a própria sensibilidade e fazê-la reagir positivamente diante das necessidades que se apresentam, sem abater-se pelas dificuldades que o empreendimento exigirá; e maturidade social, que leva a ver a sociedade não como oportunidades de network, mas como possibilidade de ajudar ou aliviar as necessidades dos que sofrem.

        Não faltarão dificuldades para se colocar em prática um projeto pessoal de serviço aos demais: a escassez de tempo, a tendência humana de ter uma vida egoísta e centrada em si, medo ao sacrifício para colocar em prática um projeto… A fé em Deus, o espírito de sacrifício e a maturidade pessoal são elementos necessários para seguir adiante e não se deixar abater pelas dificuldades ou pessimismos. Buscar conselho possibilita não errar o caminho e dá segurança ao agir, pois sozinho é mais fácil naufragar diante de momentos difíceis. Estudar, ler, ouvir para melhor compreensão da realidade que se pretende melhorar; depois, unir amigos para essa causa, dando a eles oportunidades de colaborar e preocupar-se pelos outros, ajudando-os a fugir da vida egoísta a que tantos se enclausuram.

    5 – Cada um é ator de sua própria história

        Um ideal valoriza os talentos, as habilidades e as tendências inatas. Carlyle disse que “o viver é uma conjugação ininterrupta do verbo fazer”. Por isso, cada um deve examinar suas possibilidades, gostos e tendências para aproveitá-las na busca de um afazer que torne melhor a vida das pessoas e o mundo que o cerca.

        Cada pessoa é o ator principal de sua história, sem dublê ou intérprete. Todos recebemos gratuitamente capacidades e competências que devemos agradecer a Deus e tirar partido delas para servir aos demais. O Papa Francisco ao falar aos jovens – todos podem ser jovens de espírito! − disse: “Peço-lhes que sejam construtores do futuro, que se metam no trabalho por um mundo melhor. Queridos jovens, por favor, não balconeen a vida, metam-se nela como fez Jesus” (discurso a jovens em 27-07-2013). Balconear é observar os acontecimentos de longe, comodamente, sendo que o equivalente no Brasil seria “assistir o jogo da arquibancada e não entrar em campo”.

        O boletim A escolha de princípios ajudará a buscar um ideal pelo qual vale a pena dedicar a vida.

    Texto produzido por Ari Esteves, inspirado nos ensinamentos de Ricardo Yepes e Javier Aranguren Echevarria, no livro “Fundamentos de Antropologia – Um ideal de excelência humana”, editado pela Livraria e Instituto Raimundo Lúlio, São Paulo. Imagem de Fauxels.

  • Os defeitos das crianças – Parte 4

    Os defeitos das crianças – Parte 4

    1 – A criança tímida ou fechada. 2 – A criança molengona. 3 – Criança que diz palavrões. 4 – Criança desembaraçada que diz inconveniências

    1 – A criança tímida ou fechada

         Quando se fixa o olhar em uma criança tímida, ela fica corada, perturbada, e não sabe onde se meter. Mesmo que tenha o coração cheio de coisas para contar, as palavras lhe faltam, a garganta se comprime e então baixa a cabeça, balbucia algumas palavras ininteligíveis e se cala. Ao não conseguir exteriorizar o que pensa, a criança tímida sofre bastante com isso. Não tem confiança em si. Imagina brincadeiras maravilhosas onde ela será a chefe e sairá vitoriosa. Porém, quando chegam os amiguinhos já não consegue se sobressair e mostra-se desajeitada. Logo estará sozinha em um canto, ocupada em qualquer jogo solitário, triste consigo e com os amigos, a quem não tardará a acusá-los de serem maus.

         É muito cômodo dizer que a timidez se deve ao temperamento, mas talvez deva ser atribuída ao ambiente familiar porque os pais e os irmãos mais velhos são fechados ou excessivamente passivos. Outro caso é o da família que se fecha em si mesma e não abre suas portas aos amigos, e retem a criança em seu âmbito, sem prepará-la para as relações da vida escolar e social. Em famílias fechadas, a criança é desinibida apenas com a mãe, pai e avós, mas ao não conviver com outras pessoas fica travada na escola diante de colegas de sua idade e professoras. Deve-se dar às crianças a oportunidade de conviverem com outras pessoas desde cedo. Há também uma situação inversa, que é a da mãe dinâmica e operativa que paralisa a ação do filho ou filha porque seu ritmo de vida é excessivamente rápido e a criança não chega aos seus calcanhares, refugiando-se numa timidez inconsciente.

         Nos casos acima descritos torna-se necessário uma conversa em família para diagnosticar o que pode melhorar no ambiente da casa, a fim de proporcionar a cada membro possibilidades de desenvolvimento.  Algumas vezes ocorre que a família troca o local de residência, ou vai a uma colônia de férias ou porque mudou o ambiente da casa devido a chegada de um irmãozinho, e a criança tem dificuldade de adaptação. Deve-se preparar e encorajar a criança antecipadamente para aceitar uma mudança.

         Há crianças que só se sentem confortáveis com outras menores do que ela. Em tais casos, deve-se proporcionar um ambiente com crianças da mesma idade e dar tempo para a criação das novas amizades, sem fazer discursos sobre a necessidade de ter amigos.  Os tímidos muitas vezes são crianças inteligentes, observadoras. É preciso diminuir as oportunidades de isolamento, e proporcionar os meios para se exteriorizarem, tal como o garoto tímido que passou a fazer parte de um grupo de crianças que faziam ginásticas, e retornava para casa descontraído, confiante, pois o dispêndio de energias físicas tornava-o mais equilibrado, conseguia dominar melhor seus gestos e sentir-se menos desajeitado.

         Uma menina gostava de se exprimir através do desenho e encontrou nele mais uma ocasião para conviver com as amigas de sua idade. Ao admirar seus desenhos, pouco a pouco ela foi adquirindo confiança em si. O que não se pode fazer é chamar a atenção para a timidez da criança, principalmente diante de outros, pois isso reforça mais a atitude reservada. Quanto se chama a atenção da criança para as suas singularidades, mais ela se convencerá de que toda a gente tem os olhos fixos nela para a metê-la em ridículo. O que temos de fazer é esquecer suas maneiras acanhadas, e fomentar pouco a pouco oportunidades de desinibição.

         Dizer a uma criança que é tímida ou menos inteligente do que outra, ou comparar qualquer imperfeição, enraíza nela a convicção de sua inferioridade. Em determinada família, uma menina de sete anos, um pouco medrosa, era sempre convidada a se espelhar no irmão de seis anos, tido como desembaraçado, atirado. Com isso, a criança, que tinha muitas outras virtudes, sentia não ter a confiança da mãe, que apenas focava-se no irmão, que era o que menos necessitava de apoio.

         É preciso ajudar a criança tímidas a encontrar o seu lugar. Em famílias onde são sempre as mesmas crianças que se antecipam a contar as coisas, acabam sendo as que mais recebem a atenção de todos, pois se exprimem de maneira divertida; e sobra para o tímido só um interesse de fachada, que o faz pensar que não conta para nada. É importante que o tímido se sinta útil, acolhido, amado e que tenha o seu lugar com responsabilidades no lar para que triunfem nelas. Uma menina de seis anos tem receio das refeições com pessoas estranhas em casa, pois ao falar algo sem maior sentido ralham com ela. A mãe, então, mudou a estratégia e encarregou-a de passar o pão, e estar atenta para que não nada falte aos convidados. Ao desempenhar bem esse papel, saiu de si ao deixar de se pôr em evidência.

         Há o costume de dizer que a timidez é uma atitude de orgulho, de não querer ficar mal diante dos demais. Trata-se de um juízo apressado que desconhece as desvantagens que a timidez traz ao desenvolvimento harmonioso da personalidade, e que faz sofrer muito o tímido. Todos recebemos talentos de Deus, e seria uma pena não incentivar os filhos tímidos a servir-se das qualidades ocultas que possui, a fim de fazê-las render e dar segurança à criança. Ter fé nas possibilidades dos filhos para que eles se desenvolvam.

    2 – A criança molengona

        Há crianças que andam devagar, vestem-se, deitam-se e se despertam vagarosamente. É preciso compreender esse ritmo lento, que as fazem levar mais tempo para sentir, perceber e compreender. Costumam ser inteligentes e profundas. Convém respeitar-lhes a cadência e não perder a paciência, mas ajudá-las com calma e respeito a que consigam dominar melhor seus movimentos, pondo um pouco mais de ritmo. Outras crianças são excessivamente minuciosas, meticulosas, e por isso demoram mais tempo que o necessário para fazer as coisas, pois têm falta de confiança em si mesmas e querem as coisas mais perfeitas que o necessário, a fim de receberam a aprovação dos adultos. Neste caso, é preciso ajudá-las a compreender que o perfeccionismo pode se tornar algo mau e levar a manias do tipo “quem mexeu no meu lápis, pois estava com a ponta virada para este lado da mesa?”; e depois, porque não se deve perder mais tempo que o necessário para cada coisa.

         Outras crianças revelam muito pouco interesse por atividades importantes, e não têm verdadeiro entusiasmo por ajudar nas tarefas do lar, nem se deixam arrebatar pela leitura de contos ou jogos que puxem mais pela cabeça. Então, é preciso encontrar uma maneira de as contagiar, de acender nelas uma chama interior que as motive ao mostrar o valor que tem colaborar para que o lar seja acolhedor, ordenado e grato a todos, dever esse que cabe a cada membro da família, inclusive aos filhos. Quanto ao hábito da leitura, sugerimos aos pais munirem-se de bons argumentos para ajudar a criança a descobrir um mudo novo, cheio de aventuras e mistério, que os bons contos possuem (para isso, sugerimos a leitura do boletim Menos telas digitais e mais livros”).

         Outros meios que podem ajudar a criança a se entusiasmar por algo e passar a ser mais ativa são os trabalhos manuais, jogos, exercícios físicos. Foi um sucesso a iniciativa de uma família que sugeriu à criança, que parecia ter pouca iniciativa, para que criasse uma horta na varanda do apartamento, feita com garras plásticas cortadas ao meio e fixadas numa tábua encostada na parede, deixando a parte do gargalo com pequenas pedras para escoar a água e reter a terra. A criança buscou as sementes, leu sobre o assunto na internet e ficou maravilhada ao ver sua horta crescer e a família utilizar as verduras nas refeições.

         As crianças com ritmo lento têm necessidade de que as ajudem de modo discreto para não as humilhar. Muitas não se acostumam com a vida tumultuosa e apressada que os dias atuais impõem. Depositar confiança nelas, compreender seu ritmo e sem prejudicá-las, levá-las a que ajam em melhor compasso com alegria e otimismo ao transformar o esforço por ser mais ativa em mais um jogo ou brincadeira, e proporcionar a elas responsabilidades que possam dar conta.

    3 – Criança que diz palavrões

         Algumas crianças dão a impressão de sentir prazer em repetir palavras grosseiras que chamam a atenção sobre elas e não deixam de espantar as pessoas que as rodeiam. Quando são muito pequenas, podem repetir palavras que não compreendem o significado, mas repetem-nas porque parecem curiosas e as pessoas riem. Bem, em primeiro lugar não dar demasiada importância e não levar isso a sério demais. Algumas medidas devem ser tomadas: não rir e, sem desmaios, mostrar certo desagrado, pois o subconsciente da criança a lembrará que sua ação não agradou e não animará a repetir o feito (o subconsciente leva a repetir ações cujo resultado trazem agrado à própria sensibilidade).

         Mostrar-se severo quando a palavra grosseira foi dirigida a outra pessoa com a intenção de a magoar ou ferir. Neste caso, o que está em causa é a maldade. Não é raro que as crianças repitam essas palavras para se afirmar ou para fazer rir. Trata-se de combater o aspecto da grosseria com calma, mas decididamente. Aproveitar para dizer que o que foi dito é uma descortesia e não tem graça alguma. Depois, é preciso proibir com firmeza a que não repitam o dito, mas sem levar para o lado do trágico. O essencial é que os adultos não se ponham a rir. As grosserias podem vir à boca em momentos de cólera da criança, mas nesse caso o que está em causa é a cólera, e não uma espontaneidade descontrola e inoportuna. No caso de dizer asneiras porque está encolerizada, a melhor tática consiste em isolar a criança e dizer a ela para voltar ao convívio dos demais quando estiver calma.

    4 – Criança desembaraçada que diz inconveniências

         Se a família admira os gestos e as palavras da criança muito desembaraçada, pode estar tornando-a vaidosa e o centro das atenções ao incitá-la a pavonear-se, facilitando a que chegue dizer indelicadezas ou palavras que possam magoar ou deixar mal as pessoas. A criança que não ter freios na língua e se põe a dizer de bate-pronto tudo o que vê ou que lhe passa pela cabeça, e cuja espontaneidade é descontrola e inoportuna, precisa ser corrigida com frequência para não se tornar desagradável às pessoas. Isso pode ser feito com exemplos, e fazê-la compreender que as pessoas possuem sensibilidades diferentes, e que é preciso respeitar isso. Os pais devem ajudar a criança a ser discreta, delicada, compreensiva e a não comentar diretamente com as pessoas algo que a estranhe (pode perguntar a sós aos pais). Deforma-se o caráter e o temperamento da criança que diz sempre o que pensa para produzir impressão sobre as pessoas, sem medir consequências, tornando-a escrava das impressões imediatas.

    Texto extraído, adaptado e completado por Ari Esteves com base no livro “Os defeitos das crianças”, de J. Vimort, Editorial Aster, Lisboa, Portugal.

  • Os defeitos das crianças – Parte 3

    Os defeitos das crianças – Parte 3

    1Criança que se queixa demais. 2 – Criança que anda sempre no “mundo da lua”. 3 – Pais que oferecem presente de grego

    1Criança que se queixa demais

         Talvez haja complacência ou concordância dos pais diante da criança que, escandalizada, veio se queixar de um irmão ou companheiro ao não saber o que pensar acerca da atitude que presenciou, e vêm contá-la para que seja ajudada no julgamento. Neste caso, será bom escutar e depois dizer à criança o que está bem ou mal na ação em si, pois é uma ocasião de ajudar a formação da consciência dela. Porém, deve-se ter o cuidado de não julgar a intenção e nem criticar a outra criança, tendo sempre uma expressão de indulgência e de desculpa para com ela. Não se deve punir uma criança que foi delatada para que seu acusador não ganhe o estranho gosto ou poder de conseguir que os outros sejam castigados. É preciso afastar o vício da queixa e da denúncia e, em outro momento, se for o caso, conversar a sós com a criança denunciada.

         A criança pode ficar chocada com o que viu ou ouviu na escola. Para isso, o princípio é o mesmo: escutar e julgar o fato em si, sem fazer juízo acerca da intenção da outra criança, que pode ter agido por falta de conhecimento ou outra deficiência. Ocorre também o caso do filho mais velho encarregado de cuidar do irmão menor que aborda as dificuldades que encontrou. Neste caso, em vez de agirem os pais, devem instruir o mais velho para que resolva ele mesmo a questão com o pequeno, caso torne a ocorrer. Não aceitar queixas e demonstrar desagrado contra elas ao perceber uma ponta de maldade no desejo de que o outro seja punido. Pode-se pedir ao delator que ajude o irmão a agir de modo correto. Seja como for, nunca se deve castigar ou passar uma descompostura com base no que disseram. Nas discussões entre crianças, como foi dito, se uma delas vem se queixar, os pais devem abster-se de intervir e sugerir que elas mesmas resolvam a questão.

         Quando a criança conta o que a outra fez de mal, no fundo deseja que o adulto resolva a questão. Não se deve aceitar tal encargo e arranjar as coisas de maneira que a própria criança se desvencilhe ou se defenda. Isso nem sempre é possível, mas é preciso ter esse cuidado, pois se a criança se habituar a contar qualquer coisa de ruim que testemunhou na escola – visão sempre parcial −, deve a família encerrar logo assunto e não alimentar falatórios. Com isso, o filho ou filha aprenderá a não mexericar e a não falar mal dos outros. É muito mais interessante que o filho aborde assuntos normais e seja ouvido com atenção.

         Todos sentimos respeito pelos nossos amigos, e gostamos de contar as coisas boas que fizeram, e não as que lhe saíram mal, para não difamá-los. Às vezes são os próprios pais que levam os filhos a fazerem queixas ao dizer a eles: − “Se alguém aborrecer você na sala de aula, vá contar à professora”, ou pior: − “Não leve desaforo para casa”, incentivando a criança a não perdoar ou a responder mal a todos, inclusive aos professores. A maneira da criança não fazer queixas é perceber o que de bom os outros fazem, ou tentar ela mesma resolver suas questões conflituosas.

    2 – Criança que anda sempre no “mundo da lua”

         Crianças habitualmente distraídas preocupam seus pais, a ponto de se perguntarem sobre o que a vida reservará a elas se continuarem avoadas. Se são verdadeiramente distraídas, não é culpa delas e não se pode viver a censurá-las ou tratá-las com aspereza, como se quisessem ser distraídas. Deve-se ajudá-las a colocar a cabeça e os sentidos naquilo que fazem.

         Muitas crianças habituaram-se a viver imersas na velocidade das telas digitais, e passam a ver o mundo real como lento, aborrecido e entediante. “Andar na lua” ou em seus sonhos e pensamentos é para elas um refúgio. É preciso ajudá-las a se interessar pelas coisas normais da vida, começando pelo lar ao atribuir a elas tarefas que possam desempenhar, afirmando que é para o benefício de todos. As crianças gostam de ajudar, mas por serem lentas e inicialmente não fazem as coisas com perfeição, e podem não chegar a fazê-las se os pais não têm paciência de ensiná-las uma e outra vez, ficam sem encargos domésticos e, ao se sentirem inúteis e isoladas, refugiam-se em suas coisas ou no mundo da lua.

         Outros modos de trazer a criança de volta a terra, é dedicar tempo para dialogar com ela, ajudá-la a perceber as coisas interessantes que ocorrem no seu entorno, interessar-se pelo que gosta ou faz, depositar confiança em que desempenhará bem determinada tarefa e incentivar a que brinquem com outras crianças, e não isoladamente. Depois, evitar de perguntar a ela quando estiver distraída sobre o que está pensando, pois será indiscreto e de resposta embaraçosa, já que a criança não saberá explicar com exatidão em que parte ou cratera da lua estava: o diálogo para mantê-las com os pés e a cabeça na terra deve iniciar antes de que partam de “viagem”.

         É na vida de todos os dias que se deve estabelecer a ligação entre a criança e o mundo que a cerca, sendo os pais esse elo. Ajudá-la a perceber a beleza de uma flor, a arte têxtil da aranha, o paciente broto da erva que se alça da terra, a dura vida do caramujo que tem a sina de andar com sua casa nas costas, a pombinha na calçada que sempre sede passagem aos homens…. Com isso, ajudará o filho ou filha a não fugir da vida e a encontrar o seu lugar ao não ser vítima do celular, games, programas de televisão ou de outras mídias que o retiram da existência real e o transportam para um mundo inexistente imposto a ele. Os pais devem estimular a criança a utilizar mais a inteligência ao incentivá-la a aprender a descansar criativamente com leituras, quebra-cabeças, xadrez, dama, lego, vídeos culturais previamente programados. Abandonar a criança diante de telas digitais é o caminho mais rápido para tornar preguiçosa a mente dela.

         Outra janela para afastar a criança das telas digitais é a natureza, que deve ser aproveitada pelos pais. Ao correr, pular, pesquisar, subir em árvores, ocultar-se entre arbustos, a criança interage com a natureza e ganha perspicácia. Dar alimentos a aves e peixes e rir das formigas que carregam fardos maiores do que elas próprias, são atitudes contemplativas. A criança aprenderá a ser paciente e a não exigir tudo prontamente ao fixar os olhos no lento arrastar-se do caracol, pois perceberá que tudo na natureza tem seu tempo, tal como o broto da flor que se alça lenta e timidamente da terra. A criança deve deitar-se na grama com seus pais e sentir cócegas sem medo de alergia, e olhar para o céu para encontrar os incríveis desenhos que as nuvens elaboram.

    3 – Pais que oferecem presente de grego

         A criança é inexperiente e se constrói a partir da sabedoria de seus pais. Mas é uma pena presenciar pais que agem contrariamente ao que o filho precisa, pois ofertam dádivas que são um prejuízo para ele, tal como a cidade de Tróia que recebeu de presente dos gregos um grande cavalo de madeira ocultando soldados que de noite abriram os portões da cidade para ser invadida pelo exército de Ulisses. Ao invés de ajudar a criança a viver com intensidade as experiências do lar, das brincadeiras com objetos simples, artificializam a vida dela ao presenteá-la com celular ou tablete desde as primeiras idades. Diante de tal atitude pode-se concluir que a oferenda é para eles mesmos, pais, que querem manter a criança entretida (alheada) em telas, a fim de terem um falso sossego, pois em breve terão diante de si um pré-adolescente passivo, inadaptado, pouco criativo, com mente preguiçosa e indolente para estudar e ajudar aos demais. Os pais também necessitam abandonar as telas e frear suas correrias para “gastar” tempo com a família, dialogar e fazerem planos juntos, sejam passeios, encargos no lar, jogos em que toda a família participa. Muitas vezes as crianças “andam na lua” para suprir a falta de atenção dos pais.

        Continuaremos com o tema “Os defeitos das crianças”, tratando no próximo boletim da criança tímida ou fechada e da molengona.

    Texto extraído, adaptado e completado por Ari Esteves com base no livro “Os defeitos das crianças”, de J. Vimort, Editorial Aster, Lisboa, Portugal.

  • Os defeitos das crianças – Parte 2

    Os defeitos das crianças – Parte 2

    1 – A criança e a mentira. 2 – A criança colérica. 3 – A criança orgulhosa

    1 – A criança e a mentira

        Para as crianças triunfarem sobre seus defeitos, necessitam ser ajudadas com calma, paciência e muito amor. Uma mãe ficou desnorteada porque seu filho mentiu ao dizer a ela que havia andado de barco no dia anterior. O que ocorreu foi que a criança viu em um filme outros pirralhos passearem de barco a vela, e como para ela sonho e realidade por vezes se confundem, e também para gabar-se a fim de se impor um pouco diante dos olhos dos outros, fez tal afirmação à mãe. Mais do que propalar que o filho é mentiroso, a mãe poderia dizer a ele que percebeu o gosto dele por andar de barco, e que procurará fazer isso no próximo passeio familiar. A afirmação da criança foi uma manifestação de orgulho? Não, mas talvez amor-próprio porque é preciso ter algum para crescer no mundo sem se sentir esmagado por ele, e para alimentar grandes desejos. Muitas crianças que atravessam o período da mentira, o fazem por alimentar grandes desejos e têm vontade de que as tomem como pessoas importantes e mais crescidas do que efetivamente o são. É uma crise normal que deve logo deve desaparecer.

        Outras vezes a criança mente porque receia as consequências dos seus atos, e ao negar obstinadamente o faz como se estivesse dizendo que não queria fazer o que fez. Ao invés de perguntar abruptamente se foi ela, a criança, que queimou a ponta da toalha, poderia perguntar onde foi que ela encontrou fósforos: − “Na gaveta”, teria respondido, como que assumindo o fato da toalha chamuscada. Se a criança for tímida ou sensível, e teme muito um castigo, ou porque sente muita vergonha, será preciso compreender que às vezes sua saída será uma mentirota. Cabe, então, aos pais ajudá-la e encorajá-la a que tenham confiança neles, e que pode dizer com tranquilidade as coisas que saíram erradas. Para dar essa confiança, os pais não devem levar as coisas para o lado trágico, pois quanto mais dramatizarem, mais esmagam a criança sob a vergonha. A melhor maneira de desencorajar a mentira da criança é demonstrar plena confiança nela, e mesmo que por vezes possam ser enganados, jamais devem dar mostrar de que desconfiam da criança, pois só assim a criança sentirá remorsos de ter mentido para aqueles que a amam tanto. Pelo fato de uma criança mentir algumas vezes, não desconfiar sistematicamente dela, nem dizer isso a outras pessoas, pois seria julgá-la ou considerá-la mentirosa, abandonando-a no seu defeito e diminuindo a sua imagem ou boa fama diante dos outros, o que seria injusto. A criança confessa espontaneamente seu erro quando há um ambiente de amor, de calma, de confiança. Por isso, não procurar que ela confesse um erro diante de pessoas estranhas.

        É claro que, com delicadeza, se pode estimular que a criança confesse a mentira, sabendo que ela já sente remorso pelo que fez de errado. Pode-se repor a verdade com um sorriso, sem gritar para não dramatizar e tornar a situação violenta demais. A criança deve ter a possibilidade de reparar o que fez: se quebrou o vaso deve limpar o chão e colar as partes quebradas ou comprar outro com o dinheiro do seu mealheiro. Pode se mostrar mais ou menos contrariado, mas nunca com cara de tragédia. Crianças que procuram autenticamente enganar, a atitude dos pais deve ser como a de Cristo: mostrar se amável e compreensivo, dispostos a desculpar e perdoar, mas ao mesmo tempo ser exigentes, firmes, para que a criança perceba que os pais têm grande paixão pela verdade, e por isso procuram dar exemplo.

    2 – A criança colérica

        Gritos, pontapés nos móveis, injurias, quebrar objetos, rostos fechados e contrariados. O que na verdade está ocorrendo é que a criança está tendo uma crise de cólera, e não se deve provocá-la ainda mais ao forçá-la a se submeter, porque ela julga ter razão. Se o que se pretende é o bem da criança deve-se arranjar uma maneira de obter a colaboração dela. Para isso, os pais não devem se enervar ou dramatizar o incidente e nem responder cólera com cólera, rir ou debochar, pois seria humilhante para a criança. O bom senso aconselha manter-se sereno e firme, pois isso acalma e desarma a criança, e evita dizer algo que possa magoá-la. É melhor esperar que passe o surto de raiva e, horas depois, ou talvez no dia seguinte, quando a criança já estiver calma, conversar com ela sobre o modo errado com que agiu no supermercado, porque não quiseram comprar a barra de chocolate que ela pediu. Pedir para não repetir mais a falta de respeito que teve. Até pode, nesse momento, dizer qual a medida corretiva que passarão a ter diante de tais comportamentos: por exemplo, não irá à casa dos primos no fim de semana; ou não assistirá desenhos naquele dia.

        Uma criança pode se exaltar porque se viu frustrada em algo, ou porque foi contrariada em ponto essencial para ela: pretendia sair na rua para brincar, mas lhe foi pedido que não fosse. Pode-se desviar o interesse para outro sentido ao concluir o que havia de legítimo e bom no desejo da criança, e propor algo que corresponda à sua aspiração: se queria correr na rua, pode-se indicar que o faça no pátio; se queria desenhar ou pintar na mesa da cozinha, que o faça no quintal ou na varanda.

        Algumas crianças têm dificuldades de se dominar e acabam por explodir quando seus instintos são contrariados. Realmente, os pais têm diante de si a tarefa de ajudá-la a não ser marionetes de seus sentimentos e paixões, ao não entregar-se irracionalmente a eles. Para isso, deverão observar as reações da criança ao perder uma partida de futebol ou outro jogo para os amigos. Fazê-la cair em si ao perceber que a amizade é um bem maior que deve ser preservado, e que perder uma partida não é o fim do mundo. Muitas vezes será necessário aplicar uma medida corretiva na criança colérica, vítima de seus instintos, de suas zangas, a ponto de se encerrar numa cara enfezada que parece não ter fim. É preciso intervir para libertar e ajudá-la a dominar tanta impetuosidade: pode-se isolar a criança e dizer que volte para junto dos demais quando estiver mais calma. Porém, o essencial é que os pais não se exaltem: o rosto sereno e a atitude calma e firme dos pais desarmam a cólera da criança.

    3 – A criança orgulhosa

        O orgulho não parece ser um defeito verdadeiramente profundo nas crianças. Por vezes, se tem por orgulho aquilo que não o é: se a criança mostra um desenho e afirma que está bonito porque ela o fez, talvez haja um pouco de vaidade e não de orgulho, pois ela tem necessidade de ser apreciada pelo adulto, e quer avaliar a sua obra. Pertence aos pais o dever de apreciar os progressos que a criança faz, pois para progredir ela necessita ter autoestima e confiança em si mesma. Ao afirmar que ela progrediu, mas que pode fazer melhor, já a coloca longe de fomentar uma atitude de orgulho, ao mesmo tempo que a deixa contente com o progresso realizado. A menina que diz − “Veja como sou bonita”, a mãe pode dizer: – “Sim, você tem um vestido bonito”; ou: − Sim, hoje seu cabelo está arrumado, mas nem sempre”. Com isso, desvia um pouco a atenção da criança sobre si mesma.

        Em geral, as crianças que garganteiam seus feitos e que são vaidosas, muitas vezes têm falta de confiança em si mesmas, ou complexo de inferioridade que as fazem andar sempre à procura de saber o quanto valem, a fim de crescer diante dos próprios olhos. O remédio será demonstrar amor por elas, e não pelas suas qualidades. Sentir-se amadas e não levar a sério as gabarolices que dizem; ensiná-las a ver que somos amados por Deus porque somos seus filhos, e não porque podemos fazer ou ter isso ou aquilo; e se podemos fazer isso ou aquilo, é porque Ele nos deu gratuitamente essas qualidades, que devemos agradecer.

        A criança precisa ser ajudada a reconhecer seus erros e a descobrir as suas fraquezas: – “Hoje você não fez o seu trabalho escolar”. Ao dizer isso com calma, bondade e um sorriso, transmite o recado de que se confia que ela o fará. Pode-se acrescentar que compreende que não fez a lição, mas que conseguirá fazer se estiver um pouco mais atenta aos seus horários. O orgulho é uma espécie de mentira, mas se os pais fizerem a criança perceber com coragem seus pontos fracos, ajudando-a a corrigir-se e a sair de si, o orgulho, que é culto a si mesmo, se esvai porque ela aprenderá a ser humilde e a admirar as qualidades dos outros, e não a invejá-las. Quando uma pessoa se compara com outra e procura afirmar-se à custa de rebaixá-la, segue a trilha do orgulho, sendo necessário trabalhar com muito cuidado para extirpar essa erva daninha.

        Pais e educadores muitas vezes são os primeiros a comparar a criança com um irmão ou um amigo, e isso não é nada bom, pois ao invés de buscar o bem da criança, procura-se o bem de si próprio ao diminui-la. No caso de crianças com tendência à comparação, como forma de se sobressair, pode-se restabelecer sempre a estima do outro fazendo ela perceber as qualidades que possui a outra criança, e criar entre elas um clima de amizade, de comunidade.

        Ninguém tem o direito de humilhar a criança, pois isso não é um princípio de educação. Humilhar é desencorajar e matar qualquer coisa no interior da criança. Nunca se deve contar em público algo que a criança fez de errado. Sendo a humildade a verdade, cada pessoa deve reconhecer sem vergonha ou tristeza suas próprias fraquezas e lutar para corrigi-las; e amar os outros como eles são, ajudando-os a que melhorem ao corrigir com oportunidade, carinho e respeito. Os pais também devem reconhecer seus erros e corrigir-se, e pedir desculpas aos filhos quando foram injustos com eles. Ao aplicar alguma medida corretiva nos filhos, devem fazê-lo com o fim de ajudar a criança, e não como reação do amor-próprio ferido.

        Continuaremos com o tema “Os defeitos das crianças”, tratando no próximo boletim das que se queixam demais, e das que parecem estar sempre com a cabeça no mundo da lua.

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves com base no livro “Os defeitos das crianças”, de J. Vimort, Editorial Aster, Lisboa, Portugal. Imagem de Ketut Sublyanto).

  • Os defeitos das crianças – Parte 1

    Os defeitos das crianças – Parte 1

    1 – Ninguém é perfeito, nem os filhos. 2 – O orgulho e o egoísmo. 3 – A preguiça. 4 – Pequenos furtos. 5 – A mentira

    1 – Ninguém é perfeito, nem os filhos

        Os pais se lamentam muito quando descobrem os defeitos dos filhos. Deveriam alegrar-se, pois com isso terão um norte para conduzir sua educação. Além disso, como ninguém é perfeito, isso inclui também as crianças, que padecem dos mesmos defeitos de todos os filhos de Eva. Quais os defeitos que aborrecem mais os pais? Bem, a lista pode ser grande: a criança não fica quieta, não cede e enfrenta os pais; é egoísta, impulsiva e foge das tarefas? Então, se poderia concluir que debaixo dessas atitudes – que certamente devem ser corrigidas − se esconde um temperamento forte, uma personalidade muito vincada que pode chegar a fazer maravilhas, quando bem orientada. A criança é fechada, não diz nada e não se sabe o que pensar dela? Talvez seja uma criança excessivamente sentimental, pouco segura de si mesma. É tímida e não sabe dizer tudo o que tem no coração? Talvez tenha baixa autoestima porque não consegue fazer as coisas que sonha realizar.

        A mentira e os pequenos furtos são os defeitos que mais torturam os pais, a ponto de afirmarem que estariam dispostos a aceitar tudo, menos algum desses defeitos. Sofre-se menos ao pensar que essas fazes, caso ocorram, são sempre curtas, e não possuem a mesma intenção de um adulto que age da mesma maneira. Entretanto, é preciso ter a coragem e a paciência para ajudar a criança a superar qualquer desses comportamentos, identificando o motivo que a leva agir assim.

    2 – O orgulho e o egoísmo

        Na realidade, os piores e mais preocupantes defeitos, tanto nos pirralhos como nos adultos, são o orgulho e o egoísmo, que podem existir em crianças que nunca mentiram, nem surrupiaram trocados para o doce. O egoísmo natural da criança, que a leva a só pensar em si, em suas coisas, em seus pequenos planos, e não presta atenção e nem ajuda os outros, não é o mesmo egoísmo de um adulto, e ocorre porque elas têm dificuldades de compreender a alteridade, de interpretar os sentimentos alheios, e necessitam ser estimuladas a isso, como também devem ser estimuladas a serem solidárias e a doarem os brinquedos em bom estado que já não utilizam mais. Quando os pais as fazem compreender a dor dos demais, elas aprendem a ter coração e a compartilhar com os que sofrem.

        O orgulho se mostra na criança que faz tudo para ser mais notada, que está sempre pronta para diminuir o que os outros fazem melhor do que ela, ou quando se engana e não reconhece o próprio erro, que atribui como causa os outros. A primeira virtude não é a honestidade, nem a veracidade em crianças que não mentem, nem a sensatez das que estão sempre quietas: a primeira virtude é a caridade, o amor, a capacidade de se dar a Deus e aos demais. Se estes pensamentos estiverem mais presentes, os pais poderão olhar de maneira diferente para os defeitos dos filhos.

    3 – A preguiça

        É preciso aprender a olhar para os filhos como Deus nos olha: primeiro, pensar que os filhos necessitam dos pais para aprender a ser melhor. Um filho preguiçoso irrita seus pais, mas a preguiça da criança é facilmente superada por meio de pequenas tarefas atribuídas a ela no lar, com as quais, ao cumpri-las, irá fortalecendo a vontade para ir contra os sentimentos, que tendem a dominar e levar as crianças apenas ao prazenteiro. O que não pode ser é que os pais transformem o defeito do filho em tendência ao criarem apodos que repetem com frequência à criança: “você é preguiçoso”, “não tem jeito de melhorar”, “onde já se viu tal coisa”… A mãe que todas as manhãs repete a mesma lengalenga ao dizer à filha que é uma molengona, porque leva uma hora para se aprontar, cataloga a criança e a faz se fixar no defeito a ponto de vê-lo como impossível de desarraigar.

        Se os pais olharem para as qualidades da criança, para aquilo que ela realiza melhor, e não apenas para a preguiça dela, a partir dessa visão positiva poderá ajudá-la a se esforçar porque transmitem à criança confiança em si mesma. Há crianças que com pertinácia e paciência se põem a fazer um modelo reduzido, que montam ou desmontam peças com habilidade e atenção, revelam qualidades que os pais devem elogiar. Em vez de repetir a todo momento que a criança molengona − pior é quando dizem isso diante de pessoas estranhas −, deveriam afirmar o que ela realiza bem. Caso seja difícil para a criança fazer um esforço grande contra a preguiça, pode-se “comer o pudim quente pelas beiradas” ao ajudá-la a começar a colocar em ordem seus brinquedos, jogos ou cadernos. Com isso, ela fortalecerá a vontade para realizar ações mais custosas, como estudar, dormir e levantar no horário, ser disciplinada…

        Comparar uma criança com outras da sua idade, seja um irmão, parente ou amigos, só serve para paralisá-la e fazê-la fechar-se em si mesma. Ao invés disso, dar a ela responsabilidades de acordo com a capacidade que possui, e deixe-a ter iniciativas para realizá-las, pois assim irá vencendo indiretamente a preguiça. Certa família deu à criança um espaço para cultivar verduras em garras pets, e a criança reagiu muito positivamente e fez um verdadeiro canteiro, e se sentia feliz quando serviam suas verduras na mesa. Inclusive a criança, que era tida como passiva e preguiçosa, foi buscar informações com o vendedor de sementes, conseguiu revistas sobre jardinagem, entre outras iniciativas. É preciso ver os filhos como Deus os olha: com um olhar de amizade, carregado de compreensão e de confiança; um olhar que implica em progresso na alegria e no amor.

    4 – Pequenos furtos

        Uma criança que faz pequenos furtos está muito longe de ter as mesmas intenções de um adulto que faz o mesmo, pois são dois mundos muito diferentes. Mas isso não significa que não se deve repreender seriamente a criança, e até colocar alguma medida corretiva. Mas é necessário proceder de maneira diferente da que seria com um adulto. Surrupiar bolos ou doces é puro caso de gulodice, e não um verdadeiro furto. Mas, mesmo não sendo algo grave, é preciso intervir imediatamente, com decisão, desde a primeira vez, ao dizer para não repetir mais isso, que os bolos são para todos, e que se quiser terá que pedir para receber ou não. Se a criança reincidir se pode privá-la, por exemplo, da sobremesa. Ou pode-se dar a ela um saquinho de bombons e ensiná-la a controlar-se para não comer tudo de uma vez, além de oferecer o doce aos outros.

        É preciso compreender e agir com paciência quando ocorre furto no porta-moedas, ou porque tirou um pacote de bombons da mercearia, ou uma caneta do amigo. É raro que a criança furte por ser ladra, ou desonesta porque sofre de alguma deformação que a leve a esse vício. Em vez de pensar no pior, procure encarar outras hipóteses. A maior parte das vezes, a criança não tem noção de propriedade e apanha o que vê pela frente para ter uma satisfação que não conseguiria tê-la de outra maneira, ou porque não dispõe de dinheiro algum no bolso. Por estar convencida de que os pais gostam menos dela do que do irmãozinho, ou porque se sente uma inútil na escola ou em casa, e que ninguém deposita confiança nela, então surge a necessidade de ter o seu mundo com suas coisas um pouco secretas. Assim, o furto é uma compensação para obter uma satisfação. É preciso procurar compreender o que não anda bem por trás do surrupio e encontrar o remédio. Amar essa criança, falar com ela, depositar confiança nela, atribuir responsabilidades, arranjar as coisas de maneira que ela se apaixone por trabalhos manuais e encargos domésticos; que faça a coleção de selos ou de figurinhas, que pratique esportes, passeie na praça. Claro que isso levará algum tempo e precisará que os pais atravessem maus momentos e procurarem a causa para atacar o mal pela raiz.

        Não encarar a situação pelo lado trágico. Pequenos furtos não significam que tudo esteja perdido. O que mais importa é não dizer à criança que irá para prisão, que é a vergonha da família, que é uma ladra… Não desanimar, pois é menos grave que ser egoísta, que revelar falta de bondade de coração. Falar abertamente e com muita calma com o filho, e mostrar que agiu mal. Não colocar na criança a ideia de que é desonesta, mas vincar que cada um tem direito ao que possui porque trabalhou para consegui-lo; e que ela, a criança, deve aprender a obter o que deseja pelas vias normais: porque ganhou, porque comprou. Dependendo do objeto, animar a fazer seus próprios brinquedos, ou saber prescindir das coisas sem invejar ninguém (tem mais quem precisa de menos). Indicar a maneira correta de se comportar no futuro, dar um pouco dinheiro e perceber como o gasta, e dizer que tem confiança nela. Não fechar os armários à chave, mas evitar deixar o dinheiro à vista. Não se pode dizer essas coisas a pessoas de fora, a não ser ao outro cônjuge para que ambos trabalharem em conjunto, pois a criança tem direito a uma boa reputação.

        Como aplicar uma medida corretiva? Também não se deve ser excessivamente indulgente e desculpar tudo. Deve-se castigar rapidamente e não voltar a falar mais no assunto: é caso encerrado. O melhor castigo, e o mais natural, é a reparação: entregar ao dono da mercearia o preço de um saco de bombons furtado, e melhor ainda é que a criança pague com as economias tiradas do cofrinho dela. Em geral, se for muito humilhante obrigar a ir ter pessoalmente com o dono da mercearia, então se poderá indicar a ela para dar o dinheiro a uma família necessitada, ou comprar uns doces e levar para essa família. O essencial é que os pais dominem o desgosto, depois de aplicar com calma a medida corretiva. Em seguida, pôr-se a pensar em outras medidas, tal como ensinar a criança a se compadecer pelos que sofrem, a ser solidária e ir com ela a um orfanato para que doe algum brinquedo que esteja em boas condições e que não utiliza mais, ou visitar um asilo ou casa de repouso de idosos, animando-a a levar alguns doces que comprou com o dinheiro da mesada e, se necessário, completado com a contribuição dos pais.

    5 – A mentira

        Meu filho mente! Para a criança, sonho e a realidade se confundem porque querem se gabar um pouco para ficar bem diante dos outros. Certos pais achavam que o filho exagerava em tudo. Então, resolveram estabelecer um jogo com a criança, que facilmente saia da realidade ao narrar seus feitos na escola. O jogo consistia no seguinte: propuseram à criança que à noite, durante o jantar, cada um diria uma verdade que ocorreu durante o dia, e também contaria uma história inventada. Assim, na tertúlia após o jantar, o pai contava como foi o seu dia de trabalho, e depois narrava uma história inventada; e o mesmo fazia a mãe. Ao chegar a vez da criança, ela misturava a história real com a inventada. Quando isso ocorria, os pais a interrogavam: − “Espere, isso que você está dizendo não pertence à história inventada?”. A criança refletia um pouco e se corrigia. Com isso, os pais, sem mencionar a palavra “mentira”, foram corrigindo a criança ao ensiná-la a separar os fatos reais daqueles que eram fruto da imaginação.

        No próximo boletim (Os defeitos das crianças – Parte 2) abordaremos os seguintes temas: “A mentira e a criança”, “A criança colérica” e a “Criança orgulhosa”.

    Texto adaptado por Ari Esteves com base no livro “Os defeitos das crianças”, de J. Vimort, Editorial Aster, Lisboa, Portugal.

  • As boas rotinas

    As boas rotinas

    1 – As boas rotinas nos aperfeiçoam. 2 – Sem rotinas tudo seria improvisações. 3 – Dar motivos mais altos às tarefas de sempre. 4 – As boas rotinas familiares. 5 – Rotinas também nos fins de semana

    1 – As boas rotinas nos aperfeiçoam

        A sabedoria se esconde atrás das rotinas, que nem de longe visam transformar cada pessoa em robô, mas são caminhos para se chegar à disciplina interior e ao autocontrole. Sem rotinas não haveria virtudes, pois estas são hábitos adquiridos pela repetição de atos bons. A boa rotina especializa, aumenta o espírito de responsabilidade, faz perseverar no aperfeiçoamento do serviço que se oferece. Uma famosa dançarina disse: “Eu não procuro ser melhor do que as outras; procuro ser melhor do que eu mesma”. Sem repetir uma e outra vez nossas ações, como chegaremos à perfeição delas?

        A vida é um contínuo começar e recomeçar. O sol, a lua, as estações do ano, os horários dos ônibus e do metrô, o trabalho e o descanso. Tudo o que é levado a sério não deixa de se converter em repetições, em hábitos, pois sem previsibilidade se instalaria o caos. A natureza tem suas leis que se repetem para o nosso bem. Se as estações do ano não chegassem no momento esperado, seria uma confusão saber o momento de plantar e de colher. Portanto, se até o mundo irracional tem suas rotinas – porque tem uma Inteligência por traz −, então podemos aprender do irracional a racionalidade das boas rotinas.

        Cada dia é diferente do anterior e do seguinte, e nem sempre os problemas de hoje serão os de amanhã. Mas, ao colocar essa variedade sob controle, criamos rotinas e com isso nos sentimos seguros. Dizem que a vida é elástica, pois tem muitas variações. Mas elástico quer dizer que tenderá sempre a voltar ao modelo original: o que deixa de ser elástico passa a ser rígido, sem vida, e logo se rompe.

    2 – Sem rotinas tudo seria improvisações

        As rotinas dão ordem à nossa vida exterior e interior e facilitam os processos diários. Todos gostamos e necessitamos da repetição e da ordem, pois sem isso não haveria trabalho eficaz, a vida familiar seria um caos, as empresas deixariam de cumprir e oferecer bons serviços. Como melhorar a qualidade de um trabalho sem o repetir uma e outra vez? Haveria apenas improvisações e se passaria a contar com o acaso para as coisas saírem bem. Então, já não haveria bons profissionais, mas apenas amadores. Todos sabemos que o bom artista, o bom atleta ou o bom profissional, seja de que área for, tem que cumprir um horário exigente, um plano de trabalho rigoroso, repetir ações, a fim de não ser uma simples amador. Um bom cirurgião fez milhares de vezes os mesmos procedimentos, o bom futebolista repetiu centenas de vezes o mesmo chute para colocar a bola no ângulo desejado…

    3 – Dar motivos mais altos às tarefas de sempre

        Mas, é preciso estar atento para evitar que as más rotinas ocupem espaço no dia a dia: momentos diários em redes sociais, internet, games e curiosidades são rotinas que fazem decrescer humana e espiritualmente. Em tais casos, seria necessário ter a prudência e a fortaleza de introduzir boas rotinas nos horários dedicados às más: ler obras literárias, assistir vídeos para melhorar a performance das qualidades pessoais a fim de melhor servir aos demais, entre outras.

        Para realizar as tarefas de sempre com ânimo renovado é preciso dar motivos mais altos. Para isso, podemos adotar a sugestão de Escrivá de Balaguer de que uma hora de trabalho é uma hora de oração. Ou seja, ao dar a cada tarefa um fim mais alto, de amor, a enobrecemos e afastamos o perigo da monotonia, do trabalhar por inércia, distraídos e sem criatividade.

        É certo que também gostamos de variar, e de quebrar a rotina de vez em quando, mas dentro de um certo controle. Ao variar, logo ansiamos retornar ao de sempre, como nos finais de férias desejamos retornar aos afazeres do dia a dia. Nem sempre quebrar a rotina ajudará, a não ser que seja para um descanso criativo que fará retornar aos trabalhos com o espírito renovado. Para isso, não se trata de ficar sem fazer nada, mas mudar de atividade: quem tem um trabalho intelectual, descansará fazendo esporte; quem tem um trabalho manual descansará lendo ou assistindo a um bom filme. Não é por almoçar em qualquer horário que nos sentiremos melhor, nem por chegar ao emprego em horários diferentes trabalharemos melhor.

    4 – As boas rotinas familiares

        Os pais devem promover a cultura familiar por meio de boas rotinas, como as tertúlias ou bate-papos familiares, audição de boa música em dias determinados da semana, sessões de bons vídeos, leitura de contos para as crianças, visitas a museus e livrarias, idas a parques ou campos para curtir a natureza. Essas boas rotinas facilitarão que os filhos abandonem o uso de celulares e telas digitais.

        As boas rotinas familiares criam no lar um excelente ambiente para o crescimento humano e espiritual de seus moradores: horário de dormir e de acordar, horário das refeições, horário de findar o trabalho e retornar para casa; horário de ler, estudar ou descansar… Excelente rotina familiar é promover a leitura dos clássicos, pois forja o caráter, cura as doenças da alma e resgata a autoestima. Com a leitura aumenta-se a preparação intelectual e cultural, porque ela incide diretamente sobre a inteligência e faz aumentar o nível e o alcance do pensamento, faz melhorar a forma de expressar o pensamento escrito e oral, enriquece o vocabulário e faz ganhar com a experiência do outro (“escarmentar em cabeça alheia”, diz o ditado). Porém, a leitura, que é também excelente modo de descansar e de aproveitar o tempo, necessita de que no lar haja um clima de harmonia e silêncio.

        A falta de boas rotinas transforma o lar em caos e conduz cada um a agir como bem entender e de forma egoísta, sem pensar nos demais: a chegar do trabalho ou da escola na hora que quiser, a fazer as refeições diante da televisão ou no sofá, em deixar os objetos pessoais em qualquer lugar. Um lar onde o almoço e o jantar diários não têm horários definidos; onde a TV, permanentemente ligada, se torna ocasião de perdas de tempos e não favorece a leitura, a audição de boas músicas, o bate-papo familiar, o estudo. Toda essa indisciplina se torna deletéria para o crescimento humano e espiritual de cada membro da família.

        As rotinas dos encargos que cada membro da família deve cumprir – das crianças aos adultos – se inserem dentro da virtude da ordem, e trazem imensos benefícios a todos os membros da família, e também às crianças: é fonte de estabilidade e segurança ao dar certeza sobre o que fazer em cada momento, faz crescer o sentido de responsabilidade, promove a disciplina interior ao deixar uma atividade e iniciar outra, controla os afetos que tendem apenas ao prazeroso, facilita a obediência, cria na casa um ambiente sereno onde a televisão e outras mídias se mantém desligadas e só serão utilizadas de modo programado e em horários pré-determinados, o que permite que as pessoas tenham tempo para pensar, ler, dialogar ou concentrar-se em suas tarefas…

    5 – Rotinas também nos fins de semana

        É importante que os pais compreendam que a rotina tem sabedoria por trás, não sendo meramente externa, pragmática, tal como buscar uma eficiência organizativa para transformar as pessoas em objetos fabricados em série. É algo muito maior, ligado ao enriquecimento interno de cada membro da família. A rotina é o caminho para a criança alcançar disciplina interior e controlar a afetividade ao se dirigir às atividades seguintes, o que facilita o hábito de dominar o próprio temperamento. De segunda à sexta-feira, a vida já traz certa rotina aos pequenos: retorno da escola, lavar-se, trocar de roupa, almoçar, estudar, encargos na casa, brincar, banhar-se, jantar, dormir. Porém, nos fins de semana os pais ficam sem entender o motivo pelo qual muitas crianças manifestam certo desgoverno na afetividade, desorientação, brigam com os irmãos, quebram objetos por acidente e são desobedientes. Isso pode ocorrer porque os pais não as ajudam a criar boas rotinas, e as deixam à mercê de caprichos.

    Texto de Ari Esteves. Imagem de Anna Nekrashevich.

  • Educar para a solidariedade

    Educar para a solidariedade

    1 – Ensinar a compreender e ajudar aos que sofrem. 2 – A solidariedade é causa de alegria. 3 – Ações solidárias começam na família. 4 – Promover ações solidárias no entorno social

    1 – Ensinar a compreender e ajudar aos que sofrem

        Na encíclica “Fratelli tutti” (todos irmãos), o Papa Francisco lembra a passagem evangélica do Bom Samaritano, e diz: “existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debruçam sobre o caído e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distraídas e aceleram o passo. De fato, caem as nossas múltiplas máscaras, os nossos rótulos e os nossos disfarces: é a hora da verdade. Debruçamo-nos para tocar e cuidar das feridas dos outros? Abaixamo-nos para levar às costas o outro? Este é o desafio atual, de que não devemos ter medo” (FT, 70).

        A solidariedade é a capacidade de compreender o sofrimento dos demais, e faz agir para minimizar essas dores ou dificuldades. Há comportamentos que revelam solidariedade ao dar o próprio tempo aos demais. Quando os filhos abandonam hábitos egoístas (meu tempo, meus jogos, minhas coisas, meus planos, meu esporte, meu, meu, meu…) e aprendem a colaborar, serão mais felizes.

        Os pais devem mostrar satisfação ao observar que o filho teve uma atitude compreensiva em relação a outra pessoa, como também devem manifestar desaprovação se ele foi insensível. Se um filho se concentra apenas em assuntos pessoais e não se envolve em tarefas que não revertam em vantagens apenas para si, seja no lar ou fora dele, nunca aprenderá a trabalhar bem, pois o trabalho é sempre um serviço prestado aos outros e não um modo de ser servido.

    2 – A solidariedade é causa de alegria

        A generosidade é virtude que torna feliz a pessoa; o egoísmo é vício causador de tristeza. A solidariedade, fruto da virtude da generosidade, torna magnânimo o coração e dá aos que a possuem a alegria do amor, que sempre exige sair de si para doar-se aos demais. Os filhos que percebem as necessidades dos outros, tanto na vida familiar quanto na social, aprendem a não reclamar das pequenas carências ou incomodidades, e sabem reconhecer e agradecer o esforço dos pais para levar adiante o lar.

        Muitas pessoas só vivem para satisfazer seus caprichos e prazeres, e por isso sofrem inutilmente ao ver frustrado o desejo de ter algum bem supérfluo! Um coração não solidário é fortemente atraído pela publicidade digital que a cada cinco minutos, e de forma atraente à sensibilidade, faz inúmeras ofertas tidas como “indispensáveis” para a vida. Educar o coração para a solidariedade é ter um modo de vida sóbrio, desprendido, e pensar nos demais. Os pais devem ensinar desde cedo as crianças a fugirem do assédio consumista, dos modismos e grifes.

    3 – Ações solidárias começam na família

        Não deve ser necessário à mãe pedir ao adolescente para limpar o quintal, recolher a sujeira que o cachorro deixou ou manter em ordem o quarto e objetos pessoais. Um filho sensível, consciente de suas obrigações − porque lhe foi ensinado desde criança a ser solidário − faz tudo isso sem que lhe peçam, pois se sente movido pelo amor que deve se manifestar primeiramente em obras de serviço aos seus pais e irmãos. Porém, como nem sempre essa sensibilidade está à flor da pele, é necessário que os pais incentivem os filhos, desde pequenos, a empreenderem ações de serviço dentro da família: manter suas roupas e brinquedos em ordem, dispor a mesa para as refeições, cuidar de um irmão enfermo ou ajudá-lo nas disciplinas escolares, levar o lixo para fora, fazer compras, limpar a casa… Muitas mães postaram no Youtube diversos serviços domésticos que podem ser atribuídos aos filhos, nas diferentes faixas etárias (confira em staging.ariesteves.com.br/tarefas-para-criancas/). Essas tarefas ajudarão a incutir nas crianças o espírito de serviço e de prontidão, que as tornará solidárias e participantes na construção de um lar alegre, limpo, ordenado, onde todos contribuem par isso. Filhos sem tarefas familiares se sentem meros hospedes com a falsa ideia de serem sujeitos apenas de direitos e não de obrigações, o que os torna senhores feudais tendo servos os pais.

    4 – Promover ações solidárias no entorno social

        A sociedade atual, sacudida e desagregada por tensões e conflitos, e por inúmeros individualismos e egoísmos, pode ser modificada se os filhos crescerem não só no sentido de justiça, mas no de amor e solicitude desinteressada pelos demais, especialmente pelos mais carentes. Para isso, podem ser estimulados a promover obras de solidariedade na sociedade em que vivem. Por exemplo, junto com um amigo pode visitar a casa de repouso de idosos do bairro ou um orfanato, e levar doces ou tocar algum instrumento musical para alegrar por alguns momentos os que ali vivem; podem também promover na escola ou no bairro campanhas de doação de alimentos para famílias carentes. Ao filho ou filha de 4 a 6 anos, o pai pode animar a doar brinquedos que estejam em boas condições e não são mais utilizados, indo visitar com a criança alguma família carente do bairro, a fim de ofertar os brinquedos. Tais ações, além de evitar a indiferença e o egoísmo de pensar em si mesmos, construirá na alma dos filhos o desejo futuro de se empenharem na solução de tantos problemas sociais.

    Texto de Ari Esteves. Imagem de Klrill Ozerov.

  • Quando o mundo nos fala

    Quando o mundo nos fala

    1 – Há muitas maneiras de olhar para uma mesma realidade. 2 – Pensar bem antes de clicar o play de uma imagem. 3 – O olhar egoísta torna a alma insensível. 4 – A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar

    1 – Há muitas maneiras de olhar para uma mesma realidade

        Há diversas maneiras de olhar para a mesma realidade: um fotógrafo ou pintor olhará para uma mesa repleta de alimentos de modo diferente do olhar ansioso do glutão. Em nosso dia a dia, olhamos para um outdoor da cidade de modo diferente daquele que contemplamos um nascer ou pôr de sol. As diferentes formas de olhar não ocorrem apenas pelas circunstâncias do momento, mas têm a ver com o modo de nos relacionarmos com o mundo.

        Olhar para a realidade de uma maneira nova é não se fixar em um aspecto ou na utilidade do que temos diante dos olhos. Chama-se olhar contemplativo aquele que não procura apropriar-se de modo egoísta daquilo que vê, mas que se mantém em prudente distância para descobrir o algo divino que ali se esconde.

        A virtude da temperança modera o desejo de açambarcar as realidades para usufruir delas de modo possessivo. A palavra latina temperare significa “misturar as coisas em sua dose certa”. A pessoa temperada não se deixa absorver pelo imediato, mas vai além, pois sua atitude aberta, atenta e silenciosa a predispõe para ir ao núcleo das coisas, e aprender do mundo que a rodeia.

    2 – Pensar bem antes de clicar o play de uma imagem

        Ser temperado no desejo de conhecer permite o olhar contemplativo que atinge o núcleo das realidades que permeiam o mundo. O olhar intemperado e de insaciável curiosidade que borboleteia de uma coisa para outra, tal como quem procura imagens nas redes sociais, se detém apenas no periférico do mundo, pois só deseja buscar o prazer da percepção sensível ou o gosto fugaz do consumo de novas informações: é a “concupiscência dos olhos”, de que fala João em seu Evangelho. Tomás de Aquino diferencia a curiosidade da estudiosidade, sendo que esta última encontra a dose justa (temperada) do desejo de conhecer, removendo os obstáculos que impedem chegar à raiz ou profundidade dos elementos contemplados, sem se importar com o esforço e fadiga que o processo de aprendizagem acarreta.

        Muitos cedem à curiosidade porque preferem ficar na periferia de sua existência ou das coisas que observa. É conhecida por todos a frase de Cristo de que o olho é a luz do corpo, o que permite dizer que o olhar contemplativo ilumina a mente e o coração, o que fez Ele observar que os lírios do campo se vestiam melhor do que o Rei Salomão! O olhar fugaz cega cada vez mais para ver com profundidade a si próprio. Navegar à toa pelas redes sociais e internet traz experiências insensatas que confundem a mente e o coração, impedindo a pessoa de habitar em si mesma. O mundo da distração impede o esforço de ir à interioridade pessoal, onde se encontra Aquele que pode saciar a sede de cada pessoa. Agostinho, Bispo de Hipona, no Século IV, expressou esta experiência assim: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem”.

        O olhar que penetra até o núcleo das realidades é sereno e detém-se sem pressa na contemplação das realidades, e antes de clicar o play de uma imagem, indaga-se se isso é verdadeiramente relevante. O sábio prescinde do que faz mal à alma, e do que impede o desenvolvimento do pensamento, e assim livra-se de muitas escravidões.

    3 – O olhar egoísta torna a alma insensível

        O olhar possessivo da pessoa intemperada filtra tudo pelo interesse imediato e egoísta, e só tem um ponto de mira, sendo que tudo o mais se torna opaco como a visão de um animal que procura apenas saciar seu apetite. Quem age assim vê o mundo pelo benefício imediato que pode receber dele.

        A intemperança é destruidora e torna a pessoa insensível para perceber as nuances dos acontecimentos e das pessoas que a cercam, o que torna suas decisões arriscadas pela falta de um autêntico conhecimento da realidade: o guloso, preso pelos prazeres do paladar, não percebe a criatividade e beleza de uma mesa artisticamente bem-posta; e ao não desfrutar do estético, pouco poderá ter uma conversa enriquecedora com alguém.

        O olhar interesseiro não percebe as necessidades dos demais, e influi negativamente nas relações com os outros, pois tende a considerar as pessoas do ponto de vista do benefício que podem trazer ou do favor que poderá obter. A cegueira do espírito que faz não perceber a singularidade e a riqueza da personalidade do outro, provém de uma consciência distorcida pela intemperança, que conduz o coração a buscar torcidos interesses: quem manipula o próximo não é capaz de amar verdadeiramente.

    4 – A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar

        A temperança faz contemplar o mundo com um novo olhar, que descobre maravilhas insuspeitadas. A moderação purifica o coração e cria uma relação serena que desenvolve a sincera atitude de não se deixar arrastar pela utilidade e benefício que as pessoas ou realidades podem oferecer. O primeiro efeito da temperança é trazer tranquilidade à alma, fruto de uma ordem interior. O olhar desprendido e limpo percebe os verdadeiros tesouros, faz crescer a sensibilidade para notar os detalhes preciosos e diversos que as realidades e as pessoas possuem, tal como o olhar não utilitário, mas contemplativo dos artistas e poetas.

        A temperança concentra as forças em projetos e ideais que valem à pena. Não olhar desnecessariamente para o celular, nem curiosear na internet durante o trabalho ou estudo, pode parecer coisa de pouco valor, mas trata-se de pequenas renúncias decisivas para concentrar as potências interiores naquilo que vale a pena: quem diz “não” àquilo que dispersa a mente, diz “sim” ao que realmente importa. Este esforço desenvolve a interioridade e contribui para fugir do superficial e perdas de tempo, e a “A vida recupera então os matizes que a intemperança descolore. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes”, dizia Josemaria Escrivá (Amigos de Deus, n. 84).

        O olhar desprendido, sereno e transparente faz descobrir a beleza de tudo o que existe. A temperança faz desfrutar mais das realidades espirituais e das sensíveis ou materiais. Livrar-se da busca ansiosa do prazer e da autoafirmação, permite descobrir a beleza até nas coisas mais delicadas e discretas como a de uma pequenina flor que desabrocha entre as pregas do cimento de uma via, ou da simplicidade das pombas que sempre cedem passagens aos homens que seguem pela calçada. “Alguém disse, não sem razão, que somente o que tem um coração limpo é capaz de rir de verdade. Não é menos certo que somente pode perceber a beleza do mundo aquele que o contempla com um olhar limpo” (Pieper, As virtudes fundamentais, Cultor de Livros, São Paulo). A pessoa temperada aprofunda mais na verdade das coisas, pois o mundo lhe fala de Deus. Quem embarcar nesta aventura poderá repetir aquela exclamação de São Josemaria: “Meu Deus! Encontro graça e beleza em tudo o que vejo” (Forja n.415).

    Texto extraído, adaptado e completado por Ari Esteves com base no artigo “Y entonces, el mundo te habla”, de Maria Schoerghuber, em www.opusdei.org.es. Imagem de MIkhalL Nllov).

  • Imaturidade

    Imaturidade

    1 – Motores da conduta: vontade e sentimentos. 2 – Adultos infantilizados. 3 – Características da imaturidade. 4 – Características positivas da personalidade. 5 – Graus mais leves de imaturidade. 6 – O que torna negativa a imaturidade. 7 – Para crescer em maturidade

    1 – Motores da conduta: vontade e sentimentos

         No ser humano existem dois motores que determinam a conduta: a vontade, que segue as indicações da inteligência, e a afetividade, que é movida pela força irracional das emoções e sentimentos provocados por estímulos externos e internos. A maturidade psicológica consiste no domínio habitual da força da afetividade pela força da vontade. Nas pessoas imaturas, a memória, imaginação e pensamento, assim como a conduta, funcionam por impulsos dos estados afetivos, ou seja, emoções e sentimentos que são muito intensos e de predomínio negativo: ansiedade, temor, ira, tristeza e reagem a estímulos internos e externos.

         Uma das consequências mais importantes da imaturidade é a influência intensa que a afetividade exerce sobre a inteligência, o que faz com que essas pessoas distorçam a percepção da realidade física, pessoal e social, tendo importantes dificuldades de adaptação social. A maturidade tende com o tempo a provocar patologias de maior ou de menor intensidade.

    2 – Adultos infantilizados

         Quando se diz que uma pessoa adulta é como uma criança, ou que é um pouco infantil, se quer significar que é imatura. Também se costuma dizer que uma criança é muito madura para significar que é senhora de si, e que isso não se baseia na mera biologia, mas no comportamento dela. Considera-se maduro quem se comporta de acordo com a razão, que é a faculdade que julga se o comportamento é adequado ou não: não agir com maturidade revela que a pessoa foi movida não pela inteligência, mas pela afetividade.

         As crianças agem principalmente movidas pela afetividade, sendo que seus pais são para elas a razão e a vontade ao indicar-lhes o que devem ou não fazer. Para que as crianças se comportem como os pais querem, devem gerar nelas emoções e sentimentos mediante estímulos e medidas disciplinares, até que desenvolvam suficientemente própria razão e vontade (por volta dos seis ou sete anos). Embora dominadas pela afetividade, as crianças não são chamadas de imaturas, mas apenas de crianças. Porém, quando um adulto se comporta como criança, impulsionado principalmente pela afetividade, não o chamamos de criança, mas de imaturo, ainda que às vezes dizemos que se comporta como uma criança ou é infantil.

    3 – Características da imaturidade

         A imaturidade apresenta algumas características: sentimento de inferioridade ou diminuição da autoestima, sensação de insegurança, baixo autoconhecimento devido a uma fraca capacidade de introspecção, impulsividade, dependência emocional do ambiente devido ao baixo autocontrole. Além disso, como derivadas da fraca autoestima e insegurança, as pessoas imaturas têm escassa confiança em si mesmas e por isso vivem em permanente ansiedade ou temor.

         Derivadas das características acima mencionadas, os adultos imaturos apresentam também outras características visíveis da personalidade: intensa timidez, introversão, instabilidade emocional, excessiva preocupação, hipersensibilidade e susceptibilidade emocional, desconfiança, baixa tolerância à frustração e reações desproporcionadas perante ela, tendência a refugiar-se na fantasia, lançar a culpa nos outros, fugir das responsabilidades por medo de fracassar, excessiva necessidade de apoio e afeto dos outros. Essas pessoas correm o risco maior de serem infelizes e podem apresentar problemas psiquiátricos. A infelicidade dessas pessoas se expressa em forma de sentimentos de insatisfação e frustração, constante irritabilidade e propensão à violência verbal, e o recurso frequente ao álcool, cigarro, estimulantes, analgésicos, tranquilizantes e até drogas.

    4 – Características positivas da personalidade

         Toda pessoa possui características positivas em sua personalidade, que derivam da interação da predisposição genética e hábitos adquiridos pela repetição de atos positivos. Algumas dessas características são: bom sentido artístico ou musical, habilidade manual, grande energia física, sociabilidade, caráter divertido ou afetuoso. Porém, nas pessoas imaturas as características negativas são mais frequentes que as positivas, e a intensidade dependerá do grau de imaturidade.

    5 – Graus mais leves de imaturidade

         Há pessoas com graus leves de imaturidade que em situações externas favoráveis apresentam funcionamento psíquico e comportamento externo maduros, mais como um verniz ou fachada de normalidade, pois em situações mais difíceis elas fazem notar o seu núcleo de imaturidade em forma de condutas inadequadas. Em outros casos, o núcleo da imaturidade está oculto durante os anos de juventude, graças a um grande esforço de vontade que controla a força dos afetos negativos, mas, ao chegar por volta dos 40 anos, e com a diminuição da resistência psicológica e o declínio da força de vontade, pode-se apresentar manifestações de imaturidade, que aumentam ou se mantém no tempo com intensidade incômoda para os próprios sujeitos e as pessoas que os cercam.

    6 – O que torna negativa a imaturidade

         A imaturidade psicológica é o predomínio da afetividade sobre a vontade. Mas sendo que os conceitos de vontade e afetividade são positivos, o que torna negativa a imaturidade são dois motivos: o predomínio do inferior (afetividade) sobre o superior (razões e vontade), e um possível caráter negativo de sua afetividade, fazendo que o imaturo apresente frequentes e intensos afetos negativos, que dominam seu funcionamento psíquico e o comportamento habitual.

    7 – Para crescer em maturidade

         O ser humano possui capacidade de ter afetos positivos e negativos. Os negativos são mais frequentes e passivos, isto é, a pessoa os sofre por influência das condições biológicas ou externas (ambientais). Os positivos, ao contrário, são ativos no sentido de que dependem do esforço do sujeito para adquiri-los e mantê-los. Esse esforço é o meio imprescindível para progredir no caminho da maturidade psicológica. As pessoas imaturas não se esforçam o suficiente e por isso não conseguem o domínio voluntário da sua afetividade, razão pela qual a sua vida psicológica acaba sendo dominada por afetos negativos de grande intensidade.

         Tudo o que o ser humano possui tem uma finalidade, um sentido, e os afetos positivos e negativos não são uma exceção. Mas estes últimos, se não forem mantidos sob o domínio da razão e da vontade, a fim de que sejam adequados em intensidade diante dos estímulos que os produzem, podem deteriorar ou bloquear o funcionamento psíquico apropriado e chegar a produzir enfermidades físicas e psíquicas. Podem também ser a origem de comportamentos inadequados e perigosos para o próprio sujeito e para as pessoas ao seu redor.

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves com base no livro “Maturidade psicológica & Felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2020. Imagem de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro).

  • Os ideais e o adolescente

    Os ideais e o adolescente

    1 – Ter ideais. 2 – O ideal se conquista com esforço. 3 – Ausência de ideais. 4 – Como encontrar o próprio ideal. 5 – O futuro não depende da sorte

    1 – Ter ideais

        Ter ambições elevadas, sonhos altos de transcender a si para se pôr ao serviço dos demais, cabe no coração dos adolescentes. Aos quinze anos, muitos jovens, ao se sentir emulados, se espelharam em pessoas a quem admiravam pelo seu saber artístico, técnico ou científico, e seguiram seus passos.

        Louis Pasteur, cientista francês, cujas descobertas tiveram enorme importância na história da química e da medicina, ao tomar posse na Academia Francesa, disse: “Feliz de quem traz em si um deus interior, um ideal de arte, ideal de ciência…”. Ter um ideal, já na adolescência, é a indicação de uma meta a ser alcançada e dos meios para consegui-la. Quem tem uma direção, organiza-se para colocar em andamento o seu projeto, canaliza seus sentimentos e a determinação da vontade para esse alvo.

        Quando um ideal se apodera de alguém, vem a ser o princípio diretor das ideias, dos desejos, afetos e ações. Aspirar a algo valioso é condição necessária para dar sentido à própria existência e orientar as energias.

    2 – O ideal se conquista com esforço

        Para viver um ideal é relevante a educação nas virtudes para não ceder ao mais fácil. Formar nas virtudes requer salientar a importância da exigência pessoal, do empenho no trabalho e no estudo, no espírito de serviço aos demais, na temperança, pois esses bens estão acima dos desejos materiais e facilitam a compreensão das realidades do espírito, onde reside o verdadeiro ideal, aquela aspiração que ajudará outras pessoas.

        Quem deseja algo com entusiasmo, com sentimentos, mais facilmente enfrentará as dificuldades. É preciso armar-se de coragem para contribuir com o melhor de si ao serviço dos demais, que é o verdadeiro sentido do amor. Para isso, e preciso corrigir os traços do temperamento que se opõem à entrega de um ideal, às inclinações pessoais que não permitem tirar todo rendimento das qualidades pessoais. Ficar na base da montanha é mais cômodo que subir ao cume para divisar lonjuras. Preferir uma vida tranquila, sem dor ou embaraços deixa, por fim, um sabor amargo.

        Daniel O´Connell, líder irlandês que no início do século XIX lutou pelos direitos dos trabalhadores, quando ainda era adolescente dizia que “Ainda que a natureza não me tenha dado talentos de primeiríssima ordem, jamais me contentarei em ser medíocre na minha profissão”. Thomas Edison, americano criador de vários dispositivos de comunicação e de sistemas de energia elétrica, utilizados até hoje, e especialmente conhecido como o criador da lâmpada incandescente, disse aos seus interlocutores, que o julgavam ser um gênio: “Que balela! Afirmo que o segredo do gênio é o trabalho… O gênio se compõe de 1% de inspiração e de 99% de transpiração”.

    3 – Ausência de ideais

        Sempre encontraremos pessoas indiferentes à vida que poderemos ajudar com a nossa palavra. A ausência de convicções causa muito mal, e faz perder o tempo ao esperar por algo que nunca irá se concretizar. Não é racional andar à toa, levar a vida na flauta, sem indagar-se sobre qual é a missão que lhe está destinada, qual a contribuição pessoal para melhorar a vida de tantas pessoas que sofrem. A indiferença nesse ponto leva ao endurecimento do coração, que é a antecipação do fracasso. Quem vive satisfeito na mediocridade, na vida cômoda e egoísta, tenderá a ceder cada vez mais nesses aspectos.

        Evidentemente há aqueles que, influenciados pelos aspectos exteriores da pessoa, sonham com ideais de fama, desejo de ter influência nas mídias ou possuir muito dinheiro, mesmo que interiormente sejam vazios de valores humanos. Porém, é fato mais que comprovado por inúmeros testemunhos dos que buscaram falsos ideais, que tarde demais constataram que só se é feliz no amor, na doação, pois o egoísmo, o estar obcecado por si mesmo, conduz à tristeza. Seria bem oportuna a leitura do boletim “As motivações humanas: o que o leva a agir?”.

        No inferno de Dante as almas covardes sofrem tormentos especiais. O poeta ouve os gritos de cólera e os uivos de dor dessas almas, e pergunta ao seu cicerone: − Quem são essas almas que parecem tão profundamente mergulhadas no luto? O mestre responde: − Tal estado miserável é o das almas tristes que viveram sem infâmia e sem louvor; o céu as rejeita para que lhe não alterem a beleza. Nenhuma lembrança deles subsiste no mundo; a justiça e a misericórdia os desprezam. Não discorramos sobre eles: veja e segue”.

    4 – Como encontrar o próprio ideal

        Examinar as possibilidades pessoais. Blackie dizia que a energia moral se adquire pelo exercício dos livros e discursos, e podemos entender por isso a busca por palestras, aulas, lives, vídeos selecionados com bons conteúdos, testes para identificar as aptidões pessoais, etc. Essa busca será a sinaleira que facilitará o encontro de uma tarefa útil, que depois deverá ser empreendida pelos pés e pelo esforço da vontade. A vontade é a faculdade que age de acordo com as leis da razão, e ajudará na busca por encontrar o melhor modo de prestar um serviço útil a si e a todos. A vontade crescerá mediante o esforço de enfrentar a volubilidade de ânimo, a indolência, a apatia natural para certos esforços ou estudos. Porém, os sentimentos também podem ajudar, pois quem realiza algo com sentimentos e paixão, consegue fazer melhor, pois enfrentará com mais forças as dificuldades para atingir a meta que busca.

        Bernardo de Claraval dividia os homens em duas grandes categorias: os que querem saber só para saber, que acendem suas luzes à noite e as apagam ao primeiro clarão do dia, e se empalidecem sobre os livros para devassar os segredos da natureza ou assimilar o pensamento dos autores; e há os que trabalham para um fim mais nobre e cultivam a inteligência a fim de a consagrar ao serviço do bem. A sabedoria está em tirar proveito da instrução para transformar a própria vida em serviço aos demais: é nessa decisão de entrega, de doação de si, onde reside o verdadeiro amor e, consequentemente, a felicidade.

        Muitos dons que os adolescentes possuem são desperdiçados bobamente porque lhes falta o essencial: uma vontade forte, um caráter resoluto, um querer com tenacidade. Há uma curiosa lenda que fala de um menino que numa noite de verão contemplava as águas de um poço, e ficou maravilhado ao ver flutuar nelas infinitas estrelas. No dia seguinte, ao voltar à beira do poço não viu mais os astros e retornou triste para casa dizendo a todos que eles se tinham afogado. Hoje, a estrela de muitos adolescentes não consegue brilhar porque a inteligência deles se tornou preguiçosa, e o esforço de perseguir algum ideal que vale a pena sucumbiu diante das telas de games e celulares.

    5 – O futuro não depende da sorte

        O futuro não depende da sorte ou do acaso, mas do empenho que se coloca no momento presente. Cada pessoa é responsável pelo seu porvir, que se conquista com o que realiza agora. Já dizia Carlyle que “O viver é uma conjugação ininterrupta do verbo fazer”. Cada um deve examinar suas forças, suas qualidades, tendências e gostos para aproveitá-los na busca de um afazer que torne melhor o mundo em que vive. Para essa reflexão se pode buscar ajuda dos pais, professores ou amigos prudentes e com experiência de vida, mas a decisão será sempre pessoal.

        Enamorar-se da beleza, da verdade e do bem, faz aproveitar melhor o tempo e as horas de trabalho e de descanso, e organiza as potências espirituais e morais. A razão se torna soberana e os sentimentos e paixões se inclinam a ela. O ideal regula e ordena as ações, realça, embeleza e transforma as miudezas da vida. O ideal valoriza os talentos e habilidades e tendências inatas, desenvolve as qualidades intelectuais e as morais.

    Texto extraído e adaptado por Ari Esteves, com base na obra “Rumo à cultura”, de L. Riboulet, Editora Globo, Porto Alegre, 1960. Imagem de Pixabay.