1 – É imaturo quem se deixa guiar pela afetividade. 2 – O conhecimento superficial de si. 3 – Autocontrole: domínio da vontade sobre os afetos. 4 – A vontade fortalecida coloca os afetos nos eixos
1 – É imaturo quem se deixa guiar pela afetividade
Quando não se chega a alcançar a maturidade, a pessoa se deixa influenciar pela afetividade (sentimentos, emoções, paixões), que passa a orientar as ações, e não a decisão da vontade. Com isso, a pessoa consegue se sentir bem a curto prazo, pois faz o que lhe apetece afetivamente no momento. Isso produz prazer imediato aos sentidos (sensorial), mas logo vem a decepção ou chateação pelo dever não cumprido. Por vezes, para neutralizar esse sentimento de mal-estar, o imaturo volta a fazer coisas que lhe permitam sentir-se bem de imediato, e assim acaba caindo em círculo vicioso.
O domínio da vontade sobre a afetividade também favorece o controle sobre as demais funções psíquicas: percepção, memória, imaginação e pensamento. No início, o exercício desse controle supõe tensão e cansaço, que a curto prazo pode ser desagradável; porém, a médio e a longo prazo, a vontade fortalecida conseguirá que a memória e a imaginação se concentrem naquilo que se está fazendo, e isso produzirá maior eficácia nas ações.
A afetividade busca desfrutar a curto prazo daquilo que mais agrada, e por isso deve ser comandada pela razão e vontade, que buscam analisar, por meio da inteligência, os demais aspectos da realidade, o que não acontece com a sensibilidade, que busca só o que a agrada de imediato. Por exemplo, a paixão ou instinto de comer só busca a sua satisfação e pode levar o diabético a ingerir um pudim de limão; porém, a razão ao examinar outros aspectos, terá presente que a saúde é um bem maior do que o gosto instintivo, e indicará para a pessoa não comer o doce, a fim de evitar a alta dosagem de açúcar no sangue. As batalhas entre a afetividade e a vontade, quando ocorrerem, travam-se em muitos aspectos da vida psíquica. Os sentidos (ouvido, paladar, tato…) ao evitar o desagradável e buscar o agradável, excitante e divertido, o faz mesmo que isso não seja oportuno: leva a comer e a beber o que deveria ser evitado ou por em quantidades demasiadas; leva a ouvir o que agrada, mesmo que distraia das obrigações ou incomode aos demais, etc.
A afetividade não deve ser reprimida ou anulada, mas submetida ao âmbito da inteligência, que é a capacidade reitora da pessoa humana: é a imagem do cavaleiro conduzindo o cavalo, e não ao contrário. No início será necessário enfrentar o choque entre a vontade e a afetividade: fazer o que não a agrada aos sentidos, ou não fazer o que os agrada, se isso representa uma desordem. Esse choque interno é acompanhado de algum desgosto que pode inclinar a balança para o lado da afetividade, já que para se livrar desse sentimento de desagrado a via mais rápida – e não a mais correta – será ceder em favor dos afetos e emoções, que impulsionam a escolher o que agrada de imediato.
2 – O conhecimento superficial de si
A maioria das pessoas tem um conhecimento superficial de si e acerca dos demais. A sociedade atual é qualificada de audiovisual e hedonista porque busca prioritariamente as sensações produzidas pelos sentidos, ao mesmo tempo que valoriza desmedidamente o corpo e a aparência física, ensina Fernando Sarráis1. Pessoas fascinadas pela maneira superficial de viver, pouco se interessam pela raiz de suas vivências interiores ou psicológicas, e por isso não são capazes de construir-se de uma maneira propriamente humana, madura, nem sabem valorizar seus aspectos interiores que, por serem mais ricos, podem oferecer muito mais: como utilizar bem um aparelho ao não saber como funciona? Ao conhecer o seu funcionamento, se desfruta mais com o seu uso.
Perceber o que se sente em determinado momento é fácil, mas chegar a conhecer os motivos que levam a tais sentimentos não é tão fácil, pois exige conhecer o modo de ser psicológico, que tem várias camadas que podem encobrir as deficiências da personalidade. Deter-se apenas na análise superficial do comportamento é fácil, mas parcial: ter como causa de uma irritação o insulto recebido é fácil, porém, deve-se ir mais a fundo para saber se a afronta sofrida não terá como causa porque se é uma pessoa não grata por ser egoísta ou orgulhosa. O mesmo pode acontecer a quem se sente inferiorizado, pois a necessidade de ser valorizada pelos demais a faz ser muito suscetível a ponto de reagir de modo desproporcional diante de uma mínima desfeita.
Todas as pessoas têm aspectos positivos e negativos, sejam de temperamento ou de caráter, e o desejo de melhorar, de transformar o negativo em positivo, torna a pessoa otimista, pronta para uma luta alegre e esportiva. Quem não teme identificar seus próprios defeitos, erros ou limitações é realista e chega a se conhecer com profundidade (a ausência de medo não distorce sua autoavaliação). O conhecimento realista de si vem acompanhado de um conhecimento realista do mundo, o que ajuda acertar na escolha dos meios necessários para alcançar as metas pessoais.
Para conhecer-se com profundidade, um fator importante é gostar de si mesmo, e sentir-se valorizado não pela admiração que os demais tenham por si, mas pela própria dignidade da pessoa humana, que se fundamenta em ter sua alma criada por Deus, e pelo amor que Ele tem por cada filho seu. Ter um sadio amor a si leva a agradecer as próprias qualidades, recebidas gratuitamente de Deus, e a conhecer e a lutar contra os defeitos ou imperfeições do caráter ou do temperamento, sem nunca se sentir inferiorizado (a falta de amor a si leva a sentimentos de inferioridade). A estima de si é forte motivação para o autoconhecimento, que leva a se sentir seguro na luta por melhorar, porque se sabe aonde ir e aonde se quer chegar. O sadio amor a si impede conviver com as próprias falhas comportamentais, tal como não se quer conviver com bactérias nocivas dentro de si. Para conseguir que a afetividade não seja influenciada por sentimentos negativos que abafem a vontade, também é importante ter uma visão positiva de si, e saber rir das circunstâncias adversas, vendo nelas oportunidades de superação pessoal, pois tal atitude exerce influência favorável ao funcionamento da vontade.
3 – Autocontrole: domínio da vontade sobre os afetos
Em nossa época há grande interesse em conseguir uma boa aparência física, e se dá menos importância para conhecer o funcionamento dos aspectos psicológicos, a fim de que sejam maduros e sadios, razão essa de ocorrer tantas enfermidades psíquicas nas diferentes idades, inclusive na infância. Na sociedade atual, o sofrimento ou esforço não é malvisto para melhorar a performance esportiva, acadêmica ou profissional, porque é o preço a pagar pelo êxito no mundo exterior; mas não se vê com bons olhos o esforço interior para ser audaz, sincero, laborioso, casto, temperado, fiel. Porém, o desenvolvimento psicológico supõe esse esforço interior como condição para desenvolver as virtudes, necessárias para se conseguir o equilíbrio entre cabeça e coração (entre vontade e afetos): o mundo interior sendo mais rico que os aspectos exteriores, podem oferecer muito mais!
Autocontrole é o domínio que a vontade exerce sobre as funções psíquicas e afetivas que influenciam o comportamento. Para consegui-lo é necessário um desenvolvimento suficiente da força de vontade, a que chamamos de virtude da fortaleza, que é conseguida pelo habitual treinamento de fazer o que deve ser feito, sendo isso determinado pela inteligência ou razão (no caso das crianças, pela inteligência de seus educadores). Querer fazer o que se deve ser feito é ato da vontade, e não dos sentimentos: querer é um ato da vontade ou do livre-arbítrio, e gostar é uma inclinação dos sentimentos (portanto, irracional). Por vezes, podemos não gostar do que deve ser feito, mas esse querer, sendo um ato da vontade, e esta é movida pelo amor (o amor é ato próprio da vontade), dá forças a ela para superar a falta de gosto dos sentimentos: uma mãe que levanta de madrugada para atender ao filho, o faz por amor − por um querer da vontade −, já que o gosto de seus sentimentos seria para continuar na cama.
No processo de aprendizado do autocontrole, também chamado de educação da afetividade, podem ocorrer três etapas:
1ª) As crianças pequenas, porque nelas a afetividade é dominante, devem ser orientadas pelos pais.
2ª) A etapa do equilíbrio entre afetividade e vontade na adolescência, porque essas duas potências interiores podem conflitar-se e fazer levar a uma vida dupla: agir com lógica e liberdade como se fosse adulto, ou agir sem lógica feito criança movida pelos sentimentos e emoções.
3ª) Etapa das pessoas adultas e maduras, onde a afetividade e a vontade têm poucos conflitos, porque com frequência se age na direção do que é bom e correto. É a etapa da razão que move a vontade, e esta arrasta a afetividade atrás de si para apoiar a decisão.
4 – A vontade fortalecida coloca os afetos nos eixos
Nos momentos de conflito, e para superar a falta de gosto decorrente do enfrentamento entre a afetividade e a vontade, é necessário ter uma vontade forte para querer seguir o que a razão indica, e não o que determinam os afetos. Fortalece-se a vontade por meio de pequenos exercícios diários de domínio próprio: viver a ordem e a pontualidade para não ceder à comodidade da desordem, ao não abrir a geladeira fora de hora (controle dos instintos), ao colocar esforço para manter a atenção naquilo que se faz, ao cumprir uma disciplina diária (horário de dormir, de acordar e de refeições; pontualidade no trabalho, etc.). Esses pequenos vencimentos fazem não ceder imediatamente aos caprichos e comodidades, e com isso a força dos afetos diminuirá ou será canalizada para apoiar a vontade naquilo que é correto fazer.
1Texto extraído e adaptado da obra “Maturidade Psicológica & Felicidade”, de Fernando Sarráis, Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2020, por Ari Esteves para o site staging.ariesteves.com.br/. Desenho de Aguida Medeiros (@aguidamedeiro)









