1 – A criança tímida ou fechada. 2 – A criança molengona. 3 – Criança que diz palavrões. 4 – Criança desembaraçada que diz inconveniências
1 – A criança tímida ou fechada
Quando se fixa o olhar em uma criança tímida, ela fica corada, perturbada, e não sabe onde se meter. Mesmo que tenha o coração cheio de coisas para contar, as palavras lhe faltam, a garganta se comprime e então baixa a cabeça, balbucia algumas palavras ininteligíveis e se cala. Ao não conseguir exteriorizar o que pensa, a criança tímida sofre bastante com isso. Não tem confiança em si. Imagina brincadeiras maravilhosas onde ela será a chefe e sairá vitoriosa. Porém, quando chegam os amiguinhos já não consegue se sobressair e mostra-se desajeitada. Logo estará sozinha em um canto, ocupada em qualquer jogo solitário, triste consigo e com os amigos, a quem não tardará a acusá-los de serem maus.
É muito cômodo dizer que a timidez se deve ao temperamento, mas talvez deva ser atribuída ao ambiente familiar porque os pais e os irmãos mais velhos são fechados ou excessivamente passivos. Outro caso é o da família que se fecha em si mesma e não abre suas portas aos amigos, e retem a criança em seu âmbito, sem prepará-la para as relações da vida escolar e social. Em famílias fechadas, a criança é desinibida apenas com a mãe, pai e avós, mas ao não conviver com outras pessoas fica travada na escola diante de colegas de sua idade e professoras. Deve-se dar às crianças a oportunidade de conviverem com outras pessoas desde cedo. Há também uma situação inversa, que é a da mãe dinâmica e operativa que paralisa a ação do filho ou filha porque seu ritmo de vida é excessivamente rápido e a criança não chega aos seus calcanhares, refugiando-se numa timidez inconsciente.
Nos casos acima descritos torna-se necessário uma conversa em família para diagnosticar o que pode melhorar no ambiente da casa, a fim de proporcionar a cada membro possibilidades de desenvolvimento. Algumas vezes ocorre que a família troca o local de residência, ou vai a uma colônia de férias ou porque mudou o ambiente da casa devido a chegada de um irmãozinho, e a criança tem dificuldade de adaptação. Deve-se preparar e encorajar a criança antecipadamente para aceitar uma mudança.
Há crianças que só se sentem confortáveis com outras menores do que ela. Em tais casos, deve-se proporcionar um ambiente com crianças da mesma idade e dar tempo para a criação das novas amizades, sem fazer discursos sobre a necessidade de ter amigos. Os tímidos muitas vezes são crianças inteligentes, observadoras. É preciso diminuir as oportunidades de isolamento, e proporcionar os meios para se exteriorizarem, tal como o garoto tímido que passou a fazer parte de um grupo de crianças que faziam ginásticas, e retornava para casa descontraído, confiante, pois o dispêndio de energias físicas tornava-o mais equilibrado, conseguia dominar melhor seus gestos e sentir-se menos desajeitado.
Uma menina gostava de se exprimir através do desenho e encontrou nele mais uma ocasião para conviver com as amigas de sua idade. Ao admirar seus desenhos, pouco a pouco ela foi adquirindo confiança em si. O que não se pode fazer é chamar a atenção para a timidez da criança, principalmente diante de outros, pois isso reforça mais a atitude reservada. Quanto se chama a atenção da criança para as suas singularidades, mais ela se convencerá de que toda a gente tem os olhos fixos nela para a metê-la em ridículo. O que temos de fazer é esquecer suas maneiras acanhadas, e fomentar pouco a pouco oportunidades de desinibição.
Dizer a uma criança que é tímida ou menos inteligente do que outra, ou comparar qualquer imperfeição, enraíza nela a convicção de sua inferioridade. Em determinada família, uma menina de sete anos, um pouco medrosa, era sempre convidada a se espelhar no irmão de seis anos, tido como desembaraçado, atirado. Com isso, a criança, que tinha muitas outras virtudes, sentia não ter a confiança da mãe, que apenas focava-se no irmão, que era o que menos necessitava de apoio.
É preciso ajudar a criança tímidas a encontrar o seu lugar. Em famílias onde são sempre as mesmas crianças que se antecipam a contar as coisas, acabam sendo as que mais recebem a atenção de todos, pois se exprimem de maneira divertida; e sobra para o tímido só um interesse de fachada, que o faz pensar que não conta para nada. É importante que o tímido se sinta útil, acolhido, amado e que tenha o seu lugar com responsabilidades no lar para que triunfem nelas. Uma menina de seis anos tem receio das refeições com pessoas estranhas em casa, pois ao falar algo sem maior sentido ralham com ela. A mãe, então, mudou a estratégia e encarregou-a de passar o pão, e estar atenta para que não nada falte aos convidados. Ao desempenhar bem esse papel, saiu de si ao deixar de se pôr em evidência.
Há o costume de dizer que a timidez é uma atitude de orgulho, de não querer ficar mal diante dos demais. Trata-se de um juízo apressado que desconhece as desvantagens que a timidez traz ao desenvolvimento harmonioso da personalidade, e que faz sofrer muito o tímido. Todos recebemos talentos de Deus, e seria uma pena não incentivar os filhos tímidos a servir-se das qualidades ocultas que possui, a fim de fazê-las render e dar segurança à criança. Ter fé nas possibilidades dos filhos para que eles se desenvolvam.
2 – A criança molengona
Há crianças que andam devagar, vestem-se, deitam-se e se despertam vagarosamente. É preciso compreender esse ritmo lento, que as fazem levar mais tempo para sentir, perceber e compreender. Costumam ser inteligentes e profundas. Convém respeitar-lhes a cadência e não perder a paciência, mas ajudá-las com calma e respeito a que consigam dominar melhor seus movimentos, pondo um pouco mais de ritmo. Outras crianças são excessivamente minuciosas, meticulosas, e por isso demoram mais tempo que o necessário para fazer as coisas, pois têm falta de confiança em si mesmas e querem as coisas mais perfeitas que o necessário, a fim de receberam a aprovação dos adultos. Neste caso, é preciso ajudá-las a compreender que o perfeccionismo pode se tornar algo mau e levar a manias do tipo “quem mexeu no meu lápis, pois estava com a ponta virada para este lado da mesa?”; e depois, porque não se deve perder mais tempo que o necessário para cada coisa.
Outras crianças revelam muito pouco interesse por atividades importantes, e não têm verdadeiro entusiasmo por ajudar nas tarefas do lar, nem se deixam arrebatar pela leitura de contos ou jogos que puxem mais pela cabeça. Então, é preciso encontrar uma maneira de as contagiar, de acender nelas uma chama interior que as motive ao mostrar o valor que tem colaborar para que o lar seja acolhedor, ordenado e grato a todos, dever esse que cabe a cada membro da família, inclusive aos filhos. Quanto ao hábito da leitura, sugerimos aos pais munirem-se de bons argumentos para ajudar a criança a descobrir um mudo novo, cheio de aventuras e mistério, que os bons contos possuem (para isso, sugerimos a leitura do boletim “Menos telas digitais e mais livros”).
Outros meios que podem ajudar a criança a se entusiasmar por algo e passar a ser mais ativa são os trabalhos manuais, jogos, exercícios físicos. Foi um sucesso a iniciativa de uma família que sugeriu à criança, que parecia ter pouca iniciativa, para que criasse uma horta na varanda do apartamento, feita com garras plásticas cortadas ao meio e fixadas numa tábua encostada na parede, deixando a parte do gargalo com pequenas pedras para escoar a água e reter a terra. A criança buscou as sementes, leu sobre o assunto na internet e ficou maravilhada ao ver sua horta crescer e a família utilizar as verduras nas refeições.
As crianças com ritmo lento têm necessidade de que as ajudem de modo discreto para não as humilhar. Muitas não se acostumam com a vida tumultuosa e apressada que os dias atuais impõem. Depositar confiança nelas, compreender seu ritmo e sem prejudicá-las, levá-las a que ajam em melhor compasso com alegria e otimismo ao transformar o esforço por ser mais ativa em mais um jogo ou brincadeira, e proporcionar a elas responsabilidades que possam dar conta.
3 – Criança que diz palavrões
Algumas crianças dão a impressão de sentir prazer em repetir palavras grosseiras que chamam a atenção sobre elas e não deixam de espantar as pessoas que as rodeiam. Quando são muito pequenas, podem repetir palavras que não compreendem o significado, mas repetem-nas porque parecem curiosas e as pessoas riem. Bem, em primeiro lugar não dar demasiada importância e não levar isso a sério demais. Algumas medidas devem ser tomadas: não rir e, sem desmaios, mostrar certo desagrado, pois o subconsciente da criança a lembrará que sua ação não agradou e não animará a repetir o feito (o subconsciente leva a repetir ações cujo resultado trazem agrado à própria sensibilidade).
Mostrar-se severo quando a palavra grosseira foi dirigida a outra pessoa com a intenção de a magoar ou ferir. Neste caso, o que está em causa é a maldade. Não é raro que as crianças repitam essas palavras para se afirmar ou para fazer rir. Trata-se de combater o aspecto da grosseria com calma, mas decididamente. Aproveitar para dizer que o que foi dito é uma descortesia e não tem graça alguma. Depois, é preciso proibir com firmeza a que não repitam o dito, mas sem levar para o lado do trágico. O essencial é que os adultos não se ponham a rir. As grosserias podem vir à boca em momentos de cólera da criança, mas nesse caso o que está em causa é a cólera, e não uma espontaneidade descontrola e inoportuna. No caso de dizer asneiras porque está encolerizada, a melhor tática consiste em isolar a criança e dizer a ela para voltar ao convívio dos demais quando estiver calma.
4 – Criança desembaraçada que diz inconveniências
Se a família admira os gestos e as palavras da criança muito desembaraçada, pode estar tornando-a vaidosa e o centro das atenções ao incitá-la a pavonear-se, facilitando a que chegue dizer indelicadezas ou palavras que possam magoar ou deixar mal as pessoas. A criança que não ter freios na língua e se põe a dizer de bate-pronto tudo o que vê ou que lhe passa pela cabeça, e cuja espontaneidade é descontrola e inoportuna, precisa ser corrigida com frequência para não se tornar desagradável às pessoas. Isso pode ser feito com exemplos, e fazê-la compreender que as pessoas possuem sensibilidades diferentes, e que é preciso respeitar isso. Os pais devem ajudar a criança a ser discreta, delicada, compreensiva e a não comentar diretamente com as pessoas algo que a estranhe (pode perguntar a sós aos pais). Deforma-se o caráter e o temperamento da criança que diz sempre o que pensa para produzir impressão sobre as pessoas, sem medir consequências, tornando-a escrava das impressões imediatas.
Texto extraído, adaptado e completado por Ari Esteves com base no livro “Os defeitos das crianças”, de J. Vimort, Editorial Aster, Lisboa, Portugal.
