Os defeitos das crianças – Parte 3

1Criança que se queixa demais. 2 – Criança que anda sempre no “mundo da lua”. 3 – Pais que oferecem presente de grego

1Criança que se queixa demais

     Talvez haja complacência ou concordância dos pais diante da criança que, escandalizada, veio se queixar de um irmão ou companheiro ao não saber o que pensar acerca da atitude que presenciou, e vêm contá-la para que seja ajudada no julgamento. Neste caso, será bom escutar e depois dizer à criança o que está bem ou mal na ação em si, pois é uma ocasião de ajudar a formação da consciência dela. Porém, deve-se ter o cuidado de não julgar a intenção e nem criticar a outra criança, tendo sempre uma expressão de indulgência e de desculpa para com ela. Não se deve punir uma criança que foi delatada para que seu acusador não ganhe o estranho gosto ou poder de conseguir que os outros sejam castigados. É preciso afastar o vício da queixa e da denúncia e, em outro momento, se for o caso, conversar a sós com a criança denunciada.

     A criança pode ficar chocada com o que viu ou ouviu na escola. Para isso, o princípio é o mesmo: escutar e julgar o fato em si, sem fazer juízo acerca da intenção da outra criança, que pode ter agido por falta de conhecimento ou outra deficiência. Ocorre também o caso do filho mais velho encarregado de cuidar do irmão menor que aborda as dificuldades que encontrou. Neste caso, em vez de agirem os pais, devem instruir o mais velho para que resolva ele mesmo a questão com o pequeno, caso torne a ocorrer. Não aceitar queixas e demonstrar desagrado contra elas ao perceber uma ponta de maldade no desejo de que o outro seja punido. Pode-se pedir ao delator que ajude o irmão a agir de modo correto. Seja como for, nunca se deve castigar ou passar uma descompostura com base no que disseram. Nas discussões entre crianças, como foi dito, se uma delas vem se queixar, os pais devem abster-se de intervir e sugerir que elas mesmas resolvam a questão.

     Quando a criança conta o que a outra fez de mal, no fundo deseja que o adulto resolva a questão. Não se deve aceitar tal encargo e arranjar as coisas de maneira que a própria criança se desvencilhe ou se defenda. Isso nem sempre é possível, mas é preciso ter esse cuidado, pois se a criança se habituar a contar qualquer coisa de ruim que testemunhou na escola – visão sempre parcial −, deve a família encerrar logo assunto e não alimentar falatórios. Com isso, o filho ou filha aprenderá a não mexericar e a não falar mal dos outros. É muito mais interessante que o filho aborde assuntos normais e seja ouvido com atenção.

     Todos sentimos respeito pelos nossos amigos, e gostamos de contar as coisas boas que fizeram, e não as que lhe saíram mal, para não difamá-los. Às vezes são os próprios pais que levam os filhos a fazerem queixas ao dizer a eles: − “Se alguém aborrecer você na sala de aula, vá contar à professora”, ou pior: − “Não leve desaforo para casa”, incentivando a criança a não perdoar ou a responder mal a todos, inclusive aos professores. A maneira da criança não fazer queixas é perceber o que de bom os outros fazem, ou tentar ela mesma resolver suas questões conflituosas.

2 – Criança que anda sempre no “mundo da lua”

     Crianças habitualmente distraídas preocupam seus pais, a ponto de se perguntarem sobre o que a vida reservará a elas se continuarem avoadas. Se são verdadeiramente distraídas, não é culpa delas e não se pode viver a censurá-las ou tratá-las com aspereza, como se quisessem ser distraídas. Deve-se ajudá-las a colocar a cabeça e os sentidos naquilo que fazem.

     Muitas crianças habituaram-se a viver imersas na velocidade das telas digitais, e passam a ver o mundo real como lento, aborrecido e entediante. “Andar na lua” ou em seus sonhos e pensamentos é para elas um refúgio. É preciso ajudá-las a se interessar pelas coisas normais da vida, começando pelo lar ao atribuir a elas tarefas que possam desempenhar, afirmando que é para o benefício de todos. As crianças gostam de ajudar, mas por serem lentas e inicialmente não fazem as coisas com perfeição, e podem não chegar a fazê-las se os pais não têm paciência de ensiná-las uma e outra vez, ficam sem encargos domésticos e, ao se sentirem inúteis e isoladas, refugiam-se em suas coisas ou no mundo da lua.

     Outros modos de trazer a criança de volta a terra, é dedicar tempo para dialogar com ela, ajudá-la a perceber as coisas interessantes que ocorrem no seu entorno, interessar-se pelo que gosta ou faz, depositar confiança em que desempenhará bem determinada tarefa e incentivar a que brinquem com outras crianças, e não isoladamente. Depois, evitar de perguntar a ela quando estiver distraída sobre o que está pensando, pois será indiscreto e de resposta embaraçosa, já que a criança não saberá explicar com exatidão em que parte ou cratera da lua estava: o diálogo para mantê-las com os pés e a cabeça na terra deve iniciar antes de que partam de “viagem”.

     É na vida de todos os dias que se deve estabelecer a ligação entre a criança e o mundo que a cerca, sendo os pais esse elo. Ajudá-la a perceber a beleza de uma flor, a arte têxtil da aranha, o paciente broto da erva que se alça da terra, a dura vida do caramujo que tem a sina de andar com sua casa nas costas, a pombinha na calçada que sempre sede passagem aos homens…. Com isso, ajudará o filho ou filha a não fugir da vida e a encontrar o seu lugar ao não ser vítima do celular, games, programas de televisão ou de outras mídias que o retiram da existência real e o transportam para um mundo inexistente imposto a ele. Os pais devem estimular a criança a utilizar mais a inteligência ao incentivá-la a aprender a descansar criativamente com leituras, quebra-cabeças, xadrez, dama, lego, vídeos culturais previamente programados. Abandonar a criança diante de telas digitais é o caminho mais rápido para tornar preguiçosa a mente dela.

     Outra janela para afastar a criança das telas digitais é a natureza, que deve ser aproveitada pelos pais. Ao correr, pular, pesquisar, subir em árvores, ocultar-se entre arbustos, a criança interage com a natureza e ganha perspicácia. Dar alimentos a aves e peixes e rir das formigas que carregam fardos maiores do que elas próprias, são atitudes contemplativas. A criança aprenderá a ser paciente e a não exigir tudo prontamente ao fixar os olhos no lento arrastar-se do caracol, pois perceberá que tudo na natureza tem seu tempo, tal como o broto da flor que se alça lenta e timidamente da terra. A criança deve deitar-se na grama com seus pais e sentir cócegas sem medo de alergia, e olhar para o céu para encontrar os incríveis desenhos que as nuvens elaboram.

3 – Pais que oferecem presente de grego

     A criança é inexperiente e se constrói a partir da sabedoria de seus pais. Mas é uma pena presenciar pais que agem contrariamente ao que o filho precisa, pois ofertam dádivas que são um prejuízo para ele, tal como a cidade de Tróia que recebeu de presente dos gregos um grande cavalo de madeira ocultando soldados que de noite abriram os portões da cidade para ser invadida pelo exército de Ulisses. Ao invés de ajudar a criança a viver com intensidade as experiências do lar, das brincadeiras com objetos simples, artificializam a vida dela ao presenteá-la com celular ou tablete desde as primeiras idades. Diante de tal atitude pode-se concluir que a oferenda é para eles mesmos, pais, que querem manter a criança entretida (alheada) em telas, a fim de terem um falso sossego, pois em breve terão diante de si um pré-adolescente passivo, inadaptado, pouco criativo, com mente preguiçosa e indolente para estudar e ajudar aos demais. Os pais também necessitam abandonar as telas e frear suas correrias para “gastar” tempo com a família, dialogar e fazerem planos juntos, sejam passeios, encargos no lar, jogos em que toda a família participa. Muitas vezes as crianças “andam na lua” para suprir a falta de atenção dos pais.

    Continuaremos com o tema “Os defeitos das crianças”, tratando no próximo boletim da criança tímida ou fechada e da molengona.

Texto extraído, adaptado e completado por Ari Esteves com base no livro “Os defeitos das crianças”, de J. Vimort, Editorial Aster, Lisboa, Portugal.